{"id":3670,"date":"2024-04-30T15:19:18","date_gmt":"2024-04-30T15:19:18","guid":{"rendered":"https:\/\/omeucaminho.pt\/?page_id=3670"},"modified":"2024-08-30T17:43:49","modified_gmt":"2024-08-30T17:43:49","slug":"noticias-geral","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/omeucaminho.pt\/?page_id=3670","title":{"rendered":"Not\u00edcias Geral"},"content":{"rendered":"\t\t<div data-elementor-type=\"wp-page\" data-elementor-id=\"3670\" class=\"elementor elementor-3670\" data-elementor-post-type=\"page\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-1a6bf47 e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-id=\"1a6bf47\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\" data-settings=\"{&quot;background_background&quot;:&quot;classic&quot;}\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2787ec7 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"2787ec7\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Justi\u00e7a e Direitos<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-96f544b e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-id=\"96f544b\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-78e9080 elementor-widget elementor-widget-spacer\" data-id=\"78e9080\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"spacer.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t<div class=\"elementor-spacer\">\n\t\t\t<div class=\"elementor-spacer-inner\"><\/div>\n\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-10491bf elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"10491bf\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Devemos denunciar, sempre os abusos infligidos aos nossos velhinhos e aos mais vulner\u00e1veis.<br \/>Sem den\u00fancia, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a.<br \/>Levante a voz, por aqueles que n\u00e3o podem falar.<br \/>Denuncie!<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-fd13296 e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-id=\"fd13296\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div 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Penal: qualquer forma de agress\u00e3o f\u00edsica (espancamentos, golpes, queimaduras, fracturas, administra\u00e7\u00e3o abusiva de f\u00e1rmacos ou t\u00f3xicos, rela\u00e7\u00f5es sexuais for\u00e7adas), que se reconduzem \u00e0 modalidade maus tratos f\u00edsicos;<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-adfe057 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"adfe057\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-adfe057\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">os maus-tratos psicol\u00f3gicos ou emocionais, que se materializam em condutas que causam dano psicol\u00f3gico, como manipula\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, humilha\u00e7\u00f5es, chantagem afectiva, desprezo ou priva\u00e7\u00e3o do poder de decis\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o do afecto, isolamento e marginaliza\u00e7\u00e3o;<br \/>a neglig\u00eancia traduzida em n\u00e3o satisfazer as necessidades b\u00e1sicas (nega\u00e7\u00e3o de alimentos, cuidados higi\u00e9nicos, habita\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e cuidados m\u00e9dicos) que se reconduz a tratamento cruel, assim como condutas de abuso econ\u00f3mico, como sejam, impedir o uso e controlo do pr\u00f3prio dinheiro, explora\u00e7\u00e3o financeira e chantagem econ\u00f3mica, ou permitir a exposi\u00e7\u00e3o incontrolada a formas de autoneglig\u00eancia resultantes da incapacidade de um indiv\u00edduo desempenhar tarefas de cuidado consigo pr\u00f3prio indispens\u00e1veis \u00e0 sua sobreviv\u00eancia e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades essenciais do quotidiano.<br \/>Este crime pode ser cometido por omiss\u00e3o impr\u00f3pria, sempre que o evento antijur\u00eddico pertinente \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do crime, segundo a sua descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica, resultar do incumprimento do dever jur\u00eddico de evitar esse resultado e este depende da exist\u00eancia de um espec\u00edfico dever emergente da lei, de contrato, ou de uma espec\u00edfica rela\u00e7\u00e3o de facto que o obrigue a agir, para evitar o resultado, pois s\u00f3 assim haver\u00e1 equival\u00eancia entre o desvalor da Ac\u00e3o e o desvalor da omiss\u00e3o que constitui o fundamento da punibilidade do omitente.<br \/>\u00c9 o que acontece, quando idosos s\u00e3o acolhidos em institui\u00e7\u00f5es ou lares de acolhimento e de assist\u00eancia, atrav\u00e9s de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os remunerado, pois esta rela\u00e7\u00e3o negocial transfere para o propriet\u00e1rio e para a dire\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e os cuidadores ao servi\u00e7o da institui\u00e7\u00e3o ou do lar, o dever de garantes da sa\u00fade f\u00edsica, mental, ps\u00edquica, do bem-estar emocional, da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais b\u00e1sicas inerentes \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, como a alimenta\u00e7\u00e3o, a higiene, a sa\u00fade, a toma de medica\u00e7\u00e3o adequada, a assist\u00eancia m\u00e9dica e hospitalar que se mostrarem necess\u00e1rias, al\u00e9m de outros deveres de cuidado e assist\u00eancia, com aqueles que, pela sua idade avan\u00e7ada, s\u00e3o mais vulner\u00e1veis e est\u00e3o dependentes de terceiros.<br \/>Comete o crime de maus tratos a idosos, a arguida que sendo propriet\u00e1ria e em simult\u00e2neo, administradora de um lar e prestadora de cuidados aos idosos que acolheu, por inac\u00e7\u00e3o e desinteresse, deixa de providenciar \u00e0 v\u00edtima a alimenta\u00e7\u00e3o e a assist\u00eancia m\u00e9dica e de enfermagem adequadas ao estado cl\u00ednico da mesma, a ponto de a deixar em estado de desnutri\u00e7\u00e3o e desidrata\u00e7\u00e3o, provocando-lhe, ainda, o agravamento de uma \u00falcera de press\u00e3o, na zona sacro, de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido e com um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam os Ju\u00edzes, na 3\u00aa Sec\u00e7\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa:<\/p><p style=\"text-align: justify\">I \u2013 RELAT\u00d3RIO<br \/>Por senten\u00e7a proferida em 30 de Setembro de 2021, no processo comum singular n\u00ba 1549\/19.7T9SNT do Ju\u00edzo Local Criminal de Sintra, Juiz 1 do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste, a arguida SMGA_____ foi absolvida do crime de maus tratos, p. e p. pelo artigo 152\u00b0-A n\u00b0 1 do C\u00f3digo Penal.<br \/>O M\u00ba. P\u00ba. interp\u00f4s recurso da senten\u00e7a, tendo formulado, para o efeito, as seguintes conclus\u00f5es:<br \/>1. O Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o pode conformar-se com a decis\u00e3o do Tribunal a quo, pois face aos elementos de prova existentes nos autos, a decis\u00e3o proferida deveria ter sido no sentido de condena\u00e7\u00e3o da arguida pela pr\u00e1tica do referido il\u00edcito, e n\u00e3o da sua absolvi\u00e7\u00e3o.<br \/>2. O Minist\u00e9rio Publico entende ter sido incorretamente considerados provados os pontos 2) e 21) dos factos provados, pelos referidos factos n\u00e3o se extra\u00edrem da prova produzida nos autos.\u00a0<br \/>3. O Minist\u00e9rio Publico entende ter sido incorretamente julgada e dada como n\u00e3o provada a factualidade constante das al\u00edneas a), c), d), e), f), h), i), j) e l) dos factos n\u00e3o provados, j\u00e1 que os mesmos resultaram de toda a prova produzida nos autos.<br \/>4. No dia 24 de agosto de 2018 a ofendida apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos, estava apir\u00e9tica e algaliada com ch14. N a verdade, da an\u00e1lise dos documentos juntos aos autos n\u00e3o subsistem d\u00favidas de que a ofendida MAR______ , deu entrada no Balc\u00e3o de Urg\u00eancia Geral a 24-08-2018, pelas 19:15h e que, poucas horas depois, \u00e0s 01:44h, apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos, estava apir\u00e9tica e foi algaliada com ch14, \u00e0s 02:08h, conforme observa\u00e7\u00e3o inserida no registo de urg\u00eancia.<br \/>5. Resultou demonstrado, em audi\u00eancia de julgamento, mormente dos depoimentos da filha e da nora da ofendida, e Mar\u2026, respetivamente, que a ofendida apresentava n\u00f3doas negras na zona inferior das pernas, designadamente nos calcanhares.<br \/>6. Resulta da diversa documenta\u00e7\u00e3o clinica relativa \u00e0s idas da ofendida ao hospital, que a mesma se encontrava desnutrida, apresentando a \u201c(...) pele e mucosas pouco coradas e desidratadas\" bem como um \u201cdeficiente estado geral e nutricional\". Tal considera\u00e7\u00e3o resulta n\u00e3o s\u00f3 dos documentos juntos aos autos, como tamb\u00e9m dos v\u00e1rios depoimentos produzidos em audi\u00eancia, inclusive da arguida SMGA_____ , respons\u00e1vel pelo lar e pela alimenta\u00e7\u00e3o dos utentes, a quem cabia zelar pelos seus cuidados b\u00e1sicos, dada a sua idade avan\u00e7ada e o seu estado de sa\u00fade muito debilitado.<br \/>7. Quando a arguida aceitou a admiss\u00e3o da ofendida naquele lar, tinha conhecimento do estado cl\u00ednico da ofendida e sabia que esta necessitava da administra\u00e7\u00e3o de diversos medicamentos, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem e de higiene, bem como alimenta\u00e7\u00e3o da ofendida. Tal considera\u00e7\u00e3o resulta da prova realizada em audi\u00eancia de julgamento, mormente do depoimento de ---___-. Na realidade, contando a ofendida MAR______ , com cerca de 80 anos de idade \u00e0 data da sua integra\u00e7\u00e3o no lar, \u00e9 evidente que a arguida n\u00e3o podia deixar de saber que tinha na sua presen\u00e7a pessoa idosa e, nessa medida, extremamente fr\u00e1gil.<br \/>8. \u00c9 contraintuitivo afirmar que sendo a arguida respons\u00e1vel pelo lar (facto provado 5), que tinha como fun\u00e7\u00f5es, entre outras, administrar a medica\u00e7\u00e3o prescrita aos utentes, mudar pensos, alimentar e informar os m\u00e9dicos de qualquer altera\u00e7\u00e3o dos estado de sa\u00fade dos utentes (facto provado 15), n\u00e3o tivesse conhecimento do estado cl\u00ednico da ofendida e que n\u00e3o soubesse que esta necessitava da administra\u00e7\u00e3o de diversos medicamentos, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem e de higiene, bem como de alimenta\u00e7\u00e3o.<br \/>9. A arguida, como respons\u00e1vel do lar, conhecendo a situa\u00e7\u00e3o da ofendida, n\u00e3o lhe prestou os cuidados devidos, na medida em que n\u00e3o adequou a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da ofendida deixando-a chegar a um ponto de \u201cdeficiente estado geral e nutricional\u201d e n\u00e3o chamou m\u00e9dico\/enfermeiro para mudar o penso da \u00falcera, nem recorreu ao m\u00e9dico que prestava servi\u00e7os ocasionais ao lar para pedir que observasse a ofendida ou que a aconselhasse quanto ao procedimento a adotar, optando, ao inv\u00e9s, por esperar por dois a tr\u00eas meses antes de lhe proporcionar uma observa\u00e7\u00e3o por m\u00e9dico ou enfermeiro, deixando assim agravar aquele ferimento.<br \/>10. A arguida agiu, ao longo de meses, indiferente aos reais cuidados que a ofendida necessitava e ao constante degradar do seu estado de sa\u00fade que, tendo sido percet\u00edvel para as familiares que a visitavam, n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel que o n\u00e3o fosse para a arguida.<br \/>11. A testemunha AM____ , enfermeira que trocou o penso \u00e0 falecida no domicilio aquando do seu regresso do hospital, descreveu o estado em que a encontrou, fazendo alus\u00e3o um quadro cl\u00ednico muito grave, e \u201cque quando fez o penso encontrou ferida n\u00e3o compat\u00edvel com bons cuidados de sa\u00fade\u201d e ainda que o estado da \u00falcera \u201cera vergonhoso\u201d e que \u201cas ulceras de press\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o um dado adquirido na geriatria se os profissionais de sa\u00fade souberem o que andam a fazer\u201d.\u00a0<br \/>12. Foi preciso deixar passar dois a tr\u00eas meses e chegar ao ponto de apresentar \u201c(...) uma \u00falcera de press\u00e3o de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido, apresentava um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade\u201d (ponto 7 dos factos provados), para, finalmente, a arguida considerar que a ofendida j\u00e1 era merecedora de ser observada por um m\u00e9dico.<br \/>13. Ao recusar a prestar cuidados de sa\u00fade \u00e0 ofendida, a arguida sabia que punha em perigo a sa\u00fade, a integridade f\u00edsica e mesmo a vida da ofendida, bem como sabia que causava nesta desespero, intranquilidade e receio pela sua seguran\u00e7a e bem estar.<br \/>14. A arguida sabia que a aus\u00eancia de cuidados de sa\u00fade adequados e atempados era suscet\u00edvel de ofender gravemente a sa\u00fade da ofendida, mas conformou-se com essa possibilidade e prosseguiu com a sua conduta, n\u00e3o providenciando pelos cuidados necess\u00e1rios \u00e0 ofendida.<br \/>15. A arguida sabia que n\u00e3o possu\u00eda qualquer forma\u00e7\u00e3o nem conhecimentos adequados e ainda assim entendeu que conseguia resolver a situa\u00e7\u00e3o e curar a ferida que a ofendida apresentava sem recurso a ajuda m\u00e9dica.<br \/>16. Tal op\u00e7\u00e3o da arguida, recusando-se a prestar \u00e0 ofendida a assist\u00eancia que estava perfeitamente apta prestar, independentemente dos custos a ela inerentes atenta a posi\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, \u00e9 demonstrativa desrespeito pela condi\u00e7\u00e3o e dignidade humana da ofendida. Porque podia t\u00ea-lo feito e n\u00e3o quis.<br \/>17. A arguida tinha plena consci\u00eancia que colocava em risco a sa\u00fade, a integridade f\u00edsica e a vida da ofendida ao proceder da maneira como procedeu e escolheu faz\u00ea-lo, mostrando desrespeito pela ofendida, que se encontrava aos seus cuidados, escolhendo conscientemente n\u00e3o lhe prestar a assist\u00eancia que podia e devia prestar, a coberto de \u201c(...) n\u00e3o querer preocupar a fam\u00edlia\".\u00a0<br \/>18. A falta de cuidados adequados e atempados, obrigou a ofendida a passar por um doloroso evoluir da \u00falcera de press\u00e3o.<br \/>19. As declara\u00e7\u00f5es da arguida ao tribunal n\u00e3o deixam d\u00favidas de que a mesma sabia que a sua conduta era punida e proibida por lei. A decis\u00e3o de omitir a real condi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade da ofendida \u00e9 sintom\u00e1tica da consci\u00eancia que a arguida tinha da censurabilidade da sua conduta.<br \/>20. A arguida adotou perante o tribunal um constante discurso de desculpabiliza\u00e7\u00e3o e uma postura de vitimiza\u00e7\u00e3o.<br \/>21. Apesar de saber que a omiss\u00e3o de cuidados a algu\u00e9m que estava aos seus cuidados era proibida e punida por lei, a arguida conformou-se com a omiss\u00e3o de cuidados atempados e adequados e com as consequ\u00eancias poss\u00edveis resultantes dessa omiss\u00e3o.<br \/>22. Sendo o crime de maus tratos um crime de resultado, o mesmo pode ser cometido por a\u00e7\u00e3o ou por omiss\u00e3o.<br \/>23. Resultando demonstrado, que a arguida n\u00e3o providenciou pelos cuidados atempados e adequados de que carecia a ofendida, (sendo que, quanto a estes cumpre real\u00e7ar que, ao contr\u00e1rio do expendido na douta senten\u00e7a em crise, n\u00e3o era necess\u00e1rio que fosse demonstrado nos autos que a ofendida foi sujeita, por parte da arguida, a um qualquer tratamento desumano ou cruel - como de facto n\u00e3o resulta dos autos - antes bastando, para o preenchimento do tipo, o n\u00e3o assegurar e o n\u00e3o providenciar pelos cuidados m\u00e9dicos de que a mesma patentemente necessitava), \u00e9 por demais evidente que a arguida incorreu na pr\u00e1tica do referido il\u00edcito.<br \/>24. O bem-estar e a sa\u00fade (e a vida) da ofendida foram lesados pelas condutas omissivas da arguida, as quais revestem acentuada gravidade e especial censurabilidade, considerando o lapso temporal por que perduraram e as consequ\u00eancias que tiveram, tendo posto inequivocamente em causa o tratamento digno de que toda e qualquer pessoa \u00e9 merecedora, ofendendo, por isso, tamb\u00e9m a sua dignidade pessoal.<br \/>25. \u00c9 manifesto que a arguida incorreu na pr\u00e1tica, em autoria material, do crime de maus tratos contra MAR______ , que se encontrava particularmente indefesa em face da sua idade e do seu estado de sa\u00fade, il\u00edcito que lhe vinha imputado na acusa\u00e7\u00e3o p\u00fablica e que \u00e9 punido nos termos do disposto no artigo 152\u00b0-A, n\u00b0 1, al\u00ednea a) do C\u00f3digo Penal e pelo qual a mesma deve ser, em conformidade, condenada.<br \/>26. Face ao exposto, imp\u00f5e-se a revoga\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a recorrida e a sua substitui\u00e7\u00e3o por outra que condene a arguida pela pr\u00e1tica do crime que lhe vem imputado, previsto e pun\u00edvel pelo artigo 152\u00b0-A n\u00b0 1, al\u00ednea a) do C\u00f3digo Penal.<br \/>Termos em que dever\u00e1 ser concedido provimento ao presente recurso e, consequentemente, dever\u00e1 a douta senten\u00e7a ser revogada e substitu\u00edda por outra que se coadune com a pretens\u00e3o supra exposta.\u00a0<br \/>Admitido o recurso, a arguida apresentou resposta, na qual concluiu o seguinte:\u00a0<br \/>A. Alega o Recorrente que o Tribunal a quo n\u00e3o valorou, nem ponderou devidamente a prova produzida em julgamento, sendo que:<br \/>i. os factos descritos sobre o ponto 2) e ponto 21) n\u00e3o poderiam ter sido dados provados, nos termos em que o foram, por n\u00e3o terem suporte probat\u00f3rio e at\u00e9 por existir prova em contr\u00e1rio; ii. Que os pontos a), c), d), e), f), h), i), j) e l) dos factos n\u00e3o provados, deveriam ter sido dados como provados;<br \/>B. No que respeita aos pontos dados como provados 2) e 21), a recorrida concorda com a motiva\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico.<br \/>C. No demais, a Recorrida concorda, com a douta senten\u00e7a proferida nos autos, uma vez que est\u00e1 de acordo com a prova produzida, tendo sido realizada uma adequada aprecia\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, de harmonia com os princ\u00edpios que norteiam a valora\u00e7\u00e3o da prova, nomeadamente princ\u00edpios da imedia\u00e7\u00e3o e livre aprecia\u00e7\u00e3o, tendo sido feita correta aplica\u00e7\u00e3o do Direito ao caso concreto, estando devidamente fundamentada a decis\u00e3o, pelo que se dever\u00e1 manter na ordem jur\u00eddica.<br \/>Sen\u00e3o vejamos,<br \/>D. Entende o Recorrente que a al. a) dos factos n\u00e3o provados deveria ter sido considerado provado com base da documenta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica dos autos.<br \/>E. Ora, n\u00e3o poderia o Tribunal considerar como provado que a ofendida no dia 24 de Agosto de 2018, quando deu entrada nas urg\u00eancias j\u00e1 apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos e foi algaliada, quando a prova \u00e9 em sentido oposto: a ofendida quando deu entrada nas urg\u00eancias e mesmo na primeira hora do dia seguinte reagia \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o (e n\u00e3o apenas a est\u00edmulos dolorosos) e s\u00f3 foi algaliada j\u00e1 depois, no dia 25 pelas 02.08 (n\u00e3o no dia 24 de Agosto), na sequ\u00eancia de n\u00e3o ter urinado cfr. registo da observa\u00e7\u00e3o das 01.24 do dia 25\/08\/2018, de fls 87 e ss.<br \/>F. Portanto, deve manter-se como n\u00e3o provado que no dia 24\/08\/2018 a ofendida apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos, estava apir\u00e9tica e algaliada com ch14. Adiante,<br \/>1. Bem andou o Tribunal ao dar n\u00e3o como provada a al. c), porquanto n\u00e3o poderia o Tribunal valorar o depoimento de testemunhas contra a prova resultante da documenta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica de fls 87 e ss., referente ao primeiro internamento da ofendida, em que ap\u00f3s avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, n\u00e3o foram verificadas quaisquer manchas nas pernas ou pulsos da ofendida.<br \/>2. Acresce que, contrariamente \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do Recorrente, nunca as testemunhas se referiram a n\u00f3doas negras nos pulsos ou nas pernas, nem a qualquer mancha nos pulsos: a testemunha (passagem 8.30 do depoimento) apenas referiu ter visto \u201cmancha roxa\u201d na zona dos calcanhares, e a testemunha Maria \u2026referiu n\u00e3o se tratarem de n\u00f3doas negras (passagem de 17.24 a 17.30).<br \/>G. No que respeita \u00e0 al. d), entende o Recorrente que o Tribunal a quo deveria ter dado como provado que a ofendida se encontrava desnutrida, por falta de hidrata\u00e7\u00e3o - o que certamente resulta de lapso conceptual, pois a desnutri\u00e7\u00e3o deve-se \u00e0 falta de nutrientes e n\u00e3o \u00e0 falta de \u00e1gua.<br \/>H. Em qualquer caso, tratando-se a desidrata\u00e7\u00e3o de um problema m\u00e9dico, julgamos que n\u00e3o \u00e9 o suficiente ler-se que a pele est\u00e1 desidratada para se concluir necessariamente que a pessoa estava desidratada, pois qualquer diagn\u00f3stico deve ser feito pelo m\u00e9dico, com a an\u00e1lise do historial m\u00e9dico e quadro cl\u00ednico, ainda para mais atendendo ao quadro cl\u00ednico complexo da ofendida, a que acresce o facto de a desidrata\u00e7\u00e3o da pele se pode dever a efeitos externos, que nada t\u00eam a ver com a ingest\u00e3o de \u00e1gua (por exemplo, a exposi\u00e7\u00e3o a sistemas de aquecimento, ar condicionado, temperaturas elevadas no ver\u00e3o, outras patologias, diarreia, etc.).<br \/>Vejamos,<br \/>I. A arguida explicou nas passagens 41.00 e seguintes do seu depoimento, que voltou a chamar o INEM para que a ofendida fosse transportada \u00e0s urg\u00eancias no dia 28\/08\/2018, tendo igualmente relatado que nessa ocasi\u00e3o se encontrava desidratada devido a um epis\u00f3dio de diarreia; no di\u00e1rio cl\u00ednico, de 29\/08\/2018, pelas 00.06, a fls 82, o m\u00e9dico constata a desidrata\u00e7\u00e3o da pele e mucosas \u201cpor falta de colabora\u00e7\u00e3o n\u00e3o percebo se doente se encontra orientada ou n\u00e3o\u201d, e no di\u00e1rio cl\u00ednico de fls 75 referente a 11\/09\/2018, pelas 21,58, quando a ofendida j\u00e1 se encontrava aos cuidados dos familiares (visto que ap\u00f3s a alta hospital do dia 7\/09\/2018 j\u00e1 n\u00e3o mais regressou ao lar, de acordo com as declara\u00e7\u00f5es da filha, a testemunha A\u2026, nos minutos 12:50 a 13.00), o hospital constatou que ofendida tinha a pele e mucosas desidratadas.<br \/>J. Portanto, ponderava a informa\u00e7\u00e3o clinica, e considerando ainda que ap\u00f3s a alta hospitalar onde recebeu cuidados de hidrata\u00e7\u00e3o e enquanto se encontrava aos cuidados dos seus familiares, a ofendida tamb\u00e9m apresentava a pele desidratada, n\u00e3o podemos concluir que a desidrata\u00e7\u00e3o da ofendida se devia \u00e0 falta de ingest\u00e3o de \u00e1gua no lar ou \u00e0 falta de cuidados em geral, por outro lado, a desidrata\u00e7\u00e3o constatada no dia 28 foi explicada pela arguida com o epis\u00f3dio de diarreia da ofendida que entre outros, motivou novamente a sua desloca\u00e7\u00e3o \u00e0s urg\u00eancias.<br \/>K. Entende tamb\u00e9m o Recorrente que a al. d) deveria ter sido dado como provada, por se ter observado no dia 28\/08\/2018, pelas 17.20, que a ofendida apresentava um deficiente estado nutricional.<br \/>L. A desnutri\u00e7\u00e3o caracteriza-se pela falta de um ou mais nutrientes e pode ter muitas causas, que n\u00e3o passam apenas pela alimenta\u00e7\u00e3o, pode dever-se a um dist\u00farbio alimentar, ou ao facto de a pessoa estar doente e ter uma necessidade cal\u00f3rica excessivamente elevada ou n\u00e3o ser poss\u00edvel a sua alimenta\u00e7\u00e3o em termos normais.<br \/>M. Ali\u00e1s, \u00e9 a pr\u00f3pria filha da ofendida a testemunha que explica, nas passagens 13.34 a 13.40, que o m\u00e9dico que estava a tratar a ofendida havia explicado que o processo de regenera\u00e7\u00e3o da ferida (escara) implicava o consumo pelo organismo de todos nutrientes do corpo.<br \/>N. Ora, se verificarmos a informa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica: o hospital constatou o estado nutricional no dia 28 de Agosto, isto \u00e9, dois dias depois de a ofendida ter tido alta do Hospital, para tratar da escara, sendo certo que na primeira admiss\u00e3o n\u00e3o verificou nada de anormal, a respeito do estado nutricional da ofendida, tamb\u00e9m n\u00e3o encontramos na documenta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica qualquer explica\u00e7\u00e3o da causa de tal estado no dia 28, mas considerando a explica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica fornecida pela filha da ofendida, o estado nutricional poderia dever-se ao processo de cura da escara.<br \/>O. Pois, no que respeita \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, a arguida SMGA_____ explicou ao Tribunal, como era feita a alimenta\u00e7\u00e3o no lar, nas passagens 20.58 at\u00e9 22.04 da grava\u00e7\u00e3o, esclarecendo que tinha uma empresa de catering que fornecia os almo\u00e7os e jantares, com sobremesa e que as outras refei\u00e7\u00f5es (pequeno almo\u00e7o, lanche a meio da manh\u00e3, lanche da tarde e ceia) eram preparados no lar, e no caso especifico da ofendida, relatou ao Tribunal [nas passagens 22.05 at\u00e9 23.04 da grava\u00e7\u00e3o], que a mesma se alimentava sozinha e que quando deixou de comer sozinha, era alimentada pela arguida e pelas funcion\u00e1rias do lar.<br \/>P. Em inst\u00e2ncias, a arguida referiu ainda que a ofendida se alimentava bem, e que na primeira desloca\u00e7\u00e3o ao hospital n\u00e3o havia sido referenciado qualquer problema de nutri\u00e7\u00e3o e que se esse problema foi verificado, no segundo internamento, n\u00e3o sabia qual era a raz\u00e3o, mas que n\u00e3o se devia \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o [passagens 51.50 a 52.30]<br \/>Q. Tudo ponderado, tendo ainda em considera\u00e7\u00e3o que a testemunha referiu nas passagens 16.26-17.00 do seu depoimento, que o lar tinha boas condi\u00e7\u00f5es, apesar de ter pouco pessoal, e tendo igualmente em conta o princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o da inoc\u00eancia, a prova dos autos n\u00e3o permite concluir, sem margem para d\u00favidas, que a ofendida estava desidratada e desnutrida devido \u00e0 falta de cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o e hidrata\u00e7\u00e3o no lar, e que deveriam ter sido proporcionados pela arguida, ora Recorrida, enquanto respons\u00e1vel pelo lar, tal como pretende efetivamente a Recorrente que fique provado, nomeadamente em articula\u00e7\u00e3o com as al\u00edneas e) e f).<br \/>R. Portanto, muito bem andou o Tribunal a quo ao n\u00e3o ter dado como provada a al. d), desmerecendo qualquer censura ou reparo.<br \/>S. No que respeita \u00e0 al. e), os cuidados que a ofendida necessitava e que est\u00e3o a\u00ed concretizados, n\u00e3o eram diferentes dos cuidados que os outros utentes precisavam, por outro lado, os problemas da ofendida de vis\u00e3o e de mobilidade n\u00e3o tinham qualquer relev\u00e2ncia para o caso, nem para se estabelecer um nexo de causalidade com o agravamento do estado de sa\u00fade ou com a morte da ofendida, pelo que por ser completamente irrelevante, n\u00e3o merece qualquer censura a motiva\u00e7\u00e3o de facto do Tribunal que considerou que esta aliena n\u00e3o deveria integrar o lote dos factos provados, com relevo para a boa decis\u00e3o da causa.<br \/>T. Tamb\u00e9m n\u00e3o se extrai da prova produzida, nomeadamente pelas declara\u00e7\u00f5es da arguida, \u00e0s quais o Tribunal conferiu, e bem, credibilidade, que n\u00e3o tenham sido prestados cuidados adequados para tratar da ferida da ofendida, e que em virtude dessa falta de cuidados o estado inflamat\u00f3rio se tenha agravado, pelo que o Tribunal bem andou ao dar como n\u00e3o provadas as al\u00edneas F), H), I), J) e L).<br \/>U. Quanto \u00e0 quest\u00e3o da alimenta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 ficou alegado supra, que as causas do deficit nutricional n\u00e3o ficaram demonstradas, pelo que n\u00e3o se pode concluir que tenham tido como causa a falta de cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o por parte da arguida, quando existe at\u00e9 prova em contr\u00e1rio.<br \/>V. No que respeita ao penso, ap\u00f3s a alta hospitalar, no dia 26\/08\/2018, a arguida recebeu indica\u00e7\u00e3o para mudar o penso de forma alternada, o que fez para tratar da ofendida e o que j\u00e1 havia realizado para tratar de outros doentes com escaras, ao longo da sua profiss\u00e3o, tendo conseguido tratar sempre.<br \/>W. Ali\u00e1s, j\u00e1 antes do primeiro internamento, era a arguida quem providenciava por fazer os pensos \u00e0 ofendida, para tratamento da ferida, que s\u00f3 no dia 24 de Agosto de 2018, teve a certeza que se tratava de uma \u00falcera de press\u00e3o - foi quando decidiu levar a ofendida ao Hospital.<br \/>X. N\u00e3o nos parece que se possa extrair a ila\u00e7\u00e3o de que a arguida n\u00e3o prestou os cuidados devidos \u00e0 ofendida, quando ficou provado que mudava os pensos, por outro lado tamb\u00e9m n\u00e3o ficou demonstrado que a mudan\u00e7a dos pensos n\u00e3o era bem feita e que se fosse um enfermeiro a realizar, a ferida teria ficado curada.<br \/>Y. Pelo que neste ponto, o recurso deve improceder.<br \/>Z. Aderimos integralmente \u00e0 fundamenta\u00e7\u00e3o do Tribunal a quo, o qual n\u00e3o merece qualquer censura ou reparo, devendo manter-se na ordem jur\u00eddica nos seus exatos termos, com exce\u00e7\u00e3o da factualidade dada como provada nos pontos 2) e 21).<br \/>AA. Face \u00e0 improced\u00eancia quase total do recurso da mat\u00e9ria de facto (dos pontos a),<br \/>c), d), e), f), h), i), j) e l) dos factos n\u00e3o provados), da qual depende necessariamente o recurso sobre a mat\u00e9ria de Direito, mormente dos factos n\u00e3o provados da al. f), fica prejudicado o recurso de Direito, uma vez que mantendo- se a factualidade dada como n\u00e3o provada, n\u00e3o importar\u00e1 qualquer altera\u00e7\u00e3o na decis\u00e3o e fundamenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddicas.<br \/>Nestes termos e nos melhores de Direito, que V. Exas. mui doutamente suprir\u00e3o, deve ser concedido parcial provimento ao recurso, e em consequ\u00eancia deve ser alterada a reda\u00e7\u00e3o dos pontos 2) e 21) da mat\u00e9ria de facto, dados como provados.<br \/>No demais, dever\u00e1 o recurso ser julgado improcedente, mantendo-se os termos da decis\u00e3o recorrida.<br \/>Remetido o processo a este Tribunal, na vista a que se refere o art. 416\u00ba do CPP, o Exmo. Sr. Procurador Geral da Rep\u00fablica Adjunto emitiu parecer, no sentido da proced\u00eancia do recurso, com fundamento nos argumentos de factos e de direito aduzidos no mesmo.<br \/>Cumprido o disposto no art. 417\u00ba n\u00ba 2 do CPP, n\u00e3o houve resposta.<br \/>Colhidos os vistos e realizada a confer\u00eancia prevista nos arts. 418\u00ba e 419\u00ba n\u00ba 3 al. c) do CPP, cumpre, ent\u00e3o, decidir.<br \/>II \u2013 FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O\u00a0<br \/>2.1. DO \u00c2MBITO DO RECURSO E DAS QUEST\u00d5ES A DECIDIR:\u00a0<br \/>De acordo com o preceituado nos arts. 402\u00ba; 403\u00ba e 412\u00ba n\u00ba 1 do CPP, o poder de cogni\u00e7\u00e3o do tribunal de recurso \u00e9 delimitado pelas conclus\u00f5es do recorrente, j\u00e1 que \u00e9 nelas que sintetiza as raz\u00f5es da sua discord\u00e2ncia com a decis\u00e3o recorrida, expostas na motiva\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/>Al\u00e9m destas, o tribunal est\u00e1 obrigado a decidir todas as quest\u00f5es de conhecimento oficioso, como \u00e9 o caso das nulidades insan\u00e1veis que afetem o recorrente e dos v\u00edcios previstos no art. 410\u00ba n\u00ba 2 do CPP, que obstam \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito do recurso, mesmo que este se encontre limitado \u00e0 mat\u00e9ria de direito.<br \/>Umas e outras definem, pois, o objeto do recurso (Germano Marques da Silva, Direito Processual Penal Portugu\u00eas, vol. 3, Universidade Cat\u00f3lica Editora, 2015, p\u00e1g. 335; Simas Santos e Leal-Henriques, Recursos Penais, 8.\u00aa ed., Rei dos Livros, 2011, p\u00e1g.113; Paulo Pinto de Albuquerque, Coment\u00e1rio do CPP, \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica<br \/>Portuguesa e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem, 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o atualizada, Universidade Cat\u00f3lica Editora, 2011, p\u00e1gs. 1059-1061 e Ac\u00f3rd\u00e3o do Plen\u00e1rio das Sec\u00e7\u00f5es do STJ n\u00ba 7\/95 de 19.10.1995, in Di\u00e1rio da Rep\u00fablica, I.\u00aa S\u00e9rie-A, de 28.12.1995).<br \/>Das disposi\u00e7\u00f5es conjugadas dos arts. 368\u00ba e 369\u00ba por remiss\u00e3o do art. 424\u00ba n\u00ba 2, todos do C\u00f3digo do Processo Penal, o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o deve conhecer das quest\u00f5es que constituem objeto do recurso pela seguinte ordem:<br \/>Em primeiro lugar das que obstem ao conhecimento do m\u00e9rito da decis\u00e3o;\u00a0<br \/>Em segundo lugar, das quest\u00f5es referentes ao m\u00e9rito da decis\u00e3o, desde logo, as que se referem \u00e0 mat\u00e9ria de facto, come\u00e7ando pela impugna\u00e7\u00e3o alargada, se deduzida, nos termos do art. 412\u00ba do CPP, a que se seguem os v\u00edcios enumerados no art. 410\u00ba n\u00ba 2 do mesmo diploma;\u00a0 Finalmente, as quest\u00f5es relativas \u00e0 mat\u00e9ria de Direito.\u00a0<br \/>Seguindo esta ordem l\u00f3gica, no caso concreto, as quest\u00f5es a tratar s\u00e3o as seguintes:<br \/>Em primeiro lugar saber se houve erro de julgamento, na fixa\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto e se:<br \/>a. os factos descritos sobre o ponto 2) e ponto 21) n\u00e3o poderiam ter sido dados provados, nos termos em que o foram, por n\u00e3o terem suporte probat\u00f3rio e at\u00e9 por existir prova em contr\u00e1rio;<br \/>b. os pontos a), c), d), e), f), h), i), j) e l) dos factos n\u00e3o provados, deveriam ter sido dados como provados.<br \/>Em segundo lugar se houve erro de direito e, em consequ\u00eancia, se se encontram verificados dos os elementos constitutivos do tipo legal e crime de maus tratos, p. e p. pelo artigo 152\u00b0-A n\u00b0 1 do C\u00f3digo Penal.<br \/>Em caso afirmativo, eventual escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta da pena.<br \/>2.2. DA FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O DE FACTO<br \/>Da senten\u00e7a recorrida consta a seguinte mat\u00e9ria provada e n\u00e3o provada e a forma como o Tribunal a quo fundamentou a mesma (transcri\u00e7\u00e3o parcial):<br \/>1) A ofendida, MAR______ \u00a0tinha 82 anos em Setembro de 2018.<br \/>2) A ofendida integrou o lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento \u201c...\u201d Unipessoal, Lda em data n\u00e3o concretamente apurada.<br \/>3) Aquela institui\u00e7\u00e3o tinha como objeto social a atividade de lar de idosos, apoio geri\u00e1trico, centro de dia, apoio domicili\u00e1rio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos e de enfermagem.<br \/>4) Aquele lar, primeiramente, situava-se na Rua \u2026 , Ramada, mas em 8 de Mar\u00e7o de 2018, mudaram as suas instala\u00e7\u00f5es para a Rua \u2026 , Queluz.<br \/>5) A respons\u00e1vel pelo lar era a arguida, SMGA_____ \u00a0<br \/>6) No dia 25 de Agosto de 2018 a arguida comunicou \u00e0 fam\u00edlia da ofendida que esta se ia deslocar ao Hospital para fazer uma T.A.C., quando, na verdade, a ofendida tinha dado entrada nas urg\u00eancias daquele hospital, pelas 19:15 do dia 24 de Agosto de 2018.<br \/>7) Quando a ofendida deu entrada no Hospital Amadora-Sintra, no dia 24 de Agosto, apresentava-se prostrada, com sa\u00edda de urina com cheiro f\u00e9tido, bem com apresentava uma \u00falcera de press\u00e3o de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido, apresentava um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade.<br \/>8) No entanto, a ofendida apenas saiu daquele hospital no dia 26 de Agosto de 2018, pelas 00:06.<br \/>9) O estado de sa\u00fade da ofendida agravou-se, tendo regressado ao Hospital Doutor Fernando da Fonseca, no dia 28 de Agosto de 2018, pelas 15:53, onde se apurou que a ofendida mantinha uma \u00falcera exsudado seroso e f\u00e9tido e tecido necrosado.<br \/>10) Foi determinado o internamento da ofendida por apresentar prov\u00e1vel infe\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, ulcera de press\u00e3o na regi\u00e3o sagrada e hipernatremia e desidrata\u00e7\u00e3o. Foi determinado o internamento da ofendida<br \/>11) Iniciou-se tratamento, por antibi\u00f3tico, \u00e0 ofendida, por prov\u00e1vel infe\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea da \u00falcera de press\u00e3o sagrada.<br \/>12) \u00c0 data da alta cl\u00ednica, que ocorreu no dia 5 de Setembro de 2018, a ofendida apresentava \u00falcera na regi\u00e3o sagrada, com cerca de 5x8cms de di\u00e2metro e 3cms de profundidade, com tecido desvitalizado no bordo externo, mas sem exsudado purulento e sem eritema peri lesiona e \u00falcera de dec\u00fabito superficial na regi\u00e3o do ombro esquerdo, com cerca de 1 cm de di\u00e2metro, sem exsudado e sem eritema.<br \/>13) Para tratamento daquelas \u00falceras, no hospital sugeriu-se mudan\u00e7a de pensos em dias alternados, posicionamentos alternados e colch\u00e3o anti-escaras.<br \/>14) A ofendida veio a falecer no dia 14 de Setembro de 2018, pelas 11:45, na resid\u00eancia sita na Rua \u2026, Amadora.<br \/>15) \u00c0 arguida, no exerc\u00edcio da sua catividade laboral e enquanto respons\u00e1vel daquele lar, cabiam, entre outras, as seguintes fun\u00e7\u00f5es, que devia desempenhar diariamente e ainda sempre que fosse necess\u00e1rio: administrar a medica\u00e7\u00e3o prescrita aos utentes do lar a\u00ed internados; lava-los; mudar-lhes as fraldas (caso as usassem); mudar pensos, adesivos e efetuar curativos em feridas; alimentar (\u00e0 colher ou atrav\u00e9s de sonda) os doentes que n\u00e3o conseguissem, devido \u00e0s doen\u00e7as, alimentar-se sem ajuda; mudar os len\u00e7\u00f3is; escrever no livro \u201cnotas do enfermeiro\u201d, todas as informa\u00e7\u00f5es relativas a cada doente; informar os m\u00e9dicos e os enfermeiros de qualquer altera\u00e7\u00e3o do estado de sa\u00fade dos utentes e ainda prestar assist\u00eancia, em caso de emerg\u00eancia, aos doentes que dela necessitassem, pessoalmente ou chamando o m\u00e9dico de servi\u00e7o, quando necess\u00e1rio.<br \/>16) Apesar de aquele lar necessitar de preencher determinados requisitos, para poder prestar o servi\u00e7o que havia sido contratado pela ofendida, apurou-se, ap\u00f3s inspe\u00e7\u00e3o feita pela seguran\u00e7a social, que aquele lar n\u00e3o tinha licen\u00e7a de funcionamento, n\u00e3o tinha pessoal suficiente para o seu funcionamento, bem como n\u00e3o tinha profissionais qualificados para a presta\u00e7\u00e3o de cuidados m\u00e9dicos.<br \/>17) A arguida tem um filho de vinte anos.<br \/>18) A arguida abandonou o ensino escolar aos dezassete anos, quando frequentava o oitavo ano de escolaridade.<br \/>19) A arguida trabalhou como empregada fabril, na \u00e1rea das limpezas e como empregada de balc\u00e3o.<br \/>20) A arguida iniciou a catividade de constituir um lar de idosos em 2009\/2010.<br \/>21) A arguida trabalha como auxiliar num lar de idosos auferindo mensalmente a quantia de \u20ac750,00.<br \/>22) A arguida n\u00e3o tem antecedentes criminais.<br \/>3. N\u00e3o se logrou provar qualquer outro facto, com relevo para a boa decis\u00e3o da causa, ou que esteja em contradi\u00e7\u00e3o com os dados como provados. Designadamente n\u00e3o se logrou apurar que:<br \/>a) Que a arguida no dia 24 de Agosto de 2018 apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos,<br \/>estava apir\u00e9tica e algaliada com ch14.<br \/>b) Que no dia 25 de Agosto a arguida pediu \u00e0 filha da ofendida para n\u00e3o ir visitar a<br \/>ofendida no lar, pois esta tinha regressado do aludido exame, com um pouco de febre.<br \/>c) Que no dia 26 de Agosto de 2018 a ofendida encontrava-se no aludido lar,<br \/>apresentando n\u00f3doas negras na zona inferior das pernas e nos pulsos.<br \/>d) Que a ofendida encontrava-se desnutrida.<br \/>e) Que quando a arguida aceitou a admiss\u00e3o da ofendida naquele lar, tinha conhecimento do estado cl\u00ednico da ofendida e sabia que esta necessitava da administra\u00e7\u00e3o de diversos medicamentos, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem e de higiene, bem como alimenta\u00e7\u00e3o da ofendida.<br \/>f) Que a arguida, como respons\u00e1vel daquele lar, conhecendo a situa\u00e7\u00e3o da ofendida, n\u00e3o lhe prestou os cuidados devidos, nomeadamente, n\u00e3o adequou a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da ofendida, n\u00e3o chamou o m\u00e9dico\/enfermeiro para mudar o penso da \u00falcera, que a ofendida tinha, deixando assim agravar aquele ferimento.<br \/>g) Que ap\u00f3s a ofendida ter regressado ao lar, no dia 26 de Agosto de 2018, a arguida continuou a n\u00e3o providenciar por uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e0 ofendida, n\u00e3o determinou que se procedesse \u00e0 limpeza da ferida da ofendida, n\u00e3o lhe mudou o penso, nem a colocou numa cama com colch\u00e3o adequado, de forma a permitir a cicatriza\u00e7\u00e3o daquele ferimento.<br \/>h) Que agiu a arguida sabendo que iria provocar danos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos \u00e0<br \/>ofendida, como consequ\u00eancia necess\u00e1ria das suas condutas.<br \/>i) Que ao recusar a prestar aqueles cuidados de sa\u00fade, sabia que punha em perigo a sa\u00fade, a integridade f\u00edsica e mesmo a vida da ofendida, bem sabia que causava nesta desespero, intranquilidade e receio pela sua seguran\u00e7a e bem estar.<br \/>j) Que a arguida agiu com desrespeito pela condi\u00e7\u00e3o e dignidade humana da ofendida, n\u00e3o lhe aliviando a dor, recusando-se a prestar-lhe a assist\u00eancia para a qual estava perfeitamente apta a realizar.<br \/>l) Que mais sabia que as suas condutas eram punidas e proibidas por lei.<br \/>8.O Tribunal norteou a sua convic\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 mat\u00e9ria de facto provada com base na valora\u00e7\u00e3o da prova produzida e examinada em audi\u00eancia, conjugada com o princ\u00edpio da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova, entendido como o esfor\u00e7o para alcan\u00e7ar a verdade material, tendo desconsiderado todas as afirma\u00e7\u00f5es de pendor conclusivo e de mat\u00e9ria de direito, analisando dialeticamente os meios de prova ao seu alcance, procurando harmoniz\u00e1-los entre si de acordo com os princ\u00edpios da experi\u00eancia comum, sem crit\u00e9rios pr\u00e9-definidores de valor a atribuir aos diferentes elementos probat\u00f3rios, salvo quando a lei diversamente o disponha.<br \/>A arguida n\u00e3o contesta que era a respons\u00e1vel do lar e que em 2018 cuidava da ofendida, MAR______ ; tamb\u00e9m refere que esta desenvolveu uma \u00falcera de press\u00e3o na zona sacra e que, para o efeito, cuidou de lhe lavar a ferida, colocar compressas de vaselina, hidrogel e aplicar penso e creme, sendo que s\u00f3 quando esta piorou, sensivelmente dois meses depois em Agosto de 2018, levou a ofendida ao Hospital, porquanto a \u00falcera come\u00e7ou a deitar um exsudado purulento. Mais declara que n\u00e3o informou a fam\u00edlia das verdadeiras causas do transporte da ofendida ao hospital porque, nas suas palavras, n\u00e3o quis preocup\u00e1-los, mas que em momento algum lhes disse que iria levar a ofendida a realizar um T.A.C. Quanto ao segundo internamento, declara que a ofendida piorou, j\u00e1 depois de ser vista no lar pela fam\u00edlia, sendo que voltou a envi\u00e1-la para o hospital, nunca mais tendo a ofendida regressado ao lar. Confirmou que tinha as fun\u00e7\u00f5es de administrar a medica\u00e7\u00e3o prescrita aos utentes do lar, lav\u00e1-los, mudar-lhes as fraldas, mudar pensos, adesivos e efectuar curativos em feridas, alimentar os doentes, mudar len\u00e7\u00f3is. Tamb\u00e9m admitiu que o lar n\u00e3o preenchia todas as orienta\u00e7\u00f5es da Seguran\u00e7a Social, pois que n\u00e3o tinha licen\u00e7a de funcionamento, pessoal suficiente ou profissionais qualificados para a presta\u00e7\u00e3o de cuidados m\u00e9dicos ou de enfermagem. Nega a arguida, no entanto, que tenha prestado cuidados desadequados \u00e0 ofendida, pois que, no seu entender, fez o que p\u00f4de, sendo que, quando n\u00e3o mais conseguiu, encaminhou a ofendida ao Hospital.<br \/>A prova direta e concreta resume-se, no essencial, \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica das idas ao Hospital da ofendida em 24 de Agosto de 2018 e 28 de Agosto de 2018 de fls. 67 a 99, nela se descrevendo que a ofendida apresentava \u00falcera de press\u00e3o de grau IV com infec\u00e7\u00e3o, estava prostrado e demonstrava sinais de desidrata\u00e7\u00e3o. Tudo culminado, a ofendida tinha \u00falcera na regi\u00e3o sagrada, com cerca de 5x8cms de di\u00e2metro e 3cms de profundidade, com tecido desvitalizado no bordo externo, mas sem exsudado purulento e sem eritema peri lesiona e \u00falcera de dec\u00fabito superficial na regi\u00e3o do ombro esquerdo, com cerca de 1 cm de di\u00e2metro, sem exsudado e sem eritema.<br \/>A\u2026, filha da ofendida, e M\u2026, nora da ofendida, relatam um quadro de normalidade at\u00e9 este dia: que visitavam a ofendida uma vez por semana, nunca se tendo deparado com qualquer falta de condi\u00e7\u00f5es, nem com um tratamento desadequado a esta. Declara, no entanto, a primeira, ao contr\u00e1rio do que refere a arguida, que esta \u00faltima lhe disse que iria levar a sua m\u00e3e para um T.A.C., mas sobre a \u00falcera nada soube at\u00e9 ao segundo internamento, quando M\u2026 lhe comunicou o que lhe foi dito pelo m\u00e9dico, ou seja, que j\u00e1 havia ocorrido um primeiro encaminhamento hospitalar da ofendida por conta de uma \u00falcera de press\u00e3o.<br \/>Por\u00e9m, nenhuma destas testemunhas \u00e9 capaz de nos responder \u00e0s perguntas que verdadeiramente importam: como veio a ocorrer aquela \u00falcera de press\u00e3o, que cuidados deveriam ter sido ministrados e se foi a conduta da arguida que provocou tanto a \u00falcera como a sua degenera\u00e7\u00e3o at\u00e9 aquele grau. No limite, e de forma at\u00e9 contraintuitiva, as familiares da ofendida v\u00eam atestar da qualidade do servi\u00e7o prestado pela arguida \u00e0 ofendida, sendo que, ao visitarem a ofendida todas as semanas, nunca se depararam com nenhum problema, inclusive de desnutri\u00e7\u00e3o ou desidrata\u00e7\u00e3o.<br \/>Tamb\u00e9m Ac\u2026, respetivamente, m\u00e9dico e \u201ccoach de enfermagem\u201d que prestavam servi\u00e7os ocasionais ao lar, sem nenhum v\u00ednculo contratual, s\u00e3o incapazes de se recordar da ofendida, n\u00e3o atestando se lhe prestaram algum cuidado, medicamento ou tratamento por conta desta \u00falcera.<br \/>AM____ , enfermeira que assistiu a ofendida nos seus \u00faltimos dias, relatou em Tribunal que uma \u00falcera de press\u00e3o de grau IV como aquela, apenas poderia ocorrer por for\u00e7a da coloca\u00e7\u00e3o da ofendida sempre na mesma posi\u00e7\u00e3o e na aus\u00eancia de prote\u00edna na alimenta\u00e7\u00e3o desta. Por\u00e9m, e aqui reside a distin\u00e7\u00e3o clara entre uma testemunha e um perito, a testemunha n\u00e3o observou a ofendida, limitou-se a fazer um penso nos \u00faltimos dias, pelo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel valorar o seu depoimento nesta parte, j\u00e1 que n\u00e3o responde \u00e0 quest\u00e3o: o que concretamente provocou aquela \u00falcera e n\u00e3o as suas causas gen\u00e9ricas. Podem existir suposi\u00e7\u00f5es e presun\u00e7\u00f5es a este respeito, aliadas \u00e0 falta de condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e de pessoal do lar, as quais, como se viu, n\u00e3o foram tamb\u00e9m atestadas por nenhuma testemunha, mas apenas pela arguida. Mas a assumir que estamos perante uma falta de cuidados adequados ou atempados \u00e0 ofendida, podemos concluir que existe prova de uma atua\u00e7\u00e3o incorreta por parte da arguida? N\u00e3o foi trazida qualquer prova no sentido de sustentar esta conclus\u00e3o: de que o que foi administrado pela arguida n\u00e3o o foi devida ou atempadamente; tudo o que sabemos \u00e9 da exist\u00eancia de uma ferida, que a certa altura infecto e que, nessa sequ\u00eancia, a arguida remeteu a ofendida ao Hospital. Podemos conjecturar o que se passou no entremeio, mas nada sabemos de concreto. Conclui-se tamb\u00e9m que o tratamento adequado seria a mudan\u00e7a de pensos em dias alternados, posicionamentos alternados e colch\u00e3o anti- escaras, o que a arguida refere que realizou e inexiste prova que sustente o oposto. \u00c9 certo que a acusa\u00e7\u00e3o p\u00fablica conclui com o falecimento da ofendida, procurando, de forma indireta, cremos, imputar um resultado morte \u00e0 arguida (fls. 53). Mas n\u00e3o existe nenhum nexo de causalidade entre a atua\u00e7\u00e3o da arguida e esse resultado. Assim como nada foi trazido aos autos que nos mostre que a ofendida foi sujeita, por parte da arguida, a um qualquer tratamento desumano ou cruel. \u00c9 certo que a ofendida veio a morrer e n\u00e3o se diminuem as dores que ter\u00e1 sofrido tamb\u00e9m por conta desta infe\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o foi trazido nada aos autos que comprove uma conduta dolosamente cruel e grave no tratamento da arguida para com a ofendida: o que o crime exige. Ali\u00e1s, existe uma informa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica nos autos a fls. 226, no qual o senhor m\u00e9dico conclui que \u201ca neglig\u00eancia \u00e9 conceptualmente englobada no conceito de maus tratos\u201d. N\u00e3o sendo o mais correto dos enquadramentos jur\u00eddicos, pois que \u00e9 essencial o conhecimento do car\u00e1cter cruel e desumano dos atos praticados, \u00e9 o mais certeiro poss\u00edvel no enquadramento f\u00e1ctico: adiantaremos melhor esta quest\u00e3o em sede de direito, mas, no limite, o que existiria aqui seria uma conduta negligente por parte da arguida.<br \/>Assim sendo, no que respeita \u00e0 mat\u00e9ria de facto dada como n\u00e3o provada, o Tribunal, tendo em conta alguma d\u00favida inerente a essa prova da qual n\u00e3o conseguiu tirar ila\u00e7\u00f5es seguras e perante a aus\u00eancia de prova cabal quanto \u00e0 mesma, ou perante a contradi\u00e7\u00e3o com os factos que se mostram provados, foi levado a julg\u00e1-la nesses moldes.<br \/>As condi\u00e7\u00f5es pessoais da Arguida foram pela pr\u00f3pria relatadas e corroboradas pelo relat\u00f3rio elaborado pela DGRSP e na medida do dado como provado lograram convencer o Tribunal.<br \/>Relativamente aos antecedentes criminais da arguida, o Tribunal formou a sua convic\u00e7\u00e3o com base no teor do Certificado de Registo Criminal junto aos autos.<br \/>2.3. APRECIA\u00c7\u00c3O DO M\u00c9RITO DO RECURSO<br \/>A mat\u00e9ria de facto pode ser sindicada em recurso atrav\u00e9s de duas formas: uma, de \u00e2mbito mais estrito, a que se convencionou designar de \u00abrevista alargada\u00bb, implica a aprecia\u00e7\u00e3o dos v\u00edcios enumerados nas als. a) a c) do art. 410\u00ba n\u00ba 2 do CPP; outra, denominada de impugna\u00e7\u00e3o ampla da mat\u00e9ria de facto, que se encontra prevista e regulada no art. 412\u00ba n\u00bas 3, 4 e 6 do mesmo diploma.<br \/>Assim, se no primeiro caso, o recurso visa uma sindic\u00e2ncia centrada exclusivamente no texto da senten\u00e7a, dirigida a aferir da capacidade do juiz em expressar de forma adequada e suficiente as raz\u00f5es pelas quais se convenceu e o sentido da decis\u00e3o que tomou, j\u00e1 no segundo, o que o recurso visa \u00e9 o reexame da mat\u00e9ria de facto, atrav\u00e9s da fiscaliza\u00e7\u00e3o das provas e da forma como o Tribunal recorrido formou a sua convic\u00e7\u00e3o, a partir delas.<br \/>O erro do julgamento verifica-se sempre que o Tribunal tenha dado como provado um facto acerca do qual n\u00e3o foi produzida prova e, portanto, deveria ter sido considerado n\u00e3o provado, ou inversamente, quando o Tribunal considerou n\u00e3o provado um facto e a prova \u00e9 clara e inequ\u00edvoca, no sentido da sua comprova\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/>O mecanismo por via do qual dever\u00e1 ser invocado - impugna\u00e7\u00e3o ampla da mat\u00e9ria de facto \u2013 encontra-se previsto e regulado no art. 412\u00ba n\u00bas 3, 4 e 6 do CPP e envolve a reaprecia\u00e7\u00e3o da atividade probat\u00f3ria realizada pelo Tribunal, na primeira inst\u00e2ncia e da prova dela resultante.<br \/>No entanto, essa reaprecia\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 livre, nem abrangente, antes tem v\u00e1rios limites, porque, al\u00e9m de n\u00e3o importar um novo julgamento da causa, est\u00e1 condicionada ao cumprimento de deveres muito espec\u00edficos de motiva\u00e7\u00e3o e formula\u00e7\u00e3o de conclus\u00f5es do recurso (Maria Jo\u00e3o Antunes, in RPCC \u2013 Ano 4 Fasc.1 \u2013 p\u00e1g. 120; Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ n.\u00ba 3\/2012, de 8\/3\/2012, DR, I S\u00e9rie, n.\u00ba 77, de 18\/4\/2012 Acs. da Rela\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es de 6.11.2017, proc. 3671\/13.4TDLSB.G1; da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora de 09.01.2018 proc. 31\/14.3GBFTR.E1; da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 08.05.2018, proc. 30\/16.0GANZR.C1; da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 12.06.2019, processo 473\/16.0JAPDL.L1 e de 28.04.2021, processo 4426\/17.2T9LSB.L1, in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt).\u00a0\u00a0<br \/>Assim, nos termos do n\u00ba 3 do art. 412\u00ba do CPP, quando impugne a decis\u00e3o proferida sobre mat\u00e9ria de facto, o recorrente deve especificar: a) os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados; b) as concretas provas que imp\u00f5em decis\u00e3o diversa da recorrida e c) as provas que devem ser renovadas\u00bb.<br \/>O n\u00ba 4 do mesmo artigo acrescenta que, tratando-se de prova gravada, as indica\u00e7\u00f5es a que se referem as al\u00edneas b) e c) do n\u00ba 3 se fazem por refer\u00eancia ao consignado na acta, nos termos do disposto no n.\u00ba 2 do artigo 364\u00ba, devendo o recorrente indicar concretamente as passagens em que se funda a impugna\u00e7\u00e3o, sendo que, neste caso, o tribunal proceder\u00e1 \u00e0 audi\u00e7\u00e3o ou visualiza\u00e7\u00e3o das passagens indicadas e de outras que considere relevantes para a descoberta da verdade e a boa decis\u00e3o da causa, segundo o estabelecido no n\u00ba 6.<br \/>Assim, quanto \u00e0 especifica\u00e7\u00e3o dos concretos pontos de facto, a mesma \u00abs\u00f3 se satisfaz com a indica\u00e7\u00e3o do facto individualizado que consta da senten\u00e7a recorrida e se considera incorretamente julgado\u00bb (Paulo Pinto de Albuquerque in Coment\u00e1rio do C\u00f3digo de Processo Penal, 4\u00aa. ed., 2009, nota 7 ao art. 412\u00ba., p\u00e1g. 1144).<br \/>No que se refere \u00e0 especifica\u00e7\u00e3o das provas concretas, o \u00f3nus previsto no art. 412\u00ba do CPP \u00abs\u00f3 se satisfaz com a indica\u00e7\u00e3o do conte\u00fado espec\u00edfico do meio de prova ou de obten\u00e7\u00e3o de prova que imp\u00f5e decis\u00e3o diversa da recorrida. Por exemplo, \u00e9 insuficiente a indica\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica de um depoimento, de um documento, de uma per\u00edcia ou de uma escuta telef\u00f3nica realizada entre duas datas ou a uma pessoa. Mais exatamente, no tocante aos depoimentos prestados na audi\u00eancia, a refer\u00eancia aos suportes magn\u00e9ticos s\u00f3 se cumpre com a indica\u00e7\u00e3o (\u2026) das passagens dos depoimentos gravados que imp\u00f5em diferente decis\u00e3o, n\u00e3o bastando a indica\u00e7\u00e3o das rota\u00e7\u00f5es correspondentes ao in\u00edcio e ao fim de cada depoimento\u00bb (Paulo Pinto de Albuquerque in Coment\u00e1rio do C\u00f3digo de Processo Penal, 4\u00aa. ed., 2009, nota 8 ao art. 412\u00ba., p\u00e1g. 1144).<br \/>Este \u00f3nus de indica\u00e7\u00e3o das provas que imp\u00f5em decis\u00e3o diversa da recorrida, apresenta, pois, uma configura\u00e7\u00e3o alternativa, conforme a acta da audi\u00eancia de julgamento contenha ou n\u00e3o a refer\u00eancia do in\u00edcio e do termo de cada uma das declara\u00e7\u00f5es e depoimentos gravados.\u00a0<br \/>Assim, se a acta contiver essa refer\u00eancia, a indica\u00e7\u00e3o dos excertos em que se funda a impugna\u00e7\u00e3o faz-se incluindo a refer\u00eancia ao consignado na acta, nos termos do disposto no n\u00ba 2 do artigo 364\u00ba (n\u00ba 4 do artigo 412\u00ba do C.P.P.).<br \/>Mas, se a acta n\u00e3o contiver essa refer\u00eancia, basta a identifica\u00e7\u00e3o e transcri\u00e7\u00e3o nas motiva\u00e7\u00f5es de recurso das ditas \u201cpassagens\/excertos\u201d dos meios de prova oral gravados (Acs. da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora, de 28.05.2013, proc. 94\/08.0GGODM.E1 e da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 22.09.2020, proc. 3773\/12.4TDLSB.L1-5, in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\">)<\/a>.<br \/>Em qualquer das duas hip\u00f3teses, o recorrente ter\u00e1 de indicar, com toda a clareza e precis\u00e3o, o que \u00e9 que, na mat\u00e9ria de facto, concretamente, quer ver modificado, apresentando a sua vers\u00e3o probat\u00f3ria e factual alternativa \u00e0 decis\u00e3o de facto exarada na senten\u00e7a que impugna, e quais os motivos exatos para tal modifica\u00e7\u00e3o, em rela\u00e7\u00e3o a cada facto alternativo que prop\u00f5e, o que exige que o recorrente apresente o conte\u00fado espec\u00edfico de cada meio de prova que imp\u00f5e decis\u00e3o diversa da recorrida e o correlacione comparativamente com o facto individualizado que considera erradamente julgado.<br \/>Quando se trate de depoimentos de testemunhas, de declara\u00e7\u00f5es de arguidos, assistentes, partes civis, peritos ou consultores t\u00e9cnicos, se o recorrente n\u00e3o individualizar, no universo das declara\u00e7\u00f5es prestadas, quais as particulares passagens, nas quais ficaram gravadas as frases que se referem ao facto impugnado, n\u00e3o pode considerar-se cumprido o \u00f3nus de impugna\u00e7\u00e3o especificada exigido pelo art. 412\u00ba n\u00bas 3 als. a) e b) e n\u00ba 4 do CPP.<br \/>Tal forma gen\u00e9rica de impugna\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de permitir converter em regra uma exce\u00e7\u00e3o, desvirtuando completamente o regime do duplo grau de jurisdi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, que se traduz num reexame pontual e parcial da prova, porque restrito aos precisos pontos de facto que o recorrente entende incorretamente julgados e \u00e0s concretas raz\u00f5es de discord\u00e2ncia, prejudica e pode mesmo inviabilizar o exerc\u00edcio leg\u00edtimo do princ\u00edpio do contradit\u00f3rio pelos demais sujeitos processuais com interesse juridicamente relevante no desfecho do recurso.<br \/>Al\u00e9m disso, transferiria para o tribunal de recurso a incumb\u00eancia de encontrar e selecionar, segundo o seu pr\u00f3prio crit\u00e9rio, as espec\u00edficas passagens das grava\u00e7\u00f5es que melhor se adequassem aos interesses do recorrente, ou seja, de fazer conjeturas sobre quais seriam os fundamentos do recurso, o que n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel, porque o tribunal n\u00e3o pode, nem deve substituir-se ao recorrente, no exerc\u00edcio de direitos processuais que s\u00f3 a este incumbem, nos termos da lei, nem deve tentar perscrutar ou interpretar a sua vontade, interferindo, por essa via, com a pr\u00f3pria inteligibilidade e conclud\u00eancia das motiva\u00e7\u00f5es do recurso, logo, com a defini\u00e7\u00e3o do seu objeto.\u00a0<br \/>\u00c9, igualmente, inadmiss\u00edvel, \u00e0 luz dos princ\u00edpios da imedia\u00e7\u00e3o e oralidade da audi\u00eancia de discuss\u00e3o e julgamento, da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova e da seguran\u00e7a jur\u00eddica, partindo da constata\u00e7\u00e3o de que o contacto que o Tribunal de recurso tem com as provas \u00e9, por regra e quase exclusivamente, feito atrav\u00e9s da grava\u00e7\u00e3o, sem a for\u00e7a da imedia\u00e7\u00e3o e do exerc\u00edcio sistem\u00e1tico do contradit\u00f3rio que s\u00e3o caracter\u00edsticos da prova produzida no julgamento.<br \/>Essa modifica\u00e7\u00e3o ser\u00e1, assim, t\u00e3o s\u00f3 a que resultar do filtro da documenta\u00e7\u00e3o da prova, segundo a especifica\u00e7\u00e3o do recorrente, por refer\u00eancia ao conte\u00fado da acta, com indica\u00e7\u00e3o expressa e precisa dos trechos dos depoimentos ou declara\u00e7\u00f5es em que alicer\u00e7a a sua diverg\u00eancia (art. 412\u00ba n\u00ba4 do CPP), ou, pelo menos, mediante \u00aba refer\u00eancia \u00e0s concretas passagens\/excertos das declara\u00e7\u00f5es que, no entendimento do recorrente, imponham decis\u00e3o diversa da assumida, desde que transcritas pelo recorrente\u00bb (Ac. do STJ n\u00ba 3\/2012, de fixa\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia de 08.03.2012, in D.R. 1.\u00aa s\u00e9rie,\u00a0 n\u00ba 77 de 18 de abril de 2012).<br \/>\u00ab\u00c9 em face dessa prova que, em sede de recurso se vai aferir da observ\u00e2ncia dos ju\u00edzos de racionalidade, de l\u00f3gica e de experi\u00eancia e se estes confirmam, ou n\u00e3o, o racioc\u00ednio e a avalia\u00e7\u00e3o feita em primeira inst\u00e2ncia sobre o material probat\u00f3rio constante dos autos, cuja veracidade cumpria demonstrar. Caso esteja demonstrado que o ju\u00edzo constante da decis\u00e3o recorrida \u00e9 compat\u00edvel com aqueles crit\u00e9rios n\u00e3o merece censura o julgamento da mat\u00e9ria de facto fixada. Se o n\u00e3o estiver, ent\u00e3o a decis\u00e3o recorrida merece altera\u00e7\u00e3o. Com o que em nada se viola a imedia\u00e7\u00e3o da prova, que fica acess\u00edvel, imediatamente, ao juiz de recurso tal e qual como foi produzida em primeira inst\u00e2ncia\u00bb (Paulo Sarago\u00e7a da Mata, in A Livre Aprecia\u00e7\u00e3o da Prova e o Dever de Fundamenta\u00e7\u00e3o da Senten\u00e7a em Jornadas de Direito Processual Penal e Direitos Fundamentais, Almedina, Coimbra 2004, p\u00e1g. 253).<br \/>Trata-se, em suma, de colocar \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o do tribunal de recurso a aferi\u00e7\u00e3o da conformidade ou desconformidade da decis\u00e3o da primeira inst\u00e2ncia sobre os precisos factos impugnados com a prova efetivamente produzida no processo, de acordo com as regras da experi\u00eancia e da l\u00f3gica, com os conhecimentos cient\u00edficos, bem como com as regras espec\u00edficas e princ\u00edpios vigentes em mat\u00e9ria probat\u00f3ria, designadamente, com os princ\u00edpios da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova e in d\u00fabio pro reo, assim como, com as normas que regem sobre a validade da prova e sobre a efic\u00e1cia probat\u00f3ria especial de certos meios de prova, como \u00e9 o caso da confiss\u00e3o, da prova pericial ou da que emerge de certo tipo de documentos.\u00a0<br \/>Se dessa compara\u00e7\u00e3o resultar que o Tribunal n\u00e3o podia ter conclu\u00eddo, como concluiu na considera\u00e7\u00e3o daqueles factos como provados ou como n\u00e3o provados, haver\u00e1 erro de julgamento e, consequentemente, modifica\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, em conformidade com o desacerto detetado.\u00a0\u00a0<br \/>Portanto, s\u00f3 os factos controvertidos por efeito das provas cujo conte\u00fado seja adequado \u00e0 conclus\u00e3o de que se imp\u00f5e uma decis\u00e3o diferente da recorrida, segundo a motiva\u00e7\u00e3o do recorrente, \u00e9 que s\u00e3o objeto de sindic\u00e2ncia pelo Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o.<br \/>Por\u00e9m, se a convic\u00e7\u00e3o ainda puder ser objetiv\u00e1vel de acordo com essas mesmas regras e a vers\u00e3o que o recorrente apresentar for meramente alternativa e igualmente poss\u00edvel, ent\u00e3o, dever\u00e1 manter-se a op\u00e7\u00e3o do julgador, porquanto tem o respaldo dos princ\u00edpios da oralidade e da imedia\u00e7\u00e3o da prova, da qual j\u00e1 n\u00e3o beneficia o Tribunal de recurso. Neste caso, j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1, nem erro de julgamento, nem possibilidade de altera\u00e7\u00e3o factual.<br \/>Assim, a convic\u00e7\u00e3o do julgador, no tribunal do julgamento, s\u00f3 poder\u00e1 ser modificada se, depois de cabal e eficazmente cumprido o triplo \u00f3nus de impugna\u00e7\u00e3o previsto no citado art. 412\u00ba n\u00bas 3, 4 e 6 do CPP, se constatar que decis\u00e3o da primeira inst\u00e2ncia sobre os precisos factos impugnados quando comparada com a prova efetivamente produzida no processo, deveria necessariamente ter sido a oposta, seja porque aquela convic\u00e7\u00e3o se encontra alicer\u00e7ada em provas ilegais ou proibidas, seja porque se mostram violadas as regras da experi\u00eancia comum e da l\u00f3gica, ou, ainda, porque foram ignorados os conhecimentos cient\u00edficos, ou inobservadas as regras espec\u00edficas e princ\u00edpios vigentes em mat\u00e9ria probat\u00f3ria, designadamente, os princ\u00edpios da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova e in d\u00fabio pro reo, assim como, as normas que regem sobre a validade da prova e sobre a efic\u00e1cia probat\u00f3ria especial de certos meios de prova, como \u00e9 o caso da confiss\u00e3o, da prova pericial ou da que emerge de certo tipo de documentos (aut\u00eanticos e autenticados).<br \/>\u00abA censura dirigida \u00e0 decis\u00e3o de facto proferida dever\u00e1 assentar \u201cna viola\u00e7\u00e3o de qualquer dos passos para a forma\u00e7\u00e3o de tal convic\u00e7\u00e3o, designadamente porque n\u00e3o existem os dados objetivos que se apontam na convic\u00e7\u00e3o ou porque se violaram os princ\u00edpios para a aquisi\u00e7\u00e3o desses dados objetivos ou porque n\u00e3o houve liberdade na forma\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o<br \/>(\u2026)\u201d.<br \/>\u00abA reaprecia\u00e7\u00e3o da prova, dentro daqueles par\u00e2metros, s\u00f3 determinar\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto quando do respetivo reexame se concluir que as provas imp\u00f5em uma decis\u00e3o diversa, excluindo-se a hip\u00f3tese de tal altera\u00e7\u00e3o ter lugar quando aquela reaprecia\u00e7\u00e3o apenas permita uma decis\u00e3o diferente da proferida, porquanto, se a decis\u00e3o de facto impugnada se mostrar devidamente fundamentada e se apresenta como uma das poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es face \u00e0s regras da experi\u00eancia comum, deve a mesma prevalecer, n\u00e3o ocorrendo, nesse caso, viola\u00e7\u00e3o das regras e princ\u00edpios de direito probat\u00f3rio\u00bb (Ac. da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 10.09.2019 proc. 150\/18.7PCRGR.L1-5. No mesmo sentido, Ac. STJ n.\u00ba 3\/2012, publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica, 1.\u00aa s\u00e9rie, de 18-4-2012; Acs. do Tribunal Constitucional n\u00bas 124\/90; 322\/93; 59\/2006 e 312\/2012, in www.tribunalconstitucional.pt e AUJ n\u00ba 10\/2005, de 20.10.2005, DR, S\u00e9rie I-A, de 07-12-2005 Paulo Sarago\u00e7a da Mata, in A Livre Aprecia\u00e7\u00e3o da<br \/>Prova e o Dever de Fundamenta\u00e7\u00e3o da Senten\u00e7a em Jornadas de Direito Processual Penal e Direitos Fundamentais, Almedina, Coimbra 2004, p\u00e1g. 253, Ana Maria Brito, Revista do C.E.J., Jornadas Sobre a Revis\u00e3o do C.P.P., p\u00e1g. 390; Cunha Rodrigues, \u00abRecursos\u00bb, in O Novo C\u00f3digo de Processo Penal, p. 393 e ainda, os Acs. do STJ de 12.09.2013, proc. 150\/09.8PBSXL.L1.S1 e de 11.06.2014, proc. 14\/07.0TRLSB.S1; Acs. da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 16.11.2016, proc. 208\/14.1JACBR.C1; de 13.06.2018, proc. 771\/15.0PAMGR.C1 e de 08.05.2019, proc. 62\/17.1GBCNF.C1; Acs. da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 15.11.2018, proc. 291\/17.8JAAVR.P1, de 25.09.2019, processo 1146\/16.9PBMTS.P1 e de 29.04.2020, proc. 1164\/18.2T9OVR.P1; da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 24.10.2018, proc. 6744\/16.8L1T9LSB-3; de 13.11.2019, proc. 103\/15.7PHSNT.L1, de 09.07.2020, proc. 135\/16.8GELSB.L1-9, da Rela\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es de 08.06.2020, proc. 729\/17.4GBVVD.G1, da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 2.11.2021, proc. 477\/20.8PDAMD.L1-5, in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt).<br \/>\u00abOs Tribunais da Rela\u00e7\u00e3o t\u00eam poderes de intromiss\u00e3o em aspetos f\u00e1cticos (art.\u00bas 428\u00ba e 431\u00ba\/b) do CPP), mas n\u00e3o podem sindicar a valora\u00e7\u00e3o das provas feitas pelo tribunal em termos de o criticar por ter dado preval\u00eancia a uma em detrimento de outra, salvo se houver erros de julgamento e as provas produzidas impuserem outras conclus\u00f5es de facto; \u00abNormalmente, esses erros de julgamento capazes de conduzir \u00e0 modifica\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto pelo tribunal de recurso consistem no seguinte: dar-se como provado um facto com base no depoimento de uma testemunha que nada disse sobre o assunto; dar-se como provado um facto sem que tenha sido produzida qualquer prova sobre o mesmo; dar-se como provado um facto com base no depoimento de testemunha, sem raz\u00e3o de ci\u00eancia da mesma que permita a referida prova; dar-se como provado um facto com base em prova que se valorou com viola\u00e7\u00e3o das regras sobre a sua for\u00e7a legal; dar-se como provado um facto com base em depoimento ou declara\u00e7\u00e3o, em que a testemunha, o arguido ou o declarante n\u00e3o afirmaram aquilo que na fundamenta\u00e7\u00e3o se diz que afirmaram; dar-se como provado um facto com base num documento do qual n\u00e3o consta o que se deu como provado; dar-se como provado um facto com recurso \u00e0 presun\u00e7\u00e3o judicial fora das condi\u00e7\u00f5es em que esta podia operar;<br \/>\u00abQuando o tribunal recorrido forma a sua convic\u00e7\u00e3o com provas n\u00e3o proibidas por lei, prevalece a convic\u00e7\u00e3o do tribunal sobre aquelas que formulem os Recorrentes\u00bb (Ac. da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 11.03.2021, processo 179\/19.8JDLSB.L1-9, in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt).<br \/>O regime do duplo grau de jurisdi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, traduz-se num reexame pontual e parcial da prova, porque restrito aos precisos pontos de facto que o recorrente entende incorretamente julgados e \u00e0s concretas raz\u00f5es de discord\u00e2ncia e n\u00e3o pode, nem deve ser subvertido numa repeti\u00e7\u00e3o da audi\u00eancia de discuss\u00e3o e julgamento realizada em primeira inst\u00e2ncia.<br \/>A forma minuciosa e exigente como est\u00e1 previsto e regulado este tr\u00edplice \u00f3nus de especifica\u00e7\u00e3o ilustra como o duplo grau de jurisdi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto n\u00e3o implica a formula\u00e7\u00e3o de uma nova convic\u00e7\u00e3o por parte do tribunal de recurso, em substitui\u00e7\u00e3o integral da formada pelo tribunal da primeira inst\u00e2ncia, nem equivale a um sistema de duplo julgamento, antes se cingindo a pontos concretos e determinados da mat\u00e9ria de facto j\u00e1 fixada e que, de acordo com a prova j\u00e1 produzida ou a renovar, devem necessariamente ser julgados noutro sentido, justamente, de harmonia com os princ\u00edpios da imedia\u00e7\u00e3o, da oralidade e do contradit\u00f3rio da audi\u00eancia de discuss\u00e3o e julgamento, que postulam a excecionalidade das altera\u00e7\u00f5es ao julgamento da mat\u00e9ria de facto, feito na primeira inst\u00e2ncia e a conce\u00e7\u00e3o do recurso como um rem\u00e9dio jur\u00eddico e n\u00e3o como um outro julgamento (Ac. STJ n.\u00ba 3\/2012, publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica, 1.\u00aa s\u00e9rie, de 18-4-2012. No mesmo sentido, Acs. do Tribunal Constitucional n\u00bas 124\/90; 322\/93; 59\/2006 e 312\/2012, in<br \/>www.tribunalconstitucional.pt e AUJ n\u00ba 10\/2005, de 20.10.2005, DR, S\u00e9rie I-A, de 07-122005, Germano Marques da Silva, Registo da Prova em Processo Penal, Tribunal Coletivo e Recurso, in Estudos em Homenagem a Cunha Rodrigues, vol. I, Coimbra, 2001. No mesmo sentido, Ana Maria Brito, Revista do C.E.J., Jornadas Sobre a Revis\u00e3o do C.P.P., p\u00e1g. 390; Cunha Rodrigues, \u00abRecursos\u00bb, in O Novo C\u00f3digo de Processo Penal, p. 393).<br \/>O recorrente cumpriu cabalmente o \u00f3nus de impugna\u00e7\u00e3o especificada, quer no tocante \u00e0 men\u00e7\u00e3o dos precisos pontos de facto que considera terem sido incorretamente julgados, quer nos meios de prova e respetivos segmentos dos quais, na sua vis\u00e3o da prova, se impunha a decis\u00e3o oposta \u00e0 que o Tribunal tomou.<br \/>Por isso, se deixa consignado que se procedeu \u00e0 audi\u00e7\u00e3o integral da prova produzida em audi\u00eancia.<br \/>Quanto ao ponto 2 dos factos provados.<br \/>Na senten\u00e7a recorrida, este ponto tem a seguinte reda\u00e7\u00e3o:<br \/>2) A ofendida integrou o lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento \u201c...\u201d Unipessoal, Lda. em data n\u00e3o concretamente apurada.<br \/>O M\u00ba. P\u00ba. op\u00f5e a esta indefini\u00e7\u00e3o temporal da entrada da ofendida nesta institui\u00e7\u00e3o, que o que resulta da prova produzida, concretamente das declara\u00e7\u00f5es da arguida SMGA_____ e do depoimento da testemunha M\u2026, que expressamente mencionaram este facto, nos segmentos indicados nas motiva\u00e7\u00f5es do recurso, foi que essa entrada teve lugar em data n\u00e3o concretamente apurada, mas do ano de 2017.<br \/>\u00a0Ouvidos estes excertos - minuto 10:02 a 10:18 das declara\u00e7\u00f5es da arguida prestadas no dia 09.09.2021, consignadas em acta como tendo in\u00edcio \u00e0s 09h32m45s e termo \u00e0s 10h34m41s e o excerto daquele depoimento constante do minuto 14:43 prestado no dia 09.09.2021, consignado em acta como tendo in\u00edcio \u00e0s 11h02m18s e termo \u00e0s 11h24m08s, resulta que:<br \/>A arguida admite como poss\u00edvel que tenha sido em Setembro de 2017 que Ma\u2026<br \/>\u00a0integrou o lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento \u201c...\u201d - Unipessoal, Lda, embora n\u00e3o tenha conseguido precisar a data em que tal ocorreu;<br \/>A testemunha M\u2026 declarou que MAR______ \u00a0faleceu um ano depois de ter dado entrada no lar ... -Unipessoal, Lda. e que essa entrada ocorreu em 2017, pois morreu em 2018.<br \/>A testemunha M\u2026 era nora da ofendida que se deslocava, pelo menos, semanalmente \u00e0quela institui\u00e7\u00e3o para visitar a sogra e a sua pr\u00f3pria m\u00e3e que tamb\u00e9m ali se encontrava acolhida, no per\u00edodo temporal mencionado na acusa\u00e7\u00e3o, sendo ela quem levava a sua m\u00e3e \u00e0s consultas m\u00e9dicas, raz\u00f5es porque frequentava aquele lar e contactava amiudadas vezes com a arguida, circunst\u00e2ncias que a pr\u00f3pria tamb\u00e9m referiu.<br \/>Considerando a raz\u00e3o de ci\u00eancia desta testemunha e a coer\u00eancia de vers\u00f5es apresentadas nestes dois meios de prova quanto a tal circunst\u00e2ncia, a mesma ter\u00e1 de ser integrada na mat\u00e9ria de facto provada, pelo que o ponto 2) tem de ser alterado e passar a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o:<br \/>2) A ofendida integrou o lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento \u201c...\u201d Unipessoal, Lda, em data n\u00e3o concretamente apurada do ano de 2017.\u00a0<br \/>No que concerne ao facto dado como provado em 21), o mesmo tem a seguinte reda\u00e7\u00e3o:<br \/>A arguida trabalha como auxiliar num lar de idosos auferindo mensalmente a quantia de \u20ac 750,00.<br \/>Esta circunst\u00e2ncia consta do relat\u00f3rio social com a refer\u00eancia Citius 19347440, junto aos autos em 13 de Agosto de 2021 (cfr. p. 4 do mesmo relat\u00f3rio), pelo que, estando alicer\u00e7ado em prova n\u00e3o impugnada, n\u00e3o existe erro de julgamento, improcedendo o recurso nesta parte.\u00a0<br \/>Quanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de prova que determina a considera\u00e7\u00e3o como provados dos pontos<br \/>a), c), d), e), f), h), i), j) e l) que na senten\u00e7a recorrida foram considerados n\u00e3o provados:<br \/>O facto dado como n\u00e3o provado em a) \u00e9 o seguinte:\u00a0<br \/>a)\u00a0 Que a arguida no dia 24 de agosto de 2018 apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos,<br \/>estava apir\u00e9tica e algaliada com ch14.<br \/>Como muito bem salienta o M\u00ba. P\u00ba., a refer\u00eancia a \u00abarguida\u00bb, naquele ponto \u00e9 um lapso de escrita e deve, como tal, ser corrigido, porque se refere \u00e0 ofendida MAR______ .<br \/>E esse \u00e9 o primeiro reparo a efetuar, quanto a este ponto.\u00a0<br \/>Da motiva\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o do Tribunal, quanto aos factos provados e n\u00e3o provados n\u00e3o se descortina, no texto da senten\u00e7a recorrida, qual a raz\u00e3o pela qual este facto n\u00e3o foi dado como provado, quando, na realidade, o mesmo consta expressa e claramente do Di\u00e1rio Cl\u00ednico - Urg\u00eancia, relativamente ao epis\u00f3dio com inicio no dia 24-08-2018, \u00e0s 19:15h, que a ofendida MAR______ , poucas horas depois de ter dado entrada nas urg\u00eancias (\u00e0s 01:44h), se apresentava prostrada e apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos. Da mesma forma \u00e9 feito constar que a ofendida se encontrava apir\u00e9tica e que foi \u201c(...) algaliada com CH14, com sa\u00edda de urina com cheiro f\u00e9tido e concentrada\u201d (\u00e0s 02:08h) que consta de fls. 88, 89 e 90 dos autos.<br \/>Este documento n\u00e3o foi impugnado por ningu\u00e9m, foi requisitado ao estabelecimento hospitalar onde, segundo a pr\u00f3pria vers\u00e3o apresentada pela arguida em audi\u00eancia, a ofendida MAR______ \u00a0foi assistida, naquele dia 24 de Agosto de 2018, sendo certo que, como resulta do texto do documento, aquelas informa\u00e7\u00f5es resultam de observa\u00e7\u00f5es feitas por m\u00e9dicos e enfermeiros que prestaram a assist\u00eancia hospitalar em causa.<br \/>O seu conte\u00fado, n\u00e3o merece qualquer d\u00favida porque nem sequer foram produzidos outros meios de prova aptos a infirmar ou neutralizar o estado f\u00edsico, an\u00edmico e cl\u00ednico de MAR______ , naquelas circunst\u00e2ncias de tempo e lugar.<br \/>Pelo contr\u00e1rio, a pr\u00f3pria arguida explicou os motivos que a levaram a decidir levar a ofendida ao Hospital, admitindo, ao minuto 27:50 das suas declara\u00e7\u00f5es que um dos motivos pelos quais decidiu levar a ofendida ao Hospital \u2013 al\u00e9m de a \u00falcera de press\u00e3o n\u00e3o estar a melhorar, \u00aba ferida n\u00e3o estava bonita e dois dias antes estava a deitar um exsudado o que significa que poderia estar a haver uma infe\u00e7\u00e3o\u00bb, a ofendida \u00abpoderia estar um pouco prostrada\u00bb -\u00a0 os quais d\u00e3o total consist\u00eancia ao conte\u00fado de tal Di\u00e1rio Cl\u00ednico a que se soma o sentido coincidente da nota de Nota de Alta\/Transfer\u00eancia (cfr. fls. 97 a 99) na parte em que refere que nas observa\u00e7\u00f5es iniciais a ofendida apresentava-se \u00abprostrada, reativa aos est\u00edmulos dolorosos. (...). Deficiente estado geral e nutricional (...) Pele e mucosas desidratadas e descoradas\u201d.<br \/>De resto, \u00e9 a pr\u00f3pria Mma. Ju\u00edza que, a prop\u00f3sito dos motivos da sua convic\u00e7\u00e3o sobre a decis\u00e3o de facto que tomou, refere que \u00aba prova direta e concreta resume-se, no essencial, \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica das idas ao Hospital da ofendida em 24 de Agosto de 2018 e 28 de Agosto de 2018 de fls. 67 a 99, nela se descrevendo que a ofendida apresentava \u00falcera de press\u00e3o de grau IV com infe\u00e7\u00e3o, estava prostrado e demonstrava sinais de desidrata\u00e7\u00e3o (\u2026)\u00bb, o que embora n\u00e3o correspondendo integralmente ao que resultou da discuss\u00e3o da causa em audi\u00eancia segundo a grava\u00e7\u00e3o da prova, revela, no entanto, que foi o pr\u00f3prio Tribunal a aceitar como correta e cred\u00edvel a informa\u00e7\u00e3o acerca do estado de sa\u00fade da ofendida que consta desses documentos.\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>Assim sendo, a Mma. Juiz ao considerar tal facto como n\u00e3o provado decidiu ao contr\u00e1rio do que devia, pois a prova documental que permite a sua considera\u00e7\u00e3o como provado n\u00e3o oferece qualquer incerteza e n\u00e3o h\u00e1 para al\u00e9m dela, outras provas de sinal contr\u00e1rio ou diverso.<br \/>H\u00e1, pois, erro de julgamento e o ponto a) dos factos n\u00e3o provados passar\u00e1 a integrar a<br \/>mat\u00e9ria de facto provada.<br \/>Quanto \u00e0 al\u00ednea c), o seu conte\u00fado \u00e9 o seguinte:<br \/>c) Que no dia 26 de Agosto de 2018 a ofendida encontrava-se no aludido lar,<br \/>apresentando n\u00f3doas negras na zona inferior das pernas e nos pulsos.<br \/>O M\u00ba. P\u00ba. alicer\u00e7a a sua discord\u00e2ncia da considera\u00e7\u00e3o deste facto como n\u00e3o provado, essencialmente, nos depoimentos testemunhais prestados por e M\u2026, que s\u00e3o, a primeira, filha da ofendida e a segunda sua nora, sendo que ambas visitavam a ofendida MAR______ , no lar explorado pela arguida com uma periodicidade semanal.<br \/>Os depoimentos destas testemunhas est\u00e3o registados na grava\u00e7\u00e3o digital do dia 09-092021, consignados em acta como tendo in\u00edcio \u00e0s 10h34m42s e termo \u00e0s 11h02m17s e in\u00edcio \u00e0s 11h02m18s e termo \u00e0s 11h24m08s, respetivamente.<br \/>relatou, nas passagens correspondentes aos minutos 8:30 e 19:25 que na segunda-feira seguinte ao primeiro epis\u00f3dio de urg\u00eancia e internamento hospitalares (o dos dias 24 e 25 de Agosto de 2018), quando chegaram ao lar para irem levar iogurtes proteicos \u00e0 sua m\u00e3e, em virtude de a ter visto muito debilitada e a sua cunhada, a testemunha M\u2026 quis ver as pernas e os p\u00e9s da ofendida, porque come\u00e7aram a aparecer-lhe manchas sobretudo nos calcanhares que \u00aberam o in\u00edcio das escaras\u00bb, a arguida impediu-as, dizendo que a ofendida estava bem e que aquele cheiro f\u00e9tido que a sua m\u00e3e ent\u00e3o apresentava, era por estar algaliada.<br \/>Por seu turno, quanto \u00e0 testemunha Ma\u2026, ouvidos os excertos deste depoimento a que o M\u00ba. P\u00ba. alude, nas motiva\u00e7\u00f5es do recurso, efetivamente, (cf. passagens constantes dos minutos 06:10, 06:44, 12:57 e 17:15, do seu depoimento) deles resultam as afirma\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas \u00e0 testemunha pelo recorrente, concretamente, confirmou que, numa segunda feira seguinte ao primeiro internamento hospitalar da sogra, viu manchas negras nos calcanhares da mesma e ficou muito alarmada porque associou aquelas manchas ao surgimento de escaras e tentou inspecionar outras partes do corpo da sogra, mas a arguida demoveu-a de o fazer,\u00a0 dizendo que a senhora estava bem, s\u00f3 um pouco cansada. Tamb\u00e9m se recorda de que a sogra tinha um cheiro, mau e muito intenso e que a arguida o atribuiu \u00e0 alg\u00e1lia.<br \/>Acrescentou que marcou de imediato uma consulta m\u00e9dica para a sogra, mas que, entretanto, nem se concretizou, porque a sogra foi internada pela segunda vez, tendo sido, s\u00f3 aquando deste internamento que toda a fam\u00edlia soube da exist\u00eancia de uma \u00falcera de press\u00e3o na regi\u00e3o sacro de MAR______ \u00a0e que havia estado hospitalizada dois ou tr\u00eas dias antes por causa daquela escara, por informa\u00e7\u00e3o prestada pelo m\u00e9dico que observou a ofendida MAR______ .<br \/>Assistiu \u00e0 desbrida\u00e7\u00e3o da ferida da sua sogra e percebeu que se tratava de uma \u00falcera muito grave.<br \/>Neste contexto probat\u00f3rio e n\u00e3o havendo qualquer motivo para retirar credibilidade a estes depoimentos, posto que assentes em algo que as duas testemunhas viram no corpo da ofendida, importa que, de acordo com os princ\u00edpios da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova previstos no art. 127\u00ba do CPP considerar provado que no dia 26 de Agosto de 2018 a ofendida encontrava-se no aludido lar, apresentando n\u00f3doas negras na zona dos calcanhares (e n\u00e3o tamb\u00e9m na zona inferior das pernas e dos pulsos, porque dos depoimentos destas duas testemunhas apenas resulta terem visto as n\u00f3doas negras nos calcanhares da ofendida e n\u00e3o foi produzido qualquer outro meio de prova acerca destas circunst\u00e2ncias);<br \/>Quanto ao facto n\u00e3o provado em d) o mesmo refere que a ofendida encontrava-se desnutrida.<br \/>Como refere e bem o recorrente, este facto resulta inequ\u00edvoco de fls. 88 do Di\u00e1rio Cl\u00ednico - Urg\u00eancia, do epis\u00f3dio com inicio no dia 24.08.2018, \u00e0s 19:15h, em resultado do qual a ofendida MAR______ \u00a0foi internada no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, EPE, nos dias 24 e 25 de Agosto de 2028.<br \/>Com efeito, na entrada desse di\u00e1rio efetuada pelas 01h24m, est\u00e1 escrito o seguinte:\u00a0<br \/>\u00abUtente prostrada. Reactiva \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o. Pele e mucosas pouco coradas e desidratadas\u00bb.<br \/>Tamb\u00e9m o Di\u00e1rio Cl\u00ednico - Urg\u00eancia, do epis\u00f3dio de urg\u00eancia hospitalar com inicio no dia 28.08.2018, \u00e0s 15:53h, fls. 79 e 80, diz acerca da ofendida MAR______ , que a mesma apresentava, quando foi observada pelas 16:42h, \u00aba pele e mucosas pouco coradas e desidratadas\u00bb.\u00a0<br \/>Do mesmo Di\u00e1rio Cl\u00ednico referente ao mesmo dia, mas \u00e0 observa\u00e7\u00e3o feita \u00e0 ofendida pelas 17h20m, a fls. 81, \u00e9 repetida a men\u00e7\u00e3o a que \u00aba pele e mucosas se apresentavam pouco coradas e desidratadas\u00bb e anotado que a ofendida apresentava um \u00abdeficiente estado geral e nutricional\u00bb.\u00a0<br \/>Segundo, tal Di\u00e1rio Cl\u00ednico, desta feita referente \u00e0 observa\u00e7\u00e3o feita \u00e0 ofendida MAR______ , no dia 29.08.2021, pelas 00:06h, a fls. 82, a mesma tinha para al\u00e9m de \u00falceras de press\u00e3o na regi\u00e3o sagrada com exsudado seroso f\u00e9tido e tecidos desvitalizado\u00bb, pele e mucosas descoradas e desidratadas\u00bb<br \/>Ainda deste Di\u00e1rio Cl\u00ednico, a fls. 82, relativamente \u00e0 observa\u00e7\u00e3o feita \u00e0 ofendida no referido dia 29.08.2021, quando eram 20h03m, consta \u00abProblemas: Desidrata\u00e7\u00e3o e Escaras de Dec\u00fabito\u00bb, de que sofria a ofendida.<br \/>O estado de desnutri\u00e7\u00e3o da ofendida, nas referidas datas \u00e9, pois, evidente, porquanto resulta da observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica a que foi sujeita nos dias 24, 25, 28 e 29 de Agosto de 2018, no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca EPE, tal como documentado nas informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas a que se referem aquelas fls. 79 a 82, as quais, como j\u00e1 se referiu a prop\u00f3sito da al. a) dos factos n\u00e3o provados, n\u00e3o merecem qualquer d\u00favida acerca da fidedignidade entre o respetivo texto e o quadro real de sa\u00fade e estado an\u00edmico e ps\u00edquico da ofendida, de resto, confirmado pela pr\u00f3pria arguida e pelas testemunhas e M\u2026.<br \/>Efetivamente, a pr\u00f3pria arguida referiu que a determinada altura a ofendida MAR______ \u00a0deixou de conseguir comer as refei\u00e7\u00f5es pela pr\u00f3pria m\u00e3o, pelo que dependia de terceiros para providenciar a sua alimenta\u00e7\u00e3o, sendo ela e as suas funcion\u00e1rias quem davam de comer \u00e0 ofendida e, quando confrontada pela Sra. Procuradora Adjunta, com o estado de desnutri\u00e7\u00e3o e desidrata\u00e7\u00e3o assinalado nas observa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas realizadas em 24-25 de Agosto de 2018 e em 28-29 de Agosto de 2018, a que se referem as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas de fls. 67 a 99, respondeu que esse quadro talvez se devesse a uma infe\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria que lhe havia sido diagnosticada tamb\u00e9m no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca EPE (minutos 22:08 e 50:47 das declara\u00e7\u00f5es prestadas em audi\u00eancia no dia 9.09.2021).<br \/>A desnutri\u00e7\u00e3o da ofendida resulta corroborada nos depoimentos das testemunhas e M\u2026, nos excertos em que aludem \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de iogurtes proteicos que foram entregar ao lar para serem consumidos pela ofendida, precisamente porque a mesma estava muito prostrada e cada vez mais debilitada e combalida e recusava comer (minuto 07:32 do depoimento de e minutos 07:10 e 16:03 do depoimento de M\u2026).<br \/>A prova produzida imp\u00f5e, por tudo isto, a considera\u00e7\u00e3o como demonstrado do facto descrito no ponto d) do elenco dos factos n\u00e3o provados, pelo que tamb\u00e9m nesta parte existe erro de julgamento.<br \/>As al\u00edneas e), f), g), h), i), j) e l), referem-se \u00e0 consci\u00eancia da ilicitude da conduta, \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do crime de maus tratos por omiss\u00e3o e aos elementos intelectual e volitivo do dolo que vinham imputados \u00e0 arguida na acusa\u00e7\u00e3o.<br \/>A prop\u00f3sito da considera\u00e7\u00e3o destes factos como n\u00e3o provados, a senten\u00e7a limita-se a dizer que (transcri\u00e7\u00e3o parcial):<br \/>\u00abAssim sendo, no que respeita \u00e0 mat\u00e9ria de facto dada como n\u00e3o provada, o Tribunal, tendo em conta alguma d\u00favida inerente a essa prova da qual n\u00e3o conseguiu tirar ila\u00e7\u00f5es seguras e perante a aus\u00eancia de prova cabal quanto \u00e0 mesma, ou perante a contradi\u00e7\u00e3o com os factos que se mostram provados, foi levado a julg\u00e1-la nesses moldes\u00bb.<br \/>Todavia:<br \/>Que a arguida SMGA_____ sabia do estado cl\u00ednico da ofendida M\u2026<br \/>\u00a0e das suas necessidades resulta, desde logo, por presun\u00e7\u00e3o judicial resultante da aplica\u00e7\u00e3o das regras de experi\u00eancia comum e de crit\u00e9rios de l\u00f3gica \u00e0 idade da mesma ofendida quando foi acolhida como provado no ponto 1) e ao pr\u00f3prio contexto contratual em que a mesma ofendida foi acolhida no Lar ... Unipessoal, Lda, como resulta ilustrado, respetivamente, e nos pontos 3 a 5 e 15 da mat\u00e9ria de facto provada<br \/>A arguida \u00e9 que era a respons\u00e1vel pela gest\u00e3o desta empresa, de cuja explora\u00e7\u00e3o lucrativa fazia modo de vida, pelo que, segundo o que \u00e9 de esperar segundo crit\u00e9rios de normalidade do que s\u00e3o os \u00abusos do com\u00e9rcio\u00bb a que este tipo de atividade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de assist\u00eancia a pessoas idosas, nem ela poderia deixar de tomar conhecimento das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, ps\u00edquicas e estado geral de sa\u00fade das pessoas que admite para serem acolhidas no Lar, at\u00e9 porque teria necessariamente de saber da eventual exist\u00eancia de restri\u00e7\u00f5es alimentares, do tipo de medica\u00e7\u00e3o e periodicidade di\u00e1ria em que a mesma deveria ser ministrada, etc.<br \/>De resto, a pr\u00f3pria arguida, ao longo das suas declara\u00e7\u00f5es em audi\u00eancia de discuss\u00e3o e julgamento, prestadas no dia 9 de Setembro de 2021, revelou sempre saber muito bem qual o estado f\u00edsico e de sa\u00fade da ofendida, sendo particularmente revelador o excerto correspondente ao minuto 24:06 em que refere \u00aba Dona A\u2026 j\u00e1 n\u00e3o era uma senhora aut\u00f3noma\u00bb.\u00a0<br \/>Nem outra conclus\u00e3o seria compreens\u00edvel, de acordo com o mais elementar senso comum.<br \/>Por outro lado, o depoimento da testemunha M\u2026, nora da ofendida corrobora esta conclus\u00e3o, pois a referida testemunha explicou que a arguida tomou conhecimento dos diversos problemas de sa\u00fade da ofendida, designadamente os problemas de mobilidade e de vis\u00e3o (cf. passagem constante do minuto 14:55, do seu depoimento).<br \/>Depois, considerando que a senhora j\u00e1 tinha 80 anos quando foi admitida naquele Lar, bem como o objeto social deste que era precisamente o de cuidar de pessoas idosas, s\u00f3 por uma total inconsidera\u00e7\u00e3o, irreflex\u00e3o e falta de pensamento cr\u00edtico da arguida \u00e9 que esta n\u00e3o teria como saber e n\u00e3o sabia que tinha perante si uma pessoa a precisar de cuidados de sa\u00fade, higiene, alimenta\u00e7\u00e3o e todos os necess\u00e1rios \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das suas necessidades e ao desenvolvimento da sua personalidade, pois foi precisamente para essa finalidade que M\u2026.<br \/>ali ingressou e esse era tamb\u00e9m o objeto social da empresa \u201c...\u201d Unipessoal, Lda. cuja atividade era a de lar de idosos, apoio geri\u00e1trico, centro de dia, apoio domicili\u00e1rio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos e de enfermagem, como descrito nos pontos 2) e 3) da mat\u00e9ria de factos provada.<br \/>Por isso, como refere e muito bem o recorrente:<br \/>\u00ab\u00c9 at\u00e9 contraintuitivo afirmar que sendo a arguida a respons\u00e1vel pelo lar (facto provado 5), que tinha como fun\u00e7\u00f5es, entre outras, administrar a medica\u00e7\u00e3o prescrita aos utentes, mudar pensos, alimentar e informar os m\u00e9dicos de qualquer altera\u00e7\u00e3o dos estado de sa\u00fade dos utentes (facto provado 15), n\u00e3o tivesse conhecimento do estado cl\u00ednico da ofendida e que n\u00e3o soubesse que esta necessitava da administra\u00e7\u00e3o de diversos medicamentos, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem e de higiene, bem como de alimenta\u00e7\u00e3o.\u00bb<br \/>No que se refere \u00e0s al\u00edneas f) e g) dos factos n\u00e3o provados, o seu conte\u00fado \u00e9 o que mais incisivamente se refere \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do crime de maus tratos por omiss\u00e3o e \u00e9 o seguinte:\u00a0<br \/>f) Que a arguida, como respons\u00e1vel daquele lar, conhecendo a situa\u00e7\u00e3o da ofendida, n\u00e3o lhe prestou os cuidados devidos, nomeadamente, n\u00e3o adequou a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da ofendida, n\u00e3o chamou o m\u00e9dico\/enfermeiro para mudar o penso da \u00falcera, que a ofendida tinha, deixando assim agravar aquele ferimento.<br \/>g) Que ap\u00f3s a ofendida ter regressado ao lar, no dia 26 de Agosto de 2018, a arguida continuou a n\u00e3o providenciar por uma alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e0 ofendida, n\u00e3o determinou que se procedesse \u00e0 limpeza da ferida da ofendida, n\u00e3o lhe mudou o penso, nem a colocou numa cama com colch\u00e3o adequado, de forma a permitir a cicatriza\u00e7\u00e3o daquele ferimento.<br \/>Resultou, desde logo, das declara\u00e7\u00f5es da arguida, que n\u00e3o havia m\u00e9dico contratado para prestar a devida assist\u00eancia aos utentes, nem enfermeiros, porque havia dificuldades econ\u00f3micas, nem auxiliares de Ac\u00e3o m\u00e9dica (cujo n\u00famero m\u00ednimo legalmente exigido nem sequer sabia, como o minuto 20:04 das suas declara\u00e7\u00f5es evidencia) porque as mensalidades pagas pelos idosos eram baixas, pelo que, quando algu\u00e9m adoecia, chamava \u00abm\u00e9dicos particulares\u00bb.\u00a0<br \/>Isto mesmo, foi tamb\u00e9m confirmado pelas testemunhas A\u2026 e B\u2026, respetivamente, m\u00e9dico e \u201ccoach de enfermagem\u201d que prestavam servi\u00e7os ocasionais ao lar, sem nenhum v\u00ednculo contratual.<br \/>Como refere o recorrente, \u00e9 muito sintom\u00e1tico que o m\u00e9dico A\u2026, que prestava servi\u00e7os ocasionais e espor\u00e1dicos no lar, nunca tenha tratado ou observado a ofendida MAR______ \u00a0(excerto do minuto 04:36, do seu depoimento), nem nunca lhe tenha sido pedida ajuda ou conselho pela arguida SMGA_____ quanto\u00a0 aos cuidados m\u00e9dicos ou de enfermagem a prestar \u00e0 ofendida em virtude da les\u00e3o que apresentava (excerto do minuto 08:47, do seu depoimento), o que revela a desvaloriza\u00e7\u00e3o que a arguida fez, da gravidade do estado de evolu\u00e7\u00e3o daquela \u00falcera de press\u00e3o.\u00a0\u00a0<br \/>Tamb\u00e9m o depoimento prestado pela testemunha F\u2026 que chegou a ser diretora t\u00e9cnica de um lar de idosos que a arguida explorou em Odivelas, tendo sido contratada pela arguida ajuda a perceber e refor\u00e7a a falta de condi\u00e7\u00f5es adequadas do lar explorado pela arguida para prestar cuidados de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e bem estar aos idosos ali acolhidos e a pouca ou nenhuma sensibilidade da arguida para a necessidade de alterar esse estado de coisas, como deflu\u00ed da circunst\u00e2ncia de nem sequer existir um diretor t\u00e9cnico tendo sido esta testemunha quem, como amiga da arguida, lhe deu alguma ajuda, quanto aos requisitos legais para a abertura do lar em Queluz (aquele em que ocorreram os factos objeto deste processo), mas onde s\u00f3 esteve uma ou duas vezes.<br \/>Segundo a mesma arguida, tamb\u00e9m n\u00e3o dispunha de auxiliares em n\u00famero suficiente para o n\u00famero de utentes. S\u00f3 tinha seis auxiliares \u00abnormais\u00bb (dos que n\u00e3o s\u00e3o auxiliares de a\u00e7\u00e3o m\u00e9dica), porque, adiantou, havia muita falta de pessoal.<br \/>S\u00e3o particularmente elucidativas as afirma\u00e7\u00f5es da arguida de que, primeiro, a ofendida comia como todos os outros utentes, que demorava muito tempo a comer e que a partir de determinada altura deixou de conseguir comer sozinha, a de que, entre o momento em que se apercebeu dos primeiros sinais de \u00falcera de press\u00e3o na zona sacro do corpo da ofendida MAR______ , at\u00e9 ao dia 24 de Agosto de 2018, quando ocorreu o primeiro epis\u00f3dio de urg\u00eancia e internamento hospitalar decorreram dois a tr\u00eas meses em que ia aplicando pomadas e fazendo pensos numa escara que descambou numa \u00falcera de press\u00e3o de grau IV, ou seja, no \u00faltimo est\u00e1dio de evolu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e que foi fazendo o penso, a cada dois dias, julgando que conseguia, ela pr\u00f3pria, tratar uma \u00falcera com aquelas dimens\u00f5es e gravidade e apenas levou a ofendida ao hospital, dois dias depois de se ter apercebido que a ferida deitava l\u00edquido, \u00abn\u00e3o estava bonita\u00bb e tinha \u00abum bocadinho de cheiro\u00bb (excertos constantes dos minutos 22:13, 27:13, 55:37 das declara\u00e7\u00f5es que prestou ao Tribunal).<br \/>Ora, estas express\u00f5es de que a ferida deitava l\u00edquido, \u00abn\u00e3o estava bonita\u00bb e tinha \u00abum bocadinho de cheiro\u00bb, face ao que consta das informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas de fls. 67 a 99 dos autos e ao facto provado em 7., s\u00f3 podem ser interpretadas como um eufemismo para a \u00ab\u00falcera de press\u00e3o de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido, apresentava um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade\u00bb que a ofendida apresentava no dia 24 de Agosto de 2018, quando deu entrada no Hospital Prof. Doutor Fernando Fonseca EPE.\u00a0<br \/>Acresce que segundo a descri\u00e7\u00e3o da testemunha AM____ \u00a0esta ferida evidenciava aus\u00eancia de cuidados de sa\u00fade e m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o, porque a \u00falcera apresentada pela ofendida, al\u00e9m de grandes dimens\u00f5es e rompimento dos m\u00fasculos com perda irrevers\u00edvel dos tecidos, tinha exposi\u00e7\u00e3o \u00f3ssea.<br \/>Esclareceu, ainda, como surge e se desenvolve todo o processo de forma\u00e7\u00e3o de uma \u00falcera de press\u00e3o com as caracter\u00edsticas daquela que a ofendida MAR______ \u00a0apresentava: desde o grau I, traduzido numa macera\u00e7\u00e3o da pele, uma mancha vermelha que n\u00e3o desparece ao fim de uma\/duas horas depois de pressionada, o grau II ou flitena que se manifesta numa bolha que rebenta com l\u00edquido transparente, o grau III que \u00e9 uma ferida emergente ap\u00f3s o rebentamento da bolha e atinge os m\u00fasculos, sendo por vezes necess\u00e1rio para evitar a cria\u00e7\u00e3o de tecidos necrosados, ministrar medica\u00e7\u00e3o antibi\u00f3tica e em situa\u00e7\u00f5es mais graves, recorrer a tratamento hospitalar com desbridamento para evitar a prolifera\u00e7\u00e3o dos tecidos necrosados e permitir a regenera\u00e7\u00e3o dos tecidos, at\u00e9 ao grau IV que corresponde \u00e0quele em que estava a \u00falcera de press\u00e3o na zona sacro do corpo da ofendida em Agosto de 2018, que apresenta falta de carne e exposi\u00e7\u00e3o \u00f3ssea.<br \/>Tamb\u00e9m esclareceu que a falta de prote\u00ednas sobretudo, carne, peixe e ovos, na alimenta\u00e7\u00e3o e falta de mudan\u00e7a de posicionamento do corpo de duas em duas ou de tr\u00eas em tr\u00eas horas e em diferentes posi\u00e7\u00f5es por forma a assegurar per\u00edodos de seis horas sem press\u00e3o sobre a zona do corpo afetada s\u00e3o as principais causas para o surgimento de escaras.<br \/>A prop\u00f3sito deste depoimento, a motiva\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto da senten\u00e7a recorrida refere que importa fazer \u00aba distin\u00e7\u00e3o clara entre uma testemunha e um perito, a testemunha n\u00e3o observou a ofendida, limitou-se a fazer um penso nos \u00faltimos dias, pelo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel valorar o seu depoimento nesta parte, j\u00e1 que n\u00e3o responde \u00e0 quest\u00e3o: o que concretamente provocou aquela \u00falcera e n\u00e3o as suas causas gen\u00e9ricas.\u00bb.<br \/>Ora, a verdade \u00e9 que esta testemunha \u00e9 enfermeira de profiss\u00e3o, faz parte de uma associa\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da preven\u00e7\u00e3o e tratamento das \u00falceras de press\u00e3o, sabe do que fala, quando fala acerca de escaras e do seu processo evolutivo e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o, em face ao seu conhecimento direto dos factos, por ter observado e feito um curativo \u00e0quela \u00falcera e da forma desinteressada como dep\u00f4s, para n\u00e3o valorar o seu depoimento.<br \/>Esta testemunha examinou a ferida na zona do dec\u00fabito da ofendida e p\u00f4de constatar a sua gravidade e o risco de evoluir para uma septic\u00e9mia e poss\u00edvel morte, tendo disso dado conhecimento ao neto da ofendida que foi a pessoa que a chamou para fazer novo penso \u00e0 ferida da av\u00f3, logo depois de a mesma ter tido alta hospitalar do segundo epis\u00f3dio de urg\u00eancia e internamento nos dias 28-29 de Agosto de 2018.<br \/>S\u00e3o tamb\u00e9m muito elucidativos os depoimentos das testemunhas A\u2026 e M\u2026, nos relatos coincidentes entre si e com a vers\u00e3o apresentada pela arguida sobre toda a sucess\u00e3o de acontecimentos relacionados com a condu\u00e7\u00e3o da sua m\u00e3e e sogra ao Hospital Professor Doutro Fernando Fonseca, EPE nos dias 24 e 25 de Agosto de 2018, com o segundo epis\u00f3dio de urg\u00eancia e internamento hospitalar entre os dias 28 de Agosto de 2018 e 5 de Setembro seguinte e os motivos desses internamentos e assist\u00eancia hospitalar.<br \/>Por fim, os Di\u00e1rios Cl\u00ednicos de fls. 67 a 99 s\u00e3o inequ\u00edvocos, quanto ao estado de desnutri\u00e7\u00e3o e desidrata\u00e7\u00e3o da ofendida, bem como \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da \u00falcera de dec\u00fabito que a ofendida apresentava e \u00e0 falta de cuidados de enfermagem adequados ao tratamento desta \u00falcera, de que s\u00e3o reflexo os factos provados em 7) a 12), dos quais resulta, em s\u00edntese que quando a ofendida deu entrada no Hospital Amadora-Sintra, no dia 24 de Agosto, apresentava-se prostrada, com sa\u00edda de urina com cheiro f\u00e9tido, bem com apresentava uma \u00falcera de press\u00e3o de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido, apresentava um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade e regressou ao Hospital Doutor Fernando da Fonseca, no dia 28 de Agosto de 2018, pelas 15:53, porque o seu estado de sa\u00fade se agravou, sendo que\u00a0 se apurou que a ofendida mantinha uma \u00falcera exsudado seroso e f\u00e9tido e tecido necrosado, tendo sido determinado o seu internamento por apresentar prov\u00e1vel infec\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, \u00falcera de press\u00e3o na regi\u00e3o sagrada e hipernatremia e desidrata\u00e7\u00e3o e\u00a0 \u00e0 data da sua da alta cl\u00ednica, que ocorreu no dia 5 de Setembro de 2018, a ofendida apresentava \u00falcera na regi\u00e3o sagrada, com cerca de 5x8cms de di\u00e2metro e 3cms de profundidade, com tecido desvitalizado no bordo externo, mas sem exsudado purulento e sem eritema peri lesional e \u00falcera de dec\u00fabito superficial na regi\u00e3o do ombro esquerdo, com cerca de 1 cm de di\u00e2metro, sem exsudado e sem eritema.<br \/>Ora, se a ofendida estava aos cuidados de um lar de idosos por cuja gest\u00e3o a arguida era a \u00fanica respons\u00e1vel, como provado em 2), 3), 5) e 15) da mat\u00e9ria de facto provada e sabendo-se, porque se trata de factos de conhecimento geral decorrentes de um grau m\u00ednimo de experi\u00eancia de vida e da vulgariza\u00e7\u00e3o e massifica\u00e7\u00e3o de certos ensinamentos b\u00e1sicos da ci\u00eancia m\u00e9dica ao alcance de todos n\u00f3s, que nem uma \u00falcera de press\u00e3o, nem os estados de desnutri\u00e7\u00e3o e de desidrata\u00e7\u00e3o s\u00e3o fen\u00f3menos s\u00fabitos ou de emerg\u00eancia espont\u00e2nea, ou de um dia para o outro, antes constituem condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas que s\u00e3o o culminar de um processo mais ou menos prolongado no tempo e que s\u00e3o fortemente indicadores da qualidade (ou falta dela) dos cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene, sa\u00fade e bem estar f\u00edsico prestados \u00e0 pessoa que os apresenta, tem igualmente de se concluir pela total contradi\u00e7\u00e3o entre a prova produzida e a considera\u00e7\u00e3o como n\u00e3o provados dos factos descritos sob as al\u00edneas f) e g) que resultam, efectivamente, demonstrados, porque a arguida \u00e9 que tinha o dever de providenciar pela presta\u00e7\u00e3o dos necess\u00e1rios cuidados de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e conforto adequados a prevenir quer os estados de desidrata\u00e7\u00e3o e desnutri\u00e7\u00e3o que a ofendida apresentava, quer a progress\u00e3o do que come\u00e7ou por ser uma macera\u00e7\u00e3o da pele, para degenerar numa \u00falcera de press\u00e3o de grandes dimens\u00f5es e profundidade num m\u00e1ximo est\u00e1dio de evolu\u00e7\u00e3o at\u00e9 expor o osso, ao inv\u00e9s de ter deixado passar entre dois a tr\u00eas meses, segundo o que a pr\u00f3pria arguida afirmou, sem providenciar pelos necess\u00e1rios cuidados de enfermagem e m\u00e9dicos que se mostrassem necess\u00e1rios.\u00a0<br \/>Por fim os factos n\u00e3o provados nas al\u00edneas h), i), j) e l), referem-se aos elementos intelectual e volitivo do dolo e \u00e0 consci\u00eancia da ilicitude e t\u00eam a seguinte redac\u00e7\u00e3o:<br \/>h) Que agiu a arguida sabendo que iria provocar danos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos \u00e0<br \/>ofendida, como consequ\u00eancia necess\u00e1ria das suas condutas.<br \/>i) Que ao recusar a prestar aqueles cuidados de sa\u00fade, sabia que punha em perigo a sa\u00fade, a integridade f\u00edsica e mesmo a vida da ofendida, bem sabia que causava nesta desespero, intranquilidade e receio pela sua seguran\u00e7a e bem estar.<br \/>j) Que a arguida agiu com desrespeito pela condi\u00e7\u00e3o e dignidade humana da ofendida, n\u00e3o lhe aliviando a dor, recusando-se a prestar-lhe a assist\u00eancia para a qual estava perfeitamente apta a realizar.<br \/>l) Que mais sabia que as suas condutas eram punidas e proibidas por lei.<br \/>Ora, depois de tudo quanto ficou expresso sobre a insustentabilidade l\u00f3gica da senten\u00e7a recorrida na considera\u00e7\u00e3o como n\u00e3o provados dos factos a que se referem as al\u00edneas a) a g) da mat\u00e9ria de facto n\u00e3o provada, para concluir que os mesmos resultam demonstrados e do que resulta descrito nos pontos 1) a 15) da mat\u00e9ria de facto provada, ouvidas as declara\u00e7\u00f5es da arguida, que se apresentou como uma pessoa dotada de intelig\u00eancia, conhecimento e liberdade, portanto, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nenhuma d\u00favida se suscita sobre a sua imputabilidade, acrescendo a circunst\u00e2ncia, por ela pr\u00f3pria relatada de que durante cerca de dez anos explorou lares de idosos e trabalhou nas mais variadas tarefas de presta\u00e7\u00e3o de cuidados espec\u00edfica desta popula\u00e7\u00e3o s\u00f3 por uma muito extraordin\u00e1ria e de todo em todo improv\u00e1vel coincid\u00eancia \u00e9 que poderiam n\u00e3o ser considerados provados estes factos exarados nestas al\u00edneas h) a l).<br \/>Relembra-se que o dolo \u00e9 um fen\u00f3meno psicol\u00f3gico que, situando-se na vida interior de cada um, s\u00f3 \u00e9 observ\u00e1vel diretamente por quem o experiencia. Da sua natureza subjetiva, nasce a sua insusceptibilidade de apreens\u00e3o directa por terceiros.<br \/>Assim como acontece em geral com os actos interiores ou factos internos, respeitantes \u00e0 vida ps\u00edquica, que raramente se provam directamente, porque n\u00e3o s\u00e3o externamente observ\u00e1veis, tamb\u00e9m a demonstra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia do dolo \u00e9 frequentemente feita por infer\u00eancia ou dedu\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, partindo dos factos conhecidos que s\u00e3o os modos de execu\u00e7\u00e3o dos tipos de crime, associados \u00e0 capacidade de discernimento e \u00e0 liberdade de vontade do autor desses factos e demais circunst\u00e2ncias que contextualizam a pr\u00e1tica do crime.<br \/>E, assim se prova o dolo, com base em prova indirecta, t\u00e3o v\u00e1lida quanto seria, caso o arguido tivesse confessado integralmente e sem reservas os factos.<br \/>\u00abA prova do dolo faz-se, normalmente, de forma indirecta, com recurso a infer\u00eancias l\u00f3gicas e presun\u00e7\u00f5es ligadas ao princ\u00edpio da normalidade ou \u00e0s chamadas m\u00e1ximas da vida e regras da experi\u00eancia, pelo que, na aus\u00eancia de confiss\u00e3o, em que o arguido reconhece ter sabido e querido os factos que realizam um tipo objectivo de crime e ter consci\u00eancia do seu car\u00e1cter il\u00edcito, a prova ter\u00e1 de fazer-se por ila\u00e7\u00f5es, a partir de ind\u00edcios, atrav\u00e9s de uma leitura do comportamento exterior e vis\u00edvel do agente.\u00bb (Ac. da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 15.12.2015, processo 200\/15.9PBOER.L1-5. No mesmo sentido Ac. da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 18.03.2015, processo 400\/13.6PDPRT.P1, de 31.10.20218, proc. 423\/16.3PBVLG.P1, da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 09.07.2020, proc. 135\/16.8GELSB.L1-9, da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 10.11.2021, proc. 229\/19.8GCVFR.P1in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt. No mesmo sentido Ragu\u00e9s i Vall\u00e9s, El dolo y su prueba en el proceso penal, p\u00e1g. 243).<br \/>O Tribunal Europeu dos Direitos do Homem a respeito do sil\u00eancio do arguido e das presun\u00e7\u00f5es judiciais e tendo presente o artigo 6\u00ba da CEDH no seu ac\u00f3rd\u00e3o de 20.03.2001 (Caso Telfner c. \u00c1ustria), tamb\u00e9m considerou que \u00abas presun\u00e7\u00f5es legais (de culpa) e o ju\u00edzo que se fa\u00e7a do sil\u00eancio do arguido n\u00e3o s\u00e3o, em regra e s\u00f3 por si, incompat\u00edveis com a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia\u00bb.<br \/>Do mesmo modo, o Tribunal Constitucional vem decidindo, o artigo 127\u00ba do C\u00f3digo de Processo Penal permite o recurso a presun\u00e7\u00f5es judiciais, \u00e9 compat\u00edvel com a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, consagrada no artigo 32\u00ba n\u00ba 2 da Constitui\u00e7\u00e3o, e ainda com o dever de fundamentar as decis\u00f5es judiciais, imposto pelo artigo 205\u00ba n\u00ba 1 da Constitui\u00e7\u00e3o ( Ac. Tribunal Constitucional n\u00ba 391\/2015, em DR n\u00ba 224, II S\u00e9rie, de 16\/11\/2015, e Ac. do TC n\u00ba 521\/2018 de 17 Out. 2018, Processo 321\/2018\u00a0http:\/\/www.tribunalconstitucional.pt\/tc\/\/tc\/acordaos\/20180521.html).<br \/>Por \u00faltimo, importa, tecer as seguintes considera\u00e7\u00f5es:<br \/>Um Juiz n\u00e3o pode resumir a sua atividade de valora\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise cr\u00edtica da prova a considerar os factos provados apenas quando exista confiss\u00e3o integral e sem reservas do arguido e, quando ela n\u00e3o aconte\u00e7a e apenas porque o arguido nega a autoria dos factos pelos quais se encontra acusado ou tenta encontrar algum tipo de explica\u00e7\u00e3o para certos desfechos, considerar esses factos n\u00e3o provados.<br \/>N\u00e3o que as declara\u00e7\u00f5es de um arguido n\u00e3o possam, por si s\u00f3, no confronto com os demais meios de prova, fundamentar a sua pr\u00f3pria absolvi\u00e7\u00e3o.<br \/>Num sistema, como o processual penal portugu\u00eas, de livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova, n\u00e3o tem qualquer efic\u00e1cia jur\u00eddica o aforismo \u201ctestis unus testis nullus\u201d, pelo que, um \u00fanico depoimento, mesmo sendo o da pr\u00f3pria v\u00edtima, pode ilidir a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia e fundamentar uma condena\u00e7\u00e3o, do mesmo modo que as declara\u00e7\u00f5es do arguido por si s\u00f3, isoladamente consideradas, podem fundamentar a sua absolvi\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/>\u00ab\u00c9 hoje consensual que um \u00fanico testemunho, pode ser suficiente para desvirtuar a presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia desde que ocorram: a) aus\u00eancia de incredibilidade subjetiva derivada das rela\u00e7\u00f5es arguido\/v\u00edtima ou denunciante que possam conduzir \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um m\u00f3bil de ressentimento, ou inimizade; b) verosimilhan\u00e7a \u2013 o testemunho h\u00e1-de estar rodeado de certas corrobora\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas de car\u00e1cter objetivo que o dotem de aptid\u00e3o probat\u00f3ria; c) persist\u00eancia na incrimina\u00e7\u00e3o, prolongada no tempo e reiteradamente expressa e exposta sem ambiguidades ou contradi\u00e7\u00f5es (Nesse sentido, cfr., entre outros, Ant\u00f3nio Pablo Rives Seva, La Prueba en el Processo Penal-Doctrina de la Sala Segunda del Tribunal Supremo, Pamplona, 1996, pp.181-187)\u00bb (Ac. da Rela\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es de 07.12.2018, processo 40\/17.0PBCHV.G1, in http:\/\/www.dgsi.pt).<br \/>Mas o que \u00e9 imperativo, \u00e9 que esse \u00fanico testemunho ou essas \u00fanicas declara\u00e7\u00f5es se mostrem veros\u00edmeis, plaus\u00edveis, consistentes com regras de experi\u00eancia e senso comum e da l\u00f3gica humana, para al\u00e9m de toda a d\u00favida razo\u00e1vel e, no confronto com todos os outros meios de prova, se possa concluir que esse \u00fanico meio de prova \u00e9 cred\u00edvel e os demais n\u00e3o merecem a mesma confiabilidade, quanto \u00e0 sua capacidade de reproduzir aquilo que realmente aconteceu.<br \/>Ou seja, \u00e9 preciso que esse meio de prova isolado gere uma d\u00favida racional que ilida a certeza contr\u00e1ria, ou ao contr\u00e1rio, crie uma certeza que afaste a d\u00favida, em suma, que alicerce de forma consistente ou impe\u00e7a de forma igualmente consistente a convic\u00e7\u00e3o do tribunal.<br \/>Se n\u00e3o for o caso, como n\u00e3o foi, no caso vertente, \u00e9 imperioso ter uma vis\u00e3o global e globalizante da prova, fazer correla\u00e7\u00f5es e compara\u00e7\u00f5es cr\u00edticas entre os diversos meios de prova produzidos e colocar a informa\u00e7\u00e3o obtida, atrav\u00e9s de todos e cada um deles, sob o crivo da razoabilidade e da l\u00f3gica humanas, das regras de bom senso e de experi\u00eancia comum, de certos conhecimentos cient\u00edficos que, de t\u00e3o massificados, j\u00e1 integram o patrim\u00f3nio cultural de uma comunidade, porque isso \u00e9 que \u00e9 o que corresponde ao exame cr\u00edtico das provas e ao exerc\u00edcio da livre convic\u00e7\u00e3o do julgador.\u00a0<br \/>\u00abO julgador, em vez de se encontrar ligado a normas prefixadas e abstratas sobre a aprecia\u00e7\u00e3o da prova, tem apenas de se subordinar \u00e0 l\u00f3gica, \u00e0 psicologia e \u00e0s m\u00e1ximas da experi\u00eancia\u00bb (Cavaleiro de Ferreira, Curso de Processo Penal, II, p. 298).<br \/>Ora, as regras da experi\u00eancia s\u00e3o crit\u00e9rios gerais, \u00edndices corrig\u00edveis, que definem conex\u00f5es de relev\u00e2ncia, orientam os caminhos da investiga\u00e7\u00e3o e oferecem probabilidades conclusivas, que servem para produzir prova de primeira apar\u00eancia, baseadas na experi\u00eancia de vida, argumentos que ajudam a explicar o caso particular por refer\u00eancia ao que \u00e9 normal acontecer, em situa\u00e7\u00f5es semelhantes, embora sem excluir que o caso particular n\u00e3o se reconduza ao caso t\u00edpico.<br \/>As regras de experi\u00eancia comum s\u00e3o \u00abdefini\u00e7\u00f5es ou ju\u00edzos hipot\u00e9ticos de conte\u00fado gen\u00e9rico, independentes do caso concreto \u00absub judice\u00bb, assentes na experi\u00eancia comum, e por isso independentes dos casos individuais em cuja observa\u00e7\u00e3o se alicer\u00e7am, mas para al\u00e9m dos quais t\u00eam validade.\u00bb (Cavaleiro de Ferreira, Curso de Processo Penal, Vol. II, p\u00e1g. 300).<br \/>\u00abAs regras de experi\u00eancia, os crit\u00e9rios gerais n\u00e3o ser\u00e3o aqui mais do que \u00edndices corrig\u00edveis, crit\u00e9rios que definem conex\u00f5es de relev\u00e2ncia, orientam os caminhos da investiga\u00e7\u00e3o e oferecem probabilidades conclusivas, mas apenas isso \u2013 \u00e9 assim em geral, em regra, mas s\u00ea-lo-\u00e1 realmente no caso a julgar ?\u00bb (Castanheira Neves, Sum\u00e1rios de Processo Criminal (1967-1968), Coimbra, 1968, pp 47-48).<br \/>\u00abAs regras da experi\u00eancia ou regras de vida como ensinamentos emp\u00edricos que o simples facto de viver nos concede em rela\u00e7\u00e3o ao comportamento humano e que se obt\u00e9m mediante uma generaliza\u00e7\u00e3o de diversos casos concretos tendem a repetir-se ou a reproduzir-se logo que sucedem os mesmos factos que serviram de suporte para efectuar a generaliza\u00e7\u00e3o. \u00abEstas considera\u00e7\u00f5es facilitam a l\u00f3gica de racioc\u00ednio judicial porquanto se baseia na prov\u00e1vel semelhan\u00e7a das condutas humanas realizadas em circunst\u00e2ncias semelhantes, a menos que outra coisa resulte no caso concreto que se analisa, ou porque se demonstre a exist\u00eancia de algo que aponte em sentido contr\u00e1rio ou porque a experi\u00eancia ou perspic\u00e1cia indicam uma conclus\u00e3o contr\u00e1ria\u00bb Santos Cabral, em Prova Indici\u00e1ria e as novas formas de criminalidade, Julgar n.\u00ba 17,\u00a0http:\/\/julgar.pt\/prova-indiciaria-e-as-novas-formas-decriminalidade\/. No mesmo sentido, Paulo de Sousa Mendes, A Prova Penal e as Regras da experi\u00eancia, Estudos em Homenagem ao prof. Figueiredo Dias, III, p.1002 e, particularmente, 1011).<br \/>O princ\u00edpio da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova consagrado no art. 127\u00ba do CPP, pese embora d\u00ea ao Juiz alguma margem de liberdade, n\u00e3o pode resultar de opini\u00f5es, cren\u00e7as, impress\u00f5es ou outras raz\u00f5es meramente subjectivas, porque tem como contrapartida, ser um instrumento de descoberta da verdade material, portanto, visa a reconstitui\u00e7\u00e3o dos factos da forma mais fidedigna poss\u00edvel \u00e0 sua realidade hist\u00f3rica.<br \/>A livre convic\u00e7\u00e3o \u00e9 um mecanismo de descoberta da verdade, mas n\u00e3o \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o infundada da verdade.\u00a0\u00a0<br \/>A aprecia\u00e7\u00e3o da prova \u00e9 livre, por\u00e9m, n\u00e3o pode ser arbitr\u00e1ria. Tem de alicer\u00e7ar-se num processo l\u00f3gico-racional, de que resultem objectivados, \u00e0 luz das m\u00e1ximas de experi\u00eancia, do senso comum, de razoabilidade e dos conhecimentos t\u00e9cnicos e cient\u00edficos, os motivos pelos quais o Tribunal valorou as provas naquele sentido e lhes atribuiu aquele significado global e n\u00e3o outro qualquer.<br \/>Trata-se de uma \u00abliberdade de acordo com um dever \u2013 o dever de perseguir a chamada verdade material \u2013 de tal sorte que a aprecia\u00e7\u00e3o h\u00e1-de ser, em concreto, recondut\u00edvel a crit\u00e9rios objectivos e suscept\u00edveis de motiva\u00e7\u00e3o e controlo\u00bb (Figueiredo Dias, Direito Processual Penal, 2004, p. 202-3)<br \/>\u00abA liberdade de que aqui se fala n\u00e3o \u00e9, nem deve implicar nunca o arb\u00edtrio, ou sequer a decis\u00e3o irracional, puramente impressionisto-emocional que se furte, num incondicional subjetivismo, \u00e0 fundamenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o. Trata-se antes de uma liberdade para a objetividade \u2013 n\u00e3o aquela que permita uma \u201cintime conviction\u201d, meramente intuitiva, mas aquela que se determina por uma inten\u00e7\u00e3o de objetividade, aquela que se concede e que se assume em ordem a fazer triunfar a verdade objetiva, i. \u00e9, uma verdade que transcenda a pura subjetividade e que se comunique e imponha aos outros\u00bb (Castanheira Neves, Sum\u00e1rios de Processo Criminal (1967-68), Coimbra, 1968, p\u00e1gs. 50-51).<br \/>O princ\u00edpio da verdade material \u00e9 um princ\u00edpio com dignidade constitucional, sendo certo que a justi\u00e7a material baseada na verdade dos factos \u00e9 um direito indispon\u00edvel. \u00ab(...) No processo penal, vigora o princ\u00edpio da liberdade de prova, no sentido de que, em regra, todos os meios de prova s\u00e3o igualmente aptos e admiss\u00edveis para o apuramento da verdade material, pois nenhum facto tem a sua prova ligada \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de um certo meio de prova pr\u00e9estabelecido pela lei. E recorda-se que tamb\u00e9m a busca da verdade material \u00e9, no processo penal, um dever \u00e9tico e jur\u00eddico.<br \/>\u00c9 que o Estado, como titular que \u00e9 do \u00abjus puniendi\u00bb, est\u00e1 interessado em que os culpados de atos criminosos sejam punidos; s\u00f3 tem, por\u00e9m, interesse em punir os verdadeiros culpados\u00bb (Ac. do Tribunal Constitucional n\u00ba 578\/98. No mesmo sentido, Acs. do TC n\u00ba 137\/2012 e 198\/2004, in http:\/\/www.tribunalconstitucional.pt\u00a0e Marques Ferreira, Jornadas de Direito Processual Penal, O Novo C\u00f3digo de Processo Penal, 1988, 229\/30).<br \/>Por isso mesmo envolve um esfor\u00e7o intelectual e de racioc\u00ednio cr\u00edtico na interpreta\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o que todos os meios de prova produzidos s\u00e3o aptos a produzir de forma global e globalizante e \u00e9 tamb\u00e9m por isso que a fixa\u00e7\u00e3o dos factos tem de ser acompanhada de fundamenta\u00e7\u00e3o sobre os motivos da convic\u00e7\u00e3o do julgador.\u00a0<br \/>Envolve um esfor\u00e7o de razoabilidade.<br \/>\u00c9 que essa fundamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve apenas, nem o prop\u00f3sito de legitima\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da decis\u00e3o judicial, nos termos consagrados nos arts. 205\u00ba da CRP e 97\u00ba, 374\u00ba e 379\u00ba do CPP, nem s\u00f3 a possibilidade de sindic\u00e2ncia da decis\u00e3o em sede de recurso, seja em revista alargada (art. 410\u00ba do CPP), seja em impugna\u00e7\u00e3o ampla (art. 412\u00ba do CPP).<br \/>Ela \u00e9 um instrumento de autocontrole do arb\u00edtrio do pr\u00f3prio Juiz ou Coletivo de Ju\u00edzes que assistiu \u00e0 discuss\u00e3o da causa em julgamento, na fixa\u00e7\u00e3o dos factos, na medida em que \u00e9 na fonte da informa\u00e7\u00e3o, na sua credibilidade que est\u00e1 o derradeiro teste ao acerto da considera\u00e7\u00e3o de um determinado facto como provado ou como n\u00e3o provado. E isto tanto em rela\u00e7\u00e3o aos meios de prova n\u00e3o catalogados, quanto aos meios de prova cuja for\u00e7a probat\u00f3ria est\u00e1 pr\u00e9-estabelecida legalmente (v.g., confiss\u00e3o integral e sem reservas, prova pericial e documentos aut\u00eanticos e autenticados).\u00a0<br \/>\u00c9 o que determina a fronteira entre prudente arb\u00edtrio e arbitrariedade.<br \/>\u00abA exig\u00eancia de motiva\u00e7\u00e3o responde, assim, a uma finalidade do controle do discurso, neste caso probat\u00f3rio, do juiz com o objetivo de garantir at\u00e9 ao limite de poss\u00edvel a racionalidade da sua decis\u00e3o, dentro dos limites da racionalidade legal. Um controle que n\u00e3o s\u00f3 visa uma proced\u00eancia externa como tamb\u00e9m pode determinar o pr\u00f3prio juiz, implicando-o e comprometendo-o na decis\u00e3o evitando uma aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica como convic\u00e7\u00e3o de algumas das perigosas sugest\u00f5es assentes unicamente numa certeza subjectiva\u00bb (Ac. do STJ de 23.02.2011, proc. 241\/08.2GAMTR.P1.S2, in http:\/\/www.dgsi.pt).<br \/>Por fim, cumpre referir que, enquanto que as presun\u00e7\u00f5es judiciais s\u00e3o meios de prova, o princ\u00edpio in d\u00fabio pro reo, corol\u00e1rio do princ\u00edpio constitucional da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia do arguido, contemplado no art. 32\u00ba n\u00ba 2 da Constitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 um princ\u00edpio de prova.<br \/>Ambos s\u00e3o mecanismos de resolu\u00e7\u00e3o dos estados de incerteza, na convic\u00e7\u00e3o do julgador, quanto \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o dos factos integradores de um crime.<br \/>O primeiro pressup\u00f5e que a d\u00favida se mantenha insan\u00e1vel, depois de esgotado todo o iter probat\u00f3rio e feito o exame cr\u00edtico de todas as provas e resolve a d\u00favida cominando-lhe como consequ\u00eancia a considera\u00e7\u00e3o dos factos como n\u00e3o provados e a consequente absolvi\u00e7\u00e3o do arguido.<br \/>A segunda, atrav\u00e9s da infer\u00eancia l\u00f3gico-dedutiva, a partir de ind\u00edcios ou factos circunstanciais ou colaterais ao objeto do processo resolve essa d\u00favida contra o arguido, superando a aplica\u00e7\u00e3o do in dubio pro reo, pois permite afirmar um facto desconhecido a partir de um facto conhecido, para al\u00e9m de qualquer d\u00favida razo\u00e1vel ( Euclides D\u00e2maso Sim\u00f5es, em \u00abProva indici\u00e1ria\u00bb, na Revista Julgar, n.\u00ba 2, 2007, p\u00e1g. 203 e ss., Jos\u00e9 Santos Cabral em \u00abProva indici\u00e1ria e as novas formas de criminalidade\u00bb, na Revista Julgar, n.\u00ba 17, 2012, p\u00e1g. 13, Marta Sofia Neto Morais Pinto, em \u00abA prova indici\u00e1ria no processo penal, na Revista do Minist\u00e9rio P\u00fablico, n.\u00ba 128, out.-dez. 2011, pp. 185-222).<br \/>A adequada concatena\u00e7\u00e3o entre os princ\u00edpios da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia e in dubio pro reo e o da admissibilidade da prova indireta, atrav\u00e9s de presun\u00e7\u00f5es judiciais em Direito<br \/>Penal, implica que as d\u00favidas acerca da demonstra\u00e7\u00e3o de determinados factos, sejam resolvidas em benef\u00edcio do arguido, conduzindo \u00e0 sua absolvi\u00e7\u00e3o, mas a quest\u00e3o da exist\u00eancia da d\u00favida e consequente aplica\u00e7\u00e3o deste princ\u00edpio s\u00f3 pode colocar-se depois de esgotado todo o iter probat\u00f3rio, ou seja, quando o \u00abnon liquet\u00ab persiste, mesmo depois de analisadas todas as provas diretas e de conclu\u00eddo todo o esfor\u00e7o l\u00f3gico-dedutivo inerente ao apuramento dos factos atrav\u00e9s de presun\u00e7\u00f5es judiciais.<br \/>E esse esfor\u00e7o de indaga\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m da primeira apar\u00eancia criada pelas declara\u00e7\u00f5es da arguida, e de an\u00e1lise conjugada e cr\u00edtica de todos os meios de prova dispon\u00edveis \u00e9 que n\u00e3o emerge na senten\u00e7a recorrida, que parece baralhar e confundir o comportamento omissivo da arguida na presta\u00e7\u00e3o de cuidados b\u00e1sicos e essenciais de sa\u00fade, higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, bem estar f\u00edsico e emocional \u00e0 ofendida MAR______ \u00a0com a causa da morte desta senhora em 14 de Setembro de 2018.<br \/>Ora, a arguida n\u00e3o est\u00e1 acusada da pr\u00e1tica de um crime de homic\u00eddio.<br \/>O crime que lhe foi imputado foi o de maus tratos p. e p. pelo art. 152\u00ba A do CP, alicer\u00e7ando-se a acusa\u00e7\u00e3o no incumprimento de um dever geral de assist\u00eancia \u00e0 v\u00edtima a que a arguida estava contratualmente vinculada, por explorar um lar de idosos e ter aceitado, em contrapartida de uma remunera\u00e7\u00e3o mensal, acolher e cuidar desta senhora, depois concretizado em v\u00e1rios deveres de presta\u00e7\u00e3o de cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e sa\u00fade.<br \/>Num contexto como este, nem se percebe como \u00e9 que a senten\u00e7a depois de ter assumido e bem que os documentos cl\u00ednicos de fls. 67 a 99 eram t\u00e3o cred\u00edveis ao ponto de serem os \u00fanicos meios de prova directa (o que nem sequer corresponde totalmente ao acervo probat\u00f3rio produzido, neste processo), n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o retira deles toda a informa\u00e7\u00e3o \u00fatil que os mesmos s\u00e3o aptos a providenciar, como ainda decide contra o conte\u00fado expresso de tais documentos, por exemplo, no que concerne ao estado de desidrata\u00e7\u00e3o e desnutri\u00e7\u00e3o da ofendida MAR______ \u00a0constatado por m\u00e9dicos e enfermeiros que assistiram esta senhora num per\u00edodo temporal em que a mesma se encontrava confiada aos cuidados da arguida e em que esta era a \u00fanica respons\u00e1vel pela gest\u00e3o e funcionamento do lar onde a senhora residia, factos, de resto, corroborados pela pr\u00f3pria arguida SMGA_____ bem como pelos depoimentos das testemunhas AM____ , e M\u2026 que s\u00e3o, de resto, os meios de prova essenciais para a solu\u00e7\u00e3o do caso.<br \/>No que se refere ao primeiro dos mencionados depoimentos, o Tribunal optou por desvaloriz\u00e1-lo, com alus\u00f5es \u00e0 falta de qualidade de perita da testemunha, em alternativa \u00e0quilo que teria sido o mais \u00f3bvio e consent\u00e2neo com as regras de experi\u00eancia e senso comum, que era ter ponderado este depoimento, por t\u00e3o elucidativo, quer do estado grave e irrevers\u00edvel da \u00falcera de press\u00e3o sofrida pela v\u00edtima, quer para contextualizar em conjuga\u00e7\u00e3o com algumas afirma\u00e7\u00f5es proferidas pela pr\u00f3pria arguida, que aquela \u00falcera progrediu at\u00e9 a um est\u00e1dio de grau IV porque n\u00e3o foram prestados os necess\u00e1rios cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a de posicionamento frequente da v\u00edtima, para evitar essa progress\u00e3o e que aquele estado de desenvolvimento de tecidos necrosados e exposi\u00e7\u00e3o \u00f3ssea durou tempo, j\u00e1 que foi a pr\u00f3pria quem declarou que passaram entre dois a tr\u00eas meses entre a constata\u00e7\u00e3o da ferida e a condu\u00e7\u00e3o da ofendida ao Hospital para receber tratamento adequado \u00e0 mesma.<br \/>Mais arbitr\u00e1ria ainda se revela a desconsidera\u00e7\u00e3o dos depoimentos das testemunhas e M\u2026, respetivamente, filha e nora da v\u00edtima que prestaram depoimentos esclarecedores do estado de sa\u00fade de MAR______ e de toda a sucess\u00e3o de eventos desde o dia 24 de Agosto de 2018, at\u00e9 \u00e0 morte desta senhora, em 14 de Setembro de 2018, com a explica\u00e7\u00e3o de que \u00abnenhuma destas testemunhas \u00e9 capaz de nos responder \u00e0s perguntas que verdadeiramente importam: como veio a ocorrer aquela \u00falcera de press\u00e3o, que cuidados deveriam ter sido ministrados e se foi a conduta da arguida que provocou tanto a \u00falcera como a sua degenera\u00e7\u00e3o at\u00e9 aquele grau. No limite, e de forma at\u00e9 contraintuitiva, as familiares da ofendida v\u00eam atestar da qualidade do servi\u00e7o prestado pela arguida \u00e0 ofendida, sendo que, ao visitarem a ofendida todas as semanas, nunca se depararam com nenhum problema, inclusive de desnutri\u00e7\u00e3o ou desidrata\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>Ora este conjunto de afirma\u00e7\u00f5es exaradas na motiva\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto revela que, contra tudo quanto foi dito e esclarecido pelas duas testemunhas em apre\u00e7o e at\u00e9 de forma coincidente com a vers\u00e3o dos factos apresentada pela arguida, o Tribunal ignorou que a arguida come\u00e7ou por ocultar a estas duas testemunhas e a toda a fam\u00edlia que a ofendida j\u00e1 havia estado internada no Hospital Fernando Fonseca EPE nos dias 24 e 25 de Agosto de 2018, que a arguida sempre ocultou at\u00e9 quando lhe foi poss\u00edvel que a ofendida tinha uma \u00falcera por press\u00e3o na zona sacro desde dois a tr\u00eas meses antes daquele dia 24 de Agosto de 2018 e reconheceu que nunca lhe prestou a assist\u00eancia necess\u00e1ria pois nem tinha enfermeiros a trabalhar ao seu servi\u00e7o, nem conhecimentos de enfermagem para o efeito e tamb\u00e9m nunca antes do dia 24 de Agosto de 2018 lhe ocorreu conduzir a v\u00edtima ao Hospital para receber o tratamento m\u00e9dico adequado, como ela pr\u00f3pria respondeu a perguntas da Mma. Ju\u00edza, sendo certo que a fam\u00edlia s\u00f3 veio a saber da exist\u00eancia da \u00falcera no segundo internamento ocorrido em 28 de Agosto de 2018 e, ainda assim, porque tal foi noticiado pelo m\u00e9dico que observou e<br \/>assistiu a ofendida.\u00a0<br \/>Do mesmo modo n\u00e3o se compreende a d\u00favida acerca do que possa ter causado a \u00falcera de press\u00e3o de grau IV e o estado de desidrata\u00e7\u00e3o e desnutri\u00e7\u00e3o, seja \u00e0 luz dos conhecimentos de cultura geral que a medicina e a observa\u00e7\u00e3o emp\u00edrica revelam, pois que \u00e9 consabido que as \u00falceras de press\u00e3o, ou escaras, s\u00e3o um problema de sa\u00fade p\u00fablica e um indicador da qualidade dos cuidados prestados, que assola sobretudo a popula\u00e7\u00e3o mais idosa e mais propensa, por fragilidades de sa\u00fade, a longos per\u00edodos de acamamento ou imobiliza\u00e7\u00e3o, bem como a desidrata\u00e7\u00e3o e a desnutri\u00e7\u00e3o, sobretudo, ao ponto de ser mencionado no Di\u00e1rio Cl\u00ednico elaborado pelo m\u00e9dico de medicina geral que a observou no dia 28 de Agosto de 2018 \u00abProstrada reactiva aos est\u00edmulos dolorosos. N\u00e3o colaborante e n\u00e3o emite discurso. Deficiente estado geral e nutricional. Rigidez dos membros superiores e inferiores. Eupneica. Pele e mucosas desidratadas e descoradas\u00bb (fls. 81).\u00a0\u00a0<br \/>Desde logo porque o que importa, ao contr\u00e1rio do que foi escrito na motiva\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto da senten\u00e7a recorrida nem sequer \u00e9 saber \u00abcomo veio a ocorrer aquela \u00falcera de press\u00e3o\u00bb, mas sim, depois de detectada a mesma e foi detectada entre dois a tr\u00eas meses antes, segundo o que a pr\u00f3pria arguida relatou ao tribunal, o que \u00e9 que a arguida deveria ter feito e n\u00e3o fez.<br \/>E a estas duas quest\u00f5es as respostas j\u00e1 estavam dadas pelos factos que a pr\u00f3pria Mma. Ju\u00edza havia considerado provados e que s\u00e3o os que constam dos pontos 2), 3), 5) e 15) e era a partir deles que podia e devia ter conclu\u00eddo que a degenera\u00e7\u00e3o da \u00falcera at\u00e9 ao grau IV e os estados de desidrata\u00e7\u00e3o e de desnutri\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e0 arguida s\u00e3o imput\u00e1veis, pois era sob a sua responsabilidade que esta senhora se encontrava e dependente dos cuidados de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e bem-estar f\u00edsico e psicol\u00f3gico, que ela, arguida, estava contratualmente obrigada a prestar-lhe, desde v\u00e1rios meses antes, pois que igualmente se provou que o ingresso de MAR______ \u00a0no lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento ..., Unipessoal Lda. ocorreu em data n\u00e3o concretamente apurada, mas do ano de 2017.<br \/>Assim sendo, por tudo quando fica exposto e atento o preceituado no art. 424\u00ba do CPP, imp\u00f5e-se a altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto, por forma a incluir na mat\u00e9ria de facto provada a mat\u00e9ria de facto provada, as als. a), c), d), e), f), h), i), j) e l) que na senten\u00e7a recorrida foram considerados n\u00e3o provados, bem como a introduzir no ponto 2) dos factos provados o ano de 2017.<br \/>A decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto passa, consequentemente, a ser a seguinte:<br \/>1) A ofendida, MAR______ \u00a0tinha 82 anos em Setembro de 2018.<br \/>2) A ofendida integrou o lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento \u201c...\u201d Unipessoal, Lda, em data n\u00e3o concretamente apurada do ano de 2017. \u00a0<br \/>3) Aquela institui\u00e7\u00e3o tinha como objeto social a atividade de lar de idosos, apoio geri\u00e1trico, centro de dia, apoio domicili\u00e1rio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos e de enfermagem.<br \/>4) Aquele lar, primeiramente, situava-se na Rua \u2026 , Ramada, mas em 8 de Mar\u00e7o de 2018, mudaram as suas instala\u00e7\u00f5es para a Rua \u2026 , Queluz.<br \/>5) A respons\u00e1vel pelo lar era a arguida, SMGA_____ \u00a0<br \/>6) No dia 25 de Agosto de 2018 a arguida comunicou \u00e0 fam\u00edlia da ofendida que esta se ia deslocar ao Hospital para fazer uma T.A.C., quando, na verdade, a ofendida tinha dado entrada nas urg\u00eancias daquele hospital, pelas 19:15 do dia 24 de Agosto de 2018.<br \/>7) No entanto, a ofendida apenas saiu daquele hospital no dia 26 de Agosto de 2018, pelas 00:06.<br \/>8) Quando a ofendida deu entrada no Hospital Amadora-Sintra, no dia 24 de Agosto, apresentava-se prostrada, com sa\u00edda de urina com cheiro f\u00e9tido, bem com apresentava uma \u00falcera de press\u00e3o de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido, apresentava um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade.<br \/>9) Nesse dia 24 de agosto de 2018, a ofendida apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos, estava apir\u00e9tica e algaliada com ch14.<br \/>10) No dia 26 de agosto de 2018 a ofendida encontrava-se no aludido lar, apresentando n\u00f3doas negras na zona dos calcanhares.<br \/>11) O estado de sa\u00fade da ofendida agravou-se, tendo regressado ao Hospital Doutor Fernando da Fonseca, no dia 28 de Agosto de 2018, pelas 15:53, onde se apurou que a ofendida mantinha uma \u00falcera exsudado seroso e f\u00e9tido e tecido necrosado.<br \/>12) Foi determinado o internamento da ofendida por apresentar prov\u00e1vel infe\u00e7\u00e3o urin\u00e1ria, ulcera de press\u00e3o na regi\u00e3o sagrada e hipernatremia e desidrata\u00e7\u00e3o. Foi determinado o internamento da ofendida<br \/>13) Iniciou-se tratamento, por antibi\u00f3tico, \u00e0 ofendida, por prov\u00e1vel infe\u00e7\u00e3o cut\u00e2nea da \u00falcera de press\u00e3o sagrada.<br \/>14) \u00c0 data da alta cl\u00ednica, que ocorreu no dia 5 de Setembro de 2018, a ofendida apresentava \u00falcera na regi\u00e3o sagrada, com cerca de 5x8cms de di\u00e2metro e 3cms de profundidade, com tecido desvitalizado no bordo externo, mas sem exsudado purulento e sem eritema peri lesional e \u00falcera de dec\u00fabito superficial na regi\u00e3o do ombro esquerdo, com cerca de 1 cm de di\u00e2metro, sem exsudado e sem eritema.<br \/>15) Para tratamento daquelas \u00falceras, no hospital sugeriu-se mudan\u00e7a de pensos em dias alternados, posicionamentos alternados e colch\u00e3o anti-escaras.<br \/>16) A ofendida encontrava-se desnutrida.<br \/>17) \u00c0 arguida, no exerc\u00edcio da sua atividade laboral e enquanto respons\u00e1vel daquele lar, cabiam, entre outras, as seguintes fun\u00e7\u00f5es, que devia desempenhar diariamente e ainda sempre que fosse necess\u00e1rio: administrar a medica\u00e7\u00e3o prescrita aos utentes do lar a\u00ed internados; lava-los; mudar-lhes as fraldas (caso as usassem); mudar pensos, adesivos e efetuar curativos em feridas; alimentar (\u00e0 colher ou atrav\u00e9s de sonda) os doentes que n\u00e3o conseguissem, devido \u00e0s doen\u00e7as, alimentar-se sem ajuda; mudar os len\u00e7\u00f3is; escrever no livro \u201cnotas do enfermeiro\u201d, todas as informa\u00e7\u00f5es relativas a cada doente; informar os m\u00e9dicos e os enfermeiros de qualquer altera\u00e7\u00e3o do estado de sa\u00fade dos utentes e ainda prestar assist\u00eancia, em caso de emerg\u00eancia, aos doentes que dela necessitassem, pessoalmente ou chamando o m\u00e9dico de servi\u00e7o, quando necess\u00e1rio.<br \/>18) Apesar de aquele lar necessitar de preencher determinados requisitos, para poder prestar o servi\u00e7o que havia sido contratado pela ofendida, apurou-se, ap\u00f3s inspec\u00e7\u00e3o feita pela seguran\u00e7a social, que aquele lar n\u00e3o tinha licen\u00e7a de funcionamento, n\u00e3o tinha pessoal suficiente para o seu funcionamento, bem como n\u00e3o tinha profissionais qualificados para a presta\u00e7\u00e3o de cuidados m\u00e9dicos.<br \/>19) Quando a arguida aceitou a admiss\u00e3o da ofendida naquele lar, tinha conhecimento do estado cl\u00ednico da ofendida e sabia que esta necessitava da administra\u00e7\u00e3o de diversos medicamentos, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem e de higiene, bem como alimenta\u00e7\u00e3o da ofendida.<br \/>20) A arguida, como respons\u00e1vel daquele lar, conhecendo a situa\u00e7\u00e3o da ofendida, n\u00e3o lhe prestou os cuidados devidos, nomeadamente, n\u00e3o adequou a alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da ofendida, n\u00e3o chamou o m\u00e9dico\/enfermeiro para mudar o penso da \u00falcera, que a ofendida tinha, deixando assim agravar aquele ferimento.<br \/>21) A arguida agiu sabendo que iria provocar danos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos \u00e0 ofendida, como consequ\u00eancia necess\u00e1ria das suas condutas.<br \/>22) Ao recusar a prestar aqueles cuidados de sa\u00fade, sabia que punha em perigo a sa\u00fade, a integridade f\u00edsica e mesmo a vida da ofendida, bem sabia que causava nesta desespero, intranquilidade e receio pela sua seguran\u00e7a e bem estar.<br \/>23) A arguida agiu com desrespeito pela condi\u00e7\u00e3o e dignidade humana da ofendida, n\u00e3o lhe aliviando a dor, recusando-se a prestar-lhe a assist\u00eancia para a qual estava perfeitamente apta a realizar.<br \/>24) Mais sabia que as suas condutas eram punidas e proibidas por lei.<br \/>25) A ofendida veio a falecer no dia 14 de Setembro de 2018, pelas 11:45, na resid\u00eancia sita na Rua \u2026, Amadora.<br \/>26) A arguida tem um filho de vinte anos.<br \/>27) A arguida abandonou o ensino escolar aos dezassete anos, quando frequentava o oitavo ano de escolaridade.<br \/>28) A arguida trabalhou como empregada fabril, na \u00e1rea das limpezas e como empregada de balc\u00e3o.<br \/>29) A arguida iniciou a actividade de constituir um lar de idosos em 2009\/2010.<br \/>30) A arguida trabalha como auxiliar num lar de idosos auferindo mensalmente a quantia de \u20ac750,00.<br \/>31) A arguida n\u00e3o tem antecedentes criminais.<br \/>Factos n\u00e3o provados:<br \/>Que, no dia 26 de Agosto de 2028, a ofendida apresentasse n\u00f3doas negras nos pulsos.<br \/>Quanto ao erro de direito referente ao enquadramento jur\u00eddico-penal dos factos como crime de maus tratos.<br \/>O artigo 152\u00ba-A do C\u00f3digo Penal, sob a ep\u00edgrafe \u00abmaus tratos\u00bb, pune com uma pena de pris\u00e3o cujos limites m\u00ednimo e m\u00e1ximo s\u00e3o, respectivamente, um e cinco anos \u00abquem, tendo ao seu cuidado, \u00e0 sua guarda, sob a responsabilidade da sua direc\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o, ou a trabalhar ao seu servi\u00e7o, pessoa menor ou particularmente indefesa, em raz\u00e3o de idade, defici\u00eancia, doen\u00e7a ou gravidez: a) lhe infligir, de modo reiterado ou n\u00e3o, maus tratos f\u00edsicos ou ps\u00edquicos, incluindo castigos corporais, priva\u00e7\u00f5es da liberdade e ofensas sexuais, ou a tratar cruelmente; b) a empregar em actividades perigosas, desumanas ou proibidas; ou c) a sobrecarregar com trabalhos excessivos.<br \/>Esta incrimina\u00e7\u00e3o resulta da autonomiza\u00e7\u00e3o do crime de viol\u00eancia dom\u00e9stica relativamente ao de maus tratos que constava antes da revis\u00e3o do CP de 2007 do art. 152\u00ba C\u00f3digo Penal, segundo a redac\u00e7\u00e3o que lhe foi introduzida pelo D. L. 48\/95, de 15.03., entretanto, modificada pelas Leis 65\/98, de 02.09, e 7\/2000, de 27.05, o qual tutelava diferentes formas de viol\u00eancia no seio da fam\u00edlia, da educa\u00e7\u00e3o e do trabalho.<br \/>\u00abAinda em sede de crimes contra a integridade f\u00edsica, os maus tratos, a viol\u00eancia dom\u00e9stica e a infrac\u00e7\u00e3o de regras de seguran\u00e7a passam a ser tipificados em preceitos distintos, em homenagem \u00e0s varia\u00e7\u00f5es de bem jur\u00eddico protegido. Na descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica da viol\u00eancia dom\u00e9stica e dos maus tratos, recorre-se, em alternativa, \u00e0s ideias de reitera\u00e7\u00e3o e intensidade, para esclarecer que n\u00e3o \u00e9 imprescind\u00edvel uma continua\u00e7\u00e3o criminosa\u00bb (ponto 8. Da exposi\u00e7\u00e3o de motivos inserta na Proposta de Lei n.\u00ba 98\/X, Anteprojecto da Lei 59\/2007, de 4 de Setembro, que procedeu a tal tipifica\u00e7\u00e3o autonomizada).\u00a0\u00a0<br \/>Ainda que o bem jur\u00eddico sa\u00fade coincida com o tutelado pelo crime de ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica, na medida em que \u00abem causa estar\u00e1 ent\u00e3o em ambos os casos, no essencial, a prote\u00e7\u00e3o de um estado de completo bem-estar f\u00edsico e mental.\u00bb (Nuno Brand\u00e3o, A tutela penal especial refor\u00e7ada da viol\u00eancia dom\u00e9stica, Revista Julgar n\u00ba12 (especial), ASJP, Lisboa, Set.- Dez. 2010, p. 13 e ss.), trata-se de assegurar a integridade da sa\u00fade f\u00edsica e mental de pessoas mais vulner\u00e1veis, o seu bem-estar f\u00edsico, ps\u00edquico e emocional (A. Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Tomo II, p. 299; Paulo Pinto de Albuquerque, Coment\u00e1rio do C\u00f3digo Penal \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, artigos 152\u00ba e 152\u00baA, Universidade Cat\u00f3lica Editora, Lisboa, 2010, p. 438 e Paula Ribeiro de Faria Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Volume II, 2\u00aa ed., artigo 143\u00ba, Coimbra Editora, Coimbra, 2012, p. 299; Gomes Canotilho e Viral Moreira, Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa Anotada, Volume I, artigo 25\u00ba, 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Coimbra Editora, Coimbra, 2007, p. 453).<br \/>Por isso, o bem jur\u00eddico protegido \u00e9 a sa\u00fade entendida como um bem jur\u00eddico complexo suficientemente amplo e nas suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es para se identificar com a integridade do ser humano, em todas as suas componentes f\u00edsica, ps\u00edquica, mental e moral a liberdade pessoal, a liberdade e autodetermina\u00e7\u00e3o sexual e a honra, nos mesmos termos em que se encontra protegida no art. 25\u00ba da CRP.<br \/>Tal como acentuado, na exposi\u00e7\u00e3o de motivos inserta na Proposta de Lei n.\u00ba 98\/X, Anteprojecto da Lei 59\/2007, de 4 de Setembro, do qual resultou este art. 152\u00ba A do CP, a raz\u00e3o de ser desta incrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 o fortalecimento da defesa dos bens jur\u00eddicos visados com a incrimina\u00e7\u00e3o, especialmente, \u00abo refor\u00e7o da tutela de pessoas particularmente indefesas\u00bb.<br \/>O referido preceito visa, pois, a preven\u00e7\u00e3o, combate e repress\u00e3o de frequentes e quase sempre subtis formas de viol\u00eancia f\u00edsica, ps\u00edquica e sexual dirigidas contra pessoas com menor capacidade de reac\u00e7\u00e3o ou defesa, tidas como mais fr\u00e1geis ou vulner\u00e1veis a partir de certos \u00edndices, como a idade, doen\u00e7a, ou condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou ps\u00edquica ou gravidez e quando envolvidas num contexto relacional muito espec\u00edfico com o agressor: trata-se de rela\u00e7\u00f5es de poderes\/deveres de cuidado, de guarda, de dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o, ou de natureza laboral que criam, pela sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, um certo ascendente natural ou posi\u00e7\u00e3o mais privilegiada ou preponderante do agressor em rela\u00e7\u00e3o ao agredido.<br \/>O v\u00ednculo de depend\u00eancia existencial da v\u00edtima em rela\u00e7\u00e3o ao autor do crime j\u00e1 n\u00e3o se funda na coabita\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es familiares ou de namoro e afins como na viol\u00eancia dom\u00e9stica, mas numa liga\u00e7\u00e3o institucional: o art. 152\u00baA, \u00ab(\u2026) tem por objeto os maus tratos praticados nas escolas, hospitais, nas creches ou infant\u00e1rios, em lares de idosos ou institui\u00e7\u00f5es ou fam\u00edlias de acolhimento de crian\u00e7as, bem como os maus tratos cometidos na pr\u00f3pria casa de habita\u00e7\u00e3o (por exemplo contra a empregada dom\u00e9stica ou \u201cbaby-sitter\u201d) ou na empresa, n\u00e3o deixando de fora, ainda e por exemplo, as pessoas que assumam, espont\u00e2nea e gratuitamente, o encargo de tomar conta de \u201cpessoas particularmente indefesas\u201d, nomeadamente crian\u00e7as, idosos, doentes ou pessoas com defici\u00eancia\u00bb (Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Volume II, artigos 152\u00ba e 152\u00baA, Coimbra Editora, Coimbra, 2012, p. 536).<br \/>\u00c9, ali\u00e1s, essencialmente, neste v\u00ednculo que o crime de maus tratos se distingue do de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>Assim, v\u00edtima ou sujeito passivo s\u00f3 pode ser uma pessoa que, simultaneamente, preencha dois requisitos positivos - o de que se encontre em rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o existencial ou laboral com o agente, ou seja que a v\u00edtima esteja ao cuidado, \u00e0 guarda ou sob a responsabilidade da dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o do agente ou a trabalhar ao seu servi\u00e7o; o de que seja menor ou particularmente indefesa em raz\u00e3o da idade (avan\u00e7ada), de defici\u00eancia, da doen\u00e7a ou da gravidez - e um outro negativo - o de que n\u00e3o exista entre o agente e a v\u00edtima uma rela\u00e7\u00e3o de coabita\u00e7\u00e3o -, pois nesse caso estar\u00e1 em causa um crime de viol\u00eancia dom\u00e9stica, nos termos da al. d) do n\u00ba1 do art. 152\u00ba.<br \/>Os modos de ac\u00e7\u00e3o t\u00edpica s\u00e3o muito diversificados em sintonia com a amplitude e complexidade do bem jur\u00eddico, estando enumerados exemplificativamente os comportamentos suscept\u00edveis de qualifica\u00e7\u00e3o como maus tratos f\u00edsicos ou ps\u00edquicos, ao inv\u00e9s de uma enumera\u00e7\u00e3o taxativa, que n\u00e3o esgotaria todo o espectro de actos potencialmente lesivos do bem jur\u00eddico visado proteger com a incrimina\u00e7\u00e3o do art. 152\u00ba A do CP.<br \/>O crime consuma-se tanto com as condutas integradoras de ofensas \u00e0 integridade f\u00edsica simples (os maus tratos f\u00edsicos), ou seja todas as agress\u00f5es que envolvam alguma perturba\u00e7\u00e3o no corpo e sa\u00fade da v\u00edtima, como com os maus tratos ps\u00edquicos, incluindo humilha\u00e7\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es, quer estas se reconduzam ou n\u00e3o a actos, gestos, palavras, express\u00f5es, escritos, etc., englobando quaisquer comportamentos que ofendam a integridade moral ou o sentimento de dignidade da v\u00edtima, como as inj\u00farias, humilha\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e outros e compreendem, a par das estrat\u00e9gias e condutas de controlo, o abuso verbal e emocional pun\u00edveis, em si mesmas, ou n\u00e3o, como crimes de inj\u00faria e difama\u00e7\u00e3o, de amea\u00e7a ou de coac\u00e7\u00e3o.\u00a0<br \/>Como exemplos de maus tratos ps\u00edquicos s\u00e3o, normalmente, indicados os \u00abinsultos, as cr\u00edticas e coment\u00e1rios destrutivos, achincalhantes ou vexat\u00f3rios, a sujei\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o, as amea\u00e7as, as priva\u00e7\u00f5es injustificadas de comida, de medicamentos ou de bens e servi\u00e7os de primeira necessidade, as restri\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias \u00e0 entrada e sa\u00edda da habita\u00e7\u00e3o ou de partes da habita\u00e7\u00e3o comum, as priva\u00e7\u00f5es da liberdade, as persegui\u00e7\u00f5es, as esperas inopinadas e n\u00e3o consentidas, os telefonemas a desoras\u00bb, entre outros (Nuno Brand\u00e3o, A tutela penal especial refor\u00e7ada da viol\u00eancia dom\u00e9stica, Revista Julgar n\u00ba12 (especial), ASJP, Lisboa, Set.- Dez. 2010, p. 19. No mesmo sentido, Fernando Silva, Direito Penal Especial: Os crimes contra as pessoas: crimes contra a vida, crimes contra a vida intra-uterina, crimes contra a integridade f\u00edsica, Quis Juris, Lisboa, 2011, p. 315 e Paulo Pinto de Albuquerque, Coment\u00e1rio do C\u00f3digo Penal \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, artigos 152\u00ba e 152\u00baA, Universidade Cat\u00f3lica Editora, Lisboa, 2010, p. 465).<br \/>As priva\u00e7\u00f5es da liberdade consistem em comportamentos destinados a impedir a desloca\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, for\u00e7ando-a a permanecer num determinado local, comprometendo, assim, o seu bem-estar e a sua liberdade de decis\u00e3o quanto a deslocar-se de um local para outro ou de permanecer num determinado espa\u00e7o, quer preencha, quer n\u00e3o crimes de rapto ou de sequestro.<br \/>As ofensas sexuais reportam-se \u00e0s condutas sexuais punidas por tipos de crime aut\u00f3nomos no \u00e2mbito do Cap\u00edtulo V do CP, cujas penas n\u00e3o ultrapassem a dos crimes em causa, ou seja, cinco anos, sen\u00e3o, aplicar-se-\u00e1 o tipo legal mais grave, por for\u00e7a da cl\u00e1usula de subsidiariedade expressa contida na parte final do art. 152\u00ba A n\u00ba1.\u00a0<br \/>O crime de maus tratos pro\u00edbe tamb\u00e9m o tratamento cruel, que n\u00e3o se traduz, necessariamente, na imposi\u00e7\u00e3o de les\u00f5es f\u00edsicas, mas pode incluir outros tipos de comportamentos que impliquem um desgaste constante na v\u00edtima, devendo caracterizar-se pela sua adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 infli\u00e7\u00e3o de sofrimento f\u00edsico ou psicol\u00f3gico com uma certa t\u00f3nica de reitera\u00e7\u00e3o ou perman\u00eancia.\u00a0<br \/>Este tipo pro\u00edbe ainda a sujei\u00e7\u00e3o a actividades desumanas, perigosas ou proibidas, que assim dever\u00e3o ser qualificadas por refer\u00eancia \u00e0s caracter\u00edsticas e fragilidades espec\u00edficas de cada v\u00edtima que, respectivamente, as humilhem ou degradem, ou com utiliza\u00e7\u00e3o de meios particularmente perigosos, ou na coloca\u00e7\u00e3o da v\u00edtima em situa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m elas, especialmente perigosas, ou que correspondam \u00e0 pr\u00e1tica de factos il\u00edcitos.<br \/>Por fim, entre as modalidades de maus tratos tamb\u00e9m se contam os trabalhos excessivos. A excessividade dos maus tratos afere-se tamb\u00e9m atendendo \u00e0s caracter\u00edsticas da v\u00edtima e ao tipo de trabalhos concretamente impostos.\u00a0<br \/>Segundo o crit\u00e9rio do resultado material, tanto podem ser classificados como crimes de resultado \u2013 quando a execu\u00e7\u00e3o t\u00edpica se traduz em maus tratos f\u00edsicos ou em priva\u00e7\u00f5es da liberdade - como de mera actividade \u2013 no caso de a conduta integradora do tipo constituir provoca\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as ou o emprego em actividades perigosas, desumanas ou proibidas - sendo que, nos primeiros o resultado \u00e9 elemento do tipo de crime e nos segundos, apenas constitui motivo da incrimina\u00e7\u00e3o.<br \/>De acordo com o crit\u00e9rio da intensidade da les\u00e3o do bem jur\u00eddico, estes crimes tamb\u00e9m podem ser crimes de dano, por exemplo no caso de ofensas sexuais ou corporais e das priva\u00e7\u00f5es de liberdade, ou crimes de perigo, nas situa\u00e7\u00f5es em que ocorram amea\u00e7as ou humilha\u00e7\u00f5es ou o emprego em actividades perigosas. Nos primeiros, a efectiva les\u00e3o do bem jur\u00eddico \u00e9 elemento do tipo legal, enquanto nos segundos o tipo legal apenas exige a coloca\u00e7\u00e3o em perigo do bem jur\u00eddico.<br \/>Trata-se de um crime espec\u00edfico que ser\u00e1 impr\u00f3prio quando as condutas integradoras do crime de maus tratos, isolada e autonomamente consideradas, j\u00e1 constituam crime (v.g. os maus tratos f\u00edsicos que traduzir\u00e3o sempre ofensas \u00e0 integridade f\u00edsica e certas modalidades de maus tratos ps\u00edquicos reconduzem-se aos crimes de inj\u00faria, amea\u00e7a, difama\u00e7\u00e3o, coac\u00e7\u00e3o sequestro), na medida em a qualidade do autor do facto ou o dever que sobre ele impende, n\u00e3o servem para fundamentar a responsabilidade, mas unicamente para a agravar.\u00a0<br \/>Se as condutas n\u00e3o configurarem, em si mesmas consideradas, qualquer outro il\u00edcito penal, como tal previsto na parte especial do CP, o crime de maus tratos ser\u00e1, ent\u00e3o, um crime espec\u00edfico pr\u00f3prio pois, nestes casos, como quando se submete a v\u00edtima a actividades perigosas, a trabalhos excessivos, a certas formas de crueldade, \u00e9 a qualidade do agente que constitu\u00ed o motivo da incrimina\u00e7\u00e3o (neste sentido, Ricardo Bragan\u00e7a de Matos, Dos Maus Tratos a C\u00f4njuge \u00e0 Viol\u00eancia Dom\u00e9stica: Um Passo na Tutela da V\u00edtima, RMP, ano 27, Julho-Setembro 2006, n\u00ba 107, p\u00e1g. 97 e Augusto Silva Dias, Materiais para o estudo da Parte Especial do Direito Penal, Crimes Contra a Vida e a Integridade F\u00edsica, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, AAFDL, 2007, p\u00e1g. 111; Pinto de Albuquerque, Coment\u00e1rio do C\u00f3digo Penal \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, artigos 152\u00ba e 152\u00baA, Universidade Cat\u00f3lica Editora, Lisboa, 2010, p. 469 e Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Volume II, artigos 152\u00ba e 152\u00baA, Coimbra Editora, Coimbra, 2012p. 513 e 535).<br \/>No que especificamente concerne aos idosos, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade define maus tratos como um acto \u00fanico ou repetido, ou ainda, aus\u00eancia de ac\u00e7\u00e3o apropriada que cause dano, sofrimento ou ang\u00fastia e que ocorra no contexto e desenvolvimento de um relacionamento de confian\u00e7a que atenta contra a sua vida, ou \u00e9 lesiva da sua integridade f\u00edsica ou ps\u00edquica, da sua liberdade, seguran\u00e7a econ\u00f3mica ou compromete o desenvolvimento da sua personalidade (Action on Elder Abuse (AEA, 1993) e adotada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade - WHO\/INPEA. Missing voices: views of older persons on elder abuse. Geneva: WHO; 2002,\u00a0https:\/\/apps.who.int\/iris\/handle\/10665\/67371<a href=\"https:\/\/apps.who.int\/iris\/handle\/10665\/67371\">)<\/a><br \/>Assim, dentro destes limites e com estas caracter\u00edsticas, podem enumerar-se como formas de maus tratos a idosos: qualquer forma de agress\u00e3o f\u00edsica (espancamentos, golpes, queimaduras, fracturas, administra\u00e7\u00e3o abusiva de f\u00e1rmacos ou t\u00f3xicos, rela\u00e7\u00f5es sexuais for\u00e7adas, que se reconduzem \u00e0 modalidade maus tratos f\u00edsicos; os maus-tratos psicol\u00f3gicos ou emocionais, materializam-se em condutas que causam dano psicol\u00f3gico como manipula\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, humilha\u00e7\u00f5es, chantagem afectiva, desprezo ou priva\u00e7\u00e3o do\u00a0poder de decis\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o do afecto, isolamento e marginaliza\u00e7\u00e3o; a neglig\u00eancia traduzida em n\u00e3o satisfazer as necessidades b\u00e1sicas (nega\u00e7\u00e3o de alimentos, cuidados higi\u00e9nicos, habita\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e cuidados m\u00e9dicos) que se reconduz a tratamento cruel, assim como condutas de abuso econ\u00f3mico, como seja, impedir o uso e controlo do pr\u00f3prio dinheiro, explora\u00e7\u00e3o financeira e chantagem econ\u00f3mica, ou permitir a exposi\u00e7\u00e3o incontrolada a formas de auto-neglig\u00eancia resultantes da incapacidade de um indiv\u00edduo desempenhar tarefas de cuidado consigo pr\u00f3prio indispens\u00e1veis \u00e0 sua sobreviv\u00eancia e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades essenciais do quotidiano (cfr., Hirsch CH, Stratton S, Loewy R., The primary care of elder mistreatment. WEST J MED 1999 Jun; 170 (6): 353-8; Fern\u00e1ndez-Alonso MC, Herrero-Vel\u00e1zquez S. Maltrato en el anciano: posibilidades de intervenci\u00f3n desde la atenci\u00f3n primaria (I). Aten Primaria 2006 Ene; 37 (1):56-9; Howard M. Fillit, Kenneth Rockwood, John B Young, Brocklehurst's Textbook of Geriatric Medicine and Gerontology E-Book pp 943 e 944\u00a0https:\/\/www.us.elsevierhealth.com\/\u00a0e Briony Dow e Melanie Joosten Entendendo o abuso de idosos: uma perspectiva de direitos sociais, Janeiro de 2012, Psicogeriatria Internacional 24(6): 853-5 DOI: 10.1017\/S1041610211002584\u00a0https:\/\/www.cambridge.org\/core).<br \/>Em princ\u00edpio, a estrutura objectiva do tipo implica a reitera\u00e7\u00e3o pois que a les\u00e3o do bem jur\u00eddico complexo sa\u00fade envolver\u00e1 uma pluralidade de condutas da mesma ou de diferentes esp\u00e9cies repetidas por um per\u00edodo mais ou menos prolongado, embora com a express\u00e3o de \u00abmodo reiterado ou n\u00e3o\u00bb se admita que certas condutas isoladas, desde que dotadas de gravidade bastante, podem tamb\u00e9m operar a consuma\u00e7\u00e3o dos maus tratos.<br \/>A imputa\u00e7\u00e3o subjectiva do tipo, pese embora, as diferentes modalidades que pode revestir (crime de resultado, quando a forma de ac\u00e7\u00e3o t\u00edpica s\u00e3o os maus tratos f\u00edsicos; crime de mera actividade, quando a modalidade de execu\u00e7\u00e3o do tipo se reconduz \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de trabalhos excessivos; crime de dano, quando dos maus tratos f\u00edsicos resultam les\u00f5es corporais; crime de perigo, nas formas de execu\u00e7\u00e3o previstas nas als. b) e c) do n\u00ba 1 do art. 152\u00ba A), tem o seu fundamento exclusivo no dolo em qualquer das suas modalidades que, justamente, por causa, das diferentes formas que a consuma\u00e7\u00e3o do crime de maus tratos pode revestir, tem conte\u00fado vari\u00e1vel.<br \/>Implica, desde logo, sempre, o conhecimento da exist\u00eancia dos deveres inerentes, \u00e0 assun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o laboral, ou do v\u00ednculo de protec\u00e7\u00e3o-subordina\u00e7\u00e3o, do estado de menoridade, defici\u00eancia, velhice, doen\u00e7a ou gravidez da v\u00edtima.<br \/>Na vertente de maus tratos f\u00edsicos, o dolo abrange o resultado, qual seja, a consci\u00eancia e a vontade de causar a les\u00e3o da integridade f\u00edsica da v\u00edtima e, nos restantes casos, implica a consci\u00eancia e vontade de criar o risco de les\u00e3o da sa\u00fade da pessoa do ofendido ou do perigo de afecta\u00e7\u00e3o do normal desenvolvimento da crian\u00e7a aos cuidados do agente ou de cria\u00e7\u00e3o de preju\u00edzos para a sa\u00fade da v\u00edtima.<br \/>O art. 10\u00ba do CP equipara, em geral, a omiss\u00e3o \u00e0 ac\u00e7\u00e3o, nos crimes de resultado, estabelecendo que, quando um tipo legal de crime compreender um certo resultado, o facto abrange n\u00e3o s\u00f3 a ac\u00e7\u00e3o adequada a produzi-lo como tamb\u00e9m a omiss\u00e3o adequada a evit\u00e1-lo. S\u00e3o os crimes comissivos por omiss\u00e3o impr\u00f3pria, porque o evento antijur\u00eddico pertinente \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do crime, segundo a sua descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica, resulta do incumprimento do dever jur\u00eddico de evitar esse resultado, nisso se distinguindo dos crimes omissivos puros que se caracterizam pela simples absten\u00e7\u00e3o de agir e s\u00e3o crimes de mera actividade.<br \/>A punibilidade do omitente depende da exist\u00eancia de um espec\u00edfico dever jur\u00eddico que o obrigue a agir, para evitar o resultado. S\u00f3 h\u00e1 equival\u00eancia entre o desvalor da ac\u00e7\u00e3o e o desvalor da omiss\u00e3o, porque o agente tem uma posi\u00e7\u00e3o de garante da n\u00e3o produ\u00e7\u00e3o do resultado, \u00e0 luz de um dever jur\u00eddico de agir que constitu\u00ed o fundamento da puni\u00e7\u00e3o e sem o qual a punibilidade da omiss\u00e3o constituiria uma intromiss\u00e3o intoler\u00e1vel na esfera privada de cada um.\u00a0<br \/>O facto t\u00edpico materializa-se na \u00abcria\u00e7\u00e3o de um risco de verifica\u00e7\u00e3o de um resultado t\u00edpico\u00bb que existir\u00e1 sempre que esse perigo se verifica ou \u00e9 intensificado por efeito da omiss\u00e3o, traduzida na aus\u00eancia da ac\u00e7\u00e3o esperada e exig\u00edvel por refer\u00eancia \u00e0quilo que segundo a descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica \u00e9 necess\u00e1rio para obstar \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o do resultado previsto no tipo legal e desde que o omitente esteja em condi\u00e7\u00f5es de poder levar a cabo a ac\u00e7\u00e3o devida ou necess\u00e1ria a evitar o resultado (Figueiredo Dias, Dto Penal, Parte Geral, I, Coimbra editora 2\u00aa ed., p\u00e1gs. 927 e 928).<br \/>O dever jur\u00eddico de garante da n\u00e3o ocorr\u00eancia do resultado antijur\u00eddico pode resultar directamente da Lei (dever legal especial), de um contrato, de situa\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o de perigo e\/ou rela\u00e7\u00f5es familiares \u00edntimas de solidariedade e confian\u00e7a que importem a aceita\u00e7\u00e3o de facto de deveres cuja execu\u00e7\u00e3o importe inger\u00eancia\/apoio entre o omitente e o titular do bem jur\u00eddico que suporte o dever de agir, numa posi\u00e7\u00e3o de protec\u00e7\u00e3o ou de uma posi\u00e7\u00e3o de controlo (Johannes Wessels, Direito Penal, Parte Geral 1976, p\u00e1g. 157 e ss; Germano Marques da Silva, Direito Penal Portugu\u00eas, II, verbo, p\u00e1g. 49 e ss; Pinto de Albuquerque Coment\u00e1rio do C\u00f3digo Penal \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem, 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o, artigo 10\u00ba, p. 72-73).<br \/>Analisados todos os elementos do tipo de crime de maus tratos, importa verificar se os factos demonstrados preenchem este tipo legal de crime.<br \/>A primeira constata\u00e7\u00e3o a fazer \u00e9 a de que entre a arguida e a ofendida existia uma rela\u00e7\u00e3o contratual nos termos da qual, a primeira se obrigou, mediante uma contrapartida monet\u00e1ria, a prestar todos os cuidados de sa\u00fade, alimenta\u00e7\u00e3o, higiene, vestu\u00e1rio, medica\u00e7\u00e3o e tudo o mais necess\u00e1rio \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades quotidianas da segunda que data n\u00e3o apurada de 2017, quando tinha 80 anos, ingressou no lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento ...-Unipessoal, Lda., cujo objecto social era a actividade de lar de idosos, apoio geri\u00e1trico, centro de dia, apoio domicili\u00e1rio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos e de enfermagem e por cuja gest\u00e3o a arguida, SMGA_____ era a \u00fanica respons\u00e1vel.<br \/>Como demonstrado no antigo ponto 15) e actual 17),\u00a0 da mat\u00e9ria de facto provada, no exerc\u00edcio da sua actividade laboral e enquanto respons\u00e1vel daquele lar, a arguida tinha a seu cargo, entre outras, as seguintes fun\u00e7\u00f5es, que devia desempenhar diariamente e ainda sempre que fosse necess\u00e1rio: administrar a medica\u00e7\u00e3o prescrita aos utentes do lar a\u00ed internados; lava-los; mudar-lhes as fraldas (caso as usassem); mudar pensos, adesivos e efectuar curativos em feridas; alimentar (\u00e0 colher ou atrav\u00e9s de sonda) os doentes que n\u00e3o conseguissem, devido \u00e0s doen\u00e7as, alimentar-se sem ajuda; mudar os len\u00e7\u00f3is; escrever no livro \u201cnotas do enfermeiro\u201d, todas as informa\u00e7\u00f5es relativas a cada doente; informar os m\u00e9dicos e os enfermeiros de qualquer altera\u00e7\u00e3o do estado de sa\u00fade dos utentes e ainda prestar assist\u00eancia, em caso de emerg\u00eancia, aos doentes que dela necessitassem, pessoalmente ou chamando o m\u00e9dico de servi\u00e7o, quando necess\u00e1rio.<br \/>Est\u00e1 assim configurada a sua posi\u00e7\u00e3o de garante da sa\u00fade f\u00edsica, mental, ps\u00edquica e bem-estar emocional da ofendida MAR______ \u00a0e, al\u00e9m dela, tamb\u00e9m o especial contexto relacional de confian\u00e7a e de apoio \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades a que a arguida estava contratualmente obrigada e a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e depend\u00eancia fruto da idade avan\u00e7ada da v\u00edtima, que integra o n\u00ba 1 do art. 152\u00ba A do CP.<br \/>Os factos provados sob os pontos 8) a 16) nenhuma d\u00favida oferecem que a arguida podendo e devendo assegurar a alimenta\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia m\u00e9dica e de enfermagem adequadas ao seu estado cl\u00ednico, por falta de cuidados e de assist\u00eancia quer na alimenta\u00e7\u00e3o quer nos cuidados de sa\u00fade, que podia e devia ter prestado, mas omitiu, foi a respons\u00e1vel pelo agravamento da \u00falcera de press\u00e3o e pelo estado de desnutri\u00e7\u00e3o e desidrata\u00e7\u00e3o em que MAR______ \u00a0se encontrava, quando deu entrada pela primeira vez, no Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca EPE, em 24 de Agosto de 2018.<br \/>Na medida em que, como descrito nos pontos 19) a 24, agiu com dolo, na modalidade de dolo necess\u00e1rio, ao actuar conforme referido, deve ser condenada pela pr\u00e1tica do crime de maus tratos de que vem acusada.<br \/>E nesta sequ\u00eancia e em cumprimento do Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a n.\u00ba 4\/2016, segundo o qual, \u00abem julgamento de recurso interposto de decis\u00e3o absolut\u00f3ria da 1.\u00aa inst\u00e2ncia, se a Rela\u00e7\u00e3o concluir pela condena\u00e7\u00e3o do arguido deve proceder \u00e0 determina\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie e medida da pena, nos termos das disposi\u00e7\u00f5es conjugadas dos artigos 374.\u00ba, n.\u00ba 3, al\u00ednea b), 368.\u00ba, 369.\u00ba, 371.\u00ba, 379.\u00ba, n.\u00ba 1, al\u00edneas a) e c), primeiro segmento, 424.\u00ba, n.\u00ba 2, e 425.\u00ba, n.\u00ba 4, todos do C\u00f3digo de Processo Penal.\u00bb (Di\u00e1rio da Rep\u00fablica n.\u00ba 36\/2016, S\u00e9rie I de 2016-02-22), imp\u00f5e-se proceder \u00e0 escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta da pena, dentro da moldura abstracta prevista para o crime de maus tratos, p. e p. pelo art. 152\u00ba A n\u00ba 1 do CP \u2013 pena de pris\u00e3o cujos limites m\u00ednimo e m\u00e1ximo s\u00e3o um ano e cinco anos.<br \/>Nos termos do art. 40\u00ba n\u00ba 1 do CP, \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da pena, salvaguardar a reposi\u00e7\u00e3o e a integridade dos bens jur\u00eddicos violados com a pr\u00e1tica dos crimes e, na medida do poss\u00edvel, assegurar a reintegra\u00e7\u00e3o do agente na sociedade, consagrando a preven\u00e7\u00e3o geral e a preven\u00e7\u00e3o especial como fundamentos legitimadores da aplica\u00e7\u00e3o das penas e acrescentando, no seu n\u00ba 2, que, em caso algum a pena pode ultrapassar a medida da culpa.<br \/>Este art. 40\u00ba veio, pois, concretizar no \u00e2mbito do Direito Penal e em mat\u00e9ria de escolha e dosimetria das penas, os princ\u00edpios constitucionais da necessidade e da proporcionalidade ou da proibi\u00e7\u00e3o do excesso, consagrados no artigo 18\u00ba n\u00ba 2 da CRP.<br \/>Por seu turno, o art. 71\u00ba n\u00ba 1 do CP imp\u00f5e que a determina\u00e7\u00e3o da pena seja realizada em fun\u00e7\u00e3o da culpa do agente e das exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o.<br \/>Com efeito, \u00abo ponto de partida da determina\u00e7\u00e3o judicial das penas \u00e9 a determina\u00e7\u00e3o dos seus fins, pois, s\u00f3 partindo dos fins das penas, claramente definidos, se pode julgar que factos s\u00e3o importantes e como se devem valorar no caso concreto para a fixa\u00e7\u00e3o da pena\u00bb (Hans Heinrich Jescheck, in Tratado de Derecho Penal, Parte General, II, p\u00e1g. 1194).<br \/>\u00abA protec\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddicos implica a utiliza\u00e7\u00e3o da pena para dissuadir a pr\u00e1tica de crimes pelos cidad\u00e3os (preven\u00e7\u00e3o geral negativa), incentivar a convic\u00e7\u00e3o de que as normas penais s\u00e3o v\u00e1lidas e eficazes e aprofundar a consci\u00eancia dos valores jur\u00eddicos por parte dos cidad\u00e3os (preven\u00e7\u00e3o geral positiva). A protec\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddicos significa ainda preven\u00e7\u00e3o especial como dissuas\u00e3o do pr\u00f3prio delinquente potencial\u00bb (Fernanda Palma, As Altera\u00e7\u00f5es Reformadoras da Parte Geral do C\u00f3digo Penal na Revis\u00e3o de 1995: Desmantelamento, Refor\u00e7o e Paralisia da Sociedade Punitiva, nas Jornadas sobre a Revis\u00e3o do C\u00f3digo Penal, 1998, AAFDL, p\u00e1g. 25).<br \/>A culpa n\u00e3o \u00e9, pois, o fundamento da pena, antes constituindo, a um tempo, o seu suporte axiol\u00f3gico-normativo, n\u00e3o havendo pena sem culpa \u2013 nulla poena sine culpa \u2013 e tamb\u00e9m o limite que a pena nunca poder\u00e1 exceder.<br \/>E \u00e9 a culpa apreciada em concreto, de acordo com a teoria da margem da liberdade, segundo a qual os limites m\u00ednimo e m\u00e1ximo da san\u00e7\u00e3o s\u00e3o ajustados \u00e0 culpa, conjugada com os fins de preven\u00e7\u00e3o geral e especial das penas.<br \/>Assim, em primeiro lugar, a medida da pena ser\u00e1 fornecida pela medida de necessidade de tutela de bens jur\u00eddicos (exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral positiva).<br \/>De seguida, dentro desta moldura, a medida concreta da pena ser\u00e1 doseada por refer\u00eancia \u00e0s exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o especial de socializa\u00e7\u00e3o do agente ou, sendo estas inexistentes, das necessidades de intimida\u00e7\u00e3o e de seguran\u00e7a individuais.<br \/>Por fim, a culpa fornece o limite m\u00e1ximo e inultrapass\u00e1vel da pena.\u00a0\u00a0<br \/>\u00abA culpa do infrator apenas desempenha o (importante) papel de pressuposto (condito sine qua non) e de limite m\u00e1ximo da pena a aplicar por maiores que sejam as exig\u00eancias sociais de preven\u00e7\u00e3o\u00bb (Am\u00e9rico Taipa de Carvalho, em Preven\u00e7\u00e3o, Culpa e Pena, in Liber Discipulorum para Jorge Figueiredo Dias, Coimbra Editora, 2003, p\u00e1g. 322).\u00a0<br \/>Culpa e preven\u00e7\u00e3o s\u00e3o, por conseguinte, os dois limites a observar no processo de escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta da medida da pena e prosseguindo a necessidade de assegurar este equil\u00edbrio, entre a medida \u00f3tima da tutela dos bens jur\u00eddicos e das expectativas da comunidade e a medida concreta da pena abaixo da qual \u00abj\u00e1 n\u00e3o \u00e9 comunitariamente suport\u00e1vel a fixa\u00e7\u00e3o da pena sem p\u00f4r irremediavelmente em causa a sua fun\u00e7\u00e3o tutelar\u00bb (cf. Figueiredo Dias, Direito Penal Portugu\u00eas, As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime, p\u00e1g. 229).<br \/>O art. 71\u00ba do C\u00f3digo Penal enumera as circunst\u00e2ncias que contribuem para agravar ou atenuar a responsabilidade, a que o Tribunal dever\u00e1 atender, para tal efeito.<br \/>Disp\u00f5e este preceito, no n\u00ba 1, que a determina\u00e7\u00e3o da medida da pena, dentro dos limites definidos na lei, \u00e9 feita em fun\u00e7\u00e3o da culpa do agente e das exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o.<br \/>O n\u00ba 2 do mesmo artigo enumera, a t\u00edtulo exemplificativo, algumas das circunst\u00e2ncias, agravantes e atenuantes, a atender, dispondo o n\u00ba 3, que na senten\u00e7a s\u00e3o expressamente referidos os fundamentos da medida da pena, em correspond\u00eancia com o artigo 375\u00ba n\u00ba 1 do CPP, que imp\u00f5e que a senten\u00e7a condenat\u00f3ria especifique os fundamentos que presidiram \u00e0 escolha e \u00e0 medida da san\u00e7\u00e3o aplicada.<br \/>Nessa enumera\u00e7\u00e3o exemplificativa vislumbram-se crit\u00e9rios, tanto associados \u00e0 preven\u00e7\u00e3o geral, como \u00e9 o caso da natureza e do grau de ilicitude do facto (que imp\u00f5em maior ou menor conte\u00fado de preven\u00e7\u00e3o geral, conforme tenham provocado maior ou menor sentimento comunit\u00e1rio de afeta\u00e7\u00e3o dos valores), como relacionados com exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o especial (as circunst\u00e2ncias pessoais do agente, a idade, a confiss\u00e3o, o arrependimento), ao mesmo tempo que tamb\u00e9m transmitem indica\u00e7\u00f5es externas e objetivas para apreciar e avaliar a culpa do agente.<br \/>Com efeito, esses crit\u00e9rios referem-se, uns, \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do facto \u2013 als. a), b), c) e e), parte final, como \u00e9 o caso do grau de ilicitude do facto, do modo de execu\u00e7\u00e3o deste e a gravidade das suas consequ\u00eancias, bem como o grau de viola\u00e7\u00e3o dos deveres impostos ao agente; a intensidade do dolo ou da neglig\u00eancia e os sentimentos manifestados no cometimento do crime e os fins ou motivos que o determinaram; outros, \u00e0 personalidade do agente, como sejam as suas condi\u00e7\u00f5es de vida e a sua prepara\u00e7\u00e3o ou falta dela, para manter uma conduta l\u00edcita, manifestada no facto, quando essa falta deva ser censurada atrav\u00e9s da aplica\u00e7\u00e3o da pena \u2013 als. d) e f) \u2013 e, outros, ainda, \u00e0 conduta anterior e posterior ao facto \u2013 al. e) - especialmente quando esta seja destinada a reparar as consequ\u00eancias do crime.<br \/>Mas estas circunst\u00e2ncias a que se refere o mencionado n\u00ba 2 do art. 71\u00ba, s\u00e3o aquelas que n\u00e3o integram os elementos constitutivos do tipo, sob pena de viola\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do \u00abne bis in idem\u00bb.<br \/>No entanto, tais circunst\u00e2ncias, na parte em que a sua intensidade concreta ultrapasse os limites necess\u00e1rios que a lei considera no tipo incriminador para a determina\u00e7\u00e3o da moldura penal abstracta, devem ser consideradas na fixa\u00e7\u00e3o concreta dessa moldura.<br \/>Estas circunst\u00e2ncias devem ser, ainda, valoradas de acordo com a teoria da margem da liberdade.<br \/>Quanto \u00e0s circunst\u00e2ncias agravantes a ponderar, importa salientar que, pese embora, no que concerne ao grau de culpa da arguida, a intensidade dolosa, na modalidade de dolo necess\u00e1rio se trata do tipo de dolo interm\u00e9dio entre as modalidades enunciadas no art. 14\u00ba do C\u00f3digo Penal, o grau de viola\u00e7\u00e3o dos deveres impostos tem sentido marcadamente agravante, atenta a situa\u00e7\u00e3o de especial vulnerabilidade da v\u00edtima e a rela\u00e7\u00e3o contratual ao abrigo da qual a arguida assumiu a obriga\u00e7\u00e3o de prestar todos os cuidados necess\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 sobreviv\u00eancia e satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades b\u00e1sicas, mas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da sua dignidade inerente \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o humana e \u00e0s especiais necessidades decorrentes da sua avan\u00e7ada idade.<br \/>Vir dizer, como fez a arguida em audi\u00eancia, para tentar explicar o inexplic\u00e1vel, que as mensalidades pagas pelos idosos eram baixas e por vezes n\u00e3o pagavam, quando tinha total soberania para determinar o montante da contrapartida monet\u00e1ria que pretendia receber, pois foi ela quem come\u00e7ou por se dedicar de forma livre e volunt\u00e1ria a uma atividade lucrativa, e em cujo contexto desconsiderou de forma absolutamente censur\u00e1vel o cuidado e a protec\u00e7\u00e3o que deveria dispensar \u00e0 ofendida (como a todos os idosos a quem se incumbiu de cuidar) \u00e9, no m\u00ednimo, desconcertante.<br \/>Se n\u00e3o tinha qualquer qualifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou t\u00e9cnica seja em geriatria, em gerontologia ou em cuidados b\u00e1sicos de enfermagem, mas queria, ainda assim, ter um neg\u00f3cio de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de assist\u00eancia e cuidados de sa\u00fade e outros a pessoas idosas, mais concretamente, a atividade de lar de idosos, apoio geri\u00e1trico, centro de dia, apoio domicili\u00e1rio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos e de enfermagem que era o objecto social da empresa ... Unipessoal, Lda. que geria em 2017 e 2018, a arguida tinha de ter criado todas as condi\u00e7\u00f5es log\u00edsticas, f\u00edsicas, equipamentos adequados,\u00a0 recursos materiais e humanos, com recrutamento de t\u00e9cnicos especializados para prestar um servi\u00e7o com padr\u00f5es m\u00ednimos de qualidade e fazer repercutir, ent\u00e3o, como em qualquer actividade lucrativa, o investimento realizado, nos montantes das mensalidades que iria cobrar aos utentes.<br \/>\u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que as pessoas a quem pretendia servir t\u00eam especiais necessidades por efeito da sua idade avan\u00e7ada, problemas de sa\u00fade associados, muitas vezes, solid\u00e3o e desamparo de quem est\u00e1 a viver a recta final da sua vida e nem sempre conta com o afeto e aten\u00e7\u00e3o da sua fam\u00edlia. S\u00e3o pessoas com car\u00eancias a v\u00e1rios n\u00edveis, porque dependentes de terceiras pessoas, at\u00e9 para as necessidades mais elementares \u00e0 sua sobreviv\u00eancia, mas que nem por isso perderam dignidade ou direitos. Por isso mesmo, \u00e9 que merecem especial aten\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o e, acima de tudo, respeito.<br \/>Em contextos como aquele em que a ofendida MAR______ \u00a0se encontrava em 2017 quando ingressou no lar de idosos explorado pela arguida e, infelizmente muitas pessoas idosas como ela, o que menos precisam \u00e9 de serem expostos a tratamentos cru\u00e9is, degradantes, maus tratos f\u00edsicos, ps\u00edquicos, infligidos por quem se responsabiliza por lhes prestar cuidados e assist\u00eancia, convertendo-se, contra todas as expectativas, em seus agressores, ao inv\u00e9s de as protegerem e lhes assegurarem, ao menos, a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e sa\u00fade mais b\u00e1sicas que foi o que faltou, no caso vertente, \u00e0 ofendida.\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>J\u00e1 lhes basta a velhice, a solid\u00e3o, a doen\u00e7a e as fragilidades associadas \u00e0 idade avan\u00e7ada com que t\u00eam de lidar diariamente. O que deveria merecer solidariedade e compaix\u00e3o, ao inv\u00e9s do menosprezo a que a arguida votou a ofendida.\u00a0<br \/>Por isso que o que jamais se pode aceitar como explica\u00e7\u00e3o, ou tentativa de explica\u00e7\u00e3o para comportamentos t\u00e3o graves como o que a arguida assumiu perante esta senhora MAR______ \u00a0\u00e9 que \u00abfez o que pode\u00bb porque as mensalidades pagas pelos utentes eram baixas ou porque nem sempre pagavam a tempo e horas, o que revela um profundo desrespeito por valores t\u00e3o b\u00e1sicos ao conv\u00edvio social como o respeito que \u00e9 devido a todas as pessoas e \u00e0 sua dignidade humana, independentemente da sua idade, condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou ps\u00edquica ou recurso econ\u00f3micos.\u00a0\u00a0<br \/>Como diz e muito bem o M\u00ba. P\u00ba., no seu recurso, a arguida nem sequer fez o que p\u00f4de, pela simples raz\u00e3o de que n\u00e3o fez nada.\u00a0<br \/>E podia e devia t\u00ea-lo feito, at\u00e9 ao abrigo de um simples dever de aux\u00edlio, se, mesmo sem ter tido o cuidado de instalar um lar de idosos devidamente apetrechado, em vez de s\u00f3 ter providenciado por assist\u00eancia m\u00e9dica e de enfermagem \u00e0 ofendida naquele dia 24 de Agosto de 2018, o tivesse feito, dois ou tr\u00eas meses antes, logo que se apercebeu dos primeiros sinais da ocorr\u00eancia da \u00falcera de press\u00e3o, segundo o que a pr\u00f3pria arguida relatou ao tribunal.\u00a0<br \/>O mesmo tem de dizer-se do estado de desidrata\u00e7\u00e3o e desnutri\u00e7\u00e3o em que esta senhora se encontrava quando foi assistida no hospital o que revela uma total desconsidera\u00e7\u00e3o pela satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais essenciais \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da v\u00edtima.\u00a0<br \/>O modo de execu\u00e7\u00e3o \u00e9, ali\u00e1s, revelador de efic\u00e1cia e determina\u00e7\u00e3o e enorme a ilicitude da conduta, atendendo, quer \u00e0 natureza dos bens jur\u00eddicos tutelados, quer ao facto de a arguida ter praticado as condutas integradoras do il\u00edcito em apre\u00e7o, durante v\u00e1rios meses, indiferente ao sofrimento f\u00edsico e muito provavelmente ps\u00edquico e emocional que causou a MAR______ \u00a0quando foi precisamente para o oposto disso que admitiu o ingresso da mesma na institui\u00e7\u00e3o de acolhimento para idosos ... Unipessoal, Lda. que geria como uma actividade lucrativa.<br \/>Somam-se, com car\u00e1cter agravante, as exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral, que s\u00e3o muito fortes, em face da enorme prolifera\u00e7\u00e3o de crimes de natureza id\u00eantica, pelo alarme social que estes crimes provocam, quer em fun\u00e7\u00e3o dos danos irrevers\u00edveis que provocam, de que muitas vezes resulta a morte das v\u00edtimas, quer em virtude da censurabilidade dos comportamentos que os integram, tamb\u00e9m do ponto de vista \u00e9tico, por atentarem contra valores absolutamente fundamentais de coes\u00e3o social, de solidariedade e respeito aos mais velhos, de dignifica\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o e da sua n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da sua idade ou condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica e ps\u00edquica, que s\u00e3o valores constitucionais inspiradores dos direitos humanos fundamentais e do Estado de Direito Democr\u00e1tico em que vivemos.<br \/>A APAV recebeu mais de 10 mil queixas por crimes e viol\u00eancia contra idosos entre 2013 e 2020, tendo atingido em 2020 o n\u00famero mais alto de processos abertos, maioritariamente por crimes de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>De acordo com a informa\u00e7\u00e3o estat\u00edstica divulgada pela Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio \u00e0 V\u00edtima (APAV), a prop\u00f3sito do Dia Internacional da Pessoa Idosa, dos 10.307 processos abertos nesta s\u00e9rie estat\u00edstica sobre crimes e viol\u00eancia contra idosos, 1814 foram abertos em 2020, o n\u00famero mais elevado num \u00fanico ano desde 2013, batendo o m\u00e1ximo do ano anterior (2019), em que foram abertos 1615 processos.<br \/>Daqueles 1814 processos, 579 referem-se a maus tratos f\u00edsicos e 702 a maus tratos psicol\u00f3gicos, o que diz bem da dimens\u00e3o preocupante deste fen\u00f3meno<br \/><a href=\"https:\/\/apav.pt\/apav_v3\/images\/pdf\/Estatisticas_APAV_Relatorio_Anual_2020.pdf\">(<\/a>https:\/\/apav.pt\/apav_v3\/images\/pdf\/Estatisticas_APAV_Relatorio_Anual_2020.pdf<a href=\"https:\/\/apav.pt\/apav_v3\/images\/pdf\/Estatisticas_APAV_Relatorio_Anual_2020.pdf\">)<\/a>.<br \/>Com car\u00e1cter abonat\u00f3rio, apenas o facto de a arguida n\u00e3o ter antecedentes criminais, de se dedicar ao trabalho, estando inserida social e familiarmente.<br \/>Sopesados todos estes factores, mostra-se adequada a gradua\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o em dois anos e seis meses.<br \/>De acordo com os princ\u00edpios gerais, consagrados nos art. 18\u00ba n\u00ba 2 da CRP, da necessidade da pena e da proporcionalidade ou da proibi\u00e7\u00e3o do excesso, a que o art. 40\u00ba do CP deu concretiza\u00e7\u00e3o, constitui princ\u00edpio fundamental do sistema punitivo do C\u00f3digo Penal, o da prefer\u00eancia fundamentada pela aplica\u00e7\u00e3o das penas n\u00e3o privativas da liberdade, consideradas mais eficazes para promover a integra\u00e7\u00e3o do delinquente na sociedade e dar resposta \u00e0s necessidades de preven\u00e7\u00e3o geral e especial.<br \/>Em diversos preceitos se encontram afloramentos de tal princ\u00edpio, designadamente, no instituto da suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o, previsto no art. 50\u00ba.<br \/>Nos termos do art. 50\u00ba n\u00ba 1 do CP, \u00abo tribunal suspende a execu\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o aplicada em medida n\u00e3o superior a cinco anos se, atendendo \u00e0 personalidade do agente, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da sua vida, \u00e0 sua conduta anterior e posterior ao crime e \u00e0s circunst\u00e2ncias deste, concluir que a simples censura do facto e a amea\u00e7a da pris\u00e3o realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da puni\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>A suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena constitu\u00ed uma dessas medidas de conte\u00fado pedag\u00f3gico e ressocializante que exige, para al\u00e9m da moldura concreta n\u00e3o superior a cinco anos de pris\u00e3o, que o Tribunal formule um ju\u00edzo favor\u00e1vel ao arguido, no sentido de considerar prov\u00e1vel que a simples censura da sua conduta e a amea\u00e7a da pena s\u00e3o suficientes para que ele n\u00e3o volte a cometer crimes e para satisfazer as exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o da criminalidade.<br \/>E a pondera\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es pessoais do arguido, da sua personalidade e conduta anterior e posterior aos factos, bem como as circunst\u00e2ncias em que estes foram praticados, est\u00e3o directamente associadas a finalidades de preven\u00e7\u00e3o especial e n\u00e3o quaisquer factores relacionados com o grau de culpa do agente, cuja sede pr\u00f3pria de aprecia\u00e7\u00e3o \u00e9 a escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta da pena, constituindo o limite m\u00e1ximo e inultrapass\u00e1vel desta.<br \/>A suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena que, embora efectivamente pronunciada pelo tribunal, n\u00e3o chega a ser cumprida, por se entender que a simples censura do facto e a amea\u00e7a da pena bastar\u00e3o para realizar as finalidades da puni\u00e7\u00e3o, dever\u00e1 ter na sua base uma prognose social favor\u00e1vel ao r\u00e9u, a esperan\u00e7a de que o r\u00e9u sentir\u00e1 a sua condena\u00e7\u00e3o como uma advert\u00eancia e que n\u00e3o cometer\u00e1 no futuro nenhum crime.<br \/>\u00abO tribunal dever\u00e1 correr um risco prudente, uma vez que esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 seguramente certeza, mas se tem s\u00e9rias d\u00favidas sobre a capacidade do r\u00e9u para compreender a oportunidade de ressocializa\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 oferecida, a prognose deve ser negativa\u00bb (LealHenriques e Simas Santos, C\u00f3digo Penal Anotado, em anota\u00e7\u00e3o ao art. 50.\u00ba).\u00a0<br \/>Do que se trata \u00e9 de saber, se mantendo o autor do crime em liberdade, sujeito ou n\u00e3o a injun\u00e7\u00f5es e regras de conduta, como condi\u00e7\u00f5es do n\u00e3o cumprimento efectivo da pena de pris\u00e3o, destinadas, respectivamente, a reparar o mal do crime e a assegurar a inser\u00e7\u00e3o social do condenado, se mostra, em cada caso, adequado e suficiente para que interiorize o car\u00e1cter \u00e9tica e juridicamente reprov\u00e1vel da sua conduta e obste a que volte a praticar outros crimes.<br \/>\u00abNa base da decis\u00e3o de suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena dever\u00e1 estar uma prognose social favor\u00e1vel ao agente, baseada num risco prudencial. A suspens\u00e3o da pena funciona como um instituto em que se une o ju\u00edzo de desvalor \u00e9tico - social contido na senten\u00e7a penal com o apelo, fortalecido pela amea\u00e7a de executar no futuro a pena, \u00e0 vontade do condenado em se reintegrar na sociedade\u00bb (Jescheck, Tratado, Parte Geral, vers\u00e3o espanhola, volume II, p\u00e1gs. 1152 e 1153).<br \/>\u00abTamb\u00e9m importa acrescentar que esse ju\u00edzo de prognose n\u00e3o corresponde a uma certeza, antes a uma esperan\u00e7a fundada de que a socializa\u00e7\u00e3o em liberdade se consiga realizar. Trata-se pois de uma convic\u00e7\u00e3o subjectiva do julgador que n\u00e3o pode deixar de envolver um risco, derivado, para al\u00e9m do mais, dos elementos de facto mais ou menos limitados a que se tem acesso\u00bb (Ac. do STJ de 18.06.2015, proc. 270\/09.9GBVVD. S1, in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt; no mesmo sentido, Acs. do STJ de 5.07.2012, proc. 373\/11.0JELSB.S1-5; de 24.02.2016 proc. 60\/13.4PBVLG.P1.S1, na mesma base de dados; Figueiredo Dias, in \u201cDireito Penal<br \/>Portugu\u00eas \u2013 As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime\u201d, p\u00e1g. 344; Andr\u00e9 Lamas Leite, A suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena privativa de liberdade sob pretexto da revis\u00e3o de 2007 do<br \/>C\u00f3digo Penal, in Stvdia Jur\u00eddica, 99, Ad Honorem-5, BFDC, Coimbra Editora, 2009, p\u00e1g. 629).\u00a0<br \/>Mas s\u00e3o, sobretudo, raz\u00f5es atinentes \u00e0 preven\u00e7\u00e3o geral que fundamentam, seja a aplica\u00e7\u00e3o, seja a n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o deste instituto.\u00a0<br \/>Com efeito, s\u00e3o as raz\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o geral, traduzidas nas exig\u00eancias m\u00ednimas e irrenunci\u00e1veis de salvaguarda da cren\u00e7a da sociedade, na manuten\u00e7\u00e3o e no refor\u00e7o da validade da norma incriminadora violada, que determinam a possibilidade de reinser\u00e7\u00e3o social em liberdade que inspira o instituto da suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena.<br \/>Mesmo que aconselhada \u00e0 luz das exig\u00eancias de socializa\u00e7\u00e3o do condenado, a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena n\u00e3o poder\u00e1 ter lugar, se a tal se opuserem a tutela dos bens jur\u00eddicos violados e as expectativas comunit\u00e1rias, quanto \u00e0 capacidade dos mecanismos e das institui\u00e7\u00f5es previstos na ordem jur\u00eddica para repor a validade e a efic\u00e1cia das normas que a integram e de as fazerem respeitar.<br \/>\u00abUma tal medida (de suspens\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o) em nada pode ser influenciada por considera\u00e7\u00f5es, seja de culpa, seja de preven\u00e7\u00e3o especial.\u00a0<br \/>\u00abDecisivo s\u00f3 pode ser o quantum da pena indispens\u00e1vel para que se n\u00e3o ponham irremediavelmente em causa a cren\u00e7a da comunidade na validade de uma norma e, por essa via, os sentimentos de confian\u00e7a e de seguran\u00e7a dos cidad\u00e3os nas institui\u00e7\u00f5es jur\u00eddico-penais\u00bb (Figueiredo Dias, Direito Penal Portugu\u00eas \u2013 As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime, Aequitas, Editorial de Not\u00edcias, p\u00e1gs. 330\/331 e Robalo Cordeiro, A Determina\u00e7\u00e3o da Pena, Jornadas de Direito Criminal \u2013 Revis\u00e3o do C\u00f3digo Penal, CEJ, vol. 2.\u00ba, p\u00e1g. 48 Acs. dos STJ de<br \/>09.11.2000, in\u00a0http:\/\/www.cidadevirtual.pt\/stj\/jurisp\/bo14crime.html; de 08.05.2003; de 02.10.2003; de 02.03.2006; de 02.05.2006; de 06.07.2006; de 25.10.2007; de 02.04.2008; de<br \/>17.04.2008 e de 18.12.2008; de 07.04.2010 in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt).<br \/>Numa an\u00e1lise globalizante dos factos, mostra-se que os mesmos se inserem num contexto de vida pessoal da arguida, em que, pese embora a aus\u00eancia de antecedentes criminais, a inser\u00e7\u00e3o familiar e laboral, os mesmos foram praticados no \u00e2mbito de uma actividade empresarial que durou cerca de dez anos, as raz\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o geral s\u00e3o fortes e a arguida n\u00e3o revelou a menor empatia ou sensibilidade em rela\u00e7\u00e3o ao sofrimento que causou \u00e0 v\u00edtima, assumiu uma postura de distanciamento perante os factos e de auto desresponsabiliza\u00e7\u00e3o o que coloca algumas reservas quanto \u00e0 suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena pura simples e \u00e0 sua efic\u00e1cia para fazer com que a arguida interiorize o car\u00e1cter il\u00edcito e censur\u00e1vel da sua conduta e se abstenha da pr\u00e1tica de novos crimes da mesma ou de diferente natureza. Soma-se um factor de risco acrescido que \u00e9 o de que continua a trabalhar na assist\u00eancia a idosos, embora agora por conta de outrem.\u00a0<br \/>Ponderando, em contrapartida, o efeito consabidamente crimin\u00f3geno das penas de pris\u00e3o de curta dura\u00e7\u00e3o, potenciador de reincid\u00eancia (cfr., nesse sentido, Anabela Rodrigues, A Determina\u00e7\u00e3o da Medida Concreta da Pena Privativa de Liberdade e a Escolha da Pena, anota\u00e7\u00e3o ao Ac. do STJ de 21 de Mar\u00e7o de 1990 (3\u00aa sec\u00e7\u00e3o \u2013 processo n\u00ba 40 639), in RPCC ano I, n\u00ba 2, Abril \u2013 Junho de 1991, p. 255) bem assim e sobretudo, porque, no caso vertente, ainda \u00e9 poss\u00edvel garantir um \u201climiar m\u00ednimo de preven\u00e7\u00e3o geral de defesa da ordem jur\u00eddica\u201d, mantendo a arguida em liberdade, apenas sob a amea\u00e7a da pena e materializando a censura do facto na imposi\u00e7\u00e3o de determinadas regras de conduta e injun\u00e7\u00f5es e ainda de sujei\u00e7\u00e3o a um plano de reinser\u00e7\u00e3o social a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena, com regime de prova, nos termos consentidos pelos arts. 51\u00ba n\u00ba1 al. c); 52\u00ba n\u00ba 1 al. b), 52\u00ba n\u00ba 2 als. a), b) e d), 53\u00ba e 54\u00ba n\u00ba 3 do CP, ainda assegura as finalidades de preven\u00e7\u00e3o geral e especial das penas.<br \/>Assim, mostram-se adequados e proporcionais, al\u00e9m de outros que venham a integrar o plano individual de reinser\u00e7\u00e3o social, os de:<br \/>a) Frequentar programa de sensibiliza\u00e7\u00e3o para a problem\u00e1tica dos maus tratos a<br \/>pessoas idosas;<br \/>b) N\u00e3o prestar nenhum tipo de cuidados de sa\u00fade, higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, ou a qualquer outro t\u00edtulo, aux\u00edlio ou assist\u00eancia, na satisfa\u00e7\u00e3o de todas e quaisquer necessidades essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia di\u00e1ria a pessoas com idades iguais e\/ou superiores a 65 anos, no exerc\u00edcio da sua profiss\u00e3o, ou em qualquer outro contexto, nem acolh\u00ea-las formal ou informalmente, seja, na sua resid\u00eancia, ou em qualquer outro local.\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>c) Entregar a quantia de \u20ac 500,00 (quinhentos euros) \u00e0 APAV e junta documento<br \/>comprovativo desse pagamento aos autos, at\u00e9 ao final do segundo ano de dura\u00e7\u00e3o da\u00a0 suspens\u00e3o da pena.<br \/>Quanto ao per\u00edodo de dura\u00e7\u00e3o da suspens\u00e3o, o mesmo ser\u00e1 fixado em tr\u00eas anos e seis meses.<br \/>Na acusa\u00e7\u00e3o, o M\u00ba. P\u00ba. tamb\u00e9m pediu a aplica\u00e7\u00e3o da pena acess\u00f3ria de proibi\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es, nos termos previstos no art. 66\u00ba n\u00bas 1 e 2 do CP.<br \/>\u00c9 a condena\u00e7\u00e3o do agente numa pena principal que constitui o antecedente l\u00f3gico e essencial da aplica\u00e7\u00e3o da pena acess\u00f3ria.<br \/>Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o suficiente, porquanto, n\u00e3o sendo a pena acess\u00f3ria um mero efeito da pena principal, nem sua consequ\u00eancia autom\u00e1tica, nem uma medida de seguran\u00e7a, porque n\u00e3o se encontra referida apenas a efeitos preventivos, antes surge principalmente associada a uma especial gravidade e\/ou censurabilidade do crime, seja pelo particular desvalor das circunst\u00e2ncias concretas da execu\u00e7\u00e3o criminosa, seja pela intensifica\u00e7\u00e3o da culpa, ou pela necessidade de refor\u00e7o da tutela do bem jur\u00eddico ou de protec\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, ou ainda, outros interesses de pol\u00edtica criminal, para al\u00e9m dos limites que a pena principal \u00e9 apta a assegurar, a sua aplicabilidade depende da demonstra\u00e7\u00e3o de um espec\u00edfico conte\u00fado de il\u00edcito, de uma culpa especialmente agravada, e\/ou de especiais necessidades de protec\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, ou de preven\u00e7\u00e3o geral de intimida\u00e7\u00e3o dentro dos limites da culpa que, depois de casuisticamente avaliados, justifiquem materialmente a aplica\u00e7\u00e3o em esp\u00e9cie da pena acess\u00f3ria, em refor\u00e7o e complemento do conte\u00fado sancionat\u00f3rio e restaurativo \u00ednsito \u00e0 pena principal.<br \/>De resto, o artigo 30\u00ba n\u00ba 4 da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa veio precisamente proibir, na sua plenitude, a perda de direitos civis, profissionais ou pol\u00edticos enquanto efeito necess\u00e1rio das penas, o mesmo sucedendo, no art. 65\u00ba n\u00ba 1 do CP, revelando um claro prop\u00f3sito do legislador, no sentido de impedir que as penas produzam efeitos inibidores da reintegra\u00e7\u00e3o social do condenado que n\u00e3o tenham na culpa o seu fundamento e limite.<br \/>\u00a0As penas acess\u00f3rias \u00ab(\u2026) s\u00e3o, isso sim, verdadeiras penas. Ademais, s\u00f3 s\u00e3o efectivamente aplicadas se a senten\u00e7a condenat\u00f3ria expressamente as declarar, n\u00e3o resultando, pois, automaticamente, da pena principal e (\u2026) para al\u00e9m disso, devemos entender, actualmente, que a sua finalidade \u00faltima tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 nunca a da preven\u00e7\u00e3o geral negativa, esta que tanto se associa aos efeitos das penas\u00bb (Faria Costa, \u201cPenas acess\u00f3rias \u2013 C\u00famulo jur\u00eddico ou c\u00famulo material? [a resposta que a lei (n\u00e3o) d\u00e1]\u201d, Revista de Legisla\u00e7\u00e3o e Jurisprud\u00eancia, n.\u00ba 3945, Ano 136, Julho-Agosto de 2007, Coimbra: Coimbra Editora, pp. 324).\u00a0<br \/>\u00abA pena acess\u00f3ria \u00e9 a consequ\u00eancia jur\u00eddica do crime aplic\u00e1vel ao agente imput\u00e1vel em cumula\u00e7\u00e3o com uma pena principal, mas cuja autonomia se manifesta porque a sua aplica\u00e7\u00e3o depende da alega\u00e7\u00e3o e prova de pressupostos aut\u00f3nomos, relacionados com a pr\u00e1tica do crime a sua aplica\u00e7\u00e3o depende da valora\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios gerais de determina\u00e7\u00e3o das penas, incluindo a culpa, e a pena \u00e9 graduada no \u00e2mbito de uma moldura aut\u00f3noma fixada na lei. Da\u00ed, a pena acess\u00f3ria nada tem a ver com o efeito da pena, isto \u00e9, a consequ\u00eancia autom\u00e1tica e necess\u00e1ria do crime aplic\u00e1vel em cumula\u00e7\u00e3o com uma pena principal\u00bb (Paulo Pinto de Albuquerque \u201cComent\u00e1rio do C\u00f3digo Penal \u00e0 Luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem\u201d, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o actualizada, Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, p\u00e1g. 256. No mesmo sentido, Figueiredo Dias, 2 \u201cDireito Penal Portugu\u00eas, As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime\u201d, 1993, Aequitas, Ed. Not\u00edcias, p\u00e1g. 197; M. Miguez<br \/>Garcia, J. M. Castela Rio, \u201cC\u00f3digo Penal Parte geral e especial, com notas e coment\u00e1rios\u201d, p. 406; Ac\u00f3rd\u00e3o de Fixa\u00e7\u00e3o de Jurisprud\u00eancia do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a n\u00ba 14\/96, publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica n\u00ba 275\/1996, S\u00e9rie I-A de 27.11.1996, sobre a pena acess\u00f3ria de expuls\u00e3o de estrangeiros do territ\u00f3rio nacional; Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a Ac\u00f3rd\u00e3o 2\/2018, de 13 de Fevereiro publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica n\u00ba 31\/2018, S\u00e9rie I, de 13.02.2018, acerca da inibi\u00e7\u00e3o do direito de conduzir e da possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o de c\u00famulo jur\u00eddico entre penas acess\u00f3rias dessa natureza; Ac. STJ de Fixa\u00e7\u00e3o de Jurisprud\u00eancia n\u00ba 7\/2008 , in DR, I S\u00e9rie de 30-07-2008; Ac\u00f3rd\u00e3os do TC n.\u00bas 149\/01, 586\/04,<br \/>79\/09, 53\/2011 e 145\/2021, in\u00a0http:\/\/www.tribunalconstitucional.pt; Ac\u00f3rd\u00e3os do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, de 17.01.2018, processo n.\u00ba 149\/17.0PFVNG.P1 e de 10.10.2018, processo n.\u00ba 35\/18.7PAESP.P1 e ac\u00f3rd\u00e3os do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra, de 04.02.2015, processo n.\u00ba 59\/14.3GTVIS.C1 e de 28.02.2018, processo n.\u00ba 211\/17.0GAMIR.C1, todos in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\">)<\/a>.<br \/>As penas acess\u00f3rias visam \u00abcensurar especialmente o arguido pelo circunstancialismo que envolve o crime cometido, circunstancialismo esse que justifica a priva\u00e7\u00e3o de certo direito, faculdade ou posi\u00e7\u00e3o privilegiada de algum modo relacionados com a pr\u00e1tica do crime. \u00c9 precisamente a rela\u00e7\u00e3o (cuja exist\u00eancia s\u00f3 em concreto pode ser estabelecida) entre o cometimento do crime e o abuso (ou o \u00abmau uso\u00bb) do direito ou faculdade que a ele se liga que cria o \u00abespa\u00e7o\u00bb onde vive a censura suplementar contida na pena acess\u00f3ria; \u00e9 tamb\u00e9m nessa rela\u00e7\u00e3o que a pena acess\u00f3ria colhe o fundamento material legitimador da sua aplica\u00e7\u00e3o ao lado da pena principal\u00bb. (\u2026) ao passo que as medidas de seguran\u00e7a acess\u00f3rias \u00abvisam reagir \u2013 ao lado da aplica\u00e7\u00e3o de uma san\u00e7\u00e3o principal (pena ou medida de seguran\u00e7a) \u2013 contra a perigosidade manifestada pelo agente na pr\u00e1tica de um facto il\u00edcito-t\u00edpico. Neste caso, a media\u00e7\u00e3o judicial \u00e9 feita atrav\u00e9s do ju\u00edzo de perigosidade criminal\u00bb (Pedro Caeiro, em anota\u00e7\u00e3o ao Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, de 29 de Abril de 1992, publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica, I S\u00e9rie-A, n.\u00ba 157, de 10.07.1992, Qualifica\u00e7\u00e3o da San\u00e7\u00e3o de Inibi\u00e7\u00e3o da Faculdade de Conduzir Prevista no artigo 61.\u00ba, n.\u00ba 2, al\u00ednea d), do C\u00f3digo da Estrada \u2013<br \/>Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, de 29 de Abril de 1992, publicado no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica, I S\u00e9rie-A, n.\u00ba 157, de 10.07.1992, Revista Portuguesa de Ci\u00eancia Criminal, Ano 3, 2.\u00ba a 4.\u00ba, Abril-Dezembro 1993, p\u00e1ginas 543-572).<br \/>Do mesmo modo que o princ\u00edpio da legalidade criminal impede a determina\u00e7\u00e3o\u00a0<em>ex lege<\/em>\u00a0da pena concreta a aplicar e envolve, necessariamente, a possibilidade de individualiza\u00e7\u00e3o jurisdicional da san\u00e7\u00e3o penal em conformidade com as circunst\u00e2ncias concretas de cada caso, dentro de um sistema de penas vari\u00e1veis, entre um m\u00ednimo e um m\u00e1ximo mais ou menos amplo, sob pena de viola\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios constitucionais da igualdade, da proporcionalidade (especialmente, nas vertentes da adequa\u00e7\u00e3o e proibi\u00e7\u00e3o do excesso) e da culpa em mat\u00e9ria penal e da necessidade da pena (cfr. Jos\u00e9 Sousa e Brito, \"A lei penal na Constitui\u00e7\u00e3o\", Estudos sobre a Constitui\u00e7\u00e3o, Lisboa, 1978, p\u00e1gs. 199 e segs. e<br \/>Gomes Canotilho e Vital Moreira, Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa Anotada, 3\u00aa ed., Coimbra, 1993, p\u00e1g. 192), tamb\u00e9m as penas acess\u00f3rias carecem de uma interven\u00e7\u00e3o mediadora do Juiz, na sua aplica\u00e7\u00e3o, escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta, na medida em que apesar de prosseguirem objectivos de pol\u00edtica criminal diferentes dos das penas principais e das especificidades do seu regime em aten\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es como a da inadmissibilidade suspens\u00e3o da respectiva execu\u00e7\u00e3o, as penas acess\u00f3rias est\u00e3o indissoluvelmente ligadas ao facto praticado e \u00e0 culpa do agente e s\u00e3o dotadas de uma moldura penal espec\u00edfica, que convoca, pois, os mesmos crit\u00e9rios gerais contidos no art. 71\u00ba do CP, para a fixa\u00e7\u00e3o das penas principais\u00a0 (Germano Marques da Silva, Crimes Rodovi\u00e1rios, Universidade Cat\u00f3lica, p. 28 e Maia Gon\u00e7alves, C. Penal Anotado, 15\u00aa ed., p. 237; Tiago Caiado Milheiro, C\u00famulo Jur\u00eddico<br \/>Superveniente, No\u00e7\u00f5es Fundamentais, Almedina, 2016, p\u00e1gs. 141-144; Figueiredo Dias,<br \/>\"Direito Penal Portugu\u00eas - As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime\", Coimbra Editora, 4.\u00aa reimp., p\u00e1gs. 157 e ss. e Jescheck e Weigend, \"Tratado de Derecho Penal - Parte General\",5.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Comares, Granada, 2002, p\u00e1gs. 842 e ss.).\u00a0<br \/>\u00abAs penas acess\u00f3rias constituem verdadeiras penas. (... ) A sua imposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode, pois, nunca assumir car\u00e1cter autom\u00e1tico. O car\u00e1cter n\u00e3o autom\u00e1tico da pena acess\u00f3ria reside na necessidade de comprova\u00e7\u00e3o judicial dos requisitos formal - pr\u00e9via puni\u00e7\u00e3o pela pr\u00e1tica de um crime - e substancial - \u00abparticular conte\u00fado do il\u00edcito que justifique materialmente a sua aplica\u00e7\u00e3o\u00bb (Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ (de Uniformiza\u00e7\u00e3o de Jurisprud\u00eancia) n\u00ba7\/2008, in DR 146, S\u00c9RIE I, de 30.07.2008. No mesmo sentido, Acs. da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 19.12.2017, processo 186\/14.7GCLSA.C2; de 28.02.2018, processo n.\u00ba 211\/17.0GAMIR.C1; da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 09.07.2019, processo 338\/17.8PGALM.L1 5\u00aa Sec\u00e7\u00e3o; de 11.03.2021, processo 179\/19.8JDLSB.L1-9, in\u00a0http:\/\/www.dgsi.pt<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\">)<\/a>.<br \/>No caso vertente, al\u00e9m da gravidade do comportamento da arguida j\u00e1 sopesado a prop\u00f3sito da escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta da pena de dois anos e seis meses de pris\u00e3o que lhe foi aplicada, importa referir que os maus tratos infligidos a MAR______ \u00a0aconteceram num contexto em que a arguida se assumiu como cuidadora desta senhora de oitenta e dois anos ao abrigo de um v\u00ednculo contratual remunerado e no exerc\u00edcio de uma actividade comercial lucrativa.<br \/>Com efeito, tudo aconteceu quando esta senhora ingressou no lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento ... -Unipessoal, Lda. durante o ano de 2017, tratando de uma institui\u00e7\u00e3o que tinha como objecto social a actividade de lar de idosos, apoio geri\u00e1trico, centro de dia, apoio domicili\u00e1rio e presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos e de enfermagem, por cuja gest\u00e3o era respons\u00e1vel \u00fanica a arguida SMGA_____ \u00a0<br \/>Sobre a elevad\u00edssima ilicitude do comportamento da arguida integrador do crime de maus tratos, j\u00e1 tudo tamb\u00e9m ficou dito a prop\u00f3sito da escolha e determina\u00e7\u00e3o concreta da pena de pris\u00e3o aplicada, apenas se reitera que al\u00e9m da extrema danosidade do comportamento da arguida, pelo enorme sofrimento f\u00edsico e ps\u00edquico que causou \u00e0 v\u00edtima, durante, pelo menos, dois ou tr\u00eas meses e de forma completamente desnecess\u00e1ria, o grau de viola\u00e7\u00e3o grosseira dos deveres que assumiu no contexto de uma presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os remunerada e, portanto, totalmente volunt\u00e1ria \u00e9 tamb\u00e9m muito intenso e censur\u00e1vel.<br \/>H\u00e1 em todo este contexto, um risco de reincid\u00eancia que s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 enfrentado com o cumprimento efectivo da pena de pris\u00e3o em virtude do tempo entretanto decorrido sem que haja not\u00edcia de outros comportamentos delituosos, da curta dura\u00e7\u00e3o do tempo de pris\u00e3o fixado, do princ\u00edpio da prefer\u00eancia fundamentada por medidas n\u00e3o privativas da liberdade e do princ\u00edpio da proibi\u00e7\u00e3o do excesso, acima contextualizado a prop\u00f3sito da op\u00e7\u00e3o pela suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o e que motivou, de resto, a imposi\u00e7\u00e3o de deveres e regras de conduta, bem como o regime de prova.<br \/>Esse risco de repeti\u00e7\u00e3o de condutas como a de que h\u00e1 not\u00edcia nestes autos, emerge n\u00e3o s\u00f3 da relativa facilidade com que a arguida sem qualquer qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou cient\u00edfica, sem licen\u00e7a, sem recursos humanos, nem equipamentos adequados e durante cerca de dez anos, explorou pelo menos, tr\u00eas lares de idosos, sem qualquer controlo ou supervis\u00e3o, como tamb\u00e9m da sua postura de displic\u00eancia e total desinteresse perante a necessidade de que os cuidados de assist\u00eancia na sa\u00fade, na satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades essenciais do dia a dia das pessoas mais velhas e todas aquelas que lhes deveriam ser providenciadas para lhes assegurar bem estar f\u00edsico, ps\u00edquico e emocional, para lhes permitir desenvolverem e conservarem em toda a sua plenitude as suas capacidades, a todos os n\u00edveis, tenham determinados patamares m\u00ednimos de qualidade.<br \/>Acresce que, mesmo depois destes factos e at\u00e9 ao presente, a arguida continua a trabalhar num lar de idosos sito em Fam\u00f5es que ter\u00e1 a designa\u00e7\u00e3o de os Avozinhos, segundo o relat\u00f3rio social elaborado pela DGRSP e junto aos autos em 13 de Agosto de 2021, com a refer\u00eancia Citius 19347440, sendo sintom\u00e1tico o excerto contido nesse relat\u00f3rio segundo o qual \u00aba arguida n\u00e3o nos facultou a documenta\u00e7\u00e3o comprovativa da actual situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mico-profissional e o contacto da superior hier\u00e1rquica conforme solicitamos\u00bb, exarada na p\u00e1gina 3 deste relat\u00f3rio.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>Acontece, por\u00e9m, que falta um dos requisitos de natureza formal de que o art. 66\u00ba do CP faz depender a aplica\u00e7\u00e3o desta pena acess\u00f3ria, que \u00e9 o de que a pena concretamente aplicada tenha sido igual ou superior a tr\u00eas anos de pris\u00e3o, o que inviabiliza a aplica\u00e7\u00e3o da pena acess\u00f3ria de proibi\u00e7\u00e3o do exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o.<br \/>O mesmo tem de dizer-se da recolha de ADN peticionada tamb\u00e9m na acusa\u00e7\u00e3o, face \u00e0 pena concretamente aplicada, neste processo e ao que disp\u00f5e o art. 8\u00ba n\u00ba 2 da Lei 5\/2008 de 12 de Fevereiro.<br \/>III \u2013 DECIS\u00c3O\u00a0<br \/>Termos em que decidem:\u00a0<br \/>Conceder provimento parcial ao recurso e, em consequ\u00eancia:<br \/>Julgam parcialmente procedente a impugna\u00e7\u00e3o ampla da mat\u00e9ria de facto, determinando que:<br \/>Do ponto 2) dos factos provados passe a constar que A ofendida integrou o lar\/institui\u00e7\u00e3o de acolhimento \u2026 - Unipessoal, Lda, em data n\u00e3o concretamente apurada do ano de 2017;<br \/>Que as als. a), c), d), e), f), h), i), j) e l) que na senten\u00e7a recorrida foram considerados n\u00e3o provados, passem a integrar a mat\u00e9ria de facto provada, com a ressalva, quanto \u00e0 al\u00ednea c), de que a mesma passar\u00e1 a ter a seguinte redac\u00e7\u00e3o:<br \/>No dia 26 de Agosto de 2018 a ofendida encontrava-se no aludido lar, apresentando n\u00f3doas negras na zona dos calcanhares;\u00a0<br \/>Condenam a arguida SMGA_____ como autora material de um crime de maus tratos, p. e p. pelo artigo 152\u00b0-A n\u00b0 1 do C\u00f3digo Penal, na pena de dois anos e seis meses de pris\u00e3o.<br \/>Ao abrigo do disposto nos arts. 50\u00ba; 53\u00ba e 54\u00ba do CP, determinam a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o desta pena de pris\u00e3o pelo per\u00edodo de tr\u00eas anos e meio, com regime de prova a cumprir segundo um pleno individual de reinser\u00e7\u00e3o social a elaborar pela DGRSP quando o processo for remetido \u00e0 primeira inst\u00e2ncia que diligenciar\u00e1 pelo cumprimento do disposto no art. 494\u00ba do CPP.<br \/>Ao abrigo do disposto nos arts. 51\u00ba n\u00ba1 al. c); 52\u00ba n\u00ba 1 al. b), 52\u00ba n\u00ba 2 als. a), b) e d), 53\u00ba e 54\u00ba n\u00ba 3 do CP, determinam, al\u00e9m de outros deveres e regras de conduta que venham a integrar o plano individual de reinser\u00e7\u00e3o social, a sujei\u00e7\u00e3o da arguida aos deveres e regras de conduta de:<br \/>a) Frequentar programa de sensibiliza\u00e7\u00e3o para a problem\u00e1tica dos maus tratos a pessoas idosas; \u00a0<br \/>b) N\u00e3o prestar nenhum tipo de cuidados de sa\u00fade, higiene, alimenta\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, ou a qualquer outro t\u00edtulo, aux\u00edlio ou assist\u00eancia, na satisfa\u00e7\u00e3o de todas e quaisquer necessidades essenciais \u00e0 sobreviv\u00eancia di\u00e1ria a pessoas com idades iguais e\/ou superiores a 65 anos, no exerc\u00edcio da sua profiss\u00e3o, ou em qualquer outro contexto, nem acolh\u00ea-las formal ou informalmente, seja, na sua resid\u00eancia, ou em qualquer outro local, devendo a sua entidade patronal ser disso informada, assim como o ISS, IP, Direc\u00e7\u00e3o de Lisboa e Vale do Tejo.\u00a0\u00a0\u00a0<br \/>c) Entregar a quantia de \u20ac 500,00 (quinhentos euros) \u00e0 APAV e junta documento comprovativo desse pagamento aos autos, at\u00e9 ao final do segundo ano de dura\u00e7\u00e3o da suspens\u00e3o da pena.<br \/>Sem Custas \u2013 art. 522\u00ba do CPP.<br \/>Notifique.<br \/>*<br \/>Ac\u00f3rd\u00e3o elaborado pela primeira signat\u00e1ria em processador de texto que o reviu integralmente (art. 94\u00ba n\u00ba 2 do CPP), sendo assinado pela pr\u00f3pria e pela Mma. Ju\u00edza Adjunta.<br \/>*<br \/>Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa, 23 de Fevereiro de 2022<br \/>Cristina Almeida e Sousa<br \/>Florbela Sebasti\u00e3o e Silva<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"https:\/\/www.dgsi.pt\/jtrl.nsf\/33182fc732316039802565fa00497eec\/d1ba655d5ec630b980258806004e1710?OpenDocument\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dgsi.pt\/jtrl.nsf\/33182fc732316039802565fa00497eec\/d1ba655d5ec630b980258806004e1710?OpenDocument<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-adfe057 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-adfe057 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    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class=\"elementor-element elementor-element-fd61e60 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"fd61e60\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-fd61e60\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">I \u2013 O conceito de \u201cmaus tratos\u201d n\u00e3o se limita \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais evidentes de ofensas \u00e0 integridade f\u00edsica ou ps\u00edquica das v\u00edtimas, frequentemente traduzidas em agress\u00f5es f\u00edsicas\/sexuais, insultos, humilha\u00e7\u00f5es ou amea\u00e7as, antes abarcando um espetro muito alargado de comportamentos suscet\u00edveis de ofender a sa\u00fade f\u00edsica, ps\u00edquica e emocional das pessoas \u00e0s quais s\u00e3o dirigidos, neles se incluindo aus\u00eancia da presta\u00e7\u00e3o de cuidados alimentares e de higiene pessoal exig\u00edveis e adequados a preservar o seu bem-estar e integridade pessoal.<br \/>II - \u00c9 de notar que a APAV (Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio \u00e1 V\u00edtima) identifica como exemplo de pr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00e3o de direitos de pessoas institucionalizadas, entre muitas outras, \u00abdeixar pessoas idosas com dificuldade de mobiliza\u00e7\u00e3o sentadas ou deitadas durante muito tempo, sem ajud\u00e1-las a levantar-se\u00bb e \u00abn\u00e3o mobilizar regularmente pessoas idosas acamadas\u00bb, para al\u00e9m de \u00abpr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00e3o de direitos ao n\u00edvel da supervis\u00e3o t\u00e9cnica\u00bb, incluindo \u00abN\u00e3o assegurar que a equipa t\u00e9cnica \u00e9 qualificada e que h\u00e1 um n\u00famero adequado de profissionais que a comp\u00f5em\u00bb, e de \u00abPr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00e3o de direitos ao n\u00edvel da higiene pessoal\u00bb, nomeadamente \u00abDeixar as pessoas idosas sujas (por exemplo, de fezes e urina) durante muito tempo\u00bb e \u00abN\u00e3o lavar as pessoas idosas acamadas na totalidade durante longos per\u00edodos de tempo\u00bb. Acrescenta-se a pr\u00e1tica de \u00abNegligenciar a alimenta\u00e7\u00e3o das pessoas idosas por falta de ajuda durante as refei\u00e7\u00f5es\u00bb.<br \/>III - Compete \u00e0 institui\u00e7\u00e3o que acolhe pessoas idosas assegurar a execu\u00e7\u00e3o das tarefas necess\u00e1rias a garantir o bem-estar e sa\u00fade dos respetivos utentes, provendo diariamente pela sua alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e cuidados m\u00e9dicos<br \/>IV - Comete o crime de maus tratos, por omiss\u00e3o, a institui\u00e7\u00e3o e respetivo representante legal (presidente do conselho executivo), que, por n\u00e3o dispor da quantidade de funcion\u00e1rios suficiente, omite a presta\u00e7\u00e3o dos cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e mobiliza\u00e7\u00e3o dos utentes mais vulner\u00e1veis e dependentes, com a frequ\u00eancia e qualidade necess\u00e1rias, causando-lhes les\u00f5es e consequente sofrimento f\u00edsico e ps\u00edquico-emocional.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Proc. n\u00ba 820\/21.2T9AVR.P1<br \/>Recurso Penal<br \/>Ju\u00edzo de Instru\u00e7\u00e3o Criminal de Aveiro \u2013 Juiz 2<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam, em confer\u00eancia, na 2\u00aa Sec\u00e7\u00e3o Criminal do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">I. Relat\u00f3rio<br \/>No \u00e2mbito do processo comum que, sob o n\u00ba 820\/21.2T9AVR.P1, corre termos pelo Tribunal de Aveiro, foi proferido despacho de arquivamento do inqu\u00e9rito instaurado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico contra os arguidos Funda\u00e7\u00e3o ..., AA e BB, pela pr\u00e1tica, em coautoria material, de um crime de maus tratos, p. e p. pelos artigos 152.\u00ba-A, n.\u00ba 1, al\u00ednea a) e 11.\u00ba, n.\u00ba 2, do C\u00f3digo Penal.<br \/>Inconformado com o despacho de arquivamento, CC, atuando em representa\u00e7\u00e3o de DD, sua m\u00e3e, constituiu-se assistente nos autos e requereu abertura de instru\u00e7\u00e3o, na sequ\u00eancia da qual veio a ser proferido o despacho de n\u00e3o pron\u00fancia constante de fls. 487\/495.<br \/>Inconformado com a referida decis\u00e3o instrut\u00f3ria de n\u00e3o pron\u00fancia, dela interp\u00f4s recurso o assistente, com os fundamentos descritos na respetiva motiva\u00e7\u00e3o e contidos nas seguintes \u201cconclus\u00f5es\u201d, que se transcrevem:<br \/>\u00ab1. Vem o Recorrente intentar o presente recurso por n\u00e3o concordar com o teor do douto despacho de n\u00e3o pron\u00fancia.<br \/>2. Tendo de facto os arguidos sido n\u00e3o pronunciados pelo crime de maus tratos previsto e punido pelo artigo 152.\u00ba -A, 10.\u00ba e 11.\u00ba, n.\u00ba 2, todos do C\u00f3digo Penal.<br \/>3. Contudo, n\u00e3o pode o Recorrente concordar com o entendimento, vertido na douta decis\u00e3o recorrida, entendendo que, contrariamente ao constante da mesma, os elementos existentes nos autos impunham que fosse proferida decis\u00e3o de pron\u00fancia.<br \/>4. Na verdade, o Recorrente apresentou den\u00fancia no dia 16 de mar\u00e7o de 2021, a qual veio a dar origem aos presentes autos, remetendo-se na \u00edntegra para o teor de tal den\u00fancia, mas denunciando em suma factos que no seu entendimento configuravam maus tratos aos idosos e em particular \u00e0 sua m\u00e3e.<br \/>5. Quanto a tais factos, foram inquiridas diversas testemunhas, nomeadamente: EE, cuja inquiri\u00e7\u00e3o consta a a fls. 102 dos autos; FF, cuja inquiri\u00e7\u00e3o consta a fls. 104 dos autos; GG, cuja inquiri\u00e7\u00e3o consta a fls. 116 dos autos; HH, cuja inquiri\u00e7\u00e3o consta a fls. 119 dos autos; II, cuja inquiri\u00e7\u00e3o consta a fis. 121 dos autos; JJ, cuja inquiri\u00e7\u00e3o consta a fls. 126 dos autos.<br \/>6. Ora, n\u00e3o obstante, ser mencionado por diversas das testemunhas a falta de funcion\u00e1rios em n\u00famero suficiente para assegurar os cuidados adequados e necess\u00e1rios aos utentes, designadamente aos mais dependentes, nomeadamente no que concerne a alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e rota\u00e7\u00e3o dos mesmos, veio a concluir-se no douto despacho de n\u00e3o pron\u00fancia que, tal situa\u00e7\u00e3o apenas se poderia reconduzir eventualmente a neglig\u00eancia, \u201cn\u00e3o resultando, assim de atos intencionalmente praticados pelos funcion\u00e1rios do Lar.\u201d.<br \/>7. Entendimento com o qual n\u00e3o pode o Recorrente concordar.<br \/>8. De acordo com o artigo 152.\u00ba-A, n.\u00ba 1, al\u00ednea a), do C\u00f3digo Penal, \u201cquem, tendo ao seu cuidado, \u00e0 sua guarda, sob a responsabilidade da sua dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o, ou a trabalhar ao seu servi\u00e7o, pessoa menor ou particularmente indefesa, em raz\u00e3o da idade, defici\u00eancia, doen\u00e7a ou gravidez, e (...) lhe infligir, de modo reiterado ou n\u00e3o, maus tratos f\u00edsicos ou ps\u00edquicos, incluindo castigos corporais, priva\u00e7\u00f5es de liberdade e ofensas sexuais, ou a tratar cruelmente (...) \u00e9 punido com pena de pris\u00e3o de um a cinco anos, se pena mais grave lhe n\u00e3o couber por for\u00e7a de outra disposi\u00e7\u00e3o legal\u201d;<br \/>9. Trata-se este de um crime em que o bem jur\u00eddico protegido \u00e9 a pessoa individual e a sua dignidade humana, incluindo o \u00e2mbito punitivo deste tipo de crime os comportamentos que, de forma reiterada, lesam esta dignidade.<br \/>10. Exige este tipo legal que o agente se encontre numa rela\u00e7\u00e3o de superordena\u00e7\u00e3o face \u00e0 v\u00edtima: rela\u00e7\u00e3o\/dever de cuidado ou de guarda.<br \/>11. V\u00edtima ser\u00e1 assim, no que ora interessa quem seja particularmente indefesa em raz\u00e3o da idade, pressupondo o tipo de crime em causa uma reitera\u00e7\u00e3o das respetivas condutas.<br \/>12. Trata-se, ainda, de um crime doloso, podendo ser um crime de resultado ou de mera conduta, incluindo o dolo em qualquer das suas modalidades.<br \/>13. Sendo que, no que ora interessa, o conceito de maus tratos expressa uma conduta praticada contra pessoa idosa, que ocorre num contexto de confian\u00e7a e viola os direitos humanos, abarcando os mais variados tipos de maus tratos: f\u00edsico, material e psicol\u00f3gico.<br \/>14. A gravidade exigida nos comportamentos para integrarem o crime previsto no art.\u00ba 152.\u00ba-A CP, verifica-se pela especial viola\u00e7\u00e3o do dever de garante incumbido ao agente.<br \/>15. Est\u00e3o em causa os casos em que o agente tinha obriga\u00e7\u00e3o de atuar sobre outra pessoa de modo a prestar-lhe prote\u00e7\u00e3o, aux\u00edlio e coopera\u00e7\u00e3o, mas, ao inv\u00e9s, comete sobre essa pessoa um ato que lesa a sua integridade f\u00edsica de forma significativa.<br \/>16. Cumprindo quanto a este \u00e2mbito referir que a Associa\u00e7\u00e3o de Apoio \u00e0 Vitima \u2014 APAV compilou uma listagem de exemplos de maus tratos suscet\u00edveis de se verificarem em lares da terceira idade, exemplificando como tal designadamente o \u201cn\u00e3o oferecer variedade na comida e na bebida\u201d e ao n\u00edvel da higiene pessoal, o deixar as pessoas sujas durante elevado tempo \u2014 cf. (APAV, 2010).\u00a0http:\/\/apav.pt\/idosos\/index.php\/manual-titono.<br \/>17. Podendo assim tal crime ser, conforme decorre do artigo 10.\u00ba do C\u00f3digo Penal, praticado por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o.<br \/>18. Veja-se com relev\u00e2ncia para os autos - tese \u201cMaus Tratos a Idosos em Lares\u201d, de Joana Fernandes Cardoso, p\u00e1g. 25 e ss, dispon\u00edvel em\u00a0https:\/\/repositorio.ucp.Qt\/bitstream\/10400.14\/28144\/1TESE%20%20Joana%20Fernandes%20Cardoso.pdf.<br \/>19. Podendo ainda ler-se com relev\u00e2ncia para a quest\u00e3o em an\u00e1lise o Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 12-10-2016, proc. n.\u00ba 2255\/15.7T9PRT.P1, referindo-se \u00e0 pr\u00e1tica do crime nesse caso do artigo 152.\u00ba do CP por omiss\u00e3o.<br \/>20. Sendo que, n\u00e3o obstante no ac\u00f3rd\u00e3o atr\u00e1s referido, o mesmo se referir ao artigo 152.\u00ba do C\u00f3digo Penal, o bem jur\u00eddico protegido \u00e9 o mesmo.<br \/>21. Ora, no caso em apre\u00e7o nos presentes autos, resultou de forma clara da inquiri\u00e7\u00e3o das testemunhas que a institui\u00e7\u00e3o, no per\u00edodo em que a m\u00e3e do denunciante se encontrou como utente da mesma, padecia de uma falta grave de funcion\u00e1rios.<br \/>22. Sendo tamb\u00e9m claro que em consequ\u00eancia de tal falta de funcion\u00e1rios, os utentes, principalmente os mais dependentes, como era o caso da m\u00e3e do denunciante, n\u00e3o eram alimentados devidamente porque os funcion\u00e1rios eram insuficientes e em consequ\u00eancia n\u00e3o tinham tempo,<br \/>23. N\u00e3o sendo al\u00e9m disso devidamente higienizados, passando horas a mais com a mesma fralda, e n\u00e3o sendo movimentados o que implicava passarem muitas horas na mesma posi\u00e7\u00e3o, gerando feridas de press\u00e3o.<br \/>24. No caso da m\u00e3e do Recorrente o estado em que a mesma se encontrava e que foi expressamente mencionado pela testemunha FF, era em tudo compat\u00edvel com a omiss\u00e3o de cuidados de que foi vitima enquanto se encontrou aos cuidados da institui\u00e7\u00e3o ..., estando de facto muito magra, com um eritema na zona genital decorrente de falta de higieniza\u00e7\u00e3o e com uma grave \u00falcera de press\u00e3o j\u00e1 com tecido necr\u00f3tico, decorrente da falta de mobiliza\u00e7\u00e3o da mesma.<br \/>25. Sendo tais danos f\u00edsicos decorrentes n\u00e3o apenas de uma conduta negligente, como considerado, mas de uma conduta dolosa e omissiva grave, na medida em que bem sabiam os respons\u00e1veis da institui\u00e7\u00e3o que existia uma falta grave de funcion\u00e1rios, levando a que n\u00e3o fosse poss\u00edvel de todo prestar os cuidados devidos aos utentes, principalmente aos mais dependentes.<br \/>26. Mais sabendo, porque o n\u00e3o podiam ignorar, atendendo \u00e0s fun\u00e7\u00f5es desempenhadas, que a falta de presta\u00e7\u00e3o dos cuidados que legalmente eram devidos aos seus utentes mais dependentes, como acontecia com a m\u00e3e do Recorrente causaria graves danos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos, por n\u00e3o poderem os utentes prover por si \u00e0 sua alimenta\u00e7\u00e3o, higieniza\u00e7\u00e3o e movimenta\u00e7\u00e3o.<br \/>27. Falta de cuidados essa e consequentes maus tratos que foram reiterados, por ser constante a falta de funcion\u00e1rios para assegurar os cuidados aos utentes de forma adequada.<br \/>28.\u00c0 data dos factos, eram membros do Conselho Executivo AA, na qualidade de Presidente, e BB, na qualidade de secret\u00e1rio do Conselho Executivo.<br \/>29. Competindo-lhes assim assegurar o bem-estar dos utentes e assegurar que mantinham um quadro de pessoal ajustado \u00e0s necessidades dos utentes - vide artigo 20.\u00ba dos Estatutos da Funda\u00e7\u00e3o ....<br \/>30. Tendo o Presidente do Conselho Executivo como responsabilidade assegurar a gest\u00e3o corrente da Funda\u00e7\u00e3o, orientando e fiscalizando os respetivos servi\u00e7os - cf. artigo 21.\u00ba dos Estatutos da Funda\u00e7\u00e3o ....<br \/>31. E o secret\u00e1rio, como fun\u00e7\u00f5es, coadjuvar o Presidente no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es e substitu\u00ed-lo nas sua faltas e impedimentos - cf. artigo 22.\u00ba dos Estatutos da Funda\u00e7\u00e3o ... - cf. doc. n. 0 2 j\u00e1 mencionado.<br \/>32. Entendendo assim o Recorrente, com o devido respeito por entendimento diverso, que em face dos elementos recolhidos, se impunha ter sido proferido despacho de pron\u00fancia, sendo a Funda\u00e7\u00e3o ... e respetivos respons\u00e1veis do Conselho Executivo constitu\u00eddos arguidos pela pr\u00e1tica de um crime de maus tratos, previsto e punido pela al\u00ednea a) do n.\u00ba 1 do artigo 152.\u00ba -A, conjugado com o artigo 10. \u00ba e 11.\u00ba n.\u00ba 2, todos do C\u00f3digo Penal.<br \/>33. De facto, nos termos do n.\u00ba 1 do artigo 308.\u00ba do C\u00f3digo de Processo Penal, quando recolhidos ind\u00edcios suficientes at\u00e9 ao encerramento da instru\u00e7\u00e3o, deve ser deduzido despacho de pron\u00fancia.<br \/>34. Pelo que, em face do exposto, e resultando dos elementos de prova recolhidos ind\u00edcios suficientes da pr\u00e1tica do crime pela Funda\u00e7\u00e3o ..., AA e BB e do necess\u00e1rio preenchimento no caso em apre\u00e7o do elemento objetivo e subjetivo do tipo de il\u00edcito de crime de maus tratos, dever\u00e1 em consequ\u00eancia ser procedente o presente recurso, sendo revogada a douta decis\u00e3o instrut\u00f3ria e sendo os arguidos pronunciados pelos seguintes factos:<br \/>1. A Funda\u00e7\u00e3o ... \u00e9 uma Institui\u00e7\u00e3o Particular de Solidariedade Social, que tem uma estrutura residencial para idosos, prestando esse servi\u00e7o.<br \/>2. A ofendida DD, nascida em ...\/...\/1937, foi utente da Funda\u00e7\u00e3o ... no per\u00edodo de setembro de 2018 a setembro de 2020, tendo integrado a mencionada estrutura residencial para idosos.<br \/>3. Sendo nesse per\u00edodo membros do Conselho Executivo AA na qualidade de Presidente e BB, na qualidade de secret\u00e1rio do Conselho Executivo;<br \/>4. Sendo o Conselho Executivo respons\u00e1vel, atrav\u00e9s do seu Presidente e Secret\u00e1rio, por garantir a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos dos benefici\u00e1rios, elaborar o quadro de pessoal, contratar o pessoal necess\u00e1rio, exercer o poder disciplinar e gerir o pessoal da institui\u00e7\u00e3o e zelar pelo cumprimento da lei, dos estatutos e das delibera\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os da Funda\u00e7\u00e3o, conforme os estatutos da Funda\u00e7\u00e3o ...;<br \/>5. DD tinha \u00e0 data dos factos uma dem\u00eancia que mant\u00e9m, encontrando-se absolutamente dependente de terceiros para a realiza\u00e7\u00e3o de tarefas b\u00e1sicas, como proceder \u00e0 sua alimenta\u00e7\u00e3o, higiene pessoal, tomar medica\u00e7\u00e3o, para se movimentar em geral e para se levantar, movimentar e deitar na cama.<br \/>6. No per\u00edodo em que a DD foi utente da indicada institui\u00e7\u00e3o a mesma apresentava uma falha grave ao n\u00edvel de funcion\u00e1rios, n\u00e3o tendo funcion\u00e1rios suficientes para prestar adequadamente apoio aos idosos, nas tarefas como alimenta\u00e7\u00e3o, higieniza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o dos idosos que n\u00e3o se movimentam sozinhos.<br \/>7. Sendo pr\u00e1tica reiterada durante o per\u00edodo em que a DD se encontrou na indicada estrutura residencial, os idosos n\u00e3o aut\u00f3nomos, n\u00e3o serem alimentados devidamente, n\u00e3o sendo al\u00e9m disso assegurada a higieniza\u00e7\u00e3o atempada dos mesmos e n\u00e3o sendo assegurada a sua mobiliza\u00e7\u00e3o e rota\u00e7\u00e3o na cama ou sua coloca\u00e7\u00e3o em cadeiras durante o dia para n\u00e3o se encontrarem sempre na mesma posi\u00e7\u00e3o.<br \/>8. Como consequ\u00eancia direta e necess\u00e1ria da conduta da institui\u00e7\u00e3o e dos seus representantes legais, durante o per\u00edodo em que a DD se encontrou na indicada estrutura residencial, a mesma emagreceu consideravelmente.<br \/>9. Tendo desenvolvido um eritema na zona genital.<br \/>10. Bolhas nas costas.<br \/>11. E ainda uma \u00falcera de press\u00e3o na regi\u00e3o sacro-cocc\u00edgia, grau 3, com tecido necr\u00f3tico.<br \/>12. Feridas que demoraram cerca de dois meses e meio a cicatrizarem.<br \/>13. Sendo o eritema na zona genital resultado direto da deficiente higieniza\u00e7\u00e3o ou falta de substitui\u00e7\u00e3o das fraldas com regularidade.<br \/>14. E a \u00falcera de press\u00e3o resultado da falta de presta\u00e7\u00e3o de cuidados, designadamente por falta de reposicionamento do corpo de duas em duas horas.<br \/>15. Tendo assim sofrido dores, as quais demandaram um n\u00famero de dias para atingir cura n\u00e3o apurado em concreto, mas que ter\u00e1 sido de cerca de dois meses e meio.<br \/>16. A dire\u00e7\u00e3o da ... tinha conhecimento do facto do n\u00famero de funcion\u00e1rios ao seu servi\u00e7o na estrutura residencial para idosos n\u00e3o ser suficiente para assegurar os devidos cuidados dos respetivos utentes.<br \/>17. Bem sabendo que um elevado n\u00famero dos seus utentes na estrutura residencial para idosos e designadamente a DD se encontrava em situa\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia, n\u00e3o tendo autonomia para a realiza\u00e7\u00e3o de tarefas b\u00e1sicas, como proceder \u00e0 sua alimenta\u00e7\u00e3o, higiene pessoal, tomar medica\u00e7\u00e3o, para se movimentar em geral e para se levantar, movimentar e deitar na cama.<br \/>18. Tendo tais cuidados de ser providenciados pela Funda\u00e7\u00e3o, que se encontrava obrigada a assegurar a presta\u00e7\u00e3o de tais cuidados em face da admiss\u00e3o de tais utentes e designadamente da DD os quais se encontravam na sua depend\u00eancia.<br \/>19. Sabia a Funda\u00e7\u00e3o ... e seus respons\u00e1veis que detinham ao seu cuidado pessoas particularmente indefesas em raz\u00e3o da idade e das doen\u00e7as de que padeciam, designadamente a DD a quem deviam prestar assist\u00eancia e prover \u00e0s necessidades f\u00edsicas e emocionais, mas n\u00e3o o fizeram;<br \/>20. Cabia \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o ... e seus respons\u00e1veis prestar os necess\u00e1rios cuidados de sa\u00fade e assist\u00eancia a DD;<br \/>21. Contudo, e apesar de terem consci\u00eancia de tal facto, n\u00e3o prestaram os necess\u00e1rios, adequados e atempados cuidados de sa\u00fade a DD;<br \/>22. N\u00e3o dispondo de pessoal suficiente para atender todos os utentes do lar,<br \/>23. Nada tendo feito para suprir tal situa\u00e7\u00e3o.<br \/>24. Bem sabendo que a omiss\u00e3o da admiss\u00e3o de um maior n\u00famero de funcion\u00e1rios impediria a presta\u00e7\u00e3o dos devidos cuidados, n\u00e3o sendo assim de forma reiterada assegurada a devida alimenta\u00e7\u00e3o dos utentes dependentes, a sua devida higieniza\u00e7\u00e3o e reposicionamento.<br \/>25. Sabendo ainda que tal omiss\u00e3o originaria assim maus tratos f\u00edsicos dos utentes dependentes, tal como ocorreu com a utente DD em conformidade com o indicado supra.<br \/>26. Sabia assim a Funda\u00e7\u00e3o ... e seus representantes que a sua conduta era adequada a causar maus tratos no corpo e sa\u00fade de DD, resultado esse que previram e que nada fizeram para evitar.<br \/>27. Tendo assim agido deliberada, livre e conscientemente, bem sabendo que a sua conduta era proibida e punida pela lei penal.<br \/>28. Constitu\u00edram-se assim a Funda\u00e7\u00e3o ..., AA e BB, autores materiais de um crime de maus tratos previsto e punido pelo artigo 152.\u00ba-A, 10.\u00ba e 11.\u00ba, n.\u00ba 2 todos do C\u00f3digo Penal.<br \/>35. Entendendo o Recorrente que ao ser proferido despacho de n\u00e3o pron\u00fancia, violou o indicado despacho o disposto nos artigos 152.\u00ba-A, 10.\u00ba e 11.\u00ba n.\u00ba 2 todos do C\u00f3digo Penal e artigo 308.\u00ba, n.\u00ba 1 do C\u00f3digo de Processo Penal.<br \/>NESTES TERMOS E MELHORES DE DIREITO, Sempre com mui douto suprimento de V. Exas., deve o presente recurso ser julgado procedente por provado, devendo o despacho recorrido ser revogado e substitu\u00eddo por outro que determine a pron\u00fancia dos arguidos pelos factos supra indicados, fazendo-se deste modo verdadeira objetiva serena JUSTI\u00c7A!!!!\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">O recurso foi admitido para subir nos pr\u00f3prios autos, de imediato e com efeito devolutivo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Minist\u00e9rio P\u00fablico, em primeira inst\u00e2ncia, apresentou resposta, reiterando os argumentos invocados pelo Exmo. JIC no despacho de n\u00e3o pron\u00fancia e defendendo, consequentemente, a improced\u00eancia do recurso (nos termos constantes do articulado junto aos autos a fls. 527\/536 e cujo teor se d\u00e1 por reproduzido).<br \/>Os arguidos\/recorridos apresentaram resposta ao recurso, pugnando pela confirma\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o instrut\u00f3ria de n\u00e3o pron\u00fancia, com os fundamentos constantes do articulado de fls. 855\/860 e cujo teor aqui se d\u00e1 por reproduzido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Exmo. Sr. Procurador-Geral Adjunto, neste Tribunal, emitiu parecer, no qual se pronunciou pelo n\u00e3o provimento do recurso, reiterando os fundamentos j\u00e1 aduzidos pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico na 1\u00aa inst\u00e2ncia e salientando que os elementos de prova coligidos no inqu\u00e9rito e na instru\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o suficientemente seguros para que se possa afirmar que a probabilidade de condena\u00e7\u00e3o \u00e9 superior \u00e0 de absolvi\u00e7\u00e3o (nos termos constantes de fls. 545\/547, cujo teor aqui se d\u00e1 por reproduzido).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cumprido o disposto no art.\u00ba 417\u00ba, n\u00ba 2, do C\u00f3digo do Processo Penal, n\u00e3o foi apresentada resposta.<br \/>Procedeu-se a exame preliminar e foram colhidos os vistos, ap\u00f3s o que o processo foi \u00e0 confer\u00eancia, cumprindo apreciar e decidir.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">II - Fundamenta\u00e7\u00e3o<br \/>\u00c9 pelo teor das conclus\u00f5es que o recorrente extrai da motiva\u00e7\u00e3o, onde sintetiza as raz\u00f5es de discord\u00e2ncia com o decidido e resume o pedido (artigos 412.\u00ba, n.\u00ba 1 e 417.\u00ba, n.\u00ba 3, do CPP), que se delimita o objeto do recurso e se fixam os limites do horizonte cognitivo do Tribunal Superior, sem preju\u00edzo das quest\u00f5es que devem ser conhecidas oficiosamente, como sucede com os v\u00edcios a que alude o art.\u00ba 410.\u00ba, n.\u00ba 2 ou o art.\u00ba 379.\u00ba, n.\u00ba 1, do CPP (cf., por todos, os ac\u00f3rd\u00e3os do STJ de 11\/4\/2007 e de 11\/7\/2019, dispon\u00edveis em\u00a0www.dgsi.pt).<br \/>Podemos, assim, equacionar como \u00fanica quest\u00e3o colocada \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o deste tribunal, a seguinte:<br \/>1) Existem ind\u00edcios da pr\u00e1tica pelos arguidos do crime de maus tratos, p. e p. pelos artigos 152.\u00ba-A, n.\u00ba 1, a), 10.\u00ba e 11.\u00ba, do C\u00f3digo Penal, que lhes foi imputado pelo assistente no requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o?<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Delimitado o\u00a0<em>thema decidendum<\/em>, importa reproduzir o teor da decis\u00e3o instrut\u00f3ria de n\u00e3o pron\u00fancia, objeto do presente recurso, proferida pela Sra. Juiz do Tribunal de Instru\u00e7\u00e3o Criminal de Aveiro, na sequ\u00eancia do debate instrut\u00f3rio realizado em 18\/4\/2023:<br \/>\u00abDeclaro encerrada a instru\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">I - Relat\u00f3rio<br \/>O Minist\u00e9rio P\u00fablico deduziu despacho de arquivamento relativamente \u00e0 factualidade participada por CC, abstratamente configuradora da pr\u00e1tica de um crime de maus tratos previsto e punido pelo152\u00ba-A e 11\u00ba\/2, a) do C\u00f3digo Penal, nos termos constantes de fls. 323 a 341, e proferiu acusa\u00e7\u00e3o contra KK, imputando-lhe a pr\u00e1tica dos factos descritos na acusa\u00e7\u00e3o de fls. 341 e sgs., e consequentemente, em autoria material, de um crime de ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica qualificada, previsto e punido pelo disposto nos arts. 143.\u00ba, n.\u00ba 1, 145.\u00ba, n.\u00ba 1 al. a) e n.\u00ba 2, este por refer\u00eancia ao artigo 132.\u00ba, n.\u00ba 2 al. c), todos do C\u00f3digo Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Veio a arguida KK requerer a abertura de instru\u00e7\u00e3o com o exclusivo fito de obter a suspens\u00e3o provis\u00f3ria do processo pugnando estarem reunidos todos os requisitos legais \u2013 cfr. a fls. 359 e 360,<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Veio tamb\u00e9m o assistente CC requerer a abertura de instru\u00e7\u00e3o alegando, no essencial, existirem ind\u00edcios da pr\u00e1tica do crime de maus tratos, j\u00e1 que a indiciada falta de funcion\u00e1rios em n\u00famero suficiente para assegurar os cuidados adequados e necess\u00e1rios aos utentes e os danos decorrentes da omiss\u00e3o de cuidados constitui n\u00e3o apenas uma conduta negligente, mas uma conduta dolosa e omissiva grave.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Admitida a instru\u00e7\u00e3o, designou-se data para debate instrut\u00f3rio. N\u00e3o se vislumbrando qualquer outro ato instrut\u00f3rio cuja pr\u00e1tica revestisse interesse para a descoberta da verdade, efetuou-se o debate instrut\u00f3rio, o qual decorreu na aus\u00eancia dos arguidos, que renunciaram ao direito de estar presentes, com observ\u00e2ncia do formalismo legal, conforme se alcan\u00e7a da respetiva ata, tudo em conformidade com o disposto nos arts. 298\u00ba, 301\u00ba e 302\u00ba, todos do C\u00f3digo de Processo Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cumpre agora, nos termos do art.\u00ba 308\u00ba do mesmo diploma legal, proferir decis\u00e3o instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">II- Saneamento<br \/>O Tribunal \u00e9 competente.<br \/>N\u00e3o h\u00e1 nulidades, ilegitimidades, outras exce\u00e7\u00f5es, quest\u00f5es pr\u00e9vias ou incidentais que obstem a uma decis\u00e3o de m\u00e9rito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">III- Fundamenta\u00e7\u00e3o<br \/>A) Crit\u00e9rios legais da decis\u00e3o<br \/>A instru\u00e7\u00e3o visa a comprova\u00e7\u00e3o judicial da decis\u00e3o de deduzir acusa\u00e7\u00e3o ou de arquivar o inqu\u00e9rito em ordem a submeter ou n\u00e3o a causa a julgamento (artigo 286.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo de Processo Penal), encontrando-se o juiz de instru\u00e7\u00e3o limitado pela factualidade relativamente \u00e0 qual se requereu a abertura de instru\u00e7\u00e3o (artigo 287.\u00ba, n.\u00ba 1 e n.\u00ba 2, do C\u00f3digo de Processo Penal).<br \/>No caso em apre\u00e7o, visa-se a comprova\u00e7\u00e3o judicial da decis\u00e3o de arquivar e ainda saber se, relativamente \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o proferida, est\u00e3o ou n\u00e3o reunidos os requisitos da suspens\u00e3o provis\u00f3ria do processo.<br \/>A decis\u00e3o de acusar e arquivar assenta na pr\u00e9via verifica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de ind\u00edcios suficientes da pr\u00e1tica de um crime e do seu autor (artigo 283.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo de Processo Penal), ju\u00edzo indici\u00e1rio que tamb\u00e9m est\u00e1 subjacente na decis\u00e3o instrut\u00f3ria, como decorre do artigo 308.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo de Processo Penal.<br \/>De acordo com o disposto no artigo 283.\u00ba, n.\u00ba 2, do C\u00f3digo de Processo Penal, \u201cConsideram-se suficientes os ind\u00edcios sempre que deles resultar uma possibilidade razo\u00e1vel de ao arguido vir a ser aplicada, por for\u00e7a deles, em julgamento, uma pena ou uma medida de seguran\u00e7a.\u201d.<br \/>Dito de outro modo, por \u201cind\u00edcios suficientes\u201d, para efeitos da decis\u00e3o instrut\u00f3ria, deve entender-se a probabilidade razo\u00e1vel, mais positiva do que negativa, de que o (a) arguido (a) tenha praticado os factos que lhe s\u00e3o imputados e de que lhe ser\u00e1 aplicada uma pena ou medida de seguran\u00e7a, devendo o juiz, nas palavras de Germano Marques da Silva, pronunciar o arguido apenas e s\u00f3 \u201cquando pelos elementos constantes dos autos forme a sua convic\u00e7\u00e3o no sentido de que \u00e9 mais prov\u00e1vel que o arguido tenha cometido o crime do que n\u00e3o o tenha cometido\u201d (cf. \u201cCurso de Processo Penal\u201d, Volume III, Verbo, p\u00e1g.179).<br \/>Assim, a sufici\u00eancia de ind\u00edcios, analisada no plano f\u00e1ctico, est\u00e1 dependente de deles resultar, em termos de prognose, a prov\u00e1vel futura condena\u00e7\u00e3o do arguido ou que esta seja mais prov\u00e1vel que a sua absolvi\u00e7\u00e3o (cf. Jos\u00e9 Mouraz Lopes, \u201cGarantia Judici\u00e1ria no Processo Penal - Do Juiz e da instru\u00e7\u00e3o\u201d, Coimbra, 2000, p\u00e1g. 68 e ss.).<br \/>Tra\u00e7ando o limite de distin\u00e7\u00e3o entre o ju\u00edzo de probabilidade e o ju\u00edzo de certeza processualmente relevante entre as fases de inqu\u00e9rito e instru\u00e7\u00e3o e a de julgamento, ensina-nos Figueiredo Dias \u201co que distingue fundamentalmente o ju\u00edzo de probabilidade do ju\u00edzo de certeza \u00e9 a confian\u00e7a que nele podemos depositar e n\u00e3o o grau de exig\u00eancia que nele est\u00e1 pressuposta. O ju\u00edzo de probabilidade n\u00e3o dispensa o ju\u00edzo de certeza porque, para condenar uma pessoa, o conceito de justi\u00e7a num Estado de direito exige que a convic\u00e7\u00e3o se forme com base na produ\u00e7\u00e3o concentrada das provas numa audi\u00eancia, com respeito pelos princ\u00edpios da publicidade, do contradit\u00f3rio, da oralidade de da imedia\u00e7\u00e3o. Garantias essas que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel satisfazer no fim da fase preparat\u00f3ria\u201d (cf. \u201cDireito Processual Penal\u201d, Volume I, 1974, p\u00e1g. 132-133).<br \/>Quer isto dizer que, n\u00e3o se exigindo, nesta fase processual, o ju\u00edzo de certeza que a condena\u00e7\u00e3o imp\u00f5e - a certeza processual para al\u00e9m de toda a d\u00favida razo\u00e1vel -, imp\u00f5e-se, no entanto, que os factos revelados no inqu\u00e9rito ou na instru\u00e7\u00e3o apontem, se mantidos e contraditoriamente comprovados em audi\u00eancia, para uma probabilidade sustentada de condena\u00e7\u00e3o.<br \/>Assim, para a determina\u00e7\u00e3o do grau da possibilidade razo\u00e1vel, ind\u00edcios suficientes existir\u00e3o quando, atrav\u00e9s de um ju\u00edzo de prognose antecipada, se conclua que os elementos de prova, relacionados e conjugados entre si, fazem pressentir a exist\u00eancia de uma conduta criminalmente tipificada por parte do agente e produzem a s\u00e9ria convic\u00e7\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o posterior e que, com forte probabilidade, esses elementos se manter\u00e3o e repetir\u00e3o em julgamento ou se preveja que da ampla discuss\u00e3o da causa em plena audi\u00eancia de julgamento, para al\u00e9m dos elementos dispon\u00edveis e a\u00ed reproduzidos, outros advir\u00e3o no sentido da condena\u00e7\u00e3o futura, sempre salvaguardando os princ\u00edpios que convergem j\u00e1 neste momento, como o princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia e o in dubio pro reo (cf. Ac\u00f3rd\u00e3os do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, datados de 21.10.2009, proferido no processo n.\u00ba 533\/02.4TAMTS.P1 e de 21.04.2010, no processo n.\u00ba 4307\/06.5TDPRT-A.P1, do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa, datado de 19.02.2002, Processo n.\u00ba 00113535, e do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora, datado de 1.03.2005, processo n.\u00ba 2\/05.1, in\u00a0www.dgsi.pt).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">No caso vertente, a quest\u00e3o a decidir, delimitada tematicamente pelos requerimentos de abertura de instru\u00e7\u00e3o, encontra-se perfeitamente delineada: se existem ind\u00edcios suficientes para pronunciar os arguidos Funda\u00e7\u00e3o ..., AA e BB, considerando os elementos probat\u00f3rios produzidos em sede de inqu\u00e9rito e de instru\u00e7\u00e3o. E se se encontram reunidos os requisitos legais para a arguida KK poder beneficiar da requerida suspens\u00e3o provis\u00f3ria do processo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>B) Do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o apresentado pelo assistente<br \/>A (in)sufici\u00eancia dos ind\u00edcios<br \/>O assistente, sem colocar em causa as dilig\u00eancias realizadas em sede de inqu\u00e9rito, faz uma leitura distinta do Minist\u00e9rio P\u00fablico quanto aos ind\u00edcios recolhidos nessa fase, defendendo que os factos indiciariamente apurados se subsumem \u00e0 pr\u00e1tica pelos arguidos Funda\u00e7\u00e3o ..., AA e BB de um crime de maus tratos.<br \/>Aos arguidos AA e BB vem imputada a pr\u00e1tica de um crime de maus tratos, previsto e punido pelo art.\u00ba 152\u00ba-A do C\u00f3digo Penal, sendo a ... ainda nos termos do art.\u00ba 11\u00ba\/2, a) do mesmo diploma.<br \/>Disp\u00f5e o art.\u00ba 152\u00ba-A\/1 do C\u00f3digo Penal que:<br \/>\u00ab1\u2013 Quem, tendo ao seu cuidado, \u00e0 sua guarda, sob a responsabilidade da sua dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o ou a trabalhar ao seu servi\u00e7o, pessoa menor ou particularmente indefesa, em raz\u00e3o de idade, defici\u00eancia, doen\u00e7a ou gravidez, e:<br \/>a) Lhe infligir, de modo reiterado ou n\u00e3o, maus tratos f\u00edsicos ou ps\u00edquicos, incluindo castigos corporais, priva\u00e7\u00f5es da liberdade e ofensas sexuais, ou a tratar cruelmente;<br \/>b) A empregar em atividades perigosas, desumanas ou proibidas; ou<br \/>c) A sobrecarregar com trabalhos excessivos;<br \/>\u00e9 punido com pena de pris\u00e3o de um a cinco anos, se pena mais grave lhe n\u00e3o couber por for\u00e7a de outra disposi\u00e7\u00e3o legal.<br \/>2\u2013 Se dos factos previstos nos n\u00fameros anteriores resultar:<br \/>a) Ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica grave, o agente \u00e9 punido com pena de pris\u00e3o de dois a oito anos;<br \/>b) A morte, o agente \u00e9 punido com pena de pris\u00e3o de tr\u00eas a dez anos.\u00bb.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Estamos perante um tipo legal de crime que, tendo uma raiz comum com o entretanto autonomizado crime de viol\u00eancia dom\u00e9stica previsto e punido pelo art.\u00ba 152\u00ba do C\u00f3digo Penal, teve a sua origem na necessidade de prevenir, por via da criminaliza\u00e7\u00e3o, as frequentes e subtis, mas perniciosas - para a sa\u00fade f\u00edsica e ps\u00edquica, desenvolvimento da personalidade e bem-estar -, formas de viol\u00eancia no dom\u00ednio da fam\u00edlia, da educa\u00e7\u00e3o e do trabalho \u2013 Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Tomo I, Coimbra Editora, 1999, p\u00e1g. 329.<br \/>Adianta ainda Taipa de Carvalho que \u00abA necessidade pr\u00e1tica de criminaliza\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies de comportamentos descritos no tipo legal de crime de maus tratos, resultou de um duplo fator: por um lado, o facto de muitos destes comportamentos n\u00e3o configurarem em si o crime de ofensas corporais simples (art. 143\u00ba), como \u00e9 o caso das condutas descritas nas als. b) e c) do n\u00ba 1 deste art. 152\u00ba; por outro lado, a criminaliza\u00e7\u00e3o destas condutas, com a consequente responsabiliza\u00e7\u00e3o penal dos seus agentes, resultou da consciencializa\u00e7\u00e3o \u00e9tico- social dos tempos recentes sobre a gravidade individual e social destes comportamentos. A neocriminaliza\u00e7\u00e3o (\u2026) destes comportamentos n\u00e3o significa novidade ou maior frequ\u00eancia deles, nos tempos atuais (\u2026), mas sim uma saud\u00e1vel consciencializa\u00e7\u00e3o da inadequa\u00e7\u00e3o (ao fim educativo) e da gravidade e perniciosidade desses comportamentos. (\u2026) foi o resultado da progressiva consciencializa\u00e7\u00e3o da gravidade destes comportamentos e de que a fam\u00edlia, a escola e a f\u00e1brica n\u00e3o mais podiam constituir feudos sagrados onde o direito penal se tinha de abster de intervir.\u00bb.<br \/>E se inicialmente se percorreu um caminho mais cauteloso de restringir a tutela penal aos casos mais chocantes de maus tratos a crian\u00e7as e de sobrecarga a menores e subordinados, exigindo-se que o agente atuasse movido por malvadez e ego\u00edsmo (numa reminisc\u00eancia indesej\u00e1vel do direito penal do agente, em detrimento do direito penal do facto), revelando receio de intervir penalmente em dom\u00ednios que tradicionalmente se deixavam ao poder quase absoluto do marido, pai, educador e empregador, com a reforma penal de 1995, introduzida pelo D.L. 48\/95, de 15\/03, o legislador n\u00e3o apenas deixaria cair aquele requisito atinente \u00e0 personalidade do agente, de um dolo espec\u00edfico, como alargaria sobremaneira o \u00e2mbito de prote\u00e7\u00e3o da norma incriminat\u00f3ria.<br \/>Assim, e seguindo de perto a an\u00e1lise de Taipa de Carvalho, ob. cit., p\u00e1g. 331, \u00ab(\u2026) consciente de que, nestes dom\u00ednios (familiar, educacional, laboral e conjugal), as humilha\u00e7\u00f5es, os vexames, os insultos, etc., constituem, por vezes, formas de viol\u00eancia ps\u00edquica mais graves do que muitas ofensas corporais simples, previu, ao lado dos maus tratos f\u00edsicos, os maus tratos ps\u00edquicos (\u2026)\u00bb.<br \/>O crime de maus tratos tal qual se desenha atualmente visa, assim, prevenir formas de viol\u00eancia no \u00e2mbito da fam\u00edlia, da educa\u00e7\u00e3o e do trabalho, pelo que abrange no seu \u00e2mbito, para al\u00e9m dos maus tratos f\u00edsicos, os maus tratos ps\u00edquicos, humilha\u00e7\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as, curtas priva\u00e7\u00f5es da liberdade de movimentos, sujei\u00e7\u00e3o a trabalhos desproporcionados \u00e0 idade ou sa\u00fade f\u00edsica, ps\u00edquica ou mental do subordinado, bem como a sujei\u00e7\u00e3o a atividades perigosas, desumanas ou proibidas - cf. Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Parte Especial, Tomo I, Coimbra Editora, 1999, p\u00e1g. 332.<br \/>O bem jur\u00eddico protegido pela incrimina\u00e7\u00e3o dos maus tratos \u00e9 a sa\u00fade f\u00edsica, ps\u00edquica e mental, que pode ser afetada por uma diversidade de comportamentos levados a cabo sobre quem se encontre em rela\u00e7\u00e3o ao agente numa determinada rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o existencial ou laboral, da\u00ed resultando atingida tamb\u00e9m a pr\u00f3pria dignidade da pessoa visada por tais comportamentos.<br \/>Pode assim concluir-se que o tipo legal de crime de maus tratos como se encontra previsto sob o art. 152\u00ba-A do C\u00f3digo Penal, tutela um bem jur\u00eddico complexo que radica na dignidade da pessoa humana.<br \/>Temos, por isso, que para poder configurar-se como um mau trato para efeitos de integra\u00e7\u00e3o deste tipo de crime, a conduta do agente deve consubstanciar uma ofensa que, pelas suas caracter\u00edsticas - a analisar no caso concreto, \u00e0 luz do espec\u00edfico contexto relacional existente entre o agente e a v\u00edtima -, se reflita negativamente na sa\u00fade f\u00edsica, ps\u00edquica ou mental da v\u00edtima e conduza \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o da sua dignidade pessoal \u2013 vide ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 12\/02\/2020, relatado por Helena Bolieiro, acedido em\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>Nessa medida, poder\u00e1 afirmar-se que o crime de maus tratos f\u00edsicos e ps\u00edquicos \u00e9, por regra, um crime de dano quanto ao bem jur\u00eddico e um crime de resultado quanto ao objeto da a\u00e7\u00e3o; no entanto, como preconiza Paulo Pinto de Albuquerque, em Coment\u00e1rio do C\u00f3digo Penal \u00e0 luz da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa e da Conven\u00e7\u00e3o Europeia dos Direitos do Homem, UCE, 2010, p\u00e1g. 469, quando em causa est\u00e3o as condutas t\u00edpicas de emprego em atividades proibidas ou perigosas, ou a sobrecarga com trabalhos excessivos, estaremos j\u00e1 diante um crime de perigo abstrato (neste \u00faltimo caso abstrato-concreto) e de mera atividade.<br \/>Ao n\u00edvel objetivo, o seu preenchimento basta-se com a pr\u00e1tica de uma a\u00e7\u00e3o ou uma omiss\u00e3o da qual resulte les\u00e3o para a sa\u00fade f\u00edsica e\/ou ps\u00edquica, portanto f\u00edsica ou psiquicamente maltratante, pressuposta uma particular rela\u00e7\u00e3o existencial ou laboral entre agente a quem essa a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o s\u00e3o imput\u00e1veis, e o sujeito passivo, tendo este que reunir determinadas caracter\u00edsticas que o coloquem em posi\u00e7\u00e3o de fragilidade perante aquele concreto agente.<br \/>No que concerne \u00e0 conduta t\u00edpica, os atos praticados pelo agressor, que podem ser de v\u00e1rias esp\u00e9cies, devem poder integrar-se num comportamento global dotado de uma unidade de sentido de ilicitude, cujo elemento caracter\u00edstico corresponde, precisamente, ao tipo dos maus tratos previsto no artigo 152\u00ba-A do C\u00f3digo Penal.<br \/>Explicitando um pouco mais em detalhe o conte\u00fado das express\u00f5es usadas na defini\u00e7\u00e3o dos comportamentos t\u00edpicos, come\u00e7ando pelos maus tratos f\u00edsicos, temos que estes corresponder\u00e3o, grosso modo, ao crime de ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica, abarcando todas as ofensas ao corpo do sujeito passivo, desde castigos corporais, mas tamb\u00e9m pequenas priva\u00e7\u00f5es da liberdade ou ofensas sexuais.<br \/>No conceito de maus tratos ps\u00edquicos, cont\u00eam-se os crimes de amea\u00e7a, coa\u00e7\u00e3o, difama\u00e7\u00e3o, inj\u00faria, abarcando, por\u00e9m, comportamento n\u00e3o subsum\u00edveis a tipos legais de crimes, como atos suscet\u00edveis de infligir \u00e0 v\u00edtima humilha\u00e7\u00e3o, vexame ou provoca\u00e7\u00e3o \u2013 Paulo Pinto de Albuquerque, ob. cit. p\u00e1g. 465, e Am\u00e9rico Taipa de Carvalho, ob. cit., p\u00e1g. 333-<br \/>Tratar cruelmente ser\u00e1 dispensar um tratamento que causa sofrimento ou dor, revelando insensibilidade do agente que o perpetra; cruelmente constitui gramaticalmente um adv\u00e9rbio de modo, que remete para modo cruel, significando este adjetivo \u201cque gosta de fazer sofrer\u201d; s\u00e3o seus sin\u00f3nimos malvado, mau, perverso, insens\u00edvel (referido ao agente da crueldade), doloroso, pungente, atroz (referido ao ato cruel perpetrado) \u2013 cfr.\u00a0https:\/\/dicionario.priberam.org\/cruelmente.<br \/>Segundo Am\u00e9rico Taipa de Carvalho, ob. e loc. cit., tratar cruelmente ser\u00e1 o mesmo que dispensar um tratamento desumano, exemplificando com uma reiterada omiss\u00e3o do fornecimento das refei\u00e7\u00f5es ou da medica\u00e7\u00e3o; j\u00e1 Paulo Pinto de Albuquerque remete, a nosso ver sem s\u00f3lida base legal, para a ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica qualificada nos termos do art. 145\u00ba\/1, a), em conjuga\u00e7\u00e3o com o art. 132\u00ba\/2, d) (\u201cempregar tortura ou ato de crueldade para aumentar o sofrimento da v\u00edtima\u201d), considerando tratar-se de crime de dano e resultado, a requerer a aplica\u00e7\u00e3o da teoria da adequa\u00e7\u00e3o do resultado \u00e0 conduta;<br \/>O tipo legal de crime de maus tratos exige ainda que interceda entre o agente e o sujeito passivo desses comportamentos uma rela\u00e7\u00e3o existencial ou laboral, de guarda ou vigil\u00e2ncia que agrava o il\u00edcito, como \u00e9 o caso dos castigos corporais, das priva\u00e7\u00f5es de liberdade ou das ofensas sexuais, j\u00e1 em si mesmas criminalmente punidas \u2013 crime espec\u00edfico impr\u00f3prio.<br \/>Por fim, postula tamb\u00e9m o tipo que a v\u00edtima dos maus tratos seja menor, portanto pessoa com idade inferior a 18 anos, ou pessoa particularmente indefesa.<br \/>Na concretiza\u00e7\u00e3o deste conceito indeterminado importa atentar nas coordenadas fornecidas pelo legislador no corpo do n\u00ba 1 do art. 152\u00ba-A que apontam para uma pessoa que se encontra em situa\u00e7\u00e3o de especial fragilidade devido \u00e0 sua idade, precoce ou avan\u00e7ada, defici\u00eancia, doen\u00e7a f\u00edsica ou ps\u00edquica, ou gravidez \u2013 Paulo Pinto de Albuquerque, ob. cit., p\u00e1g. 469.<br \/>Ou seja, essa especial debilidade ou fragilidade h\u00e1 de resultar (\u201cem raz\u00e3o de\u201d) da verifica\u00e7\u00e3o na pessoa do sujeito passivo dos comportamentos maltratantes de algum daqueles fatores \u2013 idade, doen\u00e7a ou gravidez.<br \/>Para a densifica\u00e7\u00e3o deste conceito de especial fragilidade, que continua a ser indeterminado, importa realizar o paralelo com o que tem vindo a ser entendido pela doutrina e jurisprud\u00eancia relativamente a id\u00eantica asser\u00e7\u00e3o legal inserida sob a al\u00ednea c) do n\u00ba 2 do art. 132\u00ba do C\u00f3digo Penal, na qualifica\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio praticado contra pessoa particularmente indefesa.<br \/>Segundo Paulo Pinto de Albuquerque em anota\u00e7\u00e3o a este preceito \u2013 ob. cit., p\u00e1g. 401 -, a especial censurabilidade da atitude do agente evidencia-se na explora\u00e7\u00e3o (\u201caproveitamento\u201d) da situa\u00e7\u00e3o de desamparo da v\u00edtima.<br \/>Na verdade, se atentarmos e decompusermos a express\u00e3o usada pelo legislador para caracterizar o sujeito passivo deste tipo de crime, verificamos que ter\u00e1 que tratar-se de pessoa indefesa, ou seja, que est\u00e1 sem defesa, desarmada que n\u00e3o tem \u201carmas\u201d ou meios para sua defesa -\u00a0https:\/\/dicionario.priberam.org\/indefesa.<br \/>Mas, mais ainda do que ser pessoa sem capacidade para se defender, ter\u00e1 que ser particularmente indefesa.<br \/>Ou seja, n\u00e3o basta que se esteja perante pessoa sem meios de defesa tout court, pretendendo, outrossim, proteger-se especialmente de entre essas pessoas sem meios de defesa, aquelas que, atenta a sua condi\u00e7\u00e3o pessoal, neste caso atinente \u00e0 doen\u00e7a ou doen\u00e7as de que padecem (poder\u00e1 ser tamb\u00e9m por reporte \u00e0 idade ou estado de gravidez), se encontram mais vulner\u00e1veis aos comportamentos maltratantes do que a generalidade das pessoas.<br \/>No ac\u00f3rd\u00e3o do STJ, de 26\/11\/2015, relatado por Manuel Braz, acedido em\u00a0www.dgsi.pt, a prop\u00f3sito do disposto no art. 132\u00ba\/2, c) do C\u00f3digo Penal, tendo a v\u00edtima 75 anos de idade, sofria de diabetes e vivia sozinha, entendeu-se que:<br \/>\u00abPessoa particularmente indefesa \u00e9 aquela que se encontra \u00e0 merc\u00ea do agente, incapaz de esbo\u00e7ar uma defesa minimamente eficaz, em fun\u00e7\u00e3o de qualquer das qualidades previstas na norma. Estar\u00e1 nessa situa\u00e7\u00e3o a pessoa que, em raz\u00e3o da idade, doen\u00e7a ou defici\u00eancia f\u00edsica ou ps\u00edquica, n\u00e3o tem capacidade de movimentos, destreza ou discernimento para tomar conta de si e, logo, para verdadeiramente se defender de uma agress\u00e3o, encontrando-se numa situa\u00e7\u00e3o de completa aus\u00eancia de defesa.\u00bb.<br \/>Subscrevendo este entendimento, mais recentemente, no ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 14\/07\/2021, relatado por Francisco Mota Ribeiro, acedido em\u00a0www.dgsi.pt, abordando uma situa\u00e7\u00e3o em que as v\u00edtimas seriam pessoas idosas, concluir-se-ia que o que importa determinar para efeitos do preenchimento da norma penal, e para desse modo se respeitar o princ\u00edpio da legalidade e da tipicidade, \u00e9, antes de mais, saber se a v\u00edtima se encontrava, face aos factos concretamente dados como provados, numa situa\u00e7\u00e3o de particular ou especial incapacidade de se defender.<br \/>Relativamente ao elemento subjetivo do tipo, este \u00e9 um crime doloso, devendo \u00e0 conduta t\u00edpica estar subjacente um estado interior do agente correspondente a qualquer uma das formas que pode revestir o dolo, como previsto no art. 14\u00ba do C\u00f3digo Penal: direto, necess\u00e1rio e eventual.<br \/>\u00c9, naturalmente, pressuposto que o agente tenha informa\u00e7\u00e3o correta sobre a identidade e caracter\u00edsticas \u2013 doen\u00e7a, idade ou gravidez \u2013 do sujeito passivo.<br \/>Ora, descendo ao caso dos autos constata-se, come\u00e7ando pela forma como se encontra alegada a factualidade na acusa\u00e7\u00e3o deduzida pelo assistente, em primeiro lugar, que n\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda aos arguidos AA e BB a pr\u00e1tica de um qualquer ato concreto suscet\u00edvel de integrar o tipo legal de crime de maus tratos.<br \/>Na verdade, percorridos os factos a\u00ed elencados, verificamos que quanto a estes arguidos n\u00e3o \u00e9 individualmente atribu\u00eddo um concreto papel na (com)participa\u00e7\u00e3o criminosa.<br \/>N\u00e3o pode olvidar-se que estamos em sede penal, em que a responsabilidade a apurar \u00e9 pessoal, n\u00e3o \u00e9 uma responsabilidade objetiva que possa decorrer do mero facto de assumir um cargo dirigente da pessoa coletiva (IPSS) arguida.<br \/>Na verdade, para al\u00e9m dos arguidos beneficiarem da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia, n\u00e3o h\u00e1 no inqu\u00e9rito elementos indici\u00e1rios que pudessem sustentar a atribui\u00e7\u00e3o a AA e BB de uma concreta conduta, ativa ou omissiva, que pudesse considerar-se maltratante.<br \/>E porque \u00e9 de factos e n\u00e3o de conjeturas que pode resultar uma condena\u00e7\u00e3o criminal, afigura-se-nos altamente improv\u00e1vel que estes arguidos venham a ser condenados em julgamento pelo il\u00edcito penal de maus tratos imputado.<br \/>No que respeita \u00e0 arguida, pessoa coletiva, ..., da concatena\u00e7\u00e3o dos depoimentos recolhidos em inqu\u00e9rito e documentos juntos ao processo, indicia-se suficientemente a exist\u00eancia de defici\u00eancias e car\u00eancias nos servi\u00e7os prestados aos utentes no Lar, as quais se traduzem essencialmente, num d\u00e9fice de trabalhadores, para prestar todos os cuidados necess\u00e1rios aos utentes daquela Institui\u00e7\u00e3o (embora n\u00e3o se tenha concretamente apurado qual o n\u00famero de trabalhadores adequado a tal desiderato).<br \/>Tais situa\u00e7\u00f5es motivaram, inclusivamente, a apresenta\u00e7\u00e3o de reclama\u00e7\u00f5es pelos familiares dos utentes, as quais mereceram resposta por parte do Centro Distrital ..., que elaborou recomenda\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o dos problemas apresentados.<br \/>N\u00e3o obstante, e com exce\u00e7\u00e3o do epis\u00f3dio relacionado com a utente LL, n\u00e3o foram recolhidos ind\u00edcios suficientes de concretos maus tratos perpetrados contra os utentes do Lar Funda\u00e7\u00e3o ....<br \/>Com efeito, todas as testemunhas \u2013 funcion\u00e1rias do lar, enfermeiros e m\u00e9dicos que ali prestaram servi\u00e7os, negaram a exist\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es de maus tratos, f\u00edsicos e\/ou ps\u00edquicos, sendo perent\u00f3rias ao afirmar que nunca presenciaram tais situa\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, todas as situa\u00e7\u00f5es relatadas por essas testemunhas, reconduzem-se a situa\u00e7\u00f5es de neglig\u00eancia, manifestada em falhas nos cuidados de higiene, alimenta\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o dos utentes, as quais, segundo afirmaram grande parte das testemunhas, s\u00e3o devidas \u00e0 insufici\u00eancia de funcion\u00e1rios, para fazer face \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es e necessidades de todos os idosos, n\u00e3o resultando, assim, de atos intencionalmente praticados pelos funcion\u00e1rios do lar.<br \/>E no caso concreto, relacionado com a m\u00e3e do assistente, DD, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar que o estado da mesma se agravou em resultado de maus tratos infligidos no Lar Funda\u00e7\u00e3o ....<br \/>Neste conspecto, a testemunha MM, m\u00e9dico que prestou servi\u00e7o na referida institui\u00e7\u00e3o e que acompanhou a idosa aquando da sua institucionaliza\u00e7\u00e3o no Lar e ap\u00f3s a sa\u00edda desta para a sua resid\u00eancia em ..., afirmou que o motivo da deteriora\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da idosa se prende com a sua idade e doen\u00e7a e n\u00e3o devido a maus tratos, situa\u00e7\u00e3o que foi confirmada pela testemunha NN, m\u00e9dica que prestou servi\u00e7o no aludido Lar e que conheceu a idosa aquando da sua institucionaliza\u00e7\u00e3o, bem como, pelas funcion\u00e1rias do Lar que prestaram servi\u00e7os \u00e0 utente, as quais afirmaram, que o estado de deteriora\u00e7\u00e3o de DD, se deveu \u00e0 avan\u00e7ada idade da mesma e da sua doen\u00e7a e n\u00e3o a quaisquer maus tratos praticados no Lar.<br \/>Da an\u00e1lise dos elementos probat\u00f3rios juntos aos autos, conclui-se, tal como concluiu o Minist\u00e9rio P\u00fablico em sede de despacho final de inqu\u00e9rito, pela inexist\u00eancia de ind\u00edcios suficientes da pr\u00e1tica do crime de maus tratos, por n\u00e3o ter sido detetada qualquer conduta dolosa perpetrada pelo Lar Funda\u00e7\u00e3o ... contra os utentes, pese embora se tenha verificado eventuais situa\u00e7\u00f5es de neglig\u00eancia a n\u00edvel da presta\u00e7\u00e3o de cuidados e assist\u00eancia aos utentes por parte da respetiva Institui\u00e7\u00e3o.<br \/>Para al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode ainda olvidar que conforme vem entendendo a nossa jurisprud\u00eancia, o artigo 152.\u00ba-A do C\u00f3digo Penal, enquanto previs\u00e3o de natureza penal, se encontra reservado a situa\u00e7\u00f5es de especial gravidade \u2013 nas quais n\u00e3o se enquadra a situa\u00e7\u00e3o indiciariamente apurada nos autos.<br \/>Por esse motivo, entendemos n\u00e3o existir uma probabilidade razo\u00e1vel de que o Lar Funda\u00e7\u00e3o ... venha a ser condenado, em sede de julgamento, pela pr\u00e1tica do crime maus tratos.<br \/>Consideram-se, assim, n\u00e3o indiciados os factos imputados aos arguidos no artigo 40.\u00ba do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o, mormente, sob os n\u00fameros 4., 7. a 21., e 23. a 27.<br \/>Pelo exposto, e em face dos motivos invocados, imp\u00f5e-se a n\u00e3o pron\u00fancia dos arguidos AA, BB e do Lar Funda\u00e7\u00e3o ....\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Exist\u00eancia de ind\u00edcios suficientes da pr\u00e1tica de um crime de maus tratos pelos arguidos<\/u>\u00a0\u2013 aprecia\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito do recurso.<br \/>Estabelece o art.\u00ba 308.\u00ba, n.\u00ba 1 do C\u00f3digo Processo Penal que \u201cSe, at\u00e9 ao encerramento da instru\u00e7\u00e3o tiverem sido recolhidos ind\u00edcios suficientes de se terem verificado os pressupostos de que depende a aplica\u00e7\u00e3o ao arguido de uma pena ou de uma medida de seguran\u00e7a, o juiz, por despacho, pronuncia o arguido pelos factos respetivos; caso contr\u00e1rio, profere despacho de n\u00e3o pron\u00fancia\u201d.<br \/>Segundo o art.\u00ba 283.\u00ba, n.\u00ba 2, para onde remete o art.\u00ba 308.\u00ba, n.\u00ba 2, \u201cConsideram-se suficientes os ind\u00edcios sempre que deles resultar uma possibilidade razo\u00e1vel de ao arguido vir a ser aplicada, por for\u00e7a deles, em julgamento, uma pena ou medida de seguran\u00e7a\u201d.<br \/>Correlacionado com estes preceitos e por se tratar da fase de instru\u00e7\u00e3o, est\u00e1 o disposto no art.\u00ba 286.\u00ba, n.\u00ba 1, segundo o qual \u201cA instru\u00e7\u00e3o visa a comprova\u00e7\u00e3o judicial da decis\u00e3o de deduzir acusa\u00e7\u00e3o ou de arquivar o inqu\u00e9rito em ordem a submeter ou n\u00e3o a causa a julgamento\u201d.<br \/>Como se observa no ac\u00f3rd\u00e3o deste TRP, de 23\/11\/2011, dispon\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt, a exegese da exist\u00eancia de ind\u00edcios suficientes deve ajustar-se aos princ\u00edpios constitucionais da dignidade humana, da preserva\u00e7\u00e3o do bom nome e reputa\u00e7\u00e3o, bem como do princ\u00edpio \u201cin dubio pro reo\u201d, como a jurisprud\u00eancia tem tido o cuidado de salientar, desde logo no seu aresto mais representativo, tirado pelo STJ, no ac\u00f3rd\u00e3o de 18 de Maio de 2001 [1]. A\u00ed se disse, a dado momento, que \u201c<em>aquela \u201cpossibilidade razo\u00e1vel\u201d de condena\u00e7\u00e3o \u00e9 uma possibilidade mais positiva que negativa<\/em>\u201d, em que \u201c<em>o juiz s\u00f3 deve pronunciar o arguido quando pelos elementos de prova recolhidos nos autos, forma a sua convic\u00e7\u00e3o no sentido de que \u00e9 mais prov\u00e1vel que o arguido tenha cometido o crime do que o n\u00e3o tenha cometido<\/em>\u201d ou, ent\u00e3o, que os ind\u00edcios s\u00e3o suficientes quando haja \u201c<em>uma alta probabilidade de futura condena\u00e7\u00e3o do arguido, ou, pelo menos, uma probabilidade mais forte de condena\u00e7\u00e3o do que de absolvi\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<br \/>Prossegue o mencionado ac\u00f3rd\u00e3o do TRP, de 23\/11\/2011, salientando que \u201c[\u2026] a prova produzida, n\u00e3o deve ser aferida de modo estanque, mas sim na sua globalidade, e na diverg\u00eancia ou contradi\u00e7\u00e3o entre os diversos depoimentos prestados, que tantas vezes destoam de um depoente para outro, dever-se-\u00e1 procurar elementos objetivos de prova, que possam suportar, de modo convincente e para al\u00e9m de qualquer d\u00favida razo\u00e1vel, umas das vers\u00f5es suscitadas (a da acusa\u00e7\u00e3o ou a da defesa), sendo certo que caso subsista aquela d\u00favida, aplica-se o princ\u00edpio \u201cin dubio pro reo\u201d.<br \/>Isto significa que no culminar da fase de instru\u00e7\u00e3o, o ju\u00edzo de pron\u00fancia deve, em regra, passar por tr\u00eas fases.<br \/>Em primeiro lugar, por um ju\u00edzo de indicia\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica de um crime, mediante a indaga\u00e7\u00e3o de todos os elementos probat\u00f3rios produzidos, quer na fase de inqu\u00e9rito, quer na de instru\u00e7\u00e3o, que conduzam ou n\u00e3o \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o de uma conduta criminalmente tipificada.<br \/>Por sua vez e caso se opere essa adequa\u00e7\u00e3o, proceder-se-\u00e1, em segundo lugar, a um ju\u00edzo probat\u00f3rio de imputabilidade desse crime ao arguido, de modo que os meios de prova legalmente admiss\u00edveis e que foram at\u00e9 ent\u00e3o produzidos, ao conjugarem-se entre si, conduzam \u00e0 imputa\u00e7\u00e3o desse(s) facto(s) criminoso(s) ao arguido.<br \/>Por \u00faltimo, efetuar-se-\u00e1 um ju\u00edzo de prognose condenat\u00f3rio, mediante o qual se conclua que predomina uma razo\u00e1vel possibilidade de o arguido vir a ser condenado por esses factos e vest\u00edgios probat\u00f3rios, estabelecendo-se sempre um ju\u00edzo indiciador semelhante ao ju\u00edzo condenat\u00f3rio a efetuar em julgamento.\u201d.<br \/>Assim, a \u201cnatureza indici\u00e1ria da prova significa que n\u00e3o se exige prova plena, mas apenas a probabilidade, fundada em elementos de prova que, conjugados, conven\u00e7am da possibilidade razo\u00e1vel de ao arguido vir a ser aplicada uma pena ou medida de seguran\u00e7a criminal\u201d [2].<br \/>\u00c9, portanto, inequ\u00edvoca a aplica\u00e7\u00e3o do\u00a0<u>princ\u00edpio\u00a0<em>in dubio pro reo<\/em><\/u><em>\u00a0<\/em>na aferi\u00e7\u00e3o da sufici\u00eancia dos ind\u00edcios<em>\u00a0\u2013\u00a0<\/em>sendo este princ\u00edpio aplic\u00e1vel em qualquer fase do processo, como se salienta no ac\u00f3rd\u00e3o deste TRP, de 28\/11\/2018 [3].<br \/>Para al\u00e9m disso, consideramos que a an\u00e1lise da prova indici\u00e1ria deve ficar sujeita aos restantes princ\u00edpios e regras processuais que regem a aprecia\u00e7\u00e3o da prova, designadamente ao\u00a0<u>princ\u00edpio da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova<\/u>, contemplado no art.\u00ba 127\u00ba do CPP \u2013 com a consequ\u00eancia de que a prova indici\u00e1ria dever\u00e1 ser apreciada \u201csegundo as regras da experi\u00eancia e a livre convic\u00e7\u00e3o da entidade competente\u201d.<br \/>Significa o princ\u00edpio da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova, por um lado, a aus\u00eancia de crit\u00e9rios legais predeterminantes de valor a atribuir \u00e0 prova (salvo exce\u00e7\u00f5es legalmente previstas, como sucede com a prova pericial) e, por outro lado, que o tribunal aprecia toda a prova produzida e examinada com base exclusivamente na livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova e na sua convic\u00e7\u00e3o pessoal.<br \/>Em s\u00edntese, a comprova\u00e7\u00e3o dos \u201cpressupostos de que depende a aplica\u00e7\u00e3o ao arguido de uma pena ou de uma medida de seguran\u00e7a\u201d deve assentar na totalidade da prova produzida \u2013 aferida segundo ju\u00edzos de normalidade\/probabilidade\/plausibilidade e de crit\u00e9rios de l\u00f3gica e de racionalidade \u2013 e respeitar o princ\u00edpio\u00a0<em>in dubio pro reo<\/em>.<br \/>Vejamos, ent\u00e3o, se em face da prova colhida no inqu\u00e9rito e na instru\u00e7\u00e3o, se pode concluir por uma \u201cpossibilidade razo\u00e1vel\u201d de condena\u00e7\u00e3o \u2013 o que pressup\u00f5e que, num ju\u00edzo de prognose, se conclua que \u00e9 mais prov\u00e1vel a futura condena\u00e7\u00e3o dos arguidos\/recorridos, do que a sua absolvi\u00e7\u00e3o [4].<br \/>Estabelece o n.\u00ba 1, do art.\u00ba 152.\u00ba-A do C\u00f3digo Penal que, \u201c1 - Quem, tendo ao seu cuidado, \u00e0 sua guarda, sob a responsabilidade da sua dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o ou a trabalhar ao seu servi\u00e7o, pessoa menor ou particularmente indefesa, em raz\u00e3o de idade, defici\u00eancia, doen\u00e7a ou gravidez, e: a) Lhe infligir, de modo reiterado ou n\u00e3o, maus tratos f\u00edsicos ou ps\u00edquicos, incluindo castigos corporais, priva\u00e7\u00f5es da liberdade e ofensas sexuais, ou a tratar cruelmente; b) a empregar em atividades perigosas, desumanas ou proibidas; ou c) a sobrecarregar com trabalhos excessivos; \u00e9 punido com pena de pris\u00e3o de um a cinco anos, se pena mais grave lhe n\u00e3o couber por for\u00e7a de outra disposi\u00e7\u00e3o legal\u201d.<br \/>Esta incrimina\u00e7\u00e3o resulta da autonomiza\u00e7\u00e3o do crime de viol\u00eancia dom\u00e9stica relativamente ao de maus tratos que constava, antes da revis\u00e3o do C\u00f3digo Penal de 2007, do art.\u00ba 152\u00ba C\u00f3digo Penal, segundo a reda\u00e7\u00e3o que lhe foi introduzida pelo D. L. 48\/95, de 15.03., entretanto modificada pelas Leis 65\/98, de 02.09, e 7\/2000, de 27.05, o qual tutelava diferentes formas de viol\u00eancia no seio da fam\u00edlia, da educa\u00e7\u00e3o e do trabalho.<br \/>Ainda que o bem jur\u00eddico coincida com o tutelado pelo crime de ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica, na medida em que \u00abem causa estar\u00e1 ent\u00e3o em ambos os casos, no essencial, a prote\u00e7\u00e3o de um estado de completo bem-estar f\u00edsico e mental\u00bb, como observa Nuno Brand\u00e3o (in A tutela penal especial refor\u00e7ada da viol\u00eancia dom\u00e9stica, Revista Julgar n\u00ba12 (especial), ASJP, Lisboa, Set.- Dez. 2010, p. 13 e ss.), trata-se de assegurar a integridade da sa\u00fade f\u00edsica e mental de pessoas mais vulner\u00e1veis, o seu bem-estar f\u00edsico, ps\u00edquico e emocional (cf. A. Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Tomo II, p. 299).<br \/>Por isso, o bem jur\u00eddico protegido \u00e9 a sa\u00fade, entendida como um bem jur\u00eddico complexo suficientemente amplo e nas suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es para se identificar com a integridade do ser humano, em todas as suas componentes - f\u00edsica, ps\u00edquica e moral, abrangendo ainda a liberdade pessoal, a liberdade e autodetermina\u00e7\u00e3o sexual e a honra, nos mesmos termos em que se encontra protegida no art.\u00ba 25\u00ba da CRP.<br \/>Tal como acentuado na exposi\u00e7\u00e3o de motivos inserta na Proposta de Lei n.\u00ba 98\/X, Anteprojeto da Lei 59\/2007, de 4 de setembro, do qual resultou este art.\u00ba 152.\u00ba- A do CP, a raz\u00e3o de ser desta incrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 o fortalecimento da defesa dos bens jur\u00eddicos visados, especialmente \u00abo refor\u00e7o da tutela de pessoas particularmente indefesas\u00bb.<br \/>O referido preceito visa, pois, a preven\u00e7\u00e3o, combate e repress\u00e3o de frequentes e quase sempre subtis formas de viol\u00eancia f\u00edsica, ps\u00edquica e sexual dirigidas contra pessoas com menor capacidade de rea\u00e7\u00e3o ou defesa, tidas como mais fr\u00e1geis ou vulner\u00e1veis a partir de certos \u00edndices, como a idade, doen\u00e7a, ou condi\u00e7\u00e3o f\u00edsica ou ps\u00edquica ou gravidez e quando envolvidas num contexto relacional muito espec\u00edfico com o agressor: trata-se de rela\u00e7\u00f5es de poderes\/deveres de cuidado, de guarda, de dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o, ou de natureza laboral que criam, pela sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, um certo ascendente natural ou posi\u00e7\u00e3o mais privilegiada ou preponderante do agressor em rela\u00e7\u00e3o ao agredido.<br \/>O v\u00ednculo de depend\u00eancia existencial da v\u00edtima em rela\u00e7\u00e3o ao autor do crime j\u00e1 n\u00e3o se funda na coabita\u00e7\u00e3o, nas rela\u00e7\u00f5es familiares ou de namoro e afins, como na viol\u00eancia dom\u00e9stica, mas numa liga\u00e7\u00e3o institucional: o art.\u00ba 152\u00ba-A \u00ab(\u2026) tem por objeto os maus tratos praticados nas escolas, hospitais, nas creches ou infant\u00e1rios, em lares de idosos ou institui\u00e7\u00f5es ou fam\u00edlias de acolhimento de crian\u00e7as, bem como os maus tratos cometidos na pr\u00f3pria casa de habita\u00e7\u00e3o (por exemplo contra a empregada dom\u00e9stica ou \u201cbaby-sitter\u201d) ou na empresa, n\u00e3o deixando de fora, ainda e por exemplo, as pessoas que assumam, espont\u00e2nea e gratuitamente, o encargo de tomar conta de \u201cpessoas particularmente indefesas\u201d, nomeadamente crian\u00e7as, idosos, doentes ou pessoas com defici\u00eancia\u00bb (Taipa de Carvalho, Coment\u00e1rio Conimbricense do C\u00f3digo Penal, Volume II, artigos 152\u00ba e 152\u00baA, Coimbra Editora, Coimbra, 2012, p. 536).<br \/>\u00c9, ali\u00e1s, essencialmente, neste v\u00ednculo que o crime de maus tratos se distingue do de viol\u00eancia dom\u00e9stica.<br \/>Assim, v\u00edtima ou sujeito passivo s\u00f3 pode ser uma pessoa que, simultaneamente, preencha dois requisitos positivos - o de que se encontre em rela\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o existencial ou laboral com o agente, ou seja, que a v\u00edtima esteja ao cuidado, \u00e0 guarda ou sob a responsabilidade da dire\u00e7\u00e3o ou educa\u00e7\u00e3o do agente ou a trabalhar ao seu servi\u00e7o; o de que seja menor ou particularmente indefesa em raz\u00e3o da idade (avan\u00e7ada), de defici\u00eancia, da doen\u00e7a ou da gravidez - e um outro, negativo - o de que n\u00e3o exista entre o agente e a v\u00edtima uma rela\u00e7\u00e3o de coabita\u00e7\u00e3o, pois, nesse caso, estar\u00e1 em causa um crime de viol\u00eancia dom\u00e9stica, nos termos da al. d) do n\u00ba 1 do art.\u00ba 152\u00ba.<br \/>Os modos de a\u00e7\u00e3o t\u00edpica s\u00e3o muito diversificados em sintonia com a amplitude e complexidade do bem jur\u00eddico, estando enumerados exemplificativamente os comportamentos suscet\u00edveis de qualifica\u00e7\u00e3o como maus tratos f\u00edsicos ou ps\u00edquicos, ao inv\u00e9s de uma enumera\u00e7\u00e3o taxativa, que n\u00e3o esgotaria todo o espectro de atos potencialmente lesivos do bem jur\u00eddico visado proteger com a incrimina\u00e7\u00e3o do art.\u00ba 152\u00ba-A do CP.<br \/>O crime consuma-se tanto com as condutas integradoras de ofensas \u00e0 integridade f\u00edsica simples (os maus tratos f\u00edsicos), ou seja, todas as agress\u00f5es que envolvam alguma perturba\u00e7\u00e3o no corpo e sa\u00fade da v\u00edtima, como com os maus tratos ps\u00edquicos, incluindo humilha\u00e7\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es, quer estas se reconduzam ou n\u00e3o a atos, gestos, palavras, express\u00f5es, escritos, etc., englobando quaisquer comportamentos que ofendam a integridade moral ou o sentimento de dignidade da v\u00edtima, como as inj\u00farias, humilha\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as e outros e compreendem, a par das estrat\u00e9gias e condutas de controlo, o abuso verbal e emocional pun\u00edveis, em si mesmas, ou n\u00e3o, como crimes de inj\u00faria e difama\u00e7\u00e3o, de amea\u00e7a ou de coa\u00e7\u00e3o.<br \/>O crime de maus tratos pro\u00edbe tamb\u00e9m o tratamento cruel, que n\u00e3o se traduz, necessariamente, na imposi\u00e7\u00e3o de les\u00f5es f\u00edsicas, mas pode incluir outros tipos de comportamentos que impliquem um desgaste constante na v\u00edtima, devendo caracterizar-se pela sua adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 infli\u00e7\u00e3o de sofrimento f\u00edsico ou psicol\u00f3gico com uma certa t\u00f3nica de reitera\u00e7\u00e3o ou perman\u00eancia.<br \/>Este tipo pro\u00edbe ainda a sujei\u00e7\u00e3o a atividades desumanas, perigosas ou proibidas, que assim dever\u00e3o ser qualificadas por refer\u00eancia \u00e0s caracter\u00edsticas e fragilidades espec\u00edficas de cada v\u00edtima que, respetivamente, as humilhem ou degradem, ou com utiliza\u00e7\u00e3o de meios particularmente perigosos, ou na coloca\u00e7\u00e3o da v\u00edtima em situa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m elas, especialmente perigosas, ou que correspondam \u00e0 pr\u00e1tica de factos il\u00edcitos.<br \/>Por fim, entre as modalidades de maus tratos tamb\u00e9m se contam os trabalhos excessivos. A excessividade dos maus tratos afere-se tamb\u00e9m atendendo \u00e0s caracter\u00edsticas da v\u00edtima e ao tipo de trabalhos concretamente impostos.<br \/>Segundo o crit\u00e9rio do resultado material, tanto podem ser classificados como crimes de resultado \u2013 quando a execu\u00e7\u00e3o t\u00edpica se traduz em maus tratos f\u00edsicos ou em priva\u00e7\u00f5es da liberdade - como de mera atividade \u2013 no caso de a conduta integradora do tipo constituir provoca\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as ou o emprego em atividades perigosas, desumanas ou proibidas - sendo que, nos primeiros, o resultado \u00e9 elemento do tipo de crime e nos segundos, apenas constitui motivo da incrimina\u00e7\u00e3o.<br \/>De acordo com o crit\u00e9rio da intensidade da les\u00e3o do bem jur\u00eddico, estes crimes tamb\u00e9m podem ser crimes de dano, por exemplo no caso de ofensas sexuais ou corporais e das priva\u00e7\u00f5es de liberdade, ou crimes de perigo, nas situa\u00e7\u00f5es em que ocorram amea\u00e7as ou humilha\u00e7\u00f5es ou o emprego em atividades perigosas. Nos primeiros, a efetiva les\u00e3o do bem jur\u00eddico \u00e9 elemento do tipo legal, enquanto nos segundos o tipo legal apenas exige a coloca\u00e7\u00e3o em perigo do bem jur\u00eddico.<br \/>Trata-se de um crime espec\u00edfico que ser\u00e1 impr\u00f3prio quando as condutas integradoras do crime de maus tratos, isolada e autonomamente consideradas, j\u00e1 constituam crime (v.g. os maus tratos f\u00edsicos que traduzir\u00e3o sempre ofensas \u00e0 integridade f\u00edsica e certas modalidades de maus tratos ps\u00edquicos reconduzem-se aos crimes de inj\u00faria, amea\u00e7a, difama\u00e7\u00e3o, coa\u00e7\u00e3o sequestro), na medida em a qualidade do autor do facto ou o dever que sobre ele impende, n\u00e3o servem para fundamentar a responsabilidade, mas unicamente para a agravar.<br \/>Se as condutas n\u00e3o configurarem, em si mesmas consideradas, qualquer outro il\u00edcito penal, como tal previsto na parte especial do CP, o crime de maus tratos ser\u00e1, ent\u00e3o, um crime espec\u00edfico pr\u00f3prio pois, nestes casos, como quando se submete a v\u00edtima a atividades perigosas, a trabalhos excessivos, a certas formas de crueldade, \u00e9 a qualidade do agente que constitui o motivo da incrimina\u00e7\u00e3o.<br \/>No que especificamente concerne aos idosos, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade define maus tratos como um ato \u00fanico ou repetido, ou ainda, aus\u00eancia de a\u00e7\u00e3o apropriada que cause dano, sofrimento ou ang\u00fastia e que ocorra no contexto e desenvolvimento de um relacionamento de confian\u00e7a que atenta contra a sua vida, ou \u00e9 lesiva da sua integridade f\u00edsica ou ps\u00edquica, da sua liberdade, seguran\u00e7a econ\u00f3mica ou compromete o desenvolvimento da sua personalidade (Action on Elder Abuse (AEA, 1993) e adotada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade - WHO\/INPEA. Missing voices: views of older persons on elder abuse. Geneva: WHO; 2002,\u00a0https:\/\/apps.who.int\/iris\/handle\/10665\/67371).<br \/>Assim, dentro destes limites e com estas caracter\u00edsticas, podem enumerar-se como formas de maus tratos a idosos: qualquer forma de agress\u00e3o f\u00edsica (espancamentos, golpes, queimaduras, fraturas, administra\u00e7\u00e3o abusiva de f\u00e1rmacos ou t\u00f3xicos, rela\u00e7\u00f5es sexuais for\u00e7adas, que se reconduzem \u00e0 modalidade maus tratos f\u00edsicos); os maus-tratos psicol\u00f3gicos ou emocionais, materializados em condutas que causam dano psicol\u00f3gico como manipula\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, humilha\u00e7\u00f5es, chantagem afetiva, desprezo ou priva\u00e7\u00e3o do poder de decis\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o do afeto, isolamento e marginaliza\u00e7\u00e3o;\u00a0<u>a neglig\u00eancia traduzida em n\u00e3o satisfazer as necessidades b\u00e1sicas<\/u> (nega\u00e7\u00e3o de alimentos, cuidados higi\u00e9nicos, habita\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e cuidados m\u00e9dicos), que se reconduz a tratamento cruel, assim como condutas de abuso econ\u00f3mico, como seja, impedir o uso e controlo do pr\u00f3prio dinheiro, explora\u00e7\u00e3o financeira e chantagem econ\u00f3mica, ou permitir a exposi\u00e7\u00e3o incontrolada a formas de autoneglig\u00eancia resultantes da incapacidade de um indiv\u00edduo desempenhar tarefas de cuidado consigo pr\u00f3prio indispens\u00e1veis \u00e0 sua sobreviv\u00eancia e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades essenciais do quotidiano, (cf., Hirsch CH, Stratton S, Loewy R., The primary care of elder mistreatment. WEST J MED 1999 Jun; 170 (6): 353-8; Fern\u00e1ndez-Alonso MC, Herrero-Vel\u00e1zquez S. Maltrato en el anciano: possibilidades de intervenci\u00f3n desde la atenci\u00f3n primaria (I). Aten Primaria 2006 Ene; 37 (1):56-9; Howard M. Fillit, Kenneth Rockwood, John B Young, Brocklehurst's Textbook of Geriatric Medicine and Gerontology E-Book pp 943 e 944 https:\/\/www.us.elsevierhealth.com\/\u00a0e Briony Dow e Melanie Joosten, Entendendo o abuso de idosos: uma perspetiva de direitos sociais, Janeiro de 2012, Psicogeriatria Internacional 24(6): 853-5 DOI: 10.1017\/S1041610211002584\u00a0https:\/\/www.cambridge.org\/core). [5]<br \/>Em princ\u00edpio, a estrutura objetiva do tipo implica a reitera\u00e7\u00e3o, pois que a les\u00e3o do bem jur\u00eddico complexo protegido (a sa\u00fade) envolver\u00e1 uma pluralidade de condutas da mesma ou de diferentes esp\u00e9cies repetidas por um per\u00edodo mais ou menos prolongado, embora com a express\u00e3o de \u00abmodo reiterado ou n\u00e3o\u00bb se admita que certas condutas isoladas, desde que dotadas de gravidade bastante, podem tamb\u00e9m operar a consuma\u00e7\u00e3o dos maus tratos.<br \/>A imputa\u00e7\u00e3o subjetiva do tipo, pese embora as diferentes modalidades que pode revestir, tem o seu fundamento exclusivo no dolo em qualquer das suas modalidades que, justamente por causa das diferentes formas que a consuma\u00e7\u00e3o do crime de maus tratos pode revestir, tem conte\u00fado vari\u00e1vel.<br \/>Implica, desde logo, sempre, o conhecimento da exist\u00eancia dos deveres inerentes \u00e0 assun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o laboral, ou do v\u00ednculo de prote\u00e7\u00e3o-subordina\u00e7\u00e3o, do estado de menoridade, defici\u00eancia, velhice, doen\u00e7a ou gravidez da v\u00edtima.<br \/>Na vertente de maus tratos f\u00edsicos, o dolo abrange o resultado, traduzindo-se na consci\u00eancia e a vontade de causar a les\u00e3o da integridade f\u00edsica da v\u00edtima e, nos restantes casos, implica a consci\u00eancia e vontade de criar o risco de les\u00e3o da sa\u00fade da pessoa do ofendido ou do perigo de afeta\u00e7\u00e3o do normal desenvolvimento da crian\u00e7a aos cuidados do agente ou de cria\u00e7\u00e3o de preju\u00edzos para a sa\u00fade da v\u00edtima.<br \/>Existe, ainda, dolo (necess\u00e1rio ou eventual) quando o agente, n\u00e3o pretendendo diretamente causar o resultado danoso, tem consci\u00eancia de que este ocorrer\u00e1 como consequ\u00eancia necess\u00e1ria ou poss\u00edvel da sua conduta e com isso se conforma (cf. o art.\u00ba 14.\u00ba, n\u00bas 2 e 3 do CP).<br \/>O art.\u00ba 10\u00ba do CP equipara, em geral, a omiss\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o, nos crimes de resultado, estabelecendo que, quando um tipo legal de crime compreender um certo resultado, o facto abrange n\u00e3o s\u00f3 a a\u00e7\u00e3o adequada a produzi-lo como tamb\u00e9m a omiss\u00e3o adequada a evit\u00e1-lo. S\u00e3o os crimes omissivos por omiss\u00e3o impr\u00f3pria, porque o evento antijur\u00eddico pertinente \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do crime, segundo a sua descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica, resulta do incumprimento do dever jur\u00eddico de evitar esse resultado, nisso se distinguindo dos crimes omissivos puros que se caracterizam pela simples absten\u00e7\u00e3o de agir e s\u00e3o crimes de mera atividade.<br \/>A punibilidade do omitente depende da exist\u00eancia de um espec\u00edfico dever jur\u00eddico que o obrigue a agir, para evitar o resultado. S\u00f3 h\u00e1 equival\u00eancia entre o desvalor da a\u00e7\u00e3o e o desvalor da omiss\u00e3o, porque o agente tem uma posi\u00e7\u00e3o de garante da n\u00e3o produ\u00e7\u00e3o do resultado, \u00e0 luz de um dever jur\u00eddico de agir que constitui o fundamento da puni\u00e7\u00e3o e sem o qual a punibilidade da omiss\u00e3o constituiria uma intromiss\u00e3o intoler\u00e1vel na esfera privada de cada um.<br \/>O facto t\u00edpico materializa-se na \u00abcria\u00e7\u00e3o de um risco de verifica\u00e7\u00e3o de um resultado t\u00edpico\u00bb que existir\u00e1 sempre que esse perigo se verifica ou \u00e9 intensificado por efeito da omiss\u00e3o, traduzida na aus\u00eancia da a\u00e7\u00e3o esperada e exig\u00edvel por refer\u00eancia \u00e0quilo que, segundo a descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica, \u00e9 necess\u00e1rio para obstar \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o do resultado previsto no tipo legal e desde que o omitente esteja em condi\u00e7\u00f5es de poder levar a cabo a a\u00e7\u00e3o devida ou necess\u00e1ria a evitar o resultado (Figueiredo Dias, Direito Penal, Parte Geral, I, Coimbra editora 2\u00aa ed., p\u00e1gs. 927 e 928).<br \/>O dever jur\u00eddico de garante da n\u00e3o ocorr\u00eancia do resultado antijur\u00eddico pode resultar diretamente da lei (dever legal especial), de um contrato, de situa\u00e7\u00f5es de cria\u00e7\u00e3o de perigo e\/ou rela\u00e7\u00f5es familiares \u00edntimas de solidariedade e confian\u00e7a que importem a aceita\u00e7\u00e3o de facto de deveres cuja execu\u00e7\u00e3o importe inger\u00eancia\/apoio entre o omitente e o titular do bem jur\u00eddico que suporte o dever de agir, numa posi\u00e7\u00e3o de prote\u00e7\u00e3o ou de uma posi\u00e7\u00e3o de controlo.<br \/>No presente caso, em linha com o Minist\u00e9rio P\u00fablico, que decidiu arquivar o inqu\u00e9rito, considerou o tribunal de instru\u00e7\u00e3o criminal que \u00abn\u00e3o h\u00e1 no inqu\u00e9rito elementos indici\u00e1rios que pudessem sustentar a atribui\u00e7\u00e3o a AA e BB de uma concreta conduta, ativa ou omissiva, que pudesse considerar-se maltratante\u00bb. J\u00e1 no que respeita \u00e0 arguida, pessoa coletiva, ..., considerou o tribunal que, \u00abda concatena\u00e7\u00e3o dos depoimentos recolhidos em inqu\u00e9rito e documentos juntos ao processo, indicia-se suficientemente a exist\u00eancia de defici\u00eancias e car\u00eancias nos servi\u00e7os prestados aos utentes no Lar, as quais se traduzem essencialmente, num d\u00e9fice de trabalhadores, para prestar todos os cuidados necess\u00e1rios aos utentes daquela Institui\u00e7\u00e3o [...]\u00bb, n\u00e3o tendo sido recolhidos ind\u00edcios suficientes de concretos maus tratos perpetrados contra os utentes do Lar Funda\u00e7\u00e3o ....<br \/>Finaliza o tribunal a quo argumentando que \u00abda an\u00e1lise dos elementos probat\u00f3rios juntos aos autos, conclui-se, tal como concluiu o Minist\u00e9rio P\u00fablico em sede de despacho final de inqu\u00e9rito, pela inexist\u00eancia de ind\u00edcios suficientes da pr\u00e1tica do crime de maus tratos, por n\u00e3o ter sido detetada qualquer conduta dolosa perpetrada pelo Lar Funda\u00e7\u00e3o ... contra os utentes, pese embora se tenha verificado eventuais situa\u00e7\u00f5es de neglig\u00eancia a n\u00edvel da presta\u00e7\u00e3o de cuidados e assist\u00eancia aos utentes por parte da respetiva Institui\u00e7\u00e3o. Com efeito, todas as testemunhas \u2013 funcion\u00e1rias do lar, enfermeiros e m\u00e9dicos que ali prestaram servi\u00e7os, negaram a exist\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es de maus tratos, f\u00edsicos e\/ou ps\u00edquicos, sendo perent\u00f3rias ao afirmar que nunca presenciaram tais situa\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m disso, todas as situa\u00e7\u00f5es relatadas por essas testemunhas, reconduzem-se a situa\u00e7\u00f5es de neglig\u00eancia, manifestada em falhas nos cuidados de higiene, alimenta\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o dos utentes, as quais, segundo afirmaram grande parte das testemunhas, s\u00e3o devidas \u00e0 insufici\u00eancia de funcion\u00e1rios, para fazer face \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es e necessidades de todos os idosos, n\u00e3o resultando, assim, de atos intencionalmente praticados pelos funcion\u00e1rios do lar.\u00bb<br \/>Delimitado dogmaticamente o tipo de crime de maus tratos, analisemos, assim, se em face da prova colhida no inqu\u00e9rito e na instru\u00e7\u00e3o se encontra indiciada a pr\u00e1tica pelos arguidos \u2013 e, reflexamente, pela arguida ... \u2013 de factos suscet\u00edveis de integrarem os elementos objetivos e subjetivos do referido tipo de il\u00edcito, para al\u00e9m do respetivo tipo de culpa.<br \/>Em primeiro lugar, importa assinalar que n\u00e3o encontramos qualquer raz\u00e3o v\u00e1lida para que o tribunal a quo n\u00e3o tivesse considerado suficientemente indiciadas as les\u00f5es f\u00edsicas que a idosa DD apresentava quando o assistente, seu filho, a retirou da institui\u00e7\u00e3o, e o nexo de causalidade entre tais les\u00f5es e a deficiente presta\u00e7\u00e3o de cuidados recebidos pelos idosos institucionalizados naquele local.<br \/>Com efeito, essas les\u00f5es encontram-se evidenciadas nas fotografias juntas aos autos (cf. fls. 16 a 18) e foram comprovadas, n\u00e3o s\u00f3 pelo assistente, mas tamb\u00e9m pela testemunha FF, enfermeira que assistiu a v\u00edtima DD.<br \/>\u00c9 verdade que esta testemunha, n\u00e3o exercendo fun\u00e7\u00f5es na institui\u00e7\u00e3o em causa, n\u00e3o podia, naturalmente, garantir que aquelas les\u00f5es \u2013 em particular, o eritema na zona genital e a \u00falcera de press\u00e3o na regi\u00e3o sacro-cocc\u00edgia, grau 3, com tecido necr\u00f3tico \u2013 foram causadas por falta de presta\u00e7\u00e3o de cuidados devidos no lar, tendo, por\u00e9m, referido que a sua ocorr\u00eancia est\u00e1 normalmente associada a deficiente higieniza\u00e7\u00e3o dos utentes ou a falta de substitui\u00e7\u00e3o das fraldas com regularidade e, tamb\u00e9m, \u00e0 falta de reposicionamento do corpo de duas em duas horas ou \u00e0 execu\u00e7\u00e3o incorreta desse movimento (cf. depoimento constante de fls. 104).<br \/>Contudo, a generalidade das testemunhas inquiridas afirmou que a institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o dispunha de funcion\u00e1rios suficientes para prestar adequadamente os necess\u00e1rios cuidados aos idosos, designadamente para prover \u00e0 sua alimenta\u00e7\u00e3o e higiene pessoal e, ainda, para a mobiliza\u00e7\u00e3o daqueles que, como a v\u00edtima DD, n\u00e3o se podiam movimentar sozinhos.<br \/>Assim, GG, que exerceu fun\u00e7\u00f5es de auxiliar de a\u00e7\u00e3o direta no lar da ... durante oito anos, referiu que \u201co n\u00famero de funcion\u00e1rios era insuficiente para prestar o apoio aos utentes dependentes que se encontravam acamados, designadamente para fazer a rota\u00e7\u00e3o do corpo e para prestar cuidados de higiene, como por exemplo trocar as fraldas, pelo que os doentes acabavam por estar mais tempo do que deviam imobilizados em determinada posi\u00e7\u00e3o e as fraldas eram trocadas muito tempo depois do que seria aconselhado e necess\u00e1rio\u201d. Acrescentou que, normalmente, existiam quatro funcion\u00e1rias (duas em cada andar) para quarenta e seis utentes, na sua maioria dependentes de terceiros para alimenta\u00e7\u00e3o e higiene (cf. o depoimento constante de fls. 116\/117).<br \/>A testemunha II, tendo exercido fun\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o direta e chefe de equipa, durante 14 anos, com t\u00e9rmino em outubro de 2020, referiu que \u201co n\u00famero de funcion\u00e1rios da institui\u00e7\u00e3o era insuficiente para atender todos os idosos dependentes de terceiro para se alimentar, pelo que alguns idosos n\u00e3o seriam alimentados da forma mais adequada\u201d, acrescentando que nos \u00faltimos tr\u00eas\/quatro anos em que trabalhou na institui\u00e7\u00e3o \u201cverificou que a qualidade dos servi\u00e7os prestados aos utentes se deteriorava, passando os utentes com maior grau de depend\u00eancia a estar mais tempo do que deviam na mesma posi\u00e7\u00e3o, sem que fosse efetuada a rota\u00e7\u00e3o do corpo, assim como as fraldas eram mantidas mais tempo do que aquele que seria aconselh\u00e1vel\u201d.<br \/>Do mesmo modo, a testemunha JJ \u2013 que trabalhou no lar da ... durante um ano e tem, atualmente, a seu cuidado a m\u00e3e do assistente \u2013 salientou que a institui\u00e7\u00e3o tinha um n\u00famero insuficiente de funcion\u00e1rios para prestar os devidos cuidados aos utentes, a maior parte deles dependentes e acamados. Como consequ\u00eancia, a alimenta\u00e7\u00e3o era fornecida aos utentes de forma a demorar o m\u00ednimo de tempo poss\u00edvel. Acrescentou que a insufici\u00eancia de funcion\u00e1rios tamb\u00e9m se notava no apoio aos utentes dependentes que se encontravam acamados, designadamente para fazer a rota\u00e7\u00e3o do corpo, colocando-os em cadeir\u00f5es, por exemplo, e nos cuidados de higiene, em particular no procedimento de troca de fraldas, sendo que muitos utentes apenas durante a tarde eram intervencionados pelas auxiliares, n\u00e3o havendo tempo, durante o per\u00edodo da manh\u00e3, para realizar estas tarefas a todos os que delas careciam (cf. o depoimento constante de fls. 126\/127).<br \/>Perante este circunstancialismo, n\u00e3o temos qualquer d\u00favida em afirmar que se encontram indiciariamente demonstrados os factos enunciados pelo assistente no artigo 40 \u2013 e melhor descritos nos pontos 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14 e 15 deste artigo \u2013 do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o e, consequentemente, o emagrecimento e as les\u00f5es evidenciadas pela m\u00e3e do assistente, diretamente causados pela omiss\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de cuidados necess\u00e1rios e atempados de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e mobiliza\u00e7\u00e3o\/rota\u00e7\u00e3o do seu corpo.<br \/>Como foi reconhecido na decis\u00e3o instrut\u00f3ria, DD padecia, \u00e0 data dos factos, de uma dem\u00eancia, encontrando-se absolutamente dependente de terceiros para a realiza\u00e7\u00e3o de tarefas b\u00e1sicas, nomeadamente as relacionadas com a sua alimenta\u00e7\u00e3o, higiene pessoal e toma de medica\u00e7\u00e3o, sendo ainda incapaz de se locomover sozinha, carecendo por isso de apoio de terceiros para se levantar, movimentar e deitar na cama (cf. o ponto 5 do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o).<br \/>Trata-se, assim, de uma \u00abpessoa particularmente indefesa\u00bb, em raz\u00e3o da sua idade e doen\u00e7a, elemento indispens\u00e1vel para o preenchimento do tipo de il\u00edcito objetivo do crime de maus tratos que nos ocupa.<br \/>Ora, a Funda\u00e7\u00e3o ... \u00e9 uma Institui\u00e7\u00e3o Particular de Solidariedade Social, que tem uma estrutura residencial para idosos, prestando esse servi\u00e7o, tendo sido utente desta estrutura a ofendida DD (nascida em ...\/...\/1937), no per\u00edodo compreendido entre setembro de 2018 e setembro de 2020 (factos 1) e 2) do ponto 40 do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o, j\u00e1 considerados indiciariamente demonstrados pelo tribunal de primeira inst\u00e2ncia).<br \/>Deste modo, competia \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o ... assegurar a execu\u00e7\u00e3o das tarefas necess\u00e1rias a garantir o bem-estar e sa\u00fade dos respetivos utentes, provendo diariamente pela sua alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e cuidados m\u00e9dicos.<br \/>Est\u00e1, assim, configurada a sua posi\u00e7\u00e3o de garante da sa\u00fade f\u00edsica, mental e do bem-estar emocional dos utentes que tinha a seu cargo, particularmente da ofendida, derivada do especial contexto relacional de confian\u00e7a e de apoio \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades a que a institui\u00e7\u00e3o arguida estava contratualmente obrigada e, ainda, a situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e depend\u00eancia, fruto da doen\u00e7a e idade avan\u00e7ada da v\u00edtima, que integra o n\u00ba 1 do art.\u00ba 152\u00ba-A do CP.<br \/>Sucede que a institui\u00e7\u00e3o arguida, aparentemente por n\u00e3o dispor da quantidade de funcion\u00e1rios suficiente, omitiu a presta\u00e7\u00e3o dos cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e mobiliza\u00e7\u00e3o dos utentes mais vulner\u00e1veis e dependentes, com a frequ\u00eancia e qualidade necess\u00e1rias, como sucedeu com a ofendida DD, causando-lhe as les\u00f5es j\u00e1 descritas e consequente sofrimento f\u00edsico e ps\u00edquico-emocional.<br \/>Podemos, assim, concluir que, impendendo sobre a institui\u00e7\u00e3o arguida e respetivos representantes (os arguidos AA e BB, respetivamente presidente e secret\u00e1rio do Conselho Executivo \u2013 cf. os pontos 3 e 4 do artigo 40 do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o e os estatutos da Funda\u00e7\u00e3o ... constantes de fls. 373 e 374\/379) o dever de garante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ofendida DD e demais utentes a seu cargo, omitiram os arguidos os atos adequados a evitar tais ofensas \u00e0 sua sa\u00fade e integridade f\u00edsica, que podiam e deviam ter sido adotados, ocorrendo, por essa via, uma situa\u00e7\u00e3o de maus tratos, imput\u00e1vel a t\u00edtulo omissivo.[6]<br \/>Na verdade, e como j\u00e1 tivemos de salientar, o conceito de \u201cmaus tratos\u201d n\u00e3o se limita \u00e0s situa\u00e7\u00f5es mais evidentes de ofensas \u00e0 integridade f\u00edsica ou ps\u00edquica das v\u00edtimas, frequentemente traduzidas em agress\u00f5es f\u00edsicas\/sexuais, insultos, humilha\u00e7\u00f5es ou amea\u00e7as, antes abarcando um espetro muito alargado de comportamentos suscet\u00edveis de ofender a sa\u00fade f\u00edsica, ps\u00edquica e emocional das pessoas \u00e0s quais s\u00e3o dirigidos, neles se incluindo\u00a0<u>aus\u00eancia da presta\u00e7\u00e3o de cuidados alimentares e de higiene pessoal exig\u00edveis e adequados a preservar o seu bem-estar e integridade pessoal<\/u>.[7]<br \/>Resta analisar se, como sustenta o assistente, se encontra indiciariamente demonstrada uma atua\u00e7\u00e3o dolosa por parte dos arguidos. E, neste \u00e2mbito, importa reiterar que o elemento subjetivo do tipo de il\u00edcito compreende o dolo em qualquer das suas modalidades \u2013 direto, necess\u00e1rio e eventual -, n\u00e3o se exigindo, para al\u00e9m disso, um \u201cdolo espec\u00edfico\u201d.<br \/>Assim sendo, pode verificar-se uma atua\u00e7\u00e3o dolosa por parte dos arguidos, mesmo que as falhas nos cuidados de higiene, alimenta\u00e7\u00e3o e supervis\u00e3o dos utentes, devidas \u00e0 insufici\u00eancia de funcion\u00e1rios para fazer face \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es e necessidades de todos os idosos, como salientaram as testemunhas j\u00e1 indicadas, n\u00e3o hajam resultado de atos intencionalmente praticados pelos funcion\u00e1rios do lar \u2013 circunst\u00e2ncia que, tanto quanto podemos perceber da leitura da decis\u00e3o recorrida, afastaria o dolo dos recorridos na perspetiva do tribunal a quo.<br \/>E a resposta a esta quest\u00e3o \u00e9, na nossa opini\u00e3o, claramente afirmativa no caso do arguido AA.<br \/>Efetivamente, resulta dos estatutos da Funda\u00e7\u00e3o ... que ao Conselho Executivo compete a gest\u00e3o corrente da institui\u00e7\u00e3o e represent\u00e1-la, incumbindo-lhe, designadamente, garantir a efetiva\u00e7\u00e3o dos direitos dos benefici\u00e1rios, assegurar a sua organiza\u00e7\u00e3o e funcionamento, elaborar o quadro de pessoal, contratar o pessoal necess\u00e1rio, exercer o poder disciplinar e gerir o pessoal da institui\u00e7\u00e3o (cf. o documento constante de fls. 374\/379 \u2013 artigo 20.\u00ba).<br \/>Ao arguido AA competia, na sua qualidade de Presidente do Conselho Executivo, entre outras fun\u00e7\u00f5es, \u201csuperintender na gest\u00e3o corrente da Funda\u00e7\u00e3o, orientando e fiscalizando os respetivos servi\u00e7os\u201d (cf. o art.\u00ba 21.\u00ba dos Estatutos).<br \/>Por seu turno, o arguido BB tinha por atribui\u00e7\u00f5es, na sua qualidade de Secret\u00e1rio do Conselho Executivo, \u201ccoadjuvar o Presidente no exerc\u00edcio das suas atribui\u00e7\u00f5es e substitu\u00ed-lo nas suas faltas e impedimentos\u201d, para al\u00e9m de \u201clavrar as atas das sess\u00f5es do Conselho Executivo e superintender nos servi\u00e7os de expediente\u201d, \u201cpreparar a agenda de trabalho para as reuni\u00f5es do Conselho Executivo, organizando os processos dos assuntos a serem tratados\u201d e \u201csuperintender nos assuntos de secretaria\u201d (cf. o art.\u00ba 22.\u00ba dos Estatutos e o documento constante de fls. 373).<br \/>Ora, resulta claramente da prova testemunhal produzida nos autos que o arguido AA era o \u201cdiretor\u201d da institui\u00e7\u00e3o, pessoa que geria o lar conjuntamente com a Dra. OO, e a quem, na express\u00e3o da testemunha II, \u201ctodos deviam obedi\u00eancia\u201d (cf., em sentido id\u00eantico, os depoimentos prestados pelas testemunhas GG \u2013 que salientou que o \u201cPastor AA\u201d, como era conhecido, era o diretor da institui\u00e7\u00e3o e tratava dos assuntos sempre com OO, passando frequentemente pelo lar -, HH, JJ e PP, este \u00faltimo constante de fls. 124. A testemunha QQ, tamb\u00e9m funcion\u00e1ria do lar da Funda\u00e7\u00e3o ..., salientou que o \u201cPastor AA\u201d \u00e9 o \u201cpatr\u00e3o\u201d, \u201ca pessoa que gere a institui\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 cf. fls. 129).<br \/>Temos de concluir, assim, que o arguido AA, estando ciente das referidas defici\u00eancias nos servi\u00e7os prestados - sendo disso, ali\u00e1s, alertado, como apontou a testemunha II -, nada fez para corrigir a situa\u00e7\u00e3o, designadamente mediante a contrata\u00e7\u00e3o de novos funcion\u00e1rios ou otimiza\u00e7\u00e3o dos recursos humanos existentes [8], apesar de ter consci\u00eancia que n\u00e3o estavam a ser prestados os cuidados adequados aos utentes.[9]<br \/>Relativamente ao arguido BB, apesar de estatutariamente dever coadjuvar o arguido AA no exerc\u00edcio das suas atribui\u00e7\u00f5es, temos de reconhecer que a prova indici\u00e1ria reunida nos autos n\u00e3o suporta a conclus\u00e3o, para al\u00e9m da d\u00favida razo\u00e1vel \u2013 e, portanto, com o grau de certeza exigido para a supera\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio in dubio pro reo -, [10] de que estava realmente ciente da deficiente presta\u00e7\u00e3o de cuidados aos utentes, nos moldes j\u00e1 enunciados e suscet\u00edveis de configurar \u201cmaus tratos\u201d, e, para al\u00e9m disso, efetivamente capaz de adotar as medidas necess\u00e1rias para corrigir tal situa\u00e7\u00e3o.[11]<br \/>Em conclus\u00e3o, n\u00e3o se encontra indiciariamente demonstrado um comportamento omissivo por parte do arguido BB, adequado a evitar a produ\u00e7\u00e3o dos resultados lesivos da sa\u00fade f\u00edsica e do bem-estar emocional da ofendida DD, que lhe possa ser imputado, pelo menos, a t\u00edtulo de dolo eventual.<br \/>J\u00e1 quanto ao arguido AA e \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o ..., a sua responsabilidade criminal resulta da circunst\u00e2ncia de terem omitido os atos adequados a evitar as descritas ofensas \u00e0 sa\u00fade e integridade f\u00edsica da ofendida, que podiam e deviam ter sido adotados, ocorrendo, por essa via, uma situa\u00e7\u00e3o de maus tratos, imput\u00e1vel a t\u00edtulo omissivo, tendo o primeiro arguido atuado, pelo menos, com dolo eventual.<br \/>Deste modo, e na proced\u00eancia parcial do presente recurso, revoga-se a decis\u00e3o recorrida, que dever\u00e1 ser substitu\u00edda por outra, da qual resulte a pron\u00fancia dos arguidos Funda\u00e7\u00e3o ... e AA pelos factos descritos no requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o (devidamente adaptados, considerando a manuten\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de n\u00e3o pron\u00fancia quanto ao arguido BB, por falta de demonstra\u00e7\u00e3o do dolo respetivo), suscet\u00edveis de integrarem a pr\u00e1tica, na forma consumada, de um crime de maus tratos, previsto e punido pelas disposi\u00e7\u00f5es conjugadas dos artigos 152.\u00ba-A, n.\u00ba 2, al\u00ednea a), 10.\u00ba, n.\u00bas 1 e 2 e 11.\u00ba, n.\u00bas 2, 4, 5 e 7, todos do C\u00f3digo Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">III \u2013 Dispositivo<br \/>Pelo exposto, acordam os ju\u00edzes da 2\u00aa Sec\u00e7\u00e3o Criminal do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto em conceder parcial provimento ao recurso do assistente, revogando-se a decis\u00e3o recorrida, que dever\u00e1 ser substitu\u00edda por outra, da qual resulte a pron\u00fancia dos arguidos Funda\u00e7\u00e3o ... e AA pelos factos descritos no requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o (devidamente adaptados, em particular os descritos nos pontos 16), 19), 21), 25), 26) e 27) do requerimento de abertura de instru\u00e7\u00e3o, considerando a manuten\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de n\u00e3o pron\u00fancia quanto ao arguido BB, por falta de demonstra\u00e7\u00e3o do respetivo dolo), suscet\u00edveis de integrarem a pr\u00e1tica pelos arguidos\/recorridos de um crime de maus tratos, previsto e punido pelas disposi\u00e7\u00f5es conjugadas dos artigos 152.\u00ba-A, n.\u00ba 2, al\u00ednea a), 10.\u00ba, n.\u00bas 1 e 2 e 11.\u00ba, n.\u00bas 2, 4, 5 e 7, todos do C\u00f3digo Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas pelo assistente\/recorrente, fixando-se a taxa de justi\u00e7a no m\u00ednimo legal (art.\u00ba 515.\u00ba, n.\u00ba 1, al\u00ednea b), do CPP).<br \/>Podendo estar indiciada a pr\u00e1tica do crime de maus tratos por OO, pessoa referenciada pela generalidade das testemunhas como sendo a \u201cadministradora do lar\u201d, e dispondo este il\u00edcito de natureza p\u00fablica, comunique-se ao Minist\u00e9rio P\u00fablico para os fins tidos por convenientes (cf. os artigos 241.\u00ba e 242.\u00ba, n.\u00ba 1, b), do CPP).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">(Elaborado e revisto pela relatora \u2013 art.\u00ba 94\u00ba, n\u00ba 2, do CPP \u2013 e assinado digitalmente).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Porto, 18 de outubro de 2023.<br \/>Liliana de P\u00e1ris Dias<br \/>Jos\u00e9 Piedade<br \/>Maria dos Prazeres Silva<br \/>______________<br \/>[1] Relatado pelo Conselheiro Pereira Madeira e dispon\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>[2] Cf. o ac\u00f3rd\u00e3o deste TRP, de 9\/1\/2019 (relatado pela Desembargadora Elsa Paix\u00e3o e dispon\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt).<br \/>[3] Relatado pelo Desembargador Neto de Moura e dispon\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>[4] Conforme salientado no ac\u00f3rd\u00e3o deste TRP, de 28\/11\/2018 (Desembargador Neto de Moura), uma posi\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia (denominada teoria da probabilidade dominante, que, reconhecidamente, \u00e9 a que tem apoio na letra da lei) considera que para acusar ou pronunciar algu\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio que, num ju\u00edzo de prognose, se conclua que \u00e9 mais prov\u00e1vel a sua futura condena\u00e7\u00e3o do que a sua absolvi\u00e7\u00e3o.<br \/>Neste sentido, pode ver-se o ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 08\/10\/2008 (Cons. Soreto de Barros), acess\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt, em que se afirma que \u00abpossibilidade razo\u00e1vel\u00bb \u00e9 a que se baseia num ju\u00edzo de probabilidade, \u201cuma probabilidade mais positiva do que negativa, de que o arguido tenha cometido o crime do que o n\u00e3o tenha\u201d.<br \/>[5] Cf., neste sentido, o ac\u00f3rd\u00e3o do TRL de 23\/2\/2022, relatado por Cristina Almeida e Sousa, dispon\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt, e que aqui seguimos de perto.<br \/>[6] Cf., neste sentido, para al\u00e9m do ac\u00f3rd\u00e3o do TRL de 23\/2\/2022, j\u00e1 citado, tamb\u00e9m o ac\u00f3rd\u00e3o deste TRP de 12\/10\/2016, relatado pelo Desembargador Jos\u00e9 Carreto, igualmente dispon\u00edvel para consulta em\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>[7] Cf., neste sentido, para al\u00e9m do ac\u00f3rd\u00e3o do TRL de 23\/2\/2022, j\u00e1 citado, tamb\u00e9m o ac\u00f3rd\u00e3o deste TRP de 12\/10\/2016, relatado pelo Desembargador Jos\u00e9 Carreto, igualmente dispon\u00edvel para consulta em\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>\u00c9 de notar que a APAV (Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Apoio \u00e1 V\u00edtima) identifica como exemplo de pr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00e3o de direitos de pessoas institucionalizadas, entre muitas outras, \u00abdeixar pessoas idosas com dificuldade de mobiliza\u00e7\u00e3o sentadas ou deitadas durante muito tempo, sem ajud\u00e1-las a levantar-se\u00bb e \u00abn\u00e3o mobilizar regularmente pessoas idosas acamadas\u00bb, para al\u00e9m de \u00abpr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00e3o de direitos ao n\u00edvel da supervis\u00e3o t\u00e9cnica\u00bb, incluindo \u00abN\u00e3o assegurar que a equipa t\u00e9cnica \u00e9 qualificada e que h\u00e1 um n\u00famero adequado de profissionais que a comp\u00f5em\u00bb, e de \u00abPr\u00e1ticas de viola\u00e7\u00e3o de direitos ao n\u00edvel da higiene pessoal\u00bb, nomeadamente \u00abDeixar as pessoas idosas sujas (por exemplo, de fezes e urina) durante muito tempo\u00bb e \u00abN\u00e3o lavar as pessoas idosas acamadas na totalidade durante longos per\u00edodos de tempo\u00bb. Acrescenta-se a pr\u00e1tica de \u00abNegligenciar a alimenta\u00e7\u00e3o das pessoas idosas por falta de ajuda durante as refei\u00e7\u00f5es\u00bb,\u00a0<u>todas elas verificadas no presente caso<\/u>\u00a0\u2013 cf.\u00a0https:\/\/apav.pt\/publiproj\/images\/yootheme\/PDF\/Titono_PT.pdf.<br \/>[8] Resulta da prova testemunhal que o n\u00famero de funcion\u00e1rias era escasso e, mesmo assim, duas ainda eram afetadas aos servi\u00e7os domicili\u00e1rios e, outra, \u00e0 cozinha, pelo que frequentemente apenas se encontravam tr\u00eas funcion\u00e1rias, distribu\u00eddas por dois pisos, para atender cerca de cinquenta utentes, na sua maioria acamados, o que se afigura manifestamente insuficiente (cf., em particular, o depoimento da testemunha JJ).<br \/>[9] \u00c9 de notar que a testemunha II referiu que, tanto o arguido, tratado por \u201cPastor AA\u201d, como a Dra. OO \u2013 administradora do lar e superior hier\u00e1rquica das funcion\u00e1rias, aqui se incluindo as testemunhas inquiridas -, quando confrontados com as falhas da institui\u00e7\u00e3o, diziam: \u201cQuem n\u00e3o est\u00e1 bem muda-se, a porta da rua \u00e9 a serventia da casa\u201d.<br \/>[10] A decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, em processo penal, constitui, n\u00e3o s\u00f3 a supera\u00e7\u00e3o da d\u00favida met\u00f3dica, mas tamb\u00e9m da d\u00favida razo\u00e1vel sobre a mat\u00e9ria da acusa\u00e7\u00e3o e da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia do arguido. Tal supera\u00e7\u00e3o \u00e9 sujeita a controlo formal e material rigoroso do processo de forma\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o e do conte\u00fado da sua motiva\u00e7\u00e3o, a fim de assegurar os padr\u00f5es inerentes ao Estado de Direito moderno (cf., neste sentido, o ac\u00f3rd\u00e3o do TRP de 14\/7\/2020, relatado pelo Desembargador Jorge Langweg e dispon\u00edvel em\u00a0www.dgsi.pt).<br \/>[11] \u00c9 de notar que nenhuma das testemunhas alude ao arguido\/requerido nos seus depoimentos, pelo que ficamos com s\u00e9rias d\u00favidas de que este acompanhasse de perto a gest\u00e3o dos assuntos da Institui\u00e7\u00e3o ou, pelo menos, que estivesse a par dos problemas com que esta se deparava na presta\u00e7\u00e3o de cuidados aos respetivos utentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"https:\/\/www.dgsi.pt\/JTRP.NSF\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/5dc12a3597a0089080258a6a0050aaff?OpenDocument\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dgsi.pt\/JTRP.NSF\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/5dc12a3597a0089080258a6a0050aaff?OpenDocument<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-fd61e60 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-fd61e60 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-fd61e60\").on('click', function(){\n                        $(\".htmega-toggle-content-fd61e60\").slideToggle('slow');\n                        $(this).removeAttr(\"href\");\n                        $(this).parent().toggleClass(\"open\");\n                    });\n                });\n            <\/script>\n        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class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Ac\u00f3rd\u00e3o 711\/10.2TVPRT.P1.S1<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-35b363f elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"35b363f\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Responsabilidade M\u00e9dica<\/p><p>Consentimento Informado<\/p><p>Danos N\u00e3o patrimoniais<\/p><p>Culpa do lesado<\/p><p>Dever de informa\u00e7\u00e3o<\/p><p>Interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7b17b21 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"7b17b21\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-7b17b21\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">Ato Medico<\/p><p style=\"text-align: justify\">Exclus\u00e3o de responsabilidade<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00d3nus da prova<\/p><p style=\"text-align: justify\">Obriga\u00e7\u00f5es de meios e resultado<\/p><p style=\"text-align: justify\">Atos dos Representantes Legais ou Auxiliares<\/p><p style=\"text-align: justify\">14\/12\/2021<\/p><p style=\"text-align: justify\">I - A a\u00e7\u00e3o de responsabilidade civil por atos m\u00e9dicos pode fundar-se no erro m\u00e9dico e\/ou na viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">II - Na 1\u00aa. situa\u00e7\u00e3o visa-se, essencialmente, tutelar a sa\u00fade e a vida do paciente, enquanto que na 2\u00aa. situa\u00e7\u00e3o de causa de pedir o bem jur\u00eddico tutelado \u00e9 o direito do paciente \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o na escolha dos cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III - Tanto o dever de informa\u00e7\u00e3o (a que est\u00e1 vinculado o m\u00e9dico, e que constitui um dos requisitos da licitude sua atividade) como o consentimento do paciente para pr\u00e1tica do ato m\u00e9dico (que deve se livre e esclarecido, tendo por base essa informa\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 transmitida, sob pena da sua invalidade, salvo naquelas situa\u00e7\u00f5es excecionais de urg\u00eancia, em que estando perigosamente em causa a sua vida\/sa\u00fade, o mesmo n\u00e3o possa ser obtido em tempo \u00fatil e se dever\u00e1 ent\u00e3o presumir) s\u00e3o de conte\u00fado el\u00e1stico, devendo ser aferidos \u00e0 luz das especificidades de cada caso concreto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IV - Funcionando o consentimento como causa de exclus\u00e3o da ilicitude da sua atua\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobre o m\u00e9dico que impende o \u00f3nus de prova do consentimento (livre e esclarecido) prestado pelo paciente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">V - Em regra, a obriga\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o de meios, embora em casos muito particulares ou espec\u00edficos possa transformar-se numa obriga\u00e7\u00e3o de resultado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VI - Em a\u00e7\u00e3o de responsabilidade civil m\u00e9dica em que a causa de pedir radica na viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado, o c\u00e1lculo do montante indemnizat\u00f3rio por danos n\u00e3o patrimoniais dever\u00e1 ser feito com base em crit\u00e9rios de equidade, atendendo, nomeadamente, ao grau de culpabilidade\/censurabilidade do respons\u00e1vel m\u00e9dico e bem como do pr\u00f3prio lesado na situa\u00e7\u00e3o geradora desses danos, \u00e0 gravidade e dimens\u00e3o desses mesmos danos e \u00e0 pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica quer do lesante, quer do lesado.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Acordam no Supremo Tribunal de Justi\u00e7a<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>I - Relat\u00f3rio<\/strong><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><u>O autor<\/u>,\u00a0<strong>AA<\/strong>, ..., instaurou (em 08\/09\/2010),\u00a0<u>contra os r\u00e9us<\/u>,\u00a0<strong>HPP \u2013 Norte, SA.<\/strong>(<u>atualmente com a designa\u00e7\u00e3o de Lus\u00edadas, SA.)<\/u>,\u00a0<strong>BB<\/strong>, m\u00e9dico<em>,\u00a0<strong>Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA.<\/strong>\u201d, e\u00a0<\/em><strong>CC,<\/strong><em>\u00a0<\/em>m\u00e9dico, todos com os demais sinais dos autos, a presente a\u00e7\u00e3o declarativa condenat\u00f3ria (ent\u00e3o sob a forma de processo ordin\u00e1rio), pedindo, na sua ess\u00eancia, no final a:<\/li><li><em>a<\/em>) Condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de compensa\u00e7\u00e3o por danos patrimoniais correspondente \u00e0 incapacidade pelo autor sofrida em resultado da conduta dos r\u00e9us, a liquidar em decis\u00e3o ulterior;<\/li><li>b) Condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de compensa\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais pelo autor sofridos em resultado da conduta dos r\u00e9us, a liquidar em decis\u00e3o ulterior;<\/li><li>c) Condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us HPP \u2013 Norte, SA, e BB na devolu\u00e7\u00e3o da quantia pelo autor paga pela interven\u00e7\u00e3o realizada nas instala\u00e7\u00f5es do primeiro, bem como dos valores a\u00ed despendidos em consultas e exames (no total de \u20ac 1.087,93);<\/li><li>d) Condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA, e CC na devolu\u00e7\u00e3o da quantia pelo autor paga pelas interven\u00e7\u00f5es realizadas nas instala\u00e7\u00f5es da primeira, bem como dos valores despendidos em consultas e exames (no total de \u20ac 1.301,00);<\/li><li>e) Condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us na publica\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a a proferir nos autos, em jornal nacional de refer\u00eancia durante 4 domingos, de forma evitar que potenciais candidatos a realizar interven\u00e7\u00e3o com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \u201cLasik\u201d possam ser operados sem qualquer informa\u00e7\u00e3o;<\/li><li>f) Condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de todas as despesas a suportar com tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos (incluindo desloca\u00e7\u00e3o e estadia) que, futuramente, com o avan\u00e7o da ci\u00eancia, possam ser executados para minimizar a incapacidade visual de que o autor ficou afetado.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Para o efeito, e em s\u00edntese, alegou:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Que desde os 6 anos de idade sofre de miopia e tem necessidade de usar \u00f3culos de forma permanente, o que se agravou com a idade, raz\u00e3o pela qual, em 2004 \u2013 e quando ent\u00e3o j\u00e1 exercia a profiss\u00e3o de ... - em consulta oftalmol\u00f3gica no \u201cHospital dos Cl\u00e9rigos\u201d, ent\u00e3o perten\u00e7a da r\u00e9 HPP, registou 9 dioptrias no olho direito e 8,50 dioptrias no olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Numa unidade da r\u00e9 HPP teve acesso a brochura relativa a uma t\u00e9cnica de corre\u00e7\u00e3o cir\u00fargica da miopia denominada \u201cLasik\u201d, que lhe traria a solu\u00e7\u00e3o para os seus problemas di\u00e1rios relacionados com o uso de \u00f3culos ou lentes de contacto, sem efeitos secund\u00e1rios, o que era confirmado em newsletter distribu\u00edda pela mesma r\u00e9 em outubro de 2006.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em dezembro de 2004 agendou consulta com o r\u00e9u BB, que era o respons\u00e1vel pela execu\u00e7\u00e3o do tratamento com recurso a tal tecnologia na r\u00e9 HPP, para aferir da possibilidade de corrigir cirurgicamente a miopia que o afetava, visando cessar em absoluto a utiliza\u00e7\u00e3o de \u00f3culos ou lentes de contacto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na sequ\u00eancia dessa consulta, realizou os exames que o referido r\u00e9u entendeu serem necess\u00e1rios para avaliar a situa\u00e7\u00e3o, tendo dele recebido tamb\u00e9m algumas indica\u00e7\u00f5es pr\u00e9-operat\u00f3rias, bem como a informa\u00e7\u00e3o de que a recupera\u00e7\u00e3o seria quase imediata e sem dores, tendo ainda sido alertado para a eventual necessidade de posteriormente, cerca de 3 meses ap\u00f3s a primeira interven\u00e7\u00e3o, se corrigir o que n\u00e3o ficasse perfeito na primeira interven\u00e7\u00e3o. O r\u00e9u transmitiu-lhe ainda que ele iria abandonar de forma definitiva o uso de auxiliares de vis\u00e3o, mas nada lhe disse sobre os riscos e poss\u00edveis efeitos secund\u00e1rios da interven\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foi assim que na data agendada (...\/05\/2005) foi submetido (ao olho direito) \u00e0 interven\u00e7\u00e3o programada, no final da qual lhe foi dito que tudo se processara normalmente, devendo regressar no dia seguinte para acompanhamento da evolu\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o, o que fez, tenho-lhe novamente lhe sido transmitido que tudo estava a decorrer dentro da normalidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em ...\/05\/2005, o A. comunicou ao r\u00e9u BB que sentia enevoada a vis\u00e3o do olho direito intervencionado, tendo o r\u00e9u indicado que deveria submeter-se \u00e0 interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo, momento em que ele procederia \u00e0 corre\u00e7\u00e3o ao olho direito que se revelasse necess\u00e1ria, como inicialmente fora programado. Por\u00e9m, autor op\u00f4s-se a tal, informando que n\u00e3o permitiria a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo enquanto a vis\u00e3o do olho direito n\u00e3o se mostrasse perfeita.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em ...\/06\/2005 foi novamente observado pelo r\u00e9u BB, transmitindo-lhe que a vis\u00e3o no olho intervencionado n\u00e3o registara melhoras, tendo o r\u00e9u insistido na realiza\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo e do retoque ao olho direito, acabando por reconhecer n\u00e3o saber se a recupera\u00e7\u00e3o estava a decorrer com normalidade por n\u00e3o ter realizado a opera\u00e7\u00e3o de forma unilateral (ou seja, aos dois olhos na mesma altura, como propusera inicialmente ao A. e que este n\u00e3o aceitou).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Depois disso, e por perda de confian\u00e7a no R. BB, em junho de 2005, o autor recorreu aos servi\u00e7os da r\u00e9 Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica, onde foi atendido pelo r\u00e9u CC, a quem explicou o que havia sucedido com o r\u00e9u BB, tendo sido informado por aquele, ap\u00f3s realiza\u00e7\u00e3o de exames, ser apenas necess\u00e1ria a realiza\u00e7\u00e3o de retoque no olho inicialmente intervencionado, garantindo-lhe ent\u00e3o que obteria vis\u00e3o a 100%, sem que, contudo, lhe tenha sido tamb\u00e9m dada qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre poss\u00edveis efeitos secund\u00e1rios da tecnologia \u201cLasik\u201d ou da possibilidade de n\u00e3o ser atingido uma vis\u00e3o bilateral a 100%.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Contratou ent\u00e3o com o r\u00e9u CC e com a r\u00e9 Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica a realiza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o laser aos 2 olhos, de forma unilateral, embora ao olho direito devendo ser efetuado apenas um \u201cretoque\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em ...\/09\/2005 foi submetido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica ao olho direito, mas poucas melhoras registou ap\u00f3s tal, permanecendo enevoada a vis\u00e3o desse olho. Posteriormente, e ap\u00f3s ter sido informado pelo r\u00e9u CC da necessidade de realizar um novo \u201cretoque\u201d, em 19 de janeiro de 2006 foi submetido a terceira interven\u00e7\u00e3o ao olho direito, mas novamente sem obter o resultado que pretendia, sendo certo que a sucess\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es ao olho direito piorou de forma consider\u00e1vel a qualidade da vis\u00e3o deste.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por outro lado, os r\u00e9us BB e CC n\u00e3o mandaram fazer os exames que eram necess\u00e1rios, os quais lhe permitiriam ter apurado que as caracter\u00edsticas do autor n\u00e3o o tornavam bom candidato \u00e0 submiss\u00e3o a interven\u00e7\u00e3o com recurso a tal t\u00e9cnica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, em resultado da realiza\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es por eles realizadas, o autor ficou afetado de danos permanentes na sua vis\u00e3o que n\u00e3o teriam ocorrido face ao estado da ci\u00eancia m\u00e9dica e aos meios dispon\u00edveis<strong>.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Acresce ainda, que os referidos r\u00e9us m\u00e9dicos n\u00e3o lhe revelaram adequadamente todas as informa\u00e7\u00f5es sobre os efeitos secund\u00e1rios resultantes da cirurgia realizada. \u00c9 que o autor s\u00f3 aceitou submeter-se \u00e0s diversas interven\u00e7\u00f5es porque n\u00e3o foi informado dos efeitos colaterais irrevers\u00edveis e n\u00e3o corrig\u00edveis do \u201cLasik\u201d, pois se conhecesse todos os efeitos secund\u00e1rios dessa t\u00e9cnica operat\u00f3ria, especialmente a falta de estudos a longo prazo e a possibilidade de danos irrevers\u00edveis e n\u00e3o corrig\u00edveis, nunca teria se se teria submetido \u00e0 referida opera\u00e7\u00e3o.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"2\"><li><u>Todos os r\u00e9us contestaram<\/u>.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">2.1\u00a0<strong>A r\u00e9 HPP<\/strong>, defendeu-se por impugna\u00e7\u00e3o, alegando, na sua ess\u00eancia, desconhecer a generalidade dos factos alegados pelo A. remetendo a esse prop\u00f3sito para a explica\u00e7\u00f5es que, a tal prop\u00f3sito, viessem a ser dadas pelo R. BB na contesta\u00e7\u00e3o por ele a apresentar, acabando por pedir a improced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o, com a sua absolvi\u00e7\u00e3o do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De qualquer modo, no final requereu a interven\u00e7\u00e3o principal da\u00a0<strong>Companhia de Seguros Fidelidade Mundial, SA<\/strong>., com o alegado fundamento de, na sequ\u00eancia de contrato de seguro com ela celebrado, ter transferido a sua responsabilidade civil por factos similares aos invocados pelo autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2.2\u00a0<strong>Os r\u00e9us Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica e CC\u00a0<\/strong>apresentaram contesta\u00e7\u00e3o conjunta, defendendo-se por exce\u00e7\u00e3o e por impugna\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne \u00e0 1\u00aa. defesa, invocaram a ineptid\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o inicial.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne \u00e0 2\u00aa. defesa contraditaram, no essencial, a vers\u00e3o factual aduzida pelo A., negando qualquer atua\u00e7\u00e3o contra a \u201clegis artis\u201d, e afirmando terem sido prestados ao A. todos os esclarecimentos e informa\u00e7\u00e3o que se impunham, nomeadamente atrav\u00e9s do R. BB.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E particularmente referiram ainda que autor n\u00e3o tinha especificidades nos olhos que desaconselhassem a utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica \u201cLasik\u201d; que foram cumpridas todas as boas pr\u00e1ticas m\u00e9dicas na data exig\u00edveis; os exames foram os necess\u00e1rios e adequados; o programa terap\u00eautico proposto ao autor e expressamente aceite por ele foi cumprido at\u00e9 ao momento em que o autor deixou de comparecer perante os r\u00e9us; que a miopia residual integra o processo terap\u00eautico, motivo por que o \u00abretoque\u00bb \u00e9 pr\u00e1tica corrente e que anisometropia invocada pelo autor decorre apenas da circunst\u00e2ncia de n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo, sendo solucionado com o uso de lente de contacto ou a realiza\u00e7\u00e3o de cirurgia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo que pediram no final a proced\u00eancia daquela invocada exce\u00e7\u00e3o ou ent\u00e3o a improced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o com a sua absolvi\u00e7\u00e3o do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2.3 Por sua vez,\u00a0<strong>o r\u00e9u BB,<\/strong>\u00a0na sua contesta\u00e7\u00e3o, defendendo-se tamb\u00e9m por exce\u00e7\u00e3o e por impugna\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne \u00e0 1\u00aa. defesa, invocou a ineptid\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o inicial.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne \u00e0 2\u00aa. defesa contraditou, no essencial, a vers\u00e3o factual aduzida pelo A., negando qualquer atua\u00e7\u00e3o contra a \u201clegis artis\u201d, e afirmando terem sido prestado ao A. todos os esclarecimentos e informa\u00e7\u00e3o que se impunham.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E particularmente referiu ainda quando em novembro de 2004 o autor foi a uma consulta de oftalmologia num estabelecimento hospitalar, inquiriu a m\u00e9dica que o assistiu da possibilidade de efetuar corre\u00e7\u00e3o da miopia que o afetava atrav\u00e9s de t\u00e9cnica com recurso a laser, tendo recebido dessa m\u00e9dica informa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 natureza, vantagens, inconvenientes e poss\u00edveis efeitos secund\u00e1rios associados, ao que autor acabou por declarar estar ciente de tudo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na sequ\u00eancia disso, o autor, na consulta que teve lugar a ... de dezembro de 2004, evidenciou alto grau de conhecimento sobre a t\u00e9cnica em causa, a taxa de sucesso, os efeitos secund\u00e1rios e possibilidade de n\u00e3o obten\u00e7\u00e3o do resultado almejado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foram, entretanto, realizados diversos exames ao autor para avaliar se o mesmo era bom candidato \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o com utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica \u201cLasik, tendo-se apurado n\u00e3o existirem contra-indica\u00e7\u00f5es \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia ao olho direito do autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em ... de junho de 2005, o r\u00e9u concluiu pela necessidade de realizar o \u201cretoque\u201d para cuja possibilidade o autor havia sido advertido e que aceitou, propondo data para realiza\u00e7\u00e3o de novos exames e agendamento da nova interven\u00e7\u00e3o, aos quais, por\u00e9m, o autor faltou, n\u00e3o mais tendo tido contacto com ele, desconhecendo, assim, o seu atual estado cl\u00ednico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo que terminou pedindo a improced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o contra si e contra a r\u00e9 Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica, com a absolvi\u00e7\u00e3o do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Todavia, no final, requereu a interven\u00e7\u00e3o acess\u00f3ria\u00a0<em>passiva<\/em>\u00a0das sociedades\u00a0<strong><u>AMA \u2013 Agrupacion Mutual Aseguradora<\/u><\/strong><u>\u00a0(<strong>M\u00fatua de Seguros dos Profissionais de Sa\u00fade)<\/strong>, e\u00a0<strong>Axa Portugal \u2013 Companhia de Seguros, S.A<\/strong><\/u><strong>.,<\/strong>\u00a0por terem sido subscritos contratos de seguros atrav\u00e9s dos quais estas entidades assumiram a responsabilidade de indemnizar terceiros por danos da natureza dos invocados pelo autor.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\"><li><strong><u>Por despacho judicial de 27\/01\/2011<\/u><\/strong><u>,<\/u>foram admitidas as sobreditas interven\u00e7\u00f5es requeridas perla r\u00e9\u00a0<strong>HP (<\/strong><u>atualmente, como vimos, designada Lus\u00edadas, SA<\/u>.) e pelo<u>\u00a0R. BB,\u00a0<\/u>no que concerne \u00e0s institui\u00e7\u00f5es por eles identificadas para o efeito, as quais, ap\u00f3s terem sido citadas para o efeito, vieram apresentar as respetivas contesta\u00e7\u00f5es, defendendo-se ali por exce\u00e7\u00e3o e por impugna\u00e7\u00e3o, nos termos que aqui se d\u00e3o por reproduzidos.<\/li><\/ol><ol style=\"text-align: justify\" start=\"4\"><li>No despacho saneador (proferido em 03\/09\/2012) julgaram-se improcedentes as invocadas nulidades decorrentes da alegada ineptid\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o inicial e bem como as exce\u00e7\u00f5es de ilegitimidade, concluindo-se pela legitimidade processual, quer dos RR., quer das entidades intervenientes que foram chamadas.<\/li><\/ol><ol style=\"text-align: justify\" start=\"5\"><li>Realizada a audi\u00eancia de julgamento (que decorreu ao longo de v\u00e1rias sess\u00f5es), foi proferida\u00a0<strong>senten\u00e7a\u00a0<\/strong><u>que, no final, decidiu<\/u>julgar improcedente a a\u00e7\u00e3o, absolvendo-se, em consequ\u00eancia, os RR. dos pedidos\u00a0contra si formulados pelo A. .<\/li><\/ol><ol style=\"text-align: justify\" start=\"6\"><li>Inconformado com tal senten\u00e7a,\u00a0<u>dela apelou A.,<\/u>vindo\u00a0<strong>o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto<\/strong>(<u>doravante tamb\u00e9m TRP<\/u>), na aprecia\u00e7\u00e3o desse recurso,\u00a0<strong>a proferir, sem voto de vencido, ac\u00f3rd\u00e3o (de 13\/05\/2021) no qual, julgando parcialmente procedente o recurso e bem como a a\u00e7\u00e3o,\u00a0<u>se decidiu nos seguintes termos:<\/u><\/strong><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">\u00ab (\u2026)\u00a0<em>condenar \u201cos r\u00e9us BB e CC a pagar ao autor (<\/em>por manifesto lapso de escrita escreveu-se \u201caos autores<em>\u201d), cada um, a indemniza\u00e7\u00e3o de \u20ac3.500,00 (tr\u00eas mil e quinhentos euros), acrescida de juros de mora a contar da presente data at\u00e9 integral pagamento.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Custas da a\u00e7\u00e3o e do recurso pelo autor na propor\u00e7\u00e3o de 97% e pelos r\u00e9us condenados na propor\u00e7\u00e3o de 3<\/em>%. \u00bb<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"7\"><li>Inconformados com esse ac\u00f3rd\u00e3o do TRP,\u00a0<strong>dele interpuseram recurso<\/strong><strong>de revista (normal)\u00a0<\/strong>o A. (<u>a t\u00edtulo principal ou independente<\/u>) e o R. BB (<u>a t\u00edtulo subordinado<\/u>).<\/li><\/ol><ol style=\"text-align: justify\" start=\"8\"><li><strong>Nas correspondentes alega\u00e7\u00f5es de recurso (i<u>ndependente<\/u>) que apresentou, o A. concluiu as mesmas nos seguintes termos:<\/strong><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">\u00ab\u00a0<em>1 - O recurso \u00e9 interposto do Ac\u00f3rd\u00e3o proferido pela 1\u00aa Sec\u00e7\u00e3o do TRP, que deu parcialmente provimento ao peticionado pelo A, nomeadamente que decretando a responsabilidade civil dos RR. pelos danos morais sofridos pelo A. originados nos danos na sua vis\u00e3o, com base na inexist\u00eancia do seu consentimento informado.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>2 - No presente recurso, o recorrente com base no reconhecimento pelo Tribunal \u201ca quo\u201d da inexist\u00eancia do consentimento informado pretende a:<\/em><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><em>a) condena\u00e7\u00e3o do r\u00e9u BB na devolu\u00e7\u00e3o\/pagamento da quantia paga pela interven\u00e7\u00e3o por si realizada, bem como dos valores despendidos em consultas e exames (no total de \u20ac 1.087,93) e a condena\u00e7\u00e3o do r\u00e9u CC na devolu\u00e7\u00e3o\/pagamento da quantia pelo autor paga pela interven\u00e7\u00e3o por si realizadas, bem como dos valores despendidos em consultas e exames (no total de \u20ac 1.301,00);<\/em><\/li><li><em>b) condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us m\u00e9dicos no pagamento de compensa\u00e7\u00f5es por danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pelo A. em fun\u00e7\u00e3o da sua conduta il\u00edcita, a liquidar em decis\u00e3o ulterior, n\u00e3o se conformando com o valor arbitrado oficiosamente, sem qualquer pedido, pelo tribunal \u201ca quo\u201d.<\/em><\/li><li><em>c) condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de todas as despesas a suportar com tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos (incluindo desloca\u00e7\u00e3o e estadia) que, futuramente, com o avan\u00e7o da ci\u00eancia, possam ser executados para minimizar a incapacidade visual de que o autor ficou afectado.<\/em><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><em>3 - Quanto \u00e0 condena\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos na devolu\u00e7\u00e3o\/pagamento das quantias pagas pelo A. com os tratamentos e exames e interven\u00e7\u00e3o lasik, o TRP n\u00e3o condenou neste segmento, por raz\u00f5es que o A.\/recorrente tem que discordar frontal e respeitosamente.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>4 - S\u00e3o 1.087,93 \u20ac do R\u00e9u BB e 1.301,00 \u20ac para o R\u00e9u CC, a que devem acrescer os juros de mora, pelo menos desde a cita\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>5 - Os servi\u00e7os foram erradamente prestados com viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado \u00e9 os m\u00e9dicos que os devem suportar, nunca o A..<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>6 - Na teoria da decis\u00e3o sub judicio existiu responsabilidade civil que origina o pagamento de danos morais, mas n\u00e3o o pagamento dos servi\u00e7os m\u00e9dicos prestados com manifesta defici\u00eancia, por viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>7 - N\u00e3o pode manter-se este segmento do Ac\u00f3rd\u00e3o, ora em crise, que dever\u00e1 ser<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>revogado ordenando-se a pagamento ao A. das quantias pagas pela alegada presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os m\u00e9dicos.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>8 - Os RR. foram condenados, cada um, no pagamento ao A. de uma indemniza\u00e7\u00e3o por danos morais de 3.500,00 \u20ac.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>9 - Embora n\u00e3o seja bitola para a fixa\u00e7\u00e3o da compensa\u00e7\u00e3o que seja devida, o A.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>quer deixar registado que em custas de parte tem mais de 10.000,00 \u20ac para pagar, n\u00e3o esquecendo os milhares de euros que gastou com exames e per\u00edcias m\u00e9dicas.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>10 \u2013 A lide n\u00e3o pode ser para o A. uma m\u00e3o cheia de nada e para os RR. uma\u00a0absolvi\u00e7\u00e3o encapotada, com o m\u00e1ximo respeito por todos os envolvidos.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>11 - Pois bem, o pedido de danos morais na P.I. n\u00e3o foi liquidado com o argumento (formalmente transitado em julgado) de n\u00e3o ser poss\u00edvel na data de entrada da ac\u00e7\u00e3o, fixar o seu quantum, que se estava ainda a avolumar e n\u00e3o era ainda definido.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>12 \u2013 Assim, o recorrente relegou para liquida\u00e7\u00e3o em execu\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a a quantifica\u00e7\u00e3o dos mesmos, nem sequer alegando factos na sua plenitude no articulado inicial, apenas fazendo men\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica \u00e0 sua exist\u00eancia.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>13 - Nessa senda foi surpreendido com o Ac\u00f3rd\u00e3o \u201ca quo\u201d, que fixou um quantum indemnizat\u00f3rio, sem que tenha existido pedido concreto, nem a total alega\u00e7\u00e3o da amplitude dos factos.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>14 - Entendendo o A. que o princ\u00edpio dispositivo \u00e9 ainda prevalente no processo civil e cabendo \u00e0s partes definir o objecto do lit\u00edgio (atrav\u00e9s da dedu\u00e7\u00e3o das suas pretens\u00f5es) e alegar os factos que integrem a causa de pedir ou que sirvam de fundamento \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o de eventuais excep\u00e7\u00f5es, sendo que juiz s\u00f3 pode fundar a decis\u00e3o nestes, sem preju\u00edzo dos factos instrumentais e de os poder utilizar quando resultem da instru\u00e7\u00e3o e julgamento da causa, n\u00e3o compreende o A., salvo o devido respeito, a fixa\u00e7\u00e3o dos 3.500 \u20ac de indemniza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>15 - Nestes termos, entende o recorrente que o nosso Supremo Tribunal deve ordenar a revoga\u00e7\u00e3o do Ac\u00f3rd\u00e3o do TRP e remeter o processo \u00e0 primeira inst\u00e2ncia pata liquida\u00e7\u00e3o dos danos morais sofridos pelo A..<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>16 \u2013 Sem prescindir, escreveram os Senhores Desembargadores o seguinte para justificar o raqu\u00edtico valor dos danos morais arbitrados ao recorrente:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>\u201cCom efeito, resultou provado que o autor abandonou o acompanhamento que vinha sendo feito pelo r\u00e9u BB ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e o aparecimento da vis\u00e3o enevoada, n\u00e3o permitindo, alegadamente por perda de confian\u00e7a, que este r\u00e9u realizasse qualquer interven\u00e7\u00e3o no sentido de concluir a cirurgia programada e\/ou corrigir ou eliminar aquela consequ\u00eancia, desconhecendo-se se a mesma era poss\u00edvel e que resultados produziria, sendo certo que o autor havia sido informado por aquele m\u00e9dico da possibilidade de ser necess\u00e1ria uma correc\u00e7\u00e3o do trabalho realizado.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>17 - Pergunta o A., com humildade, que mais deveria ter feito?!<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>18 \u2013 Em primeiro lugar o A, pretendia com o lasik abandonar em absoluto o uso de \u00f3culos e lentes de contacto:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>31- Na sequ\u00eancia, o autor agendou para ... de Dezembro de 2004, no \"Hospital Privado ...\", consulta com o r\u00e9u BB, com vista a aferir da possibilidade de corrigir cirurgicamente a miopia, tendo o autor em vista abandonar em absoluto o uso de \u00f3culos ou lentes de contacto.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>19 - Em segundo lugar, o m\u00e9dico BB p\u00f4de fazer todos os exames pr\u00e9vios que pretendeu e entendeu necess\u00e1rios, o A. e o m\u00e9dico n\u00e3o tinha limita\u00e7\u00f5es nesse particular:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>33- Na sequ\u00eancia, o r\u00e9u BB teve a oportunidade de realizar todos os exames que entendeu necess\u00e1rios \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do autor (designadamente a topografia corneana, paquimetria, pupilometria, tonometria, a avalia\u00e7\u00e3o da acuidade visual e determina\u00e7\u00e3o da refrac\u00e7\u00e3o do doente, mas n\u00e3o a aberrometria e a avalia\u00e7\u00e3o lacrimal), por forma a decidir da conveni\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia refractiva.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>20 - Em terceiro lugar, a \u00fanica coisa que o BB informou o A. era a eventual necessidade de um retoque, ou seja, acertar a correc\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o que que n\u00e3o ficasse perfeita primeira interven\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>36- Quanto \u00e0s poss\u00edveis complica\u00e7\u00f5es resultantes da interven\u00e7\u00e3o, o r\u00e9u BB transmitiu ao autor, pelo menos, a eventualidade de ser necess\u00e1rio levar a cabo um \"retoque\", ou seja, em fase posterior novamente utilizar o laser para correc\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o ficasse perfeito na primeira interven\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>21 - Em quarto lugar, o m\u00e9dico em refer\u00eancia n\u00e3o comunicou ao A. t\u00e9cnicas alternativas que existiam(em) e com muito menos risco:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>38- O BB n\u00e3o transmitiu ao autor qualquer informa\u00e7\u00e3o quanto a t\u00e9cnicas de tratamento alternativas ao \"Lasik\", designadamente o \"Lasik personalizado\" ou a implanta\u00e7\u00e3o de lente intra-ocular.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>22 - Em quinto lugar, o A. (n\u00e3o podia ser de outra forma) confiou os seus olhos no m\u00e9dico especialista em oftalmologia no HPP, ent\u00e3o propriedade da Caixa Geral de Dep\u00f3sitos, agora Hospital Lus\u00edadas:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>39- O autor confiou integralmente e sem reservas na capacidade profissional do r\u00e9u BB (especialista em oftalmologia), e no prest\u00edgio do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", como institui\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>23 - Em sexto lugar, o A. queixou-se de ter a vis\u00e3o enovoada, n\u00e3o era defeito na corre\u00e7\u00e3o (refrativo) que fosse resolvido com o retoque, que se destinava apenas a corrigir um sub correc\u00e7\u00e3o da miopia:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>47- A 30 de Maio de 2005, regressado ao estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor queixou-se ao r\u00e9u BB que a sua vis\u00e3o no olho j\u00e1 intervencionado (o direito) apresentava-se ainda bastante enevoada.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>24 - Em s\u00e9timo lugar, as pregas que originavam a n\u00e9voa e que foram registadas pelo m\u00e9dico, n\u00e3o estavam nos planos do tratamento:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>48- Na sequ\u00eancia, ap\u00f3s examinar o olho direito do autor, o r\u00e9u BB verificou existirem pregas no \"flap\" (como se disse em 9-, a parte de tecido da c\u00f3rnea que \u00e9 cortada e levantada para aplica\u00e7\u00e3o do laser).<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>25 - Em oitavo lugar, o m\u00e9dico prop\u00f4s-se (num perigoso salto para a frente\/no escuro) realizar a cirurgia ao olho esquerdo<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>49- O r\u00e9u BB transmitiu ao autor que as pregas referidas em 48 n\u00e3o possu\u00edam relev\u00e2ncia, e prop\u00f4s realizar, como agendado, pelo menos, a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>26 - Em nono lugar, as regras da experi\u00eancia comum \u201cgritavam esbracejando\u201d que o paciente deveria resolver primeiro o problema, para depois avan\u00e7ar para o tratamento do olho esquerdo, sendo que ao paciente, ora signat\u00e1rio, no meio de um turbilh\u00e3o de sentimentos perturbadores, pareceu-lhe evidente essa atua\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>27 - Ent\u00e3o tinha um olho enevoado e repleto de pregas e a solu\u00e7\u00e3o era operar o outro olho?! N\u00e3o pode ser!<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>28 - Em d\u00e9cimo lugar, o que fez o A. e bem, como comprova o resto da est\u00f3ria, op\u00f4s-se e transmitiu esse facto ao m\u00e9dico:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>50-... Ao que o autor se op\u00f4s \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>51-... Transmitindo ao r\u00e9u BB que n\u00e3o permitiria a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo enquanto a vis\u00e3o do olho direito n\u00e3o se apresentasse perfeita.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>29 - Em d\u00e9cimo-primeiro lugar, o que fez o m\u00e9dico, sedimentando a decis\u00e3o do A. agarrado aos \u201cclamores\u201d que ouvia das regras da experi\u00eancia comum: aceitou a posi\u00e7\u00e3o do A. e marcou nova observa\u00e7\u00e3o (n\u00e3o cirurgia) para ... de Julho de 2005:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>52- O r\u00e9u BB aceitou a posi\u00e7\u00e3o do autor, agendando o dia ... de Junho de 2005 para nova observa\u00e7\u00e3o ao autor.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>30 - O A. \u00e9 apenas ... e subjugou a vontade e plano terap\u00eautico do m\u00e9dico, num \u00e1pice?! Ent\u00e3o ele o dito especialista n\u00e3o podia estar completamente seguro do que estava a fazer.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>31 - Em d\u00e9cimo-segundo lugar, o A. manteve a vis\u00e3o enevoada e com pior qualidade:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>53 - A ... de Junho de 2005, o autor queixou-se ao r\u00e9u BB que continuava a apresentar a vis\u00e3o enevoada no olho direito, e sentia que piorara a sua vis\u00e3o nesse olho.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>32 - Em d\u00e9cimo-terceiro lugar, o m\u00e9dico continuou a agendar novas observa\u00e7\u00f5es, sem nada fazer, era esperar o tempo passar e \u201crezar\u201d (nota que o recorrente \u00e9 cat\u00f3lico praticante) para que ficasse melhor:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>54- Na consulta referida em 53- o r\u00e9u BB agendou para da\u00ed apelo menos semanas nova data para observar o autor.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>33 - Depois de tudo isto o que sucedeu ao A.:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>55 - No dia 06 de Junho de 2005 o autor saiu bastante perturbado das instala\u00e7\u00f5es do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", preocupado com a situa\u00e7\u00e3o do seu olho direito, apresentando diferen\u00e7a da acuidade visual entre os olhos de tal forma elevada que prejudicava a sua vis\u00e3o bilateral \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>56-... O que causou perturba\u00e7\u00e3o do descanso e da vida profissional e pessoal do autor.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>34 - O que faria um homem m\u00e9dio colocado nesta situa\u00e7\u00e3o: continuava a aguardar algo que o m\u00e9dico claramente n\u00e3o controlava? Que n\u00e3o sabia o que fazer? Continuava a rezar?<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>35 - O A. teve medo, muito medo: olhos s\u00e3o apenas dois e n\u00e3o s\u00e3o substitu\u00edveis sendo a vis\u00e3o o mais sagrado dos nossos 5 sentidos, foi uma verdade de La Palice (ou lapalissada) que assaltou completa e brutalmente o esp\u00edrito do signat\u00e1rio.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>36 - O que fez? Pediu esclarecimentos por escrito sobre a sua situa\u00e7\u00e3o: causas e procedimentos a seguir:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>57- J\u00e1 em Julho de 2005, atrav\u00e9s de diversos telefaxes, o autor solicitou ao r\u00e9u esclarecimentos escritos sobre a situa\u00e7\u00e3o, nomeadamente se iria recuperar a integral vis\u00e3o do olho direito, quais as raz\u00f5es para a vis\u00e3o enevoada do olho tratado, e sobre os procedimentos que iriam ser seguidos, ao que aquele r\u00e9u jamais respondeu por escrito.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>37 - Resposta do m\u00e9dico e do Hospital: O SIL\u00caNCIO! (desculpem V. Exas as mai\u00fasculas)<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>38 - Concluindo, o TRP entende que foi o A, quem abandonou os tratamentos?!<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>39 - Se tudo estava controlado porque n\u00e3o responderam ao A., por escrito, com a explica\u00e7\u00e3o do que se passava e com o plano terap\u00eautico a seguir?!<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>40 - O pavor tornou-se p\u00e2nico na mente do A., tal como aconteceria a qualquer bom pai de fam\u00edlia.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>41 - N\u00e3o podia ser exig\u00edvel ao A. outra coisa que n\u00e3o fosse procurar um outro oftalmologista reputado e contactou o CC, conceituado na cidade do ... e entre os seus pares, especialmente na \u00e1rea da cirurgia refractiva, onde tinha realizado centenas de interven\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>42 \u2013 Com o CC s\u00e3o os seguintes os factos provados, muito similaresaos do especialista em vis\u00e3o BB:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>62- Em Julho de 2005 o autor agendou consulta nas instala\u00e7\u00f5es da r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", na altura situadas na rua Gon\u00e7alo Sampaio, n\u00ba 271, visando informar-se sobre o actual estado cl\u00ednico do seu olho direito e sobre as possibilidades de eventual correc\u00e7\u00e3o dos problemas que apresentava, com vista a alcan\u00e7ar a aptid\u00e3o da sua vis\u00e3o sem recurso a \u00f3culos ou lentes de contacto ...<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>63-... Sendo a ... de Julho de 2005 atendido pelo r\u00e9u CC.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>64 - Antes do referido em 62- e 63- o autor jamais tinha tido contacto com os r\u00e9us \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", e CC, que at\u00e9 ent\u00e3o desconheciam o historial cl\u00ednico do autor.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>65 - Na consulta referida em 62- e 63- o autor descreveu ao r\u00e9u CC a sua vers\u00e3o quanto ao tratamento a que havia sido submetido pelo r\u00e9u BB, e expressou as queixas quanto ao que sentia.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>66 - O r\u00e9u CC, depois de efectuar os exames (designadamente a aberrometria, a tonometria, a caratometria e a medi\u00e7\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o teste de l\u00e1grimas e a an\u00e1lise \u00e0 sensibilidade de contraste) que entendeu necess\u00e1rios (tendo o autor pago o respectivo custo), transmitiu ao autor que n\u00e3o tinha de se preocupar, embora entendendo necess\u00e1ria a realiza\u00e7\u00e3o de \"retoque\" ao olho intervencionado.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>67 - A forma descontra\u00edda, confiante e segura com que o r\u00e9u CC falou como autor transmitiu a este seguran\u00e7a que tudo correria pelo melhor e os problemas que sentia tinham solu\u00e7\u00e3o breve e simples.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>68 - O r\u00e9u CC n\u00e3o transmitiu ao autor qualquer outra informa\u00e7\u00e3o quanto a poss\u00edveis efeitos secund\u00e1rios permanentes da interven\u00e7\u00e3o com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\", ou quanto \u00e0 possibilidade de o autor n\u00e3o alcan\u00e7ar em toda a sua extens\u00e3o a aptid\u00e3o da sua vis\u00e3o sem recurso a \u00f3culos ou lentes de contacto \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>69 - ... Nem transmitiu ao autor qualquer informa\u00e7\u00e3o quanto a t\u00e9cnicas de tratamento alternativas ao \"Lasik\", designadamente o \"Lasik personalizado\" ou a implanta\u00e7\u00e3o de lente intra-ocular.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>70 - O autor confiou nas capacidades do r\u00e9u CC enquanto m\u00e9dico especialista em oftalmologia, e na reputa\u00e7\u00e3o que este e a r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro- Barraquer, SA\", possu\u00edam.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>71 - A 14 de Setembro de 2005, nas instala\u00e7\u00f5es da r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", o autor foi submetido a nova interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica ao seu olho direito com utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica \"Lasik\", levada a cabo pelo r\u00e9u CC, tendo pago \u20ac 1.192,00.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>72 - Nos dias subsequentes (designadamente a 15 e 30 de Setembro e 02 de Dezembro de 2005), o autor deslocou-se a diversas consultas de acompanhamento da interven\u00e7\u00e3o, sentindo melhorias na vis\u00e3o do olho intervencionado.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>73 - ... Apesar de continuar a sentir enevoada a vis\u00e3o do olho direito.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>74 - Na sequ\u00eancia, o r\u00e9u CC, a 02 de Dezembro de 2005, transmitiu ao autor que seria necess\u00e1rio levar a cabo novo \"retoque\" ao olho direito.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>75 - A ... de Janeiro de 2006, o autor foi submetido a terceira interven\u00e7\u00e3o ao olho direito com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\".<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>76 - Todos os contactos do autor com vista \u00e0 presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os referidos em 71- a 75- tiveram lugar directamente com o r\u00e9u CC.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>77- N\u00e3o obstante as interven\u00e7\u00f5es referidas em 71- e 75- , o autor continuou a n\u00e3o sentir melhorias na vis\u00e3o do seu olho direito, sentindo mesmo que a sucess\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es piorou a qualidade de vis\u00e3o do olho direito. 78- O autor continuou a ser acompanhado pelo r\u00e9u CC, que lhe prop\u00f4s a realiza\u00e7\u00e3o de uma nova interven\u00e7\u00e3o ao olho direito.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>79 - A certa altura, o autor deixou de confiar no r\u00e9u CC, entendendo que a situa\u00e7\u00e3o estava fora do controlo deste \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>80 -... A partir de ... de Mar\u00e7o de 2006 abandonando o tratamento a que estava a ser sujeito.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>43 - Pois bem, como resulta das profusa documenta\u00e7\u00e3o e peritagens do processo, os olhos n\u00e3o s\u00e3o ilimitados para v\u00e1rias interven\u00e7\u00f5es lasik, ou seja, os m\u00e9dicos n\u00e3o podem ir tentando at\u00e9 acertar.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>44 - Tudo porque a c\u00f3rnea vai sendo desgastada com as interven\u00e7\u00f5es, que no m\u00e1ximo devem ser apenas duas, tr\u00eas \u00e9 uma clara e muito arriscada excep\u00e7\u00e3o, a partir da\u00ed em insano continuar.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>45 - Existiam tratamentos alternativos como a lente intraocular que podiam diminuir o problema do A., nunca uma quarta interven\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>46 - O que mais era exigido ao A.: uma quarta interven\u00e7\u00e3o? uma quinta? Sexta? Ficar cego? N\u00e3o era mais poss\u00edvel manter o especialista reputado CC a governar a situa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>47 - Pelas regras da experi\u00eancia comum como um bom pai de fam\u00edlia o A. fez uma pausa nos tratamentos e consultou a Cl\u00ednica Barraquer em Barcelona (<\/em><a href=\"https:\/\/www.barraquer.com\/es\"><em>https:\/\/www.barraquer.com\/es<\/em><\/a><em>), publica e notoriamente um dos centros mais avan\u00e7ados do mundo em oftalmologia e disseram-lhe:<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>84 - Em Dezembro de 2006, o autor deslocou-se ao \"Centro de Oftalmologia Barraquer\", em Barcelona, onde foi observado pelo Dr. DD, que transmitiu ao autor que, em sua opini\u00e3o, o autor n\u00e3o deveria ter sido submetido a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica aos olhos com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\".<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>48 - O que iria continuar o A. a fazer sendo seguido pelo CC que lhe prometeu os denominados \u201cmundos e fundos\u201d, tudo era de f\u00e1cil resolu\u00e7\u00e3o e nada cumpriu\u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>49 - Teria o A. que ficar cego para lhe consideraram danos morais significativos?<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>50 \u2013 Como restou o A. (factos provados):<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>17- O autor nasceu a ...\/...\/1973 \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>18- ... E \u00e9 ..., estando h\u00e1 v\u00e1rios anos inscrito no Conselho ....<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>(\u2026)<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>55 - No dia ... de Junho de 2005 o autor saiu bastante perturbado das instala\u00e7\u00f5es do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", preocupado com a situa\u00e7\u00e3o do seu olho direito, apresentando diferen\u00e7a da acuidade visual entre os olhos de tal forma elevada que prejudicava a sua vis\u00e3o bilateral \u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>56 - ... O que causou perturba\u00e7\u00e3o do descanso e da vida profissional e pessoal do autor.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>(\u2026)<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>77 - N\u00e3o obstante as interven\u00e7\u00f5es referidas em 71- e 75-,o autor continuou a n\u00e3o sentir melhorias na vis\u00e3o do seu olho direito, sentindo mesmo que a sucess\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es piorou a qualidade de vis\u00e3o do olho direito.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>81 - A interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" apenas deve ser realizada quando o paciente mantenha estabilizado o grau de miopia durante certo per\u00edodo (pelo menos 1 ano). (\u2026)<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>86 - Caso o autor tivesse tido consci\u00eancia que a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" n\u00e3o eliminaria a sua necessidade de recorrer ao uso de \u00f3culos e lentes de contacto, ou que originaria halos, \"starbusts\" e clar\u00f5es, e dificuldades na vis\u00e3o nocturna sem correc\u00e7\u00e3o, teria decidido n\u00e3o submeter-se \u00e0s interven\u00e7\u00f5es referidas em 44-, 71- e 75-.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>(\u2026)<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>88 - Actualmente, o autor apresenta:<\/em><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><em> Astigmatismo irregular da c\u00f3rnea do olho direito;<\/em><\/li><li><em> Anisometropia (decorrente da grande diferen\u00e7a entre o erro refractivo dos 2 olhos, causador de diferen\u00e7as entre a percep\u00e7\u00e3o do tamanho e nitidez, e sobrecarregando o c\u00e9rebro, da\u00ed decorrendo sintomas como cefaleia, fotofobia, prurido, etc);<\/em><\/li><li><em> Vis\u00e3o bilateral apenas como uso de lente de contacto no olho esquerdo. Na impossibilidade de uso de lente (por inflama\u00e7\u00e3o ou cansa\u00e7o) o autor perde a vis\u00e3o biocular, tendo de recorrer a \u00f3culos no olho esquerdo e colocar uma pala no olho direito;<\/em><\/li><li><em> Aniseiconia (disparidade do tamanho da imagem fornecida pelos 2 olhos);<\/em><\/li><li><em> Problemas na vis\u00e3o ao perto, no olho tratado, quando n\u00e3o utiliza lente de contacto no olho esquerdo;<\/em><\/li><li><em> No\u00e7\u00e3o alterada e oscilante das dist\u00e2ncias e da orienta\u00e7\u00e3o f\u00edsico-espacial, quando n\u00e3o utiliza lente de contacto no olho esquerdo;<\/em><\/li><li><em> Surgimento de c\u00e9lulas epiteliais por baixo da c\u00f3rnea do olho direito, com o esclarecimento que tal n\u00e3o interfere com a vis\u00e3o do autor;<\/em><\/li><li><em> Acuidade visual de 9\/10, no olho direito, com correc\u00e7\u00e3o \u00f3ptica (-0.25-0.50x10), constatada em Setembro de 2016.<\/em><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><em>89 - Actualmente, o autor queixa-se de:<\/em><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><em> Blur matinal no olho direito (olho nublado ao acordar durante pelo menos 1 hora);<\/em><\/li><li><em> Halos, starbusts e clar\u00f5es perturbadores da vis\u00e3o nocturna, designadamente na condu\u00e7\u00e3o, na visualiza\u00e7\u00e3o de imagens da televis\u00e3o, no uso de computador - em todas as situa\u00e7\u00f5es de baixa luminosidade ou em que o objecto a visualizar possua ilumina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria;<\/em><\/li><li><em> Sensibilidade extrema \u00e0 luz no olho direito. 90- Devido ao referido em 88- e 89-, o autor:<\/em><\/li><li><em> Em sua casa, alterou a configura\u00e7\u00e3o da sala de estar, e aumentou o di\u00e2metro das televis\u00f5es que a\u00ed possui;<\/em><\/li><li><em> No escrit\u00f3rio, aumentou os pontos de luz e o di\u00e2metro do monitor do seu computador;<\/em><\/li><li><em> Evita trabalhar \u00e0 noite;<\/em><\/li><li><em> Evita conduzir \u00e0 noite.<\/em><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><em>91- Toda a situa\u00e7\u00e3o acima descrita causou ao autor ang\u00fastia, desconforto com a sua vis\u00e3o, revolta, ansiedade e depress\u00e3o, levando-o a procurar aux\u00edlio m\u00e9dico e medicamentoso.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>51 - Constitui entendimento jurisprudencial actual que devem abandonar-se indemniza\u00e7\u00f5es miserabilistas a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais, \u00e9 imensa a jurisprud\u00eancia nesse sentido que foi inicia da precisamente pelo nosso STJ e que s\u00f3 n\u00e3o se cita por respeito \u00e0 intelig\u00eancia de V. Exas.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>52 - O A. era um jovem de 32 anos, ainda sem filhos e foi condenado a viver mais de 2\/3 da sua vida adulta (olhando \u00e0 esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida) com todos os problemas referidos e que o relat\u00f3rio do INML relata como causador de maior esfor\u00e7o no desenvolvimento das tarefas normais da vida quotidiana e no contexto profissional.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>53 - O A. \u00e9 ..., com todas as limita\u00e7\u00f5es descritas facilmente se percebe o esfor\u00e7o dos \u00faltimos 15 anos e dos 20 que faltam at\u00e9 \u00e0 reforma.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>54 - Se \u00e9 verdade que uma parte significativa dos problemas resultam de n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo, o que fazer?! \u00c9 que n\u00e3o foi aos factos provados mas os oftalmologistas do processo (foram muitos) foram unanimes em dizer que o mais certo \u00e9 voltar a acontecer nesse olho?!<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>55 - Vai o A. arriscar o \u00fanico olho saud\u00e1vel que tem e que equilibra a sua vis\u00e3o e que permite n\u00e3o parar sua vida numa verdadeira \u201croleta russa\u201d?<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>56 - \u00c9 que a roleta russa s\u00f3 se coloca por falta de informa\u00e7\u00e3o dos m\u00e9dicos, pois era uma cirurgia que o A. n\u00e3o necessitava para continuar a viver e com qualidade, uma vez que com lentes de contacto e \u00f3culos tinha uma vis\u00e3o a 100%!<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>57 - O A. v\u00ea-se na conting\u00eancia de usar uma pala no olho operado\u2026 para equilibrar a vis\u00e3o. E s\u00f3 a usa em casa, devendo utiliz\u00e1-la mais vezes, por vergonha extrema, admite.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>58 - Atender, como ... um cliente com uma pala no olho ou deslocar-se a um julgamento ou a qualquer dilig\u00eancia judicial de pala preta no olho direito, n\u00e3o lhe passa sequer pela cabe\u00e7a, \u00e9 demasiado achincalhante para um drama originado pelos m\u00e9dicos.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>59 - O A. perdeu parte da inf\u00e2ncia dos seus filhos pois n\u00e3o conseguia a acordar de noite e dar-lhes assist\u00eancia\u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>60 - Dependeu e continua a depender em muitas situa\u00e7\u00f5es da sua esposa, dos seus amigos e Colegas, para se deslocar, para trabalhar\u2026 Deixou de ir ao cinema, ao teatro, se sair \u00e0 noute em qualquer ocasi\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>61 - N\u00e3o aceita convites de amigos e familiares para ir jantar com medo do que o escuro lhe causa na vis\u00e3o\u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>62 - Enfim, para n\u00e3o mais ma\u00e7ar V. Exas, resulta evidente das regras da experi\u00eancia comum os tremendos danos de natureza n\u00e3o patrimonial sofridos pelo A. e que este, por defeito, fixa em 200.000,00 \u20ac, a suportar por cada R\u00e9u em partes iguais de 100.000 \u20ac.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>63 -O A. desde a data da \u00faltima per\u00edcia percepcionou a decad\u00eancia da sua vis\u00e3o do olho operado de forma significativa, tudo o que existia est\u00e1 mais vincado: os halos, a neblina matinal, o blur, as dificuldades na vis\u00e3o com pouca luminosidade ou em excesso dela\u2026<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>64 - Numa outra penada o recorrente reiterando tudo o que disse supra para os danos de natureza n\u00e3o patrimonial, entende que os RR. devem ser condenados a pagar todas as despesas com tratamentos m\u00e9dicos futuros que se venham a mostrar convenientes para a diminui\u00e7\u00e3o dos danos na sua vis\u00e3o.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>65 - Concluindo, entende o recorrente que a Revista se funda na incorrecta aplica\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o da lei substantiva \u2013 al\u00ednea a), do n\u00ba 1, do art\u00ba 674\u00ba do CPC.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Nestes termos, e nos melhores de Direito, dever\u00e1 o presente recurso proceder, sendo parcialmente revogado o Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto e substitu\u00eddo por outro do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a que ordene a condena\u00e7\u00e3o dos RR., no pagamento ao A. dos valores pagos e reenviar o processo para a 1\u00aa Inst\u00e2ncia de forma a ser fixada a indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais tal como expresso na P.I. da lide, n\u00e3o prescindindo ser alterado o valor dos danos morais arbitrado, assim se fazendo. Por fim, condenar os RR. tal como peticionado nas despesas futuras de tratamento do A..<\/em>\u00a0\u00bb<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"9\"><li>Por sua vez,\u00a0<strong>nas suas alega\u00e7\u00f5es de recurso (s<u>ubordinado<\/u>) que apresentou \u2013<\/strong><u>aproveitando ainda essa mesma pe\u00e7a parta contra-alegar o recurso independente do A<\/u>. -,<strong><u>o R. BB<\/u>\u00a0<u>concluiu as mesmas nos seguintes termos:<\/u><\/strong><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">\u00ab 1. O recurso principal deve ser julgado improcedente \u2013 n\u00e3o alterando a decis\u00e3o no sentido do recurso apresentado pelo Recorrente-Autor, e o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido ser confirmado, mas sem preju\u00edzo de ser julgado procedente o recurso subordinado, ou seja, absolvendo o Recorrido dos pedidos formulados na a\u00e7\u00e3o, ou, caso se mantenha a condena\u00e7\u00e3o ser exclu\u00edda a obriga\u00e7\u00e3o de indemniza\u00e7\u00e3o ao lesado dada a culpa deste, ou a ser condenado s\u00ea-lo em menor montante, n\u00e3o superior a \u20ac 1.000,00, mas tamb\u00e9m, serem condenados os R\u00e9us HPP (atualmente Lus\u00edadas SA), e Companhia de Seguros Mundial Confian\u00e7a (atualmente Companhia de Seguros Fidelidade, SA), pois que o tratamento ao Autor foi ministrado ao Autor na organiza\u00e7\u00e3o HPP, que estipulou e recebeu o pre\u00e7o dos servi\u00e7os prestados, estando o Autor inserido na organiza\u00e7\u00e3o dos HPP, como prestador de servi\u00e7os, e nesse \u00e2mbito contratual, tendo realizado os atos m\u00e9dicos, ou seja como comiss\u00e1rio e sendo comitente o R\u00e9u HPP.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"2\"><li>Formula o Autor no seu recurso a pretens\u00e3o de - \u201ca) condena\u00e7\u00e3o do R\u00e9u BB \u2026 na devolu\u00e7\u00e3o\/pagamento da quantia paga pela sua interven\u00e7\u00e3o\u201d, constante das conclus\u00f5es 2 a 7 das alega\u00e7\u00f5es de recurso.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Na verdade, esse pedido havia sido formulado sob ponto b) da peti\u00e7\u00e3o inicial e foi julgado improcedente na senten\u00e7a da primeira inst\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, foi tamb\u00e9m decidido que \u201cOs pedidos das al\u00edneas c) e d) improcedem na totalidade em virtude da delimita\u00e7\u00e3o do objeto do recurso \u00e0s consequ\u00eancias da falta do consentimento informado\u2026\u201d (vide ponto 41 do referido ac\u00f3rd\u00e3o). Pelo que \u00e9 de manter o entendimento do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido no que diz respeito \u00e0 limita\u00e7\u00e3o do objeto do recurso e ao tr\u00e2nsito dessa decis\u00e3o de improced\u00eancia desse pedido, constante da senten\u00e7a proferida na primeira inst\u00e2ncia, de que o Recorrente n\u00e3o interp\u00f4s recurso;<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\"><li>Assim, deve este Supremo Tribunal de Justi\u00e7a decidir n\u00e3o tomar conhecimento desta parte do recurso apresentado pelo Autor-Recorrente, por existir decis\u00e3o transitada no processo relativamente a esse pedido.<\/li><li>\u00c9 entendimento do Recorrido que o Merit\u00edssimo Juiz a quo da primeira inst\u00e2ncia fez correta interpreta\u00e7\u00e3o dos factos dados como provados, e exata aplica\u00e7\u00e3o da lei, pelo que a senten\u00e7a n\u00e3o merecia qualquer censura e deveria ter sido confirmada apelo ac\u00f3rd\u00e3o proferido pelo Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, absolvendo os R\u00e9us de todos os pedidos formulados; n\u00e3o obstante,<\/li><li>O ac\u00f3rd\u00e3o recorrido decidiu que o R\u00e9u n\u00e3o fez prova de que o Autor tinha prestado consentimento informado sobre os atos m\u00e9dicos a realizar; mas tal decis\u00e3o fez errada aprecia\u00e7\u00e3o dos fatos e inexata aplica\u00e7\u00e3o da lei; na verdade,<\/li><li>Entende o Recorrido, seguindo a decis\u00e3o da primeira inst\u00e2ncia que cabia ao Autor, caso se entendesse que n\u00e3o houve consentimento, fazer a prova que de qual seria a sua decis\u00e3o \u2013 consentimento ou n\u00e3o consentimento se informado;<\/li><li>Provada a possibilidade de existirem alguns riscos, n\u00e3o se qual o grau de probabilidade destes riscos ou efeitos secund\u00e1rios e, em alguma medida, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 especificado o respetivo grau de gravidade, designadamente se s\u00e3o irrevers\u00edveis ou n\u00e3o.<\/li><li>A circunst\u00e2ncia de o autor ter sabido anteriormente por outro m\u00e9dico oftalmologista, do mesmo estabelecimento hospitalar da possibilidade de a efic\u00e1cia da cirurgia regredir com o tempo e poder gerar fotofobia e s\u00edndrome de olho seco, \u00e9 necessariamente relevante; pelo que existiu informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos de regress\u00e3o dos efeitos e de causar fotofobia e s\u00edndrome de olho seco; \u00e9 que,<\/li><li>O Autor procurou um m\u00e9dico nos HPP, e ter\u00e1 consultado um panfleto informativo nas instala\u00e7\u00f5es do HPP, e foi visto inicialmente por outro m\u00e9dico desse hospital \u2013 Dr. EE, que o encaminhou para o R\u00e9u BB, que era tamb\u00e9m m\u00e9dico nos HPP, pois que era ele R\u00e9u quem no HPP era respons\u00e1vel por esse tipo de tratamento em 2005, fatos provados 19, 20, 25, 26, 27, 30, 39, 59.<\/li><li>Entende o Recorrido que incumbia ao Autor a prova de que se fosse informado dos riscos n\u00e3o teria dado o consentimento, o que n\u00e3o logrou fazer<u>.<\/u><u>Ou\u00a0<\/u>seja n\u00e3o tendo feito essa prova deve entender-se que o Autor tomaria a mesma decis\u00e3o de efetuar o tratamento lasik no caso de esses resultados (ser necess\u00e1rio continuar a usar \u00f3culos e surgirem os efeitos assinalados como provados) serem apenas prov\u00e1veis (n\u00e3o certos, mas poss\u00edveis).<\/li><li>No caso existem fatores diversos imput\u00e1veis ao pr\u00f3prio autor que dificultam o apuramento do dano indemniz\u00e1vel ou a determina\u00e7\u00e3o da medida em que o mesmo \u00e9 indemniz\u00e1vel.<\/li><li>Com efeito, resultou provado que o autor abandonou o acompanhamento que vinha sendo feito pelo r\u00e9u BB ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e o aparecimento da vis\u00e3o enevoada, n\u00e3o permitindo, alegadamente por perda de confian\u00e7a, que este r\u00e9u realizasse qualquer interven\u00e7\u00e3o no sentido de concluir a cirurgia programada e\/ou corrigir ou eliminar aquela consequ\u00eancia, desconhecendo-se se a mesma era poss\u00edvel e que resultados produziria, sendo certo que o autor havia sido informado por aquele m\u00e9dico da possibilidade de ser necess\u00e1ria uma corre\u00e7\u00e3o do trabalho realizado.<\/li><li>O Autor, antes de iniciar o tratamento, quando sem \u00f3culos ou lentes, era tecnicamente cego, tinha menos de 10% de vis\u00e3o, pois o seu grau de miopia era elevad\u00edssimo, e tinha tamb\u00e9m astigmatismo, nos dois olhos.<\/li><li>O Autor era acompanhado na doen\u00e7a (miopia) desde a sua inf\u00e2ncia, a miopia foi-se agravando, e atingiu um grau elevad\u00edssimo, sendo quase cego, e tinha tamb\u00e9m astigmatismo, pelo que o normal era que o Autor pretendesse corrigir essa situa\u00e7\u00e3o \u2013 leia-se, essa doen\u00e7a ou disfun\u00e7\u00e3o grave de que padecia, minorando-a ou eliminando-a, que ali\u00e1s era o resultado normal e previs\u00edvel do tratamento, que ali\u00e1s ocorreu.<\/li><li>Como resulta da factualidade provada, caso o Autor tivesse conclu\u00eddo o tratamento que contratou com o HPP e o R\u00e9u BB, todos os problemas que apresenta teriam sido resolvidos e o Autor teria ficado sem o desequil\u00edbrio e efeitos da grande diversidade\/desequil\u00edbrio entre a acuidade visual dos dois olhos \u2013 o operado pelo R\u00e9u BB em que houve evidente melhoria, e quase total repara\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o, e o n\u00e3o operado que se manteve com grande limita\u00e7\u00e3o de vis\u00e3o.<\/li><li>O autor n\u00e3o permitiu sequer ao m\u00e9dico que realizasse qualquer nova interven\u00e7\u00e3o, apesar de estar informado que a cirurgia podia n\u00e3o produzir a totalidade dos seus efeitos na primeira interven\u00e7\u00e3o e carecer de uma segunda para completar, concluir ou rectificar o resultado da primeira (dar um \u00abretoque\u00bb), e a verdade \u00e9 que o autor tinha contratado com ele a execu\u00e7\u00e3o da cirurgia para corre\u00e7\u00e3o da miopia, pelo que devia permitir que ele executasse a totalidade dos atos necess\u00e1rios \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do objeto contratado.<\/li><li>N\u00e3o o tendo feito e omitindo a colabora\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o a cargo do m\u00e9dico, n\u00e3o apenas entrou ele mesmo em incumprimento do contrato celebrado como impediu o m\u00e9dico de alcan\u00e7ar o resultado da elimina\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias indesejadas da interven\u00e7\u00e3o, sendo certo que mesmo no \u00e2mbito do dever de indemniza\u00e7\u00e3o a regra \u00e9 a da restaura\u00e7\u00e3o natural pelo que cabe ao devedor o direito de a procurar alcan\u00e7ar para se desonerar da obriga\u00e7\u00e3o alternativa da indemniza\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria (artigo 566.\u00ba do C\u00f3digo Civil).<\/li><li>Quer isto dizer que o Autor n\u00e3o permitiu ao R\u00e9u BB, este enquanto m\u00e9dico dos HPP, efetuar o tratamento contratado, or\u00e7amentado e pago aos HPP, e em diferentes vertentes:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">- n\u00e3o permitiu concluir o tratamento ao olho direito que foi intervencionado; - n\u00e3o permitiu concluir o tratamento com a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo; e,<\/p><p style=\"text-align: justify\">- n\u00e3o permitiu concluir o tratamento na sua globalidade \u2013 a interven\u00e7\u00e3o aos dois olhos, como sempre foi pressuposto do tratamento, e com eventual necessidade de retoque; sendo que n\u00e3o foi contratado pelo Autor a possibilidade de efetuar apenas o lasik num dos olhos, mas antes nos dois, embora a sua solicita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o em simult\u00e2neo.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"19\"><li>Foi provado que de todas as sequelas das interven\u00e7\u00f5es que o autor apresenta (as indicadas no facto do ponto 88) praticamente todas elas decorrem de o autor n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo, anomalias que se resolvem com recurso a lente de contacto ou cirurgia (94).<\/li><li>A op\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ser operado ao olho esquerdo \u00e9 do autor. Este estava informado que a cirurgia tinha de abranger ambos os olhos; e, a op\u00e7\u00e3o por n\u00e3o executar a cirurgia que resolveria estes problemas e que estava inclu\u00edda no plano inicial do tratamento \u00e9 igualmente uma op\u00e7\u00e3o do autor, o qual se torna assim igualmente respons\u00e1vel pela manuten\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o indesejada resultante dos actos m\u00e9dicos praticados.<\/li><li>Pelo que n\u00e3o pode por isso o Autor pretender ser indemnizado por se recusar a concluir o tratamento, que de modo evidente lhe trouxe j\u00e1 melhoria muito significativa da acuidade visual do olho direito, devendo por isso ser exclu\u00eddo o direito a ser indemnizado.<\/li><li>Acresce que, fato n\u00e3o ponderado, e antes ponderado fato contr\u00e1rio foi inequ\u00edvoca a prova de que a acuidade visual do olho direto melhorou significativamente.<\/li><li>Na verdade, como conclu\u00edram todos os exames periciais jutos aos autos o Autor, apesar de abandonar os tratamentos, primeiro com o R\u00e9u BB (em Junho de 2005) e depois com o R\u00e9u CC (em 31 de Mar\u00e7o de 2006), viu reduzida a sua miopia e astigmatismo no olho direito:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">- de -9 dioptrias de miopia, e de -0,50 dioptrias de astigmatismo, com uma acuidade visual com corre\u00e7\u00e3o de 8\/10, em Dezembro de 2004 (fato provado 25 e 97 e 98); para,<\/p><p style=\"text-align: justify\">- -0.25 dioptrias de miopia e -0,50 de dioptrias de astigmatismo em Setembro de 2016, e com uma acuidade visual de 9\/10 (facto provado 88-h) da senten\u00e7a),<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"24\"><li>Pelo que deve concluir-se que com as cirurgias realizadas melhorou a acuidade visual com corre\u00e7\u00e3o, e tendo agora com uma muito reduzida miopia, ou seja, o Autor que era praticamente cego (sem corre\u00e7\u00e3o), v\u00ea bem sem pr\u00f3teses (\u00f3culos ou lentes) do olho direito, ou seja houve uma significativa melhoria da acuidade visual sem corre\u00e7\u00e3o.<\/li><li>Por isso se diz no relat\u00f3rio pericial de fls\u2026., - de 22 de maio de 2017, al\u00e9m de ter sido fixada uma desvaloriza\u00e7\u00e3o de 0%, que \u201c\u2026tendo havido, melhoria significativa da sua acuidade visual, quando comparada com a acuidade visual pr\u00e9via ao tratamento\u201d.<\/li><li>\u00c9 verdade que houve uma sequela, mas que n\u00e3o interfere com a vis\u00e3o, o surgimento de c\u00e9lulas epiteliais, nem se provou traga qualquer dano ou efeito danoso.<\/li><li>E mesmo a outra referida sequela (considerada no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido) n\u00e3o \u00e9 uma sequela pois era pr\u00e9-existente \u2013 astigmatismo, que provoca a vis\u00e3o emba\u00e7ada ou enevoada e a hipersensibilidade do olho \u00e0 luz \u2013 mas que \u00e9 igualmente super\u00e1vel com o uso de \u00f3culos e, sobretudo, constitu\u00ed um risco de que o autor tinha sido informado pela outra m\u00e9dica oftalmologista que consultara antes dos r\u00e9us.<\/li><li>Mas como conclu\u00edram todos os exames periciais juntos aos autos o Autor, apesar de abandonar os tratamentos, primeiro com o R\u00e9u BB (em Junho de 2005) e depois com o R\u00e9u CC (em ... de Mar\u00e7o de 2006), viu reduzida a sua miopia e astigmatismo no olho direito:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">- de -9 dioptrias de miopia, e de -0,50 dioptrias de astigmatismo, com uma acuidade visual com corre\u00e7\u00e3o de 8\/10, em Dezembro de 2004 (fato provado 25 e 97 e 98); para,<\/p><p style=\"text-align: justify\">- -0.25 dioptrias de miopia e -0,50 de dioptrias de astigmatismo em Setembro de 2016, e com uma acuidade visual de 9\/10 (facto provado 88-h) da senten\u00e7a), donde se conclui que com as cirurgias realizadas melhorou a acuidade visual com corre\u00e7\u00e3o, e tendo agora com uma muito reduzida miopia, ou seja, o Autor que era praticamente cego (sem corre\u00e7\u00e3o), tinha 10% de vis\u00e3o, v\u00ea bem sem pr\u00f3teses (\u00f3culos ou lentes) do olho direito \u2013 tem agora mais de 70% de vis\u00e3o, ou seja houve uma significativa melhoria da acuidade visual sem corre\u00e7\u00e3o.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"29\"><li>Ora, disp\u00f5e o artigo 570\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil que \u00abquando um facto culposo do lesado tiver concorrido para a produ\u00e7\u00e3o ou agravamento dos danos, cabe ao tribunal determinar, com base na gravidade das culpas de ambas as partes e nas consequ\u00eancias que delas resultaram, se a indemniza\u00e7\u00e3o deve ser totalmente concedida, reduzida ou mesmo exclu\u00edda\u00bb.<\/li><li>Pelo que deveria o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, e n\u00e3o fez, fazendo errada aprecia\u00e7\u00e3o dos fatos e inexata aplica\u00e7\u00e3o da lei,<\/li><li>A pondera\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias, na sua globalidade, sem esquecer, na tese do ac\u00f3rd\u00e3o, a omiss\u00e3o do consentimento informado, tem que valorizar especialmente a recusa do Autor a concluir o tratamento ao olho intervencionado, e n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o no olho esquerdo, e, em especial, ao sucesso da interven\u00e7\u00e3o realizada pelo R\u00e9u BB, que redundou como resulta dos fatos provados numa melhoria significativa da sua acuidade visual, quando comparada com a acuidade visual pr\u00e9via ao tratamento\u201d, expressa na redu\u00e7\u00e3o quase total da miopia e na redu\u00e7\u00e3o do astigmatismo, como acima referido.<\/li><li>Assim, entende-se que estamos perante um caso em que face \u00e0 pondera\u00e7\u00e3o da globalidade das circunst\u00e2ncias do caso do caso dos autos, a compensa\u00e7\u00e3o deve ser exclu\u00edda, pois que o Autor teve uma melhoria significativa da sua acuidade visual, quando comparada com a acuidade visual pr\u00e9via ao tratamento\u201d, expressa na redu\u00e7\u00e3o quase total da miopia e na redu\u00e7\u00e3o do astigmatismo, como acima referido.<\/li><li>Concluindo, na tese de se considerar que houve falta de consentimento informado, imput\u00e1vel ao R\u00e9u BB, ainda assim, deve sere exclu\u00edda a fixa\u00e7\u00e3o de uma indemniza\u00e7\u00e3o a pagar ao Autor; ou caso assim se n\u00e3o entenda deve a mesma ser reduzida, num montante n\u00e3o superior \u20ac 1.000,00.<\/li><li>Assim, no recurso principal deve julgar-se:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">- O pedido da al\u00ednea a) porque, conforme come\u00e7ou por se assinalar, o mesmo respeita \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o por uma incapacidade funcional que n\u00e3o se provou.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Os pedidos das al\u00edneas b) e c) (e n\u00e3o c) e d), como por lapso evidente consta do ac\u00f3rd\u00e3o) improcedem na totalidade em virtude da delimita\u00e7\u00e3o do objecto do recurso \u00e0s consequ\u00eancias da falta de consentimento informado. Essa restri\u00e7\u00e3o determina que o julgamento que aqui cabe n\u00e3o possa ter como fundamento a causa de pedir baseada nos contratos celebrados com os m\u00e9dicos e a sua resolu\u00e7\u00e3o por incumprimento das respetivas obriga\u00e7\u00f5es, mas apenas a indemniza\u00e7\u00e3o dos danos resultantes de um il\u00edcito civil com fundamento no artigo 483.\u00ba do C\u00f3digo Civil, o que remete para os danos que t\u00eam como causa adequada o facto il\u00edcito, n\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o do contrato e do respectivo sinalagma decorrente da respectiva nulidade ou resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o arguidas na ac\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- O pedido da al\u00ednea d) (e n\u00e3o e) como por lapso evidente consta do ac\u00f3rd\u00e3o) de publica\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a num jornal nacional (\u00abdurante 4 Domingos, de forma a evitar que potenciais candidatos a realizar interven\u00e7\u00e3o com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \u201cLasik\u201d possam ser operados sem qualquer informa\u00e7\u00e3o\u00bb, sic) improcede evidentemente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Com efeito, encontramo-nos num dom\u00ednio jusprivatistico em que n\u00e3o existe norma legal que imponha essa publica\u00e7\u00e3o; o direito do autor cinge-se a ser indemnizados dos danos que sofreu, n\u00e3o a infligir aos r\u00e9us o dano reputacional da publica\u00e7\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se reconhece ao autor legitimidade nem interesse para acautelar o perigo para outrem da repeti\u00e7\u00e3o da actua\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us, nem h\u00e1 motivos reais e demonstrados para a temer.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Improcede identicamente o pedido da al\u00ednea e) (e n\u00e3o f) como por lapso evidente consta do ac\u00f3rd\u00e3o), uma vez que como se viu foi o autor com o seu comportamento e decis\u00f5es que impediu que tivessem sido j\u00e1 executadas interven\u00e7\u00f5es destinadas a eliminar as consequ\u00eancias indesejadas da cirurgia.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"35\"><li>Improcedem pois todas a conclus\u00f5es do recurso formuladas pelo Autor Recorrente.<\/li><li>Deve, pois, sem preju\u00edzo do recurso subordinado manter-se a decis\u00e3o recorrida, e a n\u00e3o ser exclu\u00edda a atribui\u00e7\u00e3o ao Autor de uma indemniza\u00e7\u00e3o pela viola\u00e7\u00e3o do direito ao consentimento informado, ou, caso assim se n\u00e3o entenda fixar a indemniza\u00e7\u00e3o em montante inferior a \u20ac 1.000,00, mas dever\u00e1 ser tamb\u00e9m condenado o HPP e a respetiva seguradora, como melhor se alegar\u00e1 no recurso subordinado.<\/li><li>Em sede de recurso subordinado, o R\u00e9u BB (a manter-se a sua condena\u00e7\u00e3o) discorda do segmento decis\u00f3rio que absolveu do pedido de indemniza\u00e7\u00e3o pelos por si praticados \u2013 no que toca \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do direito do Autor ao consentimento informado, quer o R\u00e9u HPP (a sociedade Lus\u00edadas, SA), quer a seguradora desta sociedade.<\/li><li>O que resulta provado nos autos, e que ali\u00e1s nunca foi colocado em causa pelo HPP, \u00e9 o Autor procurou um m\u00e9dico nos HPP, e ter\u00e1 consultado um panfleto informativo nas instala\u00e7\u00f5es do HPP, e foi visto inicialmente por outro m\u00e9dico \u2013 Dr. EE, que o encaminhou para o R\u00e9u BB, que era tamb\u00e9m m\u00e9dico nos HPP, pois que era ele R\u00e9u quem no HPP era respons\u00e1vel por esse tipo de tratamento em 2005, fatos provados 19, 20, 25, 26, 27, 30, 39, 59.<\/li><li>Provou-se que - Em 2004 e 2005, o r\u00e9u BB exercia as fun\u00e7\u00f5es de coordenador do servi\u00e7o de oftalmologia do r\u00e9u \u201cHPP \u2014 Norte, SA\u201d, trabalhando em regime de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os [artigos 8\u00b0 e 61\u00b0 da contesta\u00e7\u00e3o do r\u00e9u BB]. \u2013 fato provado 95;<\/li><li>Resulta ainda provado nos que a ... de Agosto de 2005, o autor envia comunica\u00e7\u00e3o escrita \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do r\u00e9u \u201cHPP \u2014 Norte, SA\u201d, descrevendo a sua vers\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, informando que perdera confian\u00e7a profissional no r\u00e9u BB, e solicitando a devolu\u00e7\u00e3o das quantias que havia pago (\u20ac 2 000,00, acrescida de \u20ac 87,93 despendidos com exames e consultas) [artigos 71\u00b0 e 72\u00b0 da peti\u00e7\u00e3o inicial; artigo 48\u00b0 da contesta\u00e7\u00e3o do r\u00e9u BB] \u2013 fato provado 59.<\/li><li>Dos fatos provados decorre inequivocamente que o Autor n\u00e3o procurou o Dr. BB, mas antes um tratamento no estabelecimento hospitalar HPP no ...\u2013 \u00e0 data designado Hospital da .... .<\/li><li>Quem emitiu as faturas pelos servi\u00e7os prestados ao Autor pelo Dr. BB, -foi o HPP, e foi a esta sociedade que o Autor pagou as faturas, e depois de parte delas foi pelo HPP reembolsado.<\/li><li>O Reu BB, na sua atividade de prestador de servi\u00e7os no estabelecimento hospitalar HPP ..., nos termos do art\u00ba 1154 do C\u00f3digo C\u00edvel, proporcionava aos HPP resultado do seu trabalho (intelectual e manual).<\/li><li>O Autor era cliente dos HPP a quem pagava os servi\u00e7os prestados pelo Autor, que os HPP lhe faturavam, e os tratamentos eram efetuados nas instala\u00e7\u00f5es dos HPP, e as fichas cl\u00ednicas dos tratamentos efetuados ao Autor identificavam os HPP, e n\u00e3o o concreto m\u00e9dico que prestava os servi\u00e7os ou tratamentos; assim,<\/li><li>Resulta inequ\u00edvoco dos autos e do exposto que os HPP encarregaram o R\u00e9u BB de efetuar aos clientes da sua unidade hospitalar os tratamentos m\u00e9dicos de que os clientes necessitassem (nomeadamente o Autor), e sendo certo que o R\u00e9u BB estava no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es ou atribui\u00e7\u00f5es enquanto m\u00e9dico e coordenador dos servi\u00e7os de oftalmologia, do estabelecimento hospitalar quando efetuou os tratamentos ao Autor, ou seja existindo uma conex\u00e3o adequada entre essa comiss\u00e3o \u2013 o executar tratamentos m\u00e9dicos a doentes do hospital por conta dos HPP, e em cumprimento de contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, com esse objeto.<\/li><li>Ora, nos termos do art\u00ba 500 do C\u00f3digo Civil, \u201cAquele que encarrega outrem de qualquer comiss\u00e3o responde, independentemente de culpa, pelos danos que o comiss\u00e1rio causar, desde que sobre este recaia tamb\u00e9m a obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar.\u201d.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">E, sendo certo que no caso a rela\u00e7\u00e3o de comiss\u00e3o no caso existe, por for\u00e7a do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, e o alegado ato il\u00edcito foi praticado no \u00e2mbito e em conex\u00e3o com o objeto desse contrato. Neste sentido os Ac. do STJ de 15-03-2005 (Proc.04\u00aa4808), e de 02-03-2006(CJ\/STJ, 20061\u00ba- 97).<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"47\"><li>Pelo que o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, sem conceder, condenando o R\u00e9u, ao absolver os R\u00e9us HPP e a sua seguradora fez errada interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos e inexata aplica\u00e7\u00e3o da lei.<\/li><li>Assim, caso se entenda existir ato il\u00edcito do R\u00e9u BB e obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar o Autor, ent\u00e3o a condena\u00e7\u00e3o no pagamento da indemniza\u00e7\u00e3o deve ser n\u00e3o s\u00f3 do R\u00e9u BB, mas tamb\u00e9m do R\u00e9u HPP (Lus\u00edadas, SA) e da seguradora desta sociedade (Companhia de Seguros Fidelidade, SA, ex-Companhia de Seguros Mundial Confian\u00e7a).<\/li><li>Em conclus\u00e3o do recurso subordinado, deve absolver-se o Recorrido BB dos pedidos formulados na a\u00e7\u00e3o, ou, caso se mantenha a condena\u00e7\u00e3o ser exclu\u00edda a obriga\u00e7\u00e3o de indemniza\u00e7\u00e3o ao lesado dada a culpa deste, ou a ser condenado s\u00ea-lo em menor montante, n\u00e3o superior a \u20ac 1.000,00, mas tamb\u00e9m, serem condenados os R\u00e9us HPP (atualmente Lus\u00edadas SA), e Companhia de Seguros Mundial Confian\u00e7a (atualmente Companhia de Seguros Fidelidade, SA), pois que o tratamento ao Autor foi ministrado ao Autor na organiza\u00e7\u00e3o HPP, que estipulou e recebeu o pre\u00e7o dos servi\u00e7os prestados, estando o Autor inserido na organiza\u00e7\u00e3o dos HPP, como prestador de servi\u00e7os, e nesse \u00e2mbito contratual, tendo realizado os atos m\u00e9dicos, ou seja como\u00a0 sendo comiss\u00e1rio.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Termos em que deve ser julgado improcedente o recurso principal e procedente o recurso subordinado como \u00e9 de Justi\u00e7a. \u00bb<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"10\"><li><strong>Contra-alegaram ainda<\/strong>:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">10.<u>1 O R. CC<\/u>, pedindo no final a improced\u00eancia do recurso independente (do A.), e ainda revoga\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido no segmento em que o condenou a indemnizar o A. na quantia de \u20ac 3.500,00, a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10.2\u00a0<u>A interveniente (acess\u00f3ria) Axa<strong>\u00a0<\/strong>(atualmente com a designa\u00e7\u00e3o de Ageas Portugal \u2013 Companhia de Seguros, SA<\/u>.), que se limitou a aderir \u00e0s contra-alega\u00e7\u00f5es apresentadas pelo R.. CC dando-as por reproduzidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10.3\u00a0<u>A interveniente (principal) Fidelidade - Companhia de Seguros, SA<\/u>. (antes Companhia de Seguros Fidelidade - Mundial, SA. e antes ainda Companhia de seguros Mundial \u2013 Confian\u00e7a), come\u00e7ando por defender, com os fundamentos ali aduzidos, e aqui dados por reproduzidos, a inadmissibilidade do recurso subordinado (de revista) interposto pelo R. BB, e nomeadamente no que a si concerne e at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3pria R. HPP\/Lus\u00edadas, pugnando depois, e de qualquer modo, sempre pela improced\u00eancia desse recurso, com a manuten\u00e7\u00e3o do julgado nas inst\u00e2ncias que a absolveu do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10.4\u00a0<u>A R\u00e9 HPP (atualmente designada por Lus\u00edadas, SA.):<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">10.4.1\u00a0<u>No que concerne ao recurso independente do A<\/u>., come\u00e7ou por defender, com os fundamentos ali aduzidos, e aqui dados por reproduzidos, a inadmissibilidade desse recurso, pugnando depois, e de qualquer modo, sempre pela improced\u00eancia do mesmo, com a manuten\u00e7\u00e3o do julgado (pelo tribunal recorrido).<\/p><p style=\"text-align: justify\">10.4.2\u00a0<u>No que<\/u>\u00a0<u>concerne ao recurso subordinado (de revista) interposto pelo R. BB, c<\/u>ome\u00e7ou por defender, com os fundamentos ali aduzidos, e aqui dados por reproduzidos, a inadmissibilidade desse recurso, pugnando depois, e de qualquer modo, e na parte em que pede a sua condena\u00e7\u00e3o, sempre pela improced\u00eancia do mesmo, com a manuten\u00e7\u00e3o do julgado (pelo tribunal recorrido) que decidiu absolv\u00ea-la do pedido.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"11\"><li>Cumpre-nos, agora, apreciar e decidir.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>II - Fundamenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><strong>Da admissibilidade dos recursos<\/strong>.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Como ressalta daquilo que se supra deixou exarado (cfr. pontos 10.3 e 10.4.1 e 10.4.2 do Relat\u00f3rio), nas suas respetivas contra-alega\u00e7\u00f5es que apresentaram aos mesmos, a admissibilidade\u00a0<u>do recurso independente<\/u>\u00a0(interposto pelo A.) \u00e9 questionada pela recorrida\u00a0<u>R\u00e9 HPP (atualmente Lus\u00edadas, SA.),<\/u>\u00a0o mesmo acontecendo no que concerne\u00a0<u>ao recurso subordinado<\/u>\u00a0(interposto pelo R. BB), deste feita pela interveniente Fidelidade - Companhia de Seguros, SA., e tamb\u00e9m por aquela mesma R\u00e9.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Recursos esses que foram admitidos, como revista (normal) pelo tribunal\u00a0<em>a quo<\/em>\u00a0(cfr. despacho com refer\u00eancia ...).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m, \u00e9 sabido que a decis\u00e3o que admita um recurso (bem como fixe a sua esp\u00e9cie e determine o seu efeito) n\u00e3o vincula o tribunal superior (cfr. art\u00ba. 641\u00ba, n\u00ba. 5, ex vi art\u00ba. 679\u00ba - vg. no que concerne ao STJ - do CPC,\u00a0<u>diploma este ao qual nos referiremos sempre que doravante mencionemos um normativo sem a indica\u00e7\u00e3o da sua font<\/u>e).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Vejamos ent\u00e3o se,\u00a0<em>in casu<\/em>, est\u00e3o reunidos os pressupostos legais para a admiss\u00e3o de tais recursos como\u00a0<u>revista normal\u00a0<\/u>(centrando-nos sobretudo nos argumentos esgrimidos para o efeito por aquelas \u201cpartes\u201d que que se opuseram \u00e0 sua admissibilidade).<\/p><p style=\"text-align: justify\">1.1\u00a0<u>Quanto ao recurso independente (do A.).<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Tendo em conta o valor da causa (correspondente a\u00a0<u>\u20ac 252 177,90<\/u>\u00a0- cfr. despacho refer\u00eancia \u201cCitius\u201d n\u00ba. ..., datado de 04\/03\/2021), a natureza, o \u00e2mbito e diversidade dos pedidos formulados, e bem como as decis\u00f5es que sobre eles reca\u00edram (quer na 1\u00aa., quer na 2\u00aa. inst\u00e2ncias), \u00e9 claro que esse valor ultrapassa o valor da al\u00e7ada do tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de que ora se recorre (fixada, como se sabe, em \u20ac 30.000,00 \u2013 cfr art\u00ba. 44\u00ba LOSJ, aprovada pela da Lei n\u00ba. 62\/2013, de 26\/08), n\u00e3o se colocando tamb\u00e9m, a nosso ver, d\u00favidas que o grau de sucumb\u00eancia do A.\/recorrente \u00e9-lhe desfavor\u00e1vel em valor superior a metade do valor dessa al\u00e7ada, ou seja, em valor superior a \u20ac 15.000,00, e se d\u00favidas subsistissem a respeito - dada forma como o mesmo formulou tais pedidos -, ent\u00e3o sempre, nos termos do estatu\u00eddo na parte final do n\u00ba. 1 do art\u00ba. 629\u00ba, se deveria, a esse respeito, atender somente ao valor da causa (veja-se que o A.\/recorrente, entende neste seu recurso que n\u00e3o sendo ordenada, em decis\u00e3o, a remessa dos autos \u00e0 1\u00aa. inst\u00e2ncia, para a\u00ed ser fixado, em incidente de liquida\u00e7\u00e3o, tal como havia requerido\/formulado no seu petit\u00f3rio inicial, o valor da indemniza\u00e7\u00e3o a atribuir-lhe pelos alegados danos n\u00e3o patrimoniais, ent\u00e3o defende que a condena\u00e7\u00e3o dos RR. pelo seu ressarcimento deve ser fixada em\u00a0<u>\u20ac 200.000.00<\/u>\u00a0\u2013 cfr. n\u00ba. 62 das conclus\u00f5es das suas alega\u00e7\u00f5es do recurso e o pedido final com que conclui as mesmas).<\/p><p style=\"text-align: justify\">E da\u00ed a conclus\u00e3o de estarem verificados os requisitos gerais (pois que os da legitimidade e da tempestividade n\u00e3o se colocam) previstos no art\u00ba. 629\u00ba, n\u00ba. 1, que permitem ao A. interpor o presente recurso, e desde logo contra os RR.<u>\u00a0BB e CC.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">A quest\u00e3o que se poderia, a nosso ver, suscitar tinha a ver com o saber se in\u00a0<em>casu<\/em>\u00a0estar\u00edamos perante uma situa\u00e7\u00e3o de dupla conforme (a que se alude no n\u00ba. 3 do art\u00ba. 671\u00ba)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como u se sublinhou no\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o desde Supremo Tribunal de 13\/10\/2016 (proc. n\u00ba. 967\/14.1TBACB.C1.S1<\/em><\/strong>, dispon\u00edvel em dgsi.pt) \u201c<em>inexistindo dupla conforme entre uma senten\u00e7a absolut\u00f3ria do pedido e o ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o em que se conclui pela condena\u00e7\u00e3o parcial da r\u00e9 \u2013 dado que os fundamentos de uma e de outra decis\u00e3o n\u00e3o podem ser considerados essencialmente id\u00eanticos \u2013 \u00e9 de concluir pela admiss\u00e3o do recurso da autora<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m no conspecto doutrinal,\u00a0<strong>Rui Pinto<\/strong>\u00a0afastou a exist\u00eancia de dupla conforme obstativa do acesso ao terceiro grau de jurisdi\u00e7\u00e3o no caso - an\u00e1logo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que convoca a nossa an\u00e1lise \u2013 em que a primeira inst\u00e2ncia absolveu os r\u00e9us do pedido e a segunda inst\u00e2ncia concedeu parcial provimento ao recurso apresentado pelo autor. E isto porque \u201co ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o produziu efeitos materiais opostos aos efeitos materiais da decis\u00e3o de 1\u00aa. inst\u00e2ncia; \u00e9 de teor parcialmente oposto (pois a condena\u00e7\u00e3o foi parcial) a esta decis\u00e3o. A primeira decis\u00e3o \u00e9 negativa do pedido do autor; a segunda decis\u00e3o \u00e9 positiva do pedido do autor (\u201c<strong><em>Repensando os requisitos da dupla conforme (artigo 671.\u00ba, n.\u00ba 3, do CPC)\u201d, Julgar online, novembro de 2019, p\u00e1g. 2, acess\u00edvel em\u00a0<\/em><\/strong><a href=\"http:\/\/julgar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/20191118-ARTIGO-JULGAR-Dupla-conforme-Rui-Pinto.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>http:\/\/julgar.pt\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/20191118-ARTIGO-JULGAR-Dupla-conforme-Rui-Pinto.pdf<\/em><\/strong><\/a><strong><em>.)<\/em><\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Uma vez, por\u00e9m, que o recorrente deduz a sua pretens\u00e3o recurs\u00f3ria, de forma indistinta, contra os \u201cr\u00e9us\u201d, h\u00e1 tamb\u00e9m que apreciar a admissibilidade do recurso independente interposto pelo autor contra as r\u00e9s sociedades\u00a0<u>HPP \u2013 NORTE, S.A. e CL\u00cdNICA OFTALMOL\u00d3GICA RIBEIRO-BARRAQUER, S.A.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Relativamente a estas verificou-se<strong>\u00a0<\/strong>uma conformidade decis\u00f3ria entre a senten\u00e7a de primeira inst\u00e2ncia e o ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto: ambas as decis\u00f5es absolveram as recorridas do pedido.\u00a0<u>No entanto, tal absolvi\u00e7\u00e3o fundou-se em fundamenta\u00e7\u00f5es d\u00edspares:<\/u>\u00a0<strong>enquanto a primeira<\/strong>\u00a0inst\u00e2ncia considerou inexistir facto il\u00edcito consubstanciador da obriga\u00e7\u00e3o de indemniza\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito da responsabilidade civil contratual,\u00a0<strong>a segunda inst\u00e2ncia<\/strong>\u00a0entendeu que, estando reunidos os pressupostos da responsabilidade civil relativamente aos r\u00e9us m\u00e9dicos por viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o, a factualidade provada se mostrava insuficiente para responsabilizar civilmente as sociedades comerciais em cujas instala\u00e7\u00f5es decorreram os atos m\u00e9dicos em causa. E isto porque n\u00e3o foi lograda \u201c<em>designadamente a demonstra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o de pluralidade de autores, instigadores ou auxiliares (artigo 490.\u00ba do C\u00f3digo Civil) ou de uma rela\u00e7\u00e3o de comiss\u00e3o entre as sociedades e os m\u00e9dicos (artigo 500.\u00ba do C\u00f3digo Civil).\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">As duas inst\u00e2ncias percorreram, pois, percursos jur\u00eddicos diferentes, em pontos nodais da aprecia\u00e7\u00e3o jur\u00eddica da causa que, salvo melhor opini\u00e3o, fundam uma diverg\u00eancia quanto \u00e0 mat\u00e9ria de direito que, ao contr\u00e1rio do defendido pela recorrida HPP\/Lus\u00edadas S.A. na sua resposta, afasta a limita\u00e7\u00e3o recurs\u00f3ria derivada da dupla conforme, nos termos do preceituado no n\u00ba. 3 do art\u00ba. 671\u00ba.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Por outro lado,<\/u>\u00a0n\u00e3o se descortina que, tal como propugnado pela recorrida Lus\u00edadas S.A., a decis\u00e3o impugnada seja desfavor\u00e1vel ao autor<em>\u00a0\u201cno montante de \u20ac 2.388,93 (de acordo com o que consta das alega\u00e7\u00f5es de recurso), valor inferior a metade da al\u00e7ada do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o, \u20ac 15.000, (\u2026).<\/em>\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">E desde logo,\u00a0<u>pelas raz\u00f5es que supra deix\u00e1mos referenciadas a prop\u00f3sito dos RR. BB e CC.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>E depois ainda, e de qualquer modo, pelo seguinte<\/u>:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como nota\u00a0<strong><em>Abrantes Geraldes<\/em><\/strong>, \u201c<em>A exig\u00eancia complementar relacionada com o valor da sucumb\u00eancia foi introduzida na reforma processual de 1985, com o objetivo de filtrar as quest\u00f5es suscet\u00edveis de serem submetidas \u00e0 reaprecia\u00e7\u00e3o dos Tribunais Superiores.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Frequentemente, em processos cujo objeto \u00e9 integrado por diversos pedidos, a parte decai apenas relativamente a algum ou alguns deles; outras vezes o decaimento cinge-se a uma parcela do pedido \u00fanico ou a um pedido meramente acess\u00f3rio (v.g. juros)\u00a0<\/em>(\u2026).\u00a0<em>Mas a necessidade de concentrar energias naquilo que \u00e9 mais importante, a prem\u00eancia na erradica\u00e7\u00e3o de instrumentos potenciadores da morosidade da resposta judici\u00e1ria ou o interesse em dignificar a atividade dos Tribunais Superiores convergiram no sentido de fazer depender a recorribilidade tamb\u00e9m da propor\u00e7\u00e3o do decaimento, devendo este ser superior a metade da al\u00e7ada do tribunal que proferiu a decis\u00e3o impugnada\u00a0<\/em>(<strong><em>in \u201cRecursos em Processo Civil, 6.\u00aa edi\u00e7\u00e3o atualizada, Coimbra, Almedina, 2020, p\u00e1g. 48\u201d<\/em><\/strong>).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Precisa\u00a0<strong><em>o ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 26\/09\/2007 (proc. n. 06S4612,<\/em><\/strong>\u00a0dispon\u00edvel em dgsi.pt) que \u201cII\u00a0<em>- O valor da sucumb\u00eancia, para efeitos de admissibilidade de recurso, reporta-se ao montante do preju\u00edzo que a decis\u00e3o recorrida importa para o recorrente<u>, o qual \u00e9 aferido em fun\u00e7\u00e3o do teor da alega\u00e7\u00e3o do recurso e da pretens\u00e3o nele formulada, equivalendo, assim, ao valor do recurso, traduzido na utilidade econ\u00f3mica que, atrav\u00e9s dele, se pretende obter<\/u><\/em><u>\u201d<\/u>\u00a0(sublinhado nosso) (<em>cfr. ainda o\u00a0<strong>Ac. do STJ de 13\/07\/2006, proc. n\u00ba. 06S895<\/strong><\/em>,<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>dispon\u00edvel em dgsi.pt).<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Uma palavra lateral para fazer notar que,\u00a0<em>in casu<\/em>, n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel o entendimento vertido na fundamenta\u00e7\u00e3o no\u00a0<strong><em>AUJ n\u00ba. 10\/2015<\/em><\/strong><em>,<\/em>\u00a0de 14\/05 (\u201cDR n\u00ba. 123\/2015, S\u00e9rie I de 2015-06-26, p\u00e1ginas 4483\/4493\u201d) segundo o qual \u201c<em>para efeitos de ulterior interposi\u00e7\u00e3o do recurso de revista, a medida da sucumb\u00eancia corresponde \u00e0 diferen\u00e7a entre os valores arbitrados na senten\u00e7a de primeira inst\u00e2ncia e no ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, tendo em conta que a decis\u00e3o de primeira inst\u00e2ncia se estribou numa absolvi\u00e7\u00e3o integral do pedido (no que concerne \u00e0s aludidas RR.).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Neste conspecto, sendo a sucumb\u00eancia de aferir pela diferen\u00e7a entre o montante do pedido em sede de apela\u00e7\u00e3o e o montante concedido, temos que, na situa\u00e7\u00e3o que convoca a nossa an\u00e1lise, e uma vez que o recorrente reiterou o peticionado\u00a0<em>ab initio<\/em>\u00a0nos autos, o montante do pedido (que foi deduzido de forma il\u00edquida, ou pelo menos numa sua parte) a considerar dever\u00e1 equivaler \u00e0quele que foi fixado (no sobredito despacho) como integrando o valor da causa, em cada um dos segmentos petit\u00f3rios. Assim, o valor do pedido deduzido contra a recorrida HPP \u2013 NORTE, S.A. (agora Lus\u00edadas S.A.) computa-se em \u20ac 250.876,90 (\u20ac1087,93 + \u20ac 229 538,97 + \u20ac 20 000,00 + \u20ac 250,00).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por conseguinte, o valor da sucumb\u00eancia quanto ao peticionado pelo recorrente contra a recorrida HPP \u2013 NORTE, S.A., excede o montante correspondente a metade da al\u00e7ada da Rela\u00e7\u00e3o, considerando que nenhum montante foi concedido (no que concerne \u00e0s r\u00e9s) ao recorrente pelo Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto neste particular.\u00a0<u>De qualquer modo, voltamos a enfatizar<\/u>\u00a0(face ao que acima j\u00e1 deix\u00e1mos expresso), que neste seu recurso de revista, o A.\/recorrente, entende que n\u00e3o sendo ordenada, em decis\u00e3o, a remessa dos autos \u00e0 1\u00aa. inst\u00e2ncia, para a\u00ed ser fixado, em incidente de liquida\u00e7\u00e3o, tal como havia requerido\/formulado no seu petit\u00f3rio inicial, o valor da indemniza\u00e7\u00e3o a atribuir-lhe pelos alegados danos n\u00e3o patrimoniais, ent\u00e3o defende que a condena\u00e7\u00e3o dos RR. (n\u00e3o fazendo destrin\u00e7a entre eles), pelo ressarcimento s\u00f3 desses danos, deve ser fixada em\u00a0<u>\u20ac 200.000.00<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Id\u00eantica conclus\u00e3o vale para o montante da sucumb\u00eancia do autor no que respeita ao pedido dirigido contra a r\u00e9 CL\u00cdNICA OFTALMOL\u00d3GICA RIBEIRO-BARRAQUER, S.A. .<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Tudo para concluir \u2013\u00a0<u>assim se decidindo<\/u>\u00a0- que nenhum obst\u00e1culo (<u>em concomit\u00e2ncia\u00a0<\/u>do que concerne aos\u00a0<u>RR. BB e CC<\/u>)\u00a0<u>se perfila tamb\u00e9m<\/u>\u00a0quanto \u00e0 admiss\u00e3o do recurso (independente) interposto pelo autor contra a r\u00e9s\/recorridas<\/strong>\u00a0HPP \u2013 NORTE, S.A. (agora Lus\u00edadas, SA.) e CL\u00cdNICA OFTALMOL\u00d3GICA RIBEIRO-BARRAQUER, S.A. .<\/p><p style=\"text-align: justify\">1.2\u00a0<u>Quanto ao recurso subordinado (do R. BB).<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Desloquemos, por ora, o foco de an\u00e1lise (sobre a sua admiss\u00e3o ou n\u00e3o) para o\u00a0<strong>recurso subordinado<\/strong>\u00a0apresentado pelo r\u00e9u BB.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Peticiona o mesmo a revoga\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido no segmento em que determinou a sua condena\u00e7\u00e3o no pagamento de uma quantia ao autor (recorrente independente), pugnando, naquilo que para aqui mais releva, no sentido de ser exclu\u00edda a indemniza\u00e7\u00e3o (mesmo para o caso de, sem conceder, entender que houve da sua parte viola\u00e7\u00e3o de dever de informa\u00e7\u00e3o para presta\u00e7\u00e3o de consentimento informado) pela culpa imput\u00e1vel ao pr\u00f3prio lesado e<u>, a t\u00edtulo subsidi\u00e1rio<\/u>, para o caso de se manter a decis\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o, a determina\u00e7\u00e3o de que pelo pagamento dessa compensa\u00e7\u00e3o\u00a0<u>sejam condenados tamb\u00e9m a<\/u>\u00a0r\u00e9 HPP (ora Lus\u00edadas, SA.) e a sua seguradora (a interveniente principal Fidelidade), e por montante menor (\u20ac 1.000,00) daquele que foi fixado no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Retorque a recorrida Fidelidade<\/strong>\u00a0que o recurso subordinado se mostra inadmiss\u00edvel no que respeita \u00e0 pretens\u00e3o subsidi\u00e1ria de condena\u00e7\u00e3o da recorrida, tendo em conta que o recorrente subordinado n\u00e3o se insurgiu (cfr. alega\u00e7\u00e3o \u2013 referende ao recurso de apela\u00e7\u00e3o - refer\u00eancia \u201cCitius\u201d n\u00ba. ..., datada de 08\/02\/2021) contra a absolvi\u00e7\u00e3o das intervenientes ou da recorrida HPP, SA., n\u00e3o tendo, por outro lado, requerido, nos termos do preceituado no art\u00ba. 636.\u00ba do CPC, \u201c<em>a amplia\u00e7\u00e3o do objeto da apela\u00e7\u00e3o no sentido de, na proced\u00eancia desta, ser uma eventual condena\u00e7\u00e3o (como veio a acontecer) extensiva ao R. HPP-NORTE, SA., e \u00e0 sua seguradora, o que consolidou o tr\u00e2nsito em julgado da absolvi\u00e7\u00e3o desta \u00faltima, j\u00e1 que n\u00e3o visada na apela\u00e7\u00e3o do autor<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Cotejando o teor do recurso de apela\u00e7\u00e3o apresentado pelo autor<\/u>, verifica-se que atrav\u00e9s dele o demandante instou o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto a pronunciar-se, para al\u00e9m do mais, quanto \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o por banda do r\u00e9u BB (que praticou os atos m\u00e9dicos nas instala\u00e7\u00f5es da r\u00e9 HPP - Norte, SA.), pedindo que fosse revogada a senten\u00e7a recorrida, substituindo-a por ac\u00f3rd\u00e3o que ordene a\u00a0<u>condena\u00e7\u00e3o s<\/u>o<u>lid\u00e1ria<\/u>\u00a0<u>dos r\u00e9us tal como expresso na peti\u00e7\u00e3o inicial da lide<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Se n\u00e3o suscita particular controv\u00e9rsia a conclus\u00e3o de que o autor dirigiu o seu recurso de apela\u00e7\u00e3o contra a recorrida HPP - Norte, SA., - na medida em que visou, indistintamente, todos os r\u00e9us no seu pedido -, a\u00a0<u>verdade \u00e9 que, como bem nota a interveniente,<\/u>\u00a0a\u00a0<em>sua absolvi\u00e7\u00e3o do pedido (impl\u00edcita, uma vez que n\u00e3o consta do dispositivo da senten\u00e7a de primeira inst\u00e2ncia<\/em>) n\u00e3o foi, de modo algum, contestada em sede de segunda inst\u00e2ncia, tendo-se cristalizado.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Tanto vale por dizer que\u00a0<u>se formou caso julgado<\/u>\u00a0obstativo da aprecia\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito do recurso de\u00a0<u>revista subordinado<\/u>\u00a0<u>quanto \u00e0 interveniente Fidelidade (mas j\u00e1 n\u00e3o quanto HPP - Norte, SA.)<\/u>.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Acrescenta a Fidelidade<\/u>\u00a0que o recurso em an\u00e1lise n\u00e3o se mostra admiss\u00edvel, nos termos do disposto no n\u00ba. 3 do art\u00ba. 671.\u00ba do CPC, em virtude da exist\u00eancia de dupla conformidade decis\u00f3ria, considerando que a decis\u00e3o recorrida confirmou a decis\u00e3o da 1\u00aa. inst\u00e2ncia, absolvendo a recorrida HPP - Norte, SA., do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De acordo com o<strong>\u00a0AUJ n.\u00ba 1\/2020,\u00a0<\/strong>de 27\/11\/2019<strong>\u00a0<\/strong>(publicado no DR, I S\u00c9RIE, de 2020-01-30) \u201c<em>o recurso subordinado de revista est\u00e1 sujeito ao n.\u00ba 3 do art. 671.\u00ba do CPC, a isso n\u00e3o obstando o n.\u00ba 5 do art.\u00ba 633.\u00ba do mesmo C\u00f3digo.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m,\u00a0<em>in casu<\/em>, pelas raz\u00f5es que supra se particularizaram, n\u00e3o obstante se ter verificado coincid\u00eancia decis\u00f3ria nas duas inst\u00e2ncias quanto \u00e0 absolvi\u00e7\u00e3o do pedido relativamente \u00e0 demandada HPP - Norte, SA., a\u00a0<u>verdade \u00e9 que tais decis\u00f5es mobilizaram fundamenta\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas essencialmente distintas para o efeito \u2013 o que permite afastar, por n\u00e3o poder considerar-se a exist\u00eancia de dupla conforme, o obst\u00e1culo \u00e0 admissibilidade do recurso em apre\u00e7o.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Aduz, por fim, a recorrida Fidelidade que o recurso subordinado apresentado contra a recorrida HPP - Norte, SA n\u00e3o se mostra admiss\u00edvel, uma vez que o que o recorrente subordinado pretende \u00e9, n\u00e3o apenas que se reaprecie a decis\u00e3o na parte em que ficou parcialmente vencido, mas estender a condena\u00e7\u00e3o j\u00e1 proferida a um terceiro, pretens\u00e3o que deveria ser objeto de um recurso independente, e n\u00e3o subordinado, dado n\u00e3o estar dependente da sorte da revista do autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tal argumenta\u00e7\u00e3o convoca a reflex\u00e3o sobre a natureza do recurso subordinado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como se sublinhou no\u00a0<strong>ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 26\/01\/2017<\/strong>\u00a0(<strong><em>proc. n\u00ba. 308\/13.5TTVLG.P1.S1<\/em><\/strong>, dispon\u00edvel em dgs.pt ), \u201c<em>(\u2026) II. Numa \u00e1rea onde prevalece o princ\u00edpio do dispositivo e em que, por isso, cada uma das partes deve zelar pela tutela dos seus interesses, a lei faculta a cada uma das partes que seja vencida a op\u00e7\u00e3o entre um recurso independente ou um recurso subordinado \u2013 cf. art. 633\u00ba, n\u00ba 1, do CPC. III. O recurso independente assume total autonomia quer ao n\u00edvel da admiss\u00e3o, quer da subsequente tramita\u00e7\u00e3o, ao passo que o recurso subordinado fica na depend\u00eancia do recurso principal, sendo a aprecia\u00e7\u00e3o do respectivo m\u00e9rito prejudicada se por algum motivo n\u00e3o for apreciado o m\u00e9rito do recurso principal. Ou seja, nos termos do n\u00ba. 3 do art. 633\u00ba, do CPC, o recurso subordinado caduca se houver desist\u00eancia do recurso principal, se este ficar sem efeito ou se, por raz\u00f5es de forma, o Tribunal n\u00e3o tomar dele conhecimento. (\u2026). V. A posi\u00e7\u00e3o da parte que recorre subordinadamente n\u00e3o \u00e9 equivalente \u00e0 que \u00e9 proporcionada pelo recurso independente, ficando a aprecia\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito do recurso subordinado dependente das vicissitudes formais do recurso independente interposto pela R\u00e9.\u00a0<u>Mas, exclu\u00edda essa condicionante, a admiss\u00e3o do recurso subordinado permite \u00e0 parte confrontar o Tribunal ad quem com a impugna\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o recorrida, na parte em que a mesma lhe foi desfavor\u00e1vel, possibilitando a altera\u00e7\u00e3o do resultado.<\/u>\u00a0(\u2026). VII.\u00a0<u>Interposto recurso subordinado, pode a parte que o deduziu integrar no mesmo as quest\u00f5es em que tenha ficado vencida, sejam quest\u00f5es de direito ou tamb\u00e9m quest\u00f5es de facto<\/u><\/em>.\u201d<em>\u00a0<\/em>(sublinhado nosso).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como faz notar o aresto<em>,<\/em>\u00a0\u201c<em>o pressuposto do recurso subordinado \u00e9 que haja decaimento na decis\u00e3o proferida para ambas as partes, sendo que uma delas pode fazer depender a sua reac\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o assumida pela parte contr\u00e1ria: n\u00e3o recorrer se a contraparte tamb\u00e9m assim proceder, mas j\u00e1 no caso de que esta interponha recurso, a outra parte pode n\u00e3o prescindir tamb\u00e9m de impugnar a parte que lhe \u00e9 desfavor\u00e1vel. \u00c9 esta a ratio do recurso subordinado.<\/em>\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ali\u00e1s, ainda de acordo com o\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o deste mesmo Supremo Tribunal de 19\/10\/2016<\/em><\/strong><em>\u00a0(<strong>proc. n\u00ba. 3\/13.5TBVR..G1-A.S1<\/strong>,\u00a0<\/em>dispon\u00edvel em dgsi.pt),<em>\u00a0<\/em>\u201c<em>Esta denunciada caracteriza\u00e7\u00e3o do recurso designado de subordinado tem apenas a justificar a sua subsist\u00eancia duas circunst\u00e2ncias, quais sejam, a de que o recorrente principal n\u00e3o desista do recurso ou que, efectivamente, se n\u00e3o mostrem raz\u00f5es capazes de justificar que dele se n\u00e3o conhe\u00e7a. Quer isto dizer que ambos os recursos mant\u00eam plena e acabada autonomia no que aos seus fundamentos e objectivos diz respeito, designadamente no que toca aos especificados aspectos em que cada uma das partes recorrentes ficou vencida<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como explica\u00a0<strong><em>Abrantes Geraldes\u00a0<\/em><\/strong>(in \u201c<strong><em>Ob. cit., p\u00e1g. 124\u201d<\/em><\/strong>), \u201ca situa\u00e7\u00e3o do recorrente subordinado \u00e9 inst\u00e1vel, uma vez que a sua aprecia\u00e7\u00e3o fica dependente das vicissitudes por que venha a passar o recurso principal (art. 633.\u00ba\/3 do C\u00f3digo de Processo Civil), caducando se este ficar sem efeito (por verifica\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de deser\u00e7\u00e3o ou de inutilidade superveniente) ou se se verificar qualquer outra situa\u00e7\u00e3o obstativa do m\u00e9rito do mesmo (a t\u00edtulo de exemplo, extemporaneidade, irrecorribilidade, dupla conforme, ilegitimidade ou verifica\u00e7\u00e3o de uma situa\u00e7\u00e3o de aceita\u00e7\u00e3o expressa ou t\u00e1cita da decis\u00e3o.. No entanto, \u201cultrapassados os requisitos de ordem formal relacionados com a admissibilidade ou com a tramita\u00e7\u00e3o do recurso, o tribunal\u00a0<em>ad quem\u00a0<\/em>confrontar-se-\u00e1, no momento da decis\u00e3o, com ambas as pretens\u00f5es recurs\u00f3rias, sem que o resultado decretado a uma influa necessariamente no sucesso da outra.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>No caso que suscita a nossa an\u00e1lise, afigura-se-nos cristalino<\/strong>\u00a0que o r\u00e9u BB ficou vencido na parte em que a decis\u00e3o recorrida decidiu absolver do pedido a recorrida HPP - Norte, SA., considerando ser da sua responsabilidade exclusiva o pagamento da indemniza\u00e7\u00e3o arbitrada. Encontra-se, pois, assegurada legitimidade deste r\u00e9u para recorrer subordinadamente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tendo em conta a autonomia que se verifica, no que aos seus fundamentos e objetivos, entre os recursos independente e subordinado, n\u00e3o h\u00e1, salvo o devido respeito por outra opini\u00e3o, que restringir, ao arrepio da lei, o objeto do recurso subordinado \u00e0s quest\u00f5es diretamente suscitadas pelo recorrente independente. Tanto que, como observa\u00a0<strong><em>Abrantes Geraldes<\/em><\/strong>\u00a0(in \u201c<strong><em>Ob. cit., p\u00e1g. 125<\/em><\/strong>\u201d) \u201co facto de o recurso principal se dirigir apenas ao modo como foi conhecido um dos diversos pedidos formulados, n\u00e3o afasta a possibilidade de a contraparte recorrer subordinadamente da decis\u00e3o relativa aos demais.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Numa outra formula\u00e7\u00e3o: n\u00e3o constitui causa para o n\u00e3o conhecimento do m\u00e9rito do recurso a circunst\u00e2ncia de o recorrente subordinado pretender discutir outra mat\u00e9ria \u2013 sobre a qual tamb\u00e9m foi proferida decis\u00e3o que lhe foi desfavor\u00e1vel e at\u00e9 se integra no \u00e2mbito do recurso independente \u2013 para al\u00e9m da que contende com a sua condena\u00e7\u00e3o no pagamento de danos n\u00e3o patrimoniais ao autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Uma derradeira palavra para referir que a dedu\u00e7\u00e3o de pedido subsidi\u00e1rio \u2013 cuja aprecia\u00e7\u00e3o, por manifesta\u00e7\u00e3o de vontade do recorrente, fica dependente do resultado do recurso interposto a t\u00edtulo principal - no \u00e2mbito do recurso subordinado encontra arrimo no princ\u00edpio do dispositivo que domina em mat\u00e9ria de recursos (e que, a t\u00edtulo de exemplo, conhece uma manifesta\u00e7\u00e3o no art\u00ba. 636\u00ba n\u00bas. 1 e 2 do CPC, admitindo ao recorrido ampliar o objeto do recurso interposto pelo recorrente, ainda que subsidiariamente).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Diga-se, por \u00faltimo, que,\u00a0<em>mutatis mutandis<\/em>, \u2013 e dado que os argumentos aduzidos para o efeito s\u00e3o, na sua ess\u00eancia, verossimilhantes -, se concluir\u00e1 do mesmo modo no que concerne ao pedido formulado pela R. HPP (atualmente Lus\u00edadas, SA.) no sentido de n\u00e3o ser admitido o sobredito recurso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Perante o que se deixou exposto, e rematando\u00a0<u>\u2013 assim decidindo<\/u>\u00a0-, admitindo-se, como se admitiu,\u00a0<strong><u>o recurso independente, \u00e9 de admitir, tamb\u00e9m, o recurso subordinado apresentado pelo R. BB contra o autor e contra a r\u00e9 HPP (agora Lus\u00edadas, SA.)<\/u>\u00a0-<\/strong>\u00a0ainda que se considere que o decaimento desse recorrente seja inferior a metade da al\u00e7ada do tribunal da Rela\u00e7\u00e3o (cfr. art\u00ba. 633\u00ba n\u00ba. 5 do CPC) -,\u00a0<strong><u>excluindo-se<\/u><\/strong><u>,\u00a0<\/u>contudo, dele, ou seja, a sua admiss\u00e3o contra a interveniente principal\u00a0<strong><u>Companhia de Seguros Fidelidade, SA<\/u><\/strong><u>. (antes<\/u>\u00a0<u>Companhia de Seguros Mundial Confian\u00e7a).<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"2\"><li>2<strong>. Do objeto dos recursos<\/strong>(independente e subordinado).<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">2.1 Como \u00e9 sabido, e constitui hoje entendimento pac\u00edfico, \u00e9 pelas conclus\u00f5es das alega\u00e7\u00f5es dos recorrentes que se afere, fixa e delimita o objeto dos recursos, n\u00e3o podendo o tribunal de recurso conhecer de mat\u00e9rias ou quest\u00f5es nelas n\u00e3o inclu\u00eddas, a n\u00e3o ser que sejam de conhecimento oficioso (cfr. art\u00bas. 635\u00ba, n\u00ba. 4, 639\u00ba, n\u00ba. 1, e 608\u00ba, n\u00ba. 2, e 679\u00ba do CPC).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por fim, vem, tamb\u00e9m, sendo dominantemente entendido que o voc\u00e1bulo \u201cquest\u00f5es\u201d a que se reporta o citado art\u00ba. 608\u00ba, e de que o tribunal deve conhecer, n\u00e3o abrange os argumentos, motivos ou raz\u00f5es jur\u00eddicas invocadas pelas partes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Importa, desde j\u00e1 deixar referido, que o A. enquanto na a\u00e7\u00e3o fundou as suas pretens\u00f5es petit\u00f3rios, para as quais veio requerer tutela judicial, em duas causas de pedir, consubstanciadas, por um lado, num alegado erro m\u00e9dico (por viola\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>legis artis<\/em>, por parte de cada um dos r\u00e9us BB e CC) e, por outro, na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o por parte daqueles para obten\u00e7\u00e3o do seu consentimento relativamente \u00e0s interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas a que se submeteu, ou seja, fundou tamb\u00e9m tais pedidos na falta de consentimento informado da sua parte para esse efeito.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Por\u00e9m, no seu recurso de apela\u00e7\u00e3o para Rela\u00e7\u00e3o, e \u00e0 semelhan\u00e7a do que faz no presente recurso de revista, o autor restringiu expressamente o objeto e \u00e2mbito do seu recurso \u00e0quela segunda causa de pedir: inexist\u00eancia de consentimento informado.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">E \u00e9 nessa medida, e \u00e0 luz do estatu\u00eddo a esse respeito pelo art\u00ba. 635\u00ba, n\u00bas. 4 e 5, do CPC, que ser\u00e1 definido objeto do recurso independente (e j\u00e1 agora tamb\u00e9m o do recurso subordinado do R. BB por virtude da referida restri\u00e7\u00e3o do objeto daquele), sendo o conhecimento das respetivas quest\u00f5es feito t\u00e3o somente com base daquela 2\u00aa. causa de pedir.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2.2 Ora, calcorreando as conclus\u00f5es das alega\u00e7\u00f5es dos sobreditos recursos (independente \u2013 do A. - e subordinado - dos R.\u00a0 BB), e respetivas contra-alega\u00e7\u00f5es, verifica-se que as quest\u00f5es que se nos imp\u00f5e aqui apreciar e decidir s\u00e3o as seguintes:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>a) Do \u00f3nus deprova da presta\u00e7\u00e3o do consentimento informado\/Do \u00f3nus da prova da exce\u00e7\u00e3o de comportamento alternativo l\u00edcito (<u>recurso subordinado<\/u>);<\/li><li>b) Da exclus\u00e3o da compensa\u00e7\u00e3o\/indemniza\u00e7\u00e3o por culpa do lesado (<u>recurso subordinado)<\/u>;<\/li><li>c) Da condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de todas as despesas a suportar com tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos que futuramente possam vir a ser executados (<u>recurso independente<\/u>);<\/li><li>d) Do\u00a0<em>quantum<\/em>indemnizat\u00f3rio pelos danos n\u00e3o patrimoniais (<u>recurso independente e recurso subordinado<\/u>);<\/li><li>e) Da condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us na devolu\u00e7\u00e3o das quantias pagas (<u>recurso independente<\/u>)<\/li><li>f)\u00a0Da responsabilidade da r\u00e9 HPP\/Lus\u00edadas SA. (<u>recurso subordinado<\/u>).<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><strong>***<\/strong><\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\"><li><strong>Dos Factos.<\/strong><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><strong>Pelo tribunal\u00a0<em>a quo\u00a0<\/em>(TRP)<\/strong><em>\u00a0<\/em><strong>foram dados como provados os seguintes factos<\/strong>\u00a0(<u>mantendo-se os termos da sua descri\u00e7\u00e3o, a ortografia, a ordem, a que constam do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido):<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - A miopia \u00e9 o nome comum dado ao erro de refrac\u00e7\u00e3o da luz no olho, acarretando a focagem da imagem antes de atingir a retina.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - Um m\u00edope consegue ver os objectos pr\u00f3ximos com nitidez, mas os distantes s\u00e3o visualizados como se estivessem emba\u00e7ados (desfocados).<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - O \"Lasik\" (acr\u00f3nimo da express\u00e3o Laser-Assisted in Sito Keratomileusis) \u00e9 um tipo de cirurgia laser refractiva realizada por oftalmologistas para correc\u00e7\u00e3o de patologias da vis\u00e3o, designadamente a miopia, o astigmatismo e a hipermetropia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 - No pr\u00e9-operat\u00f3rio \u00e9 essencial a realiza\u00e7\u00e3o de exames espec\u00edficos, nomeadamente os seguintes: a. topografia corneana; b. pupilometria; c. paquimetria; e d. tonometria .<\/p><p style=\"text-align: justify\">5 - A opera\u00e7\u00e3o \u00e9 efectuada pela cria\u00e7\u00e3o de um \"flap\" (lamela; disco superficial) no olho, de forma a permitir a modela\u00e7\u00e3o dos tecidos corneais atrav\u00e9s de um laser de baixa pot\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6 - Usando a informa\u00e7\u00e3o recolhida no pr\u00e9-operat\u00f3rio, o computador calcula a quantidade e a localiza\u00e7\u00e3o do tecido corneal a ser removido durante a opera\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7 - Durante a opera\u00e7\u00e3o o paciente est\u00e1 acordado, sendo-lhe colocadas nos olhos gotas anest\u00e9sicas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8 - Ent\u00e3o, \u00e9 aplicado no olho um anel de suc\u00e7\u00e3o da c\u00f3rnea, que tem por finalidade imobiliza o olho e permitir a cria\u00e7\u00e3o do \"flap\" atrav\u00e9s de um microquer\u00e1tomo mec\u00e2nico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9 - O \"flap\" fica preso \u00e0 c\u00f3rnea por uma das suas extremidades e \u00e9 dela separado, deixando vis\u00edvel e acess\u00edvel o estroma, ou seja, a sec\u00e7\u00e3o interna da c\u00f3rnea.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10 - Depois, utilizando um laser ex\u00edmero (193nm), \u00e9 remodelado o estroma corneal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">11 - O laser vaporiza o tecido de forma controlada, atrav\u00e9s da quebra das liga\u00e7\u00f5es intramoleculares, sem afectar significativamente o estroma adjacente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">12 - O tecido vaporizado \u00e9 \u00ednfimo, reduzido a m\u00edcrons de espessura.<\/p><p style=\"text-align: justify\">13 - Ap\u00f3s a separa\u00e7\u00e3o do \"flap\" e durante a aplica\u00e7\u00e3o do laser, a vis\u00e3o do paciente permanece enevoada, podendo apenas ver a luz do laser.<\/p><p style=\"text-align: justify\">14 - Depois da remodela\u00e7\u00e3o do estroma da c\u00f3rnea, o \"flap\" \u00e9 recolocado sobre a zona tratada, onde permanecer\u00e1 por ades\u00e3o natural at\u00e9 a cicatriza\u00e7\u00e3o estar completa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">15 - Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o, o paciente deve colocar no olho tratado gota antibi\u00f3ticas e antiinflamat\u00f3rias,<\/p><p style=\"text-align: justify\">por um per\u00edodo nunca inferior a 3 semanas, mas que poder\u00e1 variar de acordo com as instru\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">16 - \u00c9 recomendado ao paciente o uso de \u00f3culos de sol e o evitar de luzes fortes, e s\u00e3o-lhe fornecidas umas palas cr\u00edticas, para serem usadas durante o sono, de forma a evitar a afecta\u00e7\u00e3o da zona tratada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">17 - O autor nasceu a ...\/...\/1973 \u2026<\/p><p style=\"text-align: justify\">18 - ... E \u00e9 ..., estando h\u00e1 v\u00e1rios anos inscrito no Conselho ....<\/p><p style=\"text-align: justify\">19 - O r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", dedica-se \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o de sa\u00fade, nomeadamente atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o, no ..., do estabelecimento hospitalar denominado \" Hospital da ...\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">20 - O r\u00e9u BB \u00e9 m\u00e9dico, especialista em oftalmologia, e, em 2005, prestava colabora\u00e7\u00e3o ao r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">21- A r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", dedica-se \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de sa\u00fade na \u00e1rea da oftalmologia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">22 - O r\u00e9u CC \u00e9 m\u00e9dico, especialista em oftalmologia, e, em 2005 e 2006, colaborava com a r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", com o esclarecimento que sempre foi o Director Cl\u00ednico daquela.<\/p><p style=\"text-align: justify\">23 - Na inf\u00e2ncia ao autor foi diagnosticada miopia, pelo que teve necessidade de usar \u00f3culos de forma permanente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">24 - Com o avan\u00e7ar da idade a miopia do autor aumentou de forma acentuada, associada ao pr\u00f3prio crescimento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">25 - Em Novembro de 2004, em consulta oftalmol\u00f3gica de rotina agendada no \"Hospital dos Cl\u00e9rigos\", ent\u00e3o perten\u00e7a do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor registava 9,00 dioptrias (unidade de medida da pot\u00eancia de uma lente correctiva) no olho direito, e 8,50 dioptrias no olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">26 - Durante a espera para uma das diversas consultas que teve no estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor teve acesso a uma brochura sobre a correc\u00e7\u00e3o da miopia atrav\u00e9s de laser (\"Lasik\").<\/p><p style=\"text-align: justify\">27 - Ap\u00f3s analisar o folheto referido em 26-, o autor entendeu que o \"Lasik\" seria a solu\u00e7\u00e3o para um dos seus maiores inc\u00f3modos di\u00e1rios, o uso de \u00f3culos ou lentes de contacto, nada constando do folheto sobre qualquer efeito secund\u00e1rio ou complica\u00e7\u00f5es.<\/p><p style=\"text-align: justify\">28 - Em Outubro de 2006 o r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", distribuiu \u201cnewsletter\u201d que inclu\u00eda artigo intitulado \"Laser de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o no Hospital Privado \u2026\", no qual consta: \u00abEsta cirurgia tem como objectivo a correc\u00e7\u00e3o de defeitos refractivos como a miopia, a hipermetropia e o astigmatismo, permitindo aos doentes uma vis\u00e3o de qualidade, sem a depend\u00eancia dos \u00f3culos ou das lentes de contacto\u00bb. E \u00abembora existam outras t\u00e9cnicas cir\u00fargicas para correc\u00e7\u00e3o de defeitos refractivos, tamb\u00e9m utilizadas no Hospital, a t\u00e9cnica \"Lasik\" \u00e9 a preferida na maior parte dos casos pelas vantagens que apresenta; os tratamentos s\u00e3o efectuados em ambulat\u00f3rio e com anestesia local, o procedimento \u00e9 praticamente indolor, existe a possibilidade de tratamento bilateral simult\u00e2neo (os 2 olhos na mesma sess\u00e3o), e h\u00e1 uma recupera\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida da vis\u00e3o, permitindo que no dia seguinte o doente tenha, de um modo geral, uma acuidade que lhe permite restabelecer a sua vida normal\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">29 - No documento referido em 28- nada \u00e9 referido a prop\u00f3sito de complica\u00e7\u00f5es ou efeitos secund\u00e1rios, nem se incentiva \u00e0 recolha de informa\u00e7\u00e3o detalhada com o m\u00e9dico oftalmologista.<\/p><p style=\"text-align: justify\">30 - Numa consulta que teve no estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor abordou a m\u00e9dica EE a prop\u00f3sito do tratamento com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik, que transmitiu ao autor que o m\u00e9dico no estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", respons\u00e1vel por esse tipo de tratamento era o r\u00e9u BB, com quem deveria agendar consulta.<\/p><p style=\"text-align: justify\">31- Na sequ\u00eancia, o autor agendou para ... de Dezembro de 2004, no \"Hospital Privado ...\", consulta com o r\u00e9u BB, com vista a aferir da possibilidade de corrigir cirurgicamente a miopia, tendo o autor em vista abandonar em absoluto o uso de \u00f3culos ou lentes de contacto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">32 - Na consulta referida em 31- o r\u00e9u BB transmitiu que teria de efectuar exames por forma a definir se era ou n\u00e3o bom candidato para ser submetido a tratamento com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">33 - Na sequ\u00eancia, o r\u00e9u BB teve a oportunidade de realizar todos os exames que entendeu necess\u00e1rios \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do autor (designadamente a topografia corneana, paquimetria, pupilometria, tonometria, a avalia\u00e7\u00e3o da acuidade visual e determina\u00e7\u00e3o da refrac\u00e7\u00e3o do doente, mas n\u00e3o a aberrometria e a avalia\u00e7\u00e3o lacrimal), por forma a decidir da conveni\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia refractiva.<\/p><p style=\"text-align: justify\">34 - O autor questionou o r\u00e9u BB quanto \u00e0 possibilidade de realizar a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica de forma unilateral (um olho de cada vez), por forma a permitir-lhe n\u00e3o interromper totalmente a sua actividade profissional, ao que aquele r\u00e9u declarou n\u00e3o existir qualquer obst\u00e1culo e que executaria a interven\u00e7\u00e3o unilateralmente, apesar de ser adepto da cirurgia bilateral simult\u00e2nea.<\/p><p style=\"text-align: justify\">35 - Na sequ\u00eancia, o r\u00e9u BB transmitiu ao autor alguns cuidados pr\u00e9-operat\u00f3rios que deveria observar (designadamente n\u00e3o utilizar lentes de contacto nos 8 dias anteriores \u00e0s interven\u00e7\u00f5es), e que a recupera\u00e7\u00e3o seria quase imediata, sem dores.<\/p><p style=\"text-align: justify\">36 - Quanto \u00e0s poss\u00edveis complica\u00e7\u00f5es resultantes da interven\u00e7\u00e3o, o r\u00e9u BB transmitiu ao autor, pelo menos, a eventualidade de ser necess\u00e1rio levar a cabo um \"retoque\", ou seja, em fase posterior novamente utilizar o laser para correc\u00e7\u00e3o de algo que n\u00e3o ficasse perfeito na primeira interven\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">37 - O r\u00e9u BB transmitiu ainda ao autor que, surgindo a necessidade de levar a cabo um \"retoque\", este apenas poderia ser realizado cerca de 3 meses ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, de forma a permitir a estabiliza\u00e7\u00e3o do olho e a conhecer- se a extens\u00e3o da correc\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">38 - O BB n\u00e3o transmitiu ao autor qualquer informa\u00e7\u00e3o quanto a t\u00e9cnicas de tratamento alternativas ao \"Lasik\", designadamente o \"Lasik personalizado\" ou a implanta\u00e7\u00e3o de lente intra-ocular.<\/p><p style=\"text-align: justify\">39 - O autor confiou integralmente e sem reservas na capacidade profissional do r\u00e9u BB (especialista em oftalmologia), e no prest\u00edgio do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", como institui\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia na presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">40 - Posteriormente, o autor foi telefonicamente informado, por uma funcion\u00e1ria administrativa do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", sob instru\u00e7\u00f5es do r\u00e9u BB, que reunia as condi\u00e7\u00f5es para a ser submetido a interven\u00e7\u00e3o com utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica \"Lasik\", e que, quando entendesse, poderia proceder ao respectivo agendamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">41 - Na sequ\u00eancia, ainda por via telef\u00f3nica, em Abril de 2005 o autor agendou a interven\u00e7\u00e3o para os dias 23 (olho direito) e 30 (olho esquerdo) de Maio de 2005.<\/p><p style=\"text-align: justify\">42 - A ... de Maio de 2005, chegado ao estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor efectuou o pagamento da quantia de \u20ac2.000,00 como pre\u00e7o pelo tratamento a que ia ser submetido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">43 - Todos os contactos do autor com vista \u00e0 presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os referidos em 32- a 34- tiveram lugar directamente com o r\u00e9u BB, nunca tendo o autor contactado com qualquer respons\u00e1vel social do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">44 - A ... de Maio de 2005, no estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor foi submetido a interven\u00e7\u00e3o ao olho direito com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\", realizada pelo r\u00e9u BB.<\/p><p style=\"text-align: justify\">45 - Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o, pelo r\u00e9u BB foi transmitido ao autor que tudo correra normalmente, e que se deveria deslocar ao hospital, no dia seguinte, para ser acompanhada a evolu\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">46 - A ... de Maio de 2005, o autor novamente deslocou-se ao estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", tendo sido observado pelo r\u00e9u BB, que lhe transmitiu que tudo estava a correr com normalidade, devendo regressar no dia 27 de Maio de 2005 para realiza\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">47 - A ... de Maio de 2005, regressado ao estabelecimento hospitalar explorado pelo r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", o autor queixou-se ao r\u00e9u BB que a sua vis\u00e3o no olho j\u00e1 intervencionado (o direito) apresentava-se ainda bastante enevoada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">48 - Na sequ\u00eancia, ap\u00f3s examinar o olho direito do autor, o r\u00e9u BB verificou existirem pregas no \"flap\" (como se disse em 9-, a parte de tecido da c\u00f3rnea que \u00e9 cortada e levantada para aplica\u00e7\u00e3o do laser).<\/p><p style=\"text-align: justify\">49 - O r\u00e9u BB transmitiu ao autor que as pregas referidas em 48- n\u00e3o possu\u00edam relev\u00e2ncia, e prop\u00f4s realizar, como agendado, pelo menos, a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo \u2026<\/p><p style=\"text-align: justify\">50 -... Ao que o autor se op\u00f4s \u2026<\/p><p style=\"text-align: justify\">51 -... Transmitindo ao r\u00e9u BB que n\u00e3o permitiria a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo enquanto a vis\u00e3o do olho direito n\u00e3o se apresentasse perfeita.<\/p><p style=\"text-align: justify\">52 - O r\u00e9u BB aceitou a posi\u00e7\u00e3o do autor, agendando o dia 06 de Junho de 2005 para nova observa\u00e7\u00e3o ao autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">53 - A ... de Junho de 2005, o autor queixou-se ao r\u00e9u BB que continuava a apresentar a vis\u00e3o enevoada no olho direito, e sentia que piorara a sua vis\u00e3o nesse olho.<\/p><p style=\"text-align: justify\">54 - Na consulta referida em 53- o r\u00e9u BB agendou para da\u00ed a pelo menos semanas nova data para observar o autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">55 - No dia ... de Junho de 2005 o autor saiu bastante perturbado das instala\u00e7\u00f5es do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", preocupado com a situa\u00e7\u00e3o do seu olho direito, apresentando diferen\u00e7a da acuidade visual entre os olhos de tal forma elevada que prejudicava a sua vis\u00e3o bilateral \u2026<\/p><p style=\"text-align: justify\">56 -... O que causou perturba\u00e7\u00e3o do descanso e da vida profissional e pessoal do autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">57 - J\u00e1 em Julho de 2005, atrav\u00e9s de diversos telefaxes, o autor solicitou ao r\u00e9u esclarecimentos escritos sobre a situa\u00e7\u00e3o, nomeadamente se iria recuperar a integral vis\u00e3o do olho direito, quais as raz\u00f5es para a vis\u00e3o enevoada do olho tratado, e sobre os procedimentos que iriam ser seguidos, ao que aquele r\u00e9u jamais respondeu por escrito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">58 - Ap\u00f3s o referido em 55- a 57-, o autor consultou outros oftalmologistas para aferir da sua situa\u00e7\u00e3o, constatando que continuava a apresentar cerca de 2,00 dioptrias e pregas no retalho corneano do olho tratado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">59 - A ... de Agosto de 2005, o autor envia comunica\u00e7\u00e3o escrita \u00e0 administra\u00e7\u00e3o do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", descrevendo a sua vers\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, informando que perdera confian\u00e7a profissional no r\u00e9u BB, e solicitando a devolu\u00e7\u00e3o das quantias que havia pago (\u20ac 2 000,00, acrescida de \u20ac 87,93 despendidos com exames e consultas).<\/p><p style=\"text-align: justify\">60 - Em resposta \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o referida em 59-, o r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", tamb\u00e9m por escrito remetido ao autor, datado de ... de Setembro de 2005, refutou as imputa\u00e7\u00f5es feitas pelo autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">61 - O r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", acabou por restituir ao autor a quantia de \u20ac 1 000,00 referente apenas \u00e0 interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o realizada ao olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">62 - Em Julho de 2005 o autor agendou consulta nas instala\u00e7\u00f5es da r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", na altura situadas na rua Gon\u00e7alo Sampaio, n\u00ba 271, visando informar-se sobre o actual estado cl\u00ednico do seu olho direito e sobre as possibilidades de eventual correc\u00e7\u00e3o dos problemas que apresentava, com vista a alcan\u00e7ar a aptid\u00e3o da sua vis\u00e3o sem recurso a \u00f3culos ou lentes de contacto ...<\/p><p style=\"text-align: justify\">63 -... Sendo a ... de Julho de 2005 atendido pelo r\u00e9u CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">64 - Antes do referido em 62- e 63- o autor jamais tinha tido contacto com os r\u00e9us \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA\", e CC, que at\u00e9 ent\u00e3o esconheciam o historial cl\u00ednico do autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">65 - Na consulta referida em 62- e 63- o autor descreveu ao r\u00e9u CC a sua vers\u00e3o quanto ao tratamento a que havia sido submetido pelo r\u00e9u BB, e expressou as queixas quanto ao que sentia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">66 - O r\u00e9u CC, depois de efectuar os exames (designadamente a aberrometria, a tonometria, a caratometria e a medi\u00e7\u00e3o da gradua\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o teste de l\u00e1grimas e a an\u00e1lise \u00e0 sensibilidade de contraste) que entendeu necess\u00e1rios (tendo o autor pago o respectivo custo), transmitiu ao autor que n\u00e3o tinha de se preocupar, embora entendendo necess\u00e1ria a realiza\u00e7\u00e3o de \"retoque\" ao olho intervencionado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">67 - A forma descontra\u00edda, confiante e segura com que o r\u00e9u CC falou com o autor transmitiu a este seguran\u00e7a que tudo correria pelo melhor e os problemas que sentia tinham solu\u00e7\u00e3o breve e simples.<\/p><p style=\"text-align: justify\">68 - O r\u00e9u CC n\u00e3o transmitiu ao autor qualquer outra informa\u00e7\u00e3o quanto a poss\u00edveis efeitos secund\u00e1rios permanentes da interven\u00e7\u00e3o com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\", ou quanto \u00e0 possibilidade de o autor n\u00e3o alcan\u00e7ar em toda a sua extens\u00e3o a aptid\u00e3o da sua vis\u00e3o sem recurso a \u00f3culos ou lentes de contacto \u2026<\/p><p style=\"text-align: justify\">69 -... Nem transmitiu ao autor qualquer informa\u00e7\u00e3o quanto a t\u00e9cnicas de tratamento alternativas ao \"Lasik\", designadamente o \"Lasik personalizado\" ou a implanta\u00e7\u00e3o de lente intra-ocular.<\/p><p style=\"text-align: justify\">70 - O autor confiou nas capacidades do r\u00e9u CC enquanto m\u00e9dico especialista em oftalmologia, e na reputa\u00e7\u00e3o que este e a r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro- Barraquer, SA\", possu\u00edam.<\/p><p style=\"text-align: justify\">71 - A ... de Setembro de 2005, nas instala\u00e7\u00f5es da r\u00e9 \"Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro- Barraquer, SA\", o autor foi submetido a nova interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica ao seu olho direito com utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica \"Lasik\", levada a cabo pelo r\u00e9u CC, tendo pago \u20ac 1.192,00.<\/p><p style=\"text-align: justify\">72- Nos dias subsequentes (designadamente a 15 e 30 de Setembro e 02 de Dezembro de 2005), o autor deslocou-se a diversas consultas de acompanhamento da interven\u00e7\u00e3o, sentindo melhorias na vis\u00e3o do olho intervencionado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">73 -... Apesar de continuar a sentir enevoada a vis\u00e3o do olho direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">74 - Na sequ\u00eancia, o r\u00e9u CC, a 02 de Dezembro de 2005, transmitiu ao autor que seria necess\u00e1rio levar a cabo novo \"retoque\" ao olho direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">75 - A ... de Janeiro de 2006, o autor foi submetido a terceira interven\u00e7\u00e3o ao olho direito com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">76 - Todos os contactos do autor com vista \u00e0 presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os referidos em 71- a 75- tiveram lugar directamente com o r\u00e9u CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">77 - N\u00e3o obstante as interven\u00e7\u00f5es referidas em 71- e 75-, o autor continuou a n\u00e3o sentir melhorias na vis\u00e3o do seu olho direito, sentindo mesmo que a sucess\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es piorou a qualidade de vis\u00e3o do olho direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">78- O autor continuou a ser acompanhado pelo r\u00e9u CC, que lhe prop\u00f4s a realiza\u00e7\u00e3o de uma nova interven\u00e7\u00e3o ao olho direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">79 - A certa altura, o autor deixou de confiar no r\u00e9u CC, entendendo que a situa\u00e7\u00e3o estava fora do controlo deste \u2026<\/p><p style=\"text-align: justify\">80 -... A partir de ... de Mar\u00e7o de 2006 abandonando o tratamento a que estava a ser sujeito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">81 - A interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" apenas deve ser realizada quando o paciente mantenha estabilizado o grau de miopia durante certo per\u00edodo (pelo menos 1 ano).<\/p><p style=\"text-align: justify\">82 - Em Dezembro de 2004, o autor registava 8,25 dioptrias no olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">83 - Em Julho de 2005, o autor registava 8,00 dioptrias no olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">84 - Em Dezembro de 2006, o autor deslocou-se ao \"Centro de Oftalmologia Barraquer\", em Barcelona, onde foi observado pelo Dr. DD, que transmitiu ao autor que, em sua opini\u00e3o, o autor n\u00e3o deveria ter sido submetido a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica aos olhos com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">85 - A t\u00e9cnica \"Lasik\", em Portugal, \u00e9 utilizada h\u00e1 cerca de 15 anos (tendo por refer\u00eancia \u00e0 data da propositura da ac\u00e7\u00e3o).<\/p><p style=\"text-align: justify\">86 - Caso o autor tivesse tido consci\u00eancia que a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" n\u00e3o eliminaria a sua necessidade de recorrer ao uso de \u00f3culos e lentes de contacto, ou que originaria halos, \"starbusts\" e clar\u00f5es, e dificuldades na vis\u00e3o nocturna sem correc\u00e7\u00e3o, teria decidido n\u00e3o submeter-se \u00e0s interven\u00e7\u00f5es referidas em 44-, 71- e 75-.<\/p><p style=\"text-align: justify\">87 - A realiza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica com utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica \"Lasik\" pode causar no paciente os seguintes efeitos, pelo menos, independentemente dos concretos meios empregues e da concreta presta\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico oftalmologista:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>Hipocorrec\u00e7\u00e3o ou hipercorrec\u00e7\u00e3o;<\/li><li>Astigmatismo irregular;<\/li><li>Perda de acuidade visual corrigida;<\/li><li>Diminui\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o nocturna, halos, clar\u00f5es e starbusts;<\/li><li>Diminui\u00e7\u00e3o do contraste visual;<\/li><li>Crescimento epitelial sob o \"flap\";<\/li><li>Infec\u00e7\u00e3o e ulcera\u00e7\u00e3o do \"flap\";<\/li><li>Infec\u00e7\u00f5es oculares;<\/li><li>S\u00edndrome de olhos secos;<\/li><li>Sensibilidade \u00e0 luz;<\/li><li>Regress\u00e3o da acuidade visual;<\/li><li>Regress\u00e3o do resultado com a idade;<\/li><li>As imperfei\u00e7\u00f5es refractivas (miopia, astigmatismo e hipermetropia) que o paciente apresenta podem n\u00e3o ser corrigidas de forma total.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">88 - Actualmente, o autor apresenta:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>Astigmatismo irregular da c\u00f3rnea do olho direito;<\/li><li>Anisometropia (decorrente da grande diferen\u00e7a entre o erro refractivo dos 2 olhos, causador de diferen\u00e7as entre a percep\u00e7\u00e3o do tamanho e nitidez, e sobrecarregando o c\u00e9rebro, da\u00ed decorrendo sintomas como cefaleia, fotofobia, prurido, etc);<\/li><li>Vis\u00e3o bilateral apenas com o uso de lente de contacto no olho esquerdo. Na impossibilidade de uso de lente (por inflama\u00e7\u00e3o ou cansa\u00e7o) o autor perde a vis\u00e3o biocular, tendo de recorrer a \u00f3culos no olho esquerdo e colocar uma pala no olho direito;<\/li><li>Aniseiconia (disparidade do tamanho da imagem fornecida pelos 2 olhos);<\/li><li>Problemas na vis\u00e3o ao perto, no olho tratado, quando n\u00e3o utiliza lente de contacto no olho esquerdo;<\/li><li>No\u00e7\u00e3o alterada e oscilante das dist\u00e2ncias e da orienta\u00e7\u00e3o f\u00edsico-espacial, quando n\u00e3o utiliza lente de contacto no olho esquerdo;<\/li><li>Surgimento de c\u00e9lulas epiteliais por baixo da c\u00f3rnea do olho direito, com o esclarecimento que tal n\u00e3o interfere com a vis\u00e3o do autor;<\/li><li>Acuidade visual de 9\/10, no olho direito, com correc\u00e7\u00e3o \u00f3ptica (-0.25-0.50x10), constatada em Setembro de 2016.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">89 - Actualmente, o autor queixa-se de:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>Blur matinal no olho direito (olho nublado ao acordar durante pelo menos 1 hora);<\/li><li>Halos, starbusts e clar\u00f5es perturbadores da vis\u00e3o nocturna, designadamente na condu\u00e7\u00e3o, na visualiza\u00e7\u00e3o de imagens da televis\u00e3o, no uso de computador - em todas as situa\u00e7\u00f5es de baixa luminosidade ou em que o objecto a visualizar possua ilumina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria;<\/li><li>Sensibilidade extrema \u00e0 luz no olho direito.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">90 - Devido ao referido em 88- e 89-, o autor:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>Em sua casa, alterou a configura\u00e7\u00e3o da sala de estar, e aumentou o di\u00e2metro das televis\u00f5es que a\u00ed possui;<\/li><li>No escrit\u00f3rio, aumentou os pontos de luz e o di\u00e2metro do monitor do seu computador;<\/li><li>Evita trabalhar \u00e0 noite;<\/li><li>Evita conduzir \u00e0 noite.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">91 - Toda a situa\u00e7\u00e3o acima descrita causou ao autor ang\u00fastia, desconforto com a sua vis\u00e3o, revolta, ansiedade e depress\u00e3o, levando-o a procurar aux\u00edlio m\u00e9dico e medicamentoso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">92 - Na consulta referida em 63-, a ... de Julho de 2005, o autor apresentava uma acuidade visual no olho direito, sem correc\u00e7\u00e3o, de &lt;1\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 35\u00ba -1.00 - 1,75 = 10\/10.<\/p><p style=\"text-align: justify\">93 - Nas v\u00e1rias consultas de acompanhamento a que se submeteu junto do r\u00e9u CC (referidas em 72-), o autor apresentou a seguinte acuidade visual no seu olho direito:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>a 15 de Setembro de 2005, sem correc\u00e7\u00e3o, de 9\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 0,25 = 10\/10;<\/li><li>a 30 de Setembro de 2005, sem correc\u00e7\u00e3o, de 9\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 20\u00ba - 0,50 + 0,50 = 10\/10;<\/li><li>a 02 de Dezembro de 2005, sem correc\u00e7\u00e3o, de 9\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 5\u00ba - 1,00 + 0,50 = 10\/10;<\/li><li>a 19 de Janeiro de 2006, sem correc\u00e7\u00e3o, de 10\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 20\u00ba -1,00 + 0,25 = 10\/10<\/li><li>a 20 de Janeiro de 2006, sem correc\u00e7\u00e3o, de 10\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 90\u00ba - 0,25 = 10\/10;<\/li><li>a 31 de Mar\u00e7o de 2006, sem correc\u00e7\u00e3o, de 7\/10, e, com correc\u00e7\u00e3o, de 0\u00ba - 0,25 + 1,50 = 10\/10.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">94 - A anisometropia, a vis\u00e3o bilateral apenas com o uso de lente de contacto no olho esquerdo, a aniseiconia, os problemas na vis\u00e3o ao perto, no olho tratado, quando n\u00e3o utiliza lente de contacto no olho esquerdo, e a no\u00e7\u00e3o alterada e oscilante das dist\u00e2ncias e da orienta\u00e7\u00e3o f\u00edsico-espacial, quando n\u00e3o utiliza lente de contacto no olho esquerdo, referidos em 55- e 88-, decorrem de o autor n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo, anomalias que se resolvem com recurso a lente de contacto ou cirurgia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">95 - Em 2004 e 2005, o r\u00e9u BB exercia as fun\u00e7\u00f5es de coordenador do servi\u00e7o de oftalmologia do r\u00e9u \"HPP - Norte, SA\", trabalhando em regime de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p><p style=\"text-align: justify\">96 - No decurso da consulta referida em 30- a m\u00e9dica EE informou o autor sobre a possibilidade de a efic\u00e1cia do tratamento com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" regredir com o decurso do tempo e de a interven\u00e7\u00e3o poder gerar fotofobia e s\u00edndrome de olho seco.<\/p><p style=\"text-align: justify\">97 - Na consulta referida em 30- o autor apresentava 9,00 dioptrias de miopia e 0,50 dioptrias de astigmatismo no olho direito, e 8,50 dioptrias de miopia e 1,00 dioptria de astigmatismo no olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">98 - Na consulta referida em 31- o r\u00e9u BB confirmou os valores de miopia e astigmatismo que o autor apresentava nos 2 olhos, verificando apenas altera\u00e7\u00e3o no olho esquerdo (de 8,50 para 8,25 dioptrias) relativamente ao exame realizado na consulta referida em 30-.<\/p><p style=\"text-align: justify\">99 - Ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o referida em 44- o r\u00e9u BB informou o autor que durante algumas semanas deveria colocar no olho operado gotas antibi\u00f3ticas e antiinflamat\u00f3rias, l\u00e1grimas artificiais, utilizar \u00f3culos de sol, n\u00e3o esfregar o olho, e dormir com protector ocular.<\/p><p style=\"text-align: justify\">100 - Na consulta referida em 46- o autor apresentava acuidade visual de 5\/10 sem correc\u00e7\u00e3o, e avalia\u00e7\u00e3o biomicrosc\u00f3pica \u00f3ptima do olho intervencionado.].<\/p><p style=\"text-align: justify\">101 - As pregas no \"flap\" referidas em 48- podem decorrer do facto de o paciente esfregar o olho intervencionado, ou da n\u00e3o coloca\u00e7\u00e3o do protector ocular pelo paciente, e podem estar associadas a elevado n\u00famero de astigmatismo mi\u00f3pico pr\u00e9vio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">102 - A ... de Junho de 2005 o r\u00e9u BB diagnosticou ao autor uma regress\u00e3o da miopia ou hipocorrec\u00e7\u00e3o, o que poderia justificar a necessidade de \u00abretoque\u00bb (nova interven\u00e7\u00e3o com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" para eliminar a miopia residual).<\/p><p style=\"text-align: justify\">103 - ... Propondo observar o autor em data posterior, para ent\u00e3o efectuar novos exames e agendar a interven\u00e7\u00e3o de \"retoque\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">104 - Segundo a pupilometria levada a cabo pelo r\u00e9u BB, era de menos de 7 mm o di\u00e2metro das pupilas do autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">105 - Nos exames que levou a cabo o r\u00e9u BB n\u00e3o detectou qualquer aberra\u00e7\u00e3o ocular.<\/p><p style=\"text-align: justify\">106 - Em Portugal e internacionalmente, a t\u00e9cnica \"Lasik\" \u00e9 utilizada h\u00e1 cerca de 15 anos (tendo por refer\u00eancia a data da propositura da ac\u00e7\u00e3o), existindo estudos quanto \u00e0 sua taxa de sucesso e quanto aos seus efeitos secund\u00e1rios.<\/p><p style=\"text-align: justify\">107 - Por contrato de seguro titulado pela ap\u00f3lice n\u00ba ..., a interveniente \u201cCompanhia de Seguros Fidelidade Mundial, SA\", assumiu a obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar por danos causados a terceiros no \u00e2mbito da explora\u00e7\u00e3o da actividade a que se dedica o r\u00e9u \"HPP Norte, SA\".<\/p><p style=\"text-align: justify\">108 - Por contrato de seguro titulado pela ap\u00f3lice n\u00ba ..., celebrado com a Ordem dos M\u00e9dicos, a interveniente \"AMA - Agrupacion Mutual Aseguradora - Sucursal em Portugal\" assumiu a obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar por danos causados a terceiros na sequ\u00eancia de actos de m\u00e9dicos no exerc\u00edcio da sua profiss\u00e3o, com in\u00edcio de vig\u00eancia a 01 de Janeiro de 2007.<\/p><p style=\"text-align: justify\">109 - Por contrato de seguro titulado pela ap\u00f3lice n\u00ba ..., a interveniente \"AXA - Companhia de Seguros, SA\", assumiu a obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar por danos causados a terceiros no \u00e2mbito do desenvolvimento pelo r\u00e9u BB da sua actividade profissional como m\u00e9dico oftalmologista.<\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"4\"><li><p>4<strong>. Quanto \u00e0 1\u00aa. quest\u00e3o.<\/strong><\/p><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Do \u00f3nus de<strong>\u00a0<\/strong>prova da presta\u00e7\u00e3o do consentimento informado\/Do \u00f3nus da prova da exce\u00e7\u00e3o de comportamento alternativo l\u00edcito.\u00a0<\/u>(recurso subordinado)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Come\u00e7a o recorrente subordinado BB por peticionar a sua absolvi\u00e7\u00e3o dos pedidos formulados na a\u00e7\u00e3o, considerando que a decis\u00e3o recorrida fez errada aprecia\u00e7\u00e3o dos factos e inexata aplica\u00e7\u00e3o da lei ao decidir que cabia ao recorrente subordinado (m\u00e9dico) e n\u00e3o ao recorrido\/autor fazer a prova de qual seria a sua decis\u00e3o (consentimento ou n\u00e3o consentimento) se tivesse sido adequadamente informado\/esclarecido. Segundo a sua perspetiva, incumbia ao autor a prova de que se fosse informado dos riscos n\u00e3o teria dado o seu consentimento \u2013 sendo que, perante o fracasso probat\u00f3rio do demandante nesta mat\u00e9ria, se deve entender que aquele tomaria a mesma decis\u00e3o de efetuar o tratamento \u201cLasik\u201d no caso de os resultados que se vieram a concretizar serem apenas prov\u00e1veis.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Antes, por\u00e9m, de respondermos a essa quest\u00e3o concreta que nos foi colocada<strong>, imp\u00f5e-se uma alus\u00e3o te\u00f3rica \u00e0 tem\u00e1tica do direito ao consentimento informado por parte dos pacientes relativamente aos atos m\u00e9dicos a que se submetem.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 insofism\u00e1vel que o caso dos autos, sobre o qual foi pedido a interven\u00e7\u00e3o do tribunal como vista a sua aprecia\u00e7\u00e3o, se enquadra no \u00e2mbito da chamada responsabilidade civil m\u00e9dica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Responsabilidade essa que se enquadra civilmente no instituto da responsabilidade civil, tanto contratual, como delitual, podendo existir um concurso (real ou aparente) de ambas as responsabilidades (numa rela\u00e7\u00e3o de cumula\u00e7\u00e3o ou de autonomiza\u00e7\u00e3o de causas de pedir).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na situa\u00e7\u00e3o de concurso, o C\u00f3digo Civil \u00e9 omisso sobre esta mat\u00e9ria, muito embora\u00a0<strong><em>Vaz Serra<\/em><\/strong>\u00a0(<strong><em>BMJ n\u00ba. 85, p\u00e1g. 115 e ss.).<\/em><\/strong>\u00a0houvesse equacionado o problema nos trabalhos preparat\u00f3rios, no sentido de conferir ao lesado a possibilidade de optar por um ou outro regime e at\u00e9 de cumular regras de uma e outra modalidade da responsabilidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Segundo a teoria da op\u00e7\u00e3o, o lesado pode escolher uma das duas responsabilidades, sendo que para os defensores a teoria da consun\u00e7\u00e3o o regime da responsabilidade contratual consome o da extracontratual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m, vendo constituindo entendimento prevalecente neste Supremo Tribunal a op\u00e7\u00e3o pelo regime da responsabilidade contratual, quer com o fundamento de ser o mais conforme com o princ\u00edpio da autonomia privada, quer por ser, em regra, aquele que \u00e9 mais favor\u00e1vel \u00e0 tutela efetiva do lesado (cfr., entre outros, a esse prop\u00f3sito,\u00a0<strong><em>Ac. do STJ de 22\/03\/2018, proc. 7053\/12.7TBVG.P1.S1<\/em><\/strong><em>,\u00a0<\/em>dispon\u00edvel em www.dgsi.pt).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nesse contexto, e em tese geral, cabe ao autor a alega\u00e7\u00e3o e prova dos seguintes elementos: (i) a exist\u00eancia de v\u00ednculo contratual; (ii) o incumprimento ou cumprimento defeituoso do m\u00e9dico; (iii) a verifica\u00e7\u00e3o dos danos; (iv) o nexo de causalidade entre a viola\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>legis artis<\/em>\u00a0e os danos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Diga-se ainda, que \u00e9 mais ou menos consensual entendimento de que,<u>\u00a0em regra,<\/u>\u00a0a obriga\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 havida como uma obriga\u00e7\u00e3o de meios, e n\u00e3o de resultado (vide, a esse prop\u00f3sito, para a distin\u00e7\u00e3o, por ex.,\u00a0<strong><em>Ricardo Ribeiro, in \u201cObriga\u00e7\u00f5es de Meios e Obriga\u00e7\u00f5es de Resultado, p\u00e1g. 20 e ss.\u201d<\/em><\/strong>), em que o devedor se obriga apenas a desenvolver uma atividade diligente com vista ao resultado final, muito embora no \u00e2mbito da cirurgia est\u00e9tica haja quem a qualifique como obriga\u00e7\u00e3o de resultado, ou \u201cde quase resultado\u201d, dado mesmo nesses casos n\u00e3o olvidar-se da \u201c\u00e1lea\u201d que sempre poder\u00e1 influir nos servi\u00e7os m\u00e9dicos, apesar do constante avan\u00e7o da ci\u00eancia. (Cfr., a esse prop\u00f3sito, entre outros,\u00a0<strong><em>Acs. do STJ 26\/4\/2016,<\/em><\/strong>\u00a0e\u00a0<strong><em>de 15\/11\/2012, 17\/12\/2009\u00a0<\/em><\/strong>dispon\u00edveis em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\">www.dgsi.pt<\/a>).<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Por\u00e9m, importa n\u00e3o perder de vista que, dada a restri\u00e7\u00e3o que o A. fez do objeto do seu recurso (nos termos que acima deix\u00e1mos assinalados) responsabilidade m\u00e9dica de que aqui se discute circunscreve-se t\u00e3o somente \u00e0 inexist\u00eancia de consentimento informado, ou seja, as pretens\u00f5es para as quais aquele requer agora tutela judici\u00e1ria t\u00eam unicamente como causa de pedir a falta de consentimento informado, isto \u00e9, a viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o para que o A. pudesse prestar um consentimento (esclarecido) sobre as interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas a que fui submetido<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E foi tamb\u00e9m j\u00e1 somente com base nessa causa de pedir que o tribunal recorrido apreciou\/analisou o caso e decidiu, com o fundamento de tal dever de informa\u00e7\u00e3o\/esclarecimento n\u00e3o ter sido integral ou cabalmente respeitado\/cumprido - e depois ter considerado preenchidos os demais pressupostos legais da sobredita responsabilidade civil -, julgar a a\u00e7\u00e3o parcialmente procedente, condenando os r\u00e9us m\u00e9dicos a indemnizar o A. a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais, nos termos do segmento decis\u00f3rio que supra deix\u00e1mos transcrito.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>A a\u00e7\u00e3o de responsabilidade civil m\u00e9dica pode fundar-se no erro m\u00e9dico e\/ou na viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado<\/u><strong>\u00a0<\/strong>(cfr., entre outros,<strong>\u00a0Ac. do STJ de 24\/10\/2019, proc. 3192\/14.8TBBRG.G1.S1,\u00a0<\/strong>dispon\u00edvel em www.dgsi.pt).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Enquanto que na primeira situa\u00e7\u00e3o de causa de pedir, com as regras de arte se visa salvaguardar a sa\u00fade e a vida do paciente, j\u00e1 na segunda o bem jur\u00eddico tutelado \u00e9 o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nos cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tem-se entendido que a obriga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m constitui elemento essencial da\u00a0<em>legis artis<\/em>\u00a0(em sentido amplo), decorre do princ\u00edpio geral da boa f\u00e9 e como fonte de especiais deveres integrantes do contrato, cuja amplitude e intensidade \u00e9 vari\u00e1vel de caso para caso, assumindo, por\u00e9m, autonomia, visto que esta particular regra de comportamento m\u00e9dico visa a tutela da autodetermina\u00e7\u00e3o\u00a0<em>(vide<\/em>, por ex.,\u00a0<strong><em>Mariano Alonso Perez, in \u201c La relaci\u00f3n m\u00e9dico-enfermo pressuposto de responsabilidade civil em torno a la \u201clex artis\u201d, em Perfiles de la Responsabilidad Civil en el Nuevo Milenio, 2000, p\u00e1g. 14 e ss.\u201d; e Vera Raposa, in \u201cDo ato m\u00e9dico ao problema jur\u00eddico, 2014, p\u00e1g. 14 e ss<\/em><\/strong>.\u201d).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Compreende-se a import\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o, pois o consentimento do paciente (livre e esclarecido) \u00e9 um dos requisitos da licitude da atividade m\u00e9dica, mas o seu conte\u00fado \u00e9 \u201cel\u00e1stico\u201d (<strong><em>Ac. do STJ de 9\/10\/2014, proc. n\u00ba 3925\/07.9TVPRT<\/em><\/strong>, dispon\u00edvel em www.dgsi.pt), pelo que ter\u00e1, al\u00e9m do mais, de adequar-se \u00e0s especificidades de cada caso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E da\u00ed que se tenha entendido que a informa\u00e7\u00e3o e o consentimento do paciente n\u00e3o devam ser prestados de forma gen\u00e9rica (cfr., entre outros,<strong><em>\u00a0Ac. do STJ de 22\/03\/2018, proc. 7053712.7TBVNG.P1.S1,\u00a0<\/em><\/strong>dispon\u00edvel em www.dgsii.pt).<\/p><p style=\"text-align: justify\">O dever de informa\u00e7\u00e3o e o consentimento informado t\u00eam consagra\u00e7\u00e3o legal, nomeadamente,\u00a0<strong><em>na Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos do Homem e a Biomedicina\u00a0<\/em><\/strong>(publicada no DR 1\u00aa S\u00e9rie de 03\/01\/2001), na\u00a0<strong><em>Carta dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia<\/em><\/strong>\u00a0(art\u00ba. 3\u00ba), na\u00a0<strong><em>CRPort.\u00a0<\/em><\/strong><em>(<\/em>art\u00bas. 25\u00ba e 26\u00ba<em>)<\/em>, no art\u00ba. 70\u00ba do C\u00f3d. Civil (direito geral de personalidade), no\u00a0<strong><em>C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos<\/em><\/strong>\u00a0(art\u00bas. 44\u00ba e 45\u00ba), e na\u00a0<strong><em>Lei de Bases da Sa\u00fade<\/em><\/strong>\u00a0(Lei n\u00ba. 48\/99 de 24\/8, alterada pela Lei n\u00ba. 27\/2002 de 8\/11).<\/p><p style=\"text-align: justify\">E da\u00ed que constitua hoje entendimento incontroverso que sobre o m\u00e9dico recai um dever de informa\u00e7\u00e3o e de obten\u00e7\u00e3o de consentimento informado, sendo que o consentimento obtido s\u00f3 ser\u00e1 valido se for livre e esclarecido. Dever que surge para neutralizar (ainda que sem eliminar) a assimetria de informa\u00e7\u00e3o que tipicamente caracteriza a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente<strong><em>\u00a0(cfr. Rute Teixeira Pedro, in \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico \u2013 Reflex\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o da perda de chance e a tutela do doente lesado - Centro de Direito Biom\u00e9dico, n\u00famero 15, Coimbra, Coimbra Editora, 2008, p\u00e1g. 78.\u201d).<\/em><\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Dever de informa\u00e7\u00e3o esse \u2013 que perdura ao longo de toda a rela\u00e7\u00e3o contratual \u2013 que deve obedecer cumulativamente aos princ\u00edpios da\u00a0<em>simplicidade<\/em>\u00a0e da\u00a0<em>sufici\u00eancia<\/em>, visando o\u00a0<em>esclarecimento<\/em>.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong><em>Jo\u00e3o Vaz Rodrigues<\/em><\/strong>\u00a0(<strong><em>in \u201cO consentimento informado para o ato m\u00e9dico no ordenamento jur\u00eddico portugu\u00eas - elementos para o estudo da manifesta\u00e7\u00e3o da vontade do paciente -, n\u00famero 3, Centro de Direito Biom\u00e9dico, Coimbra, Coimbra Editora, 2001, p\u00e1g. 243\u201d)<\/em><\/strong>\u00a0ap\u00f3s repudiar a necessidade de o agente m\u00e9dico transmitir informa\u00e7\u00e3o que abarque quaisquer consequ\u00eancias excecionais que possam ocorrer, salienta n\u00e3o serem de desprezar \u201cas informa\u00e7\u00f5es sobre sequelas que, embora excecionais, possam ocorrer em consequ\u00eancia dos meios t\u00e9cnicos utilizados, ou ter especial interesse para o paciente, atendendo, por exemplo, \u00e0 sua profiss\u00e3o ou aos seus interesses.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">No mesmo sentido aponta tamb\u00e9m o prof.\u00a0<strong><em>TEIXEIRA DE SOUSA<\/em><\/strong>\u00a0(in \u201c<strong><em>O \u00f3nus da prova nas ac\u00e7\u00f5es de responsabilidade civil m\u00e9dica, \u201cDireito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica, edi\u00e7\u00e3o da AAFDL\u201d)<\/em><\/strong>\u00a0ao referir que \u201ca\u00a0<em>obriga\u00e7\u00e3o m\u00e9dica envolve um dever principal \u2013 o dever de promover ou restituir a sa\u00fade ao doente, suavizar os sofrimentos e prolongar a vida do doente \u2013 que \u00e9 acompanhada por v\u00e1rios deveres acess\u00f3rios, entre os quais,<\/em>\u00a0o de\u00a0<em>esclarecer<\/em>\u00a0<em>o doente e de obter o seu consentimento<\/em>, sendo que o\u00a0<em>desrespeito de qualquer destes deveres constitui o m\u00e9dico em responsabilidade civil<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como j\u00e1 acima deix\u00e1mos referido, sendo o dever de informa\u00e7\u00e3o<strong>\u00a0<\/strong>um dos requisitos da licitude da atividade m\u00e9dica, todavia, o seu conte\u00fado \u00e9 \u201cel\u00e1stico\u201d, n\u00e3o sendo<strong>\u00a0<\/strong>(como se escreveu\u00a0<strong>no ac\u00f3rd\u00e3o deste<\/strong>\u00a0<strong><em>Tribunal de 09\/10\/2014<\/em><\/strong>) \u201c<em>(\u2026) igual para todos os doentes na mesma situa\u00e7\u00e3o. (\u2026). \u201c<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Haver\u00e1, assim, que indagar caso a caso<em>,\u00a0<\/em>se esse dever foi cumprido,<em>\u00a0<\/em>pois a sua afirma\u00e7\u00e3o variar\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o de cada situa\u00e7\u00e3o concreta.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne ao \u00f3nus da prova do consentimento - quest\u00e3o que como vimos, aqui se suscita \u2013, vem constituindo entendimento que, \u2013 como j\u00e1 ressalta do que se deixou exposto -, se nos afigura ser o mais atual (na sequ\u00eancia dos princ\u00edpios que supra deix\u00e1mos expressos) e dominante - e ao qual aderimos \u2013,\u00a0<u>o mesmo recai sobre o m\u00e9dico ou a institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, uma vez que o consentimento funciona como causa de exclus\u00e3o da ilicitude e a adequada informa\u00e7\u00e3o \u00e9 pressuposto da sua validade, logo mat\u00e9ria de exce\u00e7\u00e3o, como facto impeditivo<\/u><strong>\u00a0<\/strong>(n\u00ba. 2 do art\u00ba. 342\u00ba do CC).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, como d\u00e1 conta\u00a0<strong><em>Andr\u00e9 Dias Pereira<\/em><\/strong>\u00a0ainda que a moderna doutrina aceite \u201cdentro de um apertado enquadramento, que o lesante se possa defender invocando a exce\u00e7\u00e3o de comportamento alternativo l\u00edcito\u201d \u201co \u00f3nus da prova deve impender sobre quem se pretende fazer valer de um \u00abfacto impeditivo do direito invocado\u00bb (art. 342\u00ba, n.\u00ba 2, do C. Civil), ou seja, o m\u00e9dico. Como vimos, para o doente tratar-se-ia da prova de factos negativos (provar que n\u00e3o teria aceite a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica, caso tivesse sido devidamente informado). Por outro lado, porque podemos considerar as normas que exigem o esclarecimento (art. 157\u00ba do C\u00f3digo Penal) como disposi\u00e7\u00f5es legais de prote\u00e7\u00e3o e, deste modo, a doutrina entende haver uma invers\u00e3o do \u00f3nus da prova\u00a0<em>(in \u201c<strong>Direitos dos Pacientes e Responsabilidade M\u00e9dica, Disserta\u00e7\u00e3o de Doutoramento em Ci\u00eancias Jur\u00eddico-Civil\u00edsticas apresentada \u00e0 Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2012, p\u00e1gs. 435\/437\u201d, acess\u00edvel em<\/strong><\/em><a href=\"https:\/\/estudogeral.sib.uc.pt\/bitstream\/10316\/31524\/1\/Direitos%20dos%20pacientes%20e%20responsabilidade%20m%C3%A9dica.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>https:\/\/estudogeral.sib.uc.pt\/bitstream\/10316\/31524\/1\/Direitos%20dos%20pacientes%20e%20responsabilidade%20m%C3%A9dica.pdf<\/em><\/strong><\/a><em>).<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Em refor\u00e7o<em>\u00a0do que afirm\u00e1mos, e\u00a0<\/em>em id\u00eantico sentido,<em>\u00a0<\/em>permitimo-nos citar o recente<strong>\u00a0<em>ac\u00f3rd\u00e3o deste Tribunal de 08\/09\/2020\u00a0<\/em><\/strong>(<strong><em>proc. 148\/14.4TVLSB.L1.S1,\u00a0<\/em><\/strong><em>dispon\u00edvel em\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/link-invalido\/\"><em>www.dgsi.pt<\/em>)<\/a><u>,<\/u><strong>\u00a0<\/strong>quando a dado passo afirma \u201c(\u2026)\u00a0<em>Compete \u00e0 institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade \u2013 e\/ou m\u00e9dico \u2013 provar que, mesmo que houvesse cumprido corretamente os seus deveres de informa\u00e7\u00e3o, o paciente se teria comportado do mesmo modo, tomando a mesma decis\u00e3o. N\u00e3o deve admitir-se a invoca\u00e7\u00e3o da figura do consentimento hipot\u00e9tico quando estejam em causa viola\u00e7\u00f5es graves dos deveres de conduta da institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade \u2013 e\/ou do m\u00e9dico \u2013, como sucede quando aquela omite informa\u00e7\u00f5es fundamentais ou essenciais para a autodetermina\u00e7\u00e3o do paciente<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">E ainda o\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o deste mesmo Tribunal de 02\/06\/2015 (proc. n\u00ba. 1263\/06.3TVPRT.P1.S1<\/em><\/strong>, dispon\u00edvel em www.dgsi.pt) quando afirma, a dado momento, que \u201c(\u2026)\u00a0<em>o \u00f3nus da prova do consentimento hipot\u00e9tico, doutrina oriunda da jurisprud\u00eancia alem\u00e3, pertence ao m\u00e9dico \u00a0(\u2026)\u201d.\u00a0<\/em>Na mesma linha vejam-se ainda, entre outros,\u00a0<strong>Andr\u00e9 Dias Pereira (\u201cin \u201cO consentimento informado<\/strong><em>\u00a0<\/em>na\u00a0<strong><em>Rela\u00e7\u00e3o M\u00e9dico-Paciente, p\u00e1g. 194<\/em><\/strong>\u201d),\u00a0<strong><em>Vera Raposo (in \u201cOb. cit., p\u00e1g. 242 e ss.)<\/em><\/strong>\u00a0e\u00a0<strong><em>o Ac. do STJ<\/em><\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>26\/11\/2020 (proc. 21966\/15.0T8PRT.P2.S1,\u00a0<\/strong>dispon\u00edvel em www.dgsi.pt<strong>.)<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">A esse prop\u00f3sito, discorreu-se, al\u00e9m do mais, no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido nos seguintes termos. \u201c<em>N\u00e3o estando provado que a cirurgia em causa determina sempre a necessidade de o paciente continuar a fazer uso de \u00f3culos e\/ou que causa sempre os efeitos indesejados assinalados (o que torna o facto provado irrelevante porque ele se refere \u00e0 certeza), pode questionar-se se cabia ao autor provar que caso fosse informado dos riscos poss\u00edveis (de haver a possibilidade de se verificar um resultado que veio a ocorrer) n\u00e3o teria dado o consentimento ou, ao inv\u00e9s, cabia aos r\u00e9us demonstrar que o autor daria o seu consentimento mesmo que tivesse essa informa\u00e7\u00e3o. Por outras palavras, a quest\u00e3o de saber contra quem retirar consequ\u00eancias de n\u00e3o ter ficado provado o que faria o autor se tivesse sido confrontado com os riscos poss\u00edveis da cirurgia (com a possibilidade, n\u00e3o a certeza de eles ocorrerem): artigos 414.\u00ba do C\u00f3digo de Processo Civil e 346.\u00ba do C\u00f3digo Civil, segunda parte. A nosso ver, o \u00f3nus da prova recai sobre os r\u00e9us. S\u00e3o os r\u00e9us que t\u00eam a necessidade de demonstrar que a afecta\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica do autor pelas interven\u00e7\u00f5es que realizaram \u00e9, afinal, l\u00edcita por existir uma causa de exclus\u00e3o da ilicitude cong\u00e9nita a interven\u00e7\u00f5es dessa natureza (artigo 342.\u00ba, n.\u00ba 2, do C\u00f3digo Civil)11. A demonstra\u00e7\u00e3o do consentimento serve essa finalidade, mas como para possuir tal alcance o consentimento necessita de revestir determinadas qualidades a demonstra\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de abarcar estas qualidades (ter sido precedido dos esclarecimentos e informa\u00e7\u00f5es adequadas para a tomada de uma decis\u00e3o livre e consciente). Se \u00e9 suscitada a quest\u00e3o do consentimento hipot\u00e9tico, cabe ao autor do acto m\u00e9dico fazer a demonstra\u00e7\u00e3o dos respectivos elementos constitutivos. Por isso, o facto provado (e a decis\u00e3o de julgar n\u00e3o provado o outro facto) n\u00e3o \u00e9 suficiente para excluir a ilicitude da actua\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us<\/em>\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A argumenta\u00e7\u00e3o expendida pela decis\u00e3o recorrida est\u00e1 em conson\u00e2ncia com aquilo que se supra se deixou expresso, fazendo, a nosso ver, uma correta subsun\u00e7\u00e3o do direito aos factos, pelo que, n\u00e3o merece, a esse respeito, qualquer censura.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O recorrente subordinado n\u00e3o se pode prevalecer, assim, da exist\u00eancia de um \u201ccomportamento l\u00edcito alternativo\u201d, uma vez que fracassou na demonstra\u00e7\u00e3o da sua exist\u00eancia. Com efeito, ao contr\u00e1rio do que parece sugerir o recorrente, a circunst\u00e2ncia de o autor ter sido previamente advertido, por outro m\u00e9dico oftalmologista, acerca dos riscos de regress\u00e3o dos efeitos da cirurgia e da causa\u00e7\u00e3o de fotofobia e de s\u00edndrome de olho seco, n\u00e3o permite concluir que, caso o autor tivesse sido adequadamente informado sobre os riscos que se vieram a materializar nos danos sofridos e atinentes a \u201cblur\u201d matinal no olho direito e halos \u201cstarbusts\u201d e clar\u00f5es perturbadores da vis\u00e3o noturna (cfr. ponto 89 dos factos provados), n\u00e3o se teria abstido de se submeter \u00e0 interven\u00e7\u00e3o em crise. E isto porque estes danos exorbitam, ou pelo menos parecem exorbitar<strong>,\u00a0<\/strong>os riscos de regress\u00e3o dos efeitos da cirurgia e da causa\u00e7\u00e3o de fotofobia e de s\u00edndrome de olho seco que lhe foram comunicados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Diga-se mesmo - embora em boa verdade n\u00e3o esteja\u00a0<u>diretament<\/u>e aqui em causa neste recurso - que, \u00e0 luz dos factos apurados, se concorda com a conclus\u00e3o a que o tribunal recorrido chegou sobre a viola\u00e7\u00e3o por parte dos RR. BB e CC do dever de informa\u00e7\u00e3o a que estavam obrigados, ou seja, por esse dever n\u00e3o ter sido integral ou cabalmente respeitado\/cumprido por eles, numa viola\u00e7\u00e3o, em s\u00edntese, consubstanciada\/concretizada por n\u00e3o terem informado\/esclarecido adequada e\/ou suficientemente o A. sobre todos os riscos e efeitos secund\u00e1rios (permanentes) que poderiam advir da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica a que o submeteram, ou mesmo sobre as t\u00e9cnicas alternativas existentes (vg. o Lasik personalizado ou a implanta\u00e7\u00e3o de lente intra-ocular) ou ainda mesmo da possibilidade de n\u00e3o alcan\u00e7ar em toda a extens\u00e3o a aptid\u00e3o da sua vis\u00e3o se recurso a \u00f3culos ou lentes de contacto - cfr., nomeadamente, os pontos 38, 68 e 69 dos factos provados -, sendo certo ainda que ficou tamb\u00e9m provado (cfr. ponto 86), que caso o autor tivesse tido consci\u00eancia que a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica com recurso \u00e0 t\u00e9cnica \"Lasik\" n\u00e3o eliminaria a sua necessidade de recorrer ao uso de \u00f3culos e lentes de contacto, ou que originaria halos, \"starbusts\" e clar\u00f5es, e dificuldades na vis\u00e3o nocturna sem correc\u00e7\u00e3o, teria decidido n\u00e3o submeter-se a tais interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas realizadas pelos aludidos RR. m\u00e9dicos. E da\u00ed que n\u00e3o obstante o A. ter dado o seu consentimento para tais interven\u00e7\u00f5es, ele n\u00e3o poder\u00e1,\u00a0<em><u>in casu<\/u>,<\/em>\u00a0considerar-se v\u00e1lido<strong>.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o h\u00e1, pois, que, no dom\u00ednio dogm\u00e1tico da causalidade, afastar a imputa\u00e7\u00e3o do nexo causal \u00e0 conduta omissiva do aqui recorrente de presta\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o para obten\u00e7\u00e3o do consentimento informado por parte autor, pelo que, e verificando-se os demais pressupostos acima referenciados da responsabilidade civil m\u00e9dica, improcedem os pontos 5 a 10 das suas conclus\u00f5es de recurso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"5\"><li><p>5<strong>. Quanto \u00e0 2\u00aa. quest\u00e3o.<\/strong><\/p><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Da exclus\u00e3o da compensa\u00e7\u00e3o\/indemniza\u00e7\u00e3o por culpa do lesado<\/u>\u00a0(recurso subordinado).<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Prossegue o recorrente subordinado<\/u>, aduzindo que a decis\u00e3o recorrida fez uma inexata aplica\u00e7\u00e3o do art\u00ba. 570\u00ba n\u00ba. 1 do C\u00f3digo Civil, ao desconsiderar que o recorrido\/autor n\u00e3o permitiu ao recorrente m\u00e9dico concluir o tratamento ao olho direito que foi intervencionado, concluir o tratamento a interven\u00e7\u00e3o ao olho esquerdo e, bem assim, o tratamento na sua globalidade (a interven\u00e7\u00e3o aos dois olhos, com eventual necessidade de retoque). A pondera\u00e7\u00e3o desta facticidade, em conjuga\u00e7\u00e3o com a circunst\u00e2ncia de a interven\u00e7\u00e3o realizada pelo r\u00e9u BB ter redundado numa melhoria significativa da acuidade visual do autor (expressa na redu\u00e7\u00e3o quase total da miopia e na redu\u00e7\u00e3o do astigmatismo) deveria ter levado o tribunal \u201c<em>a quo<\/em>\u201d a excluir a compensa\u00e7\u00e3o do demandante.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Apreciemos.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">A decis\u00e3o recorrida, ap\u00f3s ter considerado que sem a obten\u00e7\u00e3o do consentimento do paciente, em decorr\u00eancia da omiss\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o, a afeta\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica e ps\u00edquica daquele \u00e9 il\u00edcita, constituindo um si mesmo um dano real, debru\u00e7ou-se sobre a extens\u00e3o de tal dano. Nesta sede, o tribunal\u00a0<em>a quo<\/em>\u00a0ponderou adequadamente a omiss\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o do recorrido-autor necess\u00e1ria \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o a cargo do m\u00e9dico, considerando ter resultado adquirido que praticamente todas as sequelas das interven\u00e7\u00f5es que o autor apresenta (indicadas no ponto 88 da factualidade assente) decorrem de este n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo, numa escolha que foi sua (sendo determinada, alegadamente, por perda de confian\u00e7a no m\u00e9dico).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Concluiu o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido a este respeito: \u201c<em>a pondera\u00e7\u00e3o judiciosa da globalidade destas circunst\u00e2ncias, como vimos variadas e com distintas repercuss\u00f5es quer ao n\u00edvel da imputabilidade quer dos resultados<strong>, n\u00e3o justifica, a nosso ver, a exclus\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o (n\u00e3o se justifica deixar de censurar o comportamento dos r\u00e9us), mas justifica uma redu\u00e7\u00e3o da mesma a um valor baixo\u00a0<\/strong>por ser not\u00f3rio que o comportamento desconfiado do autor, de n\u00e3o colabora\u00e7\u00e3o e de rompimento com os planos programados acabou por ter forte influ\u00eancia no resultado produzido. Por tudo isso, afigura-se-nos que a indemniza\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o patrimoniais, que corresponde ao pedido da al\u00ednea b), deve ser fixada com base na equidade, mostrando-se adequado o valor de 3.500\u20ac (tr\u00eas mil e quinhentos euros) por cada acto il\u00edcito<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acompanhamos a posi\u00e7\u00e3o expendida pelo tribunal recorrido (TRP). Com efeito, ainda que o autor haja contribu\u00eddo causalmente para o resultado danoso, ao ter abandonado prematuramente o acompanhamento m\u00e9dico e ao obstaculizar a realiza\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es que, com probabilidade, iriam neutralizar grande parte das sequelas por si sentidas (e que, em grande medida, redundam da circunst\u00e2ncia de o olho esquerdo n\u00e3o ter sido sujeito a qualquer interven\u00e7\u00e3o e n\u00e3o terem sido feitas as admitidas\/previstas corre\u00e7\u00f5es ao olho direito), tal facto n\u00e3o faz obnubilar a circunst\u00e2ncia de se ter verificado por parte do recorrente subordinado uma viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o gerador, de\u00a0<em>per se<\/em>, de uma perda da liberdade de autodetermina\u00e7\u00e3o por banda do autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, adquirido que se encontra que \u201c<em>a responsabilidade civil emergente da realiza\u00e7\u00e3o de ato m\u00e9dico, ainda que se prove a inexist\u00eancia de erro ou m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica, pode radicar-se na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o do paciente relativamente aos riscos e aos danos eventualmente decorrentes da realiza\u00e7\u00e3o do ato m\u00e9dico<\/em>\u201d (cfr.<strong><em>\u00a0Ac. do STJ de 24\/10\/2019, supra citado<\/em><\/strong>), a subsist\u00eancia dos danos por causa eventualmente imput\u00e1vel ao lesado ou a melhoria da acuidade visual do olho intervencionado n\u00e3o obliteram a circunst\u00e2ncia de ter existido uma les\u00e3o do direito de autodetermina\u00e7\u00e3o do paciente (pois que a informa\u00e7\u00e3o transmitida ao mesmo, nomeadamente sobre a os riscos que poderiam advir da interven\u00e7\u00e3o e particularmente sobre as alternativas existentes \u00e0 t\u00e9cnica utilizada na interven\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi feita ou pelo menos de forma cabal e\/ou adequada por forma a permitir-lhe um consentimento esclarecido), que radica no direito geral de personalidade. O que n\u00e3o permitir\u00e1 excluir,\u00a0<u>de todo<\/u>, a atribui\u00e7\u00e3o de uma compensa\u00e7\u00e3o\/indeniza\u00e7\u00e3o pela causa\u00e7\u00e3o de danos n\u00e3o patrimoniais ao autor, nos termos do preceituado no art\u00ba. 570\u00ba n\u00ba. 1 do CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"6\"><li><p>6<strong>. Quanto \u00e0 3\u00aa. quest\u00e3o.<\/strong><\/p><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Da condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de todas as despesas a suportar com tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos que futuramente possam vir a ser executados<\/u>\u00a0(recurso independente).<\/p><p style=\"text-align: justify\">A contribui\u00e7\u00e3o causal do autor para a subsist\u00eancia dos danos que, na sua express\u00e3o maiorit\u00e1ria, constituem decorr\u00eancias do facto de o demandante n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo (e n\u00e3o ter mesmo permitido que tivessem sido feitas as admitidas\/previstas corre\u00e7\u00f5es ao olho direito) por ter abandonado o acompanhamento m\u00e9dico dever\u00e1, no entanto, e salvo melhor opini\u00e3o, conduzir \u00e0 improced\u00eancia do pedido de condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de todas as despesas a suportar com tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos que futuramente possam vir a ser executados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, na linha do entendido pelo tribunal recorrido, cr\u00ea-se que o autor omitiu a colabora\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o a cargo dos m\u00e9dicos, impedindo o r\u00e9u BB de, atrav\u00e9s da competente reconstitui\u00e7\u00e3o natural (art\u00ba. 566\u00ba do C\u00f3d. Civil), eliminar as consequ\u00eancias indesejadas da interven\u00e7\u00e3o e obstando, do mesmo modo, a que o r\u00e9u CC regularizasse a situa\u00e7\u00e3o do olho direito (ainda que, neste caso, a conduta do autor possa porventura encontrar alguma justifica\u00e7\u00e3o, nos termos da decis\u00e3o recorrida, uma vez que a regulariza\u00e7\u00e3o do olho n\u00e3o foi alcan\u00e7ada ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de duas interven\u00e7\u00f5es quando apenas uma havia sido acordada).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Recorde-se que, como sublinhado pelo\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 07\/02\/2008 (proc. n\u00ba. 4598\/07,\u00a0<\/em><\/strong>dispon\u00edvel em www.dgsi.pt)<strong><em>,\u00a0<\/em><\/strong>a respeito de outra tem\u00e1tica, \u201c(\u2026)\u00a0<em>III - A \u201cculpa do lesado\u201d n\u00e3o interfere com a culpa do agente, designadamente diminuindo-a, limitando a sua interven\u00e7\u00e3o aos efeitos indemnizat\u00f3rios da responsabilidade do lesante, actuando apenas sobre o montante a ressarcir. IV - Para que o evento deva considerar-se imput\u00e1vel ao lesado, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio o concurso de um facto il\u00edcito ou mesmo necessariamente culposo do lesado, censur\u00e1vel a t\u00edtulo de culpa no sentido t\u00e9cnico-jur\u00eddico contido no art. 487.\u00ba CC, bastando que o facto (censur\u00e1vel\/\u201dculposo\u201d), livre e consciente, deva ser \u201catribu\u00edvel\u201d a actua\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio lesado, em termos de auto-responsabiliza\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(\u2026).\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Desse modo, e independentemente do ju\u00edzo a efetuar quanto \u00e0 previsibilidade dos danos futuros alegados, a avalia\u00e7\u00e3o integrada da situa\u00e7\u00e3o d<em>ecidenda\u00a0<\/em>leva-nos a concluir que a conduta imput\u00e1vel ao autor \u2013 ainda que n\u00e3o culposa, em termos de dolo ou neglig\u00eancia - de recusa de sujei\u00e7\u00e3o a ulteriores interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas (com vista \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o dos problemas e que estavam inclu\u00eddos no planos inicial), sendo, de acordo com um crit\u00e9rio de causalidade adequada, pelo menos concausal da subsist\u00eancia das anomalias do olho direito dever\u00e1, nos termos do disposto no art\u00ba. 570\u00ba n\u00ba. 1 do C\u00f3digo Civil, repercutir-se negativamente na indemniza\u00e7\u00e3o em causa, conduzindo \u00e0 sua exclus\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E da\u00ed que, a nosso ver, se mostre justificada a decis\u00e3o do tribunal\u00a0<em>a quo<\/em>\u00a0de n\u00e3o lhe atribuir por esse eventual (pois, \u00e0 luz dos factos apurados, n\u00e3o \u00e9 certo, e nem sequer se apresenta, neste momento, como altamente previs\u00edvel) dano qualquer indemniza\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>***<\/strong><\/p><p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 7.7<strong>. Quanto \u00e0 4\u00aa. quest\u00e3o.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Do \u201cquantum\u201d indemnizat\u00f3rio pelos danos n\u00e3o patrimoniais<\/u>\u00a0(recurso independente e recurso subordinado).<\/p><p style=\"text-align: justify\">O tribunal recorrido decidiu condenar cada um dos aludidos r\u00e9us m\u00e9dicos a pagar ao autor uma indemniza\u00e7\u00e3o na quantia de \u20ac 3.500,00, a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais, acrescida de juros morat\u00f3rios legais vencidos a partir da data da prola\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o (data \u00e0 qual foi atualizado o montante) e at\u00e9 ao seu integral pagamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Discordando desse montante, enquanto o A., na sua ess\u00eancia, defende o mesmo dever elevar-se para o montante global de \u20ac 200.000,00 (a suportar em partes iguais por cada um dos aludidos RR.), j\u00e1 o recorrente subordinado (o R. BB) defende que n\u00e3o sendo (como n\u00e3o foi, conforme atr\u00e1s ficou decidido) essa indemniza\u00e7\u00e3o exclu\u00edda, ent\u00e3o o seu montante n\u00e3o deve ir al\u00e9m dos \u20ac 1.000,00 (por cada um dos R. m\u00e9dicos).<\/p><p style=\"text-align: justify\">A<u>preciando<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Importa come\u00e7ar com uma nota introdut\u00f3ria para sublinhar que, ao contr\u00e1rio do afirmado pelo autor\/recorrente, a circunst\u00e2ncia de o tribunal recorrido ter liquidado o valor da indemniza\u00e7\u00e3o em crise, n\u00e3o obstante a dedu\u00e7\u00e3o de um pedido gen\u00e9rico ou il\u00edquido (o autor peticionou a condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pagamento de compensa\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais, a liquidar em decis\u00e3o ulterior) n\u00e3o configura qualquer viola\u00e7\u00e3o a princ\u00edpio do dispositivo, na vertente do princ\u00edpio do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A verificar-se tal situa\u00e7\u00e3o, estar\u00edamos perante uma nulidade por condena\u00e7\u00e3o em objeto diverso do pedido (art\u00ba. 615\u00ba, n\u00ba. 1 al. e), ex vi art\u00ba. 666\u00ba, n\u00ba. 1, ambos do CPC), nulidade essa que n\u00e3o foi objeto de expressa alega\u00e7\u00e3o\/invoca\u00e7\u00e3o por parte do recorrente\/independente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De qualquer forma, apenas se justificaria, na sequ\u00eancia da dedu\u00e7\u00e3o de um pedido il\u00edquido, a prola\u00e7\u00e3o de uma condena\u00e7\u00e3o de teor gen\u00e9rico, nos termos do preceituado no art\u00ba. 609\u00ba n\u00ba. 2, do CPC, caso o tribunal n\u00e3o dispusesse de elementos para fixar o objeto da indemniza\u00e7\u00e3o. Ora, no caso ajuizado, o tribunal\u00a0<em>a quo<\/em>\u00a0entendeu j\u00e1 dispor dos elementos indispens\u00e1veis a quantificar<em>,\u00a0<\/em>com apelo<em>\u00a0\u00e0 equidade<\/em>\u00a0(como, ali\u00e1s, n\u00e3o poderia deixar de ser), a indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais. Da\u00ed que, n\u00e3o obstante a falta de oportuna liquida\u00e7\u00e3o incidental (art\u00ba. 358\u00ba e seguintes do CPC), a condena\u00e7\u00e3o proferida n\u00e3o tenha sido de teor gen\u00e9rico, mas de um conte\u00fado espec\u00edfico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O recorrente n\u00e3o se insurge \u2013 compreensivelmente - contra o facto de o tribunal recorrido ter atribu\u00eddo uma indemniza\u00e7\u00e3o de valor superior ao montante a liquidar (cen\u00e1rio em que se poderia equacionar uma viola\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do pedido, por condena\u00e7\u00e3o em quantidade superior ao peticionado), mas contra a circunst\u00e2ncia de a prola\u00e7\u00e3o de tal decis\u00e3o de teor espec\u00edfico ter impedido \u201c<em>a total alega\u00e7\u00e3o da amplitude dos factos<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, o incidente de liquida\u00e7\u00e3o visa tornar l\u00edquida a obriga\u00e7\u00e3o em cujo cumprimento o devedor j\u00e1 foi condenado por pr\u00e9via decis\u00e3o judicial, cabendo ao credor o \u00f3nus de alegar (e provar) os factos necess\u00e1rios \u00e0 quantifica\u00e7\u00e3o dos danos a liquidar. No entanto, nesse incidente, e como sublinhou o<strong><em>\u00a0ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 30\/01\/2003 (proc. n\u00ba. 02B4456,\u00a0<\/em><\/strong>dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a><strong><em>),\u00a0<\/em><\/strong>n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel ao credor \u201c<em>demonstrar que teve determinados preju\u00edzos e qual o seu montante; \u00e9 apenas permitido alegar e provar o montante dos preju\u00edzos cuja exist\u00eancia ficou demonstrada<\/em>\u201d previamente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No caso, o autor n\u00e3o poderia, como parece pretender em primeira linha, em incidente de liquida\u00e7\u00e3o ulterior, alegar factos novos integrantes dos danos n\u00e3o patrimoniais, ampliando a causa de pedir ao arrepio do disposto no art\u00ba. 265\u00ba do CPC - at\u00e9 porque n\u00e3o ficou demonstrada a exist\u00eancia de danos futuros -, mas t\u00e3o s\u00f3 liquidar tais danos atrav\u00e9s da competente quantifica\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A prola\u00e7\u00e3o de uma senten\u00e7a de condena\u00e7\u00e3o de teor espec\u00edfico, contendo-se no \u00e2mbito do pedido formulado pelo recorrente (que o mesmo acabou, como vimos, por liquidar na presente sede) n\u00e3o padece, assim, de qualquer v\u00edcio,\u00a0<u>so\u00e7obrando, nessa medida, o pedido do autor de reenvio do processo para a primeira inst\u00e2ncia por forma a ser fixada a indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Aqui chegados, \u00e9 altura de partir para a quantifica\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pelo A. em consequ\u00eancia da conduta dos RR. m\u00e9dicos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em termos gerais, e como resulta do art\u00ba. 562\u00ba do CC, o objetivo da indemniza\u00e7\u00e3o consiste em colocar o lesado na situa\u00e7\u00e3o em que se encontraria se n\u00e3o fora o acontecimento produtor do dano, desde que este seja resultante desse evento em termos de causalidade adequada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tal resultado deve ser procurado, em primeiro lugar, pela reposi\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o tal como estava antes da produ\u00e7\u00e3o do dano - princ\u00edpio da restaura\u00e7\u00e3o natural.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Todavia, n\u00e3o raras vezes essa reposi\u00e7\u00e3o apresenta-se muito dif\u00edcil ou mesmo imposs\u00edvel (<u>como acontece no caso dos danos n\u00e3o patrimoniais<\/u>), tendo lugar, ent\u00e3o, a indemniza\u00e7\u00e3o em dinheiro (cfr. art\u00ba. 566\u00ba, n\u00ba. 1, do CC).<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 precisamente o que acontece no caso em apre\u00e7o destes autos, com os danos de natureza n\u00e3o patrimonial que o A. invoca ter sofrido, e cujo direito de indemniza\u00e7\u00e3o j\u00e1 atr\u00e1s (aquando da an\u00e1lise da 2\u00aa. quest\u00e3o) se reconheceu lhe assistir e que radicam, em primeira linha, na viola\u00e7\u00e3o do seu direito de personalidade, e mais concretamente por les\u00e3o\/ofensa do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o na escolha dos cuidados de sa\u00fade, ao ter prestado um consentimento, n\u00e3o devidamente informado, para as sobreditas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas que os RR. m\u00e9dicos levaram a efeito no seu olho direito, e, em segunda linha e por via reflexa, das quais ter\u00e3o resultado para si algumas sequelas f\u00edsicas e espirituais (ao n\u00edvel dos inc\u00f3modos e abalos psicol\u00f3gicos), sendo assim merecedores da tutela do direito (art\u00ba. 496\u00ba, n\u00ba. 1, do CC), e cuja gravidade deve ser medida por um padr\u00e3o objetivo e n\u00e3o \u00e0 luz de fatores subjetivos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por sua vez, e como \u00e9 sabido, o c\u00e1lculo do montante da indemniza\u00e7\u00e3o por tais danos dever\u00e1 ser feito com base em crit\u00e9rios de equidade (art\u00bas. 496\u00ba, n\u00ba. 4, e 494\u00ba do CC), atendendo, nomeadamente, ao grau de culpabilidade do respons\u00e1vel, \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e \u00e0 do lesado, devendo ser proporcional \u00e0 gravidade do dano e tomando em conta na sua fixa\u00e7\u00e3o todas as regras da justa medida das coisas e de criteriosa pondera\u00e7\u00e3o das realidades da vida<strong>\u00a0<\/strong>(vide, por todos, os\u00a0<strong><em>profs. Pires Lima e Antunes Varela,\u00a0<\/em><\/strong>in<strong><em> \u201cC\u00f3digo Civil Anotado, vol. I, 3\u00aa ed., revista e atualizada, p\u00e1gs. 473\/474<\/em><\/strong>\u201d, e\u00a0<strong><em>Acs. do STJ de 17\/12\/2019, proc. 2224\/17.2T8BRG.G1.S1, e de 17\/12\/2019, proc. 480\/1.TBMMV.C1.S2<\/em><\/strong>, dispon\u00edveis in dgsi.pt).<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o podemos tamb\u00e9m olvidar que, nos termos do comando do atr\u00e1s j\u00e1 referenciado art\u00ba. 570\u00ba, n \u00ba. 1, do CC, \u201c<em>quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para produ\u00e7\u00e3o ou agravamento dos danos, cabe ao tribunal determinar, com base na gravidade das culpas, de ambas as partes e nas consequ\u00eancias que delas resultaram, se a indemniza\u00e7\u00e3o deve ser totalmente concedida, reduzida ou mesmo exclu\u00edda.<\/em>\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Importa esse prop\u00f3sito referir, por um lado, que, e salvo sempre o devido respeito, a forma como o A. estrutura e explana as suas alega\u00e7\u00f5es de recurso mais parece que funda essa sua pretens\u00e3o ressarciria no erro m\u00e9dico\/m\u00e1 pr\u00e1tica de <em>legis artis<\/em>\u00a0(o que, como atr\u00e1s deix\u00e1mos referido, por for\u00e7a da anterior restri\u00e7\u00e3o que fez do objeto do recurso, n\u00e3o \u00e9 aqui poss\u00edvel agora considerar) e, por outro, o faz tamb\u00e9m tomando por base factos (vg. quanto \u00e0 sua atual situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica ou estado de sa\u00fade) que n\u00e3o constam da mat\u00e9ria de facto apurada (dado como assente).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Posto isto, avancemos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0O tribunal recorrido fundamentou, na sua ess\u00eancia, o montante de indemnizat\u00f3rio (de \u20ac 3.500,00, imposto a cada um dos RR. m\u00e9dicos) que decidiu atribuir ao A. pelos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos, nos seguintes termos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00ab (\u2026)\u00a0<em>No caso existem fatores imput\u00e1veis ao pr\u00f3prio autor que dificultam o apuramento do dano indemniz\u00e1vel ou a determina\u00e7\u00e3o da medida em que o mesmo \u00e9 indemniz\u00e1vel. Com efeito, resultou provado que o autor abandonou o acompanhamento que vinha sendo feito pelo r\u00e9u BB ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia e o aparecimento da vis\u00e3o enevoada, n\u00e3o permitindo, alegadamente por perda de confian\u00e7a, que este r\u00e9u realizasse qualquer interven\u00e7\u00e3o no sentido de concluir a cirurgia programada e\/ou corrigir ou eliminar aquela consequ\u00eancia, desconhecendo-se se a mesma era poss\u00edvel e que resultados produziria, sendo certo que o autor havia sido informado por aquele m\u00e9dico da possibilidade de ser necess\u00e1ria uma corre\u00e7\u00e3o do trabalho realizado.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Tamb\u00e9m os atos m\u00e9dicos que o r\u00e9u CC se prop\u00f4s executar n\u00e3o foram conclu\u00eddos porque o autor, ap\u00f3s a segunda interven\u00e7\u00e3o realizada por este, continuou a n\u00e3o sentir melhorias na vis\u00e3o do seu olho direito e recusou submeter-se \u00e0 nova interven\u00e7\u00e3o proposta por aquele m\u00e9dico abandonou o tratamento a que estava a ser sujeito. As situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o exatamente iguais. No primeiro caso, o autor n\u00e3o permitiu sequer ao m\u00e9dico que realizasse qualquer nova interven\u00e7\u00e3o, apesar de estar informado que a cirurgia podia n\u00e3o produzir a totalidade dos seus efeitos na primeira interven\u00e7\u00e3o e carecer de uma segunda para completar, concluir ou retificar o resultado da primeira (dar um \u00abretoque\u00bb). No segundo caso, o autor ainda permitiu uma segunda interven\u00e7\u00e3o, sendo certo que j\u00e1 a primeira tinha o objetivo espec\u00edfico de corrigir os resultados da cirurgia realizada pelo m\u00e9dico anterior. Embora se desconhe\u00e7a se o primeiro m\u00e9dico podia alcan\u00e7ar resultados melhores do que conseguiu o segundo (aparentemente poucos ou nenhuns) a verdade \u00e9 que o autor tinha contratado com ele a execu\u00e7\u00e3o da cirurgia para corre\u00e7\u00e3o da miopia, pelo que devia permitir que ele executasse a totalidade dos atos necess\u00e1rios \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o do objeto contratado. N\u00e3o o tendo feito e omitindo a colabora\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria \u00e0 execu\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o a cargo do m\u00e9dico, n\u00e3o apenas entrou ele mesmo em incumprimento do contrato celebrado como impediu o m\u00e9dico de alcan\u00e7ar o resultado da elimina\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias indesejadas da interven\u00e7\u00e3o, sendo certo que mesmo no \u00e2mbito do dever de indemniza\u00e7\u00e3o a regra \u00e9 a da restaura\u00e7\u00e3o natural pelo que cabe ao devedor o direito de a procurar alcan\u00e7ar para se desonerar da obriga\u00e7\u00e3o alternativa da indemniza\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria (artigo 566.\u00ba do C\u00f3digo Civil) (\u2026). Dessa rela\u00e7\u00e3o escapam uma sequela que n\u00e3o difere muito da situa\u00e7\u00e3o preexistente, a acuidade visual, e outra que n\u00e3o interfere com a vis\u00e3o, o surgimento de c\u00e9lulas epiteliais. Escapa ainda uma \u00faltima sequela que se relaciona efetivamente com as queixas que o autor sempre apresentou \u2013 o astigmatismo que provoca a vis\u00e3o emba\u00e7ada ou enevoada e a hipersensibilidade do olho \u00e0 luz \u2013 mas que \u00e9 igualmente super\u00e1vel com o uso de \u00f3culos e, sobretudo, constitu\u00ed um risco de que o autor tinha sido informado pela outra m\u00e9dica oftalmologista que consultara antes dos r\u00e9us. Por fim, deve ter-se em considera\u00e7\u00e3o que estas situa\u00e7\u00f5es levaram o autor a ter necessidade de introduzir mudan\u00e7as no seu espa\u00e7o familiar e de trabalho e a reduzir o trabalho e a condu\u00e7\u00e3o no per\u00edodo noturno (90), e causaram-lhe ang\u00fastia, desconforto com a sua vis\u00e3o, revolta, ansiedade e depress\u00e3o, levando-o a procurar aux\u00edlio m\u00e9dico e medicamentoso (91<\/em>).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, disp\u00f5e o art\u00ba. 570\u00ba, n\u00ba. 1, do C\u00f3digo Civil que \u201c<em>quando um facto culposo do lesado tiver concorrido para produ\u00e7\u00e3o ou agravamento dos danos, cabe ao tribunal determinar, com base na gravidade das culpas, de ambas as partes e nas consequ\u00eancias que delas resultaram, se a indemniza\u00e7\u00e3o deve ser totalmente concedida, reduzida ou mesmo exclu\u00edda.<\/em>\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>A pondera\u00e7\u00e3o judiciosa da globalidade destas circunst\u00e2ncias, como vimos variadas e com distintas repercuss\u00f5es quer ao n\u00edvel da imputabilidade quer dos resultados<strong>,\u00a0<\/strong>n\u00e3o justifica, a nosso ver, a exclus\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o (n\u00e3o se justifica deixar de censurar o comportamento dos r\u00e9us),<\/em>\u00a0mas justifica uma redu\u00e7\u00e3o da mesma a um valor baixo<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>por ser not\u00f3rio que o comportamento desconfiado do autor, de n\u00e3o colabora\u00e7\u00e3o e de rompimento com os planos programados acabou por ter forte influ\u00eancia no resultado produzido. Por tudo isso, afigura-se-nos que a indemniza\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o patrimoniais, que corresponde ao pedido da al\u00ednea b), deve ser fixada com base na equidade, mostrando-se adequado o valor de 3.500\u20ac (tr\u00eas mil e quinhentos euros) por cada acto il\u00edcito<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Perante a mat\u00e9ria factual apurada, e na conjuga\u00e7\u00e3o entre si, e tendo em conta as considera\u00e7\u00f5es de cariz te\u00f3rico-t\u00e9cnico que supra deix\u00e1mos expendidas, somos levados a dizer que, na sua ess\u00eancia, nos revemos na referida fundamenta\u00e7\u00e3o que suportou quer a atribui\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o ao A. pelos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos, quer a redu\u00e7\u00e3o do seu montante.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na verdade, n\u00e3o podemos desconsiderar a contribui\u00e7\u00e3o do autor, ao abandonar o acompanhamento m\u00e9dico, para a subsist\u00eancia dos danos, em conjuga\u00e7\u00e3o com o facto de praticamente todas as \u201canomalias\u201d decorrerem da circunst\u00e2ncia de o autor n\u00e3o ter sido operado ao olho esquerdo, bem com o car\u00e1ter n\u00e3o irrevers\u00edvel de tais anomalias, super\u00e1veis atrav\u00e9s do uso de uma lente de contacto ou cirurgia, e de o autor mesmo assim, e tal como se nos afigura resultar da mat\u00e9ria factual apurada, ter beneficiado,\u00a0<u>pelo menos ao n\u00edvel do olho direito<\/u>\u00a0intervencionado, de uma melhoria significativa da sua acuidade visual, quando comparada com a acuidade visual pr\u00e9via ao tratamento, expressa na redu\u00e7\u00e3o bastante acentuada da miopia e do astigmatismo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E da\u00ed que, se justifique, \u00e0 luz do citado art\u00ba. 570\u00ba, n\u00ba. 1, do CC, uma redu\u00e7\u00e3o do montante da indemniza\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o podemos, todavia, desconsiderar o grau de les\u00e3o\/ofensa que o A. sofreu no seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o na escolha dos cuidados de sa\u00fade, ao ter prestado um consentimento, n\u00e3o devidamente informado, para as aludidas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas (e \u00e0s quais n\u00e3o se teria submetido se tivesse sido devidamente informado\/esclarecido), bem como as sequelas f\u00edsicas e espirituais (ao n\u00edvel dos inc\u00f3modos e abalos psicol\u00f3gicos) com que atualmente ainda se depara (embora, enfatize-se, sendo todas elas revers\u00edveis e para as quais contribuiu com o seu sobredito comportamento).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Igualmente n\u00e3o poderemos desconsiderar as atividades profissionais que as referidas partes h\u00e1 muito exercem (advocacia e especialistas de medicina), indiciadoras (pois da mat\u00e9ria factual apurada nada resulta em contr\u00e1rio), de acordo as regras da experi\u00eancia comum de vida, de disporem de boa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, e bem como o (longo) tempo j\u00e1 decorrido sobre a data da ocorr\u00eancia dos acontecimentos aqui em aprecia\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por fim, n\u00e3o poderemos ainda deixar de considerar a dignidade que deve estar associada nos tempos hodiernos aos montantes indemnizat\u00f3rios.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim,\u00a0<u>num ju\u00edzo pondera\u00e7\u00e3o global de tais circunst\u00e2ncias e da equidade,<\/u>\u00a0afigura-se-nos como ajustado fixar o montante compensat\u00f3rio de tais danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pelo autor na quantia global de\u00a0<u>\u20ac 20.000,00 (vinte mil euros), a suportar em partes iguais por cada um dos referidos RR. m\u00e9dicos\u00a0<\/u>(pois n\u00e3o vislumbramos, no caso, raz\u00f5es para os diferenciar nessa obriga\u00e7\u00e3o), assim, se elevando a quantia indemnizat\u00f3ria arbitrada pelo tribunal a<em>\u00a0quo<\/em>, e nessa medida se revogando o seu ac\u00f3rd\u00e3o sobre o decidido em tal quest\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Quantia essa atualizada \u00e0 presente data, a qual dever\u00e3o acrescer os correspondentes juros de mora, \u00e0 taxa civil em vigor, e at\u00e9 ao seu integral pagamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>***<\/strong><\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"8\"><li><strong>Quanto \u00e0 5\u00aa. quest\u00e3o.<\/strong><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Da condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us na devolu\u00e7\u00e3o das quantias pagas<\/u>\u00a0(recurso independente).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pretende o autor\/recorrente a condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us na devolu\u00e7\u00e3o das quantias por si pagas pelas interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas levas a cabo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A decis\u00e3o recorrida considerou que\u00a0<u>a restri\u00e7\u00e3o do objeto da apela\u00e7\u00e3o<\/u>\u00a0\u201c<em>determina que o julgamento que aqui cabe n\u00e3o possa ter como fundamento a causa de pedir baseada nos contratos celebrados com os m\u00e9dicos e a sua resolu\u00e7\u00e3o por incumprimento das respectivas obriga\u00e7\u00f5es, mas apenas a indemniza\u00e7\u00e3o dos danos resultantes de um il\u00edcito civil com fundamento no artigo 483.\u00ba do C\u00f3digo Civil, o que remete para os danos que t\u00eam como causa adequada o facto il\u00edcito, n\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o do contrato e do respectivo sinalagma decorrente da respectiva nulidade ou resolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o arguidas na ac\u00e7\u00e3o<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">A viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o por parte dos r\u00e9us m\u00e9dicos \u2013 cuja aprecia\u00e7\u00e3o, de forma cristalina, integrou o objeto do recurso de apela\u00e7\u00e3o \u2013 configura um caso de concurso de responsabilidade civil contratual (cumprimento defeituoso de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dico-paciente) e de responsabilidade civil extracontratual, fundada na viola\u00e7\u00e3o dos direitos subjetivos do autor \u00e0 integridade f\u00edsica e moral, ao livre desenvolvimento da personalidade e \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o (art\u00bas. 25\u00ba\/1 e 26\u00ba\/1, da Constitui\u00e7\u00e3o e 70\u00ba\/1 do C\u00f3digo Civil) (Para al\u00e9m do que j\u00e1 supra deix\u00e1mos referenciado a esse respeito, cfr. o j\u00e1 acima citado\u00a0<strong><em>Ac. do STJ de 02\/06\/2015<\/em><\/strong><em>)<\/em>. Estamos, assim, no campo da relev\u00e2ncia da les\u00e3o de direitos absolutos no decurso do cumprimento de uma obriga\u00e7\u00e3o contratual de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, tamb\u00e9m como j\u00e1 ressalta do que acima se deixou referenciado a esse respeito (citando-se a esse prop\u00f3sito o\u00a0<strong><em>Ac. do STJ de 22\/03\/2018, proc. 7053\/12.7TBVG.P1.S1<\/em><\/strong>), como fez notar o\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 28\/01\/2016 (proc.<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>n\u00ba. 136\/12.5TVLSB.L1.S1,\u00a0<\/em><\/strong>dispon\u00edvel em www.dgsi.pt),<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>verificando-se uma situa\u00e7\u00e3o de concurso de responsabilidade civil contratual e extracontratual,<em>\u00a0\u201cA orienta\u00e7\u00e3o da jurisprud\u00eancia deste Supremo Tribunal \u00a0(\u2026), \u00e9 no sentido da op\u00e7\u00e3o pelo regime da responsabilidade contratual por ser mais conforme ao princ\u00edpio geral da autonomia privada e por ser, em regra, mais favor\u00e1vel ao lesado<\/em>.\u201d (cfr. nesse sentido ainda os ali citados\u00a0<strong><em>Acs. do STJ de<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>01<\/em><\/strong>\/<strong><em>10\/2015, proc. n\u00ba 2104\/05.4TBPVZ.P1.S1, de 02\/06\/2015, proc. 1263\/06.3TVPRT.P1.S1, de 11\/062013, proc. n\u00ba. 544\/10.6TBSTS.P1.S1, de 15\/12\/2011, proc. n\u00ba. 209\/06.3TVPRT.P1.S1, de 15\/09 de 2011, proc. n\u00ba 674\/2001.P1.S1, e de 17\/12\/2009, proc. n\u00ba. 544\/09.9YFLSB<\/em><\/strong><em>,\u00a0<\/em>todos dispon\u00edveis em www.dgsi.p<em>t).<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Nessa mesma linha,\u00a0<strong><em>o\u00a0<\/em>ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo de 02\/11\/2017 (proc. n\u00ba. 23592\/11.4T2SNT.L1.S1,<\/strong>\u00a0dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>)<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>sublinhou que o dever de esclarecimento e de informa\u00e7\u00e3o resulta, simultaneamente, da lei e do contrato, \u201ccomo dever acess\u00f3rio do dever principal\u201d. Alguns autores, de entre os quais se salienta\u00a0<strong><em>Nuno Pinto Oliveira<\/em><\/strong>, v\u00e3o ainda mais longe aduzindo que \u201ca qualifica\u00e7\u00e3o do dever de esclarecimento e\/ou de informa\u00e7\u00e3o como um dever acess\u00f3rio de conduta ou dever lateral sugere, de uma forma expl\u00edcita ou impl\u00edcita, que o consentimento, o esclarecimento e a informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o importantes \u2014 ou, pelo menos, que consentimento, esclarecimento e informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o importantes como o tratamento\u201d, concluindo depois que \u201ccomo os bens jur\u00eddicos da autonomia, da sa\u00fade e da vida devem ter igual dignidade ou igual valor, o acto m\u00e9dico deve representar-se como um processo em que o consentimento e o tratamento s\u00e3o co-essenciais.\u201d (\u201c<strong><em>Ilicitude e Culpa na Responsabilidade M\u00e9dica\u201d, Materiais para o Direito da Sa\u00fade, Centro de Direito Biom\u00e9dico, Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, p. 51, acess\u00edvelem<\/em><\/strong><a href=\"https:\/\/www.uc.pt\/fduc\/ij\/publicacoes\/pdfs\/imateriais\/Imateriais_1.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong><em>https:\/\/www.uc.pt\/fduc\/ij\/publicacoes\/pdfs\/imateriais\/Imateriais_1.pdf<\/em><\/strong><\/a><em>\u201d<strong>).<\/strong><\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, sendo assim, e enquadrando a responsabilidade dos r\u00e9us m\u00e9dicos no dom\u00ednio da responsabilidade civil contratual, h\u00e1 que n\u00e3o desconsiderar que as quantias que o recorrente reclama correspondem, n\u00e3o a uma indemniza\u00e7\u00e3o por danos patrimoniais advenientes do cumprimento defeituoso do contrato por viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o, mas \u00e0 restitui\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o pago pelas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas realizadas \u2013 sendo que a \u201cdestrui\u00e7\u00e3o\u201d do contrato, atrav\u00e9s da sua resolu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi, efetivamente, objeto do recurso de apela\u00e7\u00e3o, encontrando-se, por isso, precludida a sua aprecia\u00e7\u00e3o na presente sede.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo que a decis\u00e3o proferida a este respeito dever\u00e1, assim, ser mantida, so\u00e7obrando a pretens\u00e3o do recorrente-autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"9\"><li><strong>Quanto \u00e0 6\u00aa. quest\u00e3o.<\/strong><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Da responsabilidade da r\u00e9 HPP\/Lus\u00edadas SA<\/u>. (recurso subordinado).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pretende, finalmente, o\u00a0<u>recorrente subordinado\u00a0<\/u>a condena\u00e7\u00e3o da r\u00e9 HPP Norte (agora Lus\u00edadas S.A.), com fundamento no disposto no art\u00ba 500.\u00ba do C\u00f3digo Civil, alegando para o efeito que os atos m\u00e9dicos sob escrut\u00ednio foram praticados no \u00e2mbito de uma rela\u00e7\u00e3o de comiss\u00e3o estabelecida com aquela sociedade por for\u00e7a do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os celebrado entre as partes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Esta pretens\u00e3o vai, ali\u00e1s, de encontro ao peticionado pelo recorrente-autor, que igualmente pretende a responsabiliza\u00e7\u00e3o desta institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade privada, ainda que n\u00e3o tenha autonomizado tal ponto nas alega\u00e7\u00f5es de recurso apresentadas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A r\u00e9 LUS\u00cdADAS, SA., (antes HPP) pugna pela improced\u00eancia da pretens\u00e3o vertente, aduzindo, em s\u00edntese, que o objeto do recurso perante o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto foi delimitado \u00e0s consequ\u00eancias da falta de consentimento informado por parte do recorrente, tendo o julgamento desta inst\u00e2ncia se pronunciado apenas sobre o \u201cquantum\u201d indemnizat\u00f3rio dos danos resultantes de um il\u00edcito civil com fundamento no artigo 483\u00ba do C\u00f3digo Civil.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O tribunal recorrido negou tal pretens\u00e3o, apreciando a quest\u00e3o nos seguintes termos fundamentadores: \u201c<em>Est\u00e3o igualmente demandadas sociedades comerciais em cujas instala\u00e7\u00f5es decorreram os actos m\u00e9dicos contratados com os m\u00e9dicos. Sucede que em virtude da delimita\u00e7\u00e3o do objecto do recurso, esta Rela\u00e7\u00e3o apenas pode apreciar a causa de pedir fundada no instituto da responsabilidade civil, no preenchimento dos pressupostos do artigo 483.\u00ba do C\u00f3digo Civil, nas consequ\u00eancias da pr\u00e1tica de um acto l\u00edcito pelos m\u00e9dicos com os quais o autor contratou a pr\u00e1tica dos actos m\u00e9dicos em cuja execu\u00e7\u00e3o se verificou aquela ilicitude.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Nesse contexto, a mat\u00e9ria de facto provada \u00e9 insuficiente para condenar aquelas sociedades no pagamento da indemniza\u00e7\u00e3o. Na verdade, n\u00e3o tendo sido elas as autoras do acto il\u00edcito e cabendo a responsabilidade em regra ao autor e apenas a terceiros nos casos excepcionais em que a lei o prev\u00ea, n\u00e3o basta para as responsabilizar o ter-se demonstrado que os m\u00e9dicos prestavam colabora\u00e7\u00e3o a essas sociedades (factos dos pontos 20 e 22) e\/ou que os actos foram praticados em instala\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas ou hospitalares pertencentes \u00e0s sociedades.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Era sempre necess\u00e1rio algo mais, designadamente a demonstra\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o de pluralidade de autores, instigadores ou auxiliares (artigo 490.\u00ba do C\u00f3digo Civil) ou de uma rela\u00e7\u00e3o de comiss\u00e3o entre as sociedades e os m\u00e9dicos (artigo 500.\u00ba do C\u00f3digo Civil). Refira-se que foi o pr\u00f3prio autor a alegar o desconhecimento na natureza da rela\u00e7\u00e3o entre os m\u00e9dicos e as referidas sociedades ao abrigo da qual eles exerciam a medicina em instala\u00e7\u00f5es destas, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o foi sequer alegado um fundamento para imputar \u00e0s referidas sociedades a responsabilidade perante terceiros por actos il\u00edcitos cometidos na pr\u00e1tica cl\u00ednica dos m\u00e9dicos<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Vejamos os contornos da rela\u00e7\u00e3o estabelecida entre o autor e a recorrida HPP \u2013 Norte (agora Lus\u00edadas, SA.).<\/p><p style=\"text-align: justify\">O enquadramento jur\u00eddico a aplicar \u00e0 quest\u00e3o vertente n\u00e3o converge inteiramente com argumenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica empreendida pela decis\u00e3o recorrida (embora, avance-se desde j\u00e1, resultado final seja id\u00eantico).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em primeiro lugar, cumpre real\u00e7ar que a circunscri\u00e7\u00e3o do objeto do recurso \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o por parte do r\u00e9u m\u00e9dico n\u00e3o obsta a que se analise a responsabilidade da cl\u00ednica pelos danos decorrentes, precisamente, dessa viola\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em segundo lugar, afigura-se-nos, salvo melhor opini\u00e3o, que essa responsabilidade deve ser aferida, n\u00e3o \u00e0 luz do preceituado no art\u00ba. 500\u00ba do C\u00f3digo Civil, mas por refer\u00eancia ao regime estatu\u00eddo no art\u00ba. 800\u00ba, n\u00ba. 1, desse diploma, e que disciplina a responsabilidade por facto de outrem no dom\u00ednio contratual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Vejamos.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>In casu<\/em>\u00a0ficou demonstrado que as sucessivas consultas do autor com o r\u00e9u BB \u2013 profissional que lhe foi indicado como respons\u00e1vel pelo tratamento (ponto 30 dos factos provados) - tiveram lugar nas instala\u00e7\u00f5es da cl\u00ednica recorrida, onde o recorrente subordinado prestava colabora\u00e7\u00e3o como especialista em oftalmologia. Provado ficou, ainda, ter sido naquelas instala\u00e7\u00f5es que o autor foi submetido \u00e0 interven\u00e7\u00e3o com recurso \u00e0 t\u00e9cnica Lasik, tendo sido nas mesmas que efetuou o respetivo pagamento (pontos 42 e 44 da mat\u00e9ria de facto provada). Assente ficou, no entanto, que todos os contactos do autor com vista \u00e0 presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os referidos tiveram lugar diretamente com o r\u00e9u m\u00e9dico, nunca tendo o autor contactado com qualquer respons\u00e1vel social da ent\u00e3o HPP \u2013 Norte, S.A. (ponto 43 dos factos provados).<\/p><p style=\"text-align: justify\">A facticidade em crise poder-nos-ia conduzir para a exist\u00eancia, n\u00e3o de um \u201ccontrato total\u201d (sobre esta modalidade, cfr<strong>. o\u00a0<em>ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 23\/03\/2017, proc. n\u00ba.\u00a0 296\/07.7TBMCN.P1.S1<\/em><\/strong>, dispon\u00edvel em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>)<strong>\u00a0<\/strong>mas de uma modalidade de contrato que a doutrina denomina como \u201c<strong>contrato dividido<\/strong>\u201d, em que a cl\u00ednica\/hospital assume, em regra, as obriga\u00e7\u00f5es decorrentes da realiza\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o (loca\u00e7\u00e3o de equipamentos, fornecimento de medica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tendo existido internamento \u201c<em>in casu<\/em>\u201d), enquanto o servi\u00e7o m\u00e9dico \u00e9 direta e autonomamente celebrado por um m\u00e9dico (atos m\u00e9dicos). Segundo ainda o entendimento plasmado nesse citado ac\u00f3rd\u00e3o \u201c<em>I<\/em>-\u00a0<em>No \u00e2mbito de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos, de natureza civil, celebrado entre uma institui\u00e7\u00e3o prestadora de cuidados de sa\u00fade e um paciente, na modalidade de contrato total, \u00e9 aquela institui\u00e7\u00e3o quem responde exclusivamente, perante o paciente credor, pelos danos decorrentes da execu\u00e7\u00e3o dos atos m\u00e9dicos realizados pelo m\u00e9dico na qualidade de \u201cauxiliar\u201d no cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o contratual, nos termos do artigo 800.\u00ba, n.\u00ba 1, do CC. II- Por\u00e9m, o m\u00e9dico poder\u00e1 tamb\u00e9m responder perante o paciente a t\u00edtulo de responsabilidade civil extracontratual concomitante ou, eventualmente, no \u00e2mbito de alguma obriga\u00e7\u00e3o negocial que tenha assumido com aquele<\/em>.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em tais casos, e conforme discorre\u00a0<strong><em>Andr\u00e9 Dias Pereira<\/em><\/strong>, \u201ca responsabilidade da cl\u00ednica e do m\u00e9dico assistente \u00e9 dividida nos exatos termos acordados no contrato, isto \u00e9, a cl\u00ednica responde pelas presta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas de assist\u00eancia hospitalar: prepara\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es e equipamentos, contrata\u00e7\u00e3o e disponibiliza\u00e7\u00e3o de assistentes e ajudantes da equipa m\u00e9dica (excluindo aqueles que o m\u00e9dico escolher pessoalmente), presta\u00e7\u00e3o de medicamentos, comida e instala\u00e7\u00f5es hoteleiras. O titular da cl\u00ednica responde, pois, pelos comportamentos dos seus \u00f3rg\u00e3os, representantes e auxiliares (art. 800.\u00ba). O m\u00e9dico contratado, por seu turno, responde pelas presta\u00e7\u00f5es de natureza m\u00e9dica e terap\u00eautica, pelo seu pr\u00f3prio incumprimento (art. 798.\u00ba) e os dos seus auxiliares (art. 800.\u00ba).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em suma, a cl\u00ednica tem, nestes casos, a possibilidade de reclamar a ilegitimidade numa lide de responsabilidade m\u00e9dica, ou, pelo menos, de n\u00e3o ser responsabilizada (solidariamente) pelos danos decorrentes de um erro m\u00e9dico (in \u201c<strong><em>Ob<\/em><\/strong><em>.\u00a0<strong>cit., p\u00e1g. 600<\/strong>\u201d<\/em>, acess\u00edvel em https:\/\/estudogeral.sib.uc.pt\/bitstream\/10316\/31524\/1\/Direitos%20dos%20pacientes%20e%20responsabilidade%20m%C3%A9dica.pdf\u201d).\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Flui, pois, do exposto que ante o programa contratual vigente entre as partes, a recorrida HPP\/Lus\u00edadas, S.A., n\u00e3o dever\u00e1 ser responsabilizada pelos danos decorrentes da viola\u00e7\u00e3o, por parte do r\u00e9u BB, do dever de informa\u00e7\u00e3o, enquanto cumprimento defeituoso da presta\u00e7\u00e3o de natureza m\u00e9dica, sendo certo ainda a manifesta insufici\u00eancia da mat\u00e9ria factual apurada no sentido de permitir caracterizar (com um m\u00ednimo de seguran\u00e7a\/certeza) a rela\u00e7\u00e3o contratual estabelecida, a tal prop\u00f3sito, entre as duas partes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Diga-se, ali\u00e1s, que id\u00eantico racioc\u00ednio \u00e9 de fazer, com resultado final semelhante, no que concerne \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre os RR. CC e a Cl\u00ednica Oftalmol\u00f3gica Ribeiro-Barraquer, SA., .<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 assim de manter, ainda que fazendo apelo a fundamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o coincidente, a decis\u00e3o recorrida neste particular.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>***<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>III - Decis\u00e3o<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, perante o exposto, acorda-se em:<\/p><p style=\"text-align: justify\">1) Julgar totalmente improcedente o recurso subordinado do R. BB.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2) Conceder parcial proced\u00eancia ao recurso (de revista) independente e condenar\u00a0<u>cada um<\/u>\u00a0dos r\u00e9us,\u00a0<strong>BB e CC,<\/strong>\u00a0a pagar ao autor,\u00a0<strong>AA<\/strong>, a quantia indemnizat\u00f3ria, a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais, de \u20ac\u00a0<u>10.000,00 (dez mil euros<\/u>), acrescida de juros de mora, \u00e0 taxa legal em vigor, vencidos a contar da presente data e at\u00e9 ao seu integral pagamento, alterando-se nessa medida o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3) Manter,\u00a0<u>quanto ao demais<\/u>, o decidido no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Custas da a\u00e7\u00e3o<\/u>\u00a0pelo A. e por cada um dos sobreditos RR., na propor\u00e7\u00e3o do seu respetivo decaimento, e que para o efeito se fixa em 4\/5 para o primeiro e 1\/5 para os segundos.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Custas do recurso subordinado<\/u>\u00a0pelo R. BB.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas do recurso independente pelo A. e pelos RR. BB e CC na propor\u00e7\u00e3o do seu decaimento, e que para o efeito se fixa em 4\/5 para o primeiro e 1\/5 para os segundos (art\u00ba. 527\u00ba, n\u00bas 1 e 2, do CPC).<\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Sum\u00e1rio:<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">I - A a\u00e7\u00e3o de responsabilidade civil por atos m\u00e9dicos pode fundar-se no erro m\u00e9dico e\/ou na viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">II - Na 1\u00aa. situa\u00e7\u00e3o visa-se, essencialmente, tutelar a sa\u00fade e a vida do paciente, enquanto que na 2\u00aa. situa\u00e7\u00e3o de causa de pedir o bem jur\u00eddico tutelado \u00e9 o direito do paciente \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o na escolha dos cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III - Tanto o dever de informa\u00e7\u00e3o (a que est\u00e1 vinculado o m\u00e9dico, e que constitui um dos requisitos da licitude sua atividade) como o consentimento do paciente para pr\u00e1tica do ato m\u00e9dico (que deve se livre e esclarecido, tendo por base essa informa\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 transmitida, sob pena da sua invalidade, salvo naquelas situa\u00e7\u00f5es excecionais de urg\u00eancia, em que estando perigosamente em causa a sua vida\/sa\u00fade, o mesmo n\u00e3o possa ser obtido em tempo \u00fatil e se dever\u00e1 ent\u00e3o presumir) s\u00e3o de conte\u00fado el\u00e1stico, devendo ser aferidos \u00e0 luz das especificidades de cada caso concreto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IV - Funcionando o consentimento como causa de exclus\u00e3o da ilicitude da sua atua\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobre o m\u00e9dico que impende o \u00f3nus de prova do consentimento (livre e esclarecido) prestado pelo paciente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">V - Em regra, a obriga\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o de meios, embora em casos muito particulares ou espec\u00edficos possa transformar-se numa obriga\u00e7\u00e3o de resultado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VI - Em a\u00e7\u00e3o de responsabilidade civil m\u00e9dica em que a causa de pedir radica na viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado, o c\u00e1lculo do montante indemnizat\u00f3rio por danos n\u00e3o patrimoniais dever\u00e1 ser feito com base em crit\u00e9rios de equidade, atendendo, nomeadamente, ao grau de culpabilidade\/censurabilidade do respons\u00e1vel m\u00e9dico e bem como do pr\u00f3prio lesado na situa\u00e7\u00e3o geradora desses danos, \u00e0 gravidade e dimens\u00e3o desses mesmos danos e \u00e0 pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica quer do lesante, quer do lesado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">***<\/p><p style=\"text-align: justify\">Lisboa, 2021\/12\/14<\/p><p style=\"text-align: justify\">Relator: cons. Isa\u00edas P\u00e1dua<\/p><p style=\"text-align: justify\">Adjuntos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cons. Nuno Ata\u00edde das Neves<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cons. Maria Clara Sottomayor (Voto vencida, de acordo com declara\u00e7\u00e3o que junto)<\/p><p style=\"text-align: justify\">****<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Segue-se a declara\u00e7\u00e3o de voto da exma. sra. conselheira Clara Sotto Mayor (2\u00aa. adjunta):<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Revista n.\u00ba 711\/10.2TVPRT.P1.S1<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Declara\u00e7\u00e3o de voto<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Teria revogado o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido e arbitrado, em face da factualidade provada, valores mais elevados de montante indemnizat\u00f3rio ao autor, correspondentes \u00e0 totalidade dos danos por si sofridos, por entender que no caso concreto n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel a norma do artigo 570.\u00ba do C\u00f3digo Civil, como fundamento da exclus\u00e3o ou da redu\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O relevo da culpa do lesado traduz um princ\u00edpio geral da teoria da responsabilidade civil. Todavia, a sua aplicabilidade aos casos de responsabilidade m\u00e9dica, em que o paciente ocupa o lugar central e merece maior prote\u00e7\u00e3o pela sua vulnerabilidade, deve ser feita, tendo em conta a especificidade da rela\u00e7\u00e3o-m\u00e9dico doente e o papel que a confian\u00e7a no m\u00e9dico representa para o paciente.\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nos casos em que a responsabilidade m\u00e9dica decorre do incumprimento do dever de informa\u00e7\u00e3o pelo m\u00e9dico, como no caso dos autos, penso que n\u00e3o pode sequer falar-se em culpa do lesado, por tr\u00eas motivos: 1) O tratamento que o lesado rejeitou (retoque no olho direito e opera\u00e7\u00e3o no olho esquerdo) era precisamente a corre\u00e7\u00e3o de um tratamento j\u00e1 iniciado no olho direito e que lhe tinha causado les\u00f5es (factos provados n.\u00bas 47, 49, 51 e 102); 2) Em rela\u00e7\u00e3o a esse tratamento, provou-se que os m\u00e9dicos n\u00e3o informaram o paciente de todos os riscos e efeitos secund\u00e1rios, nem da exist\u00eancia de outras t\u00e9cnicas alternativas (factos provados n.\u00ba 38, 68, 69 e 87); 3) provou-se ainda que o paciente n\u00e3o teria decidido operar-se aos olhos se soubesse dos riscos da interven\u00e7\u00e3o (facto provado n.\u00ba 86).\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">Considero, portanto, que o comportamento do autor de recusar a opera\u00e7\u00e3o ao olho direito para corre\u00e7\u00e3o das defici\u00eancias provocadas pela primeira interven\u00e7\u00e3o (bem como de recusar operar o olho esquerdo) n\u00e3o consistiu num comportamento censur\u00e1vel do lesado, mas numa medida de autoprote\u00e7\u00e3o e de prud\u00eancia natural da parte de quem valoriza o seu corpo,\u00a0<em>in casu<\/em>, os seus olhos, e tem, compreensivelmente, medo de os perder. Esta vulnerabilidade de um paciente em rela\u00e7\u00e3o a um \u00f3rg\u00e3o vital como os olhos n\u00e3o pode ser censurada nem valorada como recusa em colaborar com um programa de tratamento. Censur\u00e1vel poder\u00e1 ser, por exemplo, a recusa em tomar uma medica\u00e7\u00e3o ou a ado\u00e7\u00e3o de comportamentos expressamente desaconselhados pelo m\u00e9dico, ou proibidos, o que n\u00e3o foi o caso. O que ficou provado foi que o autor decidiu realizar a opera\u00e7\u00e3o a um olho de cada vez e proceder \u00e0 opera\u00e7\u00e3o do olho esquerdo s\u00f3 depois de assegurar que o olho direito estava bem e disso informou o m\u00e9dico, o que este aceitou (factos provados 49 a 52). Provou-se ainda que o autor n\u00e3o se teria sujeitado \u00e0 opera\u00e7\u00e3o aos olhos com a t\u00e9cnica Lasik se soubesse os riscos que corria (facto provado n.\u00ba 86). Neste quadro f\u00e1ctico, mesmo tendo em conta os factos n.\u00ba 37 e 94, penso n\u00e3o poder imputar-se qualquer censurabilidade \u00e0 conduta do autor que justifique redu\u00e7\u00e3o ou exclus\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do artigo 570.\u00ba.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em rela\u00e7\u00e3o ao segundo m\u00e9dico consultado, menos ainda se poder\u00e1 falar de qualquer culpa do lesado, uma vez que este sujeitou-se a duas interven\u00e7\u00f5es para corrigir o olho direito (factos provados n.\u00bas 71 e 75), sem sucesso (tendo ainda, ap\u00f3s essas interven\u00e7\u00f5es corretivas piorado a qualidade da sua vis\u00e3o \u2013 facto n.\u00ba 77), n\u00e3o sendo, de todo, exig\u00edvel, que se sujeitasse a mais tratamentos, ou que arriscasse operar o olho esquerdo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O paciente \u00e9 dono do seu corpo e por isso mesmo deve ser esclarecido sobre as alternativas terap\u00eauticas e sobre o balan\u00e7o custo-benef\u00edcio destas, para que fique plenamente ciente dos riscos que acarreta e das obriga\u00e7\u00f5es de colabora\u00e7\u00e3o que lhe incumbem.\u00a0 Ora, se os m\u00e9dicos em causa n\u00e3o inteiraram o paciente de todos os riscos e efeitos secund\u00e1rios inerentes \u00e0s interven\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas, como se provou, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 exig\u00edvel ao paciente que colabore com o m\u00e9dico quando se verifica um desses riscos com o qual n\u00e3o contava por n\u00e3o ter sido informado. Tanto mais que o m\u00e9dico BB nem sequer respondeu \u00e0 carta que o autor lhe dirigiu a pedir esclarecimentos sobre os problemas do seu olho direito ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o e procedimentos a seguir (facto provado n.\u00ba 57). N\u00e3o se pode olvidar que o elemento confian\u00e7a \u00e9 o cerne da rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente e nestas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o se pode censurar o paciente por perder a confian\u00e7a no m\u00e9dico e rejeitar a continua\u00e7\u00e3o de um tratamento sobre cujos riscos n\u00e3o foi devidamente informado. A rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente, apesar de ser uma rela\u00e7\u00e3o contratual, obedece a uma l\u00f3gica muito distinta de outros contratos, e o paciente, que recusa, neste contexto, e em rela\u00e7\u00e3o a um \u00f3rg\u00e3o vital, a corre\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o deficiente, n\u00e3o pode ser censurado como seria qualquer outro credor que recusasse uma presta\u00e7\u00e3o de facto. A perda da confian\u00e7a no m\u00e9dico \u00e9, pois, um motivo leg\u00edtimo para recusar colaborar na continua\u00e7\u00e3o de um tratamento que j\u00e1 deixou sequelas no corpo do paciente (factos n.\u00ba 47 e 88) e em rela\u00e7\u00e3o ao qual o m\u00e9dico continuou sem cumprir os seus deveres de informa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mesmo nos casos em que seja aplic\u00e1vel o artigo 570.\u00ba do C\u00f3digo Civil (culpa do lesado), parece-me ser a exclus\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o uma solu\u00e7\u00e3o apenas adequada para casos de neglig\u00eancia grave do paciente, devendo, em regra, optar-se por solu\u00e7\u00f5es equitativas de reparti\u00e7\u00e3o de responsabilidades entre o paciente e o m\u00e9dico. A esta luz, afigura-se-me tamb\u00e9m, que, no caso dos autos, surge como desproporcionada a exclus\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o por todas as despesas que o autor venha a suportar com tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos que futuramente possam vir a ser executados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Maria Clara Sottomayor<\/p><p>Fonte:\"<a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/711-2021-188364875\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/711-2021-188364875<\/a>\"<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-7b17b21 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-7b17b21 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-7b17b21\").on('click', function(){\n                        $(\".htmega-toggle-content-7b17b21\").slideToggle('slow');\n                        $(this).removeAttr(\"href\");\n                        $(this).parent().toggleClass(\"open\");\n                    });\n                });\n            <\/script>\n        \t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-2d6f87b e-con-full e-flex wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-child\" data-id=\"2d6f87b\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e44d558 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"e44d558\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"270\" src=\"https:\/\/omeucaminho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/FTNG03.png\" class=\"attachment-large size-large wp-image-3958\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/omeucaminho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/FTNG03.png 360w, https:\/\/omeucaminho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/FTNG03-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-ab924fc e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-id=\"ab924fc\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-56447a7 e-con-full e-flex wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-child\" data-id=\"56447a7\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-63ba093 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"63ba093\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Ac\u00f3rd\u00e3o 3925\/07.9TVPRT.P1.S1\n<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-1c833a5 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"1c833a5\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>2 &#8211; Sec\u00e7\u00e3o<\/p><p><strong>Ato Medico<\/strong><\/p><p><strong>Consentimento Informado<\/strong><\/p><p><strong>Dever de esclarecimento<\/strong><\/p><p><strong>\u00a0<\/strong>REVISTA<\/p><p>NEGADA A REVISTA<\/p><p>09\/10\/2014<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-d632c75 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"d632c75\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-d632c75\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">DIREITO BIOM\u00c9DICO - DIREITO DA MEDICINA \/ ACTO M\u00c9DICO \/ ATO M\u00c9DICO \/ CONSENTIMENTO INFORMADO \/ RESPONSABILIDADE M\u00c9DICA.<\/p><p style=\"text-align: justify\">DIREITO CIVIL - RELA\u00c7\u00d5ES JUR\u00cdDICAS \/ PESSOAS SINGULARES \/ EXERC\u00cdCIO E TUTELA DE DIREITOS \/ PROVAS.<\/p><p style=\"text-align: justify\">DIREITO CONSTITUCIONAL - DIREITOS E DEVERES FUNDAMENTAIS \/ DIREITOS, LIBERDADES E GARANTIAS PESSOAIS.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- \u00c1lvaro Rodrigues, A Responsabilidade M\u00e9dica em Direito Penal, pp. 41, 346.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Andr\u00e9 Pereira, O Dever de Esclarecimento e a Responsabilidade M\u00e9dica, in Responsabilidade Civil dos M\u00e9dicos, Centro Biom\u00e9dico da Universidade de Coimbra, n.\u00ba 11, pp. 457, 478.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Costa Andrade, Coment\u00e1rio Conimbricense ao C\u00f3digo Penal, I, p. 399 in fine.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Guilherme de Oliveira, RLJ n.\u00ba 3923, p.34 e seguintes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Jos\u00e9 Lago, \u201cConsientemiento Informado y Responsabilidade Civil\u201d, na revista Julgar, N\u00famero Especial, 2014, 163.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Menezes Cordeiro, Tratado de Direito Civil Portugu\u00eas, Parte Geral, I, Tomo I, p. 429.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Rute Pedro, A Responsabilidade Civil do M\u00e9dico Reflex\u00f5es Sobre a No\u00e7\u00e3o da Perda de Chance e a Tutela do Doente Lesado, in Centro de Direito Biom\u00e9dico da Universidade de Coimbra, n.\u00ba 15, pp. 79, 440.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- S\u00e9rgio Deodato, Direito da Sa\u00fade, p.42.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cC\u00d3DIGO DEONTOL\u00d3GICO\u201d DA ORDEM DOS M\u00c9DICOS (PUBLICADO COMO \u201cREGULAMENTO\u201d NO DI\u00c1RIO DA REP\u00daBLICA, 2.\u00aa S\u00c9RIE, DE 13.1.2009): - ARTIGOS 44.\u00ba, N.\u00ba1 E 45.\u00ba, N.\u00ba1.<\/p><p style=\"text-align: justify\">BASE XIV DA LEI DE BASES DA SA\u00daDE (N.\u00ba 48\/99, DE 24.8, ALTERADA PELA LEI N.\u00ba 27\/2002DE 8.11).<\/p><p style=\"text-align: justify\">C\u00d3DIGO CIVIL (CC): - ARTIGOS 70.\u00ba, N.\u00ba1, 376.\u00ba, N.\u00ba2.<\/p><p style=\"text-align: justify\">C\u00d3DIGO PENAL (CP): - ARTIGOS 156.\u00ba, 157.\u00ba.<\/p><p style=\"text-align: justify\">CONSTITUI\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA PORTUGUESA (CRP): - ARTIGOS 1.\u00ba, 25.\u00ba,<\/p><p style=\"text-align: justify\">N.\u00ba1 E 27.\u00ba, N.\u00ba1.<\/p><p style=\"text-align: justify\">DECRETO-LEI N.\u00ba 446\/85, DE 25.10: - ARTIGO 1.\u00ba.<\/p><p style=\"text-align: justify\">CARTA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS DA UNI\u00c3O EUROPEIA: - ARTIGO 3.\u00ba.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- ARTIGO 5.\u00ba. DA CONVEN\u00c7\u00c3O PARA A PROTE\u00c7\u00c3O DOS DIREITOS DO HOMEM E DA DIGNIDADE DO SER HUMANO FACE \u00c0S APLICA\u00c7\u00d5ES DA BIOLOGIA E DA MEDICINA: CONVEN\u00c7\u00c3O SOBRE OS DIREITOS DO HOMEM E A BIOMEDICINA, VULGARMENTE CONHECIDA POR \u201cCONVEN\u00c7\u00c3O DE OVIEDO\u201d OU \u201cCDHBIO\u201d, DE 4.4.1997, RATIFICADA PELO DECRETO DO PRESIDENTE DA REP\u00daBLICA N.\u00ba1\/2001, DE 3.1 E PELA RESOLU\u00c7\u00c3O DA ASSEMBLEIA DA REP\u00daBLICA N.\u00ba1\/2001, DA MESMA DATA.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- CONVEN\u00c7\u00c3O EUROPEIA DOS DIREITOS DO HOMEM (CEDH): - ARTIGO 8.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\">AC\u00d3RD\u00c3OS DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTI\u00c7A:<\/p><p style=\"text-align: justify\">-DE 23.11.2005, PROCESSO N.\u00ba 5B3318, EM WWW.DGSI.PT.<\/p><p style=\"text-align: justify\">-DE 10.5.2007, PROCESSO N.\u00ba 07B841, EM WWW.DGSI.PT.<\/p><p style=\"text-align: justify\">-DE 18.3.2010, PROCESSO N.\u00ba 301\/06.4TVPRT.P1.S1, EM WWW.DGSI.PT.<\/p><p style=\"text-align: justify\">JURISPRUD\u00caNCIA DO TEDH:<\/p><p style=\"text-align: justify\">-DE 7.10.2008, BOGUMI CONTRA PORTUGAL, NO S\u00cdTIO DO PR\u00d3PRIO TRIBUNAL.<\/p><p style=\"text-align: justify\">JURISPRUD\u00caNCIA ALEM\u00c3:<\/p><p style=\"text-align: justify\">-AC\u00d3RD\u00c3O DO SUPREMO TRIBUNAL ALEM\u00c3O, DE 22.12.2010 3STR 239\/10,COM ACESSO NA INTERNET \u201cBUNDESGERICHTSHOF.DE\u201d, DEPOIS, \u201cENTSCHEIDUNGEN\u201d E, DEPOIS, A DATA.<\/p><p style=\"text-align: justify\">JURISPRUD\u00caNCIA FRANCESA:<\/p><p style=\"text-align: justify\">AC\u00d3RD\u00c3O DA COUR DE CASSATION, DE 7.10.1998<\/p><p style=\"text-align: justify\">1 . Com ressalvas que aqui n\u00e3o importam, o doente tem direito a ser informado, pelo m\u00e9dico, em ordem a poder decidir sobre se determinado ato m\u00e9dico que o vise deve ou n\u00e3o ser levado a cabo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 . Tal direito \u00e9 dispon\u00edvel.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 . O conte\u00fado do dever de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 el\u00e1stico, n\u00e3o sendo, nomeadamente, igual para todos os doentes na mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 . Abrange, salvo ressalvas que aqui tamb\u00e9m n\u00e3o interessam e al\u00e9m do mais, o diagn\u00f3stico e as consequ\u00eancias do tratamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5 . Estas s\u00e3o integradas pela refer\u00eancia \u00e0s vantagens prov\u00e1veis do mesmo e aos seus riscos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6 . N\u00e3o se exigindo, todavia, uma refer\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em detalhe.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7 . Nem a refer\u00eancia aos riscos de verifica\u00e7\u00e3o excecional ou muito rara, mesmo que graves ou ligados especificamente \u00e0quele tratamento.\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">8 . A refer\u00eancia num documento, assinado por m\u00e9dico e doente, a que aquele \u201cexplicou\u201d a este, \u201cde forma adequada e intelig\u00edvel\u201d, entre outras coisas, \u201cos riscos e\u00a0complica\u00e7\u00f5es duma cirurgia\u201d n\u00e3o permite ajuizar da adequa\u00e7\u00e3o e inteligibilidade e, bem assim, dos riscos concretamente indicados, pelo que \u00e9 manifestamente insuficiente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9 . Mas, se do mesmo documento consta que o doente n\u00e3o deve hesitar \u201cem solicitar mais informa\u00e7\u00f5es ao m\u00e9dico, se n\u00e3o estiver completamente esclarecido\u201d, deve entender-se que este abdicou do seu direito a ser informado em termos detalhados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10 . Para ser aplic\u00e1vel o regime de \u00f3nus de prova das cl\u00e1usulas contratuais gerais, o que dele pretende beneficiar tem, antes, de fazer prova de que estamos em terreno pr\u00f3prio destas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">11 . N\u00e3o tendo feito tal prova, sobre o doente, subscritor de tal documento, impende a demonstra\u00e7\u00e3o de que assinou em branco e de que nada do que ali consta lhe foi referido<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam no Supremo Tribunal de Justi\u00e7a:<\/p><p style=\"text-align: justify\">1 . AA instaurou a presente a\u00e7\u00e3o declarativa de condena\u00e7\u00e3o, sob a forma ordin\u00e1ria, contra:<\/p><p style=\"text-align: justify\">A Companhia de Seguros BB, S.A., Hospitais Privados de Portugal \u2013 HPP CC, S.A. e DD.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Alegou, em s\u00edntese, que:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ap\u00f3s ter sofrido ferida l\u00e1cero\u2013contusa com les\u00e3o dos nervos colaterais do polegar, veio a ser tratado clinicamente por ordem, conta e sob a responsabilidade da 1.\u00aa R\u00e9, no hospital demandado, onde lhe foi diagnosticada uma les\u00e3o de axonotmesis parcial do ramo tenar do nervo mediano esquerdo, com incapacidade e abdu\u00e7\u00e3o do polegar, embora com perfeita mobilidade da m\u00e3o, pulso, cotovelo e ombro; Numa das m\u00faltiplas consultas de ortopedia efetuadas no referido hospital, o Dr. EE, m\u00e9dico contratado e ao servi\u00e7o da 2.\u00aa R\u00e9, informou-o de que essa les\u00e3o s\u00f3 seria atenuada ou curada com uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica;<\/p><p style=\"text-align: justify\">A que acabou por ser submetido por decis\u00e3o do respectivo corpo cl\u00ednico;<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o lhe explicaram o tipo de interven\u00e7\u00e3o a que iriam proceder, as probabilidades de sucesso e graus de risco inerentes ao ato operat\u00f3rio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ap\u00f3s essa interven\u00e7\u00e3o, constitu\u00edda por uma oponentoplastia\/transfer\u00eancia do extensor radial do carpo, realizada pelo 3.\u00ba R., no HPP, ficou a padecer de limita\u00e7\u00e3o da mobilidade do dedo polegar, na flex\u00e3o e extens\u00e3o do cotovelo com limita\u00e7\u00e3o da supina\u00e7\u00e3o, retra\u00e7\u00e3o isqu\u00e9mica de Volkmann relativamente \u00e0 m\u00e3o esquerda, contractura na flex\u00e3o do punho, rigidez de todos os dedos da m\u00e3o esquerda, com impossibilidade de usar essa m\u00e3o, bem como rigidez do ombro esquerdo e incapacidade total para posicionar a m\u00e3o esquerda no espa\u00e7o e de com ela comunicar gestualmente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Sequelas essas que, se soubesse que lhe podiam advir, o teriam levado a rejeitar tal interven\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As mencionadas sequelas ficaram-se a dever \u00e0 culpa exclusiva e grave do 3.\u00ba R., dado ter atuado, quer na avalia\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do ato operat\u00f3rio, quer durante a cirurgia, com imper\u00edcia, neglig\u00eancia, inconsidera\u00e7\u00e3o e descuido, n\u00e3o aplicando a t\u00e9cnica adequada ao caso do A.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No \u00e2mbito de acidente de trabalho, pelas sequelas mencionadas, foi-lhe fixado um coeficiente global de incapacidade de 50% para a sua profiss\u00e3o habitual de marceneiro, tendo a 1.\u00aa R\u00e9 sido condenada, no respectivo processo, no pagamento dos montantes que especifica, sem que, no entanto, apesar de insistentemente procurar trabalho o tenha conseguido, apesar de n\u00e3o ter sido dado como incapaz para toda e qualquer outra profiss\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9, assim, dos RR. a responsabilidade por se encontrar nessa situa\u00e7\u00e3o de desemprego, bem como a responsabilidade por todos os danos n\u00e3o patrimoniais que diz ter sofrido e para cuja indemniza\u00e7\u00e3o reclama quantia nunca inferior a 50.000,00\u20ac.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pediu, em conformidade:<\/p><p style=\"text-align: justify\">A condena\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria destes a pagarem-lhe \u20ac 59.672,00\u20ac, acrescidos de juros \u00e0 taxa legal anual de 4%, desde a cita\u00e7\u00e3o at\u00e9 integral pagamento, bem como a quantia mensal de \u20ac 403,00, atualiz\u00e1vel anualmente pelo sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional, desde Outubro de 2007, inclusive, at\u00e9 que consiga emprego, e, ainda, por cada doze meses em situa\u00e7\u00e3o de desemprego, uma presta\u00e7\u00e3o igual de subs\u00eddio de f\u00e9rias e outra de subs\u00eddio de Natal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 .\u00a0Em contesta\u00e7\u00e3o, a 2.\u00aa e 3.\u00ba RR, referiram, no essencial, que:<\/p><p style=\"text-align: justify\">O m\u00e9dico que procedeu ao ato cir\u00fargico n\u00e3o foi o 3.\u00ba R., mas sim o Dr. EE;<\/p><p style=\"text-align: justify\">O A. consentiu expressamente que fosse realizada a oponentoplastia a que se submeteu, com pr\u00e9via informa\u00e7\u00e3o dos diagn\u00f3sticos, interven\u00e7\u00f5es e riscos associados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A referida oponentoplastia \u00e9 um procedimento adequado \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da m\u00e3o para o caso do A. e a op\u00e7\u00e3o imposta pelo saber m\u00e9dico mais atualizado para a obten\u00e7\u00e3o do resultado pretendido, isto \u00e9, a opon\u00eancia do polegar, sem que ocorresse qualquer contra indica\u00e7\u00e3o que a desaconselhasse, tendo a mesma decorrido de forma tecnicamente escrupulosa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O A. sofreu fratura do colo do \u00famero esquerdo no decurso do per\u00edodo de reabilita\u00e7\u00e3o,\u00a0fulcral para a sua recupera\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o foi, pois, a cirurgia que provocou as sequelas de natureza mec\u00e2nica descritas, s\u00f3 se explicando a alegada falta de mobilidade por uma recupera\u00e7\u00e3o deficiente ou outras circunst\u00e2ncias alheias \u00e0 atua\u00e7\u00e3o da responsabilidade dos RR.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E conclu\u00edram, defendendo a sua absolvi\u00e7\u00e3o do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 .\u00a0A contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa R\u00e9, declarada intempestiva, foi desentranhada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 . O A., em r\u00e9plica, manteve a sua tese sobre a falta de consentimento livre e esclarecido e alegou a inexist\u00eancia de qualquer rela\u00e7\u00e3o entre a fratura do colo do\u00a0\u00famero que sofreu e as sequelas de que ficou a padecer, pedindo, ainda, a n\u00e3o admiss\u00e3o, como prova, das fotografias e filmagens efetuadas, por as mesmas terem sido colhidas sem a sua autoriza\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5 . Deduziu incidente de interven\u00e7\u00e3o principal provocada contra EE que, admitido, determinou a respectiva cita\u00e7\u00e3o para a causa, na sequ\u00eancia do que veio aos autos declarar a sua ades\u00e3o \u00e0 defesa apresentada pelos 2.\u00aa e 3.\u00ba RR.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6 .\u00a0Foi proferido despacho a autorizar a prova colhida por fotografias e filmagem.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7 . Ap\u00f3s despacho saneador, foi realizada per\u00edcia m\u00e9dica, com pr\u00e9via fixa\u00e7\u00e3o do respectivo objeto, a prop\u00f3sito do que os 2.\u00aa e 3.\u00ba RR. vieram interpor recurso, por ter sido desatendida uma pretens\u00e3o sua referente \u00e0 determina\u00e7\u00e3o desse objeto, j\u00e1 que entendiam que ele era mais amplo do que aquele sobre que versou a per\u00edcia realizada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8 .\u00a0Tal recurso foi admitido como de agravo, com subida diferida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9 . A a\u00e7\u00e3o prosseguiu e, na devida oportunidade, foi proferida senten\u00e7a que absolveu e interveniente do pedido.A 1\u00aa r\u00e9 foi absolvida por a sua responsabilidade, fundada no contrato de seguro de acidentes de trabalho, j\u00e1 ter sido fixada na a\u00e7\u00e3o de acidente de trabalho, nenhuma outra lhe podendo agora ser aditada; Os demais RR e interveniente, por fal\u00eancia da demonstra\u00e7\u00e3o dos pressupostos de responsabilidade civil, quer o referente ao nexo de causalidade entre o ato m\u00e9dico a que o A. foi sujeito e as sequelas que apresenta, quer por ter sido ilidida a presun\u00e7\u00e3o de culpa (em sede de responsabilidade contratual) que se considerou que impendia sobre os restantes demandados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10 . Desta senten\u00e7a \u2013 que implicou a subida do agravo \u2013 apelou o autor. Mas sem \u00eaxito, porquanto o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto julgou:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Prejudicado o conhecimento do agravo;<\/p><p style=\"text-align: justify\">Improcedente a apela\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Quanto ao que agora importa, fez o seguinte sum\u00e1rio:<\/p><p style=\"text-align: justify\">- \u00c9 inequ\u00edvoco o direito de cada indiv\u00edduo \u00e0 sua integridade f\u00edsica, a qual haver\u00e1 de ser atingida no caso de uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica a que ele deva ser submetido. Tal direito compreende o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o nos cuidados de sa\u00fade, em termos segundo os quais a pr\u00e1tica de atos m\u00e9dicos ou cir\u00fargicos sobre uma pessoa deve ser decidida (consentida) por esta, mas em circunst\u00e2ncias tais que esteja devidamente habilitada a tomar a correspondente decis\u00e3o. Exige-se, assim, um recorrentemente designado &amp;quot;consentimento informado&amp;quot;.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- O consentimento informado deve compreender esclarecimento sobre diagn\u00f3stico e estado de sa\u00fade, meios e fins do tratamento, progn\u00f3stico, natureza do tratamento proposto, consequ\u00eancias secund\u00e1rias do tratamento proposto, riscos e benef\u00edcios do tratamento proposto, em especial riscos frequentes e riscos graves, alternativas ao tratamento proposto, seus riscos e consequ\u00eancias secund\u00e1rias, aspetos econ\u00f3micos do tratamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- No que toca a riscos, a obriga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o deve estender-se \u00e0queles que s\u00e3o normais e previs\u00edveis, designadamente por reporte a um conceito referencial de riscos &amp;quot;significativos&amp;quot; (significativos em raz\u00e3o da necessidade terap\u00eautica da interven\u00e7\u00e3o, em raz\u00e3o da sua frequ\u00eancia, em raz\u00e3o da sua gravidade, em raz\u00e3o do comportamento do paciente).<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Conformando-se o consentimento informado como a causa habilitante \u00e0 pr\u00e1tica de atos que, sem ele, constituiriam uma ofensa ao direito de personalidade do destinat\u00e1rio, o consentimento aparece como uma causa de exclus\u00e3o da ilicitude. Como tal, constituindo facto impeditivo do direito invocado, a sua prova - quer do consentimento, quer da informa\u00e7\u00e3o - compete \u00e0quele contra quem a invoca\u00e7\u00e3o \u00e9 feita, nos termos gerais do art. 342\u00ba, n\u00ba 2 do C\u00f3digo Civil.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Esse \u00f3nus n\u00e3o \u00e9 ilimitado e ter\u00e1 como fronteira, desde logo, a n\u00e3o imposi\u00e7\u00e3o de uma prova diab\u00f3lica, de factos negativos. Assim, n\u00e3o poder\u00e1 deixar de ser o doente\/lesado a alegar e demonstrar que o risco de cuja verifica\u00e7\u00e3o resultaram os danos era um dos riscos previs\u00edveis, razo\u00e1veis e significativos que lhe deviam ter sido transmitidos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Subsequentemente, sendo caso disso, \u00e9 que o m\u00e9dico\/prestador dos cuidados de sa\u00fade ter\u00e1 de demonstrar ter satisfeito a sua obriga\u00e7\u00e3o relativamente ao esclarecimento do doente sobre esse risco, sob pena de irrelev\u00e2ncia do consentimento obtido, por n\u00e3o informado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">11 .\u00a0\u00a0Ainda inconformado,\u00a0pede revista o autor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Conclui as alega\u00e7\u00f5es do seguinte modo:<\/p><p style=\"text-align: justify\">1 . Nos documentos de fls. 77 e 78, concretamente no par\u00e1grafo compreendido entre as palavras &amp;quot;confirmo&amp;quot; at\u00e9 &amp;quot;situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica&amp;quot; quem declara s\u00e3o os m\u00e9dicos \u2013 o 3 .\u00ba Recorrido e o Interveniente \/Recorrido \u2013 e n\u00e3o o aqui Recorrente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 . Nessas declara\u00e7\u00f5es os m\u00e9dicos &amp;quot;confirmam que explicaram ao doente&amp;quot;. Assim os documentos de fls. 77 e 78, nesta parte, configuram depoimentos de parte do Recorrido DD e do Interveniente Dr. EE, por escrito sobre factos favor\u00e1veis. O que \u00e9 manifestamente ilegal, face ao disposto no Artigo 352.\u00ba do C\u00f3digo Civil e Artigo 456.\u00ba do Cpc.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 . Na parte dos documentos de fls. 77 e 78, compreendida entre as palavras &amp;quot;Por favor&amp;quot; at\u00e9 &amp;quot;este documento&amp;quot; existe uma esp\u00e9cie de alerta aos doentes, trecho este, que por isso, n\u00e3o composta qualquer declara\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 . No par\u00e1grafo dos documentos de fls. 77 e 78 compreendido entre as palavras &amp;quot;Declaro que concordo&amp;quot; e &amp;quot;raz\u00f5es cl\u00ednicas&amp;quot; \u00e9 de facto o subscritor dos documentos que declara. N\u00e3o obstante, como o documento n\u00e3o refere o que foi proposto e explicado pelos m\u00e9dicos, ficamos sem saber com o que \u00e9 que concordou o doente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Sendo certo que neste par\u00e1grafo, o subscritor n\u00e3o declara concordar com a grava\u00e7\u00e3o em v\u00eddeo da imagem do doente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5 . Neste par\u00e1grafo o trecho compreendido entre as palavras &amp;quot;bem como&amp;quot; at\u00e9 &amp;quot;raz\u00f5es cl\u00ednicas&amp;quot; \u00e9 um &amp;quot;consentimento em branco&amp;quot; passados aos m\u00e9dicos. A Lei das &amp;quot;Cl\u00e1usulas Contratuais Gerais&amp;quot;, Dec. Lei n\u00ba 446\/85 de 25 de Outubro aplica-se aos formul\u00e1rios de fls. 77 e 78 e imp\u00f5e limites ao conte\u00fado desses documento sendo proibidas as cl\u00e1usulas que contenham um \u201cconsentimento em branco&amp;quot;, que por isso s\u00e3o nulas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6 . Da an\u00e1lise dos documentos das fls. 77 e 78 resulta claramente que os mesmos foram assinados em &amp;quot;branco&amp;quot; pelo Recorrente e depois preenchidos conforme as vontades \u00fanicas e exclusivas dos 3.\u00ba Recorrido e Interveniente\/Recorrido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7 . Do documento de fls. 77 resulta que o aqui Recorrente assinou um documento (em branco) denominado &amp;quot;consentimento&amp;quot;, 38 dias antes do Dr. EE ter confirmado que deu a explica\u00e7\u00e3o ao Recorrente bem como o documento de fls. 78 que o Recorrente assinou (em branco) 89 dias antes do Dr. DD ter confirmado que deu a explica\u00e7\u00e3o ao\u00a0Recorrente sem que naturalmente lhe tivesse sido explicado o que quer que fosse pelo m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8 . Resulta portanto n\u00e3o ter havido sequer consentimento prestado pelo Recorrente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9 . Mesmo que por hip\u00f3tese acad\u00e9mica se entenda ter havido consentimento, jamais o mesmo poder\u00e1 ser considerado um consentimento informado, sen\u00e3o vejamos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">10 . A Declara\u00e7\u00e3o de Lisboa sobre os Direitos do Doente da Associa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica Mundial, o Artigo 5.\u00ba do Cap\u00edtulo II da Conven\u00e7\u00e3o de Oviedo subscrita e ratificada pelo Estado Portugu\u00eas, a Carta dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia, o art. 25.\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o da Republica Portuguesa, o artigo 70.\u00ba do C\u00f3digo Civil, a Lei de Bases da Sa\u00fade, o C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos, imp\u00f5em aos profissionais de sa\u00fade que previamente a qualquer tratamento ou interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica informem o paciente e obtenham o seu consentimento informado,<\/p><p style=\"text-align: justify\">11 . A finalidade fundamental do esclarecimento deve ser a de permitir que o paciente, com base no seu sistema de valores, possa determinar se deseja ou n\u00e3o consentir na interven\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 proposta. A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 o pressuposto de um consentimento informado; e este \u00e9 necess\u00e1rio para satisfazer o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do doente nos cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">12 . Quanto ao conte\u00fado da informa\u00e7\u00e3o a prestar ao doente, no Relat\u00f3rio Final de Maio de 2009 sobre o Consentimento Informado da Entidade Reguladora da Sa\u00fade dispon\u00edvel on line entendeu-se que: &amp;quot;Deve-se usar o crit\u00e9rio do &amp;quot;paciente concreto&amp;quot;, isto \u00e9, dar as informa\u00e7\u00f5es que aquele concreto paciente precisa de saber ou desejaria conhecer para tomar a sua decis\u00e3o, com a sua personalidade e capacidade cognitiva.<\/p><p style=\"text-align: justify\">13 . Com o respeito pelo direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o \u00e9 a que manda revelar tudo, salvo se o paciente mostrar que n\u00e3o quer saber, ou quando se verificarem os pressupostos do privil\u00e9gio terap\u00eautico. Nesse sentido, a tend\u00eancia da jurisprud\u00eancia francesa vai no sentido de passar a exigir que os m\u00e9dicos informem os pacientes dos riscos graves, mesmo que estes sejam hipot\u00e9ticos ou de frequ\u00eancia excepcional.<\/p><p style=\"text-align: justify\">14 . Por outro lado, a doutrina portuguesa dominante concorda que o \u00f3nus da prova da exist\u00eancia de esclarecimento recai sobre o m\u00e9dico ou sobre a institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. Entendem que o consentimento funciona como causa de exclus\u00e3o da ilicitude, pelo que &amp;quot;a prova dos factos impeditivos do direito invocado compete \u00e0quele contra quem a invoca\u00e7\u00e3o feita&amp;quot;, isto \u00e9, o \u00f3nus da prova do consentimento, como causa de exclus\u00e3o da ilicitude, cabe ao m\u00e9dico (Artigo 342.\u00ba, n.\u00ba 2 do C\u00f3digo Civil). As raz\u00f5es desta posi\u00e7\u00e3o tem a ver com prova de factos negativos se trata de uma prova diab\u00f3lica. Tendo em conta o princ\u00edpio do equil\u00edbrio processual, da impossibilidade da prova do facto negativo, a facilidade relativa da prova para o m\u00e9dico ( j\u00e1 que este \u00e9 um perito e o paciente \u00e9 um leigo) e os exemplos do direito estrangeiro, nomeadamente as recentes evolu\u00e7\u00f5es nos pa\u00edses latinos, entendo, com Orlando de Carvalho, Figueiredo Dias, Sinde Monteiro, Costa Andrade e Capelo de Sousa que o onus probandi do cumprimento do dever de informar e do dever de obter o consentimento recai sobre o recorrido\/m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">15 . Podemos estabelecer um nexo de causalidade entre a falta de informa\u00e7\u00e3o ou o esclarecimento defeituoso ou incompleto e o dano causado ao paciente pela concretiza\u00e7\u00e3o de um risco ou pela verifica\u00e7\u00e3o de um efeito adverso da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica, sempre que se esteja perante as viola\u00e7\u00f5es graves do dever de informar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">16 . Deve entender-se por ocorrerem viola\u00e7\u00f5es graves do dever de informar sempre que existe neglig\u00eancia grosseira ou dolo por parte do m\u00e9dico, quando existe viola\u00e7\u00e3o de formalidades essenciais, quando nem sequer h\u00e1 consentimento e quando s\u00e3o omitidas informa\u00e7\u00f5es fundamentais para que o doente decida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">17 . \u00c9 de presumir que o doente n\u00e3o teria consentido caso lhe tivessem sido prestadas todas as informa\u00e7\u00f5es. Caber\u00e1 ao m\u00e9dico provar que mesmo que tivesse prestado as informa\u00e7\u00f5es devidas o doente teria consentido. O m\u00e9dico deve suportar o \u00f3nus do\u00a0consentimento hipot\u00e9tico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">18 . A falta ou a insufici\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es gera responsabilidade civil (Artigos 485.\u00ba e 486.\u00ba C\u00f3digo Civil). A falta ou a insufici\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es (que tornam o consentimento inv\u00e1lido), ou a falta do consentimento, transformam a interven\u00e7\u00e3o numa ofensa corporal n\u00e3o consentida (Artigo 340.\u00ba C\u00f3digo Civil) e geram uma\u00a0responsabilidade civil ainda mais ampla.<\/p><p style=\"text-align: justify\">19 . No caso presente n\u00e3o se provou ter o Recorrente sido informado dos riscos das interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas que lhe foram efetuadas, t\u00e3o pouco que tivesse prestado o seu consentimento informado. O tipo de complica\u00e7\u00f5es sofridas pelo Recorrente surge, maior parte das vezes, ap\u00f3s um gesto cir\u00fargico e sobretudo no membro superior, muito mais frequentemente. O Recorrente desenvolveu o s\u00edndroma algoneurodistr\u00f3fico, isto \u00e9, teve uma complica\u00e7\u00e3o grav\u00edssima que pode acontecer, e que portanto \u00e9 evidente que a fun\u00e7\u00e3o da m\u00e3o ficou pior do que antes do doente ser operado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">20 . N\u00e3o teria o Recorrente consentido nas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, caso lhe tivessem sido prestadas todas as informa\u00e7\u00f5es, facto que de resto \u00e9 de presumir face \u00e0 gravidade das sequelas que apresenta.<\/p><p style=\"text-align: justify\">21 . Revogando-se o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido e proferindo-se Ac\u00f3rd\u00e3o que acolha as Conclus\u00f5es precedentes e condene os Recorridos no pedido, se far\u00e1 JUSTI\u00c7A!<\/p><p style=\"text-align: justify\">Contra-alegaram os recorridos HPP, DD e EE, rebatendo longamente a argumenta\u00e7\u00e3o da contraparte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">12 . Ante as conclus\u00f5es das alega\u00e7\u00f5es, importa tomar posi\u00e7\u00e3o sobre se foi violado, pelos r\u00e9us, o dever de informa\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o teve lugar consentimento v\u00e1lido para a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica e, na hip\u00f3tese afirmativa, relativamente a qualquer destes itens, se se verificam os demais pressupostos da responsabilidade civil, em ordem a ser\u00a0proferida a condena\u00e7\u00e3o pretendida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">13 .\u00a0Vem provada a seguinte mat\u00e9ria de facto:<\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - O autor sofreu na m\u00e3o esquerda ferida l\u00e1cero-contusa com les\u00e3o dos nervos colaterais do polegar \u2013 al. A), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - A partir de 16\/12\/2004, o A. passou a ser tratado clinicamente nos HPP - HOSPITAL PRIVADO DOS FF, Porto, um dos Hospitais propriedade da 2\u00aa R\u00e9 \u2013 al. B), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - Todo o tratamento cl\u00ednico, cirurgia, cuidados m\u00e9dicos e medicamentosos, e recupera\u00e7\u00e3o do A. passou a ser acompanhado a partir dessa data pelo HPP - HOSPITAL PRIVADO DOS FF \u2013 al. C), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 \u2013 No HPP - HOSPITAL PRIVADO DOS FF, o A. foi assistido em diversas consultas da especialidade designadamente de Ortopedia e Cirurgia \u2013 al. D), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5 - Em 02 de Mar\u00e7o de 2005, ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de um exame EMG a pedido da 2\u00aa R\u00e9, concluiu-se que o A., em consequ\u00eancia do acidente, padecia de uma les\u00e3o de axonotmesis parcial do ramo tenar do nervo mediano esquerdo, mais intensa, dos colaterais sensitivos deste nervo para o polegar, com incapacidade e abdu\u00e7\u00e3o do polegar \u2013 al. E), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6 - Numa das m\u00faltiplas consultas de ortopedia efectuadas no Hospital da 2\u00aa R\u00e9 levadas a cabo pelo Dr. EE, m\u00e9dico contratado e ao servi\u00e7o da 2\u00aa R\u00e9, este transmitiu ao A. que a les\u00e3o de que este padecia ao n\u00edvel do nervo mediano esquerdo e dos colaterais sensitivos deste nervo para o polegar, s\u00f3 seria atenuada ou curada com uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, pelo que o A. teria de ser operado \u2013 al. F), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7 - Em 5 de Maio de 2005, o A. foi submetido a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica no HPP - HOSPITAL PRIVADO DOS FF, levada a cabo pelo interveniente Dr. EE como cirurgi\u00e3o principal e o 3\u00ba R\u00e9u como cirurgi\u00e3o ajudante \u2013 al. G), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8 - A referida interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, consistiu numa \u201coponentoplastia\u201d, isto \u00e9, transfer\u00eancia do extensor radial do carpo \u2013 al. H), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9 - Nessa conformidade, o A. foi imobilizado com tala gessada \u2013 al. I), da mat\u00e9ria de\u00a0facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10 - Em 17 de Junho de 2005 o A. foi reenviado para MFR no sentido da recupera\u00e7\u00e3o funcional da m\u00e3o esquerda \u2013 al. J), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">11 - O A. nasceu em \u2026 de Janeiro de 1974 \u2013 al. K), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">12 - No \u00e2mbito do processo por acidente de trabalho n\u00ba 2435\/05.3 TTPNF que correu seus termos no Tribunal do trabalho de Penafiel foi fixado ao A. um coeficiente global de incapacidade de 50% com incapacidade para a profiss\u00e3o habitual de marceneiro \u2013 al. L), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">13 - Naquele processo por acidente de trabalho foi a 1\u00aa R\u00e9 condenada a pagar ao A.:<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\"><li>a) A pens\u00e3o anual de \u20ac 3.592,62, vital\u00edcia e actualiz\u00e1vel, a ser paga mensalmente, at\u00e9 ao 3\u00ba dia de cada m\u00eas, no domicilio do A. devida a partir de 03\/02\/2006, correspondendo cada presta\u00e7\u00e3o a 1\/14 da pens\u00e3o anual, bem como o subsidio de f\u00e9rias e de natal, no valor de 1\/14 da pens\u00e3o anual, no valor 1\/14 da pens\u00e3o anual, a serem pagos nos meses de Maio e Novembro de cada ano, respectivamente.<\/li><\/ol><ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\"><li>b) A quantia de \u20ac 3.071,04, a titulo de subsidio de elevada incapacidade.<\/li><li>c) A quantia de \u20ac 22,00 a titulo de despesas com desloca\u00e7\u00e3o a tribunal \u2013 al. M), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">14 - A sociedade \u201cM\u00f3veis GG, Ld\u00aa\u201d, tinha a sua responsabilidade por acidentes de trabalho transferida para a 1\u00aa R\u00e9 COMPANHIA DE SEGUROS BB, S.A., atrav\u00e9s da Ap\u00f3lice n\u00ba 1230853. (doc.s 1 e 2) \u2013 al. N), da mat\u00e9ria de facto assente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">15 - No dia 23 de Novembro de 2004, cerca das 16 horas, quando o A. se encontrava a manusear uma m\u00e1quina, foi atingido por esta na m\u00e3o esquerda \u2013 resposta ao art. 1.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">16 - Esse acidente ocorreu nas instala\u00e7\u00f5es da sociedade \u201cM\u00f3veis GG, Ld\u00aa.\u201d, trabalhando o A. por conta desta empresa, onde exercia as fun\u00e7\u00f5es de marceneiro de 2\u00aa categoria com o sal\u00e1rio mensal de \u20ac 388,80 (retribui\u00e7\u00e3o) x 14 + \u20ac 49,50 (sub. alimenta\u00e7\u00e3o ) x 11 meses \u2013 resposta ao art. 2.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">17 \u2013 Na sequ\u00eancia deste acidente, o A. foi de imediato assistido no Hospital HH \u2013 \u2026. e, ap\u00f3s ter sido observado e radiografado, foi ent\u00e3o suturado, tendo tido alta cl\u00ednica no mesmo dia \u2013 resposta ao art. 3.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">18 - Entre 24\/11\/2004 e 15\/12\/2004 o A. efectuou curativos no Centro de Enfermagem de \u2026. \u2013 resposta ao art. 4.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">19 - Os tratamentos referidos nas al\u00edneas B) e C) dos factos assentes foram efectuados nos HPP- Hospital Privado dos FF, Porto, por conta da 1\u00aa R\u00e9 \u2013 resposta ao art. 5.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">20 - Em termos pr\u00e1ticos a les\u00e3o referida na al\u00ednea E) dos factos assentes traduzia-se para o A. numa situa\u00e7\u00e3o de anestesia e rigidez acentuada do polegar \u2013 resposta ao art.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">21 - Na data de 2 de Mar\u00e7o de 2005, o A. possu\u00eda mobilidade nas restantes articula\u00e7\u00f5es do membro superior esquerdo \u2013 resposta ao art. 7.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">22 \u2013 (emergente da altera\u00e7\u00e3o levada a cabo pela Rela\u00e7\u00e3o em resposta ao ponto 11.\u00ba da base instrut\u00f3ria) &amp;quot;O A. que at\u00e9 ent\u00e3o apenas padecia de uma sequela de anestesia do polegar com altera\u00e7\u00e3o de sensibilidade tamb\u00e9m do indicador com rigidez acentuada do indicador e polegar, ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica e consequ\u00eancia directa desta, ficou a padecer de: - limita\u00e7\u00e3o da mobilidade do dedo polegar (da qual j\u00e1 sofria antes da cirurgia); - rigidez discreta do cotovelo: flexo de 10 a 15\u00ba; flex\u00e3o de 120\u00ba; - limita\u00e7\u00e3o da supina\u00e7\u00e3o; - retrac\u00e7\u00e3o isqu\u00e9mica de Volkmann relativamente \u00e0 m\u00e3o esquerda; -contractura na flex\u00e3o do punho; - rigidez de todos os dedos da m\u00e3o esquerda e impossibilidade de usar esta m\u00e3o, quer em movimentos de manipula\u00e7\u00e3o quer em movimentos de preens\u00e3o; - rigidez n\u00e3o significativa do ombro esquerdo; - incapacidade total para posicionar a m\u00e3o esquerda no espa\u00e7o; - incapacidade para comunicar gestualmente com a m\u00e3o esquerda.<\/p><p style=\"text-align: justify\">23 \u2013 O A. n\u00e3o possui quaisquer conhecimentos de t\u00e9cnica cir\u00fargica e, durante a opera\u00e7\u00e3o, estava em estado de inconsci\u00eancia devido \u00e0 anestesia que lhe foi administrada \u2013 resposta ao art. 13.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">24 - Fruto da incapacidade permanente parcial para o trabalho de que \u00e9 portador, bem como da incapacidade para a profiss\u00e3o habitual de marceneiro, aliado ao facto de ter sido marceneiro, sem forma\u00e7\u00e3o profissional para qualquer outra dentro da sua \u00e1rea de prepara\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico-profissional, o A. tem dificuldades na obten\u00e7\u00e3o de um trabalho\u00a0remunerado \u2013 resposta ao art. 15.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">25 - N\u00e3o fora o acidente e sequelas com que ficou, desde a data da alta -2\/2\/2006 at\u00e9 Setembro de 2007 inclusive - da sua profiss\u00e3o de marceneiro, o A. poderia ter auferido mensalmente o equivalente ao sal\u00e1rio m\u00ednimo nacional, mais subs\u00eddio de f\u00e9rias e de Natal \u2013 resposta ao art. 16.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">26 - As sequelas de que padece causam-lhe dores, tristeza, ansiedade, revolta e medo do futuro \u2013 resposta ao art. 17.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">27 - O A. padece de dores \u2013 resposta ao art. 18.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">28 - Pessoa outrora alegre, soci\u00e1vel e bem disposto, est\u00e1 hoje o A. transformado num ser deprimido, triste e isolado \u2013 resposta ao art. 19.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">28.\u00ba (acrescentado pela Rela\u00e7\u00e3o) - Tais males s\u00e3o advindos da cirurgia, sem preju\u00edzo dos inerentes \u00e0 les\u00e3o resultante do acidente de trabalho.<\/p><p style=\"text-align: justify\">29 (na reda\u00e7\u00e3o conferida pela Rela\u00e7\u00e3o \u00e0 resposta ao ponto 21.\u00ba da BI) \u2013 O A. padece\u00a0de atrofia dos m\u00fasculos do antebra\u00e7o, punho em flex\u00e3o, dedos em garra e altera\u00e7\u00f5es tr\u00f3ficas na m\u00e3o e o dano est\u00e9tico permanente fix\u00e1vel no grau 4 numa escala de 7<\/p><p style=\"text-align: justify\">30 - Inclusivamente, o A. separou-se da sua c\u00f4njuge \u2013 resposta ao art. 22.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">31 - O A. subscreveu as declara\u00e7\u00f5es de consentimentos constantes de fls. 77 e 78, do p.p., nos termos que delas consta e que aqui se d\u00e3o por integralmente reproduzidas \u2013 resposta ao art. 23.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">32 - A oponentoplastia com transfer\u00eancia do extensor radial do carpo \u00e9 um procedimento adequado \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o funcional da m\u00e3o, em casos, como o dos autos, em que existe incapacidade de abdu\u00e7\u00e3o do polegar provocada por uma les\u00e3o de axonotmesis parcial do ramo tenar do nervo mediano esquerdo e dos colaterais sensitivos deste nervo para o polegar \u2013 resposta ao art. 24.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">33 - A cirurgia descrita no quesito anterior \u00e9, inclusive, uma op\u00e7\u00e3o indicada pelo saber m\u00e9dico actualizado para a obten\u00e7\u00e3o do resultado pretendido: a opon\u00eancia do polegar \u2013 resposta ao art. 25 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">34 - Nenhum outro elemento do quadro cl\u00ednico do autor desaconselhava a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica adoptada \u2013 resposta ao art. 26 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">35 - A execu\u00e7\u00e3o daquele acto m\u00e9dico decorreu sem qualquer percal\u00e7o \u2013 resposta ao art. 27 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">36 - No registo referente \u00e0 interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica do dia 10.11.2005, consta que foi feita manipula\u00e7\u00e3o ao autor sob anestesia, ficando o punho em posi\u00e7\u00e3o neutra, com mobilidade completa e as MCF e IF sem limita\u00e7\u00e3o da mobilidade \u2013 resposta aos arts. 28 .\u00ba, 29.\u00ba e 30.\u00ba, da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">37 - Ocorreu, em 02.11.2005, observa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica do A. e bem assim que a Dra. II, m\u00e9dica fisiatra, acompanhou o tratamento de fisioterapia do autor \u2013 resposta ao art. 31.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">38 - O autor sofreu fractura do colo do \u00famero esquerdo no decurso do per\u00edodo de reabilita\u00e7\u00e3o, entre 17.06.2005 e 22.07.2005, num per\u00edodo fulcral da sua recupera\u00e7\u00e3o \u2013 resposta ao art. 32 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">39 - O tratamento desta fractura implica a imobiliza\u00e7\u00e3o do membro superior com o ombro em adu\u00e7\u00e3o e rota\u00e7\u00e3o interna, e com o cotovelo em flex\u00e3o, tendo tido este facto necessariamente um impacto prejudicial na recupera\u00e7\u00e3o funcional do membro superior esquerdo e no resultado da cirurgia efectuada \u2013 resposta ao art. 33 .\u00ba da base\u00a0instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">40 - O 3\u00ba R\u00e9u e o Interveniente Dr. EE fizeram o diagn\u00f3stico completo da les\u00e3o do A., confirmado pelos meios complementares de diagn\u00f3stico suficientes para a situa\u00e7\u00e3o \u2013 resposta ao art. 35 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">41 - Tiveram em conta as necessidades individuais do doente \u2013 resposta ao art. 36 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">42 - Foi escolhida a t\u00e9cnica cir\u00fargica julgada adequada para tentar diminuir a defici\u00eancia do A., que executaram sem percal\u00e7os \u2013 resposta ao art. 37.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">43 \u2013 O A. foi acompanhado no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio, tentando a sua reabilita\u00e7\u00e3o \u2013 resposta ao art. 38 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">44 - Em Abril de 2005, quando o Interveniente Dr. EE examinou pela primeira vez o A, este referia que estava incapacitado de exercer as suas fun\u00e7\u00f5es laborais em virtude do deficiente funcionamento e altera\u00e7\u00f5es da sensibilidade do seu polegar esquerdo \u2013 resposta ao art. 39 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">45 - Apresentava atrofia tenar da m\u00e3o esquerda, defici\u00eancia postural em supina\u00e7\u00e3o do polegar e incapacidade de efectuar movimentos de oposi\u00e7\u00e3o \u2013 resposta ao art. 40 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">46 -A dificuldade em segurar e agarrar objectos de grande e pequeno volume era \u00f3bvia devido \u00e0 incapacidade de opon\u00eancia do polegar \u2013 resposta ao art. 41.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">47 - As les\u00f5es do A. resultam de caracter\u00edsticas de uma les\u00e3o axonotemesis parcial do ramo tenar do nervo mediano esquerdo e mais intensa dos ramos colaterais sensitivos deste nervo para o polegar \u2013 resposta ao art. 42 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">48 - \u00c9 tendo em conta este quadro cl\u00ednico que \u00e9 proposta ao A uma opera\u00e7\u00e3o para tentar diminuir a sua incapacidade funcional \u2013 resposta ao art. 43 .\u00ba da baseinstrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">49 \u2013 A opera\u00e7\u00e3o proposta (e depois executada) consistia em cirurgia de transfer\u00eancia do \u201cextensor carpi radialis longus\u201d (oponentoplastia) \u2013 resposta ao art. 44.\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">50 \u2013 O resultado da opera\u00e7\u00e3o estava dependente n\u00e3o apenas da t\u00e9cnica cir\u00fargica, mas tamb\u00e9m da motiva\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio doente na sua recupera\u00e7\u00e3o \u2013 resposta ao art. 45 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">51 - A unidade m\u00fasculo-tendinosa escolhida para a transfer\u00eancia foi o m\u00fasculo \u201cextensor carpi radialis longus\u201d ( ECRL) \u2013 resposta ao art. 46 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">52 - A unidade motora escolhida pode ser utilizada para recuperar a mobilidade do polegar em doentes com perda de fun\u00e7\u00e3o\/paralisia do nervo mediano \u2013 resposta ao art. 48 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">53 - Outras t\u00e9cnicas podem ser utilizadas, entre as quais se contam, entre outras, a oponentoplastia com flexor \u201cdigitorum superficialis\u201d com diferentes modifica\u00e7\u00f5es, a oponentoplastia com extensor indicis proprius, a oponetoplastia com abdutor digiti minimi e a oponentoplastia com palmaris longus \u2013 resposta ao art. 49 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">54 - Em consulta\/manipula\u00e7\u00e3o sob anestesia, o polegar ficava em opon\u00eancia \u2013 resposta ao arts. 56\u00ba, 57\u00ba e 58\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">55 \u2013 A t\u00e9cnica cir\u00fargica utilizada foi a descrita no art. 44.\u00ba supra \u2013 resposta ao art. 68 .\u00ba da base instrut\u00f3ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">56 - Ocorreu traumatismo do colo do \u00famero esquerdo numa fase fulcral do tratamento e reabilita\u00e7\u00e3o do A. com influ\u00eancia negativa no resultado final \u2013 resposta ao art. 72 .\u00ba da base instrut\u00f3ria. 14 . O presente recurso gira em torno de duas figuras, cuja interpenetra\u00e7\u00e3o \u00e9 manifesta:<\/p><p style=\"text-align: justify\">O dever de esclarecimento do doente;<\/p><p style=\"text-align: justify\">O seu consentimento para atos m\u00e9dicos que o visem.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Perante a revela\u00e7\u00e3o das atrocidades nazis sobre experi\u00eancias m\u00e9dicas em seres humanos, veio a lume, em 1947, o C\u00f3digo de Nuremberga, cujo primeiro princ\u00edpio logo dispunha que \u201co consentimento volunt\u00e1rio do ser humano \u00e9 absolutamente essencial. Isto quer dizer que a pessoa implicada\u2026\u00a0 deve ter conhecimento suficiente e compreens\u00e3o do assunto nos seus v\u00e1rios aspetos para que possa tomar uma decis\u00e3o consciente.\u201d Este c\u00f3digo serviu como ponto de partida para in\u00fameros diplomas que foram sendo publicados, quer na ordem interna de cada um dos pa\u00edses, quer na ordem internacional. Considerando-se o direito que vimos referindo, quer como integrado noutos de conte\u00fado mais abrangente, quer tutelado expressamente. Relativamente aos vigentes em Portugal, trazemos para aqui os seguintes textos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Portugal \u00e9 uma rep\u00fablica soberana, baseada na dignidade da pessoa humana\u2026 A integridade moral e f\u00edsica das pessoas \u00e9 inviol\u00e1vel Todos t\u00eam direito \u00e0 liberdade\u2026 \u2013 artigos 1.\u00ba, 25.\u00ba, n.\u00ba1 e 27.\u00ba, n.\u00ba1 da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa;<\/p><p style=\"text-align: justify\">1 . Todas as pessoas t\u00eam direito ao respeito pela sua integridade f\u00edsica e mental.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 . No dom\u00ednio da medicina e da biologia, devem ser respeitados, designadamente:<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"3\"><li>a) O consentimento livre e esclarecido da pessoa, nos termos da lei\u2026\u00a0 artigo 3.\u00ba da Carta dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Qualquer pessoa tem o direito ao respeito da sua vida privada\u2026 artigo 8.\u00ba da CEDH (considerando a integra\u00e7\u00e3o do consentimento informado no \u00e2mbito da vida privada, conforme jurisprud\u00eancia do TEDH, podendo ver-se, por todos, no s\u00edtio do pr\u00f3prio Tribunal, o Ac. de 7.10.2008, Bogumi contra Portugal):<\/p><p style=\"text-align: justify\">Qualquer interven\u00e7\u00e3o no dom\u00ednio da sa\u00fade s\u00f3 pode ser efectuada ap\u00f3s ter sido prestado pela pessoa em causa o seu consentimento livre e esclarecido. Essa pessoa deve receber previamente a informa\u00e7\u00e3o adequada quanto ao objectivo e \u00e0 natureza da interven\u00e7\u00e3o, bem como \u00e0s suas consequ\u00eancias e riscos. A pessoa em quest\u00e3o pode, em qualquer momento, revogar livremente o seu consentimento. \u2013 artigo 5.\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o Para a Prote\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e da Dignidade do Ser Humano Face \u00e0s Aplica\u00e7\u00f5es da Biologia e da Medicina:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Conven\u00e7\u00e3o Sobre os Direitos do Homem e a Biomedicina, vulgarmente conhecida por \u201cConven\u00e7\u00e3o de Oviedo\u201d ou \u201cCDHBio\u201d, de 4.4.1997, ratificada pelo Decreto do Presidente da Rep\u00fablica n.\u00ba1\/2001, de 3.1 e pela Resolu\u00e7\u00e3o da Assembleia da Rep\u00fablica n.\u00ba1\/2001, da mesma data. A lei protege os indiv\u00edduos contra qualquer ofensa il\u00edcita ou amea\u00e7a de ofensa \u00e0 sua personalidade f\u00edsica ou moral. \u2013\u00a0artigo 70.\u00ba, n.\u00ba1 do C\u00f3digo Civil.<\/p><p style=\"text-align: justify\">1 \u2013\u00a0 Os utentes t\u00eam direito a:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>e) Ser informados sobre a situa\u00e7\u00e3o, as alternativas poss\u00edveis de tratamento e a evolu\u00e7\u00e3o prov\u00e1vel do seu estado \u2013 Base XIV da Lei de Bases da Sa\u00fade (n.\u00ba 48\/99, de 24.8, alterada pela Lei n.\u00ba 27\/2002de 8.11);<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">1 . As pessoas indicadas no artigo 150.\u00ba que, em vista das finalidades nele apontadas, realizarem interven\u00e7\u00f5es ou tratamentos sem consentimento do paciente, ser\u00e3o punidas com pris\u00e3o at\u00e9 3 anos ou com pena de multa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 . O facto n\u00e3o \u00e9 pun\u00edvel quando o consentimento:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>a) S\u00f3 puder ser obtido com adiamento que implique perigo para a vida ou perigo grave para o corpo ou para a sa\u00fade; ou<\/li><\/ol><ol style=\"text-align: justify\"><li>b) Tiver sido dado para certa interven\u00e7\u00e3o ou tratamento, tendo vindo a realizar-se outro diferente por se ter revelado imposto pelo estado dos conhecimentos e da experi\u00eancia da medicina como meio de evitar um perigo para a vida, o corpo ou a sa\u00fade;<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">E n\u00e3o se verificarem circunst\u00e2ncias que permitam concluir com seguran\u00e7a que o consentimento seria recusado.\u00a0\u2013 artigo 156.\u00ba do C\u00f3digo Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para efeito do disposto no artigo anterior, o consentimento s\u00f3 \u00e9 eficaz quando o paciente tiver sido devidamente esclarecido sobre o diagn\u00f3stico e a \u00edndole, alcance, envergadura e poss\u00edveis consequ\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o ou do tratamento, salvo se isso implicar a comunica\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias que, a serem conhecidas pelo paciente, poriam em perigo a sua vida ou seriam suscept\u00edveis de lhe causar grave dano \u00e0 sa\u00fade, f\u00edsica ou ps\u00edquica. \u2013 artigo 157.\u00ba do C\u00f3digo Penal.\u00a0 O doente tem o direito a receber e o m\u00e9dico o dever de prestar o esclarecimento sobre o diagn\u00f3stico, a terap\u00eautica e o progn\u00f3stico da sua doen\u00e7a. S\u00f3 \u00e9 v\u00e1lido o consentimento do doente se este tiver capacidade de decidir livremente, se estiver na posse de informa\u00e7\u00e3o relevante e se for dado na aus\u00eancia de coac\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou morais. \u2013 artigos 44.\u00ba, n.\u00ba1 e 45.\u00ba, n.\u00ba1 do \u201cC\u00f3digo Deontol\u00f3gico\u201d da Ordem dos M\u00e9dicos (publicado como \u201cRegulamento\u201d no Di\u00e1rio da Rep\u00fablica, 2.\u00aa s\u00e9rie, de 13.1.2009, sendo certo que, j\u00e1 mesmo relativamente a factos anteriores, sempre releva \u201co seu valor pr\u00e1tico com efeitos jur\u00eddicos, servindo de auxiliar decisivo para apreciar uma conduta m\u00e9dica, num tribunal ordin\u00e1rio\u201d \u2013 Guilherme de Oliveira, RLJ n.\u00ba 3923, 34 e seguintes).\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">15 . Destes textos \u2013 e outros o confirmariam, se necess\u00e1rio \u2013emerge logo uma ideia incontorn\u00e1vel: \u00e9 o doente que est\u00e1 no centro referencial dos atos m\u00e9dicos. A preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as suas e o seu tratamento constituem um escopo que supera tudo o mais envolvido em tal atividade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">16 . Constituindo o centro referencial do ato m\u00e9dico, a decis\u00e3o sobre o tratamento \u00e9 a ele que cabe em \u00faltima inst\u00e2ncia.\u00a0 \u00a0Assim, est\u00e1 nas suas m\u00e3os ser ou n\u00e3o informado do diagn\u00f3stico, da previsibilidade da evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, das possibilidades de tratamento, e dos riscos associados a este. Continuando nas suas m\u00e3os a decis\u00e3o final sobre o que deve ser feito (cfr-se Costa Andrade, Coment\u00e1rio Conimbricense ao C\u00f3digo Penal, I, 399 in fine e S\u00e9rgio Deodato, Direito da Sa\u00fade, 42). Decerto que esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser absoluta, mas n\u00e3o nos interessam, para aqui, os casos de ressalva em que o doente por idade, mol\u00e9stia ou outras raz\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de apreender o que se passa ou de decidir.<\/p><p style=\"text-align: justify\">17 . O supra referido texto criminal cont\u00e9m ressalvas, a Carta dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia remete para a \u201clei\u201d, a Conven\u00e7\u00e3o de Oviedo fala em \u201cinforma\u00e7\u00e3o adequada\u201d, de tudo nos ficando uma situa\u00e7\u00e3o de exig\u00eancia interpretativa grande quanto ao conte\u00fado do dever de esclarecimento. As ressalvas constantes do direito penal imp\u00f5em-se com alguma evid\u00eancia, de sorte que as vamos considerar tamb\u00e9m para aqui. N\u00e3o recusando o doente os itens referidos no n\u00famero anterior, ou qualquer deles, cabe ao m\u00e9dico, em primeira linha, inform\u00e1-lo. Este dever de informa\u00e7\u00e3o \u201cn\u00e3o tem de obedecer a um modelo \u00fanico de densidade e intensidade\u201d (Costa Andrade, ob. e loc. citados). Mesmo que o doente o n\u00e3o exclua, pode o m\u00e9dico exclu\u00ed-lo, em nome do chamado \u201cprivil\u00e9gio terap\u00eautico\u201d, ou seja, nos casos em que o legitimamente se aperceba que a informa\u00e7\u00e3o pode causar um perigo para a vida ou \u00e9 suscept\u00edvel de causar ao doente grave dano \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica e ps\u00edquica.\u00a0A a\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico visa o tratamento e n\u00e3o pode, ela mesma, constituir fonte de maior dano, nem colocar o cl\u00ednico numa situa\u00e7\u00e3o em que \u201cpode ser condenado por n\u00e3o esclarecer e, ao mesmo tempo, poder ser tamb\u00e9m condenado pelos danos desencadeados pelo esclarecimento (viola\u00e7\u00e3o das legis artis)\u201d (mesmo Autor, loc. citado).<\/p><p style=\"text-align: justify\">18 . Noutro prisma, h\u00e1 que ter sempre presente que a medicina n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia\u00a0exata, n\u00e3o podendo o m\u00e9dico, em muitas ocasi\u00f5es, afirmar o diagn\u00f3stico ou a evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se pode \u201ctransformar\u201d o ato m\u00e9dico numa li\u00e7\u00e3o de medicina em que o doente passe a \u201csaber\u201d o que demorou anos de estudo ao cl\u00ednico. Basta pensar-se que a anestesia \u00e9 dirigida por um m\u00e9dico especialista em tal \u00e1rea, diferente do cirurgi\u00e3o, e n\u00e3o ser\u00e1 razo\u00e1vel impor que cada doente que vai ser anestesiado saiba antes tudo o que pode ter lugar como consequ\u00eancia do anest\u00e9sico e at\u00e9 as rea\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas que, em cada caso, se podem impor. Estamos, pois, com \u00c1lvaro Rodrigues (A Responsabilidade M\u00e9dica em Direito Penal,<\/p><p style=\"text-align: justify\">41) quando afirma:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cO que por todos \u00e9 aceite \u00e9 que em caso algum estar\u00e1 o m\u00e9dico obrigado a discutir todos os detalhes poss\u00edveis inerentes \u00e0 execu\u00e7\u00e3o de qualquer tratamento m\u00e9dico cir\u00fargico. N\u00e3o se requer da parte do m\u00e9dico, uma discuss\u00e3o t\u00e9cnico-cient\u00edfica sobre a mol\u00e9stia e o tratamento do paciente, nem \u00e9 aconselh\u00e1vel o uso de terminologia t\u00e9cnica ou uma linguagem herm\u00e9tica inacess\u00edvel \u00e0 generalidade das pessoas.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">19 . Especificamente, no que respeita \u00e0 informa\u00e7\u00e3o dos riscos, n\u00e3o podemos impor a transforma\u00e7\u00e3o do ato m\u00e9dico num ato eivado de envolvimento jur\u00eddico, em ordem a\u00a0perder-se de vista o objetivo fundamental do tratamento. Conforme afirma Andr\u00e9 Pereira (O Dever de Esclarecimento e a Responsabilidade M\u00e9dica, in Responsabilidade Civil dos M\u00e9dicos, Centro Biom\u00e9dico da Universidade de Coimbra, n.\u00ba 11, p\u00e1gina 457): \u201cPodemos constatar que houve durante a \u00faltima d\u00e9cada uma clara evolu\u00e7\u00e3o no sentido da prote\u00e7\u00e3o do consentimento informado e da autonomia do paciente. Recentemente,\u00a0por\u00e9m, alguns autores e tribunais t\u00eam assinalado que a hipertrofia do direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 a criar um fen\u00f3meno de medicina defensiva, de burocratiza\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-paciente e de alguma desconfian\u00e7a ou mesmo crispa\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e pacientes que se deseja sejam parceiros na actividade m\u00e9dico-terap\u00eautica.\u201d\u00a0Al\u00e9m disso, um simples tratamento, com o mais vulgar dos medicamentos, pode levar a consequ\u00eancias muito graves que nem o pr\u00f3prio m\u00e9dico legitimamente pensou\u00a0(Repare-se na dispensa de esclarecimento afirmada por Costa Andrade, ob. e loc. citados, relativamente aos \u201ctratamentos de rotina\u201d). Na verdade, um m\u00ednimo de risco \u00e9 inerente \u00e0 quase totalidade dos atos m\u00e9dicos. A exig\u00eancia para al\u00e9m dum plano de razoabilidade, pode levar, outrossim, \u00e0 ren\u00fancia, por parte do m\u00e9dico, relativamente a certos tratamentos, despindo a ci\u00eancia m\u00e9dica dum elemento que, sempre dentro de par\u00e2metros de razoabilidade, a caracteriza que \u00e9 a assun\u00e7\u00e3o deste risco (Cfr-se, a este prop\u00f3sito, Rute Pedro, A Responsabilidade Civil do M\u00e9dico Reflex\u00f5es Sobre a No\u00e7\u00e3o da Perda de Chance e a Tutela do Doente Lesado, in Centro de Direito Biom\u00e9dico da Universidade de Coimbra, n.\u00ba 15, p\u00e1gina 440).<\/p><p style=\"text-align: justify\">20 . Mantendo-se sempre a obriga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o, mas assim pensada, n\u00e3o fica, nem poderia ficar clara a linha delimitativa que, perante cada caso, deve distinguir entre o que o m\u00e9dico deve dizer ao doente (podendo ser responsabilizado se o n\u00e3o disser) e o que o m\u00e9dico n\u00e3o carece de abordar. Andr\u00e9 Pereira, no seu citado Estudo, d\u00e1-nos conta da evolu\u00e7\u00e3o em Fran\u00e7a. A Cour de Cassation ter\u00e1 decidido que o m\u00e9dico n\u00e3o fica dispensado de indicar ao doente os riscos pelo facto de estes s\u00f3 se realizarem excecionalmente (Ac\u00f3rd\u00e3o de 7.10.1998), entendimento tamb\u00e9m subscrito pela jurisdi\u00e7\u00e3o administrativa, mas tal levou a que a responsabilidade m\u00e9dica por viola\u00e7\u00e3o dos deveres de informa\u00e7\u00e3o se tenha tornado demasiado pesada \u201ctendo come\u00e7ado a sentir-se uma forte carga indemnizat\u00f3ria quer sobre a cl\u00ednica privada, quer sobre a medicina em hospitais p\u00fablicos.\u201d Os Tribunais - segundo afirma \u2013 continuam tal entendimento, apesar da vinda a lume, entretanto, da Lei de 4.3.2002 que alude apenas a riscos frequentes ou os riscos graves normalmente previs\u00edveis, ignorando os riscos graves de verifica\u00e7\u00e3o excecional. O Supremo Tribunal Alem\u00e3o, no seu Ac\u00f3rd\u00e3o de 22.12.2010 3StR 239\/10[1], com cita\u00e7\u00e3o abundante da sua pr\u00f3pria jurisprud\u00eancia, que mant\u00e9m constante, reafirmou o entendimento de que deve ser prestada ao paciente informa\u00e7\u00e3o base (\u201cGrundaufkl\u00e4rung\u201d) em termos \u201cgerais e completos\u201d (\u201cGrossen und Ganzen\u201d), com inclus\u00e3o das chances e riscos da interven\u00e7\u00e3o, nestes se compreendendo todos os riscos graves ligados \u00e0 opera\u00e7\u00e3o, mesmo os de verifica\u00e7\u00e3o rara, mas sem necessidade duma descri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica exata.\u00a0 Jos\u00e9 Lago (Consientemiento Informado y Responsabilidade Civil, Estudo inserto na revista Julgar, N\u00famero Especial de 2014, 163) d\u00e1-nos conta de que a Sala Civil do Tribunal Supremo Espanhol vem distinguido consoante se trate de interven\u00e7\u00f5es de medicina curativa ou necess\u00e1ria ou apenas \u201csatisfactiva, reparadora o no necess\u00e1ria\u201d. Neste segundo caso, as exig\u00eancias relativas ao conte\u00fado informativo s\u00e3o mais rigorosas, do que no primeiro, tendo em conta \u201ca necessidade de evitar que se silenciem os riscos excecionais ante cujo conhecimento o paciente poderia subtrair-se a uma interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o necess\u00e1ria ou de uma necessidade relativa.\u201d Entre n\u00f3s, \u00c1lvaro Rodrigues (ob. citada, 346) defende que: \u201cQuanto aos efeitos secund\u00e1rios, sequelas e riscos do tratamento a doutrina recomenda o esclarecimento daqueles que se verificam com frequ\u00eancia, n\u00e3o havendo necessidade de focar os riscos de car\u00e1cter excepcional na sua verifica\u00e7\u00e3o. Mais uma vez, aqui, como em tudo na vida, o melhor crit\u00e9rio ser\u00e1 o da pondera\u00e7\u00e3o dos interesses em jogo, mediante uma atitude \u00e9tica e conscienciosa, que procurando devolver a sa\u00fade ao doente, tenha sempre no horizonte o direito deste \u00e0 sua liberdade de decis\u00e3o convenientemente esclarecida.\u201d Tamb\u00e9m Andr\u00e9 Pereira, no seu apontado Estudo, ap\u00f3s incurs\u00e3o detalhada pela jurisprud\u00eancia e doutrina estrangeiras, escreve (p\u00e1gina 478): \u201cAssim, partindo da constata\u00e7\u00e3o de que a medicina \u00e9 uma actividade que gera riscos, na tarefa da imputa\u00e7\u00e3o objectiva dos danos, devemos destrin\u00e7ar quais os riscos que a ordem jur\u00eddica pretende que sejam suportados pelo doente e quais devem ser suportados pelo m\u00e9dico. Os \u00faltimos devem ser comunicados ao paciente, para que este, em liberdade e em consci\u00eancia decida sobre se autoriza a interven\u00e7\u00e3o, autocolocando-se em perigo; n\u00e3o sendo esclarecidos, o m\u00e9dico dever\u00e1 compensar do doente pelos danos causados. Os primeiros (os que deve ser suportados pelo paciente) por motivos v\u00e1rios como a extrema raridade, a sua imprevisibilidade, o conhecimento comum, entre outros motivos, n\u00e3o carecem de ser transmitidos; se se verificarem dever\u00e1 ser o paciente a suport\u00e1-los: casum sentit dominus.\u201d 21 . Em Portugal o esclarecimento m\u00e9dico est\u00e1 numa fase embrion\u00e1ria. Procura do m\u00e9dico como elemento \u201ctranquilizador\u201d e n\u00e3o \u201cassustador\u201d, baixo n\u00edvel cultural dos doentes, principalmente dos idosos, algum \u201cdoutorismo\u201d ou distancia\u00e7\u00e3o por parte de alguns m\u00e9dicos, ideia assente de que o doente, j\u00e1 fragilizado pela doen\u00e7a, n\u00e3o est\u00e1 interessado em acumular a revela\u00e7\u00e3o dos riscos \u00e0 sua pr\u00f3pria fragilidade, tradi\u00e7\u00e3o de pouca aten\u00e7\u00e3o \u00e0 envolv\u00eancia jur\u00eddica dos atos m\u00e9dicos at\u00e9 algo correr mal e outras raz\u00f5es levam a que, por regra, os atos n\u00e3o preencham os requisitos que as jurisprud\u00eancia francesa e alem\u00e3 v\u00eam exigindo. A interpreta\u00e7\u00e3o da lei n\u00e3o pode nem deve abstrair da realidade social que visa disciplinar. De outro modo, pode abrir-se um caminho de ressarcimento, praticamente ilimitado e desadequado face \u00e0 nossa realidade social, sempre que algo corre mal nos atos m\u00e9dicos. N\u00e3o tendo havido neglig\u00eancia, o doente teria ao seu alcance, na esmagadora maioria dos casos, a deficiente informa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. \u201cO incumprimento de qualquer um destes deveres [de esclarecimento e de obten\u00e7\u00e3o do consentimento\u00a0esclarecido] tem servido, como veremos, de artif\u00edcio para se alcan\u00e7ar a tutela do doente em situa\u00e7\u00f5es em que dificilmente ele obteria o ressarcimento de danos sofridos\u00a0aquando da presta\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia m\u00e9dica deficiente. Serviu para fundar o fen\u00f3meno ressarcit\u00f3rio em situa\u00e7\u00f5es em que se constatava a produ\u00e7\u00e3o de um dano por ocasi\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o debit\u00f3ria do m\u00e9dico, mas em que n\u00e3o era poss\u00edvel identificar um comportamento desvalioso por parte daquele profissional. Tal aproveitamento \u00ednvio permitiu um funcionamento eficaz do sistema de responsabilidade civil, em casos perante os quais ele, \u00e0 primeira vista, sucumbiria.\u201d \u2013 Rute Pedro, ob. citada, p\u00e1gina 79. No outro prato da balan\u00e7a, o Direito n\u00e3o pode deixar de ser aplicado, encerrando tamb\u00e9m um efeito disciplinador. Na interpreta\u00e7\u00e3o dos textos legais supra citados, h\u00e3o-de os tribunais tudo ponderar em ordem a se situarem no ponto de equil\u00edbrio dos interesses em jogo. Noutro prisma, a imposi\u00e7\u00e3o da revela\u00e7\u00e3o de todos os riscos da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, incluindo os de verifica\u00e7\u00e3o rara ou excecional, determinaria a abertura dum leque de tal modo vasto que desembocaria na \u201cli\u00e7\u00e3o\u201d de medicina que supra afast\u00e1mos e transcenderia at\u00e9 os conhecimentos necess\u00e1rios ao desempenho das pr\u00f3prias fun\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico que leva a cabo a ess\u00eancia do tratamento. Numa interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, como exemplo mais frequente, teria o doente de ser esclarecido primeiro pelo anestesista sobre as poss\u00edveis complica\u00e7\u00f5es da anestesia e sua probabilidade de n\u00e3o serem controladas, depois, pelo cardiologista, sobre o que pode acontecer a tal n\u00edvel, depois, pelo pneumologista sobre os riscos da \u201crespira\u00e7\u00e3o induzida\u201d e a\u00ed por diante. E a prova de que assim \u00e9 reside no facto de, perante complica\u00e7\u00f5es s\u00e9rias emergentes dum tratamento, mormente duma cirurgia, o cirurgi\u00e3o se socorrer de colegas de outras especialidades. Havendo at\u00e9 casos de doentes que, perante tais complica\u00e7\u00f5es, s\u00e3o transferidos de hospital porque s\u00f3 o segundo est\u00e1 vocacionado para tratar o que, na vis\u00e3o mais abrangente, seriam riscos a comunicar ao doente antes da interven\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">22 . Deste modo, ponderando tudo o que acaba de se escrever e sempre tendo em conta apenas o que pode interessar para a solu\u00e7\u00e3o deste caso, cremos poder assentar nas seguintes ideias:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com ressalvas que aqui n\u00e3o importam, o doente tem direito a ser informado, pelo m\u00e9dico, em ordem a poder decidir sobre se determinado ato m\u00e9dico que o vise deve ou n\u00e3o ser levado a cabo; Tal direito \u00e9 dispon\u00edvel;<\/p><p style=\"text-align: justify\">O conte\u00fado do dever de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 el\u00e1stico, n\u00e3o sendo, nomeadamente, igual para todos os doentes na mesma situa\u00e7\u00e3o;<\/p><p style=\"text-align: justify\">Abrange, salvo ressalvas que aqui n\u00e3o interessam e al\u00e9m do mais, o diagn\u00f3stico e as consequ\u00eancias do tratamento;<\/p><p style=\"text-align: justify\">Estas s\u00e3o integradas pela refer\u00eancia \u00e0s vantagens prov\u00e1veis do mesmo tratamento e\u00a0aos seus riscos;<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o se exigindo, todavia, uma refer\u00eancia \u00e0 situa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em detalhe;<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nem a refer\u00eancia aos riscos de verifica\u00e7\u00e3o excecional ou muito rara, mesmo que graves ou ligados especificamente \u00e0quele tratamento.\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">23 .\u00a0Aqui chegados, podemos atentar diretamente no caso presente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O recorrente subscreveu as declara\u00e7\u00f5es de consentimento de folhas 77 e 78.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pretende que as mesmas tenham a natureza de cl\u00e1usulas contratuais gerais em ordem a beneficiar do regime de \u00f3nus de prova constante do Decreto-Lei n.\u00ba 446\/85, de 25.10. Ainda que o artigo 1.\u00ba deste normativo n\u00e3o esteja redigido em termos claramente definit\u00f3rios, temos que as ccg se caracterizam pela pr\u00e9-elabora\u00e7\u00e3o, generalidade e aceita\u00e7\u00e3o sem negocia\u00e7\u00e3o. Como consta do Ac\u00f3rd\u00e3o deste Tribunal de 10.5.2007, processo n.\u00ba 07B841, com texto dispon\u00edvel em www.dgsi.pt: \u201cAs ccg s\u00e3o aquelas que, numa realidade contratual, tiverem aquelas categorias e, sendo-o, regem-se pelo Decreto-Lei n.\u00ba 446\/85. Mas, para se aferir se as t\u00eam ou n\u00e3o, j\u00e1 temos que atentar no regime deste normativo no que concerne ao \u00f3nus de prova. Ou seja, se, depois de atento tal regime, virmos que o proponente das cl\u00e1usulas demonstrou que houve negocia\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, por exemplo, as cl\u00e1usulas deixam de ter tal natureza e afastado fica o normativo que j\u00e1 antes se aplicara. Aplicou-se e, depois, n\u00e3o podia ter-se aplicado. Um \u201cnon sense\u201d.\u00a0Da imposi\u00e7\u00e3o, \u00e0 cabe\u00e7a, dos \u00f3nus de prova acabados de referir pode resultar ainda uma viol\u00eancia que o julgador\/int\u00e9rprete n\u00e3o pode cobrir. Em todas as cl\u00e1usulas contratuais, a parte a quem n\u00e3o agradasse o respectivo cumprimento, invocava que as cl\u00e1usulas dum contrato que lhe n\u00e3o convinham haviam sido r\u00edgidas, sem negocia\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e com caracter\u00edsticas de indetermina\u00e7\u00e3o e, s\u00f3 por a\u00ed, atirava para cima da contraparte \u00f3nus de prova terr\u00edveis, cominados com o afastamento das mesmas cl\u00e1usulas. Na pr\u00e1tica, um modo f\u00e1cil de n\u00e3o cumprir, legalmente, contratos. O que tamb\u00e9m \u00e9 inaceit\u00e1vel. Desta problem\u00e1tica deram conta os Ac\u00f3rd\u00e3os deste tribunal de 24.2.2005 e de 25.5.2006, cujos textos se podem ver em www.dgsi.pt., nos quais se decidiu que, previamente \u00e0 demonstra\u00e7\u00e3o a que os \u00f3nus de prova se reportam, teria de haver a demonstra\u00e7\u00e3o, a cargo da parte que quer beneficiar da invalidade das cl\u00e1usulas contratuais gerais, de que estamos em terreno pr\u00f3prio destas.\u201d Escrevendo Menezes Cordeiro que \u201ca exig\u00eancia da falta de pr\u00e9via negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 um elemento necess\u00e1rio e aut\u00f3nomo, que deve ser invocado e demonstrado\u201d (Tratado de Direito Civil Portugu\u00eas, Parte Geral, I, Tomo I, 429). Ora, vem apenas demonstrado que o recorrente subscreveu os ditos documentos. Nada mais se tendo provado \u2013 ainda que agora alegado \u2013 que possa integrar os conceitos de pr\u00e9-elabora\u00e7\u00e3o, rigidez e indeterminabilidade. Pelo contr\u00e1rio, consta do texto de tais documentos a alus\u00e3o ao diagn\u00f3stico, ao tratamento m\u00e9dico proposto e a alus\u00e3o a que o subscritor n\u00e3o deve hesitar \u201cem solicitar mais informa\u00e7\u00f5es ao m\u00e9dico, se n\u00e3o estiver completamente esclarecido\u201d.\u00a0 N\u00e3o pode, pois, ele beneficiar do regime pr\u00f3prio das\u00a0ccg.<\/p><p style=\"text-align: justify\">24 . \u00c9, assim, fora deste regime que temos de nos situar para tomarmos posi\u00e7\u00e3o sobre se os ditos documentos s\u00e3o suficientes para preencherem o que a lei imp\u00f5e no dom\u00ednio do consentimento esclarecido.\u00a0Foram subscritos pelo ora recorrente. Tem entendido este Tribunal que os documentos particulares subscritos por uma parte n\u00e3o fazem prova plena da exatid\u00e3o das declara\u00e7\u00f5es neles insertas (por todos o Ac. de 23.11.2005, processo n.\u00ba 5B3318, com texto dispon\u00edvel no mesmo s\u00edtio). Mas, nos termos do artigo 376.\u00ba, n.\u00ba2 do C\u00f3digo Civil, fazem prova plena, contra o confitente e nas rela\u00e7\u00f5es declarante\/declarat\u00e1rio, de que as declara\u00e7\u00f5es ali referidas foram efetivamente prestadas.N\u00e3o colhe, pois, agora a alega\u00e7\u00e3o da n\u00e3o comunica\u00e7\u00e3o ou da assinatura em branco, ali\u00e1s, sem qualquer correspond\u00eancia nos factos provados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">25 . O documento de folhas 77 \u2013 dos dois o \u00fanico elaborado antes da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica referida em 22.\u00ba e 28.\u00ba do elenco factual \u2013 est\u00e1 redigido em termos vagos e conclusivos na parte que importa. Refere que \u201cconfirmo que expliquei ao doente\u2026 de forma adequada e intelig\u00edvel\u2026assim como os riscos e complica\u00e7\u00f5es e as alternativas poss\u00edveis \u00e0 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.\u201d Inexistem elementos donde se possa aferir se a explica\u00e7\u00e3o foi, efetivamente, adequada e intelig\u00edvel e, fundamentalmente, n\u00e3o se referem quais os \u201criscos e complica\u00e7\u00f5es\u201d que poderiam advir ao doente. No entanto, dali consta, na parte relativa ao ora autor:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cLeia com aten\u00e7\u00e3o o conte\u00fado de todo este documento. N\u00e3o hesite em solicitar mais informa\u00e7\u00f5es ao m\u00e9dico, se n\u00e3o estiver completamente esclarecido. Verifique se todas as informa\u00e7\u00f5es est\u00e3o correctas.\u201d\u00a0 \u00a0Com esta refer\u00eancia, o hospital e o m\u00e9dico colocaram nas m\u00e3os do doente o caminho para todos os esclarecimentos. Se ele se limitou a assinar, sem o percorrer, tem de se considerar que abdicou dum direito que, como dissemos supra, era inteiramente\u00a0dispon\u00edvel. Decerto que poderia o documento estar redigido em termos muito mais claros e concludentes quanto \u00e0 iniciativa do m\u00e9dico. Mas referindo-se que lhe foram explicados, de forma adequada e intelig\u00edvel, os riscos e que lhe foi solicitada a\u00a0assinatura do documento, no qual estava escrito que n\u00e3o hesitasse em solicitar mais informa\u00e7\u00f5es ao m\u00e9dico se n\u00e3o estivesse completamente esclarecido, \u00e9 de assacar ao pr\u00f3prio doente eventual falta de alus\u00e3o aos riscos concretos, mormente \u00e0quele que\u00a0inclu\u00eda as sequelas que vieram a ter lugar.\u00a0\u00c9 sabido que, como deix\u00e1mos dito em 21, com frequ\u00eancia, nada se cumpre como\u00a0consta dos documentos. Recorre-se, num contexto emotivo de ida para uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, ao \u201cassine aqui\u201d, com uma explica\u00e7\u00e3o levada a cabo por um funcion\u00e1rio e totalmente eivada de laconismo ou mesmo inexistente.\u00a0S\u00f3 que, nestes casos existe uma grande responsabiliza\u00e7\u00e3o de quem assim subscreve um documento. Al\u00e9m do mais, ter\u00e1 de fazer valer em tribunal tudo aquilo que, de\u00a0viciante, poder\u00e1 ter estado na base da subscri\u00e7\u00e3o. O que aqui n\u00e3o ocorre. Acresce que, apesar de a Rela\u00e7\u00e3o ter fixado que as sequelas foram consequ\u00eancia direta da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica (ponto 22.\u00ba), n\u00e3o deixou de ficar nos factos que o autor\u00a0sofreu fratura do colo do \u00famero esquerdo num per\u00edodo fulcral da sua recupera\u00e7\u00e3o,\u00a0com influ\u00eancia negativa no resultado final (pontos 38.\u00ba e 56.\u00ba).\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">26 . Finalmente n\u00e3o se provou que as sequelas correspondessem a riscos normais e n\u00e3o raros ou excecionais da cirurgia. Tamb\u00e9m n\u00e3o se provou o contr\u00e1rio, pelo que se levantaria aqui a discuss\u00e3o sobre o\u00a0\u00f3nus de prova, prejudicada atento o que se referiu no n\u00famero anterior (sendo certo\u00a0que, no Ac\u00f3rd\u00e3o deste Tribunal de 18.3.2010, processo n.\u00ba 301\/06.4TVPRT.P1.S1,\u00a0dispon\u00edvel no aludido s\u00edtio, se entendeu impender sobre a doente a demonstra\u00e7\u00e3o de que \u201coutros especiais riscos podiam ocorrer\u201d).\u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">27 .\u00a0Face a todo o exposto, nega-se a revista.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas pelo recorrente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Lisboa, 9.10.2014<\/p><p style=\"text-align: justify\">Jo\u00e3o Bernardo<\/p><p style=\"text-align: justify\">Oliveira Vasconcelos<\/p><p style=\"text-align: justify\">Serra Baptista<\/p><p style=\"text-align: justify\">______________________<\/p><p style=\"text-align: justify\">[1]\u00a0Com acesso f\u00e1cil, introduzindo no motor de busca da<\/p><p style=\"text-align: justify\">internet\u00a0\u201cBundesgerichtshof.de\u201d, depois,\u00a0\u201cEntscheidungen\u201d\u00a0e, depois, a data<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"http:\/\/www.gde.mj.pt\/jstj.nsf\/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814\/f80b5c5850afdfb780257d6d003027bf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.gde.mj.pt\/jstj.nsf\/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814\/f80b5c5850afdfb780257d6d003027bf<\/a>\"<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-d632c75 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-d632c75 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-d632c75\").on('click', function(){\n                        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n\u00e3o significa uma impugna\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica da decis\u00e3o e n\u00e3o implica um novo julgamento ou uma impugna\u00e7\u00e3o n\u00e3o especificada ou n\u00e3o circunscrita da decis\u00e3o e, consequentemente, n\u00e3o acarreta a rejei\u00e7\u00e3o do recurso.<br \/>II - O conceito de \u201cresultado\u201d no contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os que se estabelece entre o m\u00e9dico e o doente, enquanto obriga\u00e7\u00e3o de meios, como deve ser qualificada na grande maioria das presta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, corresponde ao esfor\u00e7o na a\u00e7\u00e3o diligente (pura dilig\u00eancia), a observ\u00e2ncia das\u00a0leges artis\u00a0no diagn\u00f3stico e no tratamento.<br \/>III - Se, no p\u00f3s-operat\u00f3rio de uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica ortop\u00e9dica ao tornozelo \u00e9 necessariamente aplicada uma tala na perna do doente e, na zona desta surge fitina, \u00e9 do lesado o \u00f3nus da prova da viola\u00e7\u00e3o, pelos colaboradores do R. hospital, do cuidado devido segundo as regras da leges artis na ac\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ou de enfermagem, sem o que n\u00e3o h\u00e1 cumprimento defeituoso enquanto pressuposto de responsabilidade civil.<br \/>IV - A pr\u00e1tica m\u00e9dica em consulta hospitalar de urg\u00eancia implica decis\u00f5es r\u00e1pidas e visa sobretudo aliviar o sofrimento, sendo o erro de diagn\u00f3stico mais toler\u00e1vel do que o erro na consulta da especialidade normal, onde o exame e a pondera\u00e7\u00e3o devem ser colocados num patamar de exig\u00eancia superior.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Proc. n\u00ba 18052\/16.0T8PRT.P l \u2013 3\u00aa Sec\u00e7\u00e3o (apela\u00e7\u00e3o)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tribunal Judicial da Comarca do Porto<br \/>- Ju\u00edzo Local C\u00edvel do Porto - Juiz 6<\/p><p style=\"text-align: justify\">Relator: Filipe Caro\u00e7o<br \/>Adj. Desemb. Judite Pires<br \/>Adj. Desemb. Aristides Rodrigues de Almeida<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam no Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto<br \/>I.<\/p><p style=\"text-align: justify\">B\u2026, casada, com o NIF \u2026\u2026.., residente na Rua \u2026, \u2026, \u2026. \u2013 \u2026 \u2026 \u2026 \u2013 Maia, instaurou a\u00e7\u00e3o declarativa comum contra C\u2026, S.A., com o NIPC \u2026\u2026\u2026, onde se integra a Unidade Hospital C1\u2026, com sede na Avenida \u2026, n.\u00ba \u2026, \u2026. - \u2026 Porto, alegando --- aqui sinopticamente --- que deu entrada nos servi\u00e7os de urg\u00eancia da R. em virtude de uma queda que lhe provocou uma tor\u00e7\u00e3o no p\u00e9 direito, recebeu ali, a seu pedido, assist\u00eancia hospitalar, mas de modo deficiente, sem observ\u00e2ncia de elementares regras m\u00e9dicas. Primeiro, com um diagn\u00f3stico errado no epis\u00f3dio de urg\u00eancia, por a sua les\u00e3o n\u00e3o se tratar de um simples entorse de tornozelo, como ali diagnosticado, mas de uma \u201c<em>fratura mal\u00e9olo peroneal direita obl\u00edqua<\/em>\u201d (vulgo,\u00a0<em>fratura do tornozelo<\/em>) --- como foi posteriormente assegurado pelo m\u00e9dico ortopedista --- determinante de uma cirurgia \u00e0quele p\u00e9 cujo p\u00f3s-operat\u00f3rio, depois, tamb\u00e9m foi deficientemente acompanhado pelos servi\u00e7os da R., da\u00ed tendo resultado despesas e dores desnecess\u00e1rias, flitena ou ulcera\u00e7\u00e3o do calcanhar e do peito do p\u00e9 causada pela press\u00e3o das talas aplicadas, deixando marcas inest\u00e9ticas que ir\u00e3o continuar para toda a sua vida e que lhe t\u00eam causado e continuar\u00e3o a causar sofrimento psicol\u00f3gico e preju\u00edzo na sua autoestima e afirma\u00e7\u00e3o social cuja compensa\u00e7\u00e3o (dano n\u00e3o patrimonial) estima em \u20ac8.500,00.<br \/>Nas v\u00e1rias desloca\u00e7\u00f5es que teve de efetuar aos servi\u00e7os da R. para tratar as \u00falceras, a A. alega que gastou \u20ac360,00, quantia pela qual entende dever ser reparada.<br \/>Concluiu como seguinte pedido:<br \/>\u00ab<em>(\u2026)<\/em><br \/><em>a)\u00a0<\/em><em>Ser a R\u00e9 condenada a pagar \u00e0 Autora uma indemniza\u00e7\u00e3o a t\u00edtulo de dano n\u00e3o patrimonial no valor de \u20ac8.500,00 (oito mil e quinhentos Euros);<\/em><br \/><em>b)\u00a0<\/em><em>Ser a R\u00e9 condenada a pagar \u00e0 Autora uma indemniza\u00e7\u00e3o a t\u00edtulo de dano patrimonial no valor de \u20ac360,00 (trezentos e sessenta Euros), bem como o montante que tamb\u00e9m a esse t\u00edtulo se vier a apurar em liquida\u00e7\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o de senten\u00e7a;<\/em><br \/><em>c)\u00a0<\/em><em>Ser a R\u00e9 condenada a pagar \u00e0 Autora o montante dos juros legais vencidos e vincendos desde a data cita\u00e7\u00e3o, \u00e0 taxa legal em vigor, at\u00e9 total e efetivo pagamento;<\/em><br \/><em>d)\u00a0<\/em><em>Ser a R\u00e9 respons\u00e1vel pelo pagamento de custas e dos demais encargos do processo.<\/em>\u00bb (<em>sic<\/em>)<\/p><p>Citada, a R. deduziu contesta\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou por pedir a interven\u00e7\u00e3o principal provocada da sociedade seguradora D\u2026 \u2013 Companhia de Seguros, S.A., invocando um contrato de seguro entre elas celebrado, designado por\u00a0<em>contrato de seguro de responsabilidade civil geral e profissional<\/em>, com cobertura de indemniza\u00e7\u00e3o por danos que lhe viesse a ser exigida, e que resultassem, nomeadamente, de atos de neglig\u00eancia m\u00e9dica praticados no exerc\u00edcio da sua atividade m\u00e9dica.<br \/>Por impugna\u00e7\u00e3o, a R. op\u00f4s-se a grande parte da mat\u00e9ria de facto alegada na peti\u00e7\u00e3o inicial, defendendo que os m\u00e9dicos assistiram a A. nos seus servi\u00e7os de modo adequado, praticando os atos m\u00e9dicos exig\u00edveis, adequados e necess\u00e1rios, tendo em conta a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da A. em cada momento, em conformidade com a\u00a0<em>leges artis<\/em>.<br \/>Terminou no sentido de que deve ser absolvida do pedido e de que seja a D\u2026 chamada \u00e0 a\u00e7\u00e3o.<br \/>O tribunal admitiu a D\u2026 \u2013 Companhia de Seguros, S.A. como interveniente principal, ordenando a sua cita\u00e7\u00e3o.<br \/>A interveniente tamb\u00e9m contestou a a\u00e7\u00e3o, alegando que n\u00e3o tem qualquer responsabilidade perante a A. e que deveria intervir apenas como parte acess\u00f3ria.<br \/>Invocou a prescri\u00e7\u00e3o do direito da A., a inaplicabilidade do contrato de seguro e ainda que a A. n\u00e3o podia ter relegado para oportuna liquida\u00e7\u00e3o quantias que alega ter suportado, por j\u00e1 estarem quantificadas.<br \/>Concluiu pela absolvi\u00e7\u00e3o das RR. do pedido.<br \/>Foi depois proferido despacho saneador, onde o tribunal julgou improcedente a exce\u00e7\u00e3o a prescri\u00e7\u00e3o.<br \/>Foi realizado exame m\u00e9dico pelo INML, cujos relat\u00f3rios foram juntos a 22.3.2018 e a 27.5.2019.<br \/>Teve lugar a audi\u00eancia final, ap\u00f3s a qual foi proferida senten\u00e7a que culminou com o seguinte dispositivo,\u00a0<em>ipsis verbis<\/em>:<br \/>\u00ab<em>Nestes termos, julgando a a\u00e7\u00e3o totalmente improcedente, decido, absolver as r\u00e9s do pedido.<\/em><br \/><em>Custas pela autora.<\/em>\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Inconformada com a decis\u00e3o final, a A. apelou,\u00a0<u>CONCLUINDO<\/u>\u00a0as suas alega\u00e7\u00f5es nos seguintes termos:<br \/>\u00abA)\u00a0O presente recurso incide sobre a mat\u00e9ria de facto e de direito.<br \/>B)\u00a0Imp\u00f5e-se a altera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto dada como n\u00e3o provada, nos seguintes termos: Deve ser alterado para provado o ponto 1 dos factos n\u00e3o provados nos seguintes termos\u00a0<em>\u201ce informou a autora de que n\u00e3o via qualquer problema a n\u00edvel \u00f3sseo\u201d.<\/em><br \/>Devem ainda ser alterados para provados os seguintes factos n\u00e3o provados: pontos 9, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 21 e 22.<br \/>C)\u00a0No que concerne aos pontos 13 e 17 da factualidade n\u00e3o provada, por for\u00e7a da factualidade dada como provada sob o ponto P, imp\u00f5e-se necessariamente a altera\u00e7\u00e3o desses factos para provados.<br \/>D)\u00a0Acresce que, a prova documental junta aos autos imp\u00f5e a altera\u00e7\u00e3o para provada da mat\u00e9ria de facto n\u00e3o provada acima descrita, nomeadamente: As fotografias juntas \u00e0 peti\u00e7\u00e3o inicial que s\u00e3o demonstrativas do estado em se encontra o p\u00e9 direito da A. e os relat\u00f3rios da Delega\u00e7\u00e3o do Instituto de Medicina Legal Ci\u00eancias Forenses de 22.03.2018 e 27.05.2018, dos quais consta que a A. apresenta \u00e1rea cicatricial na face dorsal do p\u00e9 direito com cerca de 5 cm por 2 cm de maiores dimens\u00f5es e que as cicatrizes n\u00e3o s\u00e3o pass\u00edveis de melhoria do ponto de vista est\u00e9tico, podendo apenas ser melhorada do ponto de vista de qualidade cicatricial com enxerto de gordura.<br \/>E)\u00a0Tamb\u00e9m a prova testemunhal imp\u00f5e decis\u00e3o diferente da mat\u00e9ria de facto supra referida.<br \/>F)\u00a0A Sra. Juiz do Tribunal a quo n\u00e3o valorou os depoimentos do marido (veja-se Audi\u00eancia de julgamento do dia 15\/11\/2019, \u00e0s 09h30, gravada em CD, aos 2min36-2min39, 9min34-9min40, 18min08-18min37, 19min34-19min45, 27min05-27min42, 28min15-28min20, 30min22-30min35, 31min24-31min55, 32min09-32min16, 35min11-35min25, 37min07-37min31, 37min32-38min12, 41min45-41min50) e filho da A. (veja-se Audi\u00eancia de julgamento do dia 15\/11\/2019, \u00e0s 09h30, gravada em CD, aos minutos 3min57-4min08, 9min15-9min36, 9min39-9min44, 9min44-9min53, 12min21-12min28, 12min59-13min07) que foram particularmente importantes para provar o estado p\u00f3s-operat\u00f3rio da A. e o estado em que ficou o seu p\u00e9.<br \/>G)\u00a0Os depoimentos das aludidas testemunhas revestiram-se de seguran\u00e7a, consist\u00eancia, credibilidade, revelando perfeito conhecimento dos factos aqui em causa, por neles terem tido interven\u00e7\u00e3o.<br \/>H)\u00a0A Sra. Juiz do Tribunal a quo n\u00e3o analisou ainda criticamente o depoimento do m\u00e9dico E\u2026 (veja-se Audi\u00eancia de julgamento do dia 15\/11\/2019, \u00e0s 09h30, gravada em CD, aos minutos 5min55-6min15, 11min11-11min24, 15min55-16min01, 20min01-20min21, 34min37-34min49, 42min20-42min36, 42min47-42min50, 47min33-47min48) que de modo encapotado, tentou esconder qual a verdadeira raz\u00e3o do aparecimento da \u00falcera de press\u00e3o no p\u00e9 da A., fazendo um depoimento vago e gen\u00e9rico, do qual se concluiu que disse muito menos do que aquilo que podia e sabia dizer.<br \/>I)\u00a0Finalmente, temos o depoimento da testemunha \u2013 enfermeira F\u2026 (veja-se Audi\u00eancia de julgamento do dia 15\/11\/2019, \u00e0s 09h30, gravada em CD, aos minutos 7min08-7min21), que disse sem qualquer d\u00favida que a \u00falcera de press\u00e3o \u00e9 causada pela tala. Da\u00ed a necessidade de os pensos serem realizados com frequ\u00eancia para vigiar a pele; para evitar este tipo de situa\u00e7\u00f5es, de flitena ou \u00falcera de press\u00e3o.<br \/>J)\u00a0De todo o exposto, conclui-se QUE A MAT\u00c9RIA DE FACTO DOS PONTOS 1, 9, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 21 e 22 DA FACTUALIDADE N\u00c3O PROVADA DEVE SER ALTERADA PARA PROVADA, sendo o ponto 1 apenas nesses termos \u201ce\u00a0<em>informou a autora de que n\u00e3o via qualquer problema a n\u00edvel \u00f3sseo\u201d.<\/em><br \/>K)\u00a0Com efeito, d\u00favidas n\u00e3o h\u00e1 que a R. C\u2026 n\u00e3o cumpriu os deveres de cuidado a que estava obrigada:<br \/>L)\u00a0N\u00e3o diagnosticou corretamente a les\u00e3o sofrida pela A. no p\u00e9, pois inicialmente diagnosticou com sendo uma simples entorse, tendo apurado uma semana depois tratar-se de uma fratura, a A. foi operada de imediato, opera\u00e7\u00e3o que se n\u00e3o fosse a conduta da R. j\u00e1 teria ocorrido aquando do primeiro diagn\u00f3stico, ou seja, 8 dias antes, tudo isto evitando sobretudo que a A. sofresse as dores que sofreu.<br \/>M)\u00a0A R. C\u2026 n\u00e3o cumpriu os deveres a que estava obrigada, pois n\u00e3o evitou que a press\u00e3o da tala causasse como causou a ulcera\u00e7\u00e3o do calcanhar e do peito do p\u00e9 da A., o que originou marcas que ainda hoje permanecem no p\u00e9 da A.<br \/>N)\u00a0Como resulta da douta senten\u00e7a recorrida, in casu, foi estabelecido um v\u00ednculo jur\u00eddico entre a Autora e a R. C\u2026, nomeadamente um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos.<br \/>O)\u00a0Ora, o devedor que faltar culposamente ao cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o torna-se respons\u00e1vel pelo preju\u00edzo que causar ao credor (artigo 798.\u00ba do CC), sendo o devedor respons\u00e1vel pelos atos das pessoas que utilize para o cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o, como se tais atos fossem praticados pelo pr\u00f3prio devedor (artigo 800.\u00ba, n\u00ba 1 do CC).<br \/>P)\u00a0No caso dos autos, face \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto nos termos supra descritos, resulta que a R. C\u2026 n\u00e3o diagnosticou corretamente a les\u00e3o sofrida pela A. no p\u00e9, pois inicialmente diagnosticou com sendo uma simples entorse, tendo apurado uma semana depois tratar-se de uma fratura, a A. foi operada de imediato, opera\u00e7\u00e3o que se n\u00e3o fosse a conduta da R. j\u00e1 teria ocorrido aquando do primeiro diagn\u00f3stico, ou seja, 8 dias antes, tudo isto evitando sobretudo que a A. sofresse as dores que sofreu.<br \/>Q)\u00a0Ademais, a R. C\u2026 n\u00e3o cumpriu os deveres a que estava obrigada, pois n\u00e3o evitou que a press\u00e3o da tala causasse como causou a ulcera\u00e7\u00e3o do calcanhar e do peito do p\u00e9 da A., o que originou marcas que ainda hoje permanecem no p\u00e9 da A.<br \/>R)\u00a0Ora, in casu, se a R. C\u2026 n\u00e3o omitisse os deveres de cuidado a que estava obrigada, jamais a A. ficaria com o p\u00e9 no estado em que ficou.<br \/>S)\u00a0Na verdade, n\u00e3o fosse a Ac\u00e3o omissiva das mais elementares legis artis por parte dos profissionais da r\u00e9, a autora n\u00e3o teria o p\u00e9 no estado em que o mesmo se encontra.<br \/>T)\u00a0Verifica-se, assim, que a R. praticou um facto il\u00edcito (cumprimento defeituoso dos deveres emergentes do contrato), com culpa (que, ali\u00e1s, se presume, sendo que o devedor n\u00e3o logrou ilidir essa presun\u00e7\u00e3o de culpa), provocou um dano e existe nexo de causalidade entre o facto e o dano.<br \/>U)\u00a0Em face do exposto, a senten\u00e7a ora recorrida enferma claramente de um erro na aplica\u00e7\u00e3o da norma jur\u00eddica que deveria ter sido aplicada face aos factos e mat\u00e9ria de facto apurada em audi\u00eancia de julgamento, n\u00e3o decidindo, como deveria ter feito, pela condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us no pedido.<br \/>V)\u00a0Assim, deve ser dado provimento ao recurso e, por via dele, ser revogada a senten\u00e7a recorrida, substituindo-se por outra que condene os R\u00e9us no pedido formulado pela Autora.\u00bb (<em>sic<\/em>)<br \/>Pediu, assim, a revoga\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o e a sua substitui\u00e7\u00e3o por outra decis\u00e3o que julgue a a\u00e7\u00e3o totalmente procedente, por provada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">A D\u2026, S.A. respondeu em contra-alega\u00e7\u00f5es que\u00a0<u>sintetizou<\/u>\u00a0assim:<br \/>\u00ab1. O recurso apresentado pela Autora n\u00e3o poder\u00e1 merecer qualquer acolhimento, nem provimento, uma vez que n\u00e3o se verifica erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova que justifique a pretendida altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto.<br \/>2. O Autor n\u00e3o logrou demonstrar, com recurso \u00e0 prova produzida em Audi\u00eancia de Discuss\u00e3o e Julgamento e demais elementos existentes nos presentes autos, de que forma se justifica a pretendida altera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, concretamente, os pontos considerados n\u00e3o provados constantes dos n\u00fameros 1, 9, 11, 73, 14 7 c 17, 18, 21 e 22.<br \/>3. N\u00e3o existe qualquer prova documental, pericial ou testemunhai que fundamente a altera\u00e7\u00e3o da referida mat\u00e9ria de facto.<br \/>4. Para al\u00e9m disto, a senten\u00e7a encontra-se devidamente fundamentada e corresponde a uma correta aplica\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a.<br \/>5. Tamb\u00e9m n\u00e3o merece qualquer reparo o julgamento da mat\u00e9ria de Direito realizado pelo Tribunal\u00a0<em>a quo<\/em>.<br \/>6. Assim sendo, dever\u00e1 improceder o recurso apresentado pela Autora.\u00bb (<em>sic<\/em>)<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">A C\u2026, S.A. tamb\u00e9m apresentou contra-alega\u00e7\u00f5es, com as seguintes\u00a0<u>conclus\u00f5es<\/u>:<br \/>\u00abi. A Autora, ora Recorrente, assenta o seu recurso, desde logo, na altera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto dada como n\u00e3o provada.<br \/>ii. Quanto a esta, o C\u00f3digo de Processo Civil, no seu artigo 640\u00ba, imp\u00f5e nomeadamente que a Recorrente deve obrigatoriamente especificar, sob pena de rejei\u00e7\u00e3o os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados; os meios probat\u00f3rios que impunham decis\u00e3o sobre os pontos da mat\u00e9ria de facto impugnados diversa da recorrida e a decis\u00e3o que deve ser proferida sobre as quest\u00f5es de facto impugnadas.<br \/>iii. Aquilo que a Recorrente faz, salvo o devido respeito, \u00e9 uma mera impugna\u00e7\u00e3o em bloco de um conjunto vasto de pontos da mat\u00e9ria de facto, limitando-se depois a fazer longas transcri\u00e7\u00f5es dos depoimentos. N\u00e3o fazendo uma rela\u00e7\u00e3o entre os meios probat\u00f3rios e cada um dos pontos da mat\u00e9ria de facto, com a respetiva aprecia\u00e7\u00e3o critica.<br \/>iv. Analisando o caso concreto, aquilo que parece ocorrer \u00e9 que a Recorrente se limita a impugnar um vasto conjunto da mat\u00e9ria de facto (os pontos 1, 9, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 21 e 22) e que a seguir transcreve longas passagens dos depoimentos.<br \/>v. Muito pouco mais faz do que isso, para al\u00e9m de umas escassas, gen\u00e9ricas e vagas considera\u00e7\u00f5es sobre os depoimentos das testemunhas. N\u00e3o existindo a m\u00ednima preocupa\u00e7\u00e3o, em tentar relacionar os meios de prova com cada um dos pontos impugnados e fazendo a respetiva aprecia\u00e7\u00e3o critica.<br \/>vi. Podendo verificar-se que os pr\u00f3prios factos elencados pela Recorrente nem todos est\u00e3o ligados entre si, ou seja, estamos perante mat\u00e9rias diferentes que n\u00e3o permitem uma aprecia\u00e7\u00e3o em bloco e acr\u00edtica como aquela que a Recorrente efetua.<br \/>vii. Em suma, salvo melhor opini\u00e3o, por inadmiss\u00edvel, deve-se rejeitar a impugna\u00e7\u00e3o do julgamento da mat\u00e9ria de facto.<br \/>viii. Sem conceder,<br \/>ix. Relembramos que \u00e9 alegado pela Recorrente a omiss\u00e3o da Recorrida dos procedimentos exig\u00edveis de acordo com a\u00a0<em>legis artis,\u00a0<\/em>no fundo, que o ato m\u00e9dico n\u00e3o teve lugar de acordo com as melhores pr\u00e1ticas m\u00e9dicas.<br \/>x. Ora, da prova produzida (documental, pericial e testemunhal), n\u00e3o resulta um \u00fanico ind\u00edcio de m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica. Desde logo, e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 prova pericial, a \u00fanica que teve lugar refere-se \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o do dano corporal, logo, n\u00e3o teve por objeto a pr\u00e1tica m\u00e9dica.<br \/>xi. Depois, \u00e9 preciso analisar com cuidado o depoimento do \u00fanico m\u00e9dico ouvido em sede de julgamento, E\u2026. Este depoimento \u00e9 particularmente relevante na medida em que este m\u00e9dico foi aquele que operou por duas vezes a Autora.<br \/>xii. Tendo diagnosticado a fratura e recomendado a cirurgia no dia seguinte, a qual se ter\u00e1 processado de forma normal e sem ocorr\u00eancias, com as dores normais e usuais neste tipo de cirurgia.<br \/>xiii. De acordo com as notas de enfermagem, a testemunha referiu que existiu uma normal cicatriza\u00e7\u00e3o e na verdade, consultado, o processo clinico \/ di\u00e1rio de enfermagem (junto pela R\u00e9 por requerimento datado de 12 de julho de 2017), pode-se ler que no dia da alta (dia 26 de setembro de 2013), a Autora n\u00e3o apresentava queixas al\u00e9rgicas; que o penso da ferida cir\u00fargica no membro inferior direito tinha a ligadura externamente seca e limpa; que o membro inferior direito n\u00e3o apresentava comprometimento neuro vascular e que a sutura n\u00e3o tinha sinais inflamat\u00f3rios \u2013 vide factos provados F\u00b4, G\u00b4 e I\u00b4.<br \/>xiv. Sendo que na consulta oito dias depois da cirurgia, notou-se a exist\u00eancia de uma flitena (ou seja, uma bolha), num processo que por vezes ocorre e descrito pelo m\u00e9dico, reafirmando que a flitena n\u00e3o existia no momento da alta, ou seja, a flitena surgiu j\u00e1 depois da alta e antes da primeira consulta, oito dias depois da cirurgia.<br \/>xv. Sendo que tal flitena estava no dorso do p\u00e9, n\u00e3o tendo qualquer rela\u00e7\u00e3o com a cicatriz (que \u00e9 lateral, na parte externa do tornozelo), nem com a tala que tinha sido colocada.<br \/>xvi. Sendo que tal ocorr\u00eancia n\u00e3o era evit\u00e1vel e \u00e9 um risco da pr\u00f3pria interven\u00e7\u00e3o. Podendo ocorrer por um conjunto vasto e incerto de raz\u00f5es como excesso de gelo ou de movimentos da paciente, entre outras raz\u00f5es.<br \/>xvii. Tendo a Recorrente recuperado a mobilidade total e passados dois anos voltado a recorrer aos servi\u00e7os deste m\u00e9dico para realizar a segunda cirurgia, o que n\u00e3o deixa de ser sintom\u00e1tico que a pr\u00f3pria Recorrente nunca perdeu a confian\u00e7a na R\u00e9 e no m\u00e9dico que a tratou.<br \/>xviii. A testemunha refere ainda que eventuais dores que a paciente tenha sofrido ou que sofra hoje, bem como problemas de mobilidade, em nada est\u00e3o relacionadas com a flitena mas apenas com a fratura, sendo que os registos cl\u00ednicos s\u00f3 confirmam esta opini\u00e3o.<br \/>xix. Tamb\u00e9m as testemunhas G\u2026, H\u2026 e F\u2026 confirmaram o depoimento da testemunha Dr. E\u2026.<br \/>xx. Assim, em rela\u00e7\u00e3o a esta flitena, aquilo que se pode afirmar, sem margem para d\u00favidas, \u00e9 que a mesma efetivamente ocorreu e que tal ocorr\u00eancia se ter\u00e1 verificado j\u00e1 ap\u00f3s a alta (isto porque de acordo com os registos cl\u00ednicos, nomeadamente, as notas de enfermagem e de acordo com os depoimentos das testemunhas acima citadas, quando foi dada alta, n\u00e3o existia qualquer flitena).<br \/>xxi. A causa e raz\u00e3o de ser da flitena n\u00e3o foi apurada, podendo se especular como referiu muito detalhadamente, e por diversas vezes, no seu depoimento, a testemunha Dr. E\u2026, inclusive por um maior descuido da Autora no colocar do gelo ou nos movimentos enquanto esteve em casa ou por uma mera rea\u00e7\u00e3o do corpo.<br \/>xxii. A Recorrente n\u00e3o conseguiu produzir uma \u00fanica prova que pudesse contrariar esta tese, limitando-se a arrolar como testemunhas o seu marido e filho que (at\u00e9 por falta de forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica) nada acrescentaram de relevante limitando-se a reproduzir os queixumes daquela e a ensaiar t\u00edmidas explica\u00e7\u00f5es para a dita flitena.<br \/>xxiii. A Recorrente refere ainda que existiu um diagn\u00f3stico incorreto da les\u00e3o numa fase inicial, ao n\u00e3o ter sido apurada a exist\u00eancia da fratura, o que evitava as dores que alegadamente a aquela sofreu.<br \/>xxiv. Ora, a Recorrente aqui altera por completo aquilo que referiu na sua Peti\u00e7\u00e3o Inicial e a forma como desenhou a sua pretens\u00e3o e causa de pedir. Em nenhum momento da sua Peti\u00e7\u00e3o Inicial, a Autora invoca a exist\u00eancia de danos e reclama o pagamento de indemniza\u00e7\u00e3o fruto do primeiro diagn\u00f3stico.<br \/>xxv. Toda a pretens\u00e3o da Recorrente assenta naquilo que (alegadamente) ocorreu na cirurgia e no aparecimento da dita flitena.<br \/>xxvi. Por isso mesmo \u00e9 que a Recorrente vem invocar a exist\u00eancia de um dano est\u00e9tico (artigo 46\u00ba da Peti\u00e7\u00e3o Inicial) acrescido de um dano patrimonial com despesas para tratamento daquilo que designa por \u201c\u00falceras do p\u00e9 e calcanhar\u201d (artigo 53\u00ba da Peti\u00e7\u00e3o Inicial). N\u00e3o existe qualquer dano descrito fruto do alegado errado diagn\u00f3stico na primeira observa\u00e7\u00e3o \/ consulta.<br \/>xxvii. Ali\u00e1s, lendo a pr\u00f3pria Peti\u00e7\u00e3o Inicial, n\u00e3o resulta claro a exist\u00eancia e a alega\u00e7\u00e3o de qualquer erro de diagn\u00f3stico ou erro m\u00e9dico aquando dessa primeira observa\u00e7\u00e3o.<br \/>xxviii. Sem conceder, note-se que n\u00e3o est\u00e1 demonstrado que a Recorrida deva ser responsabilizada por qualquer alegado erro e, mais do que isso, que a Recorrente tenha sofrido quaisquer danos fruto desse facto.<br \/>xxix. N\u00e3o existe, uma vez mais, uma testemunha, um documento, que tenha confirmado a exist\u00eancia do erro aquando dessa primeira observa\u00e7\u00e3o e qualquer nexo de causalidade com qualquer dano.<br \/>xxx. Ali\u00e1s, a demonstra\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia da improced\u00eancia da pretens\u00e3o da Recorrente est\u00e1 no facto da flitena n\u00e3o existir aquando da cirurgia, logo, a flitena nunca pode ter tido origem no alegado atraso de diagn\u00f3stico, aquando da primeira observa\u00e7\u00e3o (a flictena, na verdade, s\u00f3 apareceu durante o per\u00edodo de tempo em que a Recorrente esteve em causa, ap\u00f3s a alta m\u00e9dica \u2013 vide facto provado E\u00b4\u00b4).<br \/>xxxi. Fa\u00e7a-se ainda notar que de acordo com o facto provado H), \u201c<em>A autora transmitiu \u00e0 m\u00e9dica em causa que melhorava das dores depois de colocar gelo no p\u00e9 e de tomar anti-inflamat\u00f3rios, mais tendo relatado um bom estado geral \u00e0 m\u00e9dica e negando limita\u00e7\u00f5es funcionais<\/em>\u201d.<br \/>xxxii. Assim, nada fazendo prever a necessidade ou urg\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o de qualquer cirurgia. Tendo a mesma m\u00e9dica, tido o cuidado de escrever \u201c<em>no processo clinico que a situa\u00e7\u00e3o clinica da doente teria de ser revista em consulta de ortopedia<\/em>\u201d, facto provado M).<br \/>xxxiii. Daqui decorre que n\u00e3o se encontra nestes factos provados, a imputa\u00e7\u00e3o de qualquer responsabilidade ou m\u00e1 pr\u00e1tica da m\u00e9dica em causa.<br \/>xxxiv. Por tudo o que se disse acima, \u00e9 mais do que evidente que a Recorrente n\u00e3o conseguiu fazer prova dos factos demonstrativos do incumprimento ou cumprimento defeituoso das\u00a0<em>legis artis\u00a0<\/em>e da dilig\u00eancia que \u00e9 exigida \u00e0s equipas m\u00e9dicas.<br \/>xxxv. Devendo, deste modo, manter-se a douta senten\u00e7a agora objeto de recurso, sendo este julgado improcedente e assim se fazendo JUSTI\u00c7A!\u00bb (<em>sic<\/em>)<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foram colhidos os vistos legais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>II.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As quest\u00f5es a decidir --- exce\u00e7\u00e3o feita para o que for do conhecimento oficioso --- est\u00e3o delimitadas pelas conclus\u00f5es da apela\u00e7\u00e3o da A. recorrente (cf. art.\u00bas 608\u00ba, n\u00ba 2, 635\u00ba e 639\u00ba, do C\u00f3digo de Processo Civil).<\/p><p>Para apreciar, na apela\u00e7\u00e3o, est\u00e3o:<br \/>1 - O invocado erro de julgamento na decis\u00e3o proferida em mat\u00e9ria de facto;<br \/>2 - As consequ\u00eancias jur\u00eddicas da (eventual) modifica\u00e7\u00e3o daquela decis\u00e3o.<\/p><p><u>Previamente<\/u>, por\u00e9m, h\u00e1 que apreciar e decidir a quest\u00e3o suscitada nas contra-alega\u00e7\u00f5es da R. C\u2026, S.A.:<br \/>- Falta de uma rela\u00e7\u00e3o entre os meios probat\u00f3rios e cada um dos pontos da mat\u00e9ria de facto impugnada, com a respetiva aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>III.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A 1\u00aa inst\u00e2ncia deu como provada a seguinte mat\u00e9ria:\u00a0Por transcri\u00e7\u00e3o.<br \/>A) - A autora \u00e9 professora do ensino secund\u00e1rio e exerce a sua profiss\u00e3o no Agrupamento de Escolas I\u2026 (artigo 7.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>B) - A r\u00e9 \u00e9 um grupo empresarial que se dedica \u00e0 gest\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o de estabelecimentos de sa\u00fade com internamento, atividades de pr\u00e1tica m\u00e9dica de cl\u00ednica especializada, cl\u00ednica geral em ambulat\u00f3rio, atividades de ambul\u00e2ncia e transporte de doentes, no qual se enquadra o Hospital C1\u2026 (artigo 8.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>C) - No dia 16 de setembro de 2013 (segunda-feira) a autora, logo pela manh\u00e3, deu entrada nas urg\u00eancias do Hospital C1\u2026, em virtude de ter sofrido uma queda que lhe provocou uma tor\u00e7\u00e3o no membro inferior direito (p\u00e9 direito) (artigo 9.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>D) - A autora que apresentava not\u00f3rio incha\u00e7o no p\u00e9 direito, dificuldade de locomo\u00e7\u00e3o e intensa dor, foi observada pela m\u00e9dica Dr. J\u2026 que ordenou a realiza\u00e7\u00e3o de uma Radiografia ao referido membro inferior (artigo 10.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>E) - A referida m\u00e9dica analisou o resultado do exame e recomendou aplica\u00e7\u00e3o de gelo na zona inchada, bem como a aconselhou a andar apoiada em duas canadianas \u2013 muletas (artigo 11.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>F) - Em consequ\u00eancia, foi atribu\u00edda \u00e0 autora uma incapacidade tempor\u00e1ria para o trabalho pelo per\u00edodo de 5 (cinco) dias, com t\u00e9rminus a 20 de setembro de 2013 (sexta \u2013 feira) (artigo 12.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>G) - A autora relatou \u00e0 m\u00e9dica de servi\u00e7o, a Dra. J\u2026, no referido dia 16.09.2013, que tinha \u201cfeito entorse tornozelo D h\u00e1 2 dias (escorregou)\u201d (artigo 13.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>H) - A autora transmitiu \u00e0 m\u00e9dica em causa que melhorava das dores depois de colocar gelo no p\u00e9 e de tomar anti-inflamat\u00f3rios, mais tendo relatado um bom estado geral \u00e0 m\u00e9dica e negando limita\u00e7\u00f5es funcionais (artigo 15.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o).<br \/>I) - A m\u00e9dica em causa, depois observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, pediu nesse dia a realiza\u00e7\u00e3o de um Raio x de T\u00edbio-t\u00e1rsica (2 incis\u00f5es), lado direito, e medicou a autora (artigo 16.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o).<br \/>J) - A m\u00e9dica informou ainda que seria importante que a autora ficasse atenta \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o dos sintomas, designadamente ao edema lateral e tamb\u00e9m \u00e0s dores (artigo 18.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o).<br \/>L) - Advertindo-a de que deveria retornar imediatamente ao servi\u00e7o caso os sintomas piorassem ou persistissem, para reavalia\u00e7\u00e3o (artigo 19.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o).<br \/>M) - A Dra. J\u2026 escreveu no processo cl\u00ednico que a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da doente teria que ser revista em consulta de ortopedia (artigo 20.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>N) - Foi dito \u00e0 autora pela m\u00e9dica (i) para colocar gelo no p\u00e9 para reduzir o edema, (ii) para n\u00e3o for\u00e7ar o p\u00e9 e (iii) o manter elevado e em repouso, recomenda\u00e7\u00f5es adequadas em face da les\u00e3o sofrida (artigo 23.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>O) - Tendo a m\u00e9dica emitido atestado de doen\u00e7a para permitir uma situa\u00e7\u00e3o de repouso durante o per\u00edodo de 5 dias, at\u00e9 dia 20.09.2013 \u2013 sexta-feira (artigo 24.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>P) - Assim que terminou o per\u00edodo de incapacidade tempor\u00e1ria absoluta, e no dia em que teria a autora que regressar ao trabalho \u00e9 que esta decidiu voltar ao Servi\u00e7o de Urg\u00eancia, para indicar que as dores se mantinham (se bem que frisou que estava melhor do edema) (artigo 25.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>Q) - Decorrida a referida semana, a autora apenas sentiu melhoria no incha\u00e7o do p\u00e9, sendo que as dores e a dificuldade em caminhar persistiam (artigo 13.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>R) - No dia 23 de setembro de 2013 (segunda-feira) dirigiu-se novamente ao Servi\u00e7o de Urg\u00eancias do Hospital C1\u2026 (artigo 14.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>S) - Nesta nova desloca\u00e7\u00e3o a autora foi observada por uma outra m\u00e9dica (artigo 15.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>T) - Logo ap\u00f3s informou esta de que seria necess\u00e1rio ser observada por um m\u00e9dico ortopedista (artigo 16.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>U) - Tendo sido observada pelo Dr. E\u2026, m\u00e9dico ortopedista, foi-lhe explicado \u00e0 autora que a corre\u00e7\u00e3o da \u201cfractura meleolo peroneal direita obl\u00edqua\u201d, vulgo fratura do tornozelo direito, teria indica\u00e7\u00e3o cir\u00fargica para redu\u00e7\u00e3o e osteoss\u00edntese com 2 parafusos interfragment\u00e1rios (artigo 29.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9 e artigo 17.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>V) - A cirurgia foi agendada para o dia seguinte, 24 de setembro de 2013 (ter\u00e7a \u2013 feira), pelas 17:00h (artigo 18.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>X) - A autora deu entrada no Hospital C1\u2026 na manh\u00e3 de dia 24, tendo sido encaminhada para o 4.\u00ba andar onde a prepararam para a cirurgia (artigo 19.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>Z) - A cirurgia correu sem intercorr\u00eancias (artigo 37.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>A)\u2019 O p\u00f3s-operat\u00f3rio envolveria \u2013 como envolveu \u2013 a verifica\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel de dores (artigo 38.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>B)\u2019 - Por se saber que o p\u00e9 da autora iria inchar, e consequentemente abarcar a exist\u00eancia de dores, foi colocada, no final da cirurgia, uma tala na parte posterior do tornozelo e p\u00e9, e depois na frente do p\u00e9 (no dorso), uma ligadura el\u00e1stica, para permitir a elasticidade dos tecidos que iria ocorrer pelo incha\u00e7o em quest\u00e3o (artigo 41.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>C)\u2019 - \u00c9 normal que tenha a autora tido dores no per\u00edodo imediatamente posterior \u00e0 cirurgia, designadamente no internamento (artigo 42.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>D)\u2019 - Em face desse quadro de dor, sempre a Equipa de Enfermagem tomou os atos necess\u00e1rios que a boas pr\u00e1ticas aplic\u00e1veis ao caso impunham: ora administrando a medica\u00e7\u00e3o prescrita pelo m\u00e9dico, ora recomendando medidas tendentes a permitir um al\u00edvio da dor, como sejam a coloca\u00e7\u00e3o de gelo e a eleva\u00e7\u00e3o dos membros inferiores \u2013 que ajudariam \u00e0 redu\u00e7\u00e3o do incha\u00e7o (artigo 43.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>E)\u2019 - Resulta no Di\u00e1rio de Enfermagem que as dores sentidas pela autora foram melhorando ao longo dos dias do internamento: 1. No dia 25.09.2013 consta registado pelas 3:55 que, cerca das 1:00, \u201cpor referir dor no p\u00e9 direito foi administrado petidine IM em SOS, que surtiu efeito\u201d, \u201c02:30: Acordada, mas refere melhoria da dor. Menciona ter dormido por curtos per\u00edodos.\u201d, \u201c7:00: Refere dor moderada no p\u00e9 direito e fica a aguardar efeito da analgesia prescrita a horas fixas\u201d, 2. No dia 25.09.2013 consta ainda registado pelas 14.12 que \u201cpassou o turno sem queixas, na companhia de visitas\u201d, situa\u00e7\u00e3o que se repete pelas 21:33; 3. No dia 26.09.2013, pelas 4:57 consta que \u201cpelas 01h por referir queixas \u00e1lgicas foi administrado petidina que surtiu efeito\u201d e \u201cpassou o turno sem queixas\u201d; 4. No dia 26.09.2013 \u201cpassou bem a noite, sem referir queixas \u00e1lgicas ou outras\u201d e de manh\u00e3 \u201csem queixas \u00e1lgicas\u201d (artigo 46.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>F)\u2019 - Em momento algum consta quer do Di\u00e1rio M\u00e9dico quer do Di\u00e1rio de Enfermagem a verifica\u00e7\u00e3o de qualquer situa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 exist\u00eancia de uma equimose, de uma \u00falcera, de um edema ou de uma flitena no p\u00e9 da autora durante o per\u00edodo de internamento e at\u00e9 \u00e0 alta m\u00e9dica (artigo 47.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>G)\u2019 - Sempre constando que o penso da ferida cir\u00fargica estava externamente limpo e seco e que n\u00e3o apresentava quaisquer sinais de comprometimento neuro vascular no membro operado, durante todo o per\u00edodo de internamento (artigo 48.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>H)\u2019 - Quando foi retirado o hemodreno, aos 26.09.2013, a Enfermeira de servi\u00e7o escreve do registo de enfermagem o seguinte: \u201cTratamento realizado \u00e0 ferida cir\u00fargica hoje dia 26\/09 \u2013 lavagem com soro fisiol\u00f3gico \u2013 sutura sem sinais inflamat\u00f3rios \u2013 foi retirado dreno aspirativo\u201d (artigo 49.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>I)\u2019 - Sem mencionar qualquer tipo de les\u00e3o na pele da autora, seja no dorso do p\u00e9, seja na zona lateral ou outra, relacionada com algum tipo de ulcera\u00e7\u00e3o de press\u00e3o ou qualquer outro tipo de les\u00e3o da pele, nomeadamente flitena ou edem (artigo 50.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>J)\u2019 - O m\u00e9dico-cirurgi\u00e3o, no dia 26.09.2013, depois de observar a doente, em particular o membro intervencionado, lhe concedeu alta m\u00e9dica, apenas indicando que a doente estava bem, e que iria para casa com alta medicada (artigo 52.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>L)\u2019 - Indicou o m\u00e9dico os cuidados a ter em ambulat\u00f3rio, designadamente que deveria manter o p\u00e9 elevado, n\u00e3o poderia andar, e que deveria colocar um saco com gelo no membro operado (artigo 53.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>M)\u2019 - Na primeira noite ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, a autora queixou-se de dores por todo o p\u00e9 que identificou como sendo de dois tipos: \u201ccomo facadas\u201d (artigo 20.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>N)\u2019 - Dadas estas dores a autora chamou as Sras. Enfermeiras que estavam de servi\u00e7o nessa noite, tendo reportado a estas as dores que sentia (artigo 21.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial),<br \/>O)\u2019 - Ao que, as mesmas lhe disseram que \u201c\u00e9 normal ap\u00f3s a cirurgia\u201d, tendo-lhe aplicado gelo e refor\u00e7ado a medica\u00e7\u00e3o (artigo 22.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>P)\u2019 - No dia seguinte, 25 de setembro de 2013, as dores persistiam (artigo 23.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>Q)\u2019 - As enfermeiras continuaram a aplicar gelo no membro operado (artigo 24.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>R)\u2019 - Na tarde desse mesmo dia, o m\u00e9dico Dr. E\u2026 fez uma r\u00e1pida visita \u00e0 autora (artigo 25.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>S)\u2019 - Tendo este verificado o estado do dreno e informou-a que no dia seguinte iria ter alta m\u00e9dica (artigo 26.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>T)\u2019 - Nessa noite de 25 de setembro, porque as dores eram agudas, violentas e insuport\u00e1veis, impedindo a autora de dormir, esta chamou a Sra. Enfermeira que estava de servi\u00e7o (artigo 27.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>U)\u2019 - Tendo esta aplicado \u00e0 autora uma inje\u00e7\u00e3o na perna operada e referiu-lhe que \u201cagora j\u00e1 vai dormir\u201d (artigo 28.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>V)\u2019 - Na manh\u00e3 seguinte, o m\u00e9dico Dr. E\u2026 fez uma \u00faltima visita \u00e0 autora, com o intuito de lhe dar alta m\u00e9dica e inform\u00e1-la dos procedimentos e cuidados a tomar (artigo 29.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>X)\u2019 - Face ao exposto, a autora por causa da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica a que foi sujeita esteve internada durante 2 (dois) dias, tendo tido alta m\u00e9dica no dia 26 de setembro de 2013 (artigo 31.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial \u2013 mat\u00e9ria aceite).<br \/>Z)\u2019 - Entretanto, no dia 30 de setembro de 2013 a autora regressou ao Hospital para fazer o penso (artigo 32.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>A)\u2019\u2019 Sucede que, depois de 4 dias passados desde a alta m\u00e9dica, aos 30.09.2013, regressa a autora ao Hospital apresentando, pela primeira vez, uma flitena com zona de necrose cut\u00e2nea (artigo 55.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>B)\u2019\u2019 - Face a esta observa\u00e7\u00e3o este m\u00e9dico constatou a exist\u00eancia de \u00abflitena com zona de necrose cut\u00e2nea e dores no dorso do p\u00e9, edema distal ainda acentuado\u00bb (artigo 33.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial e fls. 201-verso, 3.\u00ba par\u00e1grafo).<br \/>C)\u2019\u2019 - Nas semanas seguintes, a autora foi obrigada a deslocar-se ao Hospital \u00abdia sim, dia n\u00e3o\u00bb para fazer o penso e para vigiar a evolu\u00e7\u00e3o da ferida, tendo sido sempre observada pelo m\u00e9dico Dr. E\u2026 (artigo 35.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>D)\u2019\u2019 - Foi observada pelo m\u00e9dico-cirurgi\u00e3o, tendo sido feito novo penso no membro inferior, tendo sido dada recomenda\u00e7\u00e3o para voltar passados dois dias para reobserva\u00e7\u00e3o e nova mudan\u00e7a de penso para cicatriza\u00e7\u00e3o da pele da autora (artigo 56.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>E)\u2019\u2019 - A situa\u00e7\u00e3o decorrente da flitena que surgiu na pele da autora apareceu durante o per\u00edodo de tempo em que a autora esteve em casa, ap\u00f3s a alta m\u00e9dica (artigo 57.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>F)\u2019\u2019 - Esta situa\u00e7\u00e3o causou, como ainda causa, elevados inc\u00f3modos, aborrecimentos e sofrimento, dores e mau estar quer \u00e0 autora como \u00e0 sua fam\u00edlia (artigos 42.\u00ba e 44.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>G)\u2019\u2019 - A autora \u00e9 uma mulher que tem uma imagem bastante cuidada, preocupando-se diariamente com a mesma (artigo 47.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>H)\u2019\u2019 - Desde a cirurgia que evita cal\u00e7ar sapatos que exponham a marca no p\u00e9, recorrendo muitas vezes a meias com tonalidade mais escura, para disfar\u00e7ar a referida altera\u00e7\u00e3o da tonalidade da pele e protuber\u00e2ncia, porque lhe provoca complexos de inferioridade e considera inest\u00e9tico (artigo 48.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>I)\u2019\u2019 - O que naturalmente lhe causa tristeza, complexos e embara\u00e7o (artigo 50.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>J)\u2019\u2019 - A autora teve durante o per\u00edodo de 6 (seis) semanas de se deslocar da Maia para o Porto (artigo 52.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>L)\u2019\u2019 - Regressar 3 (tr\u00eas) vezes por semana para tratamento das \u00falceras do p\u00e9 e calcanhar, sendo sempre acompanhada por uma pessoa, dada a sua falta de autonomia, por n\u00e3o poder apoiar o p\u00e9 no ch\u00e3o- sempre dependente de terceiros (artigo 53.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>M)\u2019\u2019 - A autora foi obrigada durante todo esse per\u00edodo de tempo a recorrer ao apoio de transporte do marido, filho e nora para assegurar as suas necessidades de mobilidade, com todos os inc\u00f3modos e transtornos que a situa\u00e7\u00e3o acarreta (artigo 54.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>N)\u2019\u2019 - A autora teve tamb\u00e9m de fazer face \u00e0s despesas com as consultas do 2.\u00ba epis\u00f3dio de urg\u00eancia e as de tratamento dos p\u00e9s, que ainda que as mesmas tivessem sido parcialmente comparticipadas pela ADSE (artigo 57.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>O)\u2019\u2019 - No dia 16 de setembro n\u00e3o lhe foi feito o diagnostico clinico correto (artigo 63.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>P)\u2019\u2019 - A autora est\u00e1 diminu\u00edda f\u00edsica e esteticamente, pois possu\u00ed uma cicatriz no p\u00e9 direito com uma colora\u00e7\u00e3o de pele muito escura e uma saliente protuber\u00e2ncia e colora\u00e7\u00e3o escura, les\u00f5es essas bem vis\u00edveis e inest\u00e9ticas (artigo 69.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>Q)\u2019\u2019 - Este aspeto f\u00edsico prejudica a autora na sua imagem feminina, que passou a causar-lhe vergonha e embara\u00e7o, procurando sempre esconder a les\u00e3o (artigo 70.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>R)\u2019\u2019 - O prazer de exibir publicamente os p\u00e9s, em concreto o p\u00e9 direito, utilizando cal\u00e7ado aberto e usar saias (artigo 71.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>S)\u2019\u2019 - Sentindo-se triste por causa do atual aspeto do seu p\u00e9 (artigo 72.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>T)\u2019\u2019 - A r\u00e9 celebrou com a D\u2026 \u2013 Companhia de Seguros, S.A., um contrato designado por contrato de seguro de responsabilidade civil geral e profissional, com o n\u00famero da Ap\u00f3lice \u2026\u2026., por efeito do qual se previu que a segunda seria respons\u00e1vel, at\u00e9 aos limites do capital seguro, pela indemniza\u00e7\u00e3o dos danos que viesse a ser exigida \u00e0 primeira, e que resultassem, nomeadamente, de atos de neglig\u00eancia m\u00e9dica praticados no exerc\u00edcio da sua atividade (artigo 1.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9) (v. doc. fls. 53).<br \/>U)\u2019\u2019 Nos termos da cl\u00e1usula V do referido contrato, sob a ep\u00edgrafe \u00abcl\u00e1usula temporal\u00bb: \u00abO presente contrato garante o ressarcimento dos danos resultantes dos atos ou omiss\u00f5es ocorridos durante o per\u00edodo da sua vig\u00eancia, desde que os mesmos se manifestem e sejam participados \u00e0 seguradora at\u00e9 24 meses ap\u00f3s a 1.\u00aa data geradora do dano, sem preju\u00edzo da data termo ou de resolu\u00e7\u00e3o do contrato\u00bb (v. artigo 16.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 2.\u00aa r\u00e9 e doc. de fls. 74).<br \/>V)\u2019\u2019 A 2.\u00aa r\u00e9 apenas teve conhecimento dos factos em an\u00e1lise com a cita\u00e7\u00e3o para a presente a\u00e7\u00e3o (artigo 17.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 2.\u00aa r\u00e9).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foi\u00a0<u>dada como n\u00e3o provada<\/u>, pela inst\u00e2ncia recorrida, a seguinte mat\u00e9ria:\u00a0Por transcri\u00e7\u00e3o.<br \/>1.\u00ba- \u201ce informou a autora de que \u201cn\u00e3o via qualquer problema a n\u00edvel \u00f3sseo\u201d, tendo receitado comprimidos Exxiv\u201d (artigo 11.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>2.\u00ba- \u201cque, ap\u00f3s ter visualizado a Radiografia efetuada no 1.\u00ba epis\u00f3dio de urg\u00eancia, chamou a m\u00e9dica Dra. J\u2026 e na sua presen\u00e7a apontou naquela para determinada zona\u201d (artigo 15.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>3.\u00ba- \u201ce sem qualquer explica\u00e7\u00e3o \u00e0 aqui autora\u201d (artigo 16.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>4.\u00ba- \u201cagudas\u201d \u201ce \u201cesticar a pele\u201d (artigo 20.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>5.\u00ba- \u201cinsuport\u00e1veis e persistentes\u201d (artigo 21.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial),<br \/>6.\u00ba- \u201ccontinuou insistentemente a queixar-se \u00e0s enfermeiras referindo que \u201cas dores violentas apenas atenuavam quando se levantava para ir \u00e0 casa de banho\u201d (artigo 23.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>7.\u00ba- As enfermeiras desvalorizaram tais queixas e continuaram a dizer ser normal ap\u00f3s a cirurgia (artigo 24.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>8.\u00ba- \u201ctendo esta informado o mesmo das dores que sentia\u201d (artigo 25.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>9.\u00ba- A Sra. Enfermeira que efetuou o penso, quando retirou as ligaduras e a tala, o que aliviou imenso as dores da autora, fez o seguinte reparo \u201ctem a pele muito escura\u201d (artigo 30.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>10.\u00ba- viu pela primeira vez o estado do p\u00e9 ap\u00f3s a cirurgia\u201d (artigo 32.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>11.\u00ba- \u201cduma enorme \u00falcera de press\u00e3o por todo o peito do p\u00e9 intervencionado e uma outra no calcanhar, tendo feito o seguinte coment\u00e1rio: \u201cisto era desnecess\u00e1rio\u201d\u201d (artigo 33.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>12.\u00ba- A autora referiu \u201cqueixei-me com dores, mas ningu\u00e9m as valorizou\u201d (artigo 34.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>13.\u00ba- Quanto \u00e0 ulcera\u00e7\u00e3o do calcanhar e do peito do p\u00e9 ainda hoje persistem as marcas, apesar de serem de menor dimens\u00e3o -Documento n.\u00ba 1 \u2013 que se junta e se d\u00e1 por integralmente reproduzido (artigo 36.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>14.\u00ba- \u201cA qual poderia ter sido evitada n\u00e3o fosse a referida omiss\u00e3o dos deveres de cuidado nos servi\u00e7os prestados pelos profissionais da r\u00e9\u201d (artigo 42.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>15.\u00ba- \u201cEssa omiss\u00e3o provocou sofrimento, dores, mau estar, recupera\u00e7\u00e3o da cirurgia e dano est\u00e9tico (artigo 44.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>16.\u00ba- \u201cbem como a frustra\u00e7\u00e3o por ter sido necess\u00e1rio um per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o maior do que o previsto, o que implicou que a autora ficasse totalmente dependente do apoio do seu marido, filho e nora, nomeadamente para fazer a sua higiene pessoal, preparar as refei\u00e7\u00f5es, compras de mercearias, entre outras tarefas b\u00e1sicas\u201d (artigo 45.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>17.\u00ba- \u201cdano que vai acompanhar a autora por toda a sua vida, designadamente o dano est\u00e9tico que se traduz na exist\u00eancia de protuber\u00e2ncia e altera\u00e7\u00e3o da cor da pele (que se apresenta bem mais escura) no p\u00e9 direito em resultado das \u00falceras (cfr. Documento n.\u00ba 1) (artigo 46.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>18.\u00ba- N\u00e3o fosse a a\u00e7\u00e3o omissiva das mais elementares legis artis por parte dos profissionais da r\u00e9, a autora n\u00e3o teria o p\u00e9 no estado em que o mesmo se encontra (artigo 49.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>19.\u00ba- Servi\u00e7o esse que representa um custo no montante aproximado de \u20ac20,00 (vinte Euros) por cada viagem, o que totaliza uma despesa total de \u20ac360,00 (trezentos e sessenta Euros) (\u20ac20,00 x 3 dias x 6 semanas) (artigo 55.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>20.\u00ba- \u201cpela equipa m\u00e9dica e de enfermagem\u201d \u201cbem como, ap\u00f3s a cirurgia a que foi sujeita\u201d (artigo 63.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>21.\u00ba- Os danos s\u00e3o consequ\u00eancia direta e necess\u00e1ria da observa\u00e7\u00e3o e deficiente an\u00e1lise cl\u00ednica, bem como do cumprimento dos procedimentos necess\u00e1rios implementar ap\u00f3s um p\u00f3s-operat\u00f3rio, servi\u00e7os cl\u00ednicos esses prestados pela r\u00e9 (artigo 68.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>22.\u00ba- A autoestima da autora \u00e9 nula, sentindo-se triste e inconsol\u00e1vel por causa do atual aspeto do seu p\u00e9 (artigo 72.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<br \/>23.\u00ba- \u201cda devida\u201d, \u201cadequadamente\u201d \u201ctendo em conta a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica apresentada\u201d (artigo 16.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o).<br \/>24.\u00ba- Em segundo lugar, a atua\u00e7\u00e3o da m\u00e9dica n\u00e3o levou a qualquer tipo de dores ou sofrimento acrescidos, pelos simples motivos de (i) Ter sido aconselhada devidamente a autora no dia 16.09.2016, no sentido de reduzir o edema e consequentemente as dores ocasionadas por via disso, e tamb\u00e9m por ter sido medicada apropriadamente para as dores em causa, e de (ii) N\u00e3o ter sido a fratura existente agravada durante este per\u00edodo de tempo (artigo 33.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>25.\u00ba- Sendo que sintomas como \u201cfacadas\u201d ou sensa\u00e7\u00e3o de \u201cesticar a pele\u201d seriam normais e expect\u00e1veis, em fun\u00e7\u00e3o do incha\u00e7o natural do p\u00e9 da autora, provocado pela interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica (artigo 38.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>26.\u00ba- O facto de ter sido colocado um hemodreno para remo\u00e7\u00e3o do conte\u00fado hem\u00e1tico (colocado para evitar hematomas no local da ferida cir\u00fargica), muitas vezes tamb\u00e9m leva \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o de dores, pelo contacto que tem com a pele do doente, o que pode tamb\u00e9m ter contribu\u00eddo para a sensa\u00e7\u00e3o de dores nos dias imediatamente seguintes \u00e0 interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, durante o internamento - perfeitamente normais (artigo 40.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<br \/>27.\u00ba- N\u00e3o podendo ser imputada a qualquer m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica ou de enfermagem, n\u00e3o tendo resultando por qualquer ato ou omiss\u00e3o do pessoal ao servi\u00e7o da r\u00e9 (artigo 57.\u00ba da contesta\u00e7\u00e3o da 1.\u00aa r\u00e9).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>IV.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Conhecendo\u2026<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><u>A quest\u00e3o pr\u00e9via<\/u><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">-\u00a0<u>Falta de uma rela\u00e7\u00e3o entre os meios probat\u00f3rios e cada um dos pontos da mat\u00e9ria de facto impugnada, com a respetiva aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, como causa de rejei\u00e7\u00e3o do recurso<\/u><br \/>Disp\u00f5e o referido art.\u00ba 640\u00ba, n\u00ba 1, sob a ep\u00edgrafe \u201c<em>\u00d3nus a cargo do recorrente que impugne a decis\u00e3o relativas \u00e0 mat\u00e9ria de facto<\/em>\u201d:<br \/>\u00ab<em>1- Quando seja impugnada a decis\u00e3o sobre a mat\u00e9ria de facto, deve o recorrente obrigatoriamente especificar, sob pena de rejei\u00e7\u00e3o:<\/em><br \/><em>a) Os concretos pontos de facto que considera incorretamente julgados;<\/em><br \/><em>b) Os concretos meios probat\u00f3rios, constantes do processo ou de registo ou grava\u00e7\u00e3o nele realizada, que impunham decis\u00e3o sobre os pontos da mat\u00e9ria de facto impugnados diversa da recorrida;<\/em><br \/><em>c) A decis\u00e3o que, no seu entender, deve ser proferida sobre as quest\u00f5es de facto impugnadas.<\/em><br \/><em>2- (\u2026)<\/em>\u00bb.<br \/>D\u00favidas n\u00e3o se suscitam nem as temos quanto \u00e0 concretiza\u00e7\u00e3o dos pontos da mat\u00e9ria de facto impugnados e da decis\u00e3o que, em alternativa, a A. ambiciona para a decis\u00e3o. Foram regularmente cumpridos os \u00f3nus de impugna\u00e7\u00e3o a que se referem as al.s a) e c) do n\u00ba 1 do art.\u00ba 640\u00ba do C\u00f3digo de Processo Civil. Tamb\u00e9m foram identificadas e at\u00e9 transcritas as passagens da grava\u00e7\u00e3o que a recorrente tem por relevantes para a modifica\u00e7\u00e3o pretendida, assim havendo cumprimento do \u00f3nus que aquele mesmo artigo prev\u00ea sob a al. a) do seu n\u00ba 2.<br \/>Diz-nos simplesmente a R. recorrida que a recorrente n\u00e3o cumpriu o \u00f3nus de impugna\u00e7\u00e3o previsto na al.s b) do n\u00ba 1 do art.\u00ba 640\u00ba, devendo, por isso, ser rejeitado o recurso em mat\u00e9ria de facto. N\u00e3o fez tal cumprimento, no entender da apelante, porque n\u00e3o efetuou uma indica\u00e7\u00e3o das provas que considera relevantes, ponto-por-ponto em vez uma devida an\u00e1lise cr\u00edtica; s\u00f3 indicou as provas para o conjunto da mat\u00e9ria impugnada.<br \/>Como vimos, a citada al. b) exige a especifica\u00e7\u00e3o dos \u201c<em>concretos meios probat\u00f3rios, constantes do processo ou de registo ou grava\u00e7\u00e3o nele realizada, que impunham decis\u00e3o sobre os pontos da mat\u00e9ria de facto impugnados diversa da recorrida<\/em>\u201d.<br \/>Basta que os meios de prova constem do corpo das alega\u00e7\u00f5es.<br \/>Literalmente, aquela norma n\u00e3o refere que a indica\u00e7\u00e3o dos meios probat\u00f3rios seja efetuada ponto-por-ponto. Basta que os meios probat\u00f3rios sejam concretizados e que se tornem facilmente apreens\u00edveis, seja pela parte contr\u00e1ria para o exerc\u00edcio do contradit\u00f3rio, seja pelo tribunal para aprecia\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o da impugna\u00e7\u00e3o.<br \/>A apelante indicou os depoimentos testemunhais de K\u2026, L\u2026, E\u2026 e F\u2026, precisou os respetivos excertos da grava\u00e7\u00e3o que tem por relevantes e at\u00e9 transcreveu as passagens da grava\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m temporizou ao minuto e segundo, tornando facilmente apreci\u00e1vel a relev\u00e2ncia que cada uma delas possa ter para cada um dos factos impugnados.<br \/>A perfeita circunscri\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria objeto da impugna\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite a conclus\u00e3o da R. C\u2026, S.A. de que foi feita uma impugna\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica da decis\u00e3o proferida em mat\u00e9ria de facto. N\u00e3o \u00e9 gen\u00e9rica a impugna\u00e7\u00e3o dos pontos de facto da decis\u00e3o, por estarem identificados com precis\u00e3o determinados pontos: l, 9, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 21 e 22; n\u00e3o \u00e9 gen\u00e9rica a indica\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o factual pretendida pela recorrente, por ter sido, ali\u00e1s, muito clara e precisa na indica\u00e7\u00e3o dos factos que pretende que sejam dados como provados; n\u00e3o \u00e9 gen\u00e9rica a indica\u00e7\u00e3o dos meios de prova que considera relevantes, sejam os documentos, sejam as testemunhas, por os ter identificado tamb\u00e9m com rigor. A indica\u00e7\u00e3o daquelas provas, pela recorrente, como sendo relevantes para a altera\u00e7\u00e3o do conjunto dos pontos da mat\u00e9ria impugnada n\u00e3o \u00e9 ilegal nem abusiva, desde logo por n\u00e3o contrariar a al. b) do n\u00ba 1 do art.\u00ba 640\u00ba do C\u00f3digo de Processo Civil.<br \/>A indica\u00e7\u00e3o dos concretos pontos de facto cuja altera\u00e7\u00e3o se pretende e o sentido e termos dessa altera\u00e7\u00e3o s\u00e3o o \u00f3nus que verdadeiramente permite circunscrever o objeto do recurso no que concerne \u00e0 mat\u00e9ria de facto.<br \/>As recorridas compreenderam bem o objeto da impugna\u00e7\u00e3o e ficaram em perfeitas condi\u00e7\u00f5es para discutirem as provas indicadas relativamente \u00e0 mat\u00e9ria impugnada e defenderem a confirma\u00e7\u00e3o do julgado, como efetivamente defendem.<br \/>A R. cita o ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 27.9.2018\u00a0Proc. 2611\/12.2TBSTS.L1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.\u00a0para defender a sua posi\u00e7\u00e3o, mas deve notar-se que ali se tratou uma situa\u00e7\u00e3o de vasto incumprimento dos \u00f3nus em causa. Extrai-se daquele aresto a seguinte passagem, bem significativa: \u00ab<em>(\u2026) Ora, quando se verifica uma falta de conclus\u00f5es sobre a impugna\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o sobre a mat\u00e9ria de facto, quando existe uma falta de especifica\u00e7\u00e3o nas conclus\u00f5es dos concretos pontos de facto que a recorrente considera incorrectamente julgados e quando se verifica tamb\u00e9m uma falta de especifica\u00e7\u00e3o dos concretos meios probat\u00f3rios e uma falta de posi\u00e7\u00e3o expressa sobre o resultado pretendido, uma an\u00e1lise cr\u00edtica da prova, as conclus\u00f5es s\u00e3o deficientes impondo-se a rejei\u00e7\u00e3o do recurso (quanto \u00e1 pretendida impugna\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o sobre a mat\u00e9ria de facto).<\/em>\u00bb<br \/>J\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o sufragada no ac\u00f3rd\u00e3o do mesmo Alto Tribunal de 5.9.2018\u00a0Proc. 15787\/15.8T8PRT.P1.S2,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>, tamb\u00e9m citado pela recorrida.\u00a0nos parece, com o devido respeito, excessiva e demasiado exigente face \u00e0 letra da lei (referida al. b)). Como se refere noutro ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, de 17.12.2019\u00a0363\/07.7TVPRT-D.P2.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0www.dgsi.pt., na interpreta\u00e7\u00e3o do art.\u00ba 640\u00ba n\u00e3o se vislumbra o sentido de acrescida exig\u00eancia,\u00a0<em>como \u00e9 a refer\u00eancia \u00e0s raz\u00f5es pelas quais aqueles meios de prova conduzem \u00e0 altera\u00e7\u00e3o pretendida<\/em>, desde logo por falta de suporte nos elementos literal, sistem\u00e1tico ou teleol\u00f3gico da interpreta\u00e7\u00e3o, \u201c<em>entendimento que se afigura inteiramente consonante com a orienta\u00e7\u00e3o consolidada da jurisprud\u00eancia do STJ no sentido da atenua\u00e7\u00e3o do excessivo formalismo no cumprimento dos \u00f3nus do art. 640\u00ba do CPC, designadamente em todos aqueles casos em que o teor do recurso de apela\u00e7\u00e3o se mostre funcionalmente apto \u00e0 cabal identifica\u00e7\u00e3o da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto e ao respectivo conhecimento sem esfor\u00e7o excessivo<\/em>\u201d. Acrescenta-se ali que \u201c<em>n\u00e3o se afigura que a falta da indica\u00e7\u00e3o dessas raz\u00f5es conduza \u00e0 afecta\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do contradit\u00f3rio, na medida em que o apelado, conhecendo os meios de prova em que o apelante sustenta a pretendida altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o relativa \u00e0 mat\u00e9ria de facto, disp\u00f5e das condi\u00e7\u00f5es para contraditar tal pretens\u00e3o<\/em>\u201d.<br \/>A verifica\u00e7\u00e3o do cumprimento dos \u00f3nus de alega\u00e7\u00e3o previstos no art.\u00ba 640\u00ba do C\u00f3digo de Processo Civil, no que respeita aos aspetos de ordem formal, deve ser norteada pelo princ\u00edpio da proporcionalidade e da razoabilidade.<br \/>As condi\u00e7\u00f5es formais de impugna\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto radicam em normas de direito processual disciplinadoras dos limites cognitivos e do exerc\u00edcio dos poderes da Rela\u00e7\u00e3o em sede de reaprecia\u00e7\u00e3o dessa decis\u00e3o, que o facto de, nas circunst\u00e2ncias do caso, os meios de prova - perfeitamente identificados e circunscritos - n\u00e3o terem sido indicados ponto-por-ponto, n\u00e3o prejudica.<br \/>Aproximamo-nos mais destas teses menos formalistas e mais complacentes que v\u00eam sendo seguidas na jurisprud\u00eancia\u00a0V.g. ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 26.5.2015, proc. 1426\/08.7TCSNT.L1.S1, de 19.1.2016, proc. 3316\/10.4TBLRA.C1.S1 e de 11.2.2016, proc. 157\/12.8TUGMR.G1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0www.dgsi.pt.\u00a0e na doutrina\u00a0V.g. Miguel Teixeira de Sousa, coment\u00e1rio ao ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 22.10.2015, proc. 212\/06.3TBSBG.C2.S1, blog do IPPC, a prop\u00f3sito da sufici\u00eancia de algumas refer\u00eancias apenas constantes nom corpo das alega\u00e7\u00f5es de recurso (n\u00e3o nas conclus\u00f5es).\u00a0que, no entanto e de um modo geral, imp\u00f5em como fronteira a possibilidade da parte contr\u00e1ria compreender e do tribunal de recurso conhecer, sem esfor\u00e7o acrescido, a pretens\u00e3o do recorrente, ou seja, de apreender o objeto do recurso sem ter que se substituir ao recorrente nessa tarefa que sobre si impende.\u00a0Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 16.05.2018, proc. n.\u00ba 2833\/16.7T8VFX.L1.S1 e ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora de 12.7.2018, proc. 581\/15.4T8ABT.E1, ambos\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>Temos assim como aceit\u00e1vel a indica\u00e7\u00e3o efetuada pela apelante, no corpo das alega\u00e7\u00f5es e nas conclus\u00f5es, das passagens concretas da grava\u00e7\u00e3o de depoimentos para o conjunto dos factos impugnados (com a sua temporiza\u00e7\u00e3o ao minuto e ao segundo na grava\u00e7\u00e3o e transcri\u00e7\u00e3o), todos eles interrelacionados com mat\u00e9ria da a\u00e7\u00e3o\/omiss\u00e3o il\u00edcita da R. e as suas consequ\u00eancias danosas. A falta de indica\u00e7\u00e3o dos meios de prova ponto-por-ponto est\u00e1, s\u00f3 por si, longe de significar uma impugna\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica da decis\u00e3o e de implicar um novo julgamento ou uma impugna\u00e7\u00e3o n\u00e3o especificada ou n\u00e3o circunscrita da decis\u00e3o, indicados que foram, com absoluto rigor, os pontos impugnados e a decis\u00e3o que, em sua substitui\u00e7\u00e3o, a apelante pretende que seja proferida, assim como os meios de prova que considera relevantes.<br \/>Improcede a quest\u00e3o pr\u00e9via da rejei\u00e7\u00e3o do recurso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>As quest\u00f5es da apela\u00e7\u00e3o<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><u>Erro de julgamento na decis\u00e3o proferida em mat\u00e9ria de facto<\/u><br \/>Verificado o cumprimento dos \u00f3nus de impugna\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o, a A. quer que sejam considerados provados os itens 1, 9, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 21 e 22, nos seguintes termos:<br \/><em>1 - E informou a autora de que n\u00e3o via qualquer problema a n\u00edvel \u00f3sseo.<\/em><br \/><em>9 - A Sra. Enfermeira que efetuou o penso, quando retirou as ligaduras e a tala, o que aliviou imenso as dores da autora, fez o seguinte reparo \u201ctem a pele muito escura\u201d (artigo 30.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>11 - Duma enorme \u00falcera de press\u00e3o por todo o peito do p\u00e9 intervencionado e uma outra no calcanhar, tendo feito o seguinte coment\u00e1rio: \u201cisto era desnecess\u00e1rio\u201d (artigo 33.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>13 - Quanto \u00e0 ulcera\u00e7\u00e3o do calcanhar e do peito do p\u00e9 ainda hoje persistem as marcas, apesar de serem de menor dimens\u00e3o -Documento n.\u00ba 1 \u2013 que se junta e se d\u00e1 por integralmente reproduzido (artigo 36.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>14 - A qual poderia ter sido evitada n\u00e3o fosse a referida omiss\u00e3o dos deveres de cuidado nos servi\u00e7os prestados pelos profissionais da r\u00e9 (artigo 42.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>15 - Essa omiss\u00e3o provocou sofrimento, dores, mau estar, recupera\u00e7\u00e3o da cirurgia e dano est\u00e9tico (artigo 44.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>16 - Bem como a frustra\u00e7\u00e3o por ter sido necess\u00e1rio um per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o maior do que o previsto, o que implicou que a autora ficasse totalmente dependente do apoio do seu marido, filho e nora, nomeadamente para fazer a sua higiene pessoal, preparar as refei\u00e7\u00f5es, compras de mercearias, entre outras tarefas b\u00e1sicas (artigo 45.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>17 - Dano que vai acompanhar a autora por toda a sua vida, designadamente o dano est\u00e9tico que se traduz na exist\u00eancia de protuber\u00e2ncia e altera\u00e7\u00e3o da cor da pele (que se apresenta bem mais escura) no p\u00e9 direito em resultado das \u00falceras (cfr. Documento n.\u00ba 1) (artigo 46.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>18 - N\u00e3o fosse a a\u00e7\u00e3o omissiva das mais elementares legis artis por parte dos profissionais da r\u00e9, a autora n\u00e3o teria o p\u00e9 no estado em que o mesmo se encontra (artigo 49.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>21 - Os danos s\u00e3o consequ\u00eancia direta e necess\u00e1ria da observa\u00e7\u00e3o e deficiente an\u00e1lise cl\u00ednica, bem como do cumprimento dos procedimentos necess\u00e1rios implementar ap\u00f3s um p\u00f3s-operat\u00f3rio, servi\u00e7os cl\u00ednicos esses prestados pela r\u00e9 (artigo 68.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><br \/><em>22 - A autoestima da autora \u00e9 nula, sentindo-se triste e inconsol\u00e1vel por causa do atual aspeto do seu p\u00e9 (artigo 72.\u00ba da peti\u00e7\u00e3o inicial).<\/em><p>Entende-se atualmente, de uma forma que se vinha j\u00e1 generalizando nos tribunais superiores, agora largamente acolhida no art.\u00ba 662\u00ba do C\u00f3digo de Processo Civil, que no seu julgamento, a Rela\u00e7\u00e3o, enquanto tribunal de inst\u00e2ncia, usa do princ\u00edpio da livre aprecia\u00e7\u00e3o da prova com a mesma amplitude de poderes que tem a 1\u00aa inst\u00e2ncia (art.\u00ba 655\u00ba do anterior C\u00f3digo de Processo Civil e art.\u00ba 607\u00ba, n\u00ba 5, do atual C\u00f3digo), em ordem ao controlo efetivo da decis\u00e3o recorrida, devendo sindicar a forma\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o do juiz, ou seja, o processo l\u00f3gico da decis\u00e3o, recorrendo com a mesma amplitude de poderes \u00e0s regras de experi\u00eancia e da l\u00f3gica jur\u00eddica na an\u00e1lise das provas, como garantia efetiva de um segundo grau de jurisdi\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de facto; por\u00e9m, sem preju\u00edzo do reconhecimento da vantagem em que se encontra o julgador na 1\u00aa inst\u00e2ncia em raz\u00e3o da imedia\u00e7\u00e3o da prova e da observa\u00e7\u00e3o de sinais diversos e comportamentos que s\u00f3 a imagem fornece.<br \/>Como refere A. Abrantes Geraldes\u00a0Recursos no Novo C\u00f3digo de Processo Civil, 2013, Almedina, p\u00e1g. 224 e 225., \u201c<em>a Rela\u00e7\u00e3o deve alterar a decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto sempre que, no seu ju\u00edzo aut\u00f3nomo, os elementos de prova que se mostrem acess\u00edveis determinem uma solu\u00e7\u00e3o diversa, designadamente em resultado da repondera\u00e7\u00e3o dos documentos, depoimentos e relat\u00f3rios periciais, complementados ou n\u00e3o pelas regras de experi\u00eancia<\/em>\u201d\u2026 \u201c<em>afastando definitivamente o argumento de que a modifica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto deveria ser reservada para casos de erro manifesto\u201d\u00a0<\/em>ou de que<em>\u201cn\u00e3o \u00e9 permitido \u00e0 Rela\u00e7\u00e3o contrariar o ju\u00edzo formulado pela 1\u00aa inst\u00e2ncia relativamente a meios de prova que foram objecto de livre aprecia\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d, acrescentando que este tribunal \u201c<em>deve assumir-se como verdadeiro tribunal de inst\u00e2ncia e, por isso, desde que, dentro dos seus poderes de livre aprecia\u00e7\u00e3o dos meios de prova, encontre motivo para tal, deve introduzir as modifica\u00e7\u00f5es que se justificarem<\/em>\u201d.<br \/>Usaremos os meios de provas e as regras de experi\u00eancia, fazendo o devido ju\u00edzo cr\u00edtico com a mesma liberdade com que a 1\u00aa inst\u00e2ncia o fez, motivados pela busca da verdade e pela realiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a material e concreta.<br \/>Citando Antunes Varela, escrevia j\u00e1 Baltazar Coelho\u00a0Sob o t\u00edtulo \u201cOs \u00d3nus da Alega\u00e7\u00e3o e da Prova, em Geral \u2026\u201d, Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia, Ano VII, T.I, p\u00e1g. 19.\u00a0que \u201c<em>a prova jur\u00eddica de determinado facto \u2026 n\u00e3o visa obter a certeza absoluta, irremov\u00edvel da (sua) verifica\u00e7\u00e3o, antes se reporta apenas a certeza subjectiva, a convic\u00e7\u00e3o positiva do julgador ou, o que vale por dizer, apenas aponta para a certeza relativa dos factos pret\u00e9ritos da vida social e n\u00e3o para a certeza absoluta do fen\u00f3meno de car\u00e1cter cient\u00edfico<\/em>\u201d.<br \/>Na mesma linha, ensina Vaz Serra\u00a0\u201cProvas \u2013 Direito Probat\u00f3rio Material\u201d, BMJ 110\/82 e 171.\u00a0que \u201c<em>as provas n\u00e3o t\u00eam for\u00e7osamente que criar no esp\u00edrito do juiz uma absoluta certeza acerca dos factos a provar, certeza essa que seria imposs\u00edvel ou geralmente imposs\u00edvel: o que elas devem \u00e9 determinar um grau de probabilidade t\u00e3o elevado que baste para as necessidades da vida<\/em>\u201d. \u00c9 a afirma\u00e7\u00e3o da corrente probabil\u00edstica, seguida pela maior parte da doutrina que, opondo-se \u00e0 corrente dogm\u00e1tica, considera n\u00e3o exig\u00edvel mais do que um elevado grau de probabilidade para que se considere provado o facto.<br \/>A necessidade de esgotar, tanto quanto poss\u00edvel, a d\u00favida que resulta do confronto dos fundamentos da apela\u00e7\u00e3o com o teor da motiva\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a e da argumenta\u00e7\u00e3o utilizada nas contra-alega\u00e7\u00f5es da R. C\u2026, S.A., que acusa a A. recorrente de descontextualizar alguns dos excertos de depoimentos, conduz-nos, com grandes vantagens, \u00e0 audi\u00e7\u00e3o integral das grava\u00e7\u00f5es dos depoimentos indicados por aquelas duas partes e \u00e0 sua conjuga\u00e7\u00e3o com os documentos juntos ao processo, realizando um ju\u00edzo cr\u00edtico livre e aut\u00f3nomo quanto \u00e0 mat\u00e9ria impugnada, como imperativo de justi\u00e7a, ao abrigo da primeira parte da al. b) do n\u00ba 2 do citado art.\u00ba 640\u00ba. Ouvimos ainda o depoimento da testemunha M\u2026, a enfermeira que efetuou a admiss\u00e3o da A. no pr\u00e9-operat\u00f3rio e confirmou a inexist\u00eancia de impedimentos de natureza cl\u00ednica \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia segundo os par\u00e2metros de avalia\u00e7\u00e3o a que est\u00e1 obrigada.<br \/>K\u2026 \u00e9 o c\u00f4njuge da A. Foi o familiar que mais a acompanhou nas desloca\u00e7\u00f5es aos servi\u00e7os cl\u00ednicos da R., desde logo no epis\u00f3dio de urg\u00eancia que teve lugar no dia 16.9.2016, na consulta seguinte (dia 23.9. 2016) em que a A. foi remetida para a consulta de ortopedia por suspeita de fratura do tornozelo do p\u00e9 direito e nas visitas seguintes at\u00e9 \u00e0 data da alta hospitalar (26.9.2013). Conviveu regularmente com a A. no p\u00f3s-operat\u00f3rio imediato e posterior \u00e0 alta hospitalar, acompanhou-a pelo menos em grande parte das consultas que fez no hospital da R. para verifica\u00e7\u00e3o do estado cl\u00ednico e mudan\u00e7a de pensos a que foi submetida ap\u00f3s se ter diagnosticado, em 30.9.2013, a exist\u00eancia de flictena no peito do p\u00e9 direito e a les\u00e3o do calcanhar.<br \/>L\u2026 \u00e9 filho da A. e da testemunha anterior e tamb\u00e9m visitou a m\u00e3e no hospital e depois do internamento. Sendo residente na mesma rua, referiu-se, sobretudo, \u00e0s suas queixas \u00e1lgicas, dificuldade em colocar o p\u00e9 direito no ch\u00e3o, a uma mancha escura que permaneceu no peito desse p\u00e9 e \u00e0s dificuldade da m\u00e3e em aceitar aquela imperfei\u00e7\u00e3o no seu corpo, procurando escond\u00ea-la com o cal\u00e7ado. N\u00e3o foi um depoimento revelador de conhecimento pormenorizado; o depoente n\u00e3o hesitou em afirma\u00e7\u00f5es como \u201cn\u00e3o sei\u201d ou \u201cisso n\u00e3o me recordo\u201d, aparentando-se, tamb\u00e9m por isso, de um modo geral, verdadeiro.<br \/>E\u2026 \u00e9 o m\u00e9dico ortopedista, ainda hoje funcion\u00e1rio no hospital da R., executante da cirurgia ao mal\u00e9olo direito em causa. Dep\u00f4s sobre a forma como decorreu a opera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, o seu sucesso, no geral, as causas e condi\u00e7\u00f5es em que podem surgir as flictenas ou bolhas e edema na regi\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o por aplica\u00e7\u00e3o de talas e o modo de reac\u00e7\u00e3o devida para tratamento. A sua explica\u00e7\u00e3o em tudo se mostrou l\u00f3gica e coerente. Foi confrontado com as fotografias juntas com a peti\u00e7\u00e3o inicial, aceitando-as facilmente como referentes aos p\u00e9s da A., assim como a cicatriz como sendo resultante das flictenas que foram tratadas ap\u00f3s o seu aparecimento confirmado na consulta p\u00f3s-cir\u00fargica que marcara para o dia 30.9.2013. Alguma dificuldade em se recordar de certos pormenores do caso - dado o tempo j\u00e1 decorrido e a intensidade da sua vida di\u00e1ria profissional, com cerca de 300 cirurgias por ano - foram ultrapassadas pela an\u00e1lise dos elementos cl\u00ednicos documentados nos autos, como o processo cl\u00ednico, o di\u00e1rio de enfermagem e o exame m\u00e9dico-legal realizado pelo INML, elementos que j\u00e1 conhecia, mas reanalisou parcialmente em audi\u00eancia. As explica\u00e7\u00f5es que deu para o aparecimento de edema e das flictenas foram de tal modo cred\u00edveis que qualquer pedido de refor\u00e7o de fundamenta\u00e7\u00e3o foi facilmente prestado pela testemunha, com seguran\u00e7a, sem s\u00e9rio e significativo rebatimento.<br \/>G\u2026, H\u2026 e F\u2026 s\u00e3o as enfermeiras que lidaram mais proximamente com a A. durante o processo de recobro em internamento at\u00e9 \u00e0 alta hospitalar do dia 26 de setembro. A primeira, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 funcion\u00e1ria da R., apenas no p\u00f3s-operat\u00f3rio imediato (tarde e noite do dia da cirurgia), a segunda, no dia seguinte at\u00e9 \u00e0s 22 horas e, a terceira, no dia 26, incluindo a alta hospitalar.<br \/>N\u00e3o foi ouvida a m\u00e9dica que assistiu a A. no dia da urg\u00eancia (Dr.\u00aa J\u2026), nem a m\u00e9dica respons\u00e1vel pela consulta do dia 23 de setembro que suspeitou da exist\u00eancia da fratura e remeteu imediatamente a A. para consulta da especialidade de ortopedia, do Dr. E\u2026.<br \/>Quer pela presta\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico ortopedista, quer pelos depoimentos das referidas enfermeiras, temos como seguro afirmar que, caso existissem fictenas ou bolhas no p\u00e9 direito da A. antes da cirurgia ou depois dela at\u00e9 \u00e0 alta hospitalar, as mesmas teriam sido necessariamente objeto de registo cl\u00ednico designadamente no processo cl\u00ednico e no di\u00e1rio de enfermagem. A existirem antes, seriam mesmo impeditivas da cirurgia e, a existirem depois teriam que ser tamb\u00e9m anotadas como aconteceu a partir do momento da sua verifica\u00e7\u00e3o, na consulta de 30 de setembro de 2013, data a partir da qual se iniciou tamb\u00e9m o seu tratamento. Nunca antes houvera queixa nesse sentido e a tala, colocada no final da cirurgia, foi revista (apenas) no momento da alta hospitalar, momento em que se verificou o bom estado do tornozelo e do p\u00e9, tendo-se feito constar do di\u00e1rio de enfermagem:<br \/><em>\u00ab(\u2026)<\/em><br \/><em>Passou o turno sem queixas, na companhia de visitas.<\/em><br \/><em>(\u2026)<\/em><br \/><em>- Penso da ferida cir\u00fargica no membro inferior direito com ligadura externamente limpa e seca + Tala gessada posterior + Inser\u00e7\u00e3o de um hemodreno com vest\u00edgios de conte\u00fado hem\u00e1tico na tubuladura. Tem indica\u00e7\u00e3o para remover o hemodreno \u00e0s 48h. Apresenta membro inferior direito sem sinais aparentes de comprometimento neurovascular;<\/em><br \/><em>(\u2026)<\/em>\u00bb.<br \/>Durante o internamento, a A. referiu dor moderada no p\u00e9 direito, foi medicada especialmente e referiu melhoria de dor. O penso cir\u00fargico e a ligadura mostraram-se sempre extremamente limpos e secos.<br \/>Passou outras fases do curto internamento sem queixas \u00e1lgicas ou outras, como se extrai tamb\u00e9m do di\u00e1rio de enfermagem.<br \/>As enfermeiras foram perent\u00f3rias ao afirmarem que aquele relat\u00f3rio di\u00e1rio corresponde, como sempre, \u00e0 realidade dos factos, confirmando-o sem qualquer rebu\u00e7o ou reserva, considerando que at\u00e9 \u00e0 data da alta hospitalar n\u00e3o existiam bolhas, flictenas ou qualquer situa\u00e7\u00e3o de anormalidade que justificasse preocupa\u00e7\u00e3o, encontrando-se o caso dentro da regularidade absoluta. Se assim n\u00e3o tivesse sido, outros seriam, seguramente, os elementos do registo di\u00e1rio.<br \/>A enfermeira F\u2026 esteve na alta hospitalar da A., confirma a retirada da tela naquela ocasi\u00e3o e a sua reposi\u00e7\u00e3o, sem que fossem observados quaisquer sinais de inflama\u00e7\u00e3o ou comprometimento neuro-vascular. Estava tudo dentro da normalidade, afirmou tamb\u00e9m. Se naquela altura ou em qualquer outra a A. se tivesse queixado de excesso de press\u00e3o da tela sobre o p\u00e9, facilmente teria sido recolocada com menos tens\u00e3o, como se imporia, se faria facilmente e se faz normalmente quando solicitado e justificado.<br \/>O Dr. E\u2026 deu conta de que o surgimento de edema, de bolha ou flitena \u00e9 recorrente ap\u00f3s as cirurgias com aplica\u00e7\u00e3o de talas, apresentando-se mais ou menos grave conforme fatores vari\u00e1veis que determinam o aumento de press\u00e3o da tela sobre o corpo, na zona da sua aplica\u00e7\u00e3o e que pode resultar do incha\u00e7o do corpo nessa zona motivado por fatores vari\u00e1veis, pessoais e normais, resultantes do traumatismo cir\u00fargico, abuso na utiliza\u00e7\u00e3o de gelo (causadora da queimadura) ou deficiente utiliza\u00e7\u00e3o do corpo (no caso a perna deveria permanecer quase sempre elevada, por recomenda\u00e7\u00e3o m\u00e9dica), entre outros fatores.<br \/>Nunca chegaram \u00e0 R. queixas da A. indicadoras de excesso de press\u00e3o da tela entre a cirurgia e a consulta de 30.9.2013; e tamb\u00e9m n\u00e3o chegaram \u00e0s enfermeiras, por n\u00e3o constarem designadamente dos referidos registos documentais.<br \/>Logo que a fitina foi revelada, a R. tratou-a.<br \/>De acordo com processo cl\u00ednico da A. documentado nos autos (p\u00e1g. 720 do hist\u00f3rico) e confirmado pelas testemunhas respons\u00e1veis pelo tratamento (m\u00e9dico e enfermeiras G\u2026, H\u2026 e F\u2026), apenas se formou uma flictena, no peito do p\u00e9 direito, entre a alta hospitalar e a consulta de 30.9.2013.<br \/>A presta\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria do marido da A., a mais completa das testemunhas por ela indicadas e com melhor raz\u00e3o de ci\u00eancia, por a ter acompanhado nas desloca\u00e7\u00f5es ao hospital e com ela habitar, observando as suas queixas (sempre subjetivas) e as suas limita\u00e7\u00f5es no decorrer do dia-a-dia, antes e depois da cirurgia, no sentido de \u201cdores insuport\u00e1veis\u201d, foi, no entanto, em larga medida, contrariada pelos dados cl\u00ednicos objetivos documentados, plenamente justificados nos depoimentos dos profissionais cl\u00ednicos, formando estes elementos probat\u00f3rios um todo coerente de refer\u00eancia a factos que desmereceu a vers\u00e3o de K\u2026 e afastou a ideia de que a A. se queixou recorrentemente de dores anormais, imprevis\u00edveis e insuport\u00e1veis. Aqueles dados cl\u00ednicos apontam ainda, com pertin\u00eancia, para o aparecimento da fitina no peito do p\u00e9 entre os efeitos indesej\u00e1veis da utiliza\u00e7\u00e3o da tala (indispens\u00e1vel \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o da fratura p\u00f3s cirurgia), mas como um risco normal dessa utiliza\u00e7\u00e3o, que pode ser atenuado pelo seu reajustamento, normalmente a pedido do lesado por ser este que sente maior ou menor desconforto, press\u00e3o ou dor.<br \/>De resto, tratou-se de uma tala em acr\u00edlico que percorreu apenas a parte posterior da perna direita, entre o joelho e o calcanhar, sendo a parte anterior coberta por pe\u00e7as de algod\u00e3o e ligadura com elasticidade, ainda assim justificando-se a press\u00e3o, sem a qual a tala n\u00e3o surte o efeito estabilizador necess\u00e1rio.<br \/>Feita esta abordagem cr\u00edtica \u00e0 prova produzida, atendendo tamb\u00e9m \u00e0s regras da experi\u00eancia comum, e sem preju\u00edzo de alguma melhor concretiza\u00e7\u00e3o ou explica\u00e7\u00e3o, entendemos que a mat\u00e9ria de facto impugnada dever\u00e1 ser decidida como se segue.<\/p><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 1\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Este ponto tem a ver com o epis\u00f3dio de urg\u00eancia do dia 16.9.2013.<br \/>Do relat\u00f3rio m\u00e9dico respetivo (p\u00e1g. 719 do hist\u00f3rico) n\u00e3o constam estes elementos. Por\u00e9m, o facto de ter diagnosticado uma entorse, remetendo a doente para o domic\u00edlio, leva-nos a acreditar que afirmou n\u00e3o ter visto no RX tibiot\u00e1rsico qualquer problema \u00f3sseo, como referiu K\u2026 que assistiu \u00e0 consulta.<br \/>Referiu o Dr. E\u2026 que, caso se tivesse evidenciado uma fratura (na articula\u00e7\u00e3o, onde, de facto ocorreu), a A. deveria ter sido remetida imediatamente para cirurgia ortop\u00e9dica (n\u00e3o para a resid\u00eancia, apenas com repouso).<br \/>Este item transita parcialmente para os factos provados, com o seguinte teor esclarecido:<br \/>E1- A Dr. J\u2026, no epis\u00f3dio de urg\u00eancia de 16.9.2013, informou a A. de que n\u00e3o observava no RX efetuado qualquer problema a n\u00edvel \u00f3sseo, mas sugeriu revis\u00e3o em consulta de ortopedia e regresso \u00e0 urg\u00eancia para reavalia\u00e7\u00e3o, caso os sintomas piorassem ou persistissem.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 9\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">A A. tem tez morena. A enfermeira F\u2026 que, no dia da alta hospitalar, fez o penso \u00e0 A., teve que retirar a tala para mudar o penso cir\u00fargico, mas nada registou de anormal no di\u00e1rio de enfermagem. Se a pele estivesse escurecida no peito do p\u00e9 poderia ser por haver alguma necrose, facto que n\u00e3o poderia deixar de ter sido registado. O m\u00e9dico-cirurgi\u00e3o foi muito claro ao afirmar que apenas dois dias depois da cirurgia \u00e9 imposs\u00edvel o peito do p\u00e9 apresentar negritude ou necrose cut\u00e2nea. Quanto muito estaria em tom encarnado, por incha\u00e7o, o que sempre seria normal naquela situa\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica.<br \/>Esta mat\u00e9ria mant\u00e9m-se\u00a0<u>n\u00e3o provada<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 11\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">O m\u00e9dico confirmou ter constatado apenas uma flitena no peito do p\u00e9 direito da A. no dia 30 de setembro de 2013. \u00c9 o que resulta tamb\u00e9m dos documentos cl\u00ednicos, assim se compreendendo o surgimento posterior da cicatriz revelada numa das fotografias juntas com a peti\u00e7\u00e3o inicial. Mas o m\u00e9dico n\u00e3o confirma aquela afirma\u00e7\u00e3o e todo o seu depoimento, aparentemente isento e cred\u00edvel, por bem justificado, aponta no sentido de que n\u00e3o fez aquela afirma\u00e7\u00e3o ou que, se a fez, n\u00e3o ter\u00e1 exclu\u00eddo qualquer comportamento negligente da A. no p\u00f3s-operat\u00f3rio nem a possibilidade desta se ter queixado de qualquer excesso de press\u00e3o, caso em que seria imediatamente aliviada.<br \/>De resto, a testemunha K\u2026 cita duas express\u00f5es diferentes que atribui ao m\u00e9dico para este mesmo facto: \u201c<em>isto n\u00e3o era necess\u00e1rio ter acontecido<\/em>\u201d e \u201c<em>isto n\u00e3o devia ter acontecido<\/em>\u201d.<br \/>N\u00e3o estamos convencidos da utiliza\u00e7\u00e3o pelo m\u00e9dico de qualquer uma destas express\u00f5es, nem do sentido que a A. pretende tirar do item em causa.<br \/>Deve este ponto manter-se como\u00a0<u>\u201cn\u00e3o provado\u201d<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 13\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Quanto a este ponto, apenas est\u00e1 demonstrada uma cicatriz como resultado permanente da cicatriza\u00e7\u00e3o do peito do p\u00e9, onde correu a flitena, facto que j\u00e1 foi dado como provado sob os pontos A\u201d, B\u201d e P\u201d. Nada h\u00e1 a acrescentar-lhes.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 14\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Este ponto \u00e9 manifestamente conclusivo e, como tal, n\u00e3o deve ser objeto de prova.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 15\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Ao pressupor uma omiss\u00e3o de deveres de cuidado por parte da R., este ponto tamb\u00e9m \u00e9 conclusivo. Os danos sofridos pela A. j\u00e1 foram dados como provados nos pontos F\u201d, P\u201d,Q\u201d e S\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 16\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Do depoimento das testemunhas K\u2026 e filho, L\u2026, em conjuga\u00e7\u00e3o com os documentos cl\u00ednicos e o relat\u00f3rio do INML de 23.5.2019, assim como dos depoimentos dos profissionais cl\u00ednicos evidenciou-se que, por causa da flitena no peito do p\u00e9 e da ulcera\u00e7\u00e3o do calcanhar, a A. sentiu-se mais deprimida e necessitou de fazer recupera\u00e7\u00e3o a tais les\u00f5es durante cerca de 6 semanas. Por\u00e9m, sendo comum ou, pelo menos, frequente, surgirem flitenas no p\u00f3s-operat\u00f3rio ortop\u00e9dico - embora nem sempre com sequelas aparentes e cicatriciais - n\u00e3o era imprevis\u00edvel o seu surgimento e a necessidade de tratamento. Desconhece-se qualquer previs\u00e3o inicial de tempo necess\u00e1rio para a recupera\u00e7\u00e3o da A., que, ali\u00e1s, s\u00f3 retirou o material de osteoss\u00edntese cerca de 2 anos depois da cirurgia, pela m\u00e3o do mesmo cirurgi\u00e3o.<br \/>As testemunhas K\u2026 e L\u2026 prestaram depoimento relevante nesta mat\u00e9ria, reconhecendo-se as maiores dificuldades passadas pela A. durante a sua recupera\u00e7\u00e3o da flitena e da les\u00e3o do calcanhar direito.<br \/>Assim, este ponto est\u00e1 parcialmente provado, como se segue.<br \/>- A A. sentiu grande tristeza por ter necessitado de recuperar da flictena do peito do p\u00e9 e da les\u00e3o do calcanhar direito, durante cerca de 6 semanas, tendo ficado por isso mais dependente do apoio do seu marido, do filho e da nora, nomeadamente para fazer a sua higiene pessoal, preparar as refei\u00e7\u00f5es e desempenhar outras tarefas b\u00e1sicas do seu dia-a-dia.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 17\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">V\u00e3o acompanhar a A. ao longo da sua vida a cicatriz cir\u00fargica com cerca de 7 cm de comprimento, disposta verticalmente e localizada no ter\u00e7o inferior da face lateral da pena direita e, al\u00e9m dela, uma \u00e1rea cicatricial hipocr\u00f3mica, no dorso do mesmo p\u00e9, com bordos irregulares e rebordo hipercr\u00f3mico acastanhado, com cerca de 5 cm por 2 cm, com ligeira rea\u00e7\u00e3o queloide e sem retra\u00e7\u00f5es. Assim se observa nas fotografias juntas com a peti\u00e7\u00e3o inicial e se descreve, sem qualquer oposi\u00e7\u00e3o testemunhal, no relat\u00f3rio do INML.<br \/>D\u00e1-se como provado, esclarecidamente:<br \/>- V\u00e3o acompanhar a A. ao longo da sua vida a cicatriz cir\u00fargica com cerca de 7 cm de comprimento, disposta verticalmente e localizada no ter\u00e7o inferior da face lateral da pena direita e, al\u00e9m dela, uma \u00e1rea cicatricial hipocr\u00f3mica, no dorso do mesmo p\u00e9, com bordos irregulares e rebordo hipercr\u00f3mico acastanhado, com cerca de 5 cm por 2 cm, com ligeira rea\u00e7\u00e3o queloide e sem retra\u00e7\u00f5es, sendo aquela resultante do corte cir\u00fargico realizado na interven\u00e7\u00e3o de 25 de setembro de 2013 e, a \u00faltima, resultante da fitina no dorso do p\u00e9 direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 18\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">A mat\u00e9ria \u00e9 manifestamente conclusiva, n\u00e3o pode ser objeto de prova.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 21\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">Este ponto n\u00e3o est\u00e1 provado, como resulta j\u00e1 do que acima deix\u00e1mos expresso. A an\u00e1lise cr\u00edtica da prova n\u00e3o deixa d\u00favida quanto \u00e0 possibilidade de surgirem bolhas ou flitenas causadas pelo aperto da tala, aperto este necess\u00e1rio \u00e0 estabiliza\u00e7\u00e3o da fratura e \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Mas esse aperto, essa press\u00e3o exercida sobre a perna na zona da tala, sofre varia\u00e7\u00f5es significativas ao longo do tempo, designadamente por incha\u00e7o ou edema que muito podem variar em fun\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o pessoal de cada doente e da forma como utilizam o corpo, sendo de todo desaconselh\u00e1vel, no caso, deixar de manter o p\u00e9 elevado, exceto por pequenos per\u00edodos de tempo indispens\u00e1veis \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades prim\u00e1rias, ou fazer uso excessivo de gelo, para evitar queimaduras na zona da sua aplica\u00e7\u00e3o. Quando a A. saiu do hospital a press\u00e3o da tala era normal. N\u00e3o se queixou ent\u00e3o de excesso, nem em momento posterior at\u00e9 \u00e0 consulta de 30 de setembro, onde a fictena foi observada.<br \/>Este ponto mant\u00e9m-se como\u00a0<u>n\u00e3o provado<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Item 22\u00ba<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">As marcas cicatriciais s\u00e3o, pela experi\u00eancia da vida, indesejadas e prejudiciais \u00e0 vida em sociedade. Deixam os lesados tristes e algo diminu\u00eddos, dependendo o grau do preju\u00edzo da sensibilidade de cada um. O sofrimento \u00e9 muito pessoal, psicol\u00f3gico e subjetivo.<br \/>Os dados objetivos e os depoimentos dos familiares da A. levam-nos a acreditar que, no seu conjunto, a cicatriz cir\u00fargica e a \u00e1rea cicatricial resultante de fictena surgida no peito do p\u00e9 reduzem um pouco (de modo nenhum anulam) a autoestima da A., causando-lhe algum desconsolo por tornarem desagrad\u00e1vel o aspeto do p\u00e9 direito. As conclus\u00f5es do exame m\u00e9dico-legal apontam tamb\u00e9m neste sentido ao fixarem uma desvaloriza\u00e7\u00e3o permanente de 3 pontos (por\u00e9m, considerando as duas cicatrizes).<br \/>Assim, d\u00e1-se como provado apenas e esclarecidamente:<br \/>- A cicatriz cir\u00fargica e a \u00e1rea cicatricial resultante de fictena surgida no peito do p\u00e9 direito reduzem um pouco a autoestima da A., causando-lhe algum desconsolo por tornarem desagrad\u00e1vel o aspeto do p\u00e9 direito, evidenciado sem o uso de cal\u00e7ado ou com o uso de cal\u00e7ado aberto.<\/p><p>Termos em que procede parcialmente a impugna\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o proferida em mat\u00e9ria de facto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>2.\u00a0<u>As consequ\u00eancias jur\u00eddicas da modifica\u00e7\u00e3o daquela decis\u00e3o e a responsabilidade civil<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">A recorrente n\u00e3o discorda do enquadramento jur\u00eddico efetuado na senten\u00e7a. Antes parte da modifica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o proferida em mat\u00e9ria de facto que prop\u00f4s para defender que a aplica\u00e7\u00e3o do Direito h\u00e1 de conduzir \u00e0 proced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o. Como s\u00f3 parcialmente obteve aquela modifica\u00e7\u00e3o factual, vamos reponderar a aplica\u00e7\u00e3o do Direito, atendendo agora \u00e0 nova realidade demonstrada, averiguando se releva no \u00e2mbito qualifica\u00e7\u00e3o que foi feita e da solu\u00e7\u00e3o encontrada, de improced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o.<br \/>A quest\u00e3o assenta na responsabilidade civil m\u00e9dica e na an\u00e1lise dos respetivos pressupostos.<br \/>Sustenta o Prof. Miguel Teixeira de Sousa\u00a0<em>In<\/em> \u201cO \u00d3nus da Prova nas A\u00e7\u00f5es de Responsabilidade Civil M\u00e9dica\u201d, comunica\u00e7\u00e3o apresentada ao II Curso de Direito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica e publicada\u00a0<em>in<\/em>\u00a0\u201cDireito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica\u201d, Lisboa, 1996, edi\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica da Faculdade de Direito de Lisboa, p\u00e1g. 127.\u00a0que a responsabilidade civil m\u00e9dica \u201c<em>\u00e9 contratual quando existe um contrato, para cuja celebra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, ali\u00e1s, necess\u00e1ria qualquer forma especial, entre o paciente e o m\u00e9dico ou uma institui\u00e7\u00e3o hospitalar e quando, portanto, a viola\u00e7\u00e3o dos deveres m\u00e9dicos gerais representa simultaneamente um incumprimento dos deveres contratuais<\/em>\u201d; \u201c<em>em contrapartida, aquela responsabilidade \u00e9 extracontratual quando n\u00e3o existe qualquer contrato entre o m\u00e9dico e o paciente e, por isso, quando n\u00e3o se pode falar de qualquer incumprimento contratual, mas apenas, como se refere no art.\u00ba 483\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil, da viola\u00e7\u00e3o de direitos ou interesses alheios (como s\u00e3o o direito \u00e0 vida e \u00e0 sa\u00fade)<\/em>\u201d.<br \/>Temos para n\u00f3s que estas formas de responsabilidade m\u00e9dica n\u00e3o podem ser vista de forma estanque. Nesta possibilidade, de ser convocada a responsabilidade civil contratual e a responsabilidade extracontratual, dada a natureza obrigacional da rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica estabelecida entre a A. e a R. e o direito pessoal e absoluto \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da integridade f\u00edsica tutelado pelo princ\u00edpio geral de responsabilidade civil delitual do art.\u00ba 483\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil, a jurisprud\u00eancia tem-se inclinado par a aplica\u00e7\u00e3o das regras da responsabilidade contratual por ser mais conforme ao princ\u00edpio geral da autonomia privada e por ser tamb\u00e9m, em regra, mais favor\u00e1vel ao lesado.\u00a0Ac\u00f3rd\u00e3o. do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 136\/12.5TVLSB.L1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>A viola\u00e7\u00e3o do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos acarreta responsabilidade civil (contratual) desde que o devedor da presta\u00e7\u00e3o (<em>in casu<\/em>, a R. atrav\u00e9s dos seus colaboradores: o m\u00e9dico e as enfermeiras ao seu servi\u00e7o) tenha agido voluntariamente, em viola\u00e7\u00e3o do contrato e com culpa, causando dano.<br \/>Qualquer que seja a natureza da responsabilidade civil que impende sobre o lesante, ela traduz-se numa obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar, ou seja, de reparar os danos sofridos pelo ofendido.<br \/>Hoje \u00e9, ali\u00e1s, tendencialmente pac\u00edfica aquela posi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria no sentido de que, estando em causa atos m\u00e9dicos contratados entre o m\u00e9dico e o paciente, pelos quais se prestam servi\u00e7os cl\u00ednicos, como ocorre no caso em an\u00e1lise, existe um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os a que se aplicam as regras pr\u00f3prias do contrato de mandato, previstas nos art.\u00bas 1157\u00ba e seg.s, por for\u00e7a dos art.\u00bas 1154\u00ba e 1156\u00ba, do C\u00f3digo Civil, j\u00e1 que a lei n\u00e3o regula a contrata\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos de modo especial\u00a0Cf., entre outros, ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 11.7.2006,\u00a0<em>in<\/em> Colet\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia, T. I, p\u00e1g. 144, e ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 20.7.2006, n\u00ba RP200607200633598,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.\u00a0. Esta qualifica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica conduz-nos \u00e0 responsabilidade contratual ou obrigacional, pela qual come\u00e7aremos no tratamento da quest\u00e3o da responsabilidade que nos \u00e9 colocada.<br \/>Os elementos da responsabilidade obrigacional n\u00e3o diferem, em grande parte dos seus aspetos, daqueles que dizem respeito \u00e0 responsabilidade extracontratual ou aquiliana. Numa e noutra formas de responsabilidade \u00e9 necess\u00e1rio que haja uma a\u00e7\u00e3o humana que constitua um ato il\u00edcito, que haja culpa, um preju\u00edzo e nexo causal, assim, uma rela\u00e7\u00e3o de causa-efeito, entre o facto e o dano.<br \/>A responsabilidade contratual distingue-se da responsabilidade por atos il\u00edcitos, sobretudo, pela natureza do ato il\u00edcito que, naquela constitui a viola\u00e7\u00e3o de uma obriga\u00e7\u00e3o, e pelas regras de distribui\u00e7\u00e3o do \u00f3nus da prova j\u00e1 que ali \u00e9 imposta ao devedor a prova de que agiu sem culpa no incumprimento ou no cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o (art.\u00ba 799\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil), enquanto na responsabilidade aquiliana cabe a lesado a prova da culpa do lesante (art.\u00ba 487\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil), sendo a culpa, em qualquer caso, apurada com base num crit\u00e9rio abstrato, pela \u201c<em>dilig\u00eancia de um bom pai de fam\u00edlia, em face das circunst\u00e2ncias de cada caso<\/em>\u201d (n\u00ba 2 de uma e outra disposi\u00e7\u00f5es legais acabadas de citar).<br \/>Consta do ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 8.01.2008, citado no ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 16.11.2010\u00a0Com o n\u00ba RP201011161347\/04.2TBPNF.P1,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a><u>.\u00a0<\/u>, que \u201c<em>a atividade m\u00e9dica perdeu o car\u00e1cter quase m\u00e1gico de que durante muito tempo se revestiu, impeditivo n\u00e3o s\u00f3 da indaga\u00e7\u00e3o sobre a bondade das pr\u00e1ticas, mas sobretudo sobre a sua inadequa\u00e7\u00e3o \u00e0s situa\u00e7\u00f5es sobre as quais incidiam, maxime em termos de eventuais erros cometidos, geradores da obriga\u00e7\u00e3o de reparar. A tal dessacraliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram estranhas as sucessivas descobertas cient\u00edficas, com constantes progressos no debelar de doen\u00e7as ou les\u00f5es anteriormente tidas por fatais ou sem qualquer solu\u00e7\u00e3o de al\u00edvio, muito menos de cura, aliadas a uma crescente massifica\u00e7\u00e3o dos cuidados de sa\u00fade, n\u00e3o s\u00f3 em termos da procura de rem\u00e9dio, mas tamb\u00e9m no que concerne aos meios terap\u00eauticos que devem ser utilizados para tanto e as consequ\u00eancias que deles podem decorrer<\/em>\u201d.<br \/>No que respeita a obriga\u00e7\u00f5es\/deveres do m\u00e9dico, disp\u00f5e o artigo 31\u00ba (Princ\u00edpio geral) do C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos que \u201c<em>o m\u00e9dico que aceite o encargo ou tenha o dever de atender um doente obriga-se \u00e0 presta\u00e7\u00e3o dos melhores cuidados ao seu alcance, agindo sempre com corre\u00e7\u00e3o e delicadeza, no exclusivo intuito de promover ou restituir a sa\u00fade, conservar a vida e a sua qualidade, suavizar os sofrimentos, nomeadamente nos doentes sem esperan\u00e7a de cura ou em fase terminal, no pleno respeito pela dignidade do ser humano<\/em>\u201d. Continua o n.\u00ba 1 do artigo 35\u00ba do mesmo diploma (Tratamentos vedados ou condicionados) que \u201c<em>o m\u00e9dico deve abster-se de quaisquer atos que n\u00e3o estejam de acordo com as leges artis<\/em>\u201d. Imp\u00f5e o art.\u00ba 9\u00ba ainda do mesmo c\u00f3digo (Actualiza\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o cient\u00edfica) que \u201c<em>o m\u00e9dico deve cuidar da permanente atualiza\u00e7\u00e3o da sua cultura cient\u00edfica e da sua prepara\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, sendo dever \u00e9tico fundamental o exerc\u00edcio profissional diligente e tecnicamente adequado \u00e0s regras da arte m\u00e9dica (leges artis)<\/em>\u201d.<br \/>Tais disposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o eco do princ\u00edpio proclamado no C\u00f3digo Internacional da \u00c9tica M\u00e9dica segundo o qual \u201c<em>o m\u00e9dico deve ter sempre presente o cuidado de conservar a vida humana<\/em>\u201d, sendo, assim, sua obriga\u00e7\u00e3o prestar ao doente os cuidados ao seu alcance, de acordo com os seus conhecimentos e o estado actual da ci\u00eancia m\u00e9dica, por forma a preservar-lhe a sa\u00fade na medida do poss\u00edvel. Tudo isto tem a ver com a\u00a0<em>leges artis<\/em>, entendida como o conjunto de regras da arte m\u00e9dica, isto \u00e9, das regras reconhecidas pela ci\u00eancia m\u00e9dica em geral como as apropriadas \u00e0 abordagem de um determinado caso cl\u00ednico na concreta situa\u00e7\u00e3o em que tal abordagem ocorre.<br \/>Nesta perspetiva, apesar de considerar o contrato m\u00e9dico um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, como a doutrina e a jurisprud\u00eancia afirmam, o \u00abresultado\u00bb a que alude o art.\u00ba 1154\u00b0 do C\u00f3digo Civil deve considerar-se n\u00e3o a cura em si, mas os cuidados de sa\u00fade. O conceito de \u201cresultado\u201d no contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os que se estabelece entre o m\u00e9dico e o doente, enquanto obriga\u00e7\u00e3o de meios, como deve ser qualificada na grande maioria das presta\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas, corresponde ao esfor\u00e7o na a\u00e7\u00e3o diligente do diagn\u00f3stico e do tratamento, e n\u00e3o o resultado da\u00a0<em>cura<\/em>\u00a0que, no entanto, n\u00e3o deixa de ser o grande objectivo cl\u00ednico, quando poss\u00edvel. A obriga\u00e7\u00e3o de meios (ou de\u00a0<em>pura dilig\u00eancia<\/em>, como tamb\u00e9m \u00e9 conhecida) existe quando \u201c<em>o devedor apenas se compromete a desenvolver prudente e diligentemente certa actividade para a obten\u00e7\u00e3o de determinado efeito, mas sem assegurar que o mesmo se produza<\/em>\u201d. Sustentam os defensores desta orienta\u00e7\u00e3o que tal profissional s\u00f3 est\u00e1 obrigado a utilizar os meios adequados para atingir um certo diagn\u00f3stico ou definir uma terapia, n\u00e3o lhe sendo exig\u00edvel alcan\u00e7ar qualquer resultado efetivo, ou seja, a cura do paciente, n\u00e3o assegurando nem podendo, naturalmente, assegurar a cura da sua enfermidade\u00a0Miguel Teixeira de Sousa, Sobre o \u00f3nus da prova nas ac\u00e7\u00f5es de responsabilidade civil m\u00e9dica, p\u00e1g. 125, Direito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica, AAFDL e Carlos Ferreira de Almeida, Os contratos civis de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico, mesma revista, p\u00e1g. 110.. Por regra, o desiderato pretendido n\u00e3o pode ser atendido para a invoca\u00e7\u00e3o de incumprimento ou cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o m\u00e9dico apenas promete a dilig\u00eancia em ordem a obter um resultado, a presta\u00e7\u00e3o consistir\u00e1 num \u201cmeio\u201d de lograr o cumprimento. Aos m\u00e9dicos cabe a obriga\u00e7\u00e3o legal e contratual de desenvolver prudente e diligentemente, atento o est\u00e1dio cient\u00edfico actual das\u00a0<em>leges artis<\/em>, certa atividade para se obter um determinado efeito \u00fatil, que se traduza em empregar a sua ci\u00eancia no tratamento do paciente, sem que se exija a este a obten\u00e7\u00e3o vinculada de um certo resultado, como seja a \u201ccura\u201d.<br \/>O m\u00e9dico deve agir segundo as exig\u00eancias da\u00a0<em>leges artis<\/em>\u00a0e os conhecimentos cient\u00edficos ent\u00e3o existentes, atuando de acordo com um dever objetivo de cuidado, assim como de certos deveres espec\u00edficos, como seja o dever de informar sobre tudo o que interessa \u00e0 sa\u00fade ou o dever de empregar a t\u00e9cnica adequada, que pode prolongar-se mesmo cip\u00f3s a alta do paciente.<br \/>O ponto de partida para qualquer a\u00e7\u00e3o de responsabilidade m\u00e9dica \u00e9, assim, o da desconformidade da concreta atua\u00e7\u00e3o do agente no confronto com aquele padr\u00e3o de conduta profissional que um m\u00e9dico medianamente competente, prudente e sensato, com os mesmos graus acad\u00e9micos e profissionais, teria tido em circunst\u00e2ncias semelhantes na mesma data. A responsabilidade m\u00e9dica sup\u00f5e culpa por n\u00e3o ter sido usado o instrumental de conhecimentos e o esfor\u00e7o t\u00e9cnico que se pode esperar de qualquer m\u00e9dico numa certa \u00e9poca e lugar.\u00a0Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 20.4.2006, Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia, T. II, p\u00e1g. 110.<br \/>Sendo assim, age com culpa, n\u00e3o o m\u00e9dico que n\u00e3o cura, mas o m\u00e9dico que viole os deveres objetivos de cuidado, de tal forma que a sua conduta deva ser pessoalmente censurada e reprovada, culpa a ser apreciada, como se disse, pela dilig\u00eancia de um\u00a0<em>bom pai de fam\u00edlia<\/em>, em face das circunst\u00e2ncias de cada caso, nos termos dos art.\u00bas 487\u00b0 n\u00ba 2, e 799\u00b0, n\u00ba 2, do C\u00f3digo Civil.<br \/>N\u00e3o vemos raz\u00e3o que justifique a necessidade do afastamento da presun\u00e7\u00e3o de culpa prevista no n\u00ba 1 daquele art.\u00ba 799\u00ba quando seja respeitada a natureza da obriga\u00e7\u00e3o de meios a que o m\u00e9dico est\u00e1 adstrito.<br \/>Nesta perspetiva, caber\u00e1, antes de mais, ao credor da obriga\u00e7\u00e3o, ao lesado, a prova da ilicitude do ato, ou seja, que a conduta do m\u00e9dico \u00e9 il\u00edcita no sentido de que, objetivamente considerada, se mostra contr\u00e1ria ao Direito, com desconformidade entre a conduta devida e o comportamento observado, mais concretamente, o\u00a0<em>burden of proof<\/em>\u00a0do incumprimento ou cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o. Tratando-se de uma obriga\u00e7\u00e3o de meios, caber\u00e1 ao credor (lesado) fazer a demonstra\u00e7\u00e3o em Ju\u00edzo de que a conduta (ato ou omiss\u00e3o) do devedor (ou prestador obrigado) n\u00e3o foi conforme com as regras de atua\u00e7\u00e3o suscet\u00edveis de, em abstrato, virem a propiciar a produ\u00e7\u00e3o do almejado resultado.\u00a0Cf ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 7.10.2010, citando ac\u00f3rd\u00e3o tamb\u00e9m daquele tribunal superior de 5.7.2001,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia do Supremo, T. II, p\u00e1g. 166 e seg.s e Jo\u00e3o \u00c1lvaro Dias,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0\u201cDa Natureza Jur\u00eddica da Responsabilidade M\u00e9dica\u201d \u2013 conf. Jo\u00e3o \u00c1lvaro Dias, p\u00e1g. 225.\u00a0\u00c9 o lesado que tem de assumir o encargo probat\u00f3rio da viola\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>leges artis<\/em>\u00a0por parte do m\u00e9dico (assim, a ilicitude), enquanto este \u00faltimo dever\u00e1 afastar o ju\u00edzo de censurabilidade fazendo a prova de que naquelas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o podia e n\u00e3o devia ter agido de maneira diferente.<br \/>Como se escreve no ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 1.7.2010\u00a0Proc. 398\/1999.E1.S1,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.\u00a0, neste tipo de contratos, o cumprimento defeituoso existe sempre que ocorra desconformidade entre as presta\u00e7\u00f5es devidas e aquelas que foram efetivamente realizadas pelo prestador do servi\u00e7o m\u00e9dico. Considerando-se que o tratamento \u00e9 defeituoso, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o principal quando seja desconforme com as \u201c<em>leis da arte m\u00e9dica<\/em>\u201d, com as\u00a0<em>leges artis<\/em>, de harmonia com os est\u00e1dios do conhecimento da ci\u00eancia ao tempo da presta\u00e7\u00e3o dos cuidados de sa\u00fade. S\u00f3 haver\u00e1 viola\u00e7\u00e3o il\u00edcita do direito de outrem se a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica se processar ao arrepio das\u00a0<em>leges artis<\/em>, tamb\u00e9m aqui se podendo falar em cumprimento defeituoso.<br \/>Em geral, para que haja culpa torna-se necess\u00e1rio que o agente n\u00e3o s\u00f3 conhe\u00e7a, ou tivesse que conhecer, o desvalor da a\u00e7\u00e3o que cometeu, como tenha a possibilidade de escolher a sua conduta e ainda que, nas circunst\u00e2ncias concretas do caso, possa ser censur\u00e1vel a sua conduta, ou seja, \u00e9 preciso n\u00e3o apenas que o facto seja imput\u00e1vel ao agente, mas que lhe seja censur\u00e1vel.<br \/>Sendo a culpa apreciada em abstrato, nela incorre o profissional cl\u00ednico que agiu em desconformidade com a conduta que um profissional normalmente diligente teria tomado nas circunst\u00e2ncias concretas, tendo em aten\u00e7\u00e3o aquela atividade cl\u00ednica. A atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico n\u00e3o ser\u00e1 culposa quando, consideradas as circunst\u00e2ncias de cada caso, ele n\u00e3o possa ser reprovado ou censurado por ter atuado como atuou.<br \/>A inobserv\u00e2ncia de quaisquer deveres objetivos de cuidado torna a conduta (do m\u00e9dico) culposa, sendo que a culpa se traduz na viola\u00e7\u00e3o de um dever geral de dilig\u00eancia que o agente conhecia ou podia conhecer aquando da respetiva atua\u00e7\u00e3o e que comporta dois elementos: um de natureza objetiva \u2013 o dever concretamente violado \u2013 e outro de cariz subjetivo traduzido na imputabilidade do agente. A utiliza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica incorreta dentro dos padr\u00f5es cient\u00edficos atuais traduz a chamada imper\u00edcia do m\u00e9dico, pelo que, se o m\u00e9dico se equivoca na elei\u00e7\u00e3o da melhor t\u00e9cnica a ser aplicada no paciente, age com culpa e consequentemente, torna-se respons\u00e1vel pelas les\u00f5es causadas ao doente.\u00a0Cf. citado ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 7.10.2010.<br \/>Dentro desta conce\u00e7\u00e3o, a lei inclina-se para a considera\u00e7\u00e3o da neglig\u00eancia como erro de conduta, a qual envolve a imper\u00edcia ou a incapacidade t\u00e9cnica do lesante, a sua falta de aptid\u00e3o, mais que a simples defici\u00eancia da vontade, n\u00e3o esquecendo as atenua\u00e7\u00f5es da lei ao ordenar a aprecia\u00e7\u00e3o da culpa em face das circunst\u00e2ncias do caso concreto.\u00a0Andr\u00e9 Dias Pereira,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0Da Responsabilidade Civil por Actos M\u00e9dicos \u2013 Alguns Aspectos\u201d, polic., Lisboa, 2001, p\u00e1g.s 29 a 34.\u00a0A atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico rege-se pela\u00a0<em>lex artis ad hoc<\/em>, o que significa que \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o ao preciso caso concreto situado temporalmente que a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica se afere, de acordo com as circunst\u00e2ncias em que esta se desenrola. S\u00f3 assim poderemos ponderar a qualifica\u00e7\u00e3o de certo ato m\u00e9dico como conforme ou n\u00e3o com a t\u00e9cnica normal requerida.\u00a0Manuel Ros\u00e1rio Nunes, ob. cit., p\u00e1g. 54, na continua\u00e7\u00e3o da nota 94 da p\u00e1g. 46.<br \/>Efetuadas estas considera\u00e7\u00f5es, cremos que a senten\u00e7a recorrida foi assertiva quando ali se escreveu:<br \/>\u00ab<em>Na sua maioria, os contratos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos integram, como se referiu, uma obriga\u00e7\u00e3o de meios, n\u00e3o implicando, assim, a n\u00e3o obten\u00e7\u00e3o do resultado final visado com os tratamentos e interven\u00e7\u00f5es, a inadimpl\u00eancia contratual, cabendo por isso ao paciente provar a falta de dilig\u00eancia do m\u00e9dico, a falta de utiliza\u00e7\u00e3o de meios adequados de harmonia com as leges artis, o defeito do cumprimento, ou que o m\u00e9dico n\u00e3o praticou todos os atos normalmente considerados necess\u00e1rios para alcan\u00e7ar a finalidade desejada: \u00e9 essa falta que integra erro m\u00e9dico e constitui incumprimento ou cumprimento defeituoso.<\/em><br \/><em>E s\u00f3 depois dessa prova funcionar\u00e1, no dom\u00ednio da responsabilidade contratual, a conhecida presun\u00e7\u00e3o de culpa. (v. Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 7-03-2017, processo 6669\/11.3TBVNG.S1, www.dgsi.pt, que aqui sigo de perto).<\/em><br \/><em>Como referem Figueiredo Dias e Sinde Monteiro, em Responsabilidade M\u00e9dica em Portugal (cit. por Dias Pereira, O Consentimento Informado na Rela\u00e7\u00e3o M\u00e9dico-Paciente, vol. 9 da cole\u00e7\u00e3o do CDB da FDUC, p\u00e1g. 424), \u201cs\u00f3 por absurdo se pode admitir que o doente, para obter uma indemniza\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de outros pressupostos gerais, tenha apenas de provar a n\u00e3o obten\u00e7\u00e3o de um resultado, isto \u00e9, de forma t\u00edpica, a n\u00e3o recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade\u201d, concluindo que \u201ca natureza de obriga\u00e7\u00e3o de meios s\u00f3 tem por consequ\u00eancia que o paciente tenha de provar o incumprimento das obriga\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico, isto \u00e9, tem de provar objetivamente que n\u00e3o lhe foram prestados os melhores cuidados poss\u00edveis\u201d.<\/em><br \/><em>Deste modo, aos profissionais m\u00e9dicos ou outros n\u00e3o ser\u00e1 assacada responsabilidade por facto il\u00edcito se, nas concretas circunst\u00e2ncias, usar da dilig\u00eancia que \u00e9 exig\u00edvel, cuja dimens\u00e3o \u00e9 medida segundo as leges artis, cujo cumprimento ou incumprimento, com relevo para efeitos de verifica\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de responsabilidade civil, deve ser aferido em fun\u00e7\u00e3o do empenho, da dilig\u00eancia ou da aplica\u00e7\u00e3o dos conhecimentos e t\u00e9cnicas adequadas \u00e0 concreta situa\u00e7\u00e3o. Em tais circunst\u00e2ncias, o facto de n\u00e3o ser alcan\u00e7ado o resultado projetado pelo interessado que solicita ou que \u00e9 submetido aos servi\u00e7os m\u00e9dicos n\u00e3o corresponde necessariamente a uma situa\u00e7\u00e3o de incumprimento dos deveres legais ou contratuais, sendo relevante, isso sim, apreciar se existiu ou n\u00e3o incumprimento das leges artis que, em concreto, se mostravam exig\u00edveis.<\/em><br \/><em>Nem as partes nem o int\u00e9rprete podem deixar de ponderar que toda a atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica comporta uma certa margem de risco. Dependendo das concretas circunst\u00e2ncias objetivas, assim ser\u00e1 maior ou menor a possibilidade de o profissional de sa\u00fade controlar todo o processo, desde o diagn\u00f3stico da situa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua cura, passando pela prescri\u00e7\u00e3o ou pelo tratamento.<\/em><br \/><em>Como refere \u00c1lvaro Dias, \u201co ponto de partida essencial para qualquer a\u00e7\u00e3o de responsabilidade m\u00e9dica \u00e9, por conseguinte, a desconformidade da concreta atua\u00e7\u00e3o do agente no confronto com aquele padr\u00e3o de conduta profissional que um m\u00e9dico medianamente competente, prudente e sensato, com os mesmos graus acad\u00e9micos e profissionais, teria tido em circunst\u00e2ncias semelhantes, naquela data\u201d (Dano Corporal, Quadro Epistemol\u00f3gico e Aspetos Ressarcit\u00f3rios, p\u00e1g. 440).<\/em><br \/><em>(\u2026)<\/em><br \/><em>Para Germano de Sousa, erro m\u00e9dico \u00e9 \u00aba conduta profissional inadequada resultante de utiliza\u00e7\u00e3o de uma t\u00e9cnica m\u00e9dica ou terap\u00eautica incorretas que se revelam lesivas para a sa\u00fade ou vida do doente\u00bb (J. Germano de Sousa, Neglig\u00eancia e Erro M\u00e9dico, Boletim da Ordem dos Advogados, n\u00ba 6, pg 12-14).<\/em><br \/><em>Temos ainda quer o erro de diagn\u00f3stico, quer o erro de execu\u00e7\u00e3o. Com efeito pode ocorrer um erro de perce\u00e7\u00e3o ou cognitivo (aus\u00eancia de conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos, da errada interpreta\u00e7\u00e3o da sintomatologia do paciente ou de dados laboratoriais, imagiol\u00f3gicos ou cl\u00ednicos, ou um erro de diagn\u00f3stico, de profilaxia ou de terap\u00eautica) ou um erro de execu\u00e7\u00e3o (como o manejo indevido de instrumentos na realiza\u00e7\u00e3o do ato cl\u00ednico ou cir\u00fargico ou troca de produtos farmacol\u00f3gicos no tratamento do paciente).<\/em><br \/><em>Caber\u00e1 ao autor alegar e provar a desconformidade objetiva entre os ato praticados\/omitidos e as legis artis (o incumprimento ou cumprimento defeituoso), bem como o nexo de causalidade entre tais atos e o dano. O lesado tem de identificar e demonstrar a dilig\u00eancia devida, tem de individualizar uma concreta falta de cumprimento (il\u00edcita) (Carneiro da Frada, Direito Civil, Responsabilidade Civil, p. 81).<\/em><br \/><em>Ou seja, o lesado\/doente tem de demonstrar a inobserv\u00e2ncia de um dever espec\u00edfico por parte do devedor\/m\u00e9dico. O ponto de partida essencial para qualquer a\u00e7\u00e3o de responsabilidade m\u00e9dica \u00e9 a desconformidade da concreta atua\u00e7\u00e3o do agente, no confronto com aquele padr\u00e3o de conduta profissional que um m\u00e9dico medianamente competente, prudente e sensato, com os mesmos graus acad\u00e9micos e profissionais, teria tido em circunst\u00e2ncias semelhantes na altura.<\/em><br \/><em>(\u2026)<\/em>\u00bb.<br \/>A doutrina dos deveres de prote\u00e7\u00e3o, acess\u00f3rios em rela\u00e7\u00e3o aos deveres principais do contrato\u00a0Seguida pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a a respeito da viola\u00e7\u00e3o de outro direito absoluto, a propriedade, no ac\u00f3rd\u00e3o de 1 de Julho de 2010, proc. n\u00ba 623\/09.2YFLSB,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0www.dgsi.pt.\u00a0tem especial acuidade quando aplicada ao contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos, no qual\u00a0<em>\u201ca protec\u00e7\u00e3o dos \u2018danos concomitantes\u2019 \u00e9 incorporada no v\u00ednculo contratual, na medida em que, ao lado da obriga\u00e7\u00e3o principal \u2013 a de curar, a de minorar o sofrimento, a de aumentar a expectativa de vida \u2013 existe uma obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o causar danos noutros bens pessoais ou patrimoniais do doente, diferentes daquele que constitui o objecto do neg\u00f3cio jur\u00eddico.\u201d<\/em>\u00a0Rute Teixeira Pedro, A responsabilidade civil do m\u00e9dico \u2013 Reflex\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o da perda de chance e a tutela do doente lesado, 2008, p\u00e1g. 80.<br \/>No caso em aprecia\u00e7\u00e3o, a obriga\u00e7\u00e3o principal - a fun\u00e7\u00e3o curativa do defeito ortop\u00e9dico no p\u00e9 direito - era acompanhada do dever de n\u00e3o afetar qualquer outro bem da A. A les\u00e3o cut\u00e2nea verificada pode constituir o desrespeito de um tal dever.<br \/>Podemos estar perante um dever de agir com precau\u00e7\u00e3o, mas a prova da viola\u00e7\u00e3o desse dever cabe tamb\u00e9m ao lesado enquanto elemento caraterizador do cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o.<br \/>Ali\u00e1s, a recorrente n\u00e3o discordou diretamente da argumenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica exposta na senten\u00e7a, antes fundamentou o seu recurso numa determinada modifica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o em mat\u00e9ria de facto, sobre a qual esta mesma argumenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica haveria de levar a um resultado diferente, de proced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o.<br \/>Embora nos pare\u00e7a ser uma tese minorit\u00e1ria, \u00c1lvaro Dias\u00a0Breves considera\u00e7\u00f5es em torno da responsabilidade civil m\u00e9dica, RPDC, 1993, Ano II, n\u00ba 3, 27\/59.\u00a0e Ribeiro de Faria\u00a0Da prova na responsabilidade civil m\u00e9dica-Reflex\u00f5es em torno do direito alem\u00e3o, RFDUP, Ano I, 2004, 115\/118.\u00a0fazem at\u00e9 retirar da diferen\u00e7a entre os dois tipos de obriga\u00e7\u00f5es, de meios e de resultado, consequ\u00eancias ao n\u00edvel da reparti\u00e7\u00e3o do \u00f3nus da prova da culpa, existindo a presun\u00e7\u00e3o aludida no artigo 799\u00ba, n\u00ba 1 do C\u00f3digo Civil, na responsabilidade pelo n\u00e3o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es de resultado mas n\u00e3o na responsabilidade pelo n\u00e3o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es de meios, em que aquela presun\u00e7\u00e3o seria de afastar.\u00a0Para maior desenvolvimento, cf. ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 17.1.2013, proc. 9434\/06.6TBMTS.P1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>A prova do nexo causal, como um dos pressupostos da obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar e medida da mesma, cabe ao credor da obriga\u00e7\u00e3o, independentemente da sua fonte. \u00c9 um dos pressupostos do direito que se aciona, com vista ao ressarcimento do dano (art.\u00bas 563\u00ba e 342\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil). Da\u00ed que o doente tenha de provar que um certo diagn\u00f3stico, tratamento ou interven\u00e7\u00e3o foi omitido e conduziu ao dano, sendo certo que se outro ato m\u00e9dico tivesse sido (ou n\u00e3o tivesse sido) praticado, teria levado \u00e0 cura, atenuado a doen\u00e7a, evitado o seu agravamento ou mesmo a morte, consoante o caso. \u00c9 necess\u00e1rio estabelecer uma liga\u00e7\u00e3o positiva entre a les\u00e3o e o dano, atrav\u00e9s da previsibilidade deste em face daquela.<br \/>No citado art.\u00ba 563\u00ba quis adotar-se a teoria da causalidade adequada, segundo a qual determinada a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o ser\u00e1 causa de certo preju\u00edzo se, tomadas em conta todas as circunst\u00e2ncias conhecidas do agente e as mais que um homem normal poderia conhecer, essa a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o se mostrava, \u00e0 face da experi\u00eancia comum, como adequada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do referido preju\u00edzo, havendo fortes probabilidades de o originar.\u00a0Galv\u00e3o Telles Manual do Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, n\u00ba 229 e Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, p\u00e1g.s 409 e 410.\u00a0Releva a rela\u00e7\u00e3o que razoavelmente conduza \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o ao agente da responsabilidade por esse mesmo resultado, s\u00f3 sendo causa jur\u00eddica de um dano no paciente, a conduta (culposa) do m\u00e9dico que, segundo um ju\u00edzo\u00a0<em>a posteriori<\/em>\u00a0formulado, se revela id\u00f3nea para a produ\u00e7\u00e3o de tal resultado.\u00a0Citado ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 1.7.2010.<br \/>Retomemos o caso concreto para dizer que nada se alterou em mat\u00e9ria de facto que releve ao n\u00edvel dos pressupostos da ilicitude, do nexo causal e da culpa no que respeita aos atos praticados pelo m\u00e9dico ortopedista e pela equipa de enfermagem da R. desde o ato cir\u00fargico de 24.9.2013 at\u00e9 \u00e0 cura cl\u00ednica da fictena do dorso do p\u00e9 direito e da les\u00e3o do calcanhar da A. Todos os factos novos, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o do indicado item 1\u00ba, concernem aos danos que a A. sofreu em consequ\u00eancia daquelas les\u00f5es e a sua pondera\u00e7\u00e3o - para efeitos indemnizat\u00f3rios - s\u00f3 se justifica ap\u00f3s a verifica\u00e7\u00e3o dos anteriores pressuposto da responsabilidade civil.<br \/>Tal como decorre da senten\u00e7a recorrida, os factos provados n\u00e3o consentem a extra\u00e7\u00e3o da conclus\u00e3o de que existiu cumprimento defeituoso quer da obriga\u00e7\u00e3o m\u00e9dica do cirurgi\u00e3o de agir segundo o crit\u00e9rio de boas pr\u00e1ticas acima enunciado, quer da obriga\u00e7\u00e3o da R. prestar os adequados cuidados de enfermagem que as circunst\u00e2ncias do caso justificaram.<br \/>A cirurgia foi realizada imediatamente ap\u00f3s efectuado o diagn\u00f3stico correto e n\u00e3o teve intercorr\u00eancias. O p\u00f3s-operat\u00f3rio envolveria, como envolveu, a verifica\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel de dores e desconforto. \u00c9 normal a exist\u00eancia de dores no per\u00edodo imediatamente posterior \u00e0 cirurgia, designadamente no internamento que, no caso, foi de apenas dois dias. O grau de intensidade de dor \u00e9 muito subjetivo e a equipa de enfermagem tomou os atos necess\u00e1rios que a boas pr\u00e1ticas aplic\u00e1veis ao caso impunham: ora administrando a medica\u00e7\u00e3o analg\u00e9sica prescrita pelo m\u00e9dico, ora recomendando medidas tendentes a permitir um al\u00edvio da dor, como sejam a coloca\u00e7\u00e3o de gelo e a eleva\u00e7\u00e3o dos membros inferiores. A A. foi melhorando das dores ao longo dos dias do internamento.<br \/>N\u00e3o houve comprometimento neuro-vascular no membro operado, durante todo o per\u00edodo de internamento, sempre constando tamb\u00e9m que o penso da ferida cir\u00fargica estava externamente limpo e seco e que n\u00e3o apresentava quaisquer sinais de comprometimento. Quando, em 26.9.2013, foi retirado o hemodreno, a ferida cir\u00fargica foi lavada com soro fisiol\u00f3gico, a sutura n\u00e3o apresentava sinais de inflama\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se tendo verificado ent\u00e3o qualquer sinal de les\u00e3o na pele do p\u00e9 direito da A., fosse no dorso do p\u00e9, fosse na zona lateral ou no calcanhar, relacionada com algum tipo de ulcera\u00e7\u00e3o de press\u00e3o, nomeadamente flictena ou edema. A tala estabilizadora, ent\u00e3o retirada, foi reposta, como se impunha, dando o m\u00e9dico alta hospitalar \u00e0 A., com indica\u00e7\u00e3o dos cuidados a ter em ambulat\u00f3rio, designadamente que deveria manter o p\u00e9 elevado, n\u00e3o poderia andar com o p\u00e9 suspenso, e que deveria colocar um saco com gelo no membro operado.<br \/>A A. apresentou flictena pela primeira vez quando, no dia 30 de setembro regressou ao hospital para mudar o penso. Estava ent\u00e3o em ambulat\u00f3rio desde o anterior dia 26. A flictena surgiu num daqueles 4 dias.<br \/>Desconhecemos as causas concretas do aparecimento da flictena no dorso do p\u00e9 direito da A. e o edema no seu calcanhar. A A. n\u00e3o demonstrou qualquer rela\u00e7\u00e3o causa-efeito entre a cirurgia ou os tratamentos p\u00f3s-cir\u00fargicos e o aparecimento daquelas les\u00f5es do p\u00e9. N\u00e3o demonstrou a A. que essas les\u00f5es resultaram da viola\u00e7\u00e3o pelo cirurgi\u00e3o e pela enfermagem de boas regras de pr\u00e1tica cl\u00ednica, de que seria exemplo um m\u00e9todo cir\u00fargico despropositado e errado, o uso de uma tala inadequada, excessivo aperto, necessidade de um internamento mais prolongado para vigil\u00e2ncia da evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, ou a necessidade de observa\u00e7\u00e3o do estado da doente por per\u00edodo mais curto no ambulat\u00f3rio.<br \/>N\u00e3o est\u00e1 demonstrada, em face do conjunto de circunst\u00e2ncias, uma pr\u00e1tica cl\u00ednica incorreta, violadora da\u00a0<em>leges artis<\/em>. N\u00e3o h\u00e1 prova de que o m\u00e9dico ou a equipa de enfermagem atuante, assim, a R. atrav\u00e9s dos seus colaboradores e auxiliares (art.\u00ba 800\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil), tivessem cumprido defeituosamente as suas obriga\u00e7\u00f5es funcionais, seja quanto \u00e0 cirurgia (bem sucedida, ali\u00e1s) seja quanto aos tratamentos posteriores. O surgimento da flitena\/edema e todos os preju\u00edzos n\u00e3o lhes \u00e9 imput\u00e1vel, como assim tamb\u00e9m \u00e0 R.<\/p><p>Ainda, na conclus\u00e3o L) das alega\u00e7\u00f5es do recurso, a recorrente escreveu que a R. \u201c<em>n\u00e3o diagnosticou corretamente a les\u00e3o sofrida pela A. no p\u00e9, pois inicialmente diagnosticou com sendo uma simples entorse, tendo apurado uma semana depois tratar-se de uma fractura, a A. foi operada de imediato, opera\u00e7\u00e3o que se n\u00e3o fosse a conduta da R. j\u00e1 teria ocorrido aquando do primeiro diagn\u00f3stico, ou seja, 8 dias antes, tudo isto evitando sobretudo que a A. sofresse as dores que sofreu<\/em>\u201d.<br \/>\u00c9 verdade que a Dr. J\u2026, no epis\u00f3dio de urg\u00eancia de 16.9.2013, informou a A. de que n\u00e3o observava no RX ent\u00e3o efetuado qualquer problema a n\u00edvel \u00f3sseo. Todavia, na realidade, esse problema existia: uma \u201c<em>fratura meleolo peroneal direita obl\u00edqua<\/em>\u201d, ou seja, uma fratura do tornozelo direito que - diagnosticado posteriormente - justificou uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica imediata para redu\u00e7\u00e3o e osteoss\u00edntese com dois parafusos interfragment\u00e1rios, que teve lugar 8 dias depois, dia 24 no mesmo m\u00eas.<br \/>Um erro de diagn\u00f3stico n\u00e3o \u00e9 necessariamente um erro m\u00e9dico relevante para efeito de responsabilidade.<br \/>N\u00e3o esque\u00e7amos que se tratou de um epis\u00f3dio de urg\u00eancia, que foi sugerida revis\u00e3o em consulta de ortopedia e regresso ao hospital para reavalia\u00e7\u00e3o, caso os sintomas piorassem ou simplesmente persistissem.<br \/>Presumivelmente, por terem persistido ou por se terem agravado as dores da A. ou outros sinais de alerta, esta regressou ao hospital no dia 23, tendo sido imediatamente dirigida par a consulta de ortopedia, por ent\u00e3o se ter suspeitado de uma fratura \u00f3ssea. Foi nesta \u00faltima consulta que foi efetuado o diagn\u00f3stico correto e definitivo que conduziu \u00e0 cirurgia no dia seguinte.<br \/>O exerc\u00edcio da medicina comporta um risco razo\u00e1vel e toler\u00e1vel, a que n\u00e3o s\u00e3o alheias, designadamente, as condi\u00e7\u00f5es da sua pr\u00e1tica, a forma\u00e7\u00e3o e os conhecimentos exig\u00edveis do m\u00e9dico prestador do servi\u00e7o, em cada caso concreto.<br \/>Conforme excerto da senten\u00e7a recorrida, citando doutrina, e que atr\u00e1s se transcreveu, \u201c<em>nem as partes nem o int\u00e9rprete podem deixar de ponderar que toda a atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica comporta uma certa margem de risco. Dependendo das concretas circunst\u00e2ncias objetivas, assim ser\u00e1 maior ou menor a possibilidade de o profissional de sa\u00fade controlar todo o processo, desde o diagn\u00f3stico da situa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sua cura, passando pela prescri\u00e7\u00e3o ou pelo tratamento<\/em>\u201d.<br \/>\u00c9 sabido que o m\u00e9dico da urg\u00eancia n\u00e3o \u00e9 necessariamente um ortopedista, nem um m\u00e9dico experiente, ali sendo recebidas diariamente patologias muito diversas, algumas delas a implicar encaminhamento imediato para uma consulta de especialidade, outras nem tanto ou mesmo nada. A observa\u00e7\u00e3o, na urg\u00eancia, de um RX, por traumatismo num p\u00e9 resultante de uma queda, n\u00e3o oferece as mesmas garantias que a leitura do mesmo exame por um m\u00e9dico da especialidade e com larga experi\u00eancia profissional, em ambiente de consulta normal, e ainda assim, as leituras podem divergir em fun\u00e7\u00e3o a experi\u00eancia do m\u00e9dico, da sua forma\u00e7\u00e3o, da qualidade da imagem e de outros fatores muito vari\u00e1veis.<br \/>Para al\u00e9m dos casos concretos de les\u00e3o grave e evidenciada em exame de diagn\u00f3stico, em que o doente deve ser imediatamente encaminhado para a especialidade, outros casos existem que, surgidos na urg\u00eancia hospitalar, n\u00e3o justificam essa emerg\u00eancia, agindo-se ent\u00e3o no sentido de aliviar a<em>\u00a0dor maior<\/em>, na esperan\u00e7a de que o tratamento recomendado surta efeito sem necessidade de mais dilig\u00eancias cl\u00ednicas. A urg\u00eancia visa sobretudo o objectivo e por cobro ao sofrimento e n\u00e3o substituir ou antecipar muitas das vezes um tratamento que s\u00f3 a especialidade concede.<br \/>No segundo epis\u00f3dio de urg\u00eancia, no dia 23, outra m\u00e9dica foi mais longe do que a m\u00e9dica da primeira consulta. Mas contou ent\u00e3o j\u00e1 com os efeitos da evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o e referiu que seria necess\u00e1rio a A. ser vista por um ortopedista.<br \/>Assim, e ainda que tendo falhado no diagn\u00f3stico, as circunst\u00e2ncias em que agiu a Dr.\u00aa J\u2026 e as reservas de diagn\u00f3stico que salvaguardou afastam o ju\u00edzo de neglig\u00eancia que poderia relevar ao n\u00edvel da responsabilidade da R. N\u00e3o deixou de sugerir a exist\u00eancia de d\u00favida ao informar a A. da necessidade de revis\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o em consulta de ortopedia e o regresso \u00e0 urg\u00eancia para reavalia\u00e7\u00e3o, caso os sintomas piorassem ou persistissem.<br \/>Este comportamento, nas referidas condi\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias em que a primeira abordagem de urg\u00eancia foi efectuada, \u00e9 razoavelmente tolerado pelo risco pr\u00f3prio do exerc\u00edcio da medicina, n\u00e3o sendo de situar ao n\u00edvel da responsabilidade m\u00e9dica.<br \/>Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 qualquer nexo causal entre o atraso (desculp\u00e1vel) na realiza\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico definitivo e os preju\u00edzos sofrido ap\u00f3s a cirurgia cujo sucesso nem sequer foi posto em causa.<br \/>De resto, a pr\u00f3pria A. ter\u00e1 compreendido isto aquando da dedu\u00e7\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o inicial em cujos fundamentos descreve tamb\u00e9m esta situa\u00e7\u00e3o inicial, mas sobretudo com sentido ilustrativo e globalizante, real\u00e7ando e concretizando na descri\u00e7\u00e3o dos danos (respetivos art.\u00bas 44\u00ba e seg.s, e 68\u00ba e seg.s) os que considerou resultarem no estado p\u00f3s-cir\u00fargico, por causa da cirurgia e do tratamento subsequente (ulcera\u00e7\u00e3o\/fictena e seus efeitos prejudiciais).<br \/>Nesta decorr\u00eancia n\u00e3o se verificando os indispens\u00e1veis pressupostos da responsabilidade contratual, n\u00e3o h\u00e1 obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar e o pedido da a\u00e7\u00e3o deve improceder.<br \/>Na improced\u00eancia do recurso, a senten\u00e7a recorrida merece confirma\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>SUM\u00c1RIO (art.\u00ba 662\u00ba, n\u00ba 7, do C\u00f3digo de Processo Civil)<\/p><p style=\"text-align: justify\">....................................................................................<br \/>....................................................................................<br \/>....................................................................................<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<br \/>V.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo exposto, acorda-se nesta Rela\u00e7\u00e3o em julgar a apela\u00e7\u00e3o improcedente, confirmando-se a senten\u00e7a recorrida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas da apela\u00e7\u00e3o pela A. recorrente, dado o seu total decaimento (art.\u00ba 527\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo de Processo Civil).<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Porto, 8 de setembro de 2020<br \/>Filipe Caro\u00e7o<br \/>Judite Pires<br \/>Aristides Rodrigues de Almeida<br \/>__________________________<br \/>[1] Por transcri\u00e7\u00e3o.<br \/>[2] Por transcri\u00e7\u00e3o.<br \/>[3] Proc. 2611\/12.2TBSTS.L1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>[4] Proc. 15787\/15.8T8PRT.P1.S2,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>, tamb\u00e9m citado pela recorrida.<br \/>[5] 363\/07.7TVPRT-D.P2.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>[6] V.g. ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 26.5.2015, proc. 1426\/08.7TCSNT.L1.S1, de 19.1.2016, proc. 3316\/10.4TBLRA.C1.S1 e de 11.2.2016, proc. 157\/12.8TUGMR.G1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>[7] V.g. Miguel Teixeira de Sousa, coment\u00e1rio ao ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 22.10.2015, proc. 212\/06.3TBSBG.C2.S1, blog do IPPC, a prop\u00f3sito da sufici\u00eancia de algumas refer\u00eancias apenas constantes nom corpo das alega\u00e7\u00f5es de recurso (n\u00e3o nas conclus\u00f5es).<br \/>[8] Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 16.05.2018, proc. n.\u00ba 2833\/16.7T8VFX.L1.S1 e ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora de 12.7.2018, proc. 581\/15.4T8ABT.E1, ambos\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>[9] Recursos no Novo C\u00f3digo de Processo Civil, 2013, Almedina, p\u00e1g. 224 e 225.<br \/>[10] Sob o t\u00edtulo \u201cOs \u00d3nus da Alega\u00e7\u00e3o e da Prova, em Geral \u2026\u201d, Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia, Ano VII, T.I, p\u00e1g. 19.<br \/>[11] \u201cProvas \u2013 Direito Probat\u00f3rio Material\u201d, BMJ 110\/82 e 171.<br \/>[12]\u00a0<em>In<\/em>\u00a0\u201cO \u00d3nus da Prova nas Ac\u00e7\u00f5es de Responsabilidade Civil M\u00e9dica\u201d, comunica\u00e7\u00e3o apresentada ao II Curso de Direito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica e publicada\u00a0<em>in<\/em>\u00a0\u201cDireito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica\u201d, Lisboa, 1996, edi\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Acad\u00e9mica da Faculdade de Direito de Lisboa, p\u00e1g. 127.<br \/>[13] Ac\u00f3rd\u00e3o. do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 136\/12.5TVLSB.L1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>[14] Cf., entre outros, ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 11.7.2006,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia, T. I, p\u00e1g. 144, e ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 20.7.2006, n\u00ba RP200607200633598,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>[15] Com o n\u00ba RP201011161347\/04.2TBPNF.P1,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a><u>.<\/u><br \/>[16] Miguel Teixeira de Sousa, Sobre o \u00f3nus da prova nas ac\u00e7\u00f5es de responsabilidade civil m\u00e9dica, p\u00e1g. 125, Direito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica, AAFDL e Carlos Ferreira de Almeida, Os contratos civis de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico, mesma revista, p\u00e1g. 110.<br \/>[17] Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 20.4.2006, Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia, T. II, p\u00e1g. 110.<br \/>[18] Cf ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 7.10.2010, citando ac\u00f3rd\u00e3o tamb\u00e9m daquele tribunal superior de 5.7.2001,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0Colect\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia do Supremo, T. II, p\u00e1g. 166 e seg.s e Jo\u00e3o \u00c1lvaro Dias,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0\u201cDa Natureza Jur\u00eddica da Responsabilidade M\u00e9dica\u201d \u2013 conf. Jo\u00e3o \u00c1lvaro Dias, p\u00e1g. 225.<br \/>[19] Proc. 398\/1999.E1.S1,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>[20] Cf. citado ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 7.10.2010.<br \/>[21] Andr\u00e9 Dias Pereira,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0Da Responsabilidade Civil por Actos M\u00e9dicos \u2013 Alguns Aspectos\u201d, polic., Lisboa, 2001, p\u00e1g.s 29 a 34.<br \/>[22] Manuel Ros\u00e1rio Nunes, ob. cit., p\u00e1g. 54, na continua\u00e7\u00e3o da nota 94 da p\u00e1g. 46.<br \/>[23] Seguida pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a a respeito da viola\u00e7\u00e3o de outro direito absoluto, a propriedade, no ac\u00f3rd\u00e3o de 1 de Julho de 2010, proc. n\u00ba 623\/09.2YFLSB,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0www.dgsi.pt.<br \/>[24] Rute Teixeira Pedro, A responsabilidade civil do m\u00e9dico \u2013 Reflex\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o da perda de chance e a tutela do doente lesado, 2008, p\u00e1g. 80.<br \/>[25] Breves considera\u00e7\u00f5es em torno da responsabilidade civil m\u00e9dica, RPDC, 1993, Ano II, n\u00ba 3, 27\/59.<br \/>[26] Da prova na responsabilidade civil m\u00e9dica-Reflex\u00f5es em torno do direito alem\u00e3o, RFDUP, Ano I, 2004, 115\/118.<br \/>[27] Para maior desenvolvimento, cf. ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 17.1.2013, proc. 9434\/06.6TBMTS.P1.S1,\u00a0<em>in<\/em>\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>.<br \/>[28] Galv\u00e3o Telles Manual do Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, n\u00ba 229 e Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, p\u00e1g.s 409 e 410.<br \/>[29] Citado ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 1.7.2010.<\/p><p>Fonte:\"<a href=\"http:\/\/www.gde.mj.pt\/jtrp.nsf\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/aaaeabcf3213c7f08025860f00352e64?OpenDocument\" target=\"_blank\" 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class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Ac\u00f3rd\u00e3o15849\/13.6TDPRT.P1<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-bd47498 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"bd47498\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Homic\u00eddio por Neglig\u00eancia<\/p><p>Negligencia Medica<\/p><p>Legis artis<\/p><p>30\/01\/2019<\/p><p>Recurso Penal<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-58e2b67 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"58e2b67\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-58e2b67\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">A viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado objetivamente devido \u00e9 elemento essencial e caracter\u00edstico do tipo de il\u00edcito negligente, com o que se pretende designar a viola\u00e7\u00e3o de exig\u00eancias de comportamento tipicamente espec\u00edficas, cujo cumprimento o direito requer, para evitar o preenchimento de um tipo objetivo de il\u00edcito.<br \/>II - Entre os crit\u00e9rios concretizadores do cuidado objetivamente devido importa destacar os seguintes:<br \/>- As normas corporativas, normas (n\u00e3o jur\u00eddicas) fixadas ou aceites por certos c\u00edrculos profissionais e an\u00e1logos destinadas a conformar as atividades respetivas dentro de padr\u00f5es de qualidade e, nomeadamente, a evitar a concretiza\u00e7\u00e3o de perigos para bens jur\u00eddicos que de tais atividades pode resultar, como \u00e9 o caso das\u00a0legis artis\u00a0da atividade m\u00e9dica.<br \/>- Os costumes profissionais comuns ao profissional prudente, ao profissional padr\u00e3o. O crit\u00e9rio \u00e9 a n\u00e3o correspond\u00eancia do comportamento \u00e0quele que, em id\u00eantica situa\u00e7\u00e3o, teria um homem fiel aos valores protegidos, prudente e consciencioso.<br \/>III - A viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado tanto pode traduzir-se numa a\u00e7\u00e3o como numa omiss\u00e3o; neste \u00faltimo caso \u00e9 necess\u00e1rio que sobre o agente recaia um dever de garante.<br \/>IV - A neglig\u00eancia determina-se com recurso a uma dupla averigua\u00e7\u00e3o: por um lado, procurar saber que comportamento era objetivamente devido numa situa\u00e7\u00e3o de perigo em ordem a evitar a viola\u00e7\u00e3o n\u00e3o querida do direito e, por outro lado, se esse comportamento podia ser exigido do agente, atentas as suas caracter\u00edsticas e capacidades individuais.<br \/>V - Numa cirurgia com internamento, h\u00e1\u00a0legis artis\u00a0impostas por \u201cguide lines\u201d comummente seguidas na pr\u00e1tica m\u00e9dica e hospitalar. A vigil\u00e2ncia p\u00f3s-operat\u00f3ria por m\u00e9dico especialista \u00e9 fundamental e, por regra, cabe ao anestesiologista o dever de vigiar o restabelecimento da capacidade geral de funcionamento do organismo do paciente, competindo-lhe, tamb\u00e9m, o controlo efetivo da sa\u00edda do doente da unidade de cuidados p\u00f3s-anest\u00e9sicos.<br \/>VI - Se depois de interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica (adenoidectomia e meringotomia), no p\u00f3s-operat\u00f3rio, entre as 9:45 e as 16:45 a doente crian\u00e7a teve sete v\u00f3mitos com vest\u00edgios de sangue, a persist\u00eancia dos v\u00f3mitos n\u00e3o pode ser considerada uma ocorr\u00eancia normal e exigia que a crian\u00e7a fosse observada por um m\u00e9dico e reavaliado o seu estado cl\u00ednico. Se assim n\u00e3o aconteceu e a crian\u00e7a acabou por ser transferida para o servi\u00e7o de pediatria, por ordem do arguido, sem qualquer informa\u00e7\u00e3o e sem que a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica fosse reavaliada, concluiu-se que o arguido n\u00e3o procedeu com o cuidado devido a que estava obrigado e era capaz.<br \/>VII - Abandonando o arguido o Centro Hospitalar sem cuidar de garantir que existia um m\u00e9dico respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia da crian\u00e7a nem tratando de comunicar com os m\u00e9dicos que estavam de servi\u00e7o transmitindo-lhes todas as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas relevantes sobre a crian\u00e7a, tamb\u00e9m, deste modo, violou o seu dever de cuidado.<br \/>VIII - A decis\u00e3o sobre a exist\u00eancia, ou n\u00e3o, de nexo causal entre uma conduta omissiva do arguido e o resultado morte compete ao tribunal e n\u00e3o aos peritos.<br \/>IX - N\u00e3o tendo o juiz conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos de medicina, as conclus\u00f5es dos peritos m\u00e9dicos e os pareceres dos Col\u00e9gios da Especialidade da Ordem dos M\u00e9dicos s\u00e3o fundamentais para o ju\u00edzo sobre a viola\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, das\u00a0legis artis\u00a0pelo m\u00e9dico e na avalia\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, ou n\u00e3o, dessa rela\u00e7\u00e3o de causalidade, mas, na reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos factos, o tribunal n\u00e3o pode ater-se, exclusivamente, a esses meios, antes se lhe imp\u00f5e que proceda a uma avalia\u00e7\u00e3o complexiva e contextualizada da atua\u00e7\u00e3o do agente, levando em considera\u00e7\u00e3o a globalidade das circunst\u00e2ncias e fatores, end\u00f3genos e ex\u00f3genos, e meios disponibilizados para o ju\u00edzo de prognose p\u00f3stuma que tem de formular.<br \/>X - Se o arguido com a sua experi\u00eancia e saber n\u00e3o tratou de obter elementos necess\u00e1rios para diagnosticar a patologia na paciente a seu cargo e sob a sua vigil\u00e2ncia e iniciar, o mais precocemente poss\u00edvel, o seu tratamento, ter\u00e1 de concluir-se que n\u00e3o foi um profissional previdente e por isso ter\u00e1 de ser penalmente responsabilizado pelas consequ\u00eancias da sua conduta negligente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Processo n.\u00ba 15849\/13.6TDPRT.P1<\/p><p style=\"text-align: justify\">Recurso penal<\/p><p style=\"text-align: justify\">Relator: Neto de Moura<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam, em confer\u00eancia, na 1.\u00aa Sec\u00e7\u00e3o (Criminal) do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto<\/p><p style=\"text-align: justify\">I\u00a0\u2013\u00a0Relat\u00f3rio<\/p><p style=\"text-align: justify\">No \u00e2mbito do processo comum que, sob o n.\u00ba 15849\/13.6 TDPRT, corre termos pelo Ju\u00edzo Criminal da Inst\u00e2ncia Local de Penafiel, Comarca de Porto Este, B\u2026, devidamente identificado nos autos, foi submetido a julgamento, acusado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico da pr\u00e1tica, em autoria material e em concurso real, de um crime de omiss\u00e3o de tratamentos m\u00e9dico-cir\u00fargicos e um crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia, previstos e pun\u00edveis, respetivamente, pelos artigos 150.\u00ba e 137.\u00ba, n.\u00ba 2, do C\u00f3digo Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">C\u2026\u00a0e\u00a0D\u2026, melhor identificados nos autos, requereram e foram admitidos a intervir nos autos como assistentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Realizada a audi\u00eancia, com documenta\u00e7\u00e3o da prova nela oralmente produzida, foi proferida senten\u00e7a (fls. 710 e seg.s), datada de 03.05.2018 e depositada na mesma data, que absolveu o arguido da acusa\u00e7\u00e3o de ambos os crimes que o Minist\u00e9rio P\u00fablico lhe imputava.<br \/>Inconformados, quer o Minist\u00e9rio P\u00fablico, quer os assistentes interpuseram recurso da senten\u00e7a absolut\u00f3ria para este Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o, com os fundamentos explanados nas respetivas motiva\u00e7\u00f5es, que condensaram nas seguintes conclus\u00f5es (em transcri\u00e7\u00e3o integral):<\/p><p style=\"text-align: justify\">Recurso do Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00ab1 - O tribunal a quo absolveu o arguido B\u2026 da pr\u00e1tica do crime de omiss\u00e3o de tratamentos m\u00e9dicos e cir\u00fargicos e de homic\u00eddio por neglig\u00eancia, p. (s) e p. (s) respetivamente, pelos artigos 150.\u00ba e 137.\u00ba, n.\u00ba 1 e 2, todos do C. Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - N\u00e3o se conformando com a decis\u00e3o proferida quanto ao crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia, p. e p. pelo artigo 137.\u00ba, n.\u00ba 1 e 2 do C. Penal, vem o Minist\u00e9rio P\u00fablico interpor recurso da decis\u00e3o proferida que se fundamenta t\u00e3o s\u00f3 na afirma\u00e7\u00e3o do nexo de causalidade da conduta omitida pelo arguido e a produ\u00e7\u00e3o do resultado morte, devendo tal nexo de causalidade ser dado como provado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 - Com efeito, entendeu a Mm.\u00aa Juiz a quo ter resultado n\u00e3o provado da prova produzida em audi\u00eancia de julgamento que se o arguido tivesse procedido como devia e estava obrigado, fazendo uma avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 antes da sua transfer\u00eancia e enquanto esteve no Recobro II teria prescrito uma medica\u00e7\u00e3o e\/ou teria pedido uma gasometria, considerando assim n\u00e3o verificado o nexo de causalidade entre o comportamento omissivo e a produ\u00e7\u00e3o do dano morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5 - Entende por\u00e9m o Minist\u00e9rio P\u00fablico que o acervo f\u00e1ctico que resultou provado da audi\u00eancia de julgamento \u00e9 suficiente para afirmar o nexo de causalidade na medida em que o comportamento omissivo do arguido potenciou o risco de morte, o que veio efetivamente a suceder.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6 - Na verdade, tendo resultado provado que \u201co acompanhamento e a vigil\u00e2ncia da E\u2026 no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio imediato, Recobro I e Recobro II eram da responsabilidade do m\u00e9dico anestesista, in casu, o arguido;<\/p><p style=\"text-align: justify\">7 - Que a persist\u00eancia dos v\u00f3mitos, decorridas duas\/tr\u00eas horas de per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio (tendo em conta a cirurgia realizada), impunha que o estado cl\u00ednico da E\u2026 tivesse sido reavaliado, o que cabia in casu ao arguido (anestesista respons\u00e1vel pela cirurgia), o que n\u00e3o aconteceu;<\/p><p style=\"text-align: justify\">8 - Que, o arguido abandonou as instala\u00e7\u00f5es do Centro Hospitalar sem observar e reavaliar a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026; sem cuidar de garantir que existia um m\u00e9dico respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia da E\u2026; sem cuidar de comunicar com os m\u00e9dicos que estavam de servi\u00e7o transmitindo-lhes todas as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas relevantes;<\/p><p style=\"text-align: justify\">9 - E que, o arguido n\u00e3o procedeu com o cuidado que era devido, a que estava obrigado e era capaz, tendo em conta o estado da paciente e a sintomatologia que esta ap\u00f3s a cirurgia e no per\u00edodo que estava sob a sua responsabilidade apresentou;<\/p><p style=\"text-align: justify\">10 - Entende o Minist\u00e9rio P\u00fablico que \u00e9 for\u00e7oso concluir que a conduta omitida pelo arguido B\u2026 podia, com toda a probabilidade evitar o evento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito,<\/p><p style=\"text-align: justify\">11 - A afirma\u00e7\u00e3o do nexo de causalidade deve ser feita, in casu, com recurso \u00e0 denominada \"conex\u00e3o do risco\", de acordo com a qual a a\u00e7\u00e3o esperada ou devida dever ser uma tal que teria diminu\u00eddo o risco de produ\u00e7\u00e3o do resultado, a menos que se comprove (posteriormente ao evento) que a a\u00e7\u00e3o omitida em nada teria servido para evitar o evento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">12 - O n\u00e3o cumprimento dos deveres de vigil\u00e2ncia e acompanhamento por parte arguido B\u2026, que depois da cirurgia n\u00e3o mais observou a E\u2026 abandonando-a \u00e1 sua sorte, n\u00e3o permitiram que outros sintomas da Hiponatremia, para al\u00e9m dos v\u00f3mitos e n\u00e1useas, pudessem ser detetados ou detetados de forma precoce.<br \/>13 - O arguido desvalorizou a persist\u00eancia dos v\u00f3mitos, mesmo decorridos mais de duas horas ap\u00f3s a cirurgia, e deu indica\u00e7\u00e3o que a E\u2026 fosse transferida para a Pediatria sem reavaliar o seu estado cl\u00ednico, sem tentar perceber se a persist\u00eancia dos v\u00f3mitos eram sintomas de que algo de errado se passava e sem cuidar de que outro m\u00e9dico o fazia, omitindo a assist\u00eancia m\u00e9dica a que a E\u2026 tinha direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">14 - A Hiponatremia \u00e9 frequente em contexto p\u00f3s-operat\u00f3rio, de instala\u00e7\u00e3o r\u00e1pida nas crian\u00e7as, em alguns casos assintom\u00e1tica, o que n\u00e3o podia ser nem era ignorado pelo arguido, anestesista h\u00e1 mais de vinte anos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">15 - O Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o tem d\u00favidas de que com o seu comportamento o arguido aumentou o perigo de vida e o risco de morte da E\u2026, afirmando-se portanto o nexo de causalidade entre a conduta e o resultado\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Recurso dos assistentes<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00abA - A senten\u00e7a de que ora se recorre violou os artigos 130, n\u00ba 2, 410.\u00ba, n.\u00ba 2, a) e c) do C.P.P. e art. 32.\u00b0, n.\u00b0 2, da CRP.<\/p><p style=\"text-align: justify\">B - De referir, desde logo, que na literatura m\u00e9dica e como resulta de toda a prova produzida nos autos, a hiponatremia \u00e9 o dist\u00farbio hidroelectrol\u00edtico mais comum em pacientes hospitalares.<\/p><p style=\"text-align: justify\">C - Tal como concluiu a per\u00edcia de anestesiologia, sabendo da alta probabilidade da instala\u00e7\u00e3o de hiponatremia numa crian\u00e7a de 4 anos, cabia ao Arguido avaliar a mesma, procedendo ao diagn\u00f3stico e ao tratamento mais precoce, o que teria certamente evitado a morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">D - Na Senten\u00e7a de que se recorre reduziu-se o tribunal ao facto de n\u00e3o resultar provado o excesso de soro profundido,<\/p><p style=\"text-align: justify\">E - Sendo certo que, como resulta da per\u00edcia em apre\u00e7o, cabia ao Arguido a perce\u00e7\u00e3o ou atempado conhecimento em conjunto com sinais cl\u00ednicos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">F - Com a sua conduta omissiva e grosseiramente negligente, atenta a sua retirada do hospital sem sequer informar os seus pares, o Arguido conformou-se com o desfecho verificado, n\u00e3o cuidando de avaliar a menor,<\/p><p style=\"text-align: justify\">G - Mas, sobretudo, sabendo da vulgaridade do quadro de hiponatremia no contexto p\u00f3s-operat\u00f3rio (especialmente em crian\u00e7as de tenra idade) a sua conduta manifestamente criou ou aumentou um risco para a vida da menor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">H - Na verdade, atentos os sucessivos v\u00f3mitos, tendo a menor j\u00e1 tomado a respetiva medica\u00e7\u00e3o, tal como referido pelo perito de anestesiologia, persistindo tal quadro impunha-se uma avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica da menor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">I - Ao n\u00e3o avaliar, o Arguido criou e aumentou claramente o risco da morte da menor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">J - Apesar de referir a Senten\u00e7a que n\u00e3o ignorou o que nos diz a teoria da conex\u00e3o do risco, na verdade olvidou em absoluto tal teoria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">L - A gasometria trata-se de um ato m\u00e9dico (como ficou expresso pelos v\u00e1rios depoimentos prestados), apenas estando presente junto da menor poderia o Arguido prescrever tal exame e assim evitar o desfecho verificado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">M - Estivera o Arguido presente e teria diminu\u00eddo ou extinguido qualquer risco para a vida da menor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N - Pelo que, contrariamente ao racioc\u00ednio plasmado na senten\u00e7a, a aus\u00eancia do Arguido veio claramente aumentar o risco da produ\u00e7\u00e3o do resultado morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O - Houvera a Merit\u00edssima Juiz a quo considerado efetivamente a teoria da conex\u00e3o do risco nos crimes praticados por omiss\u00e3o e redundaria tal interpreta\u00e7\u00e3o da doutrina e do tipo legal de crime em apre\u00e7o na condena\u00e7\u00e3o do Arguido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">P - Pelo que deveria ser considerado como provado que a reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da menor diminuiria o risco da produ\u00e7\u00e3o do evento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Q - Assim, e em consequ\u00eancia, se condenando o Arguido pela pr\u00e1tica do crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia, p. e p. pelos artigos 137\u00ba, n\u00ba 1 e 2, 13\u00ba e 15\u00ba, todos do C.P.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Admitidos os recursos (despacho a fls. 760) e notificado o arguido, veio este responder \u00e0 motiva\u00e7\u00e3o de ambos, rematando com o seguinte quadro conclusivo:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00ab1. Considerando o teor dos recursos interpostos, verifica-se que o \u00e2mbito do presente recurso circunscreve-se ao crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2. Entre os factos provados, saliente-se que a E\u2026 foi transferida para o Servi\u00e7o de Pediatria, estando acordada, colaborante e sem dores, sendo que, imprevisivelmente, cerca de meia hora depois iniciou convuls\u00f5es generalizadas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3. Sendo que n\u00e3o se provou que: i) \"A observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o clinica da E\u2026 pelo arguido, no per\u00edodo do p\u00f3s-operat\u00f3rio, e perante a sintomatologia que apresentou teria permitido a perce\u00e7\u00e3o e o atempado conhecimento do excesso de volume de soro profundido, teria permitido um diagn\u00f3stico e tratamento mais precoce e teria evitado o resultado morte\"; ii) \"O arguido representou como poss\u00edvel que ao agir como descrito da\u00ed poderia advir a morte da E\u2026, atuando, por\u00e9m, sem se conformar com essa realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4. Ou seja, como refere a senten\u00e7a recorrida, n\u00e3o resultou provado que a observa\u00e7\u00e3o e reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, antes da sua transfer\u00eancia para pediatria, teria permitido um diagn\u00f3stico e um tratamento mais precoce que teria evitado o resultado morte; inclusivamente, como referiu em audi\u00eancia a m\u00e9dica pediatra que assistiu a menina, Dra. F\u2026, a hiponatremia nas crian\u00e7as instala-se de forma muito r\u00e1pida e normalmente \u00e9, at\u00e9 assintom\u00e1tica, n\u00e3o se sabendo se com a realiza\u00e7\u00e3o da gasometria em momento anterior se teria diagnosticado essa patologia, por os valores poderem estar normais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5. Ali\u00e1s, conclui-se de toda a prova dos autos (testemunhas e relat\u00f3rios), sem margem para d\u00favidas, que: i) O resultado produzir-se-ia independentemente da alegada comiss\u00e3o do arguido; ii) N\u00e3o existe nexo causal entre o dever alegadamente violado pelo arguido e o resultado que se veio a verificar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6. Em face disto, n\u00e3o poderia haver outro enquadramento jur\u00eddico diferente do que consta da senten\u00e7a recorrida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7. Concretamente, porque n\u00e3o resultou provado que, ao n\u00e3o proceder \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o clinica da v\u00edtima n\u00e3o diminuiu o risco da produ\u00e7\u00e3o do evento (inexist\u00eancia do nexo de causalidade entre o comportamento omissivo e violador de um dever objetivo de cuidado do arguido e a produ\u00e7\u00e3o do dano morte), vai o arguido absolvido do crime de homic\u00eddio por negligencia, previsto e punido pelo artigo 137\u00b0, n\u00b01 e 2 do C\u00f3digo Penal por que vinha acusado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8. N\u00e3o est\u00e3o, pois, preenchidos os pressupostos necess\u00e1rios para condenar o arguido pelo crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia (muito menos grosseira) de que vem acusado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9. Pelo que a douta senten\u00e7a ao absolver o arguido cumpriu a Lei e o Direito e, assim, decidiu bem\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Subiram os autos ao tribunal de recurso e, j\u00e1 nesta inst\u00e2ncia, na interven\u00e7\u00e3o a que alude o n.\u00ba 1 do art.\u00ba 416.\u00ba do C\u00f3d. Proc. Penal, o Ex.mo Procurador-Geral Adjunto emitiu douto parecer, de que destacamos as seguintes passagens:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00abHaver\u00e1 responsabilidade penal do arguido, por neglig\u00eancia, se se provar, por um lado, que ele n\u00e3o atuou com a dilig\u00eancia que, segundo as circunst\u00e2ncias concretas, era exigida para evitar o evento, violando deveres decorrentes da lei ou do uso e experi\u00eancia comum, e, por outro, que s\u00f3 o facto de o arguido ter omitido esses deveres impediu a justa previs\u00e3o do resultado, previsibilidade e dever de previs\u00e3o, que, como refere Eduardo Correia, in Direito Criminal,\u00a0I, pg. 426, \u201c\u2026n\u00e3o s\u00e3o todavia uma previsibilidade absoluta mas uma previsibilidade determinada de acordo com as regras da experi\u00eancia dos homens, ou de certo tipo profissional de homem\u201d.<br \/>H\u00e1, portanto, possibilidade de neglig\u00eancia se se considerar que o arguido, tendo tido, pelo menos, a possibilidade de representar o perigo da sua conduta (neglig\u00eancia inconsciente), violou os deveres de previs\u00e3o do resultado t\u00edpico, atuando sem as cautelas que a lei, a experi\u00eancia comum ou a experi\u00eancia da classe profissional em que est\u00e1 inserido lhe exigem e cuja observ\u00e2ncia evitaria aquele resultado.<br \/>Atentemos na cronologia dos factos ocorridos no dia 16\/11\/2013:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Parece-nos claro, face \u00e0 descrita factualidade, que o arguido errou ao n\u00e3o observar presencialmente a E\u2026 e a evolu\u00e7\u00e3o do seu quadro cl\u00ednico, violando os deveres a que estava adstrito em fun\u00e7\u00e3o da profiss\u00e3o que exercia e das tarefas que, em concreto, lhe competiam, no que se refere \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia do estado de sa\u00fade da E\u2026 no \u201cp\u00f3s-operat\u00f3rio\u201d imediato.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Dito isto, salvo o devido respeito, n\u00e3o nos parece admiss\u00edvel afastar a responsabilidade penal do arguido \u2013 sem incorrer em manifesto erro de aprecia\u00e7\u00e3o da prova \u2013 afirmando que, tendo embora errado por n\u00e3o ter observado presencialmente a E\u2026 e a evolu\u00e7\u00e3o do seu estado cl\u00ednico, n\u00e3o se pode, no entanto, dar como assente que, caso tivesse ocorrido essa observa\u00e7\u00e3o presencial, o arguido teria determinado a realiza\u00e7\u00e3o dos exames que permitiriam um diagn\u00f3stico precoce e a realiza\u00e7\u00e3o dos tratamentos adequados a evitar o desfecho fatal.<br \/>A verdade \u00e9 que \u2013 como revela a mat\u00e9ria provada e resulta das regras da experi\u00eancia \u2013 perante a persist\u00eancia dos sintomas, a evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico e a tenra idade da E\u2026, um m\u00e9dico anestesista experiente (como era o arguido) e normalmente diligente, teria determinado a realiza\u00e7\u00e3o de exames tendentes a averiguar as causas da anormalidade da evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico apresentado pela E\u2026 e a permitir, como \u00e9 l\u00f3gico e normal, o diagn\u00f3stico e o tratamento mais precoce da hiponatremia, suscet\u00edvel de evitar a morte.<br \/>N\u00e3o tendo procedido dessa forma \u2013 e n\u00e3o se tendo sequer disposto a observar presencialmente a E\u2026, apesar da\u00a0persist\u00eancia dos sintomas para al\u00e9m do tempo considerado normal e da evolu\u00e7\u00e3o do quadro cl\u00ednico, atuando com ligeireza \u2013 o arguido, m\u00e9dico experiente, podendo e devendo representar o perigo da sua conduta, violou o dever de cuidado a que sabia estar obrigado, ao deixar de providenciar pela realiza\u00e7\u00e3o dos exames cl\u00ednicos e atos m\u00e9dicos que a situa\u00e7\u00e3o impunha e assim desprezando, necessariamente, o significativo (n\u00e3o desprez\u00edvel) e acrescido grau de probabilidade de sobreviv\u00eancia da E\u2026 que aquela interven\u00e7\u00e3o teria proporcionado.<br \/>Procedendo como procedeu, o arguido, volunt\u00e1ria, livre e conscientemente, deixou de poder controlar a situa\u00e7\u00e3o, ficando a integridade do bem jur\u00eddico em causa (a vida humana) dependente do acaso, o que, na nossa perspetiva, o torna pass\u00edvel de censura penal, a t\u00edtulo de neglig\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9, pois, patente, na nossa \u00f3tica, face ao texto da senten\u00e7a e \u00e0s regras da experi\u00eancia, que o tribunal a quo errou na aprecia\u00e7\u00e3o da prova, e incorreu no v\u00edcio previsto na al\u00ednea c) do n.\u00ba 2 do artigo 410\u00ba do C.P. Penal, impondo-se que sejam dados como provados os seguintes factos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">- A observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, no per\u00edodo do p\u00f3s-operat\u00f3rio, e perante a sintomatologia que apresentou, teria permitido a perce\u00e7\u00e3o e o atempado conhecimento do excesso de soro profundido, teria permitido um diagn\u00f3stico e tratamento mais precoce e teria evitado o resultado morte [ponto 6 dos factos n\u00e3o provados].<br \/>- O arguido podia e devia ter representado o perigo da sua conduta para a vida da E\u2026 e atuado por forma a evitar o resultado verificado, o que s\u00f3 n\u00e3o logrou por ter agido sem as cautelas que as legis artis e a experi\u00eancia da classe profissional em que estava inserido lhe exigiam e a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia profissional lhe permitia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- Sabia que a sua conduta \u00e9 proibida e punida por lei penal [ponto 8 dos factos n\u00e3o provados].<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim e uma vez que o tribunal de recurso disp\u00f5e, para tal, de todos os elementos necess\u00e1rios, entendemos que, nos termos e ao abrigo do disposto no artigo 426\u00ba, n.\u00ba 1, do C.P. Penal, deve, neste \u00e2mbito, proceder \u00e0 pertinente altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o sobre mat\u00e9ria de facto, determinando que passem a constar do elenco dos factos provados os factos que vimos de referir\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Conclui, ent\u00e3o, o Ex.mo PGA no seu parecer que o recurso deve proceder e, em consequ\u00eancia, que seja<\/p><p style=\"text-align: justify\">a) declarado verificado o v\u00edcio a que alude a al\u00ednea c) do n.\u00ba 2 do artigo 410\u00ba do C.P. Penal \u2013 erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova e, consequentemente,<\/p><p style=\"text-align: justify\">b) alterada a decis\u00e3o sobre a mat\u00e9ria de facto, como acima propugnado, e<\/p><p style=\"text-align: justify\">c) revogada a senten\u00e7a absolut\u00f3ria, seja o arguido B\u2026 condenado pela pr\u00e1tica de um crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia, p. e p. pelos artigos 137.\u00ba, n.\u00ba 1, e 15.\u00ba, al. b), do C.Penal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foi cumprido o disposto no art.\u00ba 417.\u00ba, n.\u00ba 2, do C\u00f3d. Proc. Penal, com resposta do arguido a rebater as conclus\u00f5es do parecer do Ex.mo PGA quanto \u00e0 exist\u00eancia, na senten\u00e7a recorrida, do v\u00edcio de erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova e que, por isso, se imp\u00f5e a altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o sobre mat\u00e9ria de facto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Efetuado o exame preliminar e colhidos os vistos, vieram os autos \u00e0 confer\u00eancia, cumprindo apreciar e decidir.<\/p><p style=\"text-align: justify\">II\u00a0\u2013\u00a0Fundamenta\u00e7\u00e3o<\/p><p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o as conclus\u00f5es que o recorrente extrai da motiva\u00e7\u00e3o, onde sintetiza as raz\u00f5es do pedido, que recortam o thema decidendum (cfr. artigos 412.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3d. Proc. Penal e, entre outros, o ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 27.05.2010, in www.dgsi.pt) e, portanto, delimitam o objeto do recurso, assim se fixando os limites do horizonte cognitivo do tribunal de recurso, sem preju\u00edzo das quest\u00f5es que s\u00e3o de conhecimento oficioso (como s\u00e3o as nulidades da senten\u00e7a e os v\u00edcios decis\u00f3rios em mat\u00e9ria de facto).<br \/>O Minist\u00e9rio P\u00fablico recorrente n\u00e3o impugna a decis\u00e3o sobre mat\u00e9ria de facto, pois afirma que \u201co acervo f\u00e1ctico dado como provado \u00e9 suficiente para afirmar o nexo de causalidade entre o comportamento omissivo do arguido e o resultado morte\u201d.<br \/>Parece, assim, que a sua discord\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 decis\u00e3o recorrida se cinge \u00e0 subsun\u00e7\u00e3o jur\u00eddico-penal dos factos considerados provados.<br \/>No entanto, os assistentes alegam que a senten\u00e7a recorrida est\u00e1 afetada pelos v\u00edcios da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o e pelo erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova.<br \/>Erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova \u00e9, como j\u00e1 sabemos, o v\u00edcio decis\u00f3rio que, tamb\u00e9m o Ex.mo PGA, no seu parecer, aponta \u00e0 senten\u00e7a em crise.<br \/>Podemos, pois, enunciar como quest\u00f5es a apreciar e decidir:<\/p><p style=\"text-align: justify\">- se h\u00e1 v\u00edcios decis\u00f3rios que inquinem a senten\u00e7a recorrida;<\/p><p style=\"text-align: justify\">- se, mesmo em face da factualidade provada, \u00e9 poss\u00edvel afirmar o nexo de causalidade (ou nexo de adequa\u00e7\u00e3o causal) entre uma eventual conduta omissiva do arguido e a morte da E\u2026.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Delimitado o thema decidendum, atentemos na factualidade considerada provada e n\u00e3o provada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Factos provados<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>O arguido B\u2026 \u00e9 licenciado em Medicina desde \u2026 de 1984, exerce a especialidade de Anestesista desde 1993.<p>2. \u00c0 data da ocorr\u00eancia dos factos que se descrever\u00e3o, o arguido exercia fun\u00e7\u00f5es de Assistente Graduado S\u00e9nior de Anestesiologia no Centro Hospitalar G\u2026, sita \u2026, n.\u00ba \u2026, \u2026, \u00e1rea desta comarca e era tamb\u00e9m Coordenador da Unidade de Cirurgia do Ambulat\u00f3rio daquele Centro Hospitalar.<\/p><p>3. A menor E\u2026, nascida a .. Maio de 2009, filha de D\u2026 e de C\u2026, desde 2012 era acompanhada no Centro Hospitalar G\u2026, na consulta externa de Otorrinolaringologia pela m\u00e9dica I\u2026.<\/p><p>4. Com diagn\u00f3stico de adenoides, a menor foi indicada para realiza\u00e7\u00e3o de cirurgia adicional em ambulat\u00f3rio, designadamente de adenoidectomia e miringotomia, tendo sido realizada uma consulta pr\u00e9-anest\u00e9sica em 13 de Setembro de 2013 efetuada pela m\u00e9dica J\u2026, Assistente de Anestesiologia, que constatou que a crian\u00e7a n\u00e3o tinha antecedentes patol\u00f3gicos relevantes, com exce\u00e7\u00e3o das adenoides.<\/p><p>5. No dia 16 de Novembro de 2013, cerca das 08H40M, no Centro Hospitalar G\u2026, a equipa m\u00e9dica composta por K\u2026, M\u00e9dica Assistente de Otorrinolaringologia, I\u2026, M\u00e9dica Assistente Graduada de Otorrinolaringologia, e B\u2026, Assistente Graduado s\u00e9nior de Anestesiologia aqui arguido, foi respons\u00e1vel pela interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica realizada \u00e0 menor E\u2026.<\/p><p>6. Compunham ainda a equipa tr\u00eas enfermeiros, enfermeiro instrumentista L\u2026, enfermeiro circulante M\u2026 e enfermeira de anestesia N\u2026.<\/p><p>7. A cirurgia iniciou-se \u00e0s 08H40M e terminou \u00e0s 09H05M, decorreu sem intercorr\u00eancias tendo sido da responsabilidade da m\u00e9dica, K\u2026.<\/p><p>8. Ap\u00f3s a cirurgia a E\u2026 foi levada para a sala de Recobro I, onde se queixou de dores de garganta cerca de 10 minutos ap\u00f3s a cirurgia tendo o arguido prescrito 1 mg de morfina.<\/p><p>9. A E\u2026 manteve-se no Recobro I at\u00e9 cerca das 09H45M, altura em que passou para a sala de Recobro II, por se encontrar hemodinamicamente e em termos de fun\u00e7\u00e3o respirat\u00f3ria est\u00e1vel, a\u00ed permanecendo acompanhada pela m\u00e3e, C\u2026.<\/p><p>10. De acordo com a \"Folha de Enfermagem\", entre as 9H45M e as 16H 15M, altura em que a E\u2026 foi transferida para o Servi\u00e7o de Pediatria, foram registados pelo menos 7 (sete) v\u00f3mitos por parte da E\u2026 sem que esta fosse observada por um m\u00e9dico e fosse reavaliado o seu estado cl\u00ednico.<\/p><p>11. Entre as 9H45M e as 11H50M, a E\u2026 teve tr\u00eas v\u00f3mitos com sangue semi-digerido e, contactado o arguido, este deu instru\u00e7\u00f5es para que lhe fosse administrado 1 mg de Ondasetron e 0,625 mg de Droperidol IV.<\/p><p>12. A E\u2026 adormeceu por per\u00edodo n\u00e3o determinado e cerca das 13H40M, acordou e teve mais dois v\u00f3mitos alimentares com vest\u00edgios de sangue ap\u00f3s ter ingerido uma pequena quantidade de gelatina e sumo.<br \/>13. Cerca das 14H, posto ao corrente do sucedido, o arguido determinou que lhe fosse administrado 2,5 mg de Dexametasona e que reiniciasse soroterapia.<\/p><p>14.\u00a0\u00c0s 15H20M a E\u2026 teve um outro v\u00f3mito desta feita com secre\u00e7\u00f5es e vest\u00edgios de sangue e \u00e0s 16H05M, voltou a ter outro v\u00f3mito aquoso e com vest\u00edgios de sangue, pelo que a enfermeira N\u2026 considerando que a mesma n\u00e3o poderia ter alta entrou em contacto, via telefone, com o arguido, que ap\u00f3s contacto com o Assistente Hospitalar de Otorrinolaringologia, Dr. O\u2026, determinou que a E\u2026 n\u00e3o teria alta e ficaria em vigil\u00e2ncia no servi\u00e7o de internamento de Pediatria.<\/p><p>15. A hora n\u00e3o determinada mas cerca das 16H30M, a E\u2026 foi transferida para o Servi\u00e7o de Pediatria onde se encontravam as enfermeiras P\u2026 e Q\u2026, estando acordada, colaborante e sem dores.<\/p><p>16. Cerca das 17H, a E\u2026 referiu dores e passado alguns minutos encontrava-se com olhar fixo e diminui\u00e7\u00e3o de resposta a est\u00edmulos verbais tendo iniciado convuls\u00f5es generalizadas.<\/p><p>17. Contactado o servi\u00e7o de urg\u00eancia de pediatria do G\u2026 a m\u00e9dica pediatra, D\u2026 efetuou a primeira observa\u00e7\u00e3o da E\u2026 por voltas das 18H, efetuando uma avalia\u00e7\u00e3o conjunta com o m\u00e9dico S\u2026.<\/p><p>18. Face \u00e0 aus\u00eancia de registos cl\u00ednicos que permitissem perceber se tinha existido alguma intercorr\u00eancia durante a cir\u00fargica bem como a medica\u00e7\u00e3o que a E\u2026 at\u00e9 ao momento tinha feito, os cl\u00ednicos tentaram falar com o arguido, contactando-o telefonicamente, sem sucesso, acabando tal informa\u00e7\u00e3o por lhes ser transmitida pela enfermeira N\u2026.<\/p><p>19. Face ao quadro cl\u00ednico que E\u2026 apresentava designadamente, oscila\u00e7\u00e3o do estado de consci\u00eancia e movimentos an\u00f3malos dos membros, a m\u00e9dica F\u2026, determinou a realiza\u00e7\u00e3o de TAC e Gasimetria, tendo conclu\u00eddo atrav\u00e9s da an\u00e1lise dos resultados obtidos, designadamente pelos valores de s\u00f3dio no sangue, que se tratava de uma Hiponatremia grave (caracterizada por uma baixa de s\u00f3dio no sangue).<\/p><p>20. Face ao tal diagn\u00f3stico a E\u2026 iniciou o tratamento para a Hiponatremia, foi sedada, entubada e transferida via TIP (transporte inter-hospitalar pedi\u00e1trico) para a unidade de cuidados intensivos pedi\u00e1tricos do Hospital T\u2026, onde deu entrada cerca das 23H09M, com o seguinte diagn\u00f3stico \"Coma. Edema Cerebral. Hiponatremia sintom\u00e1tica\" e suspeita de \"morte cerebral\".<\/p><p>21. O \u00f3bito da E\u2026 veio a ser declarado no dia 19 de Novembro de 2013, \u00e0s 02H13M.<\/p><p>22. Realizada aut\u00f3psia m\u00e9dico-legal ao cad\u00e1ver de E\u2026, o perito m\u00e9dico-legal concluiu que a morte foi devida a \"trombose dos seios venosos da dura mater\" sendo esta causa de morte natural.<\/p><p>23. O acompanhamento e vigil\u00e2ncia do doente no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio imediato, no Recobro\u00a0I\u00a0e Recobro\u00a0II,\u00a0est\u00e1 essencialmente sob responsabilidade do m\u00e9dico anestesista.<\/p><p>24.\u00a0E, pese embora, o surgimento de v\u00f3mitos seja um evento normal, com cerca de duas\/tr\u00eas horas de per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio (tendo em conta a cirurgia a que havia sido submetida e morfina que lhe foi prescrita), a persist\u00eancia destes sintomas impunha que o estado cl\u00ednico da E\u2026 tivesse sido reavaliado, o que cabia in casu ao arguido, anestesista respons\u00e1vel pela cirurgia, o que n\u00e3o aconteceu.<\/p><p>25. Ao inv\u00e9s, o arguido abandonou as instala\u00e7\u00f5es do Centro Hospitalar sem observar e reavaliar a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026, comunicando, via telefone, a decis\u00e3o de n\u00e3o dar alta e transferi-la para a Pediatria aos enfermeiros.<\/p><p>26. O arguido n\u00e3o cuidou de garantir que existia um m\u00e9dico respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia da E\u2026, nem cuidou de comunicar com os m\u00e9dicos que estavam de servi\u00e7o transmitindo-lhes todas as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas relevantes da crian\u00e7a.<\/p><p>27. A E\u2026 foi acometida de uma Hiponatremia grave (caracterizada por uma baixa de s\u00f3dio no sangue).<\/p><p>28. Esta foi causa do edema cerebral e dos sintomas neurol\u00f3gicos apresentados, ou seja, oscila\u00e7\u00e3o do estado de consci\u00eancia e movimentos an\u00f3malos dos membros inferiores e superiores e foi causa adequada e necess\u00e1ria da sua morte.<\/p><p>29. As manifesta\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 Hiponatremia, relacionam-se predominantemente com a disfun\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central. A desidrata\u00e7\u00e3o hiponatr\u00e9mica severa, de instala\u00e7\u00e3o em poucas horas, provoca a n\u00edvel celular, uma transfer\u00eancia de \u00e1gua do l\u00edquido extracelular para o espa\u00e7o intracelular provocando edema das c\u00e9lulas cerebrais, com aumento do volume cerebral e o aparecimento da sintomatologia manifestada pela E\u2026, sendo as crian\u00e7as particularmente vulner\u00e1veis a esta encefalopatia hiponatr\u00e9mica, apresentando sintomas com concentra\u00e7\u00f5es plasm\u00e1ticas de s\u00f3dio relativamente superiores em rela\u00e7\u00e3o aos adultos, pois a rela\u00e7\u00e3o c\u00e9rebro\/cavidade craniana \u00e9 superior, ocasionando um conflito de espa\u00e7o mais precocemente.<\/p><p>30. Esta situa\u00e7\u00e3o aliada a eventuais momentos de hipoxia cerebral (diminui\u00e7\u00e3o de concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00e9nio), certamente verificada durante as convuls\u00f5es, e nos procedimentos de entuba\u00e7\u00e3o endotraqueal, \u00e9 compat\u00edvel com os resultados verificados na aut\u00f3psia e com a causa de morte \"les\u00f5es sugestivas de trombose dos seios venosos\".<\/p><p>31. Ao agir da forma descrita o arguido agiu livre, volunt\u00e1ria e conscientemente, n\u00e3o procedendo com o cuidado devido, a que estava obrigado e era capaz, tendo em conta o estado da paciente e a sintomatologia que esta ap\u00f3s a cirurgia e no per\u00edodo que estava sob a sua responsabilidade apresentou.<\/p><p>32. O arguido n\u00e3o tem antecedentes criminais.<\/p><p>33. B\u2026 reside em habita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria dotada de boas condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade, inserida em meio sem problem\u00e1ticas sociais dignas de registo, com o seu agregado familiar, composto pelo c\u00f4njuge e dois filhos do casal, de 24 e 21 anos, num ambiente familiar securizante e gratificante.<\/p><p>34. Assegura cuidados \u00e0 sua progenitora idosa, que integra o seu agregado familiar durante per\u00edodos de tempo, responsabilidade esta alternada e partilhada com o irm\u00e3o.<\/p><p>35. Trabalha como m\u00e9dico \u2013 especialista em anestesia \u2013 em exclusivo no Centro Hospitalar G\u2026, EP., prestando ainda servi\u00e7o em hor\u00e1rio extra, na urg\u00eancia desse mesmo hospital. O c\u00f4njuge \u00e9 dom\u00e9stica, o filho mais velho encontra-se em est\u00e1gio profissional na \u00e1rea da engenharia mec\u00e2nica e o filho mais novo frequenta o terceiro ano do ensino superior.<\/p><p>36. Aufere rendimento m\u00e9dio mensal cerca de 4.000,00\u20ac.\u00a0N\u00e3o refere despesa habitacional e despende com eletricidade, \u00e1gua e g\u00e1s cerca de 250\u20ac, referindo-\u00adse \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica como acima da m\u00e9dia.<\/p><p>37. Apresenta um quotidiano preenchido em fun\u00e7\u00e3o das rotinas laborais. Nos tempos livres mant\u00e9m-se maioritariamente em casa, privilegiando o conv\u00edvio familiar nuclear e alargado. Afirma ainda, no tempo livre, investimento na sua forma\u00e7\u00e3o cl\u00ednica especializada, para evolu\u00e7\u00e3o pessoal e profissional. Frequenta on-line, atualmente, um curso na \u00e1rea de gest\u00e3o que tamb\u00e9m o ocupa.<\/p><p>38. No meio sociocomunit\u00e1rio projeta uma imagem favor\u00e1vel, sendo referenciado positivamente tamb\u00e9m no contexto profissional e associado a um estilo de vida pr\u00f3-social. No que concerne ao relacionamento interpessoal \u00e9 avaliado como respeitador, cordial e de f\u00e1cil trato.<\/p><p>39. O c\u00f4njuge do arguido e comunidade do meio social e profissional, revelam que o arguido manteve desde sempre um estilo de vida pautado pela estabilidade. Profissionalmente \u00e9 avaliado pelos seus superiores hier\u00e1rquicos como um elemento muito respons\u00e1vel e inteiramente dedicado \u00e0s fun\u00e7\u00f5es que desempenha.<\/p><p>40. \u00c0 data dos factos subjacentes aos presentes autos B\u2026 mantinha a situa\u00e7\u00e3o sociofamiliar e laboral supra descrita.<\/p><p>41. Este \u00e9 o primeiro contacto do arguido com o sistema de justi\u00e7a penal, considerando que o seu envolvimento no presente processo, decorre diretamente das suas regulares viv\u00eancias profissionais.<\/p><p>42. O arguido verbalizou constrangimento pela eventual mediatiza\u00e7\u00e3o da natureza dos factos subjacentes ao presente processo, por considerar que tal poder\u00e1 prejudicar a imagem positiva que acredita projetar social e profissionalmente.<\/p><p>43. Face ao bem jur\u00eddico em causa, subjacente ao presente processo, aceita a sua tutela jur\u00eddica, apresentando elevado racioc\u00ednio cr\u00edtico e de valoriza\u00e7\u00e3o suprema da vida humana, reportando-se neste contexto ao Juramento de Hip\u00f3crates efetuado por ocasi\u00e3o de sua formatura como m\u00e9dico.<\/p><p>44. Consequentemente, em abstrato e em rela\u00e7\u00e3o a factos de id\u00eantica natureza, reconhece a sua ilicitude, bem como a exist\u00eancia de v\u00edtimas e danos.<\/p><p>45.\u00a0Manifesta atitude tradutora de colabora\u00e7\u00e3o para com o sistema de justi\u00e7a penal numa eventual condena\u00e7\u00e3o.<\/p><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Factos n\u00e3o provados<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>As enfermeiras N\u2026 e U\u2026 eram as \u00fanicas enfermeiras respons\u00e1veis pelo acompanhamento das crian\u00e7as que naquele dia foram submetidas a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, num total de 14 (catorze).<p>2. A E\u2026 foi transferida para pediatria por ver agravado o seu estado de sa\u00fade.<\/p><p>3. No que respeita aos factos vertidos em 13 dos factos provados o arguido foi contactado via telefone uma vez que havia j\u00e1 abandonado as instala\u00e7\u00f5es do CH G\u2026.<\/p><p>4. A soroterapia mencionada em 13 dos factos provados era: 1500 ml de soro Glicose a 5% e NACL a 3%.<\/p><p>5. A Hiponatremia grave que acometeu a E\u2026 teve origem numa perfus\u00e3o inapropriada de soro tendo em conta a sua idade e o seu peso (cerca de 1000 ml de soro em poucas horas).<\/p><p>6. A observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, no per\u00edodo do p\u00f3s-operat\u00f3rio, e perante a sintomatologia que apresentou teria permitido a perce\u00e7\u00e3o e o atempado conhecimento do excesso de volume de soro profundido, teria permitido um diagn\u00f3stico e tratamento mais precoce e teria evitado o resultado morte.<\/p><p>7. O arguido representou como poss\u00edvel que ao agir como descrito da\u00ed poderia advir a morte da E\u2026, atuando, por\u00e9m, sem se conformar com essa realiza\u00e7\u00e3o.<\/p><p>8. Sabia que a sua conduta \u00e9 proibida e punida por lei penal.<\/p><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Os v\u00edcios do n.\u00ba 2 do art. 410.\u00ba do C\u00f3digo de Processo Penal s\u00e3o de l\u00f3gica jur\u00eddica ao n\u00edvel da mat\u00e9ria de facto, que tornam imposs\u00edvel uma decis\u00e3o logicamente correta e conforme \u00e0 lei, ou, como \u00e9 afirma\u00e7\u00e3o recorrente, s\u00e3o \u201canomalias decis\u00f3rias\u201d ao n\u00edvel da elabora\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a, circunscritas \u00e0 mat\u00e9ria de facto, apreens\u00edveis pela simples leitura do respetivo texto, sem recurso a quaisquer elementos externos a ela, impeditivos de bem se decidir, tanto ao n\u00edvel da mat\u00e9ria de facto, como de direito.<br \/>Tais v\u00edcios n\u00e3o se confundem com errada aprecia\u00e7\u00e3o e valora\u00e7\u00e3o das provas. Embora em ambas as situa\u00e7\u00f5es se esteja no dom\u00ednio da sindic\u00e2ncia da mat\u00e9ria de facto, s\u00e3o muito diferentes na sua estrutura, alcance e consequ\u00eancias.<br \/>Aqueles (v\u00edcios decis\u00f3rios) examinam-se, indagam-se, atrav\u00e9s da an\u00e1lise do texto da senten\u00e7a; esta (a errada aprecia\u00e7\u00e3o e valora\u00e7\u00e3o das provas), porque se reconduz a erro de julgamento da mat\u00e9ria de facto, verifica-se em momento anterior \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o do texto, na pondera\u00e7\u00e3o conjugada e exame cr\u00edtico das provas produzidas, do que resulta a formula\u00e7\u00e3o de um ju\u00edzo que conduz \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de uma determinada verdade hist\u00f3rica que \u00e9 vertida no texto; da\u00ed que a exig\u00eancia de notoriedade do v\u00edcio n\u00e3o se estenda ao processo cognoscitivo\/valorativo, cujo resultado vem a ser inscrito no texto (cfr. ac\u00f3rd\u00e3o do STJ, de 15.09.2010,\u00a0www.dgsi.pt\/jstj; Cons. Fernando Fr\u00f3is).<br \/>A insufici\u00eancia para a decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto provada, a contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel da fundamenta\u00e7\u00e3o ou entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o e o erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova s\u00e3o v\u00edcios da senten\u00e7a cuja verifica\u00e7\u00e3o d\u00e1 lugar ao reenvio do processo para novo julgamento nos termos do art.\u00ba 426.\u00ba, n.\u00ba 1, podendo, no entanto, ser supridos no tribunal de recurso nas seguintes situa\u00e7\u00f5es:<br \/>- se requerida a renova\u00e7\u00e3o da prova e havendo raz\u00f5es para crer que ela permitir\u00e1 evitar o reenvio (artigos 430.\u00ba, n.\u00ba 1, e 431.\u00ba, do C\u00f3d. Proc. Penal);<br \/>- se o processo fornecer os elementos de prova que possibilitem\/imponham a modifica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto (artigo 431.\u00ba, al. a), do CPP).<br \/>\u00c9 a segunda hip\u00f3tese desta alternativa que teremos de considerar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Verifica-se o v\u00edcio da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel da fundamenta\u00e7\u00e3o quando, atrav\u00e9s de um racioc\u00ednio l\u00f3gico, se conclua pela exist\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre os factos provados, entre estes e os n\u00e3o provados, ou na pr\u00f3pria motiva\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria da decis\u00e3o sobre mat\u00e9ria de facto.<br \/>Como se esclarece no ac\u00f3rd\u00e3o do STJ, de 19.11.2008 (Proc. n.\u00ba 3453\/08-3.\u00aa), \u201ca contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel da fundamenta\u00e7\u00e3o, ou entre esta e a decis\u00e3o, sup\u00f5e que no texto da decis\u00e3o, e sobre a mesma quest\u00e3o, constem posi\u00e7\u00f5es antag\u00f3nicas ou inconcili\u00e1veis, que se excluem mutuamente ou n\u00e3o possam ser compreendidas simultaneamente dentro da perspetiva de l\u00f3gica interna da decis\u00e3o\u2026\u201d.<br \/>A contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel\u00a0entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o\u00a0ocorrer\u00e1 quando, tamb\u00e9m atrav\u00e9s de um racioc\u00ednio l\u00f3gico, se conclua pela exist\u00eancia de oposi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel i) entre os meios de prova invocados na fundamenta\u00e7\u00e3o como base dos factos provados ou ii) entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e o dispositivo da decis\u00e3o.<br \/>Dizendo de outro modo, haver\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o quando, de acordo com um racioc\u00ednio l\u00f3gico na base do texto da decis\u00e3o, por si ou conjugado com as regras da experi\u00eancia comum, seja de concluir que a fundamenta\u00e7\u00e3o justifica(va) decis\u00e3o oposta, ou n\u00e3o justificava a decis\u00e3o. Ou seja, \u201ca fundamenta\u00e7\u00e3o pode apontar para uma dada decis\u00e3o e a decis\u00e3o recorrida nada ter a ver com a fundamenta\u00e7\u00e3o apresentada\u201d (Germano Marques da Silva, \u201cCurso de Processo Penal\u201d, III, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o, 2000, p\u00e1g. 339).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Estaremos perante um erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova quando um \u201cjuiz normal\u201d (nas palavras de Castanheira Neves[1], um juiz com a cultura e experi\u00eancia de vida e dos homens, que deve pressupor-se num juiz chamado a apreciar a actividade e os resultados de um processo probat\u00f3rio), perante o texto da decis\u00e3o, por si s\u00f3 ou conjugado com as regras da experi\u00eancia, facilmente se d\u00e1 conta que ela (decis\u00e3o) se baseia em ju\u00edzos il\u00f3gicos, arbitr\u00e1rios ou at\u00e9 contradit\u00f3rios, ou foram desrespeitadas as regras de valora\u00e7\u00e3o da prova ou da leges artis de julgar.<br \/>H\u00e1 erro not\u00f3rio \u201c...\u00a0quando se retira de um facto dado como provado uma conclus\u00e3o logicamente inaceit\u00e1vel, quando se d\u00e1 como provado algo que notoriamente est\u00e1 errado, que n\u00e3o podia ter acontecido, ou quando, usando um processo racional e l\u00f3gico, se retira de um facto dado como provado uma conclus\u00e3o il\u00f3gica, arbitr\u00e1ria e contradit\u00f3ria, ou notoriamente violadora das regras da experi\u00eancia comum, ou ainda quando determinado facto provado \u00e9 incompat\u00edvel ou irremediavelmente contradit\u00f3rio com outro dado facto (positivo ou negativo) contido no texto da decis\u00e3o recorrida\u201d (ac\u00f3rd\u00e3o do STJ, de 04.10.2001, CJ\/Ac STJ, IX, T. III, 182)[2].<br \/>Numa formula\u00e7\u00e3o de s\u00edntese, pode dizer-se que o \u201cerro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova\u201d \u00e9 uma defici\u00eancia que s\u00f3 pode ser verificada no texto e no contexto da decis\u00e3o recorrida, quando existam e se revelem distor\u00e7\u00f5es de ordem l\u00f3gica entre os factos provados e n\u00e3o provados, ou traduza uma aprecia\u00e7\u00e3o manifestamente il\u00f3gica, arbitr\u00e1ria, de todo insustent\u00e1vel, e por isso incorreta, e que, em si mesma, n\u00e3o passe despercebida imediatamente \u00e0 observa\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o do homem m\u00e9dio.<br \/>Quando se apela ao homem m\u00e9dio, pretende-se aludir ao cidad\u00e3o medianamente informado, com capacidade de discernimento e dotado de bom senso e n\u00e3o a algu\u00e9m com conhecimentos jur\u00eddicos.<br \/>Como se afirmou no ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 02.02.2011, \u201co erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova\u00a0(\u2026)\u00a0verifica-se quando no texto da decis\u00e3o recorrida se d\u00e1 por provado, ou n\u00e3o provado, um facto que contraria com toda a evid\u00eancia, segundo o ponto de vista de um homem de forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dia, a l\u00f3gica mais elementar e as regras da experi\u00eancia comum\u201d.<br \/>A observa\u00e7\u00e3o e verifica\u00e7\u00e3o do homem m\u00e9dio constituem o modelo referencial tribunal (ac\u00f3rd\u00e3o do STJ, de 06.10.2010; Cons. Henriques Gaspar).<br \/>Mas, como faz notar o Ex.mo PGA no seu parecer, h\u00e1 que entender esta refer\u00eancia ao homem medianamente informado e sensato em termos h\u00e1beis, ou melhor, n\u00e3o se deve ser exigente ao ponto de deixar que \u201csitua\u00e7\u00f5es de julgamento err\u00f3neo n\u00e3o inteiramente escancaradas \u00e0 observa\u00e7\u00e3o do homem comum\u201d fiquem sem corre\u00e7\u00e3o. Erro not\u00f3rio, sim, mas \u201cbasta para assegurar essa notoriedade que ela ressalte do texto da decis\u00e3o recorrida, ainda que, para tanto tenha que ser devidamente escrutinada \u2013 ainda que para al\u00e9m das perce\u00e7\u00f5es do homem comum \u2013 e sopesado \u00e0 luz de regras da experi\u00eancia. Ponto \u00e9 que, no fim, n\u00e3o reste qualquer d\u00favida sobre a exist\u00eancia do v\u00edcio e que a sua exist\u00eancia fique devidamente demonstrada pelo tribunal ad quem\u201d[3].<br \/>Na perspetiva dos assistentes, a contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o (absolut\u00f3ria) proferida revelar-se-ia no facto de se ter considerado que \u201ca realiza\u00e7\u00e3o de uma gasometria mais cedo podia diminuir o risco da produ\u00e7\u00e3o do resultado morte\u201d.<br \/>Se bem entendemos o racioc\u00ednio dos assistentes\/recorrentes, face a essa circunst\u00e2ncia, l\u00f3gico e normal seria que se imputasse o resultado (morte da crian\u00e7a) \u00e0 conduta omissiva do arguido, ao contr\u00e1rio do que foi a decis\u00e3o do tribunal.<br \/>Quanto ao erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova, n\u00e3o se lobriga na motiva\u00e7\u00e3o do recurso dos assistentes a concretiza\u00e7\u00e3o desse v\u00edcio, onde \u00e9 que, no texto da decis\u00e3o, se revelam, na perspetiva dos recorrentes, distor\u00e7\u00f5es de ordem l\u00f3gica ou aprecia\u00e7\u00f5es manifestamente il\u00f3gicas ou arbitr\u00e1rias.<br \/>J\u00e1 o Exmo. PGA \u00e9, a este prop\u00f3sito, bem claro no seu parecer: a notoriedade do erro de aprecia\u00e7\u00e3o est\u00e1 em que, tendo-se conclu\u00eddo que o arguido errou ao n\u00e3o ter observado presencialmente a E\u2026 e reavaliado o seu estado cl\u00ednico, ainda assim, n\u00e3o se deu como assente que, caso tivesse ocorrido essa observa\u00e7\u00e3o presencial, o arguido teria determinado a realiza\u00e7\u00e3o dos exames que permitiriam um diagn\u00f3stico precoce e a realiza\u00e7\u00e3o dos tratamentos adequados a evitar o desfecho fatal para a crian\u00e7a.<br \/>Bem vistas as coisas, aquilo que os assistentes classificam como contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre a fundamenta\u00e7\u00e3o e a decis\u00e3o \u00e9 visto pelo Exmo. PGA como erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova.<br \/>Vejamos.<br \/>\u00c9 mat\u00e9ria de facto considerada assente e n\u00e3o suscita controv\u00e9rsia que:<br \/>- a morte da E\u2026 foi devida a \"trombose dos seios venosos da dura mater\";<br \/>- a E\u2026 foi acometida de uma hiponatremia grave (caracterizada por uma baixa de s\u00f3dio no sangue), que originou edema cerebral, causa adequada e necess\u00e1ria da sua morte;<br \/>- as manifesta\u00e7\u00f5es associadas \u00e0 hiponatremia relacionam-se predominantemente com a disfun\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central. A desidrata\u00e7\u00e3o hiponatremia severa, de instala\u00e7\u00e3o em poucas horas, provoca, a n\u00edvel celular, uma transfer\u00eancia de \u00e1gua do l\u00edquido extracelular para o espa\u00e7o intracelular provocando edema das c\u00e9lulas cerebrais, com aumento do volume cerebral e o aparecimento da sintomatologia manifestada pela E\u2026, sendo as crian\u00e7as particularmente vulner\u00e1veis a esta encefalopatia hiponatr\u00e9mica;<br \/>- o acompanhamento e vigil\u00e2ncia do doente no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio imediato, no Recobro\u00a0I\u00a0e Recobro\u00a0II,\u00a0\u00e9 da responsabilidade do m\u00e9dico anestesista, no caso, o arguido;<br \/>- entre as 09:45 (hora a que a E\u2026 passou do Recobro I para o Recobro II) e as 16:15, foram registados, pelo menos, 7 (sete) v\u00f3mitos por parte da E\u2026, sem que esta fosse observada por um m\u00e9dico e reavaliado o seu estado cl\u00ednico;<br \/>- entre as 09:45 e as 11:50, a E\u2026 teve tr\u00eas v\u00f3mitos com sangue semi-digerido e, contactado o arguido, este deu instru\u00e7\u00f5es para que lhe fosse administrado 1 mg de ondasetron e 0,625 mg de Droperidol IV;<br \/>- cerca das 13:40, a E\u2026 teve mais dois v\u00f3mitos alimentares com vest\u00edgios de sangue;<br \/>- cerca das 14:00 horas, posto ao corrente, via telefone, do sucedido, o arguido determinou que fosse administrado \u00e0 E\u2026 2,5 mg de dexametasona e que reiniciasse soroterapia;<br \/>- \u00e0s 15:20, a E\u2026 teve um outro v\u00f3mito, desta feita, com secre\u00e7\u00f5es e vest\u00edgios de sangue e, pelas 16H05M, novo v\u00f3mito aquoso e com vest\u00edgios de sangue, pelo que a enfermeira N\u2026, considerando que ela n\u00e3o poderia ter alta, entrou em contacto, via telefone, com o arguido, que ap\u00f3s contacto com o assistente hospitalar de Otorrinolaringologia, Dr. O\u2026, determinou que a E\u2026 n\u00e3o teria alta e ficaria em vigil\u00e2ncia no servi\u00e7o de internamento de Pediatria;<br \/>- cerca das 16:30, a E\u2026 foi transferida para o Servi\u00e7o de Pediatria;<br \/>- cerca das 17:00, a E\u2026 estava com olhar fixo, revelava diminui\u00e7\u00e3o de resposta a est\u00edmulos verbais e iniciou convuls\u00f5es generalizadas;<br \/>- contactado o servi\u00e7o de urg\u00eancia de pediatria do G\u2026, a m\u00e9dica pediatra, Dra. F\u2026, efetuou a primeira observa\u00e7\u00e3o da E\u2026 por voltas das 18H, fazendo uma avalia\u00e7\u00e3o conjunta com o m\u00e9dico Dr. S\u2026;<br \/>- face \u00e0 aus\u00eancia de registos cl\u00ednicos que permitissem perceber se tinha existido alguma intercorr\u00eancia durante a cirurgia, bem como da medica\u00e7\u00e3o que a E\u2026 at\u00e9 ao momento tinha feito, aqueles cl\u00ednicos tentaram falar, por contacto telef\u00f3nico, com o arguido, mas sem sucesso, acabando por obter essa informa\u00e7\u00e3o da enfermeira N\u2026;<br \/>- face ao quadro cl\u00ednico que a E\u2026 apresentava, designadamente oscila\u00e7\u00e3o do estado de consci\u00eancia e movimentos an\u00f3malos dos membros, a m\u00e9dica F\u2026, determinou a realiza\u00e7\u00e3o de TAC e gasometria, tendo conclu\u00eddo, atrav\u00e9s da an\u00e1lise dos resultados obtidos, designadamente pelos valores de s\u00f3dio no sangue, que se tratava de uma hiponatremia grave;<br \/>- face a tal diagn\u00f3stico, iniciou-se o tratamento para a hiponatremia, a E\u2026 foi sedada, entubada e transferida para a unidade de cuidados intensivos pedi\u00e1tricos do Hospital T\u2026, onde deu entrada cerca das 23:09 do dia 18.11.2013, com o seguinte diagn\u00f3stico: \"Coma. Edema Cerebral. Hiponatremia sintom\u00e1tica\" e suspeita de \"morte cerebral\";<br \/>- o \u00f3bito da E\u2026 veio a ser declarado no dia 19 de Novembro de 2013, \u00e0s 02:13.<br \/>Como julgamos ser de primeira evid\u00eancia, eram duas as quest\u00f5es de facto fundamentais a que tribunal de primeira inst\u00e2ncia tinha que responder:<br \/>- se, em face dos sintomas revelados pela E\u2026 no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio (persist\u00eancia dos v\u00f3mitos com vest\u00edgios de sangue, apesar da medica\u00e7\u00e3o prescrita), que eram do conhecimento do arguido, se impunha a observa\u00e7\u00e3o presencial da paciente pelo m\u00e9dico respons\u00e1vel (o arguido) e a reavalia\u00e7\u00e3o do seu estado cl\u00ednico;<br \/>- se essa vigil\u00e2ncia e controlo por m\u00e9dico especialista da equipa que levou a cabo a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, designadamente pelo anestesista, teria permitido diagnosticar e iniciar o tratamento precoce da hiponatremia e, com razo\u00e1vel probabilidade, evitar o resultado (morte da E\u2026), ou seja, se \u00e9 poss\u00edvel estabelecer um la\u00e7o causal entre a conduta omissiva do arguido e o resultado morte.<br \/>\u00c0 primeira quest\u00e3o, respondeu o tribunal de primeira inst\u00e2ncia afirmativamente.<br \/>Com efeito, o tribunal apurou, ainda, que:<br \/>- \u00e9 normal que, nas primeiras duas\/tr\u00eas horas do per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio, tendo em conta a natureza da cirurgia e o facto de ter sido administrada morfina \u00e0 paciente, ocorram v\u00f3mitos;<br \/>- no entanto, a persist\u00eancia desses sintomas impunha que o estado cl\u00ednico da E\u2026 tivesse sido reavaliado, tarefa que era da responsabilidade do arguido, anestesista respons\u00e1vel pela cirurgia, o que n\u00e3o aconteceu;<br \/>- o arguido abandonou as instala\u00e7\u00f5es do Centro Hospitalar sem observar e reavaliar a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026, limitando-se a comunicar aos enfermeiros, por telefone, a decis\u00e3o de n\u00e3o dar alta e de transferi-la para o Servi\u00e7o de Pediatria;<br \/>- al\u00e9m disso, o arguido n\u00e3o cuidou de garantir que existia um m\u00e9dico respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia da E\u2026, nem cuidou de comunicar com os m\u00e9dicos que estavam de servi\u00e7o transmitindo-lhes todas as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas relevantes da crian\u00e7a;<br \/>\u00c0 segunda quest\u00e3o, o tribunal respondeu negativamente, pois considerou\u00a0n\u00e3o provado que:<br \/>- a observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, no per\u00edodo do p\u00f3s-operat\u00f3rio, e perante a sintomatologia que apresentou teria permitido a perce\u00e7\u00e3o e o atempado conhecimento do excesso de volume de soro perfundido, teria permitido um diagn\u00f3stico e tratamento mais precoce e teria evitado o resultado morte.<br \/>Esta resposta foi assim justificada pelo tribunal a quo:<br \/>\u00abCumpre, ent\u00e3o, verificar se resultou provado que a observa\u00e7\u00e3o e reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, antes da sua transfer\u00eancia para pediatria, teria permitido um diagn\u00f3stico e um tratamento mais precoce que teria evitado o resultado morte. E a resposta \u00e9 que estes factos n\u00e3o resultaram provados.<br \/>Desde logo, dos\u00a0relat\u00f3rios periciais juntos aos autos, dos esclarecimentos prestados pelos peritos em audi\u00eancia,\u00a0e dos depoimentos dos v\u00e1rios m\u00e9dicos anestesistas ouvidos em toda a audi\u00eancia de julgamento, resulta que a hiponetremia tem v\u00e1rias causas e diferentes sintomas. Sendo verdade que as\u00a0n\u00e1useas e v\u00f3mitos s\u00e3o um dos sintomas dessa patologia\u00a0(como o s\u00e3o de muitas outras), a verdade \u00e9 que\u00a0sem estarem associados a outros sintomas de disfun\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central (como sonol\u00eancia, irrita\u00e7\u00e3o, prostra\u00e7\u00e3o, apatia) n\u00e3o estamos perante um quadro que fa\u00e7a suspeitar de uma hiponatremia.\u00a0Isto foi referido pelos m\u00e9dicos anestesistas V\u2026, W\u2026 (que elaborou o parecer junto ao processo no apenso da inspe\u00e7\u00e3o elaborada pelo IGS e que referiu que at\u00e9 a menina ter convuls\u00f5es nada fazia suspeitar de algo mais grave) e X\u2026 (relator do parecer da especialidade junta aos autos que claramente mencionou que se o \u00fanico sintoma for n\u00e1useas e v\u00f3mitos n\u00e3o se suspeita de hiponatremia).<br \/>Ora, n\u00e3o resultou provado que a E\u2026 tivesse tido algum sintoma al\u00e9m de n\u00e1useas e v\u00f3mitos antes do momento em que estava em pediatria e ficou com o olhar parado (sintoma este neurol\u00f3gico) e pouco depois entrou em convuls\u00f5es (tamb\u00e9m sintoma neurol\u00f3gico). De facto, nem a m\u00e3e da E\u2026 mencionou qualquer outro sintoma al\u00e9m de n\u00e1useas e v\u00f3mitos, nem a enfermeira N\u2026 os mencionou na ficha de enfermagem ou em audi\u00eancia, constando dos registos, pelo contr\u00e1rio, que a menina, na altura que foi para a pediatria, estava acordada e colaborante o que foi confirmado pela enfermeira N\u2026 que disse que, com exce\u00e7\u00e3o dos v\u00f3mitos, a menina estava normal.<br \/>Face a este quadro, conclu\u00edmos que n\u00e3o resulta provado que se o arguido tivesse procedido como devia e estava obrigado, fazendo uma avalia\u00e7\u00e3o clinica da E\u2026 antes da sua transfer\u00eancia e enquanto esteve no recobro\u00a0II,\u00a0teria prescrito outra medica\u00e7\u00e3o (que todos os m\u00e9dicos anestesistas e peritos referiram ser a correta para os sintomas apresentados)\u00a0e\/ou teria pedido uma gaseometria.<br \/>Face aos sintomas apresentados pela E\u2026 n\u00e3o podemos considerar estes factos provados.<br \/>Do parecer do\u00a0col\u00e9gio de anestesiologia\u00a0e respetivo aditamento (fls. 273 e seguintes e 360 e seguintes) consta que\u00a0a exist\u00eancia de v\u00f3mitos (mesmo com vest\u00edgios de sangue) no per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio \u00e9 normal e que os f\u00e1rmacos prescritos foram os adequados.\u00a0A decis\u00e3o de protelar a alta foi adequada e a decis\u00e3o de transfer\u00eancia para pediatria foi tomada em fun\u00e7\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o interna do Hospital e dos recursos humanos dispon\u00edveis, mas que n\u00e3o era suficiente face \u00e0 adinamia e prostra\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, estes sintomas n\u00e3o se verificavam na E\u2026, apenas os v\u00f3mitos. Conclui referindo que a perce\u00e7\u00e3o ou atempado conhecimento de um eventual excesso do soro profundido, em conjunto com sinais cl\u00ednicos, podia ter permitido\u00a0um diagn\u00f3stico e tratamento mais precoce, que poderia evitar o resultado morte. Sucede, por\u00e9m, que n\u00e3o resultou provado que houve excesso de soro profundido, pelo que, tal n\u00e3o poderia ser detetado.<br \/>A m\u00e9dica pediatra que assistiu a menina, D\u2026, chegou a referir em audi\u00eancia que\u00a0a hiponatremia nas crian\u00e7as instala-se de forma muito r\u00e1pida e normalmente \u00e9, at\u00e9 assintom\u00e1tica,\u00a0n\u00e3o se sabendo se com a realiza\u00e7\u00e3o da gaseometria em momento anterior se teria diagnosticado essa patologia, por os valores poderem estar normais.<br \/>O tribunal ao considerar estes factos n\u00e3o provados n\u00e3o ignorou o que nos diz a teoria da conex\u00e3o do risco nos crimes praticados por omiss\u00e3o (que mais \u00e0 frente se explanar\u00e1).\u00a0Por\u00e9m, se podemos afirmar que a realiza\u00e7\u00e3o de uma gaseometria mais cedo podia diminuir o risco da produ\u00e7\u00e3o do resultado morte (sem certezas), a verdade \u00e9 que resultou que, face aos sintomas da E\u2026, a observa\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o clinica da mesma pelo arguido n\u00e3o faria com que aquela an\u00e1lise fosse requisitada\u00a0(conforme supra se referiu)\u00bb.<br \/>E, mais adiante, em sede de fundamenta\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, discorreu-se assim:<br \/>\u00ab\u2026no que ao\u00a0comportamento omissivo do arguido diz respeito, importa deixar claro que o mesmo foi violador das legis artis, sendo claro que deveria ter procedido a uma reavalia\u00e7\u00e3o clinica da E\u2026 antes de determinar o seu internamento\/transfer\u00eancia para pediatria. O facto de n\u00e3o ter ido ver a menina ou explicado presencialmente aos pais o que se estava a passar, tendo abandonado as instala\u00e7\u00f5es do hospital, al\u00e9m de violar as legis artis, \u00e9 um comportamento \u00e9tica e socialmente reprov\u00e1vel. Por\u00e9m,\u00a0n\u00e3o resultou provado o nexo de causalidade entre este comportamento omissivo e o resultado morte, uma vez que, face \u00e0 sintomatologia apresentada pela E\u2026,\u00a0a avalia\u00e7\u00e3o pelo m\u00e9dico n\u00e3o o iria determinar a realiza\u00e7\u00e3o do exame que poderia (sem certezas) permitir um diagn\u00f3stico\u00a0mais precoce e um tratamento mais cedo que poderia (sem certezas) evitar o resultado morte.<br \/>Assim sendo, porque\u00a0n\u00e3o resultou provado\u00a0que o arguido tivesse violado um dever objetivo de cuidado quando prescreveu soro nas quantidades que o fez \u00e0 v\u00edtima e porque n\u00e3o resultou provado que,\u00a0ao n\u00e3o proceder \u00e0 reavalia\u00e7\u00e3o clinica da v\u00edtima n\u00e3o diminuiu o risco da produ\u00e7\u00e3o do evento (inexist\u00eancia do nexo de causalidade entre o comportamento omissivo e violador de um dever objetivo de cuidado do arguido e a produ\u00e7\u00e3o do dano morte), vai o arguido absolvido do crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia, previsto e punido pelo artigo 137\u00b0, n01 e 2 do C\u00f3digo Penal por que vinha acusado\u00bb.<br \/>Justifica-se aqui uma incurs\u00e3o em mat\u00e9ria de direito, mas antes imp\u00f5e-se um apontamento sobre a prova pericial.<br \/>Como decorre do trecho da fundamenta\u00e7\u00e3o transcrito, o tribunal alicer\u00e7ou a sua decis\u00e3o de dar como n\u00e3o provada a exist\u00eancia de nexo de adequa\u00e7\u00e3o causal entre a conduta omissiva do arguido (reconhecidamente violadora de um dever objectivo de cuidado) e o resultado verificado (morte da crian\u00e7a), nas conclus\u00f5es da prova pericial e no parecer do \u201cCol\u00e9gio de Anastesiologia\u201d[4].<br \/>Importa frisar e deixar bem claro que a decis\u00e3o sobre a exist\u00eancia, ou n\u00e3o, desse nexo causal compete ao tribunal e n\u00e3o aos peritos.<br \/>N\u00e3o tendo o juiz conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos de medicina, nem experi\u00eancia sobre o funcionamento de uma estrutura complexa como \u00e9 um hospital, as conclus\u00f5es dos peritos m\u00e9dicos e os pareceres dos Col\u00e9gios da Especialidade da Ordem dos M\u00e9dicos s\u00e3o fundamentais para o ju\u00edzo sobre a viola\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, das leges artis pelo m\u00e9dico e na avalia\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, ou n\u00e3o, dessa rela\u00e7\u00e3o de causalidade, mas, na reconstitui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos factos, o tribunal n\u00e3o pode ater-se, exclusivamente, a esses meios, antes se lhe imp\u00f5e que proceda a uma avalia\u00e7\u00e3o complexiva e contextualizada da actua\u00e7\u00e3o do agente, levando em considera\u00e7\u00e3o a globalidade das circunst\u00e2ncias e factores (end\u00f3genos e ex\u00f3genos) e meios disponibilizados para o ju\u00edzo de prognose p\u00f3stuma que tem de formular.<br \/>Como, a este prop\u00f3sito, alerta o Prof. Germano Marques da Silva (\u201cCurso de Processo Penal\u201d, Vol. II, Verbo, 5.\u00aa edi\u00e7\u00e3o revista e actualizada, p\u00e1g. 264), \u00abn\u00e3o obstante o recurso \u00e0 per\u00edcia resultar precisamente da exig\u00eancia de conhecimentos especializados que, como regra, o tribunal n\u00e3o possui, o tribunal n\u00e3o pode simplesmente descansar na per\u00edcia, pois a decis\u00e3o final sobre a culpabilidade \u00e9 da sua responsabilidade. O valor probat\u00f3rio especial da per\u00edcia n\u00e3o significa que estejamos perante um novo regime de prova legal, obrigando o juiz a submeter-se ao ipse dixit dos peritos; individualiza a regra do exerc\u00edcio racional da sua aprecia\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9, importa distinguir a vincula\u00e7\u00e3o do juiz ao resultado da per\u00edcia e ao princ\u00edpio da livre convic\u00e7\u00e3o. O princ\u00edpio da livre convic\u00e7\u00e3o imp\u00f5e-se como dever de exercitar a fun\u00e7\u00e3o de valora\u00e7\u00e3o probat\u00f3ria segundo os c\u00e2nones da racionalidade e por isso que quando esteja em causa uma prova pericial fundada sobre regras cient\u00edficas, art\u00edsticas ou t\u00e9cnicas, a ades\u00e3o ou discord\u00e2ncia relativamente ao resultado da per\u00edcia n\u00e3o pode sen\u00e3o assentar no mesmo m\u00e9todo\u201d\u00bb.<br \/>Ainda pertinente para o caso \u00e9 a chamada de aten\u00e7\u00e3o da Prof.\u00aa Paula Ribeiro Faria (\u201cFormas Especiais do Crime\u201d, UCE, 2017, p\u00e1g. 81) para a necessidade de ter presente \u00abalguma diverg\u00eancia entre os grupos profissionais e os juristas acerca do que constitui objecto da defini\u00e7\u00e3o da viola\u00e7\u00e3o das leges artis\u00bb[5] e, por outro lado, a \u00abdiscrep\u00e2ncia entre o momento da elabora\u00e7\u00e3o do relat\u00f3rio pericial (\u2026) e o momento em que teve lugar a conduta do agente que n\u00e3o ocorreu sempre em circunst\u00e2ncias ideais de espa\u00e7o e de tempo, ou pelo menos, em circunst\u00e2ncias que permitissem grande pondera\u00e7\u00e3o ou reflex\u00e3o\u00bb.<br \/>Clarificado este ponto, foquemo-nos nos elementos fundamentais da responsabilidade penal por neglig\u00eancia.<br \/>Como \u00e9 sabido, a responsabilidade penal por neglig\u00eancia tem car\u00e1cter excepcional, o que \u00e9 dizer que o agente s\u00f3 responde a esse t\u00edtulo quando a lei penal, expressamente, prev\u00ea um tipo negligente.<br \/>\u00c9 o caso do artigo 137.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo Penal em que se comina a pena de pris\u00e3o at\u00e9 tr\u00eas anos ou pena de multa para \u00abquem matar outra pessoa por neglig\u00eancia\u00bb.<br \/>Do conceito legal de neglig\u00eancia fala-nos o art.\u00ba 15.\u00ba do C\u00f3digo Penal, nos termos do qual age com neglig\u00eancia quem, por n\u00e3o proceder com o cuidado a que, segundo as circunst\u00e2ncias, est\u00e1 obrigado e de que \u00e9 capaz, representa como poss\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o de um facto correspondente a um tipo de crime, mas actua sem se conformar com essa realiza\u00e7\u00e3o (neglig\u00eancia consciente) ou n\u00e3o chega, sequer, a representar a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o do facto (neglig\u00eancia inconsciente).<br \/>A viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado objectivamente devido \u00e9 elemento essencial e caracter\u00edstico dos crimes negligentes, mais precisamente, do tipo de il\u00edcito negligente, com o que se pretende designar a \u00abviola\u00e7\u00e3o de exig\u00eancias de comportamento tipicamente espec\u00edficas, cujo cumprimento o direito requer, na situa\u00e7\u00e3o concreta respectiva, para evitar o preenchimento de um certo tipo objectivo de il\u00edcito\u00bb[6].<br \/>Apesar de se reconhecer uma certa indefini\u00e7\u00e3o da estrutura dogm\u00e1tica do tipo legal que corresponde ao facto negligente, \u00e9 a viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado[7] que caracteriza a neglig\u00eancia. \u00c9 essa viola\u00e7\u00e3o que define o tipo de il\u00edcito negligente e lhe confere especificidade.<br \/>O tipo de il\u00edcito n\u00e3o se basta com a causa\u00e7\u00e3o de um resultado por determinada conduta do agente, \u00e9 imprescind\u00edvel que tenha ocorrido a viola\u00e7\u00e3o, pelo mesmo agente, do dever objectivo de cuidado que sobre ele impendia e que conduziu \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do resultado t\u00edpico[8] [9].<br \/>Sabido \u00e9 que, em regra, as normas que prev\u00eaem um crime negligente n\u00e3o delimitam precisamente o facto il\u00edcito, n\u00e3o fornecem qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre a natureza e a medida do cuidado que se requer aos seus destinat\u00e1rios[10].<br \/>Entre os crit\u00e9rios concretizadores do cuidado objectivamente devido, para o caso, importa destacar os seguintes[11]:<br \/>- as normas corporativas, que s\u00e3o normas (n\u00e3o jur\u00eddicas) fixadas ou aceites por certos c\u00edrculos profissionais e an\u00e1logos destinadas a conformar as actividades respectivas dentro de padr\u00f5es de qualidade e, nomeadamente, a evitar a concretiza\u00e7\u00e3o de perigos para bens jur\u00eddicos que de tais actividade pode resultar, como \u00e9 o caso das leges artis da actividade m\u00e9dica;<br \/>- os costumes profissionais comuns ao profissional prudente, ao profissional-padr\u00e3o. Aqui, o que serve de crit\u00e9rio \u00e9 a n\u00e3o correspond\u00eancia d0 comportamento \u00e0quele que, em id\u00eantica situa\u00e7\u00e3o, teria um homem fiel aos valores protegidos, prudente e consciencioso.<br \/>Estreitamente associado ao dever objectivo de cuidado est\u00e1 o conceito de risco enquanto probabilidade de verifica\u00e7\u00e3o de um resultado contr\u00e1rio ao direito (risco de acidente de via\u00e7\u00e3o, risco de uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, etc.).<br \/>O dever objectivo de cuidado afirma-se, nomeadamente, como dever de executar cuidadosamente a actividade de risco para evitar que esse risco se converta em les\u00e3o efectiva de bens jur\u00eddicos[12].<br \/>O \u00abrisco \u00e9 (\u2026) uma realidade que pode ser gerida, e que ao ser mal gerido, ao ser descuidada ou intencionalmente mal gerido, pode determinar a responsabilidade daquele que o tem a seu cargo: porque quis a sua concretiza\u00e7\u00e3o, porque tendo tomado consci\u00eancia dele n\u00e3o adoptou as medidas necess\u00e1rias para evitar a sua concretiza\u00e7\u00e3o, ou porque desconheceu, ou ignorou indevidamente, n\u00e3o tendo (\u2026) as devidas cautelas na condu\u00e7\u00e3o da sua conduta\u00bb.<br \/>Para se responsabilizar o agente pela produ\u00e7\u00e3o de um resultado, \u00e9 necess\u00e1rio que se revele poss\u00edvel prever o curso causal das coisas, os efeitos prov\u00e1veis de uma conduta.<br \/>S\u00f3 estar\u00e1 preenchido o tipo de il\u00edcito objectivo se o resultado produzido for objectivamente previs\u00edvel.<br \/>Com a exig\u00eancia de previsibilidade objectiva pretende-se saber se o processo causal, assim como o resultado produzido, s\u00e3o consequ\u00eancias objectivamente previs\u00edveis da conduta do agente tendo em conta o seu papel concreto, isto \u00e9, tendo em conta os seus conhecimentos e experi\u00eancia profissional.<br \/>Previsibilidade objectiva do perigo para determinado bem jur\u00eddico que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel afirmar quando a ac\u00e7\u00e3o praticada aparecer a pessoa consciente e cuidadosa como suscept\u00edvel de provocar um resultado desvalioso n\u00e3o querido.<br \/>Em suma, \u00aba neglig\u00eancia deixa-se apurar com base num crit\u00e9rio objectivo de previsibilidade e de cuidado que \u00e9 definido tendo em conta as regras legais, t\u00e9cnicas e profissionais existentes para aquele sector de actua\u00e7\u00e3o, e o que o agente podia e devia fazer dadas as circunst\u00e2ncias concretas, tal como estabelece a lei. Esse \u00e9 o padr\u00e3o m\u00e9dio que corresponde ao que era exig\u00edvel do agente naquele contexto e face a uma determinada situa\u00e7\u00e3o de risco\u00bb[13].<br \/>Ainda em sede do tipo de il\u00edcito negligente, conv\u00e9m esclarecer que, embora o crime negligente comporte um momento omissivo - precisamente o n\u00e3o ter o cuidado, ou de prever um certo resultado ou, tendo-o previsto, de evit\u00e1-lo - n\u00e3o se confunde com a omiss\u00e3o, que qualifica um tipo criminal em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 estrutura do comportamento.<br \/>A viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado tanto pode traduzir-se numa ac\u00e7\u00e3o como numa omiss\u00e3o, sendo certo que, nesta hip\u00f3tese, \u00e9 necess\u00e1rio que sobre o agente recaia um dever de garante, como exige o n.\u00ba 2 do artigo 10.\u00ba do C\u00f3digo Penal.<br \/>Por outro lado, o cuidado exig\u00edvel h\u00e1-de ser determinado pela capacidade de cumprimento que, no dizer do Professor Figueiredo Dias (\"Pressupostos da Puni\u00e7\u00e3o\" in Jornadas de Direito Criminal, ed. C.E.J., p\u00e1g. 70), constitui o elemento configurador da censurabilidade da neglig\u00eancia, - o elemento revelador de que no facto se exprimiu uma personalidade leviana ou descuidada perante o dever ser jur\u00eddico-penal.<br \/>\u00abEst\u00e1 aqui verdadeiramente em causa - acrescenta aquele Professor (loc. cit.) - um crit\u00e9rio subjectivo e concreto ou individualizante, que deve partir do que seria razoavelmente de esperar de um homem com as qualidades e capacidades do agente.<br \/>Se for de esperar dele que respondesse \u00e0s exig\u00eancias do cuidado objectivamente imposto e devido - mas s\u00f3 nessas condi\u00e7\u00f5es - \u00e9 que, em concreto, se dever\u00e1 afirmar o conte\u00fado da culpa pr\u00f3prio da neglig\u00eancia e fundamentar, assim, a respectiva puni\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>Em suma, a neglig\u00eancia determina-se com recurso a uma dupla averigua\u00e7\u00e3o: por um lado, h\u00e1 que procurar saber que comportamento era objectivamente devido numa situa\u00e7\u00e3o de perigo em ordem a evitar a viola\u00e7\u00e3o n\u00e3o querida do direito e, por outro, se esse comportamento podia ser exigido do agente, atentas as suas caracter\u00edsticas e capacidades individuais.<br \/>Tendo em perspectiva estas refer\u00eancias dogm\u00e1ticas sobre a conduta negligente, vejamos se pode falar-se aqui em erro m\u00e9dico penalmente relevante.<br \/>Uma das grandes \u00e1reas de actua\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica \u00e9 o \u201cp\u00f3s-operat\u00f3rio\u201d e um erro cometido (seja por ac\u00e7\u00e3o, seja por omiss\u00e3o) nesta fase n\u00e3o \u00e9 menos grave do que o \u201cerro operat\u00f3rio\u201d, pois, tamb\u00e9m, pode ser fatal para o paciente.<br \/>Numa cirurgia com internamento, como aconteceu \u201cin casu\u201d, h\u00e1 leges artis, regras de conduta normais, recorrentes e impostas por \u201cguide lines\u201d comummente seguidas na pr\u00e1tica m\u00e9dica e hospitalar.<br \/>A vigil\u00e2ncia p\u00f3s-operat\u00f3ria por m\u00e9dico especialista \u00e9 fundamental e o que pode variar \u00e9 o per\u00edodo de dura\u00e7\u00e3o dessa observa\u00e7\u00e3o.<br \/>Nesta fase, por regra, cabe ao anestesiologista o dever de vigiar o restabelecimento da capacidade geral de funcionamento do organismo do paciente, competindo-lhe, tamb\u00e9m, o controlo efectivo da sa\u00edda do doente da unidade de cuidados p\u00f3s-anest\u00e9sicos (o chamado \u201crecobro\u201d).<br \/>A valora\u00e7\u00e3o que preside \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o da viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado \u00e9 um ju\u00edzo eminentemente jur\u00eddico que cabe ao julgador efectuar ap\u00f3s pondera\u00e7\u00e3o de todas as circunst\u00e2ncias relevantes da actua\u00e7\u00e3o do agente.<br \/>Ora, dessas circunst\u00e2ncias relevantes (j\u00e1 supra enunciadas), cabe destacar o facto de a E\u2026, no p\u00f3s-operat\u00f3rio, entre as 09:45 e as 16:15 do dia em que foi submetida a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica (adenoidectomia e miringotomia), ter tido sete v\u00f3mitos com vest\u00edgios de sangue. E se os tr\u00eas primeiros (registados nas primeiras tr\u00eas horas do per\u00edodo p\u00f3s-operat\u00f3rio) s\u00e3o considerados uma ocorr\u00eancia normal, j\u00e1 a persist\u00eancia dos v\u00f3mitos n\u00e3o pode, como tal, ser considerada e exigia que a crian\u00e7a fosse observada por um m\u00e9dico (o arguido) e reavaliado o seu estado cl\u00ednico. Por\u00e9m, assim n\u00e3o aconteceu e a E\u2026 acabou por ser transferida para o Servi\u00e7o de Pediatria (por ordem do arguido) sem qualquer informa\u00e7\u00e3o e sem que a sua situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica fosse reavaliada (foi por telefone que deu aquela ordem de transfer\u00eancia).<br \/>Por isso o tribunal concluiu que o arguido n\u00e3o procedeu com o cuidado devido, a que estava obrigado e de que era capaz, tendo em conta o estado da paciente e a sintomatologia que esta apresentou ap\u00f3s a cirurgia e no per\u00edodo em que estava sob a sua responsabilidade.<br \/>Apesar disso, na primeira inst\u00e2ncia entendeu-se que a observa\u00e7\u00e3o e reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, antes da sua transfer\u00eancia para pediatria, n\u00e3o teria permitido um diagn\u00f3stico e um tratamento mais precoce que teria evitado o resultado morte, basicamente por duas raz\u00f5es:<br \/>- as n\u00e1useas e os v\u00f3mitos s\u00e3o um sintoma de hiponatremia, mas tamb\u00e9m de outras patologias;<br \/>- se aos v\u00f3mitos n\u00e3o estiverem associados outros sintomas de disfun\u00e7\u00e3o do sistema nervoso central (como sonol\u00eancia, irrita\u00e7\u00e3o, prostra\u00e7\u00e3o, apatia) n\u00e3o estamos perante um quadro que fa\u00e7a suspeitar de uma hiponatremia e, at\u00e9 ser transferida para pediatria, a crian\u00e7a n\u00e3o manifestou qualquer desses sintomas.<br \/>Por isso concluiu-se que, mesmo que tivesse observado e reavaliado a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026, o arguido, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o teria alterado a medica\u00e7\u00e3o prescrita, como n\u00e3o teria determinado a realiza\u00e7\u00e3o de quaisquer exames, designadamente uma gasometria.<br \/>\u00c9 caso para perguntar por que se considerou, ent\u00e3o, que o arguido n\u00e3o actuou com o cuidado devido \u00abtendo em conta o estado da paciente e a sintomatologia que esta apresentou ap\u00f3s a cirurgia\u00bb. A observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o do estado cl\u00ednico da E\u2026, afinal, serviriam para qu\u00ea?<br \/>Salvo o devido respeito, \u00e9 patente o v\u00edcio de racioc\u00ednio.<br \/>O motivo para actuar conscienciosamente, para agir com cuidado e aten\u00e7\u00e3o ocorre quando a situa\u00e7\u00e3o de perigo se torna reconhec\u00edvel ao agente atrav\u00e9s de sinais de aviso que podem ter intensidade diferente consoante tornem mais ou menos previs\u00edvel o momento e a dura\u00e7\u00e3o do perigo.<br \/>Ora, perante a persist\u00eancia dos v\u00f3mitos, f\u00e1cil seria para o arguido prever que o p\u00f3s-operat\u00f3rio da E\u2026 n\u00e3o estava a decorrer normalmente, que algo de anormal, patol\u00f3gico estava a acontecer.<br \/>Poderia n\u00e3o haver, ainda, raz\u00f5es para suspeitar de uma hiponatremia, mas era evidente (ou, pelo menos, deveria ser evidente para o arguido) que a E\u2026 estava a ser acometida de uma patologia.<br \/>Numa situa\u00e7\u00e3o destas, o que nos dizem a experi\u00eancia e as boas pr\u00e1ticas m\u00e9dicas \u00e9 que se determine a realiza\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises para identificar a patologia e, assim, poder prescrever o respectivo tratamento.<br \/>O arguido errou, claramente, ao omitir a realiza\u00e7\u00e3o de exames que seriam um importante meio auxiliar de diagn\u00f3stico da patologia que afectava a crian\u00e7a e veio a revelar-se fatal.<br \/>Mas nem s\u00f3 nessa conduta omissiva se revela a viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado.<br \/>O arguido abandonou as instala\u00e7\u00f5es do Centro Hospitalar sem cuidar de garantir que existia um m\u00e9dico respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia da E\u2026, tal como n\u00e3o tratou de comunicar com os m\u00e9dicos que estavam de servi\u00e7o transmitindo-lhes todas as informa\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas relevantes sobre a crian\u00e7a.<br \/>Sem informa\u00e7\u00f5es sobre a cirurgia a que a E\u2026 tinha sido submetida, sobre a medica\u00e7\u00e3o prescrita e sobre o seu estado cl\u00ednico, a m\u00e9dica pediatra de servi\u00e7o bem tentou contactar, telefonicamente, o arguido, mas em v\u00e3o.<br \/>S\u00f3 pelas 18:00, a m\u00e9dica pediatra, Dra. F\u2026, em conjunto com o m\u00e9dico Dr. S\u2026, efectuou a primeira observa\u00e7\u00e3o da E\u2026 e fez a avalia\u00e7\u00e3o do seu estado.<br \/>Isto apesar de, cerca das 17:00 (pouco tempo depois de ser transferida para o Servi\u00e7o de Pediatria), a E\u2026 estar com olhar fixo, revelar diminui\u00e7\u00e3o de resposta a est\u00edmulos verbais e ter iniciado convuls\u00f5es generalizadas, sintomas inequ\u00edvocos de hiponatremia.<br \/>Os resultados da TAC e da gasometria realizadas permitiram concluir, designadamente pelos valores de s\u00f3dio no sangue, que a crian\u00e7a padecia de uma hiponatremia grave, iniciando-se, ent\u00e3o, o respectivo tratamento que, no entanto, n\u00e3o evitou o desfecho fatal.<br \/>Estes factos legitimam a infer\u00eancia de que, se o arguido tivesse observado e reavaliado o estado cl\u00ednico da E\u2026 e, como se impunha, quando determinou a sua transfer\u00eancia para o Servi\u00e7o de Pediatria, tivesse mandado realizar an\u00e1lises a fim de habilitar o(s) m\u00e9dico(s) que a\u00ed estivesse(m) em fun\u00e7\u00f5es a agir rapidamente, teria sido poss\u00edvel detectar, precocemente, a hiponatremia que se instalara e iniciar o tratamento que, com razo\u00e1vel probabilidade, teria evitado o \u00f3bito da crian\u00e7a. Mesmo tendo em considera\u00e7\u00e3o que, nas crian\u00e7as, essa patologia se instala rapidamente. Ali\u00e1s, na senten\u00e7a recorrida, admite-se, expressamente, que \u00aba realiza\u00e7\u00e3o de uma gasometria mais cedo podia diminuir o risco da produ\u00e7\u00e3o do resultado morte (sem certezas)\u00bb.<br \/>Por tudo isto, afronta a l\u00f3gica, a raz\u00e3o e as m\u00e1ximas da experi\u00eancia considerar que o comportamento omissivo do arguido, nas aludidas circunst\u00e2ncias, \u00abfoi violador das leges artis\u00bb, que impunham uma reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 antes de determinar a sua transfer\u00eancia para Pediatria, e depois concluir que o comportamento devido n\u00e3o teria permitido o diagn\u00f3stico e um tratamento mais precoces daquela patologia e a evita\u00e7\u00e3o do resultado morte da crian\u00e7a.<br \/>O que se revela fundada, criteriosa e razo\u00e1vel \u00e9 a conclus\u00e3o contr\u00e1ria.<br \/>Se um m\u00e9dico com o saber e a experi\u00eancia do arguido n\u00e3o trata de obter os elementos necess\u00e1rios para diagnosticar uma patologia num paciente que est\u00e1 a seu cargo e sob a sua vigil\u00e2ncia e iniciar, o mais precocemente poss\u00edvel, o seu tratamento, ter\u00e1 de concluir-se que n\u00e3o foi um profissional consciencioso, sensato e previdente e por isso ter\u00e1 de ser penalmente responsabilizado pelas consequ\u00eancias da sua conduta negligente.<br \/>Sempre que determinado comportamento se afasta daquele que era objectivamente devido numa situa\u00e7\u00e3o de perigo para bens jur\u00eddico-penalmente relevantes, considera-se que esse comportamento preenche o tipo de il\u00edcito do facto negligente.<br \/>Mas a conjuga\u00e7\u00e3o de uma infrac\u00e7\u00e3o aos deveres de cuidado com o resultado t\u00edpico - no caso, a morte da E\u2026 - n\u00e3o conduz, necessariamente, a um crime negligente. Imp\u00f5e-se, ainda, que se verifique o nexo de adequa\u00e7\u00e3o entre a conduta violadora do cuidado necess\u00e1rio e o resultado.<br \/>Em que \u00e9 que se traduz, nos crimes negligentes, esse nexo de imputa\u00e7\u00e3o? Como \u00e9 que se pode reconhecer se uma viola\u00e7\u00e3o do dever de cuidado, \u00e0 qual se segue uma morte, fundamenta ou n\u00e3o um homic\u00eddio negligente?<br \/>Como refere C. Roxin (\"Problemas Fundamentais de Direito Penal \", p\u00e1g. 238), re\u00fane um largo consenso da doutrina a posi\u00e7\u00e3o segundo a qual existe o necess\u00e1rio la\u00e7o causal se a realiza\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o requerida impediria o resultado com uma probabilidade quase segura.<br \/>Dizendo de outro modo e socorrendo-nos de H.H. Jescheck (\" Tratado de Derecho Penal \", vol. II, p\u00e1g. 804), haver\u00e1 nexo causal desde que o resultado pudesse ser evitado mediante um comportamento cuidadoso, por um lado, e que a norma infringida servisse, precisamente, para evitar o resultado como o produzido no caso concreto.<br \/>Ora, como \u00e9 bom de ver, as chamadas guidelines das organiza\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais de m\u00e9dicos, as leges artis pelas quais os m\u00e9dicos devem pautar a sua ac\u00e7\u00e3o t\u00eam um valor particular enquanto regras da experi\u00eancia adequadas ao afastamento de perigos pr\u00f3ximos ou imediatos para bens jur\u00eddicos e, no caso, n\u00e3o foram respeitadas pelo arguido.<br \/>Num ju\u00edzo de prognose p\u00f3stuma, pode afirmar-se que, com a sua conduta omissiva, violadora do dever de garante que sobre ele impendia, o arguido potenciou um risco para o bem jur\u00eddico vida humana e assim produziu um resultado proibido, pois \u00e9 razoavelmente seguro que, pelas raz\u00f5es j\u00e1 explanadas, se tivesse agido de acordo com as leges artis, tal resultado n\u00e3o se teria verificado.<br \/>Existe, pois, \u201cconex\u00e3o t\u00edpica\u201d entre a conduta omissiva do arguido e o resultado t\u00edpico verificado (no caso, a morte de uma pessoa humana).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na linha das anteriores considera\u00e7\u00f5es, preenchido que est\u00e1 o tipo de il\u00edcito do homic\u00eddio negligente pela conduta do arguido, imp\u00f5e-se ponderar se lhe era exig\u00edvel o comportamento devido, ou seja, se a este podia ser exigido que previsse e evitasse o resultado que se verificou no caso sub juditio, de acordo com as suas capacidades individuais, a sua intelig\u00eancia, a sua forma\u00e7\u00e3o e a sua experi\u00eancia profissional.<br \/>\u00c9 esta quest\u00e3o que configura aquilo que o Professor Figueiredo Dias[14] designa pela \u201cquest\u00e3o do tipo de culpa negligente\u201d.<br \/>Para que a culpa negligente se afirme \u2013 explica o distinto penalista \u2013 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio (nem poss\u00edvel) apelar ao concreto poder do agente de atuar de outro modo na situa\u00e7\u00e3o. Do que ali se trata \u00e9 apenas da conclus\u00e3o de que, de acordo com a experi\u00eancia, os outros, agindo em condi\u00e7\u00f5es e sob pressupostos fundamentalmente iguais \u00e0queles que presidiram \u00e0 conduta do agente, teriam previsto a possibilidade de realiza\u00e7\u00e3o do tipo de il\u00edcito e t\u00ea-la-iam evitado. O que significa apenas, por outras palavras, que o conhecimento real das consequ\u00eancias de uma a\u00e7\u00e3o e a capacidade de as evitar correspondem \u00e0 experi\u00eancia m\u00e9dia e que portanto, relativamente ao agente concreto que as n\u00e3o representou ou evitou, se comprova uma defici\u00eancia perante o tipo normal. S\u00f3 que este tipo \u2013 e aqui deparamos com o famoso \u201ccrit\u00e9rio subjetivo\u201d \u2013 n\u00e3o \u00e9 o tipo \u201cm\u00e9dio\u201d, mas o tipo de homem da esp\u00e9cie e com as qualidades e capacidades do agente.<br \/>Cremos j\u00e1 ter dito o quantum satis para, fundadamente, se concluir que o arguido podia, razoavelmente, prever que acontecesse o que, infelizmente, sucedeu.<br \/>Para o m\u00e9dico prudente, profissionalmente experiente, como era o arguido, dotado das capacidades que det\u00e9m o \u201chomem m\u00e9dio\u201d pertencente \u00e0 categoria intelectual e social e ao c\u00edrculo de vida do arguido, o tr\u00e1gico resultado (a morte de uma crian\u00e7a), nas referidas condi\u00e7\u00f5es, era perfeitamente previs\u00edvel e evit\u00e1vel.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cremos ter demonstrado que a senten\u00e7a recorrida est\u00e1 afetada pelo v\u00edcio de erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova, que \u00e9 poss\u00edvel sanar no tribunal de recurso alterando a de cis\u00e3o sobre mat\u00e9ria de facto nos seguintes termos:<br \/>Ao elenco de factos provados s\u00e3o aditados os seguintes:<br \/>31 - A) A observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido no per\u00edodo do p\u00f3s-operat\u00f3rio, perante a sintomatologia que esta apresentava, teria permitido, com recurso a exames complementares de diagn\u00f3stico como os mencionados no ponto 19, diagnosticar a patologia (hiponatremia) de que foi acometida e iniciar, mais precocemente, o respetivo tratamento e, assim, evitar o resultado morte;<br \/>31 - B) O arguido, tendo em conta as suas qualidades e capacidades individuais, podia e devia ter representado o perigo da sua conduta omissiva para a vida da E\u2026 e atuado por forma a evitar o resultado verificado, o que s\u00f3 n\u00e3o logrou por ter agido sem as cautelas que as boas pr\u00e1ticas pr\u00f3prias da classe profissional em que est\u00e1 inserido lhe exigiam e a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia profissional (como assistente graduado s\u00e9nior de anestesiologia) lhe permitia;<br \/>31 - C) Sabia que a sua conduta \u00e9 proibida e penalmente pun\u00edvel.<br \/>Do elenco de\u00a0factos n\u00e3o provados\u00a0s\u00e3o eliminados os pontos 7 e 8, passando o ponto 6 a ter o seguinte conte\u00fado:<br \/>6 - A observa\u00e7\u00e3o e a reavalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da E\u2026 pelo arguido, no per\u00edodo do p\u00f3s-operat\u00f3rio, perante a sintomatologia que apresentou, teriam permitido a perce\u00e7\u00e3o e o atempado conhecimento do excesso de volume de soro perfundido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Face \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o sobre mat\u00e9ria de facto, imp\u00f5e-se concluir que se verificam todos os elementos integrantes do crime de homic\u00eddio negligente previsto e pun\u00edvel pelo artigo 137.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo Penal, pelo que h\u00e1 que passar \u00e0 determina\u00e7\u00e3o da pena.<br \/>Efetuado o enquadramento jur\u00eddico-penal dos factos provados, pode acontecer (e em muitos casos assim acontece) que a respetiva norma incriminadora preveja uma dualidade de puni\u00e7\u00e3o, uma pena comp\u00f3sita alternativa: pris\u00e3o ou multa, as duas penas principais que o nosso sistema penal conhece.<br \/>Ao crime cometido pelo arguido corresponde pena de pris\u00e3o (at\u00e9 3 anos) ou pena de multa (de 10 a 360 dias).<br \/>Ao julgador exige-se, ent\u00e3o, que fa\u00e7a uma escolha, que eleja entre essas duas esp\u00e9cies de pena aquela que se mostra mais adequada no caso concreto e o art.\u00ba 70.\u00ba do C\u00f3d. Penal fornece-lhe o crit\u00e9rio orientador: deve dar prefer\u00eancia \u00e0 pena n\u00e3o detentiva sempre que esta realize de forma adequada as finalidades da puni\u00e7\u00e3o que, conforme estabelece o art.\u00ba 40.\u00ba da mesma Codifica\u00e7\u00e3o, s\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddicos (fim de preven\u00e7\u00e3o geral) e a reintegra\u00e7\u00e3o do agente na sociedade [finalidade de preven\u00e7\u00e3o especial de (res)socializa\u00e7\u00e3o].<br \/>Exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral positiva reclamam a op\u00e7\u00e3o pela pena detetiva.<br \/>\u00c9 bem sabido que na estrutura da criminalidade em Portugal os crimes cometidos por neglig\u00eancia, por desrespeito de regras b\u00e1sicas, t\u00eam uma express\u00e3o significativa e por isso s\u00e3o muito sentidas exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral.<br \/>A esse prop\u00f3sito, o Professor Figueiredo Dias (\u201cTemas B\u00e1sicos da Doutrina Penal\u201d, Coimbra Editora, 2001, p. 351) referia a exist\u00eancia de \u201crequisit\u00f3rio em favor de um tratamento jur\u00eddico-penal cada vez mais severo de certos factos negligentes;\u00a0ao ponto de n\u00e3o faltar mesmo quem preconiza para eles molduras penais cujo m\u00e1ximo exceda o limite m\u00ednimo do correspondente facto doloso\u201d.<br \/>Sobre a justifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-criminal da puni\u00e7\u00e3o da neglig\u00eancia no crime de homic\u00eddio, o mesmo autor refere que esse se tornou \u00abfen\u00f3meno maci\u00e7o, dadas as in\u00fameras fontes de perigo para a vida imanentes \u00e0 \u201csociedade do risco\u201d contempor\u00e2nea\u00bb, com destaque para a circula\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria.<br \/>Ora, se \u00e9, sobretudo, no \u00e2mbito da criminalidade rodovi\u00e1ria que as exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral s\u00e3o particularmente prementes, n\u00e3o podem menosprezar-se os perigos para bens jur\u00eddicos fundamentais que ocorrem noutras \u00e1reas, nomeadamente no \u00e2mbito da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade e, em especial, da atividade m\u00e9dica e hospitalar.<br \/>A finalidade primeira das penas \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddicos e aplicar uma pena pecuni\u00e1ria a algu\u00e9m que cometeu um crime de homic\u00eddio, ainda que meramente negligente e por omiss\u00e3o, surge aos olhos da comunidade como uma desvaloriza\u00e7\u00e3o da vida humana.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como decorre do disposto no art.\u00ba 71.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3d. Penal, \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o do bin\u00f3mio preven\u00e7\u00e3o-culpa que se h\u00e1-de encontrar a medida da pena, assim se satisfazendo a necessidade comunit\u00e1ria da puni\u00e7\u00e3o do caso concreto e a exig\u00eancia de que a vertente pessoal do crime limite de forma inultrapass\u00e1vel as exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o.<br \/>Tende a ser praticamente consensual na jurisprud\u00eancia o acolhimento da doutrina[15] de que a pena visa finalidades, exclusivamente, preventivas (de preven\u00e7\u00e3o geral e de preven\u00e7\u00e3o especial), cabendo \u00e0 culpa a fun\u00e7\u00e3o de impedir excessos, sendo pressuposto (n\u00e3o pode haver pena sem culpa) e limite inultrapass\u00e1vel da pena (em caso algum a medida desta pode ultrapassar a medida da culpa).<br \/>O momento inicial, irrenunci\u00e1vel e decisivo da fundamenta\u00e7\u00e3o da pena repousa numa ideia de preven\u00e7\u00e3o geral, uma vez que ela (pena) s\u00f3 ganha justifica\u00e7\u00e3o a partir da necessidade de prote\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddico-penais.<br \/>A finalidade primeira da aplica\u00e7\u00e3o da pena \u00e9, como j\u00e1 referimos, a tutela de bens jur\u00eddicos[16].<br \/>Na preven\u00e7\u00e3o geral positiva ou de integra\u00e7\u00e3o, tem-se em vista uma conce\u00e7\u00e3o integrada de intimida\u00e7\u00e3o que actue dentro do campo marcado por padr\u00f5es \u00e9tico-sociais de comportamento que a amea\u00e7a da pena visa justamente refor\u00e7ar.<br \/>\u00c9 esta ideia de preven\u00e7\u00e3o geral positiva, enquanto finalidade primordial visada pela pena, que d\u00e1 conte\u00fado ao princ\u00edpio da necessidade da pena consagrado no artigo 18.\u00ba, n.\u00ba 2, da Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa.<br \/>S\u00e3o as exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral que h\u00e3o-de definir a chamada \u201cmoldura da preven\u00e7\u00e3o\u201d (em que o quantum m\u00e1ximo da pena corresponder\u00e1 \u00e0 medida \u00f3tima de tutela dos bens jur\u00eddicos e das expectativas comunit\u00e1rias que a pena se deve propor alcan\u00e7ar e o limite inferior \u00e9 aquele que define o limiar m\u00ednimo de defesa do ordenamento jur\u00eddico, abaixo do qual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 comunitariamente suport\u00e1vel a fixa\u00e7\u00e3o da pena sem se p\u00f4r irremediavelmente em causa aquela sua fun\u00e7\u00e3o tutelar), dentro da qual cabe \u00e0 preven\u00e7\u00e3o especial (por regra, positiva ou de (res)socializa\u00e7\u00e3o) determinar a medida concreta.<br \/>A determina\u00e7\u00e3o da medida da pena em fun\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o das exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o obriga \u00e0 valora\u00e7\u00e3o de circunst\u00e2ncias atinentes ao facto (modo de execu\u00e7\u00e3o, grau de ilicitude, gravidade das suas consequ\u00eancias, grau de viola\u00e7\u00e3o dos deveres impostos ao agente, conduta do agente anterior e posterior ao facto e as chamadas consequ\u00eancias extra-t\u00edpicas) e alheias ao facto, mas relativas \u00e0 personalidade do agente (manifestada no facto), nomeadamente as suas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais, a sensibilidade \u00e0 pena e suscetibilidade de ser por ela influenciado, etc.<br \/>As j\u00e1 mencionadas exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral justificam que se fixe o limite inferior da tal \u201cmoldura de preven\u00e7\u00e3o\u201d em 12 meses de pris\u00e3o (o primeiro ter\u00e7o da medida legal da pena) e que a medida \u00f3tima de tutela dos bens jur\u00eddicos e das expectativas comunit\u00e1rias que a pena se deve propor alcan\u00e7ar se situe nos 2 anos (o dobro daquele limite).<br \/>A finalidade preventivo-especial da pena \u00e9 evitar que o agente cometa, no futuro, novos crimes. Evitar a reincid\u00eancia, portanto.<br \/>Sendo primordial a fun\u00e7\u00e3o de socializa\u00e7\u00e3o, a tarefa que se imp\u00f5e ao juiz \u00e9 averiguar se o agente est\u00e1 carecido de socializa\u00e7\u00e3o.<br \/>Quando o agente n\u00e3o revela car\u00eancias de socializa\u00e7\u00e3o, como nos diz o Professor Figueiredo Dias (Direito Penal Portugu\u00eas \u2013 As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime\u201d, 1993, p. 244), \u201ctudo ser\u00e1 quest\u00e3o, em termos de preven\u00e7\u00e3o especial, de conferir \u00e0 pena uma fun\u00e7\u00e3o de suficiente\u00a0advert\u00eancia\u00a0do agente, o que permitir\u00e1 que a medida da pena des\u00e7a at\u00e9 perto do limite m\u00ednimo de defesa do ordenamento jur\u00eddico, ou mesmo que com ele coincida.\u00a0Se \u00e9 certo que esta fun\u00e7\u00e3o de advert\u00eancia joga o principal papel em tema de penas de substitui\u00e7\u00e3o, ela pode relevar igualmente, e de forma decisiva, no \u00e2mbito de medida da pena\u201d.<br \/>Dos factos apurados \u00e9 poss\u00edvel concluir que o arguido n\u00e3o revela car\u00eancias de socializa\u00e7\u00e3o, pois est\u00e1, perfeitamente, integrado na sociedade, \u00e9 pessoa dedicada \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 profiss\u00e3o que exerce, no meio sociocomunit\u00e1rio projeta uma imagem favor\u00e1vel, sendo referenciado positivamente tamb\u00e9m no contexto profissional e associado a um estilo de vida pr\u00f3-social. No relacionamento interpessoal \u00e9 avaliado como respeitador, cordial e de f\u00e1cil trato. Este \u00e9 o seu primeiro contacto com o sistema de justi\u00e7a penal.<br \/>No entanto, uma boa inser\u00e7\u00e3o social requer, tamb\u00e9m, uma boa capacidade de auto - censura e de auto - cr\u00edtica, uma predisposi\u00e7\u00e3o para interiorizar o desvalor da conduta pun\u00edvel, essenciais para se poder afirmar que o perigo de repeti\u00e7\u00e3o de condutas criminosas \u00e9 inexistente ou diminuto.<br \/>Ora, nada, na factualidade apurada, revela que o arguido re\u00fane essas caracter\u00edsticas, que teve manifesta\u00e7\u00f5es de genu\u00edno arrependimento, sequer que o verbalizou, e a interioriza\u00e7\u00e3o da censurabilidade da conduta pun\u00edvel \u00e9 o primeiro passo para se redimir.<br \/>Um dos princ\u00edpios a que obedece o C\u00f3digo Penal \u00e9 o princ\u00edpio da culpa, segundo o qual n\u00e3o pode haver pena sem culpa, nem pena superior \u00e0 medida da culpa.<br \/>Relevantes para avaliar da medida da pena necess\u00e1ria para satisfazer as exig\u00eancias de culpa verificada no caso concreto s\u00e3o os fatores elencados no art.\u00ba 71.\u00ba, n.\u00ba 2, do C\u00f3d. Penal e que, basicamente, t\u00eam a ver, quer com os factos praticados, quer com a personalidade do agente que os cometeu.<br \/>Aproveitando, mais uma vez, o ensinamento do Professor Figueiredo Dias (Ob. Cit., 245), porque a culpa jur\u00eddico-penal \u00e9 \u201ccensura dirigida ao agente em virtude da atitude desvaliosa documentada num certo facto e, assim, num concreto tipo-de-il\u00edcito\u201d, h\u00e1 que tomar em considera\u00e7\u00e3o todas as circunst\u00e2ncias que caracterizam a\u00a0gravidade da viola\u00e7\u00e3o jur\u00eddica cometida\u00a0(o dano, material ou moral, causado pela conduta e as suas consequ\u00eancia t\u00edpicas, o grau de perigo criado nos casos de tentativa e de crimes de perigo, o modo de execu\u00e7\u00e3o do facto, o grau de conhecimento e a intensidade da vontade nos crimes dolosos, a repara\u00e7\u00e3o do dano pelo agente, o comportamento da v\u00edtima, etc.) e a\u00a0personalidade do agente\u00a0[condi\u00e7\u00f5es pessoais e situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, capacidade para se deixar influenciar pela pena (sensibilidade \u00e0 pena), falta de prepara\u00e7\u00e3o para manter uma conduta l\u00edcita, manifestada no facto, e conduta anterior e posterior ao facto].<br \/>Com a tipifica\u00e7\u00e3o do crime cometido pelo arguido tutela-se um bem eminentemente pessoal: a vida.<br \/>O grau de ilicitude da conduta do arguido \u00e9 significativamente elevado, n\u00e3o s\u00f3 pela natureza do bem jur\u00eddico lesado, mas tamb\u00e9m porque foi uma crian\u00e7a de 4 anos a v\u00edtima da sua inc\u00faria.<br \/>No que tange \u00e0 intensidade da neglig\u00eancia, se pode falar-se aqui em atitude particularmente censur\u00e1vel de leviandade ou descuido perante o comando jur\u00eddico-penal, em contraponto, n\u00e3o se configura \u201cum comportamento particularmente perigoso e um resultado de verifica\u00e7\u00e3o altamente prov\u00e1vel\u201d, capaz de revelar um grau especialmente elevado de indiferen\u00e7a e de desrespeito para com a vida da crian\u00e7a.<br \/>Cabe aqui assinalar que a neglig\u00eancia inconsciente n\u00e3o \u00e9, for\u00e7osamente, uma forma menos grave (do que a neglig\u00eancia consciente) de realiza\u00e7\u00e3o do facto, pois a imprevis\u00e3o do resultado que a norma pretende evitar pode ser, em si mesma, muito mais desvaliosa.<br \/>Ponderando o circunstancialismo descrito, e considerando, ainda, que, tendo decorrido j\u00e1 cinco anos sobre a data dos factos sem que ao arguido sejam conhecidos outros comportamentos penalmente censur\u00e1veis, diluiu-se um pouco a necessidade da puni\u00e7\u00e3o, a pena de 18 meses de pris\u00e3o satisfaz as necessidades de preven\u00e7\u00e3o geral (ou seja, a reposi\u00e7\u00e3o e refor\u00e7o das expectativas comunit\u00e1rias na validade da norma violada basta-se com esse quantum de pena) e n\u00e3o excede a medida da culpa do arguido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Importa agora ponderar a aplica\u00e7\u00e3o de uma pena de substitui\u00e7\u00e3o.<br \/>Sendo considera\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o geral e de preven\u00e7\u00e3o especial [de (res)socializa\u00e7\u00e3o][17] que est\u00e3o na base da aplica\u00e7\u00e3o das penas de substitui\u00e7\u00e3o, o tribunal s\u00f3 deve recusar essa aplica\u00e7\u00e3o \u201cquando a execu\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o se revele, do ponto de vista da preven\u00e7\u00e3o especial de socializa\u00e7\u00e3o, necess\u00e1ria ou, em todo o caso, provavelmente mais conveniente\u201d ou, n\u00e3o sendo o caso, a pena de substitui\u00e7\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o dever\u00e1 ser aplicada \u201cse a execu\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o se mostrar indispens\u00e1vel para que n\u00e3o sejam postas irremediavelmente em causa a necess\u00e1ria tutela dos bens jur\u00eddicos e estabiliza\u00e7\u00e3o contraf\u00e1ctica das expectativas comunit\u00e1rias\u201d[18].<br \/>Estando verificado o requisito formal da suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena, h\u00e1 que indagar se ocorre o respetivo pressuposto material, isto \u00e9, se se pode concluir que a simples censura do facto e a amea\u00e7a da pris\u00e3o realizam de forma adequada e suficiente as finalidades da puni\u00e7\u00e3o, designadamente se bastar\u00e3o para afastar a arguida da criminalidade, pois \u00e9 esta a finalidade prec\u00edpua do instituto da suspens\u00e3o[19].<br \/>Se a pena privativa da liberdade surge sempre como a \u00faltima \u201cratio\u201d do nosso sistema punitivo[20], tal n\u00e3o significa que n\u00e3o haja casos em que s\u00f3 essa pena \u00e9 adequada a satisfazer os fins das penas.<br \/>\u00c9 \u00f3bvio que, ao aumentar o limite da pena de pris\u00e3o (dos 3 anos para os 5 anos) dentro do qual \u00e9 poss\u00edvel a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o, o legislador pretendeu alargar o \u00e2mbito de aplica\u00e7\u00e3o da pena de substitui\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tornar menos exigente o pressuposto substantivo da sua aplica\u00e7\u00e3o.<br \/>Visando as penas, antes de mais, a prote\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddicos e a reposi\u00e7\u00e3o e o refor\u00e7o da confian\u00e7a da comunidade na validade das normas jur\u00eddicas que o crime p\u00f4s em crise, as exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral ser\u00e3o tanto mais prementes quanto maior for a gravidade da viola\u00e7\u00e3o jur\u00eddica cometida.<br \/>Dito de outro modo, a fun\u00e7\u00e3o de preven\u00e7\u00e3o geral, que deve acentuar perante a comunidade o respeito e a confian\u00e7a na validade das normas que protegem o bem mais essencial, tem de ser eminentemente assegurada, sobrepondo-se, decisivamente, \u00e0s restantes finalidades da puni\u00e7\u00e3o[21].<br \/>Para a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena n\u00e3o basta um ju\u00edzo de prognose positivo relativamente ao comportamento futuro do condenado, ou seja, um ju\u00edzo favor\u00e1vel \u00e0 sua reintegra\u00e7\u00e3o na sociedade; \u00e9 exig\u00eancia incontorn\u00e1vel que a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o n\u00e3o comprometa uma das finalidades prec\u00edpuas da pena, qual seja, a prote\u00e7\u00e3o de bens jur\u00eddicos.<br \/>Poder\u00e1 dizer-se que, nos casos de homic\u00eddio, a consci\u00eancia comunit\u00e1ria v\u00ea na suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena um sinal de impunidade e uma forma de desvaloriza\u00e7\u00e3o do bem jur\u00eddico tutelado e por isso ser\u00e1 sempre de denegar a suspens\u00e3o?<br \/>Se \u00e9 verdade que, nesses casos, porque as necessidades de preven\u00e7\u00e3o geral s\u00e3o particularmente prementes, via de regra, as penas de pris\u00e3o devem ser efetivas, n\u00e3o h\u00e1, neste conspecto, qualquer rigidez jurisprudencial e, n\u00e3o raro, deparamo-nos com decis\u00f5es de suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena de pris\u00e3o por crimes de homic\u00eddio tentado[22]. Nos crimes de homic\u00eddio negligente, pode considerar-se uniforme a jurisprud\u00eancia no sentido de que s\u00f3 quando a neglig\u00eancia \u00e9 grosseira ser\u00e1 de desaplicar esta pena de substitui\u00e7\u00e3o[23].<br \/>Ponto \u00e9 que ocorram raz\u00f5es ponderosas que, superando as exig\u00eancias preventivas, poder\u00e3o justificar a suspens\u00e3o da execu\u00e7\u00e3o da pena.<br \/>Antes de mais, importa referir que o ju\u00edzo de prognose que cabe ao tribunal efetuar tem de reportar-se ao momento da decis\u00e3o, pois na formula\u00e7\u00e3o desse progn\u00f3stico tem de considerar-se, n\u00e3o s\u00f3 a personalidade do arguido, mas tamb\u00e9m as suas condi\u00e7\u00f5es de vida e a sua conduta anterior e posterior ao facto.<br \/>Ora, n\u00e3o se detetam no arguido caracter\u00edsticas da sua personalidade particularmente desvaliosas (antes apresenta racioc\u00ednio cr\u00edtico e de valoriza\u00e7\u00e3o suprema da vida humana) e esse \u00e9 um especto importante a considerar quando da formula\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo de prognose sobre a sua capacidade para (n\u00e3o voltar a) delinquir.<br \/>A conduta pret\u00e9rita do agente releva para este efeito se permitir concluir \u201cque o facto surge como um epis\u00f3dio ocasional ou isolado no contexto de uma vida de resto fiel ao direito; mas \u00e9 \u00f3bvio que esta conclus\u00e3o n\u00e3o pode retirar-se, sem mais, da circunst\u00e2ncia de o agente n\u00e3o ter sido anteriormente condenado\u201d (Figueiredo Dias, \u201cDireito Penal Portugu\u00eas \u2013 As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime\u201d, Editorial Not\u00edcias, 1993, 252-253). Ou, como afirma A. Louren\u00e7o Martins, \u201cMedida da Pena \u2013 Finalidades \u2013 Escolha \u2013 Abordagem Cr\u00edtica de Doutrina e de Jurisprud\u00eancia\u201d, Coimbra Editora, 2011, 512), \u201cna conduta anterior relevar\u00e1 frequentemente o valor atenuante do bom comportamento do arguido se, em especial pela idade do agente, fizer aparecer o delito como um evento isolado, ocasional, n\u00e3o condizente com a sua personalidade\u201d. E, logo adiante, escreve o mesmo autor: \u201cRepete-se na jurisprud\u00eancia que a aus\u00eancia de antecedentes criminais n\u00e3o \u00e9 indicativo seguro de que exista bom comportamento (\u00e9 sabido como s\u00f3 uma escassa parcela de crimes s\u00e3o participados e outra ainda bem menor leva a condena\u00e7\u00e3o)\u201d.<br \/>Tamb\u00e9m o comportamento posterior do agente tem, naturalmente, grande relevo na formula\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo sobre o seu comportamento futuro.<br \/>A ressocializa\u00e7\u00e3o do arguido parte da sua vontade de querer nortear-se pelo respeito dos valores \u00e9tico-jur\u00eddicos comunit\u00e1rios e de respeitar os bens jur\u00eddicos penalmente tutelados, postura que tem de manifestar-se em atitudes comportamentais que, objetivamente, elucidem que est\u00e1 realmente interessado no caminho da reinser\u00e7\u00e3o social.<br \/>O arrependimento manifestado (que tem de ser bem mais que, apenas, a sua verbaliza\u00e7\u00e3o), o ju\u00edzo cr\u00edtico revelado e a interioriza\u00e7\u00e3o que o agente tenha feito da gravidade e do mal do crime[24] assumem aqui import\u00e2ncia decisiva para avaliar se a simples amea\u00e7a da pena constitui suficiente admoni\u00e7\u00e3o contra o crime.<br \/>Tudo indica que esta situa\u00e7\u00e3o foi um evento isolado que n\u00e3o releva da personalidade (bem formada) do arguido.<br \/>\u00c9 caso para dizer que \u201cno melhor pano cai a n\u00f3doa\u201d.<br \/>\u00c9, pois, justificada a formula\u00e7\u00e3o, sem reservas, de um ju\u00edzo de prognose positivo, n\u00e3o havendo raz\u00f5es para impor ao arguido pena de pris\u00e3o efetiva.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III\u00a0\u2013\u00a0Dispositivo<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em face do exposto, acordam os ju\u00edzes desta 1.\u00aa Sec\u00e7\u00e3o Criminal do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto em conceder provimento aos recursos do Minist\u00e9rio P\u00fablico e dos assistentes e, em consequ\u00eancia,<br \/>A) alterar a decis\u00e3o recorrida em mat\u00e9ria de facto, nos sobreditos termos;<\/p><p style=\"text-align: justify\">B) condenar o arguido B\u2026 pela autoria material de um crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia previsto e pun\u00edvel pelo artigo 137.\u00ba, n.\u00ba 1, do C\u00f3digo Penal, na pena de 18 (dezoito) meses de pris\u00e3o, cuja execu\u00e7\u00e3o se suspende por igual per\u00edodo.<br \/>Sem tributa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Porto, 30.01.2019<br \/>Neto de Moura<br \/>Maria Lu\u00edsa Arantes<br \/>________________<br \/>[1] \u201cSum\u00e1rios de Processo Penal\u201d, 1968, 50-51.<br \/>[2] Para uma exaustiva delimita\u00e7\u00e3o (negativa e positiva) do erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova, Paulo Pinto de Albuquerque, \u201cComent\u00e1rio do C\u00f3digo de Processo Penal\u201d, 2.\u00aa edi\u00e7\u00e3o atualizada, UCE, 1102-1103.<br \/>[3] Coment\u00e1rio do Conselheiro Pereira Madeira ao artigo 410.\u00ba in \u201cC\u00f3digo de Processo Penal Comentado\u201d, Almedina, 2014, p\u00e1g. 1359.<br \/>[4] Mas, tamb\u00e9m os assistentes se baseiam nesses meios de prova para sustentar conclus\u00e3o oposta.<br \/>[5] Apontando como exemplo o caso do m\u00e9dico anestesista que, perante a crise card\u00edaca do doente, n\u00e3o tem tempo de fiscalizar o conte\u00fado de uma ampola e administra o medicamento errado, do que resulta a morte do doente, em que a tend\u00eancia ser\u00e1 para negar a viola\u00e7\u00e3o das leges artis, quando, em sua opini\u00e3o, \u00e9 evidente essa viola\u00e7\u00e3o.<br \/>[6] Figueiredo Dias, \u201cDireito Penal \u2013 Parte Geral\u201d, Tomo I, Coimbra Editora, 2004, p\u00e1g. 359.<br \/>[7] Ou, numa formula\u00e7\u00e3o equivalente, a cria\u00e7\u00e3o, pelo agente, de um perigo n\u00e3o permitido.<br \/>[8] Se bem que os crimes negligentes possam ser crimes formais ou de mera atividade.<br \/>[9] M. Paula Ribeiro Faria, ob. cit., 62, face \u00e0s diverg\u00eancias doutrin\u00e1rias sobre a import\u00e2ncia do resultado no il\u00edcito negligente, inclina-se para \u00abo reconhecimento de que o il\u00edcito negligente \u00e9 composto de um desvalor da conduta e de um desvalor do resultado que deve ser a concretiza\u00e7\u00e3o do risco criado ou potenciado pelo autor com a sua conduta\u00bb.<br \/>[10] Nas palavras do Professor Figueiredo Dias, in \u201cTemas B\u00e1sicos da Doutrina Penal\u201d, 2001, p\u00e1g.358, \u201cas mais das vezes, a puni\u00e7\u00e3o da neglig\u00eancia surge sem que o legislador descreva o facto a que corresponde, antes remetendo para a descri\u00e7\u00e3o respetiva pun\u00edvel a t\u00edtulo de dolo (\u201cse a conduta for praticada por neglig\u00eancia\u2026\u201d, v.g., art.\u00ba 272.\u00ba e ss.) ou renunciando, em todo o caso, a acrescentar \u00e0 viola\u00e7\u00e3o do cuidado objetivo \u2013 e eventualmente \u00e0 men\u00e7\u00e3o do resultado \u2013 elementos t\u00edpicos adicionais\u201d.<br \/>[11] Cfr. Figueiredo Dias, ob.cit., 641 e segs.<br \/>[12] M. Paula Ribeiro Faria, ob. cit., 58 e segs., que, neste ponto, seguimos de perto.<br \/>[13] M. Paula Ribeiro Faria, idem, p\u00e1g. 91.<br \/>[14] \u201cTemas B\u00e1sicos\u2026\u201d, 376.<br \/>[15] Cujo expoente m\u00e1ximo \u00e9, sabidamente, o Professor Figueiredo Dias (cfr. a sua obra \u201cDireito Penal \u2013 Parte Geral\u201d, Tomo I, 2004, 75 e segs., que, neste ponto, seguimos de perto).<br \/>[16] Com uma perspetiva diversa, defendendo que \u00abencontrar a \u201cjusta retribui\u00e7\u00e3o\u201d, a pena \u201cmerecida\u201d para o delinquente constitui a finalidade primeira da san\u00e7\u00e3o, embora logo seguida das necessidades preventivas, especial e geral\u00bb, A. Louren\u00e7o Martins, \u201cMedida da Pena \u2013 Finalidades \u2013 Escolha \u2013 Abordagem Cr\u00edtica de Doutrina e de Jurisprud\u00eancia\u201d, Coimbra Editora, 501.<br \/>[17] Por conseguinte, n\u00e3o s\u00e3o considera\u00e7\u00f5es de culpa que devem ser tidas em conta, mas ju\u00edzos de prognose sobre o desempenho da personalidade do agente perante as condi\u00e7\u00f5es da sua vida, o seu comportamento e as circunst\u00e2ncias do facto, que permitam fazer supor que as expectativas de confian\u00e7a na preven\u00e7\u00e3o da reincid\u00eancia s\u00e3o fundadas.<br \/>[18] Professor Figueiredo Dias, \u201cDireito Penal Portugu\u00eas \u2013 As Consequ\u00eancias Jur\u00eddicas do Crime\u201d, 1993, 333.<br \/>[19] Como afirma o Professor Figueiredo Dias, Op. Cit., 343, \u00e9 na \u201cpreven\u00e7\u00e3o da reincid\u00eancia\u201d que se traduz o \u201cconte\u00fado m\u00ednimo\u201d da ideia de socializa\u00e7\u00e3o.<br \/>[20] \u00c9 o que decorre do seguinte trecho do pre\u00e2mbulo do Dec. Lei n.\u00ba 48\/95, de 15 de Mar\u00e7o (que, recorde-se, operou a primeira grande reforma do C\u00f3digo Penal de 1982): \u201cA pena de pris\u00e3o \u2013 rea\u00e7\u00e3o criminal por excel\u00eancia \u2013 apenas deve lograr aplica\u00e7\u00e3o quando todas as restantes medidas se revelarem inadequadas, face \u00e0s necessidades de reprova\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>[21] N\u00e3o falta at\u00e9 quem defenda que, face \u00e0s particulares exig\u00eancias de preven\u00e7\u00e3o geral que os crimes de homic\u00eddio (tentado ou consumado) convocam, a determina\u00e7\u00e3o da pena se deva orientar, sobretudo, por considera\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o geral negativa ou de intimida\u00e7\u00e3o.<br \/>[22] Cfr., entre outros, os ac\u00f3rd\u00e3os do STJ de 05\/05\/2005 e de 08\/03\/2006, dispon\u00edveis em\u00a0www.dgsi.pt<br \/>[23] Embora circunst\u00e2ncias particulares do caso concreto possam fundamentar um ju\u00edzo de prognose positivo sobre o comportamento futuro do agente.<br \/>[24] Que deve exteriorizar-se atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es que visem a repara\u00e7\u00e3o do mal causado (reparar as consequ\u00eancias do crime, at\u00e9 onde for poss\u00edvel.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"https:\/\/www.dgsi.pt\/jtrp.nsf\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/dba7a4029dd47114802584040052deca?OpenDocument\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dgsi.pt\/jtrp.nsf\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/dba7a4029dd47114802584040052deca?OpenDocument<\/a>\"<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-58e2b67 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-58e2b67 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    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\u00e0 sua prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a das pessoas ali internadas, designadamente quando n\u00e3o possam viver autonomamente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III - Existe responsabilidade civil se a entidade respons\u00e1vel pelo lar n\u00e3o tomou as provid\u00eancias necess\u00e1rias para obstar a que uma idosa ali internada, padecente de doen\u00e7a de Alzheimer, necessitada de ser imobilizada na cama na decorr\u00eancia de epis\u00f3dios anteriores de levantamento durante a noite, morresse asfixiada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam na Sec\u00e7\u00e3o Criminal:<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>1.<\/strong>\u00a0No Processo Comum Singular n.\u00ba 1107\/16.8T9PTG, da Comarca de Portalegre, foi proferida senten\u00e7a em que se decidiu absolver as arguidas\u00a0<u>EE<\/u>\u00a0e\u00a0<u>AA<\/u>\u00a0de um crime de homic\u00eddio por neglig\u00eancia do artigo 137.\u00ba, n.\u00ba s 1 e 2, e 15.\u00ba, al\u00ednea a), ambos do CP e do pedido c\u00edvel contra as mesmas deduzido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na senten\u00e7a, foi ainda julgado parcialmente procedente o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil deduzido por AC e JC contra a demandada civil\u00a0<u>SCM,<\/u> e condenada esta a pagar aos demandantes, \u201cem partes iguais, o valor global de 95.000,00\u20ac (noventa e cinco mil euros) a t\u00edtulo de indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais causados pelo seu incumprimento contratual, acrescida de juros \u00e0 taxa legal de 4%, contados a partir da data da presente decis\u00e3o at\u00e9 efetivo e integral pagamento, nos termos da Portaria n.\u00ba 291\/2003, de 8 de Abril, absolvendo-a da parte remanescente do pedido\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Inconformada com o decidido, recorreu a demandada SCM, concluindo:<br \/>\u201ca. O facto provado 8 est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com os factos provados 11., 12., e 13., e com os depoimentos das testemunhas AM, Dr. MS e VB, dever\u00e1 passar a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: - \u201c A imobiliza\u00e7\u00e3o foi feita numa cama sem grades \u201c.<\/p><p style=\"text-align: justify\">b. Os factos provados 30. e 73. est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com os factos provados 26., 59., 58., 57., 98., 99., 100., 101., 102., 103., 104. e 110. n\u00e3o devendo ser considerados provados para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">c. O facto provado 61 dever\u00e1 ser corrigido, passando a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: - \u201cA pr\u00e1tica de conten\u00e7\u00e3o que foi utilizada no caso da utente MN \u00e9 correntemente utilizada em outras institui\u00e7\u00f5es de acolhimento de idosos e tamb\u00e9m no meio hospitalar\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">d. O facto provado 66 dever\u00e1 ser corrigido passando a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: - \u201cNos termos do acordo ajustado entre a falecida e os seus dois filhos e a SCM, datado de 16.03.2016, de que existe c\u00f3pia a fls.599 a 601, esta \u00faltima obrigou-se a prestar a MN \u2013 Alojamento, Alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e0s necessidades dos Utentes, respeitando as prescri\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, Apoio nos cuidados de higiene pessoal, Apoio no desempenho das atividades de vida di\u00e1ria, Tratamento de roupa, Apoio no cumprimento de planos individuais de medica\u00e7\u00e3o e no planeamento e acompanhamento regular de consultas m\u00e9dicas e outros cuidados de sa\u00fade\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">e. Os factos provados 68. e 69. est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com o facto provado 88, pelo que n\u00e3o poder\u00e3o ser considerados provados e invocados para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada<\/p><p style=\"text-align: justify\">f. O facto provado 71 est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o facto 87 pelo que n\u00e3o poder\u00e1 ser considerado provado e invocado para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada<\/p><p style=\"text-align: justify\">g. Os factos provados 74., 75., e 76 est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com os factos provados 11., 12., 13., 20., 26., 38., 39., 42., 43., 53., 56., 57., 58., 59., 60., 62., 63., 91., 96., 97., 98., 99., 100., 101., 102., 103., 104., 105. e 110. pelo que n\u00e3o poder\u00e3o ser considerados provados nem serem invocados para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada<\/p><p style=\"text-align: justify\">h. O facto 78 n\u00e3o est\u00e1 provado nem por documento ou prova testemunhal e est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o depoimento do Perito, pelo que n\u00e3o poder\u00e1 ser considerado provado nem invocado para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">i. A imobiliza\u00e7\u00e3o da D\u00aa MN numa cama sem grades n\u00e3o \u00e9 um facto il\u00edcito porque n\u00e3o constitui uma omiss\u00e3o de zelo exig\u00edvel, em primeiro lugar porque n\u00e3o existe nenhuma disposi\u00e7\u00e3o legal ou normativa que obrigue a demandada a deitar a ofendida numa cama com grades, vide Portaria 67\/2012 de 21 de Mar\u00e7o e Parecer da Seguran\u00e7a Social junto com o Documento n\u00ba 1 e Parecer do Conselho de Enfermagem da Ordem dos Enfermeiros junto como Documento n\u00ba 2.<\/p><p style=\"text-align: justify\">j. Em segundo lugar a ofendida foi avaliada por mais de uma vez pelo Gabinete de Fisioterapia e Reabilita\u00e7\u00e3o Psicomotora e enfermeiros da demandada, que s\u00e3o t\u00e9cnicos especializados com compet\u00eancia para efetuar as avalia\u00e7\u00f5es, que determinaram que n\u00e3o tinha os crit\u00e9rios para lhe ser atribu\u00edda uma cama com grades, porque n\u00e3o estava acamada ou totalmente dependente nem possu\u00eda outras complica\u00e7\u00f5es, como excesso de peso, problemas de mobilidade, problemas cardiorrespirat\u00f3rios ou feridas, vide factos provados 11, 12, 13<\/p><p style=\"text-align: justify\">k. N\u00e3o se verificou a viola\u00e7\u00e3o do dever de vigil\u00e2ncia porque o r\u00e1cio de pessoal da demandada \u00e9 bastante superior ao exigido legalmente, vide factos provados 100 e 101<\/p><p style=\"text-align: justify\">l. As funcion\u00e1rias que prestam servi\u00e7o no 1\u00ba piso da ERPI, onde estava a D\u00aa MN, s\u00e3o as mais bem preparadas, eficazes e da maior confian\u00e7a da demandada, havendo permanentemente vigil\u00e2ncia 24 sobre 24 horas vide factos provados 98. e 99.<\/p><p style=\"text-align: justify\">m. Al\u00e9m da ofendida ter junto da sua cama e ao seu alcance um interruptor do sistema de chamada que permite que a funcion\u00e1ria de servi\u00e7o, esteja em que local estiver, n\u00e3o s\u00f3 naquele piso mas tamb\u00e9m em qualquer ponto das instala\u00e7\u00f5es, se apercebe da chamada da ofendida, vide facto provado 58.<\/p><p style=\"text-align: justify\">n. Em noites anteriores a ofendida pediu aux\u00edlio por voz ou utilizou o sistema de chamada existente, vide facto provado 57.<\/p><p style=\"text-align: justify\">o. Mesmo num internamento em contexto hospitalar, n\u00e3o existe vigil\u00e2ncia permanente nos quartos, com exce\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de cuidados intensivos, vide facto provado 101.<\/p><p style=\"text-align: justify\">p. Al\u00e9m de que circuito interno de v\u00eddeo fechado que a demandada possui tem a autoriza\u00e7\u00e3o N.\u00ba 5594\/2016 dada pela com Comiss\u00e3o Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados que n\u00e3o permite a recolha de imagens de acesso ou interior de instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, zonas de espera, locais de lazer e repouso, corredores de acesso e interior dos quartos e cozinhas, vide Documento 3<\/p><p style=\"text-align: justify\">q. N\u00e3o se verifica assim a exist\u00eancia de facto il\u00edcito nem a culpa, pressupostos da responsabilidade civil, devendo em consequ\u00eancia ser julgado improcedente o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil em que foi condenada<\/p><p style=\"text-align: justify\">r. A n\u00e3o se entender assim, dever\u00e1 ter-se em conta no valor da indemniza\u00e7\u00e3o a idade da ofendida, o estado de sa\u00fade em que se encontrava, a esperan\u00e7a de vida e o facto de com toda a probabilidade ter falecido sem se aperceber o que estava a acontecer, por ter sofrido uma compress\u00e3o lenta que a foi asfixiando lentamente e que ao mesmo tempo por falta de oxig\u00e9nio lhe baixou o limiar de consci\u00eancia, como foi referido pelo Perito em audi\u00eancia de julgamento.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os demandantes responderam ao recurso pronunciando-se pela improced\u00eancia, e concluindo:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cI. Em nada s\u00e3o contradit\u00f3rios os factos constantes dos pontos 8, 11, 12 e 13, uma vez que, n\u00e3o se p\u00f5e em causa o teor das declara\u00e7\u00f5es prestadas pelas enfermeiras AM e VB, mas sim o facto das instru\u00e7\u00f5es por elas dadas e consequentemente, a forma como foi feita a imobiliza\u00e7\u00e3o, ser tecnicamente incorreta, uma vez que, como explicou o Sr. Perito m\u00e9dico, as imobiliza\u00e7\u00f5es podem ser realizadas com recurso a um len\u00e7ol, como sucedeu in casu, mas sempre numa cama de grades e nunca numa \u201ccama normal\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">II. A imobiliza\u00e7\u00e3o numa cama normal, n\u00e3o impede uma pessoa de cair, como veio a suceder, o que nunca aconteceria numa cama de grades, n\u00e3o colhendo qualquer credibilidade o que foi afirmado pelas enfermeiras da Recorrente, que a pessoa \u201cpode saltar por cima\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III. No que respeito aos pontos 30 e 73, se pode ser verdade que \u00e0 funcion\u00e1ria n\u00e3o era exig\u00edvel servir as ceias e vigiar os quartos em simult\u00e2neo, \u00e0 Recorrente era exig\u00edvel ter um sistema de vigil\u00e2ncia eficaz e permanente, uma vez que as imobiliza\u00e7\u00f5es que eram realizadas diariamente n\u00e3o eram seguras e possibilitavam quedas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IV. Com efeito, uma funcion\u00e1ria naquele piso \u00e9 manifestamente insuficiente como se veio a provar, uma vez que a qualquer momento um utente pode cair ou precisar de aux\u00edlio por qualquer raz\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">V. No que respeita ao ponto 61, nunca a douta senten\u00e7a diz que a Recorrente \u00e9 um hospital, o que refere \u00e9 que, como j\u00e1 se disse acima, as imobiliza\u00e7\u00f5es, a serem necess\u00e1rias, devem ser realizadas de forma segura, tal como se faz nos hospitais, em camas de grades.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VI. Relativamente ao ponto 66, entendemos que assist\u00eancia m\u00e9dica corresponde \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade e acompanhamento, conforme consta claramente do Regulamento Interno, o que n\u00e3o restam d\u00favidas, a Recorrente se obrigou a prestar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VII. No que concerne aos pontos 68 e 69, n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rios, uma vez que quando MN entrou para a Institui\u00e7\u00e3o andava pelo seu pr\u00f3prio p\u00e9, falava, conhecia todas as pessoas com quem lidava e comia sozinha, de modo que, n\u00e3o evidenciava ainda muitos sintomas de Alzheimer, pese embora j\u00e1 tivesse alguns, nomeadamente a necessidade de usar fralda, alguma confus\u00e3o esp\u00e1cio-temporal e necessitar de vigil\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VIII. Quanto ao ponto 71, o facto de MN ter estado em outras Institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o facto de os Demandantes alegarem que n\u00e3o queriam que esta estivesse sozinha em casa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IX. Relativamente aos pontos 74, 75 e 76, MN foi imobilizada, numa cama sem grades, n\u00e3o a protegeu nem fez com que ficasse em seguran\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">X. Pelo contr\u00e1rio, o len\u00e7ol causou a sua asfixia, o que nunca teria ocorrido se esse m\u00e9todo de conten\u00e7\u00e3o fosse utilizado numa cama de grades, como sucede nos hospitais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XI. Deste modo, a utiliza\u00e7\u00e3o de um meio de conten\u00e7\u00e3o, implicaria uma vigil\u00e2ncia permanente, o que n\u00e3o ocorreu em fun\u00e7\u00e3o do meio de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho da Demandada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XII. Como n\u00e3o assegurou vigil\u00e2ncia permanente, MN acabou por escorregar da cama, o que n\u00e3o aconteceria com uma cama de grades e ningu\u00e9m se apercebeu, acabando por asfixiar at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XIII. A imobiliza\u00e7\u00e3o teria de ser feita numa cama de grades e nunca como aconteceu.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XIV. A imobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se substitui a uma vigil\u00e2ncia, muito pelo contr\u00e1rio, implica maior vigil\u00e2ncia, por acarretar um risco de asfixia, que aparentemente as enfermeiras da Demandada desconheciam.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XV. Para al\u00e9m disso, importa ter em considera\u00e7\u00e3o que, por contrato celebrado em 16\/03\/2016, a SCM, obrigou-se a prestar a MN estadia, alimenta\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia, de enfermagem, acompanhamento e vigil\u00e2ncia, mediante o pagamento de uma mensalidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XVI. MN foi para o lar da Recorrente por ter sido diagnosticada com Alzheimer uma doen\u00e7a incur\u00e1vel e com tend\u00eancia para piorar e assim, estaria sempre acompanhada, vigiada e em seguran\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XVII. Ora, a Recorrente assumiu obriga\u00e7\u00f5es perante MN que, incumpriu.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XVIII. O facto de as funcion\u00e1rias n\u00e3o serem respons\u00e1veis criminalmente n\u00e3o significa que a Recorrente n\u00e3o seja respons\u00e1vel, uma vez que, esta tinha obriga\u00e7\u00e3o de organizar o servi\u00e7o, o espa\u00e7o e os recursos de modo a ser garantida a seguran\u00e7a dos utentes, que pagavam por esse servi\u00e7o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XIX. A Demandada ao permitir que MN estivesse sem vigil\u00e2ncia adequada, incorretamente imobilizada e ao permitir que esta escorregasse da cama, acabando por ser asfixiada com um len\u00e7ol, at\u00e9 \u00e0 morte, omitiu os deveres de cuidado a que, contratualmente, se tinha obrigado, sendo assim, respons\u00e1vel civilmente pela morte daquela.<\/p><p style=\"text-align: justify\">XX. Pelo que, a douta senten\u00e7a proferida pelo Tribunal a quo, que condenou a Recorrente, deve ser integralmente mantida, n\u00e3o merecendo qualquer reparo e consequentemente, ser o recurso improcedente.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Neste Tribunal, o Sr. Procuradora-geral Adjunto ap\u00f4s o seu visto e teve lugar a confer\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>2.<\/strong>\u00a0Na senten\u00e7a, consideraram-se os seguintes factos provados:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201c1. A ofendida MN, nascida em 17-06-1941, encontrava-se, desde 16-03-2016, a residir na Estrutura Residencial para Pessoas Idosas (ERPI), Dr. ---, da SCM, sita \u2026em Portalegre, onde dormia, inicialmente no quarto n.\u00ba 207 do 2.\u00ba piso, depois passou para o lar do Esp\u00edrito Santo a 18\/03\/2016, voltando \u00e0 ERPI a 13\/09\/2016, ficando no quarto n.\u00ba 113 do 1.\u00ba piso, passando posteriormente, a partir do dia 30\/10\/2016, para o quarto n.\u00ba 114, tamb\u00e9m do 1.\u00ba piso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2. A ofendida padecia de doen\u00e7a de Alzheimer costumando mostrar-se muito agitada de noite, sendo frequente levantar-se v\u00e1rias vezes da cama, chamar as ajudantes e gritar durante toda a noite.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3. A 19\/09\/2016 a ofendida caiu da cama e n\u00e3o se queixou de nada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4. A 30\/10\/2016 a ofendida caiu por duas vezes, a primeira durante a noite\/madrugada, e a segunda no refeit\u00f3rio, cerca das 19h00, ap\u00f3s o jantar, apresentando a face do lado direito inchada e negra perto da vista.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5. Nesse mesmo dia a ofendida foi observada nas urg\u00eancias do hospital, verificando-se que n\u00e3o apresentava nenhuma fratura, apenas estava magoada com dores.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6. Cerca das 11h00 do dia 30\/10\/2016, a enfermeira MM ligou ao Dr. S. por causa da agita\u00e7\u00e3o noturna da ofendida, tendo este dado indica\u00e7\u00f5es para se administrar ao jantar 2,5mg de Lorenin, um ansiol\u00edtico que ajuda a dormir.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7. Devido \u00e0 sua agita\u00e7\u00e3o, para evitar quedas, a equipa de enfermagem do Lar determinou que, at\u00e9 ordem em contr\u00e1rio, a ofendida deveria ser imobilizada na cama, mediante a coloca\u00e7\u00e3o de um len\u00e7ol atado \u00e0 cama, e atravessado como se fosse uma faixa, sobre o seu t\u00f3rax, na regi\u00e3o infra mam\u00e1ria, deixando os bra\u00e7os e as pernas livres.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8. Por\u00e9m a imobiliza\u00e7\u00e3o foi feita numa cama sem grades ou qualquer outra prote\u00e7\u00e3o lateral, como \u00e9 pr\u00e1tica comum na ERPI, o que apenas prevenia que a ofendida se levantasse de noite e ca\u00edsse, mas j\u00e1 n\u00e3o prevenia uma queda da cama, como veio a ocorrer.<\/p><p style=\"text-align: justify\">9. A 4\/11\/2016 estavam a ser prescritos \u00e0 ofendida medicamentos com efeito calmante ou similar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10. Na ERPI existem camas articuladas (todas com grades), e camas simples, com uma altura de 50 cm do ch\u00e3o, nas quais podem ser colocadas grades amov\u00edveis.<\/p><p style=\"text-align: justify\">11. O gabinete de fisioterapia e reabilita\u00e7\u00e3o psicomotora da SCM realizou uma avalia\u00e7\u00e3o \u00e0 ofendida no dia 21\/03\/2016, e em face dos resultados determinou que aquela necessitava de uma cama sem barreiras e com altura reduzida, uma vez que n\u00e3o se encontrava acamada ou totalmente dependente, mas apenas necessitava de aux\u00edlio no banho e a vestir-se.<\/p><p style=\"text-align: justify\">12. Na ERPI as camas articuladas s\u00e3o atribu\u00eddas a utentes acamados ou totalmente dependentes ou com complica\u00e7\u00f5es a outros n\u00edveis (excesso de peso, altera\u00e7\u00e3o satura\u00e7\u00e3o de oxig\u00e9nio, feridas, altera\u00e7\u00e3o mobilidade, entre outras) que necessitam de permanecer mais tempo no leito. Estas camas s\u00e3o regul\u00e1veis em altura, o que facilita a transfer\u00eancia dos utentes e o trabalho dos auxiliares.<\/p><p style=\"text-align: justify\">13. O gabinete de fisioterapia e reabilita\u00e7\u00e3o psicomotora da SCM considerou que n\u00e3o houve altera\u00e7\u00f5es significativas na avalia\u00e7\u00e3o entre Mar\u00e7o a Outubro de 2016 que fizesse justificar a altera\u00e7\u00e3o dos recursos f\u00edsicos\/ajudas t\u00e9cnicas (fornecimento de cadeiras de rodas, bengalas, andarilho, cama articulada, entre outros).<\/p><p style=\"text-align: justify\">14. As arguidas EE e AA, na qualidade de ajudantes de lar, Estrutura Residencial para Pessoas Idosas Dr. --- da SCM, foram escaladas para assegurarem o turno do per\u00edodo noturno do dia 04-11-2016, junto do 1.\u00ba piso, daquele Lar de idosos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">15. Assim, a arguida EE tinha de assegurar o turno at\u00e9 \u00e0s 21h00m do dia 4-11-2016, para ent\u00e3o ser substitu\u00edda pela arguida AA, para vigil\u00e2ncia e presta\u00e7\u00e3o de cuidados \u00e0s utentes acomodadas no 1.\u00ba piso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">16. Na qualidade de ajudantes de lar, competia \u00e0s arguidas a vigil\u00e2ncia das utentes, a garantia da sua seguran\u00e7a e a presta\u00e7\u00e3o de cuidados b\u00e1sicos como a administra\u00e7\u00e3o de medica\u00e7\u00e3o, a toma das refei\u00e7\u00f5es e o apoio na higiene di\u00e1ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">17. Para vigil\u00e2ncia das utentes, competia \u00e0s arguidas a realiza\u00e7\u00e3o de rondas junto dos quartos das mesmas, a ocorrer obrigatoriamente no fim dos turnos do per\u00edodo noturno, que terminavam \u00e0s 21h00m.<\/p><p style=\"text-align: justify\">18. E competia em especial uma vigil\u00e2ncia permanente sobre as utentes instaladas no 1.\u00ba piso, por se encontrarem dependentes das ajudantes, como era o caso da ofendida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">19. Ap\u00f3s o jantar, entre as 19h30m e as 20h00, de 04-11-2016, a arguida EE deitou a ofendida na cama em dec\u00fabito lateral direito, e imobilizou-a, tal como tinha sucedido nos dias anteriores, colocando-lhe uma faixa de len\u00e7ol, sobre o t\u00f3rax, na regi\u00e3o infra mam\u00e1ria, e atou-a \u00e0 cama, para a manter deitada e evitar que se levantasse e ca\u00edsse durante a noite.<\/p><p style=\"text-align: justify\">20. A imobiliza\u00e7\u00e3o realizada pela arguida EE obedeceu a todas as instru\u00e7\u00f5es transmitidas pelas enfermeiras na forma\u00e7\u00e3o anual que ministram nessa mat\u00e9ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">21. A arguida EE efetuou uma ronda de vigil\u00e2ncia junto da ofendida, antes de ser substitu\u00edda pela arguida AA, cerca das 21h00m dessa noite, verificando que se encontrava bem.<\/p><p style=\"text-align: justify\">22. Por sua vez, ao assumir o turno que se iniciou \u00e0s 21h00m daquela noite, a arguida AA foi de imediato para a copa do 1\u00ba piso, da Estrutura Residencial Para Pessoas Idosas Dr. ---, preparar as ceias e de seguida procedeu \u00e0 sua distribui\u00e7\u00e3o pelos utentes, tendo chegado ao quarto 114 por volta das 22h00.<\/p><p style=\"text-align: justify\">23. O quarto 114 da ofendida era o \u00faltimo quarto do 1.\u00ba piso a ser servido e verificado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">24. No turno que se inicia \u00e0s 13h00, e finda \u00e0s 21h00, est\u00e3o ao servi\u00e7o duas ajudantes de lar para o 1.\u00ba piso, ao passo que no turno seguinte (das 21h00 \u00e0s 09h00) j\u00e1 s\u00f3 se encontra ao servi\u00e7o uma ajudante de lar para aquele piso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">25. A enfermeira de servi\u00e7o sai da ERPI \u00e0s 19h00, e a partir da\u00ed est\u00e1 acess\u00edvel por via telef\u00f3nica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">26. A ofendida n\u00e3o chamou, oralmente ou atrav\u00e9s do sistema de chamada, nenhuma das auxiliares.<\/p><p style=\"text-align: justify\">27. Em hora n\u00e3o concretamente apurada, situada entre as 21h00m e as 21h30m, do dia 04-11-2016, a ofendida MN, apesar de se encontrar imobilizada com a referida faixa de len\u00e7ol em volta do t\u00f3rax, conseguiu movimentar-se na cama.<\/p><p style=\"text-align: justify\">28. Assim, a ofendida, tentou sozinha libertar-se da faixa de len\u00e7ol que a prendia \u00e0 cama, agitando o corpo e exercendo for\u00e7a com os bra\u00e7os e m\u00e3os contra a mesma, at\u00e9 conseguir colocar os bra\u00e7os por baixo da faixa, a qual acabou por se deslocar da zona do t\u00f3rax para a zona do pesco\u00e7o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">29. Depois a ofendida foi escorregando lateralmente da cama, at\u00e9 que, por incapacidade de mudar de posi\u00e7\u00e3o, acabou por ficar presa, com a faixa em roda do pesco\u00e7o, que a foi lentamente comprimindo, produzindo-lhe asfixia at\u00e9 lhe causar a morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">30. Nessa altura, ao precisar de aux\u00edlio, a ofendida n\u00e3o tinha nenhuma ajudante a vigi\u00e1-la que a pudesse ajudar, pois que a \u00fanica ajudante de servi\u00e7o encontrava-se a administrar a ceia aos outros utentes nos respetivos quartos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">31. Quando a arguida AA chegou ao quarto da ofendida para administrar a ceia, cerca das 22h00m, daquela noite, encontrou-a j\u00e1 prostrada e sem sinais vitais, inclinada em posi\u00e7\u00e3o de dec\u00fabito lateral esquerdo e suspensa pelo len\u00e7ol, a vincar-lhe o pesco\u00e7o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">32. O \u00f3bito da ofendida foi certificado como tendo ocorrido pelas 21h30m, do dia 04-11-2016, sem causa de morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">33. Da aut\u00f3psia m\u00e9dico-legal resultou comprovado que a morte da ofendida se deveu a uma asfixia mec\u00e2nica por constri\u00e7\u00e3o do pesco\u00e7o \u2013 sufoca\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">34. As arguidas s\u00e3o trabalhadoras da SCMP - SCM, com a categoria de Ajudantes de Lar, exercendo a sua atividade na ERPI - Estrutura Residencial para Pessoas Idosas Dr. ---, sita\u2026, em Portalegre.<\/p><p style=\"text-align: justify\">35. Exerciam, \u00e0 data dos factos, essa atividade, no Piso 1 da referida ERPI.<\/p><p style=\"text-align: justify\">36. No dia 04.11.2016 a arguida EE trabalhou no turno que teve in\u00edcio \u00e0s 13h e termo \u00e0s 21h.<\/p><p style=\"text-align: justify\">37. E a arguida AA no turno que teve in\u00edcio \u00e0s 21h e termos \u00e0s 09h.<\/p><p style=\"text-align: justify\">38. A SCMP tem uma Equipa de Sa\u00fade \u00e0 qual cabe, entre outras compet\u00eancias, a determina\u00e7\u00e3o de utiliza\u00e7\u00e3o de medidas de conten\u00e7\u00e3o aos utentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">39. As arguidas est\u00e3o funcional e tecnicamente subordinadas \u00e0s determina\u00e7\u00f5es da Equipa de Sa\u00fade, no que respeita a medidas de conten\u00e7\u00e3o dos utentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">40. A Equipa de Sa\u00fade tinha determinado que a utente MN deveria ser sujeita, quando se deitasse, a medida de conten\u00e7\u00e3o para limita\u00e7\u00e3o dos seus movimentos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">41. Tal medida traduz-se na utiliza\u00e7\u00e3o de um len\u00e7ol dobrado na diagonal, colocado na regi\u00e3o infra mam\u00e1ria, passando por baixo dos bra\u00e7os, sendo as pontas do len\u00e7ol atadas nos lados da cama, devendo ser dada uma pequena folga.<\/p><p style=\"text-align: justify\">42. No cumprimento de tais instru\u00e7\u00f5es, a arguida EE procedeu \u00e0 imobiliza\u00e7\u00e3o da utente MN, nos termos supra indicados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">43. A arguida EE e a sua colega MHC, na ronda de final de turno, pelas 20.40h, verificaram que a utente MN se encontrava corretamente imobilizada, deitada na sua cama e que se encontrava calma.<\/p><p style=\"text-align: justify\">44. As Ajudantes de Lar, no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es, devem registar no Livro de Ocorr\u00eancias, no caso, no Livro de Ocorr\u00eancias do Piso 1, as situa\u00e7\u00f5es an\u00f3malas de que seja necess\u00e1rio outros funcion\u00e1rios da SCMP terem conhecimento, designadamente os funcion\u00e1rios que fazem o turno seguinte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">45. N\u00e3o est\u00e1 previsto que as situa\u00e7\u00f5es de imobiliza\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o medidas preventivas, tenham de ser levadas ao Livro de Ocorr\u00eancias.<\/p><p style=\"text-align: justify\">46. Na passagem de turno das 21h do dia 04\/11\/2016, apenas consta no Livro de Ocorr\u00eancias da ERPI, Piso1: \u201cO Sr. JR vai para o quarto pois n\u00e3o se estava a sentir bem. Tinha diarreia tamb\u00e9m. Ao jantar s\u00f3 quis a sopa.\u201d - Assinado por MHC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">47. A arguida AA entrou de servi\u00e7o \u00e0s 21.00h.<\/p><p style=\"text-align: justify\">48. Nada constava do Livro de Ocorr\u00eancias, nem nada lhe foi assinalado na passagem do turno, que justificasse, antes de dar in\u00edcio \u00e0s tarefas que lhe competia executar, verificar como se encontrava a utente MN.<\/p><p style=\"text-align: justify\">49. Assim, deu in\u00edcio \u00e0 primeira de tais tarefas, ou seja, servir uma refei\u00e7\u00e3o ligeira, composta por uma bebida e bolachas e verificar posicionamentos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">50. O quarto mais pr\u00f3ximo do local onde se encontram tais alimentos e os utens\u00edlios necess\u00e1rios, \u00e9 o quarto 101, pelo que iniciou tal servi\u00e7o nesse quarto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">51. A arguida chegou ao quarto 114 pelas 22h e deparou com a utente MN aparentemente sem vida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">52. Procedeu de imediato ao contacto com a Equipa de Sa\u00fade, tendo esta promovido os procedimentos necess\u00e1rios \u00e0 situa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">53. Desde as 21h \u00e0s 22h nada se verificou que justificasse que a arguida AA se deslocasse ao quarto da utente MN.<\/p><p style=\"text-align: justify\">54. Naquela noite havia mais 3 utentes no Piso 1 a quem foram aplicadas medidas de conten\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">55. \u00c9 frequente haver utentes sujeitos a medidas de conten\u00e7\u00e3o pelas mesmas raz\u00f5es da utente MN.<\/p><p style=\"text-align: justify\">56. Tamb\u00e9m a malograda MN tinha sido sujeita a tal medida algumas vezes, antes do dia 4\/11\/2016, sem que nada, igualmente, tenha justificado algum procedimento especial.<\/p><p style=\"text-align: justify\">57. Em noites anteriores a utente MN pediu aux\u00edlio por voz ou utilizando o sistema de chamada existente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">58. Tal sistema permite que a Auxiliar, esteja em que local estiver, n\u00e3o s\u00f3 naquele piso mas tamb\u00e9m em qualquer ponto das instala\u00e7\u00f5es, se aperceba da chamada da utente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">59. A utente MN n\u00e3o utilizou a campainha de chamada existente junto da sua cama e ao seu alcance, nem chamou oralmente nenhuma das arguidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">60. A arguida AA nunca se ausentou do 1\u00ba Piso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">61. A pr\u00e1tica de conten\u00e7\u00e3o que foi utilizada no caso da utente MN \u00e9 correntemente utilizada em outras institui\u00e7\u00f5es de acolhimento de idosos e tamb\u00e9m em meio hospitalar, sendo que no hospital de Portalegre todas as camas t\u00eam grades.<\/p><p style=\"text-align: justify\">62. As arguidas s\u00e3o funcion\u00e1rias zelosas e diligentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">63. As arguidas cumpriram as suas fun\u00e7\u00f5es de acordo com as orienta\u00e7\u00f5es superiormente estabelecidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">64. Os demandantes s\u00e3o filhos e \u00fanicos herdeiros de MN, falecida no estado de vi\u00fava.<\/p><p style=\"text-align: justify\">65. A demandada SCM \u00e9 propriet\u00e1ria do lar residencial do Esp\u00edrito Santo, \u2026, em Portalegre.<\/p><p style=\"text-align: justify\">66. Nos termos do acordo ajustado entre a falecida e os seus dois filhos e a SCM, datado de 16\/03\/2016, de que existe c\u00f3pia a fls. 599 a 601, esta \u00faltima obrigou-se a prestar a MN estadia, alimenta\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia m\u00e9dica, de enfermagem, acompanhamento e vigil\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">67. Mediante o pagamento mensal da import\u00e2ncia de 700,00\u20ac, acrescido de despesas com vestu\u00e1rio, medicamentos, fraldas, entre outros.<\/p><p style=\"text-align: justify\">68. \u00c0 data da entrada no lar, MN, tinha 75 anos de idade e padecia de Alzheimer, h\u00e1 pouco tempo, evidenciado, ainda, poucos sintomas da referida doen\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">69. MN ainda n\u00e3o era muito dependente de terceiros para satisfazer as suas necessidades de alimenta\u00e7\u00e3o, higiene e vestu\u00e1rio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">70. Mas, tendo em considera\u00e7\u00e3o a natureza da doen\u00e7a, a sua evolu\u00e7\u00e3o e irreversibilidade, e por saberem que mais cedo ou mais tarde, necessitaria de cuidados e aten\u00e7\u00e3o constantes, os demandantes decidiram colocar a sua m\u00e3e na aludida institui\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">71. Evitando assim os riscos inerentes ao facto de esta residir sozinha, em Portalegre, longe dos demandantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">72. Os demandantes ficaram absolutamente convencidos que naquele local, a sua m\u00e3e, teria acesso a cuidados e vigil\u00e2ncia que n\u00e3o lhe conseguiam prestar, atento o facto de residirem com as respetivas fam\u00edlias e trabalharem longe da resid\u00eancia daquela.<\/p><p style=\"text-align: justify\">73. Precisando de aux\u00edlio, ningu\u00e9m apareceu para lho prestar, verificando-se a inexist\u00eancia de qualquer vigil\u00e2ncia entre as 21h00 e as 21h30.<\/p><p style=\"text-align: justify\">74. Com o comportamento adotado pelas funcion\u00e1rias \u2013 auxiliares e enfermeiras da SCM que, agindo sob as suas ordens e instru\u00e7\u00f5es, prenderam MN com uma faixa de len\u00e7ol a uma cama sem grades, e n\u00e3o asseguraram a vigil\u00e2ncia devida, a institui\u00e7\u00e3o incumpriu, de forma grave, as obriga\u00e7\u00f5es que tinha assumido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">75. Omitindo os deveres de cuidado a que estava obrigada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">76. Causando assim diretamente a morte de MN.<\/p><p style=\"text-align: justify\">77. A morte de MN n\u00e3o foi instant\u00e2nea ou imediata.<\/p><p style=\"text-align: justify\">78. Durante o lapso temporal em que a faixa se enrolou no seu pesco\u00e7o a at\u00e9 \u00e0 morte, MN momentos de afli\u00e7\u00e3o, dor e sofrimento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">79. Faleceu sozinha.<\/p><p style=\"text-align: justify\">80. Os demandantes nutriam pela sua m\u00e3e um grande amor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">81. A morte desta, nas circunst\u00e2ncias em que ocorreu, constituiu um rude golpe que n\u00e3o estavam preparados para enfrentar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">82. Visitavam-na regularmente durante o per\u00edodo em que esteve no lar da demandada, telefonavam diariamente para se inteirarem do seu estado e sempre cuidaram para que nada lhe faltasse.<\/p><p style=\"text-align: justify\">83. Nas v\u00e1rias visitas que faziam \u00e0 sua m\u00e3e, sempre lhe mostraram o amor e carinho que tinham por ela.<\/p><p style=\"text-align: justify\">84. A sua morte e o sofrimento que esta envolveu, causaram e continuam a causar uma grande dor aos demandantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">85. Choram e sentem a falta da sua m\u00e3e diariamente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">86. Continuam a sentir uma imensa dor e saudade e n\u00e3o se conformam com a sua morte, nas circunst\u00e2ncias em que ocorreu.<\/p><p style=\"text-align: justify\">87. A D\u00aa MN antes de ter entrado no Lar Residencial do Espirito Santo da Demandada, j\u00e1 tinha estado em dois estabelecimentos de Lar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">88. E quando entrou no dia 16.03.2016, vinha com a indica\u00e7\u00e3o de que sofria de Alzheimer e com diagn\u00f3stico de dem\u00eancia, perdia-se no espa\u00e7o e no tempo, e por isso necessitava de supervis\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o para a sua higiene pessoal, com indica\u00e7\u00e3o que usava fralda de noite e que necessitava de vigil\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">89. Durante a estadia da D\u00aa MN nos estabelecimentos da Demandada, verificaram-se v\u00e1rias ocorr\u00eancias de agita\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">90. Os epis\u00f3dios de agita\u00e7\u00e3o eram muito frequentes e por vezes puseram em causa a integridade e seguran\u00e7a da pr\u00f3pria D\u00aa MN e de outras utentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">91. E como medida de preven\u00e7\u00e3o, de modo a assegurar a integridade f\u00edsica da D\u00aa MN e das outras utentes, foi por v\u00e1rias vezes imobilizada durante a noite com um len\u00e7ol que passava por baixo da zona infra mam\u00e1ria e ia atar \u00e0s extremidades laterais da cama.<\/p><p style=\"text-align: justify\">92. Era dada folga no len\u00e7ol para permitir que a utente D\u00aa MN pudesse durante a noite mudar de posi\u00e7\u00e3o na cama.<\/p><p style=\"text-align: justify\">93. Para al\u00e9m de permitir que os bra\u00e7os e as pernas estivessem sempre livres.<\/p><p style=\"text-align: justify\">94. E se fosse necess\u00e1rio durante a noite a utente ir \u00e0 casa de banho, chamava a ajudante de lar atrav\u00e9s da campainha que estava ao seu alcance na cama.<\/p><p style=\"text-align: justify\">95. A ordem para imobilizar a D\u00aa MN bem como as outras utentes que necessitavam de o ser, era dada pela enfermeira e executada pela ajudante de lar que estivesse de servi\u00e7o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">96. As enfermeiras da Demandada davam forma\u00e7\u00e3o \u00e0s ajudantes de lar do modo e t\u00e9cnica para efetuarem as imobiliza\u00e7\u00f5es \u00e0s utentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">97. Al\u00e9m de que a Demandada tem a preocupa\u00e7\u00e3o de efetuar permanentemente forma\u00e7\u00e3o \u00e0s suas funcion\u00e1rias.<\/p><p style=\"text-align: justify\">98. E as ajudantes de lar que prestam servi\u00e7o no 1\u00ba piso do ERPI onde est\u00e3o os utentes mais dependentes, local onde estava a D\u00aa MN, s\u00e3o as mais bem preparadas, mais eficazes e da maior confian\u00e7a da Demandada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">99. Al\u00e9m de que este 1\u00ba piso do ERPI - Estrutura Residencial para Pessoas Idosas Dr. --- tem permanentemente 24 sobre 24 horas vigil\u00e2ncia pelo menos por uma ajudante de lar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">100. Os r\u00e1cios de pessoal da Demandada s\u00e3o bastante superiores aos exigidos legalmente, mas mesmo assim \u00e9 imposs\u00edvel ter uma ajudante de lar de modo permanente em todos os quartos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">101. Nem t\u00e3o pouco em internamento em contexto hospitalar, existe vigil\u00e2ncia permanente nos quartos, com exce\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de cuidados intensivos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">102. A atividade da Demandada est\u00e1 sujeita \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o do seu funcionamento, quanto \u00e0 qualidade e regularidade dos servi\u00e7os prestados aos utentes, nomeadamente quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de instala\u00e7\u00e3o e alojamento, adequa\u00e7\u00e3o do equipamento, alimenta\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es higienossanit\u00e1rias, pelos Servi\u00e7os do Instituto da Seguran\u00e7a Social.<\/p><p style=\"text-align: justify\">103. E no \u00e2mbito dessa fiscaliza\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o, os Servi\u00e7os do Instituto da Seguran\u00e7a Social, no \u00e2mbito dos relat\u00f3rios de 7\/10\/2016, de 02\/11\/2016, e Setembro\/2018, n\u00e3o detetaram qualquer irregularidade \u00e0 resposta social ERPI ou mesmo qualquer proposta de altera\u00e7\u00e3o ao seu funcionamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">104. A Demandada possui uma estrutura organizada e com procedimentos bem definidos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">105. N\u00e3o existiu qualquer incumprimento ou omiss\u00e3o por parte das arguidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">106. A Demandada nos termos do n.\u00ba 3 do artigo 1\u00ba do Compromisso da Irmandade da SCM, tem reconhecida a sua personalidade jur\u00eddica civil, com estatuto de Institui\u00e7\u00e3o Particular de Solidariedade Social, sendo considerada uma entidade da economia social, nos termos da respetiva Lei de Bases, e natureza de Pessoa Coletiva de Utilidade P\u00fablica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais se provou com relevo para a determina\u00e7\u00e3o da san\u00e7\u00e3o, que:<br \/>107. As arguidas n\u00e3o t\u00eam antecedentes criminais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">108. A arguida EE trabalha como empregada de limpeza a tempo parcial, aufere um vencimento mensal superior a 400,00\u20ac, vive com o seu filho de 20 anos, estudante do 12.\u00ba ano, suporta 300\u20ac de renda, e 100\u20ac de presta\u00e7\u00e3o mensal do cr\u00e9dito autom\u00f3vel; tem o 9.\u00ba ano de escolaridade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">109. A arguida AA trabalha como ajudante de lar na SCM, aufere um vencimento mensal superior a 600,00\u20ac, vive em casa pr\u00f3pria paga, com o seu filho de 18 anos, estudante do 12.\u00ba ano, e com o seu marido, que trabalha por conta pr\u00f3pria e aufere um rendimento mensal de cerca de 600,00\u20ac; tem como habilita\u00e7\u00f5es escolares o grau de licenciatura em servi\u00e7o social.<\/p><p style=\"text-align: justify\">110. A arguida AA \u00e9 considerada pela SCM como uma excelente funcion\u00e1ria, extremamente competente e respons\u00e1vel.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foram considerados n\u00e3o provados os seguintes factos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201ci) Da acusa\u00e7\u00e3o:<br \/>A. Depois disso e apesar de saber que a ofendida se mantinha agitada durante a noite e de que a mesma se encontrava imobilizada na cama, a arguida EE n\u00e3o se manteve vigilante, de forma permanente, junto do quarto onde a ofendida se encontrava, desde essa altura e at\u00e9 ao final do seu turno, que terminava \u00e0s 21h00m;<\/p><p style=\"text-align: justify\">B. Por sua vez, ao assumir o turno que se iniciou \u00e0s 21h00m daquela noite, competia \u00e0 arguida AA ir logo para junto das utentes do 1.\u00ba piso;<\/p><p style=\"text-align: justify\">C. Ao assim agir, bem sabiam as arguidas que a ofendida, enquanto doente idosa e imobilizada, tinha de ser vigiada para garantia da sua seguran\u00e7a e que na qualidade de ajudantes de lar especialmente encarregues daquela utente, estavam obrigadas a vigi\u00e1-la e a zelar pela sua seguran\u00e7a;<\/p><p style=\"text-align: justify\">D. E ao atuarem da forma descrita, cada uma das arguidas agiu ciente de que atentas as circunst\u00e2ncias, era previs\u00edvel que a sua conduta pudesse contribuir de forma determinante para a coloca\u00e7\u00e3o em perigo de vida da ofendida, atenta a possibilidade de ocorr\u00eancia de um acidente e asfixia decorrente da imobiliza\u00e7\u00e3o da ofendida e n\u00e3o obstante, n\u00e3o se conformaram-se com tal possibilidade;<\/p><p style=\"text-align: justify\">E. A conduta das arguidas colocou assim a ofendida em risco, concretizado, de asfixia e foi causadora da sua morte;<\/p><p style=\"text-align: justify\">F. Com a sua conduta, cada uma das arguidas, violou o especial dever de cuidado que impendia sobre as mesmas de vigiar a ofendida, de garantir a sua seguran\u00e7a e de lhe prestar os cuidados b\u00e1sicos, que constitu\u00edam as suas fun\u00e7\u00f5es principais como funcion\u00e1rias da institui\u00e7\u00e3o, o que era do seu conhecimento;<\/p><p style=\"text-align: justify\">G. E tal conduta configura, por parte das arguidas, uma viola\u00e7\u00e3o de deveres de cuidado e a omiss\u00e3o de cuidados b\u00e1sicos que as arguidas tinham de prestar a ofendida, que s\u00f3 por descuido, desinteresse e inc\u00faria ocorreu;<\/p><p style=\"text-align: justify\">H. Ambas sabiam tamb\u00e9m que a sua conduta era proibida e punida criminalmente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">ii) Do pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil:<\/p><p style=\"text-align: justify\">I. As demandadas arguidas n\u00e3o asseguraram a vigil\u00e2ncia devida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">J. As demandadas arguidas omitiram os deveres de cuidado a que estavam obrigadas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">iii) Da contesta\u00e7\u00e3o das arguidas:<\/p><p style=\"text-align: justify\">K. Nada permitia prever a situa\u00e7\u00e3o que levou \u00e0 morte da utente MN.<\/p><p style=\"text-align: justify\">iv) Da contesta\u00e7\u00e3o da demandada civil SCM:<br \/>L. N\u00e3o existiu qualquer incumprimento ou omiss\u00e3o por parte da Demandada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">M. Nem a morte da D\u00aa MN foi causada por qualquer Ac\u00e3o ou omiss\u00e3o da Demandada, n\u00e3o se verificando qualquer nexo de causalidade.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">E a motiva\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de facto foi a seguinte:<br \/>\u201cO tribunal formou a sua convic\u00e7\u00e3o relativamente \u00e0 mat\u00e9ria de facto, com base na aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da prova produzida em sede de julgamento e, em resultado de uma avalia\u00e7\u00e3o englobante do contexto probat\u00f3rio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em particular, a convic\u00e7\u00e3o do tribunal baseou-se, quanto aos factos considerados como provados na aprecia\u00e7\u00e3o conjugada e de acordo com as regras de experi\u00eancia comum, nos seguintes elementos de prova:<\/p><p style=\"text-align: justify\">- nos depoimentos de todos os ajudantes, enfermeiros, m\u00e9dico, que prestam servi\u00e7o na SCM, o seu Provedor, e a Diretora da ERPI, e dos agentes da PSP que foram chamados ao local, na medida em que, ou se encontravam presentes no momento da ocorr\u00eancia de parte dos factos, tendo presenciado os mesmos no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es; ou prestaram depoimento a partir do seu conhecimento e experi\u00eancia profissionais quanto ao modo de funcionamento do lar, e\/ou dos procedimentos de imobiliza\u00e7\u00e3o de utentes; os quais com reconhecida clareza e seguran\u00e7a nos seus depoimentos, revelaram-se inteiramente cred\u00edveis com tal conhecimento de causa e inequ\u00edvoca isen\u00e7\u00e3o, mostram-se inteiramente compat\u00edveis entre si, merecendo total credibilidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- nas declara\u00e7\u00f5es dos demandantes civis quanto aos danos n\u00e3o patrimoniais por si sofridos e ao estado de sa\u00fade da ofendida, as quais se revelaram cred\u00edveis e de acordo com os ju\u00edzos de normalidade de dois filhos que perdem inesperadamente a m\u00e3e nestas tr\u00e1gicas circunst\u00e2ncias.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- nas declara\u00e7\u00f5es da m\u00e9dica neurologista da ofendida, do seu irm\u00e3o e cunhada, ao estado de sa\u00fade da ofendida, as quais se revelaram claras e corroborantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- no teor da prova pericial consubstanciada no relat\u00f3rio m\u00e9dico-legal junto aos autos a fls. 444-450, o aditamento ao relat\u00f3rio de aut\u00f3psia m\u00e9dico-legal, de fls. 513-519, o relat\u00f3rio de exame toxicol\u00f3gico, de fls. 451, o relat\u00f3rio de exame toxicol\u00f3gico complementar (medica\u00e7\u00e3o), de fls. 520, e a an\u00e1lise histol\u00f3gica, de fls. 452\/453; bem como as declara\u00e7\u00f5es do Sr. Perito que prestou diversos esclarecimentos em sede de audi\u00eancia de julgamento, os quais se revelaram esclarecedores.<\/p><p style=\"text-align: justify\">- foram ainda considerados os documentos constantes dos autos, designadamente a participa\u00e7\u00e3o de fls. 2\/3, o aditamento, de fls. 191, o certificado de \u00f3bito, de fls. 8, o registo do \u00f3bito (SICO), de fls. 13, os dados de identifica\u00e7\u00e3o civil da ofendida, de fls. 9, a reportagem fotogr\u00e1fica, de fls. 26-29, as fotografias de fls. 697-720, a certid\u00e3o de habilita\u00e7\u00e3o de herdeiros de fls. 587\/598, o contrato de fls. 599-601, e os documentos da SCM, designadamente o processo cl\u00ednico, de fls. 63-67, as prescri\u00e7\u00f5es terap\u00eauticas, de fls. 474-493, o registo de administra\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, de fls. 496-502, as informa\u00e7\u00f5es, de fls. 277, 495 e 564, a certid\u00e3o de ocorr\u00eancias, de fls. 68-147 e 436-443, as c\u00f3pias de contratos de trabalho, de fls. 461-473, o regulamento interno, de fls. 222-266 e 602-609, o quadro de pessoal, de fls. 267-273 e 277-279, os documentos sobre forma\u00e7\u00e3o profissional, de fls. 304-316 e 393-434, e os documentos sobre fiscaliza\u00e7\u00e3o, de fls. 332-390 e 552-563, o registo de consulta de fls. 614, o perfil profissional da arguida AA de fls. 615, e o relat\u00f3rio de avalia\u00e7\u00e3o de fls. 686\/687.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Relativamente aos antecedentes criminais, o tribunal teve em conta os certificados de registo criminal constante dos autos a fls. 764\/765.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es pessoais das arguidas o tribunal teve em considera\u00e7\u00e3o o teor das suas declara\u00e7\u00f5es a esse respeito prestadas na audi\u00eancia de julgamento, por se afigurarem plaus\u00edveis e cred\u00edveis.<br \/>*<br \/>Perante este conjunto de elementos de prova n\u00e3o se provou a vers\u00e3o constante do libelo acusat\u00f3rio e do despacho de pron\u00fancia, na medida em que resultou claro que a morte da ofendida n\u00e3o pode ser imputada \u00e0 atua\u00e7\u00e3o das duas arguidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Efetivamente a arguida EE limitou-se a seguir as instru\u00e7\u00f5es que lhe foram transmitidas, quer pelas enfermeiras para imobilizarem a ofendida com a faixa de len\u00e7ol, tendo-o feito de acordo com a forma\u00e7\u00e3o que lhe foi ministrada; quer pelo gabinete de fisioterapia e reabilita\u00e7\u00e3o psicomotora da SCM, o qual determinou que a arguida n\u00e3o devia dormir numa cama com grades.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais se provou, pelas declara\u00e7\u00f5es cred\u00edveis da ajudante de lar MHC \u2013, a qual esteve igualmente a trabalhar no turno das 13h00 \u00e0s 21h00, do dia 4\/11\/2016, juntamente com a arguida EE \u2013, que foi feita uma ronda pelos quartos antes do fim do turno, sendo o quarto da ofendida o \u00faltimo a ser visto, mesmo antes das 21h00, e que esta estava calma e corretamente deitada na sua cama.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tendo em conta que o procedimento de imobiliza\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha vindo a ser executado \u00e0 ofendida desde h\u00e1 alguns dias, at\u00e9 nova ordem em contr\u00e1rio, \u00e9 manifesto que a arguida EE nada tinha que dizer \u00e0 arguida AA na mudan\u00e7a de turno, nem nada tinha que inscrever no livro de ocorr\u00eancias, sendo que as imobiliza\u00e7\u00f5es n\u00e3o devem constar desse livro mas do processo cl\u00ednico da utente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim se conclui que nenhuma censura se pode assacar ao comportamento da arguida EE, pois que, infelizmente, era e \u00e9, pr\u00e1tica corrente, na SCM, imobilizar utentes a camas sem grades com uma faixa de len\u00e7ol.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E o mesmo se diga da atua\u00e7\u00e3o da arguida AA, pois que nada lhe sendo dito que o justificasse, n\u00e3o tinha que fazer nova ronda pelos quartos no in\u00edcio dos turnos, antes lhe competia ir para a copa preparar as ceias e servi-las, demorando cerca de uma hora at\u00e9 chegar ao \u00faltimo quarto que era precisamente da ofendida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De acordo com a prova produzida a ofendida ter\u00e1 escorregado da cama entre as 21h00 e as 21h30, sendo que nunca chamou a ajudante nem carregou no bot\u00e3o. Como o corpo da ofendida n\u00e3o chegou a tocar o ch\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 havido barulho da queda, sendo que qualquer barulho, que pudesse ter ocorrido dos movimentos da ofendida na cama, n\u00e3o poderia ser aud\u00edvel pela arguida que a essa hora estava ocupada a preparar as ceias e a servi-las, sendo a \u00fanica ajudante de servi\u00e7o nesse piso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A morte da ofendida deveu-se antes \u00e0 circunst\u00e2ncia de a mesma ter ca\u00eddo da cama e ficar pendurada pelo len\u00e7ol que estava enrolado \u00e0 volta do seu pesco\u00e7o, o qual lentamente foi empurrando a l\u00edngua para a parede posterior da laringe impedindo a passagem do ar, causado assim asfixia que levou \u00e0 morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Veja-se que a ofendida foi colocada a dormir em dec\u00fabito lateral naquela noite, o que significa que, ao virar-se de barriga para cima, a folga da faixa ficou muit\u00edssimo maior, o que permitiu que a ofendida colocasse os bra\u00e7os debaixo da mesma, e ao realizar v\u00e1rios movimentos na cama, acabou por arrastar a faixa at\u00e9 \u00e0 zona do pesco\u00e7o, o que veio a revelar-se fatal caso a mesma ca\u00edsse da cama, como veio a suceder.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Sendo que, no caso em concreto, atenta a medica\u00e7\u00e3o que a ofendida tomava e que induzia o sono, o quadro demencial, a sua idade avan\u00e7ada, a fraca musculatura e a debilidade f\u00edsica, resulta prov\u00e1vel que a ofendida estivesse a dormir enquanto estava lentamente a asfixiar, tal como sucede nos casos de apneia grave, o que explica que a mesma n\u00e3o tenha feito nenhum barulho aud\u00edvel, nem chamado a ajudante.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, como claramente esclareceu o perito m\u00e9dico-legal, uma pessoa agitada tem que dormir numa cama de grades, sendo inconceb\u00edvel ser amarrada a uma cama estreita sem qualquer prote\u00e7\u00e3o lateral, especialmente tendo em conta que a ofendida j\u00e1 tinha ca\u00eddo da cama por duas vezes durante a noite.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Neste \u00e2mbito n\u00e3o colhe a justifica\u00e7\u00e3o muitas vezes oferecida pelas enfermeiras e Diretora da ERPI que uma cama de grades era mais perigosa para a ofendida por n\u00e3o impedir que a mesma saltasse da cama e ca\u00edsse de uma altura superior.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E n\u00e3o colhe pelo simples motivo que tal nunca sucederia com a mesma imobiliza\u00e7\u00e3o que foi feita \u00e0 ofendida, pois esta impede que aquela se levante da cama, quer esta tenha ou n\u00e3o grades, sendo que as grades impedem que caia da cama pendurada pelo len\u00e7ol. \u00c9 assim que se faz nos hospitais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na \u00faltima sess\u00e3o de julgamento a enfermeira VB e a Diretora da ERPI avan\u00e7aram com outro argumento que seria o desconforto da ofendida, o que no seu entender provocaria ainda maior agita\u00e7\u00e3o. Ora, salvo o devido respeito, tal argumento afigura-se-nos absolutamente despropositado, pois que, muito maior desconforto causa a imobiliza\u00e7\u00e3o do que as grades, e a mesma n\u00e3o deixou de ser executada in\u00fameras vezes, noite ap\u00f3s noite, pois como a enfermeira VB reconheceu, acima do conforto do utente est\u00e1 a sua seguran\u00e7a, sa\u00fade e vida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Outrossim a discuss\u00e3o que foi trazida aos autos quanto \u00e0s camas articuladas e autonomia dos utentes tamb\u00e9m \u00e9 despicienda, pois, como se apurou, \u00e9 poss\u00edvel colocar grades amov\u00edveis na cama onde a ofendida dormia, sendo tal uma medida b\u00e1sica de seguran\u00e7a, a qual foi pura e simplesmente ignorada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Do mesmo modo se diga quanto \u00e0 hip\u00f3tese de a sufoca\u00e7\u00e3o da ofendida ter sido causada pela obstru\u00e7\u00e3o das entradas de ar na cara por ter ficado comprimida contra o lado do colch\u00e3o \u2013 hip\u00f3tese poss\u00edvel mas n\u00e3o prov\u00e1vel de acordo com o perito m\u00e9dico-legal \u2013 na medida em que, tal cen\u00e1rio tamb\u00e9m nunca se poderia verificar numa imobiliza\u00e7\u00e3o feita numa cama de grades.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Optando a demandada por imobilizar utentes em camas sem grades ao mesmo tempo que n\u00e3o disp\u00f5e de recursos t\u00e9cnicos (c\u00e2maras de v\u00eddeo), nem meios humanos suficientes para vigiar 24 horas por dia cada utente, n\u00e3o pode deixar de ser respons\u00e1vel por esta morte, na medida em que a mesma era espect\u00e1vel e previs\u00edvel, atento o historial de quedas da ofendida e o seu elevado grau de agita\u00e7\u00e3o noturna, o qual se encontra devidamente reportado no hist\u00f3rico de ocorr\u00eancias a fls. 68-147 e 436-443.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">E a fundamenta\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o em mat\u00e9ria c\u00edvel foi a seguinte:<br \/>\u201cO filho da v\u00edtima AC constitui-se assistente, e juntamente com o seu irm\u00e3o, JC, deduziram um pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil contra as arguidas e a SCM, no montante de 110.000,00 \u20ac, pelos danos n\u00e3o patrimoniais ocorridos em consequ\u00eancia da morte da sua m\u00e3e.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A responsabilidade civil por perdas e danos emergente de crime \u00e9 regulada pelos artigos 129.\u00ba e seguintes do C\u00f3digo Penal, fundando-se o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil formulado no processo penal respetivo na indemniza\u00e7\u00e3o por danos emergentes da pr\u00e1tica de um crime (cfr. artigo 71.\u00ba do C\u00f3digo de Processo Penal).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Deste modo, porque a responsabilidade aqui em an\u00e1lise \u00e9 apenas a responsabilidade civil por factos il\u00edcitos, e tendo o tribunal j\u00e1 conclu\u00eddo pela inexist\u00eancia de uma conduta il\u00edcita por parte das arguidas EE e AA, claudicar\u00e1 igualmente o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil formulado pelos demandantes civis contra aquelas, acarretando, em consequ\u00eancia, a absolvi\u00e7\u00e3o das arguidas tamb\u00e9m nesta sede.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Resta apenas apurar a responsabilidade civil da demandada SCM tendo em conta a factualidade provada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">a) Dos pressupostos da responsabilidade civil:<br \/>Nos termos do artigo 1154.\u00ba do C\u00f3digo Civil (CC), o \u00abcontrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o \u00e9 aquele em que uma das partes se obriga a proporcionar \u00e0 outra certo resultado do seu trabalho intelectual ou manual, com ou sem retribui\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais refere o artigo 219.\u00ba do mesmo diploma que \u00abA validade da declara\u00e7\u00e3o negocial n\u00e3o depende da observ\u00e2ncia de forma especial, salvo quando a lei a exigir\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No caso vertente, resultou provado que as partes celebraram um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Disp\u00f5e o artigo 798.\u00ba, n.\u00ba 1, do referido diploma, \u00abO devedor que falta culposamente ao cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o torna-se respons\u00e1vel pelo preju\u00edzo que causa ao credor.\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">Sendo que, o artigo 800.\u00ba, n.\u00ba 1 do mesmo c\u00f3digo estatui que \u00abO devedor \u00e9 respons\u00e1vel perante o credor pelos atos dos seus representantes legais ou das pessoas que utilize para o cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o, como se tais atos fossem praticados pelo pr\u00f3prio devedor.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais refere o artigo 799.\u00ba do CC que \u00abIncumbe ao devedor provar que a falta de cumprimento ou o cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o n\u00e3o procede de culpa sua.\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">A prop\u00f3sito veja-se o teor no Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 16-01-2007 (Proc. 9667\/2006-7), in dgsi.pt, assim sumariado: \u00abI- Tem a natureza de contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os (artigo 1154.\u00bado C\u00f3digo Civil) aquele em que uma sociedade se obriga a prestar, mediante retribui\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia a pessoas idosas internadas num lar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">II- Os servi\u00e7os a que a r\u00e9 se obrigou dirigiam-se e beneficiavam, n\u00e3o a parte contratante, mas o progenitor desta, aquele que estava internado no lar destinado a pessoas idosas, traduzindo-se tais servi\u00e7os naqueles que os filhos est\u00e3o obrigados perante os pais e que s\u00e3o de natureza fung\u00edvel (presta\u00e7\u00e3o de cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e higiene: ver artigo 2003.\u00ba do C\u00f3digo Civil)) sendo, assim, deles credora a parte contratante, n\u00e3o o terceiro benefici\u00e1rio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III- N\u00e3o tendo a referida sociedade cumprido as suas obriga\u00e7\u00f5es por forma a assegurar ao assistido autonomia, independ\u00eancia, manuten\u00e7\u00e3o das capacidades f\u00edsicas e ps\u00edquicas, alimenta\u00e7\u00e3o adequada, bem-estar, higiene, tratamento de roupas, o que se lhe impunha de acordo com o regime legal e contratual (ver Despacho Normativo n.\u00ba 12\/98 in DR. 47\/98, s\u00e9rie I-B), houve incumprimento contratual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IV- O incumprimento foi causa de agravamento da sa\u00fade do assistido tanto sob o ponto de vista f\u00edsico como ps\u00edquico que se repercutiu na pr\u00f3pria filha e tal incumprimento deve considerar-se culposo (artigos 798.\u00ba e 799.\u00ba do C\u00f3digo Civil).<\/p><p style=\"text-align: justify\">V- No plano da responsabilidade importa atentar em que a obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar comporta uma componente de responsabilidade contratual por incumprimento, a que se aludiu, mas tamb\u00e9m uma componente de indemniza\u00e7\u00e3o por desrespeito de direitos de personalidade, de valores inerentes \u00e0 pessoa humana (sa\u00fade, honra e dignidade) fundada na responsabilidade que \u00e0 sociedade prestadora de servi\u00e7os sempre se impunha perante a pessoa que ficou a seu cargo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VI- Importa, portanto, no plano da responsabilidade por danos morais, ter em aten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas o sofrimento da autora, mas igualmente o do seu progenitor, tamb\u00e9m autor, cada um fundado em diversa responsabilidade, a contratual no que respeita \u00e0 autora, a extracontratual, quanto ao autor, por desrespeito dos seus direitos de personalidade.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, face \u00e0 factualidade dada como provada nos presentes autos, facilmente se constata que se mostram preenchidos os pressupostos da responsabilidade civil contratual, constituindo-se assim a demandada SCM na obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar as demandantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Efetivamente, apurou-se que nos termos do acordo ajustado entre a falecida e os seus dois filhos e a SCM, datado de 16\/03\/2016, de que existe c\u00f3pia a fls. 599 a 601, esta \u00faltima obrigou-se a prestar a MN estadia, alimenta\u00e7\u00e3o, assist\u00eancia m\u00e9dica, de enfermagem, acompanhamento e vigil\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tal como na responsabilidade extracontratual ou delitual, na responsabilidade contratual s\u00e3o quatro os pressupostos: o facto il\u00edcito (constitu\u00eddo pela omiss\u00e3o do zelo exig\u00edvel), a culpa (que aqui se presume nos termos do artigo 799\u00ba, n.\u00ba 1 do CC), o dano e o nexo de causalidade entre o facto e o dano.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, apurou-se a exist\u00eancia de um facto il\u00edcito que consistiu na imobiliza\u00e7\u00e3o da ofendida numa cama sem grades e na viola\u00e7\u00e3o do dever de vigil\u00e2ncia, por falta de pessoal suficiente ou infraestruturas adequadas, como um circuito de v\u00eddeo fechado, para monitorizar devidamente a ofendida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais se apurou a culpa da demandada, na sua modalidade de neglig\u00eancia, e que consistiu na omiss\u00e3o dos deveres de cuidado, acompanhamento e vigil\u00e2ncia a que estava contratualmente obrigada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Bem como a produ\u00e7\u00e3o de danos, designadamente, a perda da vida da v\u00edtima; o desgosto causado aos demandantes pela perda do seu familiar, e os sofrimentos causados \u00e0 v\u00edtima antes de falecer.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Finalmente, verificou-se a exist\u00eancia de um nexo de causalidade entre o facto e os danos, mormente a circunst\u00e2ncia da observ\u00e2ncia dos deveres de cuidado omitidos serem suscet\u00edveis de levar \u00e0 morte prematura da v\u00edtima, sendo assim a omiss\u00e3o desse dever a causa e condi\u00e7\u00e3o adequada a produzir a morte da v\u00edtima. Essa mesma morte causou profundo desgosto aos demandantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Face ao exposto, d\u00favidas n\u00e3o subsistem de que face \u00e0 factualidade provada, que evidencia que da atua\u00e7\u00e3o il\u00edcita e culposa da demandada SCM, resultaram danos n\u00e3o patrimoniais para a v\u00edtima e os demandantes, assim se concluindo que a demandada civil dever\u00e1 ser condenada no seu ressarcimento, nos termos do artigo 496.\u00ba do CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">b) Ressarcimento dos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pela v\u00edtima e pelos seus familiares:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em mat\u00e9ria de danos n\u00e3o patrimoniais imp\u00f5e-se ao Tribunal encontrar \u00abo quantum necess\u00e1rio para obter aquelas satisfa\u00e7\u00f5es que constituem a repara\u00e7\u00e3o indireta\u00bb - vde. Galv\u00e3o Telles, in Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, Coimbra Editora, pg. 377.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nesta sede, o dinheiro n\u00e3o tem a virtualidade de apagar o dano, mas este pode ser contrabalan\u00e7ado \u00abmediante uma soma capaz de proporcionar prazeres ou satisfa\u00e7\u00f5es \u00e0 v\u00edtima, que de algum modo atenuem ou, em todo o caso, compensem esse dano\u00bb, como refere Pinto Monteiro, in Sobre a Repara\u00e7\u00e3o dos Danos Morais, Revista Portuguesa do Dano Corporal, Setembro 1992, n.\u00ba 1, 1\u00ba ano, APADAC, pg. 20.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, quanto aos danos n\u00e3o patrimoniais, todos os sofrimentos apurados na factualidade provada constituem efetivamente danos de natureza n\u00e3o patrimonial que merecem a tutela do direito e justificam a atribui\u00e7\u00e3o de indemniza\u00e7\u00e3o, nos termos do aludido artigo 496.\u00ba, n.\u00ba 1.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Note-se que o artigo 496.\u00ba, n.\u00ba 4, 2.\u00aa Parte do CC estabelece expressamente que \u00abno caso de morte, podem ser atendidos n\u00e3o s\u00f3 os danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pela v\u00edtima, como os sofridos pelas pessoas com direito a indemniza\u00e7\u00e3o nos termos dos n\u00fameros anteriores.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Sendo que o n.\u00ba 2 do citado artigo 496.\u00ba \u00e9 claro quando refere que \u00abPor morte da v\u00edtima, o direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais cabe, em conjunto, ao c\u00f4njuge n\u00e3o separado de pessoas e bens e aos filhos ou outros descendentes; na falta destes, aos pais ou outros ascendentes; e, por \u00faltimo, aos irm\u00e3os ou sobrinhos que os representem\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Efetivamente disp\u00f5e o artigo 70.\u00ba do CC, concretizando o disposto nos artigos 25.\u00ba e 26.\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa, aplic\u00e1veis ao presente caso, que a lei protege os indiv\u00edduos contra qualquer ofensa il\u00edcita ou amea\u00e7a de ofensa \u00e0 sua personalidade f\u00edsica ou moral, havendo lugar a responsabilidade civil.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como refere o Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 11\/07\/2007 (Proc. 0711856), in dgsi.pt \u00abO art. 496.\u00ba do CCivil consagra a ressarcibilidade dos danos n\u00e3o patrimoniais que, pela sua gravidade, mere\u00e7am a tutela do direito. E a doutrina e a jurisprud\u00eancia, quase unanimemente, limitam a indemniza\u00e7\u00e3o \u00e0queles casos que tenham efetiva relev\u00e2ncia \u00e9tica e moral por ofenderem profundamente a personalidade f\u00edsica ou moral, designadamente as ofensas \u00e0 honra, \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o, \u00e0 liberdade pessoal, \u00e0s les\u00f5es corporais e de sa\u00fade, aos demais direitos de personalidade, etc (cfr Antunes Varela, Das Obriga\u00e7\u00f5es em Geral, v.1, p.572; Ac.STJ de 12-10-73, BMJ, 230.\u00ba, 107; Ac. STJ de 26-6-91, BMJ 408.\u00ba, 538; Vaz Serra, Repara\u00e7\u00e3o do dano n\u00e3o patrimonial, BMJ, 83.\u00ba, 69 sgs.), sendo ainda objeto de repara\u00e7\u00e3o aqueles danos morais naturais cuja repara\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria se destina a compensar, embora indiretamente, os sofrimentos f\u00edsicos, morais e desgostos e que, por serem factos not\u00f3rios, n\u00e3o necessitam de ser alegados nem quesitados, mas s\u00f3 pedidos (Vaz Serra, RLJ, ano 105.\u00ba e 108.\u00ba, p 37 sgs. e 223; Ac STJ de 27-12-69, BMJ, 141.\u00ba, 331; Ac STJ de 22-11-78, BMJ, 204.\u00ba, 262).<\/p><p style=\"text-align: justify\">A gravidade do dano mede-se por um padr\u00e3o objetivo, embora atendendo \u00e0s particularidades de cada caso, e tudo segundo crit\u00e9rios de equidade (cfr A. Varela, ob. cit., pag 576; Vaz Serra, RLJ, ano 109.\u00ba, p. 115), devendo ter-se ainda em conta a compara\u00e7\u00e3o com situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas decididas em outras decis\u00f5es judiciais (Acs do STJ de 2-11-76, de 23-10-79, de 22-1-80, de 13-5-86, in BMJ 261.\u00ba-236, 290.\u00ba-390, 239.\u00ba-237, 357.\u00ba-399; Ac STJ, de 25-6-2002, CJ\/STJ, ano X, t. II, p. 128) e que a indemniza\u00e7\u00e3o a arbitrar tem uma natureza mista: a de compensar esses danos e a de reprovar ou castigar, no plano civil\u00edstica, a conduta do agente (cfr A. Varela, ob. cit., p. 529 e 534; Ac STJ de 26-6-91, BMJ, 408.\u00ba, 538).\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">Outrossim, o Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 15\/09\/2009 (Proc. 170\/2001.C2), in dgsi.pt decidiu o seguinte: \u00abA indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais n\u00e3o visa reconstituir a situa\u00e7\u00e3o que existiria se n\u00e3o ocorresse o evento, mas sim compensar o lesado, tendo tamb\u00e9m uma fun\u00e7\u00e3o sancionat\u00f3ria sobre o lesante (natureza mista).<\/p><p style=\"text-align: justify\">A gravidade do dano ter\u00e1 de ser aferida em termos objetivos, tendo em considera\u00e7\u00e3o as circunst\u00e2ncias do caso, mas, desde j\u00e1, se refira que n\u00e3o bastam simples inc\u00f3modos ou contrariedades para justificar o pagamento de uma indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com relevo para a fixa\u00e7\u00e3o do quantum indemnizat\u00f3rio, que \u00e9 operado segundo crit\u00e9rios de equidade, haver\u00e1 que ponderar, designadamente, o grau de culpabilidade do respons\u00e1vel, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do lesado e do demandado, os padr\u00f5es de indemniza\u00e7\u00e3o geralmente adotados pela jurisprud\u00eancia e as flutua\u00e7\u00f5es do valor da moeda \u2013 cfr. Antunes Varela, in Das Obriga\u00e7\u00f5es em geral, Vol. I, 9.\u00aa Ed., Almedina, 1996, 629.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne especificamente aos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pelos familiares da v\u00edtima em consequ\u00eancia da sua morte deve atender-se ainda ao grau de parentesco (mais pr\u00f3ximo ou mais remoto), \u00e0 maior ou menor intensidade do relacionamento entre a v\u00edtima e os titulares do direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que esta visa compensar os familiares a quem a v\u00edtima faltou pela tristeza, ang\u00fastia, falta de apoio, carinho e companhia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A prop\u00f3sito saliente-se o decidido pelo Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora de 10-04-2012 (Proc. 133\/08.5GCCUB.E1), in dgsi.pt: \u00ab1. Os valores constantes da Portaria n\u00ba 377\/2008, que cuida da apresenta\u00e7\u00e3o de propostas de indemniza\u00e7\u00e3o pelas seguradoras, n\u00e3o s\u00e3o de aplica\u00e7\u00e3o judicial obrigat\u00f3ria. N\u00e3o devem, no entanto, os tribunais menosprezar as virtualidades de um diploma que se pretende uniformizador, o que apenas se prossegue se judicialmente se lhe atender como quadro de crit\u00e9rios ou valores de refer\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2. Na fixa\u00e7\u00e3o do dano morte deve atender-se, tamb\u00e9m, \u00e0 idade da v\u00edtima.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3. Na fixa\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pela vi\u00fava e pelas duas filhas do falecido, justifica-se diferenciar a m\u00e3e, das filhas, e, entre estas, distinguir a situa\u00e7\u00e3o da filha n\u00e3o residente, da da filha que sempre residiu com a v\u00edtima.\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">H\u00e1 ainda que ter em considera\u00e7\u00e3o como par\u00e2metro orientador e coadjutor na fixa\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o a Portaria n.\u00ba 377\/2008, de 26 de Maio, atualizada pela Portaria n.\u00ba 679\/2009, de 25 de Junho, a qual indica valores m\u00e9dios de indemniza\u00e7\u00e3o pelas compensa\u00e7\u00f5es devidas a t\u00edtulo de danos morais aos herdeiros e de dano moral da pr\u00f3pria v\u00edtima (cfr. artigos 2.\u00ba, al\u00ednea a), 5.\u00ba e Anexo II da referida Portaria).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, no que concerne ao c\u00f4njuge com 25 ou mais anos de casamento, o Quadro A da Tabela II atualizada prev\u00ea a fixa\u00e7\u00e3o do valor da indemniza\u00e7\u00e3o at\u00e9 25.650,00 \u20ac; ao passo que para um filho com idade menor ou igual a 25 anos prev\u00ea-se o valor de 15.390,00\u20ac, e para um filho com idade superior a 25 anos fixa-se o valor de 10.260,00\u20ac.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que concerne ao dano moral da pr\u00f3pria v\u00edtima, o quadro D da Tabela II prev\u00ea que 72 horas \u00e9 considerado clinicamente o per\u00edodo cr\u00edtico de sobreviv\u00eancia, fixando o valor de 2.052,00\u20ac nas primeiras 24 horas, at\u00e9 72 horas o valor de 4.104,00\u20ac, e o montante de 7.182,00\u20ac em mais do que 72 horas, podendo qualquer dos valores ser alvo de majora\u00e7\u00e3o at\u00e9 50% em fun\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de sofrimento e antevis\u00e3o da morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Contudo, estes valores constituem uma refer\u00eancia ao julgador e n\u00e3o se tratam de par\u00e2metros r\u00edgidos, pois naturalmente que valor apontado tem de variar n\u00e3o s\u00f3 em fun\u00e7\u00e3o da idade concreta, dado que, a t\u00edtulo meramente exemplificativo, 25 anos \u00e9 uma idade, 40 \u00e9 outra e 70 outra \u00e9; como fundamentalmente tem de depender das restantes circunst\u00e2ncias como o grau de proximidade e afetividade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A prop\u00f3sito veja-se o decidido no Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 28-11-2013 (Proc. 177\/11.0TBPCR.S1), in dgsi.pt:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00ab1. Os Tribunais, na fixa\u00e7\u00e3o equitativa dos montantes indemnizat\u00f3rios a atribuir aos lesados, em sede de acidentes de via\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o vinculados \u00e1 aplica\u00e7\u00e3o das tabelas constantes da Portaria n\u00ba 377\/08, de 26 de Maio, alterada pela Portaria n\u00ba 679\/09, de 25 de Junho. Reportando-se estas, apenas, a um conjunto de regras e princ\u00edpios que permita agilizar a apresenta\u00e7\u00e3o extrajudicial de propostas razo\u00e1veis destinadas a indemnizar o dano corporal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2. N\u00e3o se deve confundir a equidade com a mera arbitrariedade ou com a entrega da solu\u00e7\u00e3o a crit\u00e9rios assentes no puro subjetivismo do julgador, devendo aquela traduzir a \u201cjusti\u00e7a do caso concreto, flex\u00edvel, humana, independente de crit\u00e9rios normativos fixados na lei\u201d, devendo o julgador \u201cter em conta as regras da boa prud\u00eancia, do bom senso pr\u00e1tico, da justa medida das coisas e da criteriosa pondera\u00e7\u00e3o das realidades da vida\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3. O dano sofrido pela v\u00edtima antes de morrer varia em fun\u00e7\u00e3o de fatores de diversa ordem, como sejam o tempo decorrido entre o acidente e a morte, se a v\u00edtima se manteve consciente ou inconsciente, se teve ou n\u00e3o dores, qual a intensidade das mesmas, a existirem, se teve consci\u00eancia de que ia morrer.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4. Para se responder actualizadamente ao comando vertido no art. 496.\u00ba do CC (danos n\u00e3o patrimoniais) h\u00e1 que constituir uma efetiva possibilidade compensat\u00f3ria para os danos suportados, devendo a mesma ser significativa e n\u00e3o miserabilista.<\/p><p style=\"text-align: justify\">5. \u00c9 adequada a compensar os danos n\u00e3o patrimoniais suportados pela v\u00edtima antes de morrer a quantia de \u20ac 20 000,00, tendo em conta o atropelamento que sofreu, com culpa exclusiva do condutor do ve\u00edculo autom\u00f3vel ligeiro, com graves les\u00f5es corporais (que determinaram, como causa necess\u00e1ria, a sua morte), tendo a mesma, por efeito do embate, ficado prostrada e abandonada (o ve\u00edculo prosseguiu a sua marcha) na berma da estrada, encoberta por fetos e vegeta\u00e7\u00e3o, em estado consciente (gemia com dores e rezava). Assim tendo permanecido durante cerca de meia hora, tendo-lhe sido prestados os primeiros socorros no local, durante cerca de 45 minutos at\u00e9 que foi transportada para o Hospital onde entrou com paragem cardiorrespirat\u00f3ria, sem responder a manobras de recupera\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">6. A morte repentina de algum dos nossos entes mais pr\u00f3ximos e, por regra, queridos, causa, em princ\u00edpio, n\u00e3o obstante a idade avan\u00e7ada dos mesmos, mais sofrimento e pesar, de que o decesso anunciado por via de doen\u00e7a grave e sem cura \u00e0 vista.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Entende-se como justo e equitativo a atribui\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o pelo desgosto da morte da m\u00e3e, mulher ainda ativa, na tr\u00e1gica e repentina situa\u00e7\u00e3o em que a mesma ocorreu e sucintamente descrita em 5., para mais com o abandono ocorrido e com as maiores ang\u00fastias dele decorrentes, de \u20ac 20 000,00 para a filha, solteira, com 58 anos, que com a v\u00edtima convivia e de \u20ac 15 000,00 para a outra filha, que vivia distante. Ambas tendo sofrido com o nefasto evento.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No caso em apre\u00e7o logrou provar-se que a falecida e os demandantes filhos mantinham uma rela\u00e7\u00e3o efetiva forte, e que a morte da sua m\u00e3e, nas circunst\u00e2ncias em que ocorreu, causou profundo choque emocional e desgosto aos demandantes<br \/>N\u00e3o \u00e9 um facto da vida que possa ser esperado pelos filhos assistirem ao desaparecimento prematuro e repentino da sua m\u00e3e, pelo que, a les\u00e3o traum\u00e1tica resultante de tal evento \u2013 nas hip\u00f3teses em que, como a presente, o relacionamento entre aqueles se pauta por uma grande correspond\u00eancia de afeto e carinho \u2013 reveste grau elevad\u00edssimo e duradouro.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na verdade, n\u00e3o existe, nem poder\u00e1 existir, d\u00favida de que os demandantes sofreram e sofrem com a perda do seu familiar direto, sendo por todos sabido da dor decorrente da perda deste ente querido. S\u00e3o la\u00e7os profundos que s\u00e3o quebrados com a morte, la\u00e7os que n\u00e3o mais se poder\u00e3o reconstruir e que causar\u00e3o nos demandantes uma profunda e irrevers\u00edvel tristeza, que atenta a morte inesperada e imprevis\u00edvel se tornam ainda mais penosos e cru\u00e9is.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora este desgosto e sofrimento constitu\u00edram e constituem, sem d\u00favida, viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 integridade ps\u00edquica ou moral que lhes assistia, representando por isso danos n\u00e3o patrimoniais suficientemente graves para merecerem a tutela do direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por \u00faltimo, refira-se que s\u00e3o igualmente dignos de tutela os sofrimentos que a v\u00edtima experienciou nos \u00faltimos instantes da sua vida, especialmente se considerarmos que asfixiou lentamente at\u00e9 sufocar durante cerca de 30 minutos, embora exista uma probabilidade de a mesma ter falecido enquanto se encontrava a dormir, o que minoraria de sobremaneira o seu sofrimento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00abEntre os danos n\u00e3o-patrimoniais a indemnizar h\u00e1 que distinguir entre os sofridos pela v\u00edtima antes da morte, os sofridos especialmente pelos familiares e o dano especificamente constitu\u00eddo pela perda do direito da vida da v\u00edtima.\u00bb - cfr. Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 14-05-1998 (Proc. 98A990), in dgsi.pt.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ainda, a considerar nos termos do artigo 494.\u00ba, ex vi artigo 496.\u00ba, n.\u00ba 4 do CC, o grau de culpabilidade da demandada (neglig\u00eancia), e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da demandada muito superior \u00e0 dos demandantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nesses termos, afigurando-se os danos morais em apre\u00e7o como merecedores da tutela do direito, o Tribunal, obedecendo a um ju\u00edzo de equidade, tomando como refer\u00eancia os valores m\u00e9dios praticados pela jurisprud\u00eancia e a Portaria n.\u00ba 377\/2008, de 26 de Maio, atualizada pela Portaria n.\u00ba 679\/2009, de 25 de Junho, conclui, como adequado e proporcional fixar, j\u00e1 de acordo com o valor monet\u00e1rio atual, nos termos dos artigos 564.\u00ba, n.\u00ba 1 e 566.\u00ba, ambos do C\u00f3digo Civil, os seguintes valores:<\/p><p style=\"text-align: justify\">- O montante indemnizat\u00f3rio de 12.500,00 \u20ac devido a cada um dos demandantes pelos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos em consequ\u00eancia da morte da sua m\u00e3e;<\/p><p style=\"text-align: justify\">- O montante indemnizat\u00f3rio de 10.000,00 \u20ac devido aos demandantes em partes iguais (5.000,00 \u20ac a cada demandante), na qualidade de herdeiros legais da v\u00edtima (cfr. artigos<\/p><p style=\"text-align: justify\">c) O Dano Morte:<br \/>Por \u00faltimo, cumpre proceder \u00e0 an\u00e1lise de fixa\u00e7\u00e3o do quantum indemnizat\u00f3rio devido pela perda do bem mais precioso de todos, a vida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De facto, sendo o dano morte o \u00faltimo e decisivo dos danos n\u00e3o patrimoniais seria, por uma quest\u00e3o de princ\u00edpio, um contrassenso negar a sua repara\u00e7\u00e3o patrimonial. Todos os princ\u00edpios aplic\u00e1veis aos danos n\u00e3o patrimoniais s\u00e3o automaticamente aplic\u00e1veis ao dano morte. N\u00e3o sofre destarte qualquer d\u00favida que o direito \u00e0 vida, nos termos do artigo 496.\u00ba do CC, constitui um dano aut\u00f3nomo, suscet\u00edvel de repara\u00e7\u00e3o pecuni\u00e1ria.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, tendo como suporte constitucional o artigo 24.\u00ba, n.\u00ba 1, da Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa, e como suporte legal, os artigos 68.\u00ba, 70.\u00ba, n.\u00ba 1 e 71.\u00ba, n.\u00ba 1 do C\u00f3digo Civil, poder-se-\u00e1 afirmar que o direito \u00e0 vida \u00e9 um direito pessoal, inerente \u00e0 personalidade e de aquisi\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica sendo, a sua perda, indemniz\u00e1vel.<\/p><p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 n\u00e3o se apresenta uniforme o entendimento respeitante \u00e0 considera\u00e7\u00e3o se o direito \u00e0 repara\u00e7\u00e3o deste dano nasce, por direito pr\u00f3prio, na esfera jur\u00eddica das pessoas referidas nos n.\u00ba 2 e 3 e pela ordem a\u00ed estabelecida ou se nasce no patrim\u00f3nio da v\u00edtima e se transmite, por via sucess\u00f3ria, para essas mesmas pessoas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No entanto, embora in casu a quest\u00e3o n\u00e3o se suscite, este Tribunal segue o entendimento de que o direito \u00e0 repara\u00e7\u00e3o do dano morte nasce, jure pr\u00f3prio, na esfera jur\u00eddica das pessoas elencadas nos n.\u00ba 2 e 3 do artigo 496.\u00ba do CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Neste \u00e2mbito, e desde logo, salientam-se as considera\u00e7\u00f5es de Antunes Varela, in Das Obriga\u00e7\u00f5es em geral, Vol. I, 10.\u00aa Ed., Almedina, 2000, pgs. 611\/612 que, contrapondo-se \u00e0 tese defendida por Galv\u00e3o Telles, aponta a seu favor o argumento hist\u00f3rico da norma legal do artigo 496.\u00ba em virtude de se ter substitu\u00eddo no decurso dos trabalhos preparat\u00f3rios do C\u00f3digo a express\u00e3o \u201ctransmite-se aos herdeiros\u201d por \u201ccabe\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ao argumento hist\u00f3rico junta-se quer o argumento literal, dado que a lei n\u00e3o distingue os danos n\u00e3o patrimoniais causados \u00e0 v\u00edtima dos sofridos pelos familiares, querendo abranger quer uns quer outros; quer o argumento sistem\u00e1tico pois o preceito encontra-se inserido no dom\u00ednio da responsabilidade civil, e n\u00e3o no cap\u00edtulo do Direito sucess\u00f3rio, o que n\u00e3o sucederia se estiv\u00e9ssemos perante uma transmiss\u00e3o mortis causa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m de que, h\u00e1 que atender ao facto de que, aquando da feitura do n.\u00ba 2 do artigo 496.\u00ba em 1966, o c\u00f4njuge n\u00e3o era herdeiro legitim\u00e1rio, tendo na altura um papel muito remoto na sucess\u00e3o leg\u00edtima, e integrou logo ent\u00e3o, o primeiro grupo de pessoas com direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o. Ainda, n\u00e3o releva para a legitimidade dos familiares identificados neste preceito legal, o facto de terem ou n\u00e3o repudiado a heran\u00e7a ou sejam indignos sucessoriamente, por facto n\u00e3o relacionado com a morte da v\u00edtima, pois, a lei quis-lhes atribuir esse direito por t\u00edtulo pr\u00f3prio, que n\u00e3o heredit\u00e1rio. Parece, portanto, claro que, a inten\u00e7\u00e3o do legislador reside na aquisi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria e n\u00e3o numa transmiss\u00e3o sucess\u00f3ria, refor\u00e7ada pelo facto de o direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o pela perda da vida n\u00e3o responder pelos encargos da heran\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ali\u00e1s, a altera\u00e7\u00e3o ao artigo 496.\u00ba operada pela Lei n.\u00ba 23\/2010, de 30 de Agosto vem, no nosso entender, fazer cair por terra a tese de transmiss\u00e3o mortis causa ao prever no novo n.\u00ba 3 que \u00abSe a v\u00edtima vivia em uni\u00e3o de facto, o direito de indemniza\u00e7\u00e3o previsto no n\u00famero anterior cabe, em primeiro lugar, em conjunto, \u00e0 pessoa que vivia com ela e aos filhos ou outros descendentes\u00bb. Efetivamente, pese embora a prote\u00e7\u00e3o legal crescente oferecida pelo legislador \u00e0 uni\u00e3o de facto, o unido de facto n\u00e3o integra ainda qualquer classe de sucess\u00edveis legais, mas ainda assim \u00e9 titular do direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o pelo dano morte por direito pr\u00f3prio, o que s\u00f3 se concebe \u00e0 luz da tese que propugnamos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Logo, conclui-se que, tanto a letra como o esp\u00edrito da lei apontam no sentido compreensivo de que nenhum direito de indemniza\u00e7\u00e3o pelo dano morte se atribui via sucess\u00f3ria, aos herdeiros da v\u00edtima, sendo que, toda essa indemniza\u00e7\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda aos familiares ex novo por direito pr\u00f3prio, nos termos e segundo a ordem dos n.\u00ba 2 e 3 do artigo 496.\u00ba, que tiveram uma rela\u00e7\u00e3o privilegiada com a v\u00edtima, n\u00e3o existindo dois direitos de indemniza\u00e7\u00e3o por dois t\u00edtulos diferentes, mas apenas um, tendo em conta o car\u00e1cter unit\u00e1rio do direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o de todos os danos n\u00e3o patrimoniais em causa. E n\u00e3o choca que, se possa exigir a repara\u00e7\u00e3o de um dano relativo a um bem pertencente a outra pessoa. Ali\u00e1s, a atribui\u00e7\u00e3o de um direito pr\u00f3prio j\u00e1 vem na linha do artigo 71.\u00ba, n.\u00ba 2 do CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A favor da aquisi\u00e7\u00e3o jure pr\u00f3prio do direito de indemniza\u00e7\u00e3o das pessoas elencadas no n.\u00ba 2 do artigo 496\u00ba, posiciona-se tamb\u00e9m Ribeiro de Faria, in Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, Vol. I, Almedina, 1990, pgs. 493 e 494 por raz\u00f5es de ordem legal e da pr\u00f3pria hist\u00f3ria da disposi\u00e7\u00e3o. No mesmo sentido, Vaz Serra, Fundamento da responsabilidade civil e em especial, responsabilidade por acidentes de via\u00e7\u00e3o terrestre e por interven\u00e7\u00f5es l\u00edcitas, in BMJ, 90, 203\/204, j\u00e1 considerava v\u00e1lida a hip\u00f3tese de n\u00e3o se tratar de transmiss\u00e3o, mas de um direito pr\u00f3prio dessas pessoas. Outrossim, Pereira Coelho, in Direito das Sucess\u00f5es, Coimbra, 1992, pgs. 174 e sgs., e Capelo de Sousa, in Li\u00e7\u00f5es de Direito das Sucess\u00f5es, 4.\u00aa Ed. renovada, Coimbra Editora, 2000, pgs. 322 e sgs<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nesta linha de pensamento, temos igualmente Maya de Lucena, in Danos n\u00e3o patrimoniais: o dano da morte - interpreta\u00e7\u00e3o do artigo 496\u00ba do C\u00f3digo Civil, Almedina, 1985, pgs. 48, 49 e 68 que, criticando severamente a orienta\u00e7\u00e3o seguida por Galv\u00e3o Telles vem dizer que, o momento da morte \u00e9 logicamente o primeiro momento ap\u00f3s a vida, pois, s\u00f3 surge quando esta j\u00e1 se extinguiu. Num plano l\u00f3gico, o direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o s\u00f3 aparece num instante imediatamente posterior ao da morte, e portanto, quanto ao presumido de cujus, quando j\u00e1 n\u00e3o existe um titular para tal direito, isto \u00e9, quando j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 um suporte jur\u00eddico para ele.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como refere Gomes da Silva, in Direito das Sucess\u00f5es, Lisboa, 1978, pg. 76: \u00abA morte \u00e9 morte, a vida \u00e9 vida, e por isso, o momento da morte j\u00e1 n\u00e3o pode estar na vida: o momento da morte \u00e9 o primeiro, depois do \u00faltimo momento da vida.\u00bb. E como refor\u00e7a Leite Campos, A indemniza\u00e7\u00e3o do dano da morte, in \u201cBoletim da Faculdade de Direito de Coimbra\u201d, Vol. L, Coimbra, 1974, pg. 290, nesta mat\u00e9ria: \u00abOu \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 morte,(...) se ainda existia vida n\u00e3o \u00e9 ainda morte, se n\u00e3o existe, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 vida. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel conciliar estas duas afirma\u00e7\u00f5es, n\u00e3o se pode ser e n\u00e3o ser.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E como o dano \u00e9 um pressuposto fundamental da responsabilidade civil, j\u00e1 n\u00e3o se verificando na esfera da v\u00edtima, nunca poderia integrar o seu patrim\u00f3nio e ser transmiss\u00edvel aos herdeiros. \u00c9 esta tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o de Menezes Cordeiro, in Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, 2.\u00ba Vol., reimpress\u00e3o, A.A.F.D.L., Lisboa, 1999.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Entre n\u00f3s, a Jurisprud\u00eancia tamb\u00e9m se divide inevitavelmente neste \u00e2mbito, sendo significativos neste sede, os Ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo de 9\/05\/1996, 18\/03\/1997, 15\/04\/1997 e 10\/02\/1998 e da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 14\/11\/1995.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A t\u00edtulo meramente exemplificativo veja-se o Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 27-11-2008 (Proc. 08P1413), in dgsi.pt:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00abIII - Por conseguinte, cessando a personalidade jur\u00eddica, cessa a capacidade para ser sujeito de rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. Nenhum direito pode radicar-se numa personalidade extinta, nem no patrim\u00f3nio de uma pessoa que deixou de existir. A morte impede a possibilidade de aquisi\u00e7\u00e3o de direitos, de sorte que n\u00e3o podem ancorar-se no patrim\u00f3nio da pessoa falecida direitos que supostamente nasceriam com o pr\u00f3prio evento da morte. Se a morte pode dar lugar ao surgimento de direitos, esses direitos n\u00e3o nascem nem se radicam na esfera jur\u00eddica do finado, mas na esfera jur\u00eddica de outras pessoas, que, estando ligadas ao falecido por um v\u00ednculo especial de parentesco, gozam de prote\u00e7\u00e3o legal, no sentido de que a lei prev\u00ea que a morte desse seu entre querido possa constituir para elas uma causa adequada de danos, sejam patrimoniais, sejam n\u00e3o patrimoniais. \u00c9 o caso dos arts. 495.\u00ba, n.\u00ba 3, e 496.\u00ba do CC, que constituem exce\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio-regra de que a indemniza\u00e7\u00e3o cabe ao pr\u00f3prio titular do direito violado ou do interesse lesado com a infra\u00e7\u00e3o da disposi\u00e7\u00e3o legal destinada a proteg\u00ea-lo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IV - Se a morte \u00e9 um dano que n\u00e3o se verifica j\u00e1 na esfera jur\u00eddica do seu titular, muito menos se h\u00e3o-de produzir nessa esfera danos que, pressupostamente, se teriam verificado em consequ\u00eancia do evento \u201cmorte\u201d. E, muito menos, danos que s\u00e3o pura e simplesmente ficcionados, imaginando que a v\u00edtima viveria um certo n\u00famero de anos, em conformidade com a esperan\u00e7a m\u00e9dia de vida e que, se vivesse, as coisas lhe haveriam de correr de determinada maneira, do ponto de vista profissional e patrimonial. Isto \u00e9 fic\u00e7\u00e3o, por muito modesto e mediano que se desenhe o horizonte dos poss\u00edveis que se desdobrariam ao finado, se, por hip\u00f3tese, ele fosse vivo. Para al\u00e9m do absurdo de se conceber que radicam na esfera jur\u00eddica do finado os danos que advieram em consequ\u00eancia da sua pr\u00f3pria morte.\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">Do mesmo modo, o Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es de 30-05-2013 (Proc. 364-F\/2000.G1), in dgsi.pt decidiu que \u00abI - O direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pela v\u00edtima antes da morte, tal como sucede com a indemniza\u00e7\u00e3o pelo dano morte, surge na titularidade das pessoas mencionadas no n.\u00ba 2 do art. 496.\u00ba do C\u00f3digo Civil por direito pr\u00f3prio. II - Assim, n\u00e3o sendo transmiss\u00edvel aquele direito, n\u00e3o \u00e9 o mesmo suscet\u00edvel de ser penhorado.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Outrossim, o Ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 28-05-2008 (Proc. 321\/05.6PAPBL.C1), in dgsi.pt: \u00abNo caso de a agress\u00e3o ou les\u00e3o ser mortal, toda a indemniza\u00e7\u00e3o correspondente aos danos morais (quer sofridos pela v\u00edtima, quer pelos familiares mais pr\u00f3ximos cabe, n\u00e3o aos herdeiros por via sucess\u00f3ria, mas aos familiares por direito pr\u00f3prio (iure pr\u00f3prio), nos termos e segundo a ordem do disposto no n\u00ba 2 do art\u00ba 496\u00ba do C\u00f3digo Civil\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que respeita ao quantum indemnizat\u00f3rio, a vida \u00e9 um valor absoluto, independente da idade, condi\u00e7\u00e3o sociocultural, ou estado de sa\u00fade, pelo que irrelevam na fixa\u00e7\u00e3o desta indemniza\u00e7\u00e3o quaisquer outros elementos da v\u00edtima, que n\u00e3o a vida em si mesma. Importam, t\u00e3o-somente os outros crit\u00e9rios do artigo 494\u00ba, aplic\u00e1vel ex vi do n.\u00ba 4 do artigo 496.\u00ba do CC.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Da\u00ed que, quanto aos crit\u00e9rios de fixa\u00e7\u00e3o do quantum indemnizat\u00f3rio pela perda do direito \u00e0 vida n\u00e3o seja de acolher, como se refere no Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 8-6-2006 (Proc. 06A1464), in dgsi.pt \u00aba tese que privilegia a vida que desempenha um \"papel excecional\" na sociedade (\"um cientista, um escritor, um artista\") em rela\u00e7\u00e3o a uma vida \"normal\" ou a uma vida \"sem qualquer fun\u00e7\u00e3o especifica na sociedade (uma crian\u00e7a, um doente ou um inv\u00e1lido)\" acenada pelo Cons. D\u00e1rio Martins de Almeida, in \"Manual de Acidentes de Via\u00e7\u00e3o\", 188\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Quando muito \u00abaqueles fatores poder\u00e3o ser ponderados nos c\u00f4mputos indemnizat\u00f3rios dos danos morais pr\u00f3prios dos herdeiros da v\u00edtima ou do dano patrimonial mediato por eles sofrido em consequ\u00eancia da perda. Em acerto de tese pode tamb\u00e9m ser feita uma pondera\u00e7\u00e3o de fatores culturais, de personalidade ou et\u00e1rios na fixa\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o pelo sofrimento da v\u00edtima (dano n\u00e3o patrimonial pr\u00f3prio) nos momentos que precederam a morte, na perce\u00e7\u00e3o da aproxima\u00e7\u00e3o desta, no estoicismo ou capacidade de resigna\u00e7\u00e3o perante as dores f\u00edsicas e morais\u00bb (ibidem).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na esteira de Leite de Campos, A Vida, a Morte e sua Indemniza\u00e7\u00e3o, in Revista de Direito Comparado Luso-Brasileiro, Ano 4, n.\u00ba 7, Julho, 1985, pgs. 80 a 96, entendemos que a indemniza\u00e7\u00e3o pelo dano da morte dever\u00e1 ser aferida pelo valor da vida para a v\u00edtima enquanto tal, n\u00e3o pelo custo da vida humana para a sociedade e para os que dependem da v\u00edtima; o preju\u00edzo \u00e9 igual para todos os homens e, consequentemente, a indemniza\u00e7\u00e3o deve ser a mesma para todos. A indemniza\u00e7\u00e3o deve ser medida por dois par\u00e2metros: pela considera\u00e7\u00e3o de que a morte \u00e9 o preju\u00edzo supremo, envolvendo o desaparecimento da pessoa; e pela finalidade desta repara\u00e7\u00e3o de n\u00e3o deixar o agressor numa situa\u00e7\u00e3o patrimonial melhor do que a que teria se n\u00e3o fosse a morte da v\u00edtima.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Da\u00ed que essa indemniza\u00e7\u00e3o \u2013 havendo, obviamente, que respeitar \u201co grau de culpabilidade do agente\u201d e \u201ca situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica deste e do lesado\u201d (cfr. artigos 496.\u00ba, n.\u00ba 4 e 494.\u00ba do CC) \u2013 tenha, sobretudo, que atender, no seu simbolismo, ao \u201cvalor social\u201d e \u00e0 \u201crepresentatividade comunit\u00e1ria\u201d da v\u00edtima, dentro de par\u00e2metros que considerem os seus feitos em prol da comunidade, incluindo naturalmente o n\u00facleo familiar de enquadramento, e as esperan\u00e7as que seriam ainda de alimentar quanto ao seu futuro contributo para o bem estar dos seus concidad\u00e3os e, na sua representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, \u00e0 din\u00e2mica da pr\u00f3pria \u201cpraxis\u201d jurisprudencial.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Dir\u00edamos, assim, que \u00e0 falta de outro crit\u00e9rio legal, na determina\u00e7\u00e3o do respetivo montante compensat\u00f3rio importa ter em linha de conta, al\u00e9m da vida em si, a vontade e alegria de viver da v\u00edtima, a sua idade, e a sua sa\u00fade. S\u00e3o estes elementos que nos permitem aferir a quantidade e a qualidade da vida que ficou por viver.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais uma vez, h\u00e1 que ter em considera\u00e7\u00e3o como par\u00e2metro orientador e coadjutor na fixa\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o a Portaria n.\u00ba 377\/2008, de 26 de Maio, atualizada pela Portaria n.\u00ba 679\/2009, de 25 de Junho, a qual indica valores m\u00e9dios de indemniza\u00e7\u00e3o pelas compensa\u00e7\u00f5es devidas do direito \u00e0 vida (artigos 2.\u00ba, al\u00ednea a), 5.\u00ba e Anexo II da referida Portaria).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, caber\u00e1 aos herdeiros em partes iguais o valor de 61.560,00\u20ac se a v\u00edtima tivesse \u00e0 data da morte at\u00e9 25 anos, o valor de 51.300,00\u20ac se tivesse entre 25 e 49 anos, o valor de 41.040,00\u20ac se tivesse entre 50 e 75 anos, e o valor de 30.780,00\u20ac se tivesse mais de 75 anos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como se faz notar no douto Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 05\/05\/2005 (Proc. 03B2182), in dgsi.pt., \u00abPrevalece, todavia, hoje neste plano um entendimento diferente, sens\u00edvel \u00e0 circunst\u00e2ncia de que tais indemniza\u00e7\u00f5es t\u00eam ficado aqu\u00e9m dos valores que seriam exig\u00edveis. E a jurisprud\u00eancia mais recente \u00e9 efetivamente no sentido do seu incremento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com raz\u00e3o anota o ac\u00f3rd\u00e3o uniformizador n.\u00ba 4\/2002, citado na senten\u00e7a, que a jurisprud\u00eancia do Supremo tem evolu\u00eddo no sentido de que a compensa\u00e7\u00e3o dos danos morais n\u00e3o pode ser \u00abmiserabilista\u00bb, antes, \u00abpara responder actualizadamente ao comando do artigo 496.\u00ba e constituir uma efetiva possibilidade compensat\u00f3ria, tem de ser significativa, viabilizando um lenitivo para os danos suportados e, porventura, a suportar\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A destrui\u00e7\u00e3o do bem vida envolve a destrui\u00e7\u00e3o de todos os outros bens de personalidade: o ser humano n\u00e3o fruir\u00e1 mais dos prazeres dos sentidos, da raz\u00e3o, do movimento, dos sentimentos. A morte \u00e9 um dano \u00fanico que absorve todos os outros preju\u00edzos n\u00e3o patrimoniais. O montante da sua indemniza\u00e7\u00e3o deve ser, pois, superior \u00e0 soma dos montantes de todos os outros danos imagin\u00e1veis. Nesse sentido, cabe \u00e0 jurisprud\u00eancia um papel importante da determina\u00e7\u00e3o do montante indemnizat\u00f3rio pela supress\u00e3o da vida humana. E a jurisprud\u00eancia mais recente tem vindo a apontar valores que consideramos adequados atendendo \u00e0s circunst\u00e2ncias da vida nas sociedades modernas e consumistas dos nossos dias, n\u00e3o podendo a vida humana valer menos que certos bens como por exemplo um autom\u00f3vel.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Hoje em dia, a jurisprud\u00eancia toma mais como refer\u00eancia um valor m\u00e9dio a rondar os 50.000,00 \u20ac. Fazendo variar tal valor em fun\u00e7\u00e3o dos supra apontados crit\u00e9rios (grau de culpabilidade do agente, da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica deste e do lesado) bem como em fun\u00e7\u00e3o da idade da v\u00edtima e da sua consequente esperan\u00e7a de vida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A prop\u00f3sito, o Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 28-11-2013 (Proc. 177\/11.0TBPCR.S1), in dgsi.pt decidiu igualmente que \u00ab\u00c9 adequada a quantia arbitrada de \u20ac 50 000,00 para indemniza\u00e7\u00e3o da perda do direito \u00e0 vida\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, na esteira do entendimento jurisprudencial quanto ao incremento dos quantitativos da indemniza\u00e7\u00e3o por dano morte, h\u00e1 que atender ao valor social da vida (que na realidade tem um valor incalcul\u00e1vel e inating\u00edvel atrav\u00e9s de qualquer quantia monet\u00e1ria) e levar em conta as circunst\u00e2ncias do caso, nomeadamente a idade da v\u00edtima e a sua inser\u00e7\u00e3o familiar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No caso em apre\u00e7o, logrou provar-se com relev\u00e2ncia para esta quest\u00e3o, que a v\u00edtima mortal \u00e0 data da morte tinha 75 anos de idade, padecendo de Alzheimer, e os filhos, nutriam bastante carinho por ela.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De acordo com o Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE), in\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ine.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ine.pt<\/a>, \u00abA esperan\u00e7a de vida \u00e0 nascen\u00e7a foi estimada em 80,80 anos, sendo 77,78 anos para os homens e 83,43 anos para as mulheres no per\u00edodo 2016-2018\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m, \u00e9 consabido que a esperan\u00e7a de vida de uma pessoa idosa diminui de sobremaneira a partir do momento em que deixa de viver em sua casa e passa a viver num lar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cumpre tamb\u00e9m considerar nos termos do artigo 494.\u00ba ex vi artigo 496.\u00ba, n.\u00ba 4 do CC, o grau de culpabilidade da demandada (neglig\u00eancia), e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da demandada muito superior \u00e0 dos demandantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Neste \u00e2mbito cumpre ter presente a jurisprud\u00eancia constante do Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 14-12-2016 (Proc. 619\/04.0TCSNT.L1.S1), in dgsi.pt, com refer\u00eancia \u00e0 morte de um homem de 70 anos: \u00abX - Tendo ficado provado que o pai das autoras: (i) estava internado no lar de idosos desde 04-04-1998; (ii) era doente e tinha sofrido uma trombose; (iii) estava acamado e morreu por asfixia em consequ\u00eancia do inc\u00eandio que ali deflagrou em 15-05-1999; e que (iv) era um ponto de refer\u00eancia para a fam\u00edlia, sendo, \u00e0 data da morte, uma pessoa feliz e alegre (apesar destas caracter\u00edsticas terem diminu\u00eddo no lar), \u00e9 de considerar que a indemniza\u00e7\u00e3o pelo dano morte, devida pelo ISSS e fixada em \u20ac 25 000 no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, se encontra aqu\u00e9m dos limites dentro dos quais se deve situar um ju\u00edzo equitativo que salvaguarde os princ\u00edpios da proporcionalidade e da igualdade, devendo, consequentemente, a mesma elevar-se para \u20ac 60 000.\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo exposto, atendendo aos elementos supra enunciados, configura este Tribunal justo e adequado fixar de acordo com os ju\u00edzos de equidade, tomando como refer\u00eancia os valores m\u00e9dios praticados pela jurisprud\u00eancia e a Portaria n.\u00ba 377\/2008, de 26 de Maio, atualizada pela Portaria n.\u00ba 679\/2009, de 25 de Junho, o montante indemnizat\u00f3rio de 60.000,00 \u20ac devido pela demandada aos demandantes, em partes iguais, por direito pr\u00f3prio (cabendo a quantia de 30.000,00\u20ac a cada demandante), pela perda do direito \u00e0 vida da sua m\u00e3e.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nos termos dos artigos 805.\u00ba, n.\u00ba 3, e 559.\u00ba, n.\u00ba 1, ambos do CC, incidem juros vincendos de mora \u00e0 taxa legal de 4%, nos termos da Portaria n.\u00ba 291\/03, de 8 de Abril, contados desde a data da presente decis\u00e3o at\u00e9 efetivo e integral pagamento, conforme jurisprud\u00eancia fixada no Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a n.\u00ba 4\/2002, de 9\/05\/2002, publicado no DR I-A, de 27\/06\/2002, na medida em que as indemniza\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas foram objeto de c\u00e1lculo atualizado (\u00e0 luz do n.\u00ba 2 do citado artigo 566.\u00ba), na presente decis\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Termos em que, dever\u00e1 o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil deduzido nos autos pelos demandantes civis AC e JC, ser julgado parcialmente procedente por provado e em consequ\u00eancia, serem absolvidas as demandadas civis EE e AA do pedido, e condenada a demandada civil SCM a pagar aos demandantes, em partes iguais, o valor global de 95.000,00\u20ac (noventa e cinco mil euros) a t\u00edtulo de indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais causados pelo seu incumprimento contratual, acrescida de juros \u00e0 taxa legal de 4%, contados a partir da data da presente decis\u00e3o at\u00e9 efetivo e integral pagamento, nos termos da Portaria n.\u00ba 291\/2003, de 8 de Abril, absolvendo-a da parte remanescente do pedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>3.\u00a0<\/strong>Sendo o \u00e2mbito do recurso delimitado pelas conclus\u00f5es do recorrente, sem preju\u00edzo do conhecimento oficioso dos v\u00edcios do art. 410.\u00ba, n.\u00ba 2, do CPP (AFJ de 19.10.95), as quest\u00f5es a apreciar respeitam\u00a0<strong>(a)<\/strong>\u00a0\u00e0 impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto por via da invoca\u00e7\u00e3o\u00a0<strong>(a.1)<\/strong>\u00a0do erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova e\u00a0<strong>(a.2)<\/strong>\u00a0da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel, socorrendo-se ainda, pontualmente, a demandada do recurso a provas gravada e\u00a0<strong>(b)<\/strong>\u00a0\u00e0 impugna\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de direito no respeitante\u00a0<strong>(b.a.)<\/strong>\u00a0\u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar e\u00a0<strong>(b.2)<\/strong>\u00a0ao montante indemnizat\u00f3rio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">(a)\u00a0<u>Da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto<\/u><br \/>A recorrente impugnou a factualidade dada como provada na senten\u00e7a por via da invoca\u00e7\u00e3o de dois v\u00edcios de texto: o erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova e a contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre os factos provados e entre estes e a fundamenta\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Socorreu-se ainda da prova gravada e da prova documental e per\u00edcia, utilizando simultaneamente a via ampla de impugna\u00e7\u00e3o prevista no art. 412\u00ba, n.\u00ba 3, do CPP.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Atrav\u00e9s da invoca\u00e7\u00e3o dos dois v\u00edcios da senten\u00e7a e do acesso \u00e0 prova gravada e a documentos do processo, pretende a demandada recorrente a altera\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, no sentido de se considerarem n\u00e3o provados muitos dos factos provados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, distinguem-se duas situa\u00e7\u00f5es que se abordar\u00e3o separadamente, e que se problematizaram, (a.1.) a primeira, no \u00e2mbito do erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova e da via ampla de impugna\u00e7\u00e3o; (a.2.) a segunda, no \u00e2mbito da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel, tamb\u00e9m com algum acesso \u00e0 prova gravada e \u00e0 examinada em audi\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">(a.1.)\u00a0<u>Do erro not\u00f3rio na aprecia\u00e7\u00e3o da prova<\/u><br \/>A recorrente impugnou o facto provado em 78., recorrendo tamb\u00e9m \u00e0 prova gravada. Apresar do recurso \u00e0 via ampla de impugna\u00e7\u00e3o, adianta-se que, neste ponto, a recorrente tem raz\u00e3o. E para detetar o erro de julgamento seria logo bastante a an\u00e1lise do texto da senten\u00e7a. No entanto, tendo sido especificada prova oral, da an\u00e1lise desta resulta apenas a corrobora\u00e7\u00e3o de um erro que j\u00e1 se tornava evidente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como se sabe, o recorrente disp\u00f5e de duas vias processuais de rea\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201csenten\u00e7a de facto\u201d \u2013 a invoca\u00e7\u00e3o de um v\u00edcio de decis\u00e3o, quando o erro resulta logo do pr\u00f3prio texto da senten\u00e7a, estando nela patente e sendo logo vis\u00edvel (art. 410\u00ba, n\u00ba 2 do CPP), ou a impugna\u00e7\u00e3o ampla da mat\u00e9ria de facto, caso a demonstra\u00e7\u00e3o exija o confronto com (e a an\u00e1lise das) provas examinadas em audi\u00eancia (art. 412\u00ba, n\u00ba 3, do CPP). A recorrente fez uso das duas disposi\u00e7\u00f5es legais do seguinte modo:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Alega que o facto 78. n\u00e3o est\u00e1 provado nem por documento nem por prova testemunhal, est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o depoimento do Perito (que especifica), pelo que n\u00e3o poder\u00e1 ser considerado provado nem invocado para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada. Diz tamb\u00e9m que do pr\u00f3prio exame cr\u00edtico da prova resultaria isso mesmo. E, como se adiantou j\u00e1, assiste-lhe raz\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O facto impugnado \u00e9 o seguinte: \u201c78. Durante o lapso temporal em que a faixa se enrolou no seu pesco\u00e7o a at\u00e9 \u00e0 morte, MN sofreu momentos de afli\u00e7\u00e3o, dor e sofrimento.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Refere a recorrente que \u201co Perito Dr. LC, m\u00e9dico que autopsiou a ofendida, grava\u00e7\u00e3o entre as 16 horas e 09 minutos e com termo pelas 16 horas e 34 minutos, referiu no seu depoimento entre os minutos 20:44 a 24:31 que a morte da D\u00aa MN pode ter ocorrido durante o sono, sem ter acordado, porque sofreu uma lenta compress\u00e3o e \u00e0 medida que foi ficando sem oxig\u00e9nio, come\u00e7ou a baixar o limiar de consci\u00eancia e morre e por isso pode n\u00e3o ter tido consci\u00eancia do que se estava a passar. Al\u00e9m de que a medica\u00e7\u00e3o que estava a tomar faz baixar mais o limiar da consci\u00eancia e por isso muito provavelmente n\u00e3o dever\u00e1 ter tido consci\u00eancia do que se estava a passar.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Se olharmos a motiva\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto da senten\u00e7a, pode ali ler-se efetivamente que \u201cno caso em concreto, atenta a medica\u00e7\u00e3o que a ofendida tomava e que induzia o sono, o quadro demencial, a sua idade avan\u00e7ada, a fraca musculatura e a debilidade f\u00edsica, resulta prov\u00e1vel que a ofendida estivesse a dormir enquanto estava lentamente a asfixiar, tal como acontece nos casos de apneia grave, o que explica que a mesma n\u00e3o tenha feito nenhum barulho aud\u00edvel, nem chamado a ajudante.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">E nenhuma outra explica\u00e7\u00e3o se descortina na senten\u00e7a para justifica\u00e7\u00e3o da demonstra\u00e7\u00e3o do facto 78. Ou seja, a senten\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o permite compreender como se logrou chegar \u00e0 sua demonstra\u00e7\u00e3o, como, na objetiva\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o se refere uma an\u00e1lise de prova que deveria ter conduzido ao resultado probat\u00f3rio contr\u00e1rio.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em suma, inexiste prova bastante para que se possa afirmar factualmente que \u201cDurante o lapso temporal em que a faixa se enrolou no seu pesco\u00e7o e at\u00e9 \u00e0 morte, MN sofreu momentos de afli\u00e7\u00e3o, dor e sofrimento\u201d, pelo que este enunciado f\u00e1ctico passar\u00e1 a integrar os factos n\u00e3o provados da senten\u00e7a, assim se corrigindo o erro de facto detetado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">(a.2.)\u00a0<u>Da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre os factos provados<\/u><br \/>A recorrente impugna ainda extensamente muitos outros factos provados, mormente por via da invoca\u00e7\u00e3o do v\u00edcio da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel, mas tamb\u00e9m alude a alguns depoimentos e documentos, alguns dos quais juntos em fase de recurso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Duas notas iniciais se justificam:<br \/>Independentemente da (in)tempestividade desta jun\u00e7\u00e3o, os documentos que juntou n\u00e3o se revelam\u00a0<em>em concreto<\/em>\u00a0decisivos para a decis\u00e3o do recurso. Referentes a boas pr\u00e1ticas no exerc\u00edcio da enfermagem, \u00e0 assist\u00eancia e imobiliza\u00e7\u00e3o de idosos acamados, respeitam a procedimentos gerais de imobiliza\u00e7\u00e3o, cumprindo sempre (designadamente\u00a0<em>aqui<\/em>, na decis\u00e3o\u00a0<em>do caso<\/em>) aferir, sim, quais as exig\u00eancias de procedimento que\u00a0<em>em concreto,\u00a0<\/em>e relativamente a esta concreta pessoa se impunham.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por outro lado, e uma vez retirado da mat\u00e9ria de facto provada o enunciado 78., da leitura de toda a \u201csenten\u00e7a de facto\u201d (composta pelos factos provados, n\u00e3o provados e sua justifica\u00e7\u00e3o) resulta claro qual o epis\u00f3dio de vida em aprecia\u00e7\u00e3o. E essa clareza persiste mesmo no confronto da impugna\u00e7\u00e3o do recurso. Ou seja, a senten\u00e7a de facto justifica adequadamente todos os factos provados e estes descrevem um epis\u00f3dio unitariamente l\u00f3gico e coerente e de acordo com as provas. Esta a perce\u00e7\u00e3o que resulta clara da senten\u00e7a, no sentido de o tribunal ter sabido apreender e percecionar devidamente o epis\u00f3dio de vida em aprecia\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Adianta-se, por \u00faltimo, que n\u00e3o se detetam contradi\u00e7\u00f5es relevantes e juridicamente consequentes, consignando-se que, na aus\u00eancia destas, n\u00e3o se justificariam nunca pontuais melhorias de reda\u00e7\u00e3o ou acertos de reda\u00e7\u00e3o de factualidade, j\u00e1 que os recursos s\u00e3o rem\u00e9dios jur\u00eddicos que visam reparar erros de julgamento e n\u00e3o meios de mero aprimoramento de decis\u00f5es.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mas concretizando, a recorrente invoca as seguintes contradi\u00e7\u00f5es entre os factos:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201ca. O facto provado 8 est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com os factos provados 11., 12., e 13., e com os depoimentos das testemunhas AM, Dr. MS e VB, dever\u00e1 passar a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: - \u201c A imobiliza\u00e7\u00e3o foi feita numa cama sem grades \u201c.<\/p><p style=\"text-align: justify\">b. Os factos provados 30. e 73. est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com os factos provados 26., 59., 58., 57., 98., 99., 100., 101., 102., 103., 104. e 110. n\u00e3o devendo ser considerados provados para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada<\/p><p style=\"text-align: justify\">c. O facto provado 61 dever\u00e1 ser corrigido, passando a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: - \u201cA pr\u00e1tica de conten\u00e7\u00e3o que foi utilizada no caso da utente MN \u00e9 correntemente utilizada em outras institui\u00e7\u00f5es de acolhimento de idosos e tamb\u00e9m no meio hospitalar\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">d. O facto provado 66 dever\u00e1 ser corrigido passando a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o: - \u201cNos termos do acordo ajustado entre a falecida e os seus dois filhos e a SCM, datado de 16.03.2016, de que existe c\u00f3pia a fls.599 a 601, esta \u00faltima obrigou-se a prestar a MN \u2013 Alojamento, Alimenta\u00e7\u00e3o adequada \u00e0s necessidades dos Utentes, respeitando as prescri\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas, Apoio nos cuidados de higiene pessoal, Apoio no desempenho das atividades de vida di\u00e1ria, Tratamento de roupa, Apoio no cumprimento de planos individuais de medica\u00e7\u00e3o e no planeamento e acompanhamento regular de consultas m\u00e9dicas e outros cuidados de sa\u00fade\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">e. Os factos provados 68. e 69. est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com o facto provado 88, pelo que n\u00e3o poder\u00e3o ser considerados provados e invocados para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada<\/p><p style=\"text-align: justify\">f. O facto provado 71 est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o facto 87 pelo que n\u00e3o poder\u00e1 ser considerado provado e invocado para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada<\/p><p style=\"text-align: justify\">g. Os factos provados 74., 75., e 76 est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o com os factos provados 11., 12., 13., 20., 26., 38., 39., 42., 43., 53., 56., 57., 58., 59., 60., 62., 63., 91., 96., 97., 98., 99., 100., 101., 102., 103., 104., 105. e 110. pelo que n\u00e3o poder\u00e3o ser considerados provados nem serem invocados para efeitos de condena\u00e7\u00e3o da demandada\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Da leitura de todos os apontados enunciados resulta claro que, independentemente de alguns deles poderem ser sujeitos a pontuais melhorias de reda\u00e7\u00e3o na sua concord\u00e2ncia, inexistem verdadeiras contradi\u00e7\u00f5es, juridicamente consequentes. Pois o v\u00edcio da contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel da fundamenta\u00e7\u00e3o e da fundamenta\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o ocorre apenas quando a fundamenta\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o recorrida aponta no sentido de decis\u00e3o oposta \u00e0 tomada, ou no sentido da colis\u00e3o entre os fundamentos invocados, sendo uma incompatibilidade inultrapass\u00e1vel atrav\u00e9s da pr\u00f3pria decis\u00e3o, entre os factos provados, entre estes e os n\u00e3o provados ou entre a mat\u00e9ria de facto e a decis\u00e3o, existindo como que uma colis\u00e3o. Essa colis\u00e3o n\u00e3o ocorre factualmente, em nenhum momento, aqui.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como os demandantes acertadamente contrapuseram, na resposta \u00e0s imputadas contradi\u00e7\u00f5es, \u201cI. Em nada s\u00e3o contradit\u00f3rios os factos constantes dos pontos 8, 11, 12 e 13, uma vez que, n\u00e3o se p\u00f5e em causa o teor das declara\u00e7\u00f5es prestadas pelas enfermeiras AM e VB, mas sim o facto das instru\u00e7\u00f5es por elas dadas e consequentemente, a forma como foi feita a imobiliza\u00e7\u00e3o, ser tecnicamente incorreta, uma vez que, como explicou o Sr. Perito m\u00e9dico, as imobiliza\u00e7\u00f5es podem ser realizadas com recurso a um len\u00e7ol, como sucedeu in casu, mas sempre numa cama de grades e nunca numa \u201ccama normal\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">II. A imobiliza\u00e7\u00e3o numa cama normal, n\u00e3o impede uma pessoa de cair.<\/p><p style=\"text-align: justify\">III. No que respeito aos pontos 30 e 73, se pode ser verdade que \u00e0 funcion\u00e1ria n\u00e3o era exig\u00edvel servir as ceias e vigiar os quartos em simult\u00e2neo, \u00e0 Recorrente era exig\u00edvel ter um sistema de vigil\u00e2ncia eficaz e permanente, uma vez que as imobiliza\u00e7\u00f5es que eram realizadas diariamente n\u00e3o eram seguras e possibilitavam quedas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IV. Com efeito, uma funcion\u00e1ria naquele piso \u00e9 manifestamente insuficiente como se veio a provar, uma vez que a qualquer momento um utente pode cair ou precisar de aux\u00edlio por qualquer raz\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">V. No que respeita ao ponto 61, nunca a douta senten\u00e7a diz que a Recorrente \u00e9 um hospital, o que refere \u00e9 que, como j\u00e1 se disse acima, as imobiliza\u00e7\u00f5es, a serem necess\u00e1rias, devem ser realizadas de forma segura, tal como se faz nos hospitais, em camas de grades.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VI. Relativamente ao ponto 66, a assist\u00eancia m\u00e9dica corresponde \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade e acompanhamento, conforme consta claramente do Regulamento Interno.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VII. No que concerne aos pontos 68 e 69, n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rios, uma vez que quando MN entrou para a Institui\u00e7\u00e3o andava pelo seu pr\u00f3prio p\u00e9, falava, conhecia todas as pessoas com quem lidava e comia sozinha, de modo que, n\u00e3o evidenciava ainda muitos sintomas de Alzheimer, pese embora j\u00e1 tivesse alguns, nomeadamente a necessidade de usar fralda, alguma confus\u00e3o esp\u00e1cio-temporal e necessitar de vigil\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">VIII. Quanto ao ponto 71, o facto de MN ter estado em outras Institui\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o facto de os Demandantes alegarem que n\u00e3o queriam que esta estivesse sozinha em casa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">IX. Relativamente aos pontos 74, 75 e 76, MN foi imobilizada, numa cama sem grades, n\u00e3o a protegeu nem fez com que ficasse em seguran\u00e7a.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">A decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto \u00e9, pois, nesta parte, integralmente de manter.<\/p><p style=\"text-align: justify\">(b)\u00a0<u>Da impugna\u00e7\u00e3o em mat\u00e9ria de direito<\/u><br \/>(b.a.)\u00a0<u>Da obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar<\/u><br \/>Na senten\u00e7a julgou-se parcialmente procedente o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil deduzido contra a demandada civil SCM, condenando-se esta a pagar aos demandantes AC e JC, \u201cem partes iguais, o valor global de 95.000,00\u20ac (noventa e cinco mil euros) a t\u00edtulo de indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais causados pelo seu incumprimento contratual, acrescida de juros \u00e0 taxa legal de 4%, contados a partir da data da presente decis\u00e3o at\u00e9 efetivo e integral pagamento, nos termos da Portaria n.\u00ba 291\/2003, de 8 de Abril, absolvendo-a da parte remanescente do pedido\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A recorrente argumenta aqui, essencialmente, do modo seguinte:<br \/>\u201cA imobiliza\u00e7\u00e3o da D\u00aa MN numa cama sem grades n\u00e3o \u00e9 um facto il\u00edcito porque n\u00e3o constitui uma omiss\u00e3o de zelo exig\u00edvel, em primeiro lugar porque n\u00e3o existe nenhuma disposi\u00e7\u00e3o legal ou normativa que obrigue a demandada a deitar a ofendida numa cama com grades (\u2026)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em segundo lugar a ofendida foi avaliada por mais de uma vez pelo Gabinete de Fisioterapia e Reabilita\u00e7\u00e3o Psicomotora e enfermeiros da demandada, que s\u00e3o t\u00e9cnicos especializados com compet\u00eancia para efetuar as avalia\u00e7\u00f5es, que determinaram que n\u00e3o tinha os crit\u00e9rios para lhe ser atribu\u00edda uma cama com grades, porque n\u00e3o estava acamada ou totalmente dependente nem possu\u00eda outras complica\u00e7\u00f5es, como excesso de peso, problemas de mobilidade, problemas cardiorrespirat\u00f3rios ou feridas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o se verificou a viola\u00e7\u00e3o do dever de vigil\u00e2ncia porque o r\u00e1cio de pessoal da demandada \u00e9 bastante superior ao exigido legalmente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As funcion\u00e1rias que prestam servi\u00e7o no 1\u00ba piso da ERPI s\u00e3o as mais bem preparadas, eficazes e da maior confian\u00e7a da demandada, havendo permanentemente vigil\u00e2ncia 24 sobre 24 horas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m da ofendida ter junto da sua cama e ao seu alcance um interruptor do sistema de chamada que permite que a funcion\u00e1ria de servi\u00e7o, esteja em que local estiver, n\u00e3o s\u00f3 naquele piso mas tamb\u00e9m em qualquer ponto das instala\u00e7\u00f5es, se apercebe da chamada da ofendida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em noites anteriores a ofendida pediu aux\u00edlio por voz ou utilizou o sistema de chamada existente, vide facto provado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O circuito interno de v\u00eddeo fechado que a demandada possui tem a autoriza\u00e7\u00e3o N.\u00ba 5594\/2016 dada pela com Comiss\u00e3o Nacional de Prote\u00e7\u00e3o de Dados que n\u00e3o permite a recolha de imagens de acesso ou interior de instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias, zonas de espera, locais de lazer e repouso, corredores de acesso e interior dos quartos e cozinhas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o se verifica assim a exist\u00eancia de facto il\u00edcito nem a culpa, pressupostos da responsabilidade civil, devendo em consequ\u00eancia ser julgado improcedente o pedido de indemniza\u00e7\u00e3o civil em que foi condenada.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">A esta argumenta\u00e7\u00e3o contrapuseram os demandantes:<br \/>\u201cMN foi imobilizada, numa cama sem grades, o que n\u00e3o a protegeu nem fez com que ficasse em seguran\u00e7a.<br \/>Pelo contr\u00e1rio, o len\u00e7ol causou a sua asfixia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A utiliza\u00e7\u00e3o de um meio de conten\u00e7\u00e3o, implicaria uma vigil\u00e2ncia permanente, o que n\u00e3o ocorreu em fun\u00e7\u00e3o do meio de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho da Demandada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como n\u00e3o assegurou vigil\u00e2ncia permanente, MN acabou por escorregar da cama, o que n\u00e3o aconteceria com uma cama de grades e ningu\u00e9m se apercebeu, acabando por asfixiar at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A imobiliza\u00e7\u00e3o teria de ser feita numa cama de grades e nunca como aconteceu.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A imobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se substitui a uma vigil\u00e2ncia, muito pelo contr\u00e1rio, implica maior vigil\u00e2ncia, por acarretar um risco de asfixia, que aparentemente as enfermeiras da Demandada desconheciam.<\/p><p style=\"text-align: justify\">MN foi para o lar da Recorrente por ter sido diagnosticada com Alzheimer uma doen\u00e7a incur\u00e1vel e com tend\u00eancia para piorar e assim, estaria sempre acompanhada, vigiada e em seguran\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A Demandada ao permitir que MN estivesse sem vigil\u00e2ncia adequada, incorretamente imobilizada e ao permitir que esta escorregasse da cama, acabando por ser asfixiada com um len\u00e7ol, at\u00e9 \u00e0 morte, omitiu os deveres de cuidado (\u2026)\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Num enquadramento jur\u00eddico algo impreciso, o tribunal situou a responsabilidade civil da demandada no \u00e2mbito do incumprimento de contrato. Mas a resposta jur\u00eddica para o epis\u00f3dio de vida em aprecia\u00e7\u00e3o deve encontrar-se no contexto das normas que regem a\u00a0<em>culpa in vigilando<\/em>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Como se pode ler na \"Colet\u00e2nea de Jurisprud\u00eancia\", tomo 4, n.\u00ba 233, agosto-outubro 2011, p. 251-254, \u201cO concurso entre a responsabilidade contratual e a responsabilidade extracontratual \u00e9 um concurso aparente de normas, n\u00e3o existindo aplica\u00e7\u00e3o cumulativa das duas vias de responsabilidade \u00e0 mesma situa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Se o dano resulta da infra\u00e7\u00e3o de um dever geral de conduta deve prevalecer a responsabilidade extracontratual; se ocorre apenas a viola\u00e7\u00e3o de um cr\u00e9dito, prevalece a responsabilidade contratual.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">No caso dos autos, estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o de uma obriga\u00e7\u00e3o decorrente do dever de vigil\u00e2ncia por internamento de idoso (idosa) com incapacidade natural em lar. E a esta constata\u00e7\u00e3o jur\u00eddica \u00e9 indiferente o tipo ou extens\u00e3o da assist\u00eancia m\u00e9dica que em concreto que deveria ou n\u00e3o ser prestada pela demandada (da\u00ed ser indiferente a impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto nessa parte), uma vez que resulta indiscut\u00edvel que o dever de vigil\u00e2ncia, em concreto, incluiu os cuidados e a assist\u00eancia necess\u00e1rios a que a idosa dormisse em seguran\u00e7a e a que epis\u00f3dios como o presente n\u00e3o ocorressem.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Trata-se por isso de responsabilidade fundada na\u00a0<em>culpa in vigilando<\/em>, como se disse.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O art. 491\u00ba do CC contempla uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de responsabilidade subjetiva pela omiss\u00e3o, assentando na ideia de que n\u00e3o foram tomadas as necess\u00e1rias precau\u00e7\u00f5es para evitar o dano, <em>por omiss\u00e3o do dever de vigil\u00e2ncia<\/em>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Uma vez que n\u00e3o estamos perante danos provocados a terceiros \u00e9 de afastar a presun\u00e7\u00e3o que inverte o \u00f3nus da prova prevista no art. 491\u00ba do CC, que s\u00f3 existe para o caso de danos a terceiros e n\u00e3o abrange os danos pr\u00f3prios daquele que necessita de vigil\u00e2ncia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Neste sentido, pode ler-se A.Varela e Pires de Lima, CC anotado Vol. I 3\u00aa ed. P. 466 e Rodrigues Bastos, \u201c Notas ao C\u00f3digo Civil, vol. II Lisboa, 1988 p. 491, onde se pode ler: \u201cA norma em exame s\u00f3 prev\u00ea os danos causados a terceiro. Isto n\u00e3o significa que quando a pessoa necessita de vigil\u00e2ncia e cause um dano a si pr\u00f3pria n\u00e3o possa haver responsabilidade do obrigado a vigil\u00e2ncia, s\u00f3 que, em tal caso n\u00e3o \u00e9 aplic\u00e1vel a invers\u00e3o do \u00f3nus da prova de que trata este artigo (Enneccerus-Lehmann, ob. Vol. II \u00a7 237 ali citado).\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ou seja, como referem A.Varela e Pires de Lima, ob. Cit., p. 466, \u201cno que toca aos danos causados \u00e0 pessoa que deve ser vigiada vigoram os princ\u00edpios gerais, nomeadamente o art. 486\u00ba.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim sendo, nos termos do art. 487\u00ba n\u00ba 1 do CC \u201c\u00e9 ao lesado que incumbe a prova da culpa do autor na les\u00e3o\u201d.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cPara a compreens\u00e3o do \u201cdever de vigil\u00e2ncia\u201d deve apelar-se ao \u201cpadr\u00e3o de conduta exig\u00edvel\u201d, com suficiente plasticidade, impondo-se a indaga\u00e7\u00e3o casu\u00edstica e a convoca\u00e7\u00e3o do \u201cpensamento t\u00f3pico\u201d, pelo que importa valorar, designadamente, a idade do incapaz, a perigosidade da atividade, a disponibilidade dos m\u00e9todos preventivos, a rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a e proximidade, a previsibilidade do dano\u201d (Ac. TRC de 17.09.2013, rel. Jorge Arcanjo).<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 entre outros, objetivo espec\u00edfico dos estabelecimentos de Lares de Idosos \u201cproporcionar servi\u00e7os permanentes e adequados \u00e0 problem\u00e1tica biopsicossocial das pessoas idosas\u201d (Norma II, n\u00ba 1, al. a) do Despacho Normativo n\u00ba 67\/89, de 26 de Julho), constitui obriga\u00e7\u00e3o dos lares de idosos garantir-lhes \u201ca presta\u00e7\u00e3o de todos os cuidados adequados \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades dos idosos, designadamente, alimenta\u00e7\u00e3o, cuidados de higiene e conforto, de ocupa\u00e7\u00e3o, m\u00e9dicos e de enfermagem, tendo em vista a manuten\u00e7\u00e3o da sua autonomia\u201d (cfr. n\u00ba 2, al\u00edneas a) e c) do preceito citado).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Daqui deriva que, sem preju\u00edzo da independ\u00eancia e autonomia dos idosos quando poss\u00edvel, cabe aos lares desenvolver todo um conjunto de tarefas necess\u00e1rias \u00e0 prote\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a dos seus internados, encontrando-se entre estas, necessariamente, a obriga\u00e7\u00e3o de controlarem o seu comportamento, o que se imp\u00f5e particularmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que tenham evidenciado \u201ccomportamentos desajustados\u201d da realidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Competia assim aos demandantes demonstrarem que o lar n\u00e3o empregou todas as provid\u00eancias exigidas pelas circunst\u00e2ncias, para prevenir o evento danoso. E essas provid\u00eancias ser\u00e3o ditadas pelas \u201cparticulares normas t\u00e9cnicas ou legislativas inerentes \u00e1s especiais atividades ou regras de experi\u00eancia comum\u201d (Vaz Serra, Da Responsabilidade Civil 368, e Ac. STJ de 17.02.77, BMJ 26, p. 166.)<\/p><p style=\"text-align: justify\">O padr\u00e3o de conduta exig\u00edvel na vigil\u00e2ncia ser\u00e1 assim o de uma pessoa m\u00e9dia colocada nas mesmas circunst\u00e2ncias e depende, especialmente, da\u00a0<em>natureza e valor do interesse protegido em quest\u00e3o<\/em>, da\u00a0<em>perigosidade da situa\u00e7\u00e3o<\/em>, das\u00a0<em>condi\u00e7\u00f5es de per\u00edcia que \u00e9 de esperar de quem exerce a vigil\u00e2ncia<\/em>, da\u00a0<em>previsibilidade do dano<\/em>, da rela\u00e7\u00e3o de proximidade ou da particular confian\u00e7a entre as partes envolvidas, bem como\u00a0<em>da disponibilidade e custos de m\u00e9todos preventivos ou alternativos<\/em>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora, essa omiss\u00e3o resulta efetivamente da mat\u00e9ria provada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E para chegar a esta conclus\u00e3o, h\u00e1 que apreciar\u00a0<em>no seu conjunto<\/em> todos os \u201celementos factuais\u201d suscet\u00edveis de pondera\u00e7\u00e3o. Ou seja, mostra-se errado isolar e avaliar\u00a0<em>de per si,<\/em> individualmente, cada \u201cparcela de actua\u00e7\u00e3o\u201d (que individualmente at\u00e9 podem ser v\u00e1lidas e legais), como pretende a recorrente, mas sem proceder, como sempre se imp\u00f5e, a uma an\u00e1lise conjunta de todas essas parcelas de atua\u00e7\u00e3o (da demandada).<\/p><p style=\"text-align: justify\">A concreta aferi\u00e7\u00e3o do dever de vigil\u00e2ncia obriga \u00e0 concreta contextualiza\u00e7\u00e3o dessas parcelas de atua\u00e7\u00e3o, no \u00e2mbito das concretas condi\u00e7\u00f5es e das cautelas e cuidados que, sempre em concreto, ser\u00e3o de exigir.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim,\u00a0<em>in casu<\/em>, tratava-se de garantir a seguran\u00e7a noturna de uma pessoa idosa padecente de doen\u00e7a de Alzheimer, necessitada de ser imobilizada na cama na decorr\u00eancia de epis\u00f3dios anteriores de levantamento durante a noite, situando-se o seu quarto num piso com uma \u00fanica funcion\u00e1ria cuidadora de todos os internados, e sem c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia nos quartos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, n\u00e3o obsta \u00e0 responsabiliza\u00e7\u00e3o da demandada a circunst\u00e2ncia de \u201ca imobiliza\u00e7\u00e3o numa cama sem grades n\u00e3o ser um facto il\u00edcito\u201d, \u201cde n\u00e3o ter crit\u00e9rios para lhe ser dada uma cama com grades porque n\u00e3o estava acamada ou totalmente dependente nem possu\u00eda outras complica\u00e7\u00f5es\u201d, \u201co r\u00e1cio de pessoal da demandada ser superior ao exigido legalmente\u201d, \u201cas funcion\u00e1rias serem bem preparadas\u201d, \u201ca ofendida ter junto da sua cama e ao seu alcance um interruptor do sistema de chamada que permite que a funcion\u00e1ria de servi\u00e7o, esteja em que local estiver, n\u00e3o s\u00f3 naquele piso mas tamb\u00e9m em qualquer ponto das instala\u00e7\u00f5es, se apercebe da chamada da ofendida\u201d (lembre-se que a falecida pode ter asfixiado sem disse se ter chegado a aperceber), \u201c em noites anteriores a ofendida ter pedido aux\u00edlio por voz ou utilizado o sistema de chamada existente.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para al\u00e9m das \u201ccama de grades\u201d, resulta da senten\u00e7a que a demandada dispunha nas suas instala\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m de grades amov\u00edveis para coloca\u00e7\u00e3o pontual em camas sem grades. E se n\u00e3o dispusesse, podia dispor. Esta grade amov\u00edvel podia ter sido colocada e prevenido o epis\u00f3dio sucedido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Este \u201caditamento de seguran\u00e7a\u201d \u00e0 imobiliza\u00e7\u00e3o por len\u00e7ol<em>,<\/em>\u00a0(atrav\u00e9s da coloca\u00e7\u00e3o de grade amov\u00edvel) justificava-se claramente aqui<em>,<\/em>\u00a0face \u00e0 globalidade dos factos provados. Ou seja, justificava-se para\u00a0<em>esta pessoa em concreto<\/em>,\u00a0<em>nas suas concretas circunst\u00e2ncias<\/em>: pessoa idosa padecente de Alzheimer, com epis\u00f3dios de instabilidade de sono j\u00e1 conhecidos da demandada, que se encontra num quarto sem c\u00e2mara de vigil\u00e2ncia, situado num piso onde uma \u00fanica funcion\u00e1ria presta assist\u00eancia a v\u00e1rios quartos e a v\u00e1rios idosos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por tudo se conclui que a demandada n\u00e3o empregou todas as provid\u00eancias exigidas pelas circunst\u00e2ncias, para prevenir o evento danoso. Esta sua omiss\u00e3o resulta efetivamente da mat\u00e9ria de facto provada e, como tal, deve ser responsabilizada pelo evento danoso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">(b.2)\u00a0<u>Do montante indemnizat\u00f3rio<\/u><br \/>Por \u00faltimo, a recorrente impugna o\u00a0<em>quantum<\/em>\u00a0indemnizat\u00f3rio argumentando que\u00a0\u201cdever\u00e1 ter-se em conta no valor da indemniza\u00e7\u00e3o a idade da ofendida, o estado de sa\u00fade em que se encontrava, a esperan\u00e7a de vida e o facto de com toda a probabilidade ter falecido sem se aperceber o que estava a acontecer, por ter sofrido uma compress\u00e3o lenta que a foi asfixiando lentamente e que ao mesmo tempo por falta de oxig\u00e9nio lhe baixou o limiar de consci\u00eancia, como foi referido pelo Perito em audi\u00eancia de julgamento.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">A senten\u00e7a fixou em 95.000,00\u20ac o valor global da indemniza\u00e7\u00e3o, acrescida de juros \u00e0 taxa legal de 4%, contados a partir da data da presente decis\u00e3o at\u00e9 efetivo e integral pagamento, nos termos da Portaria n.\u00ba 291\/2003, de 8 de Abril, absolvendo a demandada da parte remanescente do pedido\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Face \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o em mat\u00e9ria de facto, resultando agora por demonstrar o enunciado f\u00e1ctico especificado em 78., que passou a ocupar a mat\u00e9ria de facto n\u00e3o provada, o montante indemnizat\u00f3rio parcelar de 10.000,00 \u20ac, que a senten\u00e7a considerara devido aos demandantes em partes iguais (5.000,00 \u20ac a cada demandante) na qualidade de herdeiros legais da v\u00edtima, deve ser agora dado sem efeito, atenta a aus\u00eancia total de base factual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O montante indemnizat\u00f3rio de 12.500,00 \u20ac, considerado na senten\u00e7a como devido a cada um dos demandantes pelos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos em consequ\u00eancia da morte da sua m\u00e3e, encontram-se ali suficientemente justificados, tanto factual como juridicamente. Para essa justifica\u00e7\u00e3o se remete, tanto mais que a recorrente verdadeiramente nem o impugna como valor\u00a0<em>a se.<\/em>\u00a0Adita-se que o valor arbitrado se enquadra nos comumente atribu\u00eddos em casos semelhantes, assim respeitando tamb\u00e9m o referente jurisprudencial. Veja-se, por exemplo o ac\u00f3rd\u00e3o desta Rela\u00e7\u00e3o de 18.10.2018, com a mesma relatora do presente, e em que a t\u00edtulo de ressarcimento de danos n\u00e3o patrimoniais sofridos em consequ\u00eancia de morte de m\u00e3e idosa foi fixado valor igual ao presente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">J\u00e1 o valor fixado pela perda do direito \u00e0 vida se mostra elevado, tendo em conta as circunst\u00e2ncias concretas que a senten\u00e7a apreciou, e ainda duas outras a que n\u00e3o foi dado o devido destaque.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, disse-se na senten\u00e7a que\u00a0\u201cno caso em apre\u00e7o, logrou provar-se com relev\u00e2ncia para esta quest\u00e3o, que a v\u00edtima mortal \u00e0 data da morte tinha 75 anos de idade, padecendo de Alzheimer, e os filhos, nutriam bastante carinho por ela.<\/p><p style=\"text-align: justify\">De acordo com o Instituto Nacional de Estat\u00edstica (INE), in\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ine.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ine.pt<\/a>, \u00abA esperan\u00e7a de vida \u00e0 nascen\u00e7a foi estimada em 80,80 anos, sendo 77,78 anos para os homens e 83,43 anos para as mulheres no per\u00edodo 2016-2018\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por\u00e9m, \u00e9 consabido que a esperan\u00e7a de vida de uma pessoa idosa diminui de sobremaneira a partir do momento em que deixa de viver em sua casa e passa a viver num lar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cumpre tamb\u00e9m considerar nos termos do artigo 494.\u00ba ex vi artigo 496.\u00ba, n.\u00ba 4 do CC, o grau de culpabilidade da demandada (neglig\u00eancia), e a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica da demandada muito superior \u00e0 dos demandantes.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ap\u00f3s citar jurisprud\u00eancia de apoio, consigna acertadamente, a prop\u00f3sito dos valores mais baixos que decorreriam da aplica\u00e7\u00e3o da Portaria n.\u00ba 377\/2008, que\u00a0\u201choje em dia, a jurisprud\u00eancia toma mais como refer\u00eancia um valor m\u00e9dio a rondar os 50.000,00 \u20ac\u201d. E conclui\u00a0\u201c atendendo aos elementos supra enunciados, configura este Tribunal justo e adequado fixar de acordo com os ju\u00edzos de equidade, tomando como refer\u00eancia os valores m\u00e9dios praticados pela jurisprud\u00eancia e a Portaria n.\u00ba 377\/2008, de 26 de Maio, actualizada pela Portaria n.\u00ba 679\/2009, de 25 de Junho, o montante indemnizat\u00f3rio de 60.000,00 \u20ac devido pela demandada aos demandantes, em partes iguais, por direito pr\u00f3prio (cabendo a quantia de 30.000,00\u20ac a cada demandante), pela perda do direito \u00e0 vida da sua m\u00e3e.\u201d<\/p><p style=\"text-align: justify\">Se na senten\u00e7a se identificou corretamente esse valor m\u00e9dio a que os tribunais t\u00eam chegado (e a senten\u00e7a alude aqui acertadamente \u00e0 import\u00e2ncia do referente jurisprudencial em decis\u00f5es como a presente), n\u00e3o se percebe a sua concreta eleva\u00e7\u00e3o para \u20ac 60.000,00, tanto mais que as circunst\u00e2ncias do caso justificaria sim uma ligeira descida para \u20ac 45.000,00. Nesta decis\u00e3o, para al\u00e9m das circunst\u00e2ncias referidas na senten\u00e7a e j\u00e1 transcritas, deve ainda ter-se em conta que a doen\u00e7a de Alzheimer de que a falecida padecia tem um quadro cl\u00ednico de evolu\u00e7\u00e3o altamente incapacitante e limitativo da qualidade de vida. Por outro lado, e no que respeita \u00e0 demandada, n\u00e3o basta considerar que tem uma capacidade econ\u00f3mica muito superior \u00e0 dos demandantes, devendo ainda ter-se em conta que se trata de uma institui\u00e7\u00e3o de solidariedade social sem fins lucrativos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Justifica-se, por tudo, a redu\u00e7\u00e3o deste montante para \u20ac 45.000,00, computando-se agora a indemniza\u00e7\u00e3o total em \u20ac 70.000,00.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>4<\/strong>. Face ao exposto, acordam na Sec\u00e7\u00e3o Criminal da Rela\u00e7\u00e3o de \u00c9vora em julgar parcialmente procedente o recurso, alterando-se a mat\u00e9ria de facto conforme justificado em 3.(a.1), e reduzindo-se o valor global da indemniza\u00e7\u00e3o para \u20ac 70.000,00, conforme explanado em 3.(b.2.), mantendo-se no mais a senten\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas c\u00edveis na propor\u00e7\u00e3o do vencimento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9vora, 14.04.2020<br \/>(Ana Barata de Brito)<br \/>(Carlos Berguete)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/1107-2020-191161275\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/1107-2020-191161275<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" 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data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Dever de Informa\u00e7\u00e3o<\/p><p>Responsabilidade medica<\/p><p>&#8211; Antunes Varela, Das Obriga\u00e7\u00f5es em Geral, Volume I, 10.\u00aa Edi\u00e7\u00e3o, p. 519.C\u00d3DIGO DE PROCESSO CIVIL (CPC): &#8211; ARTIGO 672.\u00ba, N.\u00ba 3.<\/p><p>AC\u00d3RD\u00c3OS DO SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTI\u00c7A:- DE 02-11-2017, PROCESSO N.\u00ba 23592\/11.4T2SNT.L1.S1;<br \/>&#8211; DE 22-03-2018, PROCESSO N.\u00ba 7053\/12.7TBVNG.P1.S1;<br \/>&#8211; DE 05-06-2018, PROCESSOS N.\u00ba 1250\/13.5TVLSB.L1.S1, TODOS IN WWW.DGSI.PT.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-b3354c7 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"b3354c7\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-b3354c7\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">I - A responsabilidade civil emergente da realiza\u00e7\u00e3o de ato m\u00e9dico, ainda que se prove a inexist\u00eancia de erro ou m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica, pode radicar-se na viola\u00e7\u00e3o do dever do informa\u00e7\u00e3o do paciente relativamente aos riscos e aos danos eventualmente decorrentes da realiza\u00e7\u00e3o do ato m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Acordam no Supremo Tribunal de Justi\u00e7a:<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>AA\u00a0<\/strong>intentou a\u00e7\u00e3o declarativa comum contra\u00a0<strong>BB\u00a0<\/strong>pedindo\u00a0que este fosse condenado a pagar-lhe a quantia de \u20ac 58.500,00, a t\u00edtulo de indemniza\u00e7\u00e3o por todos os danos que lhe foram provocados com a atua\u00e7\u00e3o il\u00edcita por ato e\/ou omiss\u00e3o do r\u00e9u, devidamente atualizada \u00e0 data da prola\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a, e\/ou acrescida dos juros morat\u00f3rios vincendos desde a data da cita\u00e7\u00e3o, \u00e0 taxa legal (sendo que, no decurso dos autos, requereu a redu\u00e7\u00e3o do pedido para a quantia de \u20ac 35.000,00 - o que foi admitido por despacho de 22\/03\/2018).<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Alegou, para tanto e em s\u00edntese, que procurou os servi\u00e7os do r\u00e9u, ..., com o prop\u00f3sito de melhorar a sua apar\u00eancia dental, o qual lhe garantiu que o tratamento seria simples e eficaz, capaz de garantir o resultado final pretendido e que n\u00e3o comportava qualquer tipo de risco.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Mais alegou que, por causa do tratamento, come\u00e7ou a sentir altera\u00e7\u00f5es ao n\u00edvel da sua estrutura bucal, que apresentou ao r\u00e9u v\u00e1rias queixas e que, como n\u00e3o sentia melhoras, consultou diversos especialistas.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E alegou que passou a sofrer de problemas funcionais, esquel\u00e9ticos, desvios mandibulares, reabsor\u00e7\u00e3o radicular, altera\u00e7\u00e3o de mordida, oclus\u00e3o traum\u00e1tica e dificuldades na mastiga\u00e7\u00e3o e que sofreu danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais causados pela conduta do r\u00e9u, que n\u00e3o fez uso de todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e todos os meios \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para assegurar \u00e0 autora os melhores cuidados e repor a sua sa\u00fade oral, violando, tamb\u00e9m, as regras deontol\u00f3gicas da Odontologia, tendo incorrido em responsabilidade tanto de \u00e2mbito contratual, como extracontratual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0O r\u00e9u contestou e deduziu incidente de interven\u00e7\u00e3o principal provocada de CC SA (atualmente denominada\u00a0<strong>DD SA<\/strong>) \u2013 interven\u00e7\u00e3o essa que foi admitida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em s\u00edntese, alegou que prestou os servi\u00e7os referidos pela autora, mas negou todos os erros que lhe foram imputados, os danos e qualquer nexo de causalidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E alegou ter celebrado com a Interveniente um contrato de seguro de responsabilidade profissional.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A Interveniente tamb\u00e9m contestou, invocando a prescri\u00e7\u00e3o do direito e a previs\u00e3o de franquia no contrato de seguro, e no mais, fazendo sua a contesta\u00e7\u00e3o apresentada pelo r\u00e9u, impugnando a mat\u00e9ria factual invocada pela autora.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Prosseguindo os autos e realizada a audi\u00eancia de julgamento, foi proferida\u00a0<u>senten\u00e7a<\/u>:<\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Condenando-se o r\u00e9u e a interveniente solidariamente a pagar \u00e0 autora a quantia de \u20ac 12.500,00 (doze mil e quinhentos euros) a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais e a quantia de \u20ac22.500,00 (vinte e dois mil e quinhentos euros) a t\u00edtulo de dano patrimonial futuro, ambas acrescidas de juros de mora \u00e0 taxa de 4% a contar da\u00a0 data da senten\u00e7a e at\u00e9 efetivo e integral pagamento, sendo o valor respeitante \u00e0 interveniente deduzido da franquia estipulada no contrato de seguro.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na sequ\u00eancia e no \u00e2mbito de apela\u00e7\u00e3o do r\u00e9u,\u00a0<strong>a Rela\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es<\/strong>\u00a0<u>confirmou a senten\u00e7a recorrida.<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Uma vez mais inconformado,\u00a0<strong><u>interp\u00f4s o autor\/apelante o presente recurso de revista excecional<\/u><\/strong>\u00a0(admitido pela Forma\u00e7\u00e3o a que alude o n\u00ba 3 do art. 672\u00ba do CPC), no qual formulou as seguintes\u00a0<u>conclus\u00f5es:<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">1\u00aa - Foi o Recorrente notificado do Ac\u00f3rd\u00e3o que negou provimento ao recurso, concluindo que o Recorrente \u00e9 respons\u00e1vel pelos danos sofridos pela A. na sequ\u00eancia do tratamento ortod\u00f4ntico efetuado, apesar de ter resultado provado que\u00a0<em>\u201c90. O R\u00e9u [Recorrente] empregou todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e os meios necess\u00e1rios ao tratamento realizado pela Autora\u201d<\/em>, simplesmente pelo facto de ter considerado a conduta do Recorrente il\u00edcita por alegadamente n\u00e3o ter cumprido o dever de informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rio para se alcan\u00e7ar o consentimento livre e esclarecido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2\u00aa - Ora, tal Ac\u00f3rd\u00e3o est\u00e1 em frontal contradi\u00e7\u00e3o com a posi\u00e7\u00e3o defendida no Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa, j\u00e1 transitado em julgado, proferido no processo n.\u00ba 284\/099TVLSB.Ll-2, datado de 03-12-2015.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3\u00aa - Refere o sum\u00e1rio do citado aresto que\u00a0<em>\u201cII. N\u00e3o se provando a exist\u00eancia de erro na realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia nem de nexo de causalidade entre a cirurgia e os males de que o credor se queixa e pelos quais pretende ser ressarcido, perde relevo a quest\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de consentimento informado para a realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">4\u00aa - Regressando ao Ac\u00f3rd\u00e3o em crise nos presentes autos, verifica-se que o mesmo adota uma posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, ao valorizar o consentimento informado em detrimento da prova j\u00e1 assente de que o Recorrente empregou todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e os meios necess\u00e1rios ao tratamento realizado pela Autora,<\/p><p style=\"text-align: justify\">5\u00aa - Concluindo que\u00a0<em>\u201cNem s\u00f3 a m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica ou o erro t\u00e9cnico \u00e9 fundamento de responsabilidade m\u00e9dica, tamb\u00e9m o \u00e9 a viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos pacientes, real\u00e7ando-se, entre estes (mas existem muitos outros), a sua autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o, por desrespeito do dever de informar, que impede que o paciente usufrua da sua 1iberdade.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">6\u00aa - Ora, seguindo a posi\u00e7\u00e3o do Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 03-12-2015, resultando provado que o Recorrente empregou todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e os meios necess\u00e1rios ao tratamento realizado pela Autora, perderia relevo a quest\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de consentimento informado e o Recorrente seria absolvido, tal como foi o m\u00e9dico naquele processo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">7\u00aa - Tamb\u00e9m o Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 21-02-2011, processo n.\u00ba 10527\/07.8TBMAI.P1, conclui que n\u00e3o resultando provada a ilicitude dos atos do R., deveria este ter sido absolvido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">8\u00aa - Este aresto esclarece que\u00a0<em>\u201cAfastada a ilicitude desta interven\u00e7\u00e3o, e sem deixar de se reconhecer, na medida dos factos apurados, os preju\u00edzos sofridos, tamb\u00e9m \u00e9 seguro que os mesmos, presente o enquadramento factual apurado, s\u00e3o compat\u00edveis e adequados ao ato m\u00e9dico licitamente efetuado, com observ\u00e2ncia das regras t\u00e9cnicas e da arte que dele s\u00e3o indissoci\u00e1veis. Em conclus\u00e3o, afastada a ilicitude da interven\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se verificando todos os pressupostos integradores da obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar, que se imp\u00f5em cumulativos, n\u00e3o pode ser tutelada a pretens\u00e3o da recorrente.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">9\u00aa - Est\u00e1 assim patente a exist\u00eancia de contradi\u00e7\u00e3o entre Ac\u00f3rd\u00e3os no dom\u00ednio da mesma legisla\u00e7\u00e3o e sobre a mesma quest\u00e3o fundamental de Direito: a extens\u00e3o\/import\u00e2ncia do conceito de consentimento informado nas situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o existe ilicitude na interven\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">10\u00aa - Face a tudo o exposto, deveria o Recorrente ter sido absolvido, o que ora se requer atrav\u00e9s da substitui\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido por outro que declare que\u00a0<em>\u201cEstando exclu\u00edda a demonstra\u00e7\u00e3o de comportamento m\u00e9dico il\u00edcito, danoso e culposo por parte do R., fica prejudicada a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de um consentimento informado da realiza\u00e7\u00e3o do comportamento.\u201d<\/em>\u00a0e, em consequ\u00eancia, absolva o R. do pedido formulado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nestes termos, e sempre com o douto suprimento de V. Exas., Exmos. Conselheiros, dever\u00e1 ser recebido e considerado procedente o presente recurso de revista excecional e, em consequ\u00eancia, ser revogado o ac\u00f3rd\u00e3o ora recorrido, substituindo-se aquele por outro que absolva o r\u00e9u\/recorrente do pedido. Decidindo nesta conformidade, ser\u00e1 feita a costumada justi\u00e7a!<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nas suas contra-alega\u00e7\u00f5es, a autora pugnou pela n\u00e3o admiss\u00e3o da revista excecional (que, conforme supra referido, veio a ser admitida pela Forma\u00e7\u00e3o).<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>Colhidos os vistos, cumpre decidir<\/strong>:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0Em face do conte\u00fado das conclus\u00f5es recurs\u00f3rias, a \u00fanica quest\u00e3o de que cumpre conhecer consiste em saber se, n\u00e3o se provando a exist\u00eancia de erro t\u00e9cnico na realiza\u00e7\u00e3o do ato m\u00e9dico, a responsabilidade civil se pode basear na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o do paciente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<u>\u00c9 a seguinte a factualidade dada como provada e como n\u00e3o provada pelas inst\u00e2ncias<\/u>\u00a0(com as altera\u00e7\u00f5es efetuadas pelas Rela\u00e7\u00e3o).<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<u>Factos provados:<\/u><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>A Autora nasceu no dia ....<\/li><li>E vem desempenhando a sua atividade profissional como professora do ensino b\u00e1sico e secund\u00e1rio desde o ano de 1997.<\/li><li>A Autora gozou, desde sempre, de boa sa\u00fade oral e dent\u00e1ria, n\u00e3o padecendo de problemas funcionais ao n\u00edvel bucal que a tivessem feito carecer de alguma interven\u00e7\u00e3o ortod\u00f4ntica.<\/li><li>Sempre teve uma oclus\u00e3o anat\u00f3mica e funcional normal, n\u00e3o sentia desconforto ou dor nos movimentos mandibulares, por aus\u00eancia de dist\u00farbios articulares e nem sentia dificuldades na fun\u00e7\u00e3o mastigat\u00f3ria e fon\u00e9tica.<\/li><li>Por\u00e9m, a est\u00e9tica do seu sorriso estava prejudicada por um dente incisivo lateral superior esquerdo com forma coron\u00e1ria caracter\u00edstica dum dente con\u00f3ide, i.e. com altera\u00e7\u00e3o de forma e tamanho (em cone).<\/li><li>O R\u00e9u \u00e9 licenciado em ..., ...pela UP e especialista em ortodontia pela Ordem dos M\u00e9dicos ... e \u00e0 data dos factos, prestava servi\u00e7os na cl\u00ednica do Dr. ..., ent\u00e3o sita na Rua ..., n\u00ba \u2026 \u2013 \u2026\u00ba andar, em ....<\/li><li>A Autora procurou os servi\u00e7os do R\u00e9u com o prop\u00f3sito de melhorar a sua apar\u00eancia dental, com corre\u00e7\u00e3o do problema est\u00e9tico referido em 5), com o objetivo \u00faltimo na obten\u00e7\u00e3o de um sorriso mais bonito, ou mais agrad\u00e1vel a si e aos outros.<\/li><li>Na consulta, para or\u00e7amenta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o, o R\u00e9u informou a Autora que era ... e ..., confiando a Autora na compet\u00eancia t\u00e9cnica e experi\u00eancia profissional do R\u00e9u.<\/li><li>O plano de tratamento sugerido pelo R\u00e9u passava pela extra\u00e7\u00e3o do dente incisivo lateral superior (...) con\u00f3ide, e fechamento do espa\u00e7o, atrav\u00e9s da utiliza\u00e7\u00e3o de aparelhos ortod\u00f4nticos fixos, superior e inferior, e de conten\u00e7\u00e3o, sem necessidade de qualquer tratamento ortod\u00f4ntico-cir\u00fargico e\/ou ortogn\u00e1tico.<\/li><li>A dura\u00e7\u00e3o prevista pelo R\u00e9u para o tratamento em causa era de \u2026 consultas, tendo estas uma periodicidade vari\u00e1vel, por vezes mensal.<\/li><li>\u00c0 data o R\u00e9u informou a Autora que o tratamento seria simples e capaz de permitir alcan\u00e7ar o resultado pretendido pela Autora, tendo feito a apresenta\u00e7\u00e3o do diagn\u00f3stico e proposta de tratamento durante cerca de 45 minutos, explicando os aspetos relacionados com o tratamento e tendo dado \u00e0 Autora a possibilidade de colocar todas as quest\u00f5es que pretendeu e que na altura queria ver esclarecidas.<\/li><li>Face \u00e0s informa\u00e7\u00f5es prestadas pelo R\u00e9u a Autora acedeu em iniciar o tratamento que lhe foi proposto pelo mesmo, contra o pagamento do respetivo pre\u00e7o logo ent\u00e3o combinado.<\/li><li>Em Junho de 2004 a Autora iniciou o tratamento dent\u00e1rio com o R\u00e9u, tendo procedido \u00e0 coloca\u00e7\u00e3o do aparelho ortod\u00f4ntico fixo superior e tendo sido realizada a exodontia \u2013 extra\u00e7\u00e3o cir\u00fargica - do dente con\u00f3ide da Autora em 09\/06\/2005.<\/li><li>Em 09\/12\/2005 foi ainda efetuada a exodontia do terceiro molar inferior direito (dente 48).<\/li><li>Durante o tratamento ortod\u00f4ntico, a Autora foi acompanhada pelo R\u00e9u em consultas de periodicidade vari\u00e1vel, por vezes mensal.<\/li><li>As consultas come\u00e7avam a protelar-se no tempo e foram para al\u00e9m das previstas 18 meses inicialmente expect\u00e1veis.<\/li><li>A Autora questionou, por diversas vezes, o R\u00e9u quanto ao motivo da demora do tratamento porque pretendia saber se algo estava a correr mal e\/ou se teria ocorrido qualquer imprevisto e o R\u00e9u tranquilizou sempre a Autora, dizendo que tudo estava a correr bem com o tratamento.<\/li><li>A Autora acreditava na compet\u00eancia do R\u00e9u e aceitava as suas explica\u00e7\u00f5es, de modo a n\u00e3o vir a contrariar e\/ou de alguma forma prejudicar o respetivo trabalho.<\/li><li>Em Junho de 2008 a Autora retirou o aparelho ortod\u00f4ntico superior, quando era portadora de conten\u00e7\u00e3o fixa inferior, pois j\u00e1 lhe havia sido retirado o aparelho fixo inferior tempo antes.<\/li><li>Pouco tempo depois de ter retirado o aparelho ortod\u00f4ntico, surgiu \u00e0 Autora um diastema (lacuna ou espa\u00e7o entre dois dentes), no mesmo s\u00edtio onde, antes, existia o dente con\u00f3ide.<\/li><li>Esse diastema desfavorecia na mesma o sorriso da Autora, tal como antes sucedia com o dente con\u00f3ide.<\/li><li>Tal circunst\u00e2ncia provocou na Autora insatisfa\u00e7\u00e3o quanto aos resultados obtidos.<\/li><li>Tal insatisfa\u00e7\u00e3o foi manifestada ao aqui R\u00e9u que tendo em vista corrigir o diastema, no Ver\u00e3o de 2008, procedeu \u00e0 recoloca\u00e7\u00e3o de um novo aparelho ortod\u00f4ntico fixo apenas na arcada dent\u00e1ria superior.<\/li><li>A Autora permaneceu com esse aparelho ortod\u00f4ntico durante cerca de um ano.<\/li><li>Ap\u00f3s a coloca\u00e7\u00e3o deste aparelho ortod\u00f4ntico superior, a Autora passou a ver o seu sono interrompido a meio da noite, acordando com a sensa\u00e7\u00e3o de que a arcada dent\u00e1ria superior se estava a mover, come\u00e7ando a sentir problemas de maloclus\u00e3o, tendo a sensa\u00e7\u00e3o que os dentes superiores n\u00e3o fechavam sobre os inferiores, como antes sucedia e estava mais habituada a sentir.<\/li><li>A Autora passou a queixar-se de dores em ambas as articula\u00e7\u00f5es t\u00eamporo-mandibulares e, concomitantemente, come\u00e7ou tamb\u00e9m a sentir instabilidade nos movimentos da mand\u00edbula e na determina\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de repouso entre as duas arcadas dent\u00e1rias, o que nunca lhe havia antes acontecido.<\/li><li>Nas consultas a Autora relatou ao R\u00e9u os sintomas supra descritos, tendo o mesmo descansado a Autora dizendo que, a final, tudo iria ficar bem e pedindo \u00e0 Autora que n\u00e3o se preocupasse pois o arame do aparelho que tinha na boca n\u00e3o era t\u00e3o forte o bastante para provocar o movimento dos dentes (que a Autora relatava) e que se destinava apenas a fechar o diastema.<\/li><li>Em Janeiro de 2009 o R\u00e9u colocou na boca da Autora uma barra transpalatina.<\/li><li>Em todas as consultas posteriores a essa, o R\u00e9u puxava pela mand\u00edbula, como se diz na g\u00edria c\u00ednica, visando coloc\u00e1-la como que protusa.<\/li><li>A Autora continuava a confiar no trabalho do R\u00e9u.<\/li><li>Durante este per\u00edodo de tratamento, o R\u00e9u voltou a colocar braquetes e fez v\u00e1rios desgastes nos dentes da Autora para conseguir contactos.<\/li><li>O R\u00e9u deu por terminado o tratamento em Junho de 2009, colocando uma pequena conten\u00e7\u00e3o fixa entre o incisivo central superior e o canino.<\/li><li>Logo ap\u00f3s tal tratamento ortod\u00f4ntico, a Autora apresentou ao R\u00e9u v\u00e1rias queixas, designadamente que: permanecia com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o tinha uma oclus\u00e3o correta (apresentava quatro formas de fechar a boca); sentia dores nas articula\u00e7\u00f5es temporo-mandibulares, instabilidade nos movimentos da mand\u00edbula e na determina\u00e7\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o de repouso, entre as duas arcadas dent\u00e1rias; os m\u00fasculos da cara, pr\u00f3ximos do nariz e l\u00e1bio superior \u201ctremiam\u201d, repuxando a pela da face e causando algum desconforto pois ao falar sentia preso o l\u00e1bio superior; as gengivas apresentavam-se inflamadas e doloridas, com uma cor muito vermelha, e ainda lustrosas; passou a sofrer de halitose.<\/li><li>No per\u00edodo compreendido entre Julho de 2009 e Fevereiro de 2010, a Autora insistiu junto do R\u00e9u pelos sintomas de m\u00e1 oclus\u00e3o dent\u00e1ria, inc\u00f3modo nos m\u00fasculos da face, inflama\u00e7\u00e3o gengival e mau h\u00e1lito.<\/li><li>Aos quais passaram ent\u00e3o a acrescer dores de cabe\u00e7a e nos olhos.<\/li><li>Neste per\u00edodo, a Autora insistiu com o R\u00e9u para que este lhe desse uma resposta quanto \u00e0s necessidades de tratamento respetivas.<\/li><li>A preocupa\u00e7\u00e3o da Autora incidia principalmente sobre as suas gengivas, as quais apresentavam, junto aos dentes incisivos centrais e aos caninos, agora transformados em incisivos laterais, uma margem ou rebordo mais avermelhados que lhe causavam inc\u00f3modo.<\/li><li>Em 08 de Abril de 2010, a Autora, n\u00e3o sentido melhoras nesse seu quadro cl\u00ednico, consultou, a recomenda\u00e7\u00e3o do R\u00e9u, o Professor Dr. EE, especialista reputado em periodontologia.<\/li><li>Este especialista, ap\u00f3s realiza\u00e7\u00e3o de exame intrabucal e radiogr\u00e1fico, concluiu que a cor das gengivas e a presen\u00e7a de halitose se deveria ao facto de ela ser uma \u201crespiradora bucal\u201d.<\/li><li>Na sequ\u00eancia dessa consulta a Autora realizou sess\u00f5es com um terapeuta da fala para orienta\u00e7\u00e3o da respira\u00e7\u00e3o e fon\u00e9tica, essenciais \u00e0 sua profiss\u00e3o de professora.<\/li><li>Esse tratamento, por\u00e9m, n\u00e3o deu qualquer resposta aos sintomas de inflama\u00e7\u00e3o gengival e halitose da Autora pois as gengivas apresentavam-se sempre cada vez mais vermelhas, inchadas e doloridas, principalmente durante a mastiga\u00e7\u00e3o e refei\u00e7\u00f5es.<\/li><li>A Autora passou ent\u00e3o a notar que, na margem, das gengivas e junto a todos os dentes da arcada superior existia, agora, um rebordo que lhe causava algum ardor e que as suas gengivas come\u00e7avam a retrair.<\/li><li>Nesse per\u00edodo a Autora comunicou ainda ao R\u00e9u que sentia durante a noite uma mordida muito inc\u00f3moda.<\/li><li>Os seus dentes n\u00e3o tinham posi\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio e a mand\u00edbula deslizava (ora para a esquerda, ora para a direita e para a frente) o que a obrigava a apertar os dentes com for\u00e7a para evitar essa movimenta\u00e7\u00e3o, pois com facilidade os dentes anteriores inferiores batiam nos dentes anteriores da arcada superior.<\/li><li>Em Maio de 2010, a Autora voltou a procurar o aqui R\u00e9u e reafirmou todos os sintomas que j\u00e1 existiam, ou sejam: mordida inc\u00f3moda na boca, desvios mandibulares (dentes anteriores inferiores batendo nos dentes anteriores superiores quando dormia e\/ou falava), halitose, dores nos m\u00fasculos da face.<\/li><li>E deu conhecimento de outros, mais recentes: posi\u00e7\u00e3o inc\u00f3moda da l\u00edngua que dava a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o caber dentro da sua boca, fon\u00e9tica alterada, dando a sensa\u00e7\u00e3o de fala imprecisa, dificuldade em controlar a saliva que sem-querer disparava boca fora para todos os lados, dores fortes de cabe\u00e7a, dores no pesco\u00e7o, ombros e costas, dores de ouvido, e dor no fundo dos olhos.<\/li><li>Para al\u00e9m da dita altera\u00e7\u00e3o de cor, as gengivas sangravam durante a higiene com o fio dental e os dentes como que \u201cabanavam\u201d.<\/li><li>Em 27 de Setembro de 2010, e por indica\u00e7\u00e3o do R\u00e9u, a Autora teve consulta com a Dr.\u00aa FF.<\/li><li>A Autora foi ent\u00e3o informada pela Dr.\u00aa FF que o novo tratamento consistiria em fazer uma goteira para reposicionar a mand\u00edbula, de modo a que posteriormente pudesse reavaliar a situa\u00e7\u00e3o.<\/li><li>Em Outubro de 2010, e a somar \u00e0s queixas anteriores, foram relatadas \u00e0 m\u00e9dica supra referida dores no joelho direito e anca.<\/li><li>A Autora mancava da perna direita e sentia dificuldade em mov\u00ea-la numa situa\u00e7\u00e3o de repouso, dando-lhe a sensa\u00e7\u00e3o de que ficava presa.<\/li><li>Desde Setembro de 2010 at\u00e9 Janeiro de 2011 a Autora foi acompanhada pela Dr.\u00aa FF em consultas no Porto para reposicionar a mand\u00edbula, tendo sido necess\u00e1rio recorrer \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o de analg\u00e9sicos, relaxantes musculares e anti-inflamat\u00f3rios.<\/li><li>O tratamento incluiu goteira oclusal, que a Autora usou nesse per\u00edodo, de dia e de noite, e ainda posteriormente.<\/li><li>A Autora deixou as consultas com a Dr.\u00aa FF e procurou uma segunda opini\u00e3o m\u00e9dica quanto ao tratamento que deveria realizar.<\/li><li>Entre Fevereiro e Mar\u00e7o de 2011, a Autora consultou v\u00e1rios especialistas para a elabora\u00e7\u00e3o de uma decis\u00e3o terap\u00eautica, a saber: Dr. GG, Dr. HH e Dr. II.<\/li><li>Nenhum destes m\u00e9dicos especialistas, segundo a Autora, lhe apresentaram verdadeiro diagn\u00f3stico ou solu\u00e7\u00e3o para as queixas que apresentava, n\u00e3o concordando a Autora com tratamentos que lhe foram indicados.<\/li><li>A Autora procurou ent\u00e3o um especialista em Espanha, o Dr. JJ.<\/li><li>Este ..., em consulta de \u2026 de \u2026 de 20\u2026, apresentou \u00e0 Autora um diagn\u00f3stico de reabsor\u00e7\u00e3o radicular 1+1, em rela\u00e7\u00e3o c\u00eantrica aumenta classe II, desvio mandibular, linha m\u00e9dia superior ligeiramente desviada e sobre expans\u00e3o da arcada superior.<\/li><li>O mesmo especialista prop\u00f4s o tratamento ortogn\u00e1tico, com uma etapa inicial de reabilita\u00e7\u00e3o oclusal e coloca\u00e7\u00e3o de uma goteira para recupera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o c\u00eantrica.<\/li><li>A Autora iniciou ent\u00e3o o tratamento com este profissional, designadamente pela utiliza\u00e7\u00e3o da goteira que utilizou at\u00e9 Setembro de 2011, que n\u00e3o concluiu por for\u00e7a das dist\u00e2ncias que precisava percorrer em cada consulta e pelo custo que implicava.<\/li><li>As dores na face, ombros e pesco\u00e7o, bem como a halitose, gengivas vermelhas ou sanguinolentas e recess\u00e3o gengival persistiam.<\/li><li>No per\u00edodo de \u2026 de \u2026 a \u2026 de \u2026 de 20\u2026 teve a Autora de se submeter a sess\u00f5es diversas de fisioterapia para al\u00edvio das dores nas costas, pesco\u00e7o e ombros, bem como na anca e teve de recorrer, ent\u00e3o, a medica\u00e7\u00e3o espec\u00edfica, quer nesse per\u00edodo, quer nos meses subsequentes.<\/li><li>Em \u2026 de 20\u2026 foi vista por uma equipa de m\u00e9dicos do Hospital de ..., no Porto, composta (entre outros) por Dr. KK, Dr. LL e Dr. MM.<\/li><li>O Dr. KK colocou comp\u00f3sitos nos dentes dando indica\u00e7\u00f5es \u00e0 Autora para deixar temporariamente de usar goteira.<\/li><li>A Autora foi a 3 consultas com o Dr. KK entre \u2026 e \u2026 de 20\u2026.<\/li><li>A Autora sentia-se mal com o aspeto que a face apresentava.<\/li><li>A Autora apresentava ainda dores nos m\u00fasculos da face, dor de ouvido e em seu redor, dores na articula\u00e7\u00e3o t\u00eamporo-mandibular, fortes dores de cabe\u00e7a e ocular, uma dor nevr\u00e1lgica forte no ouvido direito tendo consultado o Professor Dr. NN, especialista em oclus\u00e3o, que solicitou uma Resson\u00e2ncia Magn\u00e9tica \u00e0s ATM, realizada aos 03 de Julho de 2012.<\/li><li>Este m\u00e9dico especialista sugeriu \u00e0 Autora que fizesse uma nova goteira.<\/li><li>Em virtude dos custos desta, e para os n\u00e3o repetir, a Autora voltou a usar a goteira que lhe tinha sido feita em Espanha no ano anterior.<\/li><li>Nesse Ver\u00e3o\/12 a Autora teve novos espasmos musculares na face durante as noites, bem como dificuldade e dor ao mastigar.<\/li><li>E apareceram-lhe, pela primeira vez, uns ru\u00eddos ou \u201cestalidos\u201d no ouvido durante a mastiga\u00e7\u00e3o.<\/li><li>Atualmente, a Autora usa ainda a goteira de noite para dormir, e tamb\u00e9m durante o dia, quando sente os m\u00fasculos da face e do pesco\u00e7o mais exaustos.<\/li><li>Continua a sofrer de dores de cabe\u00e7a, uma dor ocular, dores no pesco\u00e7o, ombros e costas, e nas articula\u00e7\u00f5es t\u00eamporo-mandibulares.<\/li><li>Na sequ\u00eancia do tratamento realizado pelo R\u00e9u a Autora ficou a padecer de dificuldades mastigat\u00f3rias, diminui\u00e7\u00e3o de contin\u00eancia oral, altera\u00e7\u00f5es faciais designadamente a n\u00edvel do l\u00e1bio superior bem como com a reabsor\u00e7\u00e3o radicular nos dentes 11 e 21.<\/li><li>A Autora ficou a padecer em consequ\u00eancia do tratamento de um D\u00e9fice Funcional Permanente da Integridade F\u00edsico-Ps\u00edquica de em 5 pontos o que, sendo compat\u00edvel com o exerc\u00edcio da atividade habitual, implica esfor\u00e7os suplementares.<\/li><li>A Autora ficou a padecer de um Dano Est\u00e9tico Permanente de grau 1\/7.<\/li><li>O Quantum doloris \u00e9 fix\u00e1vel em 4\/7.<\/li><li>Nos anos de 2010-11, a respira\u00e7\u00e3o da Autora foi predominantemente bucal pois n\u00e3o conseguia ter um selamento labial passivo.<\/li><li>Quando falava tinha a sensa\u00e7\u00e3o como que de \u201csugar\u201d o ar, tendo padecido, nesse per\u00edodo, de frequentes laringites.<\/li><li>De noite, passou a ressonar e a respirar mal, a dormir de boca aberta, acordando n\u00e3o raras vezes com a sensa\u00e7\u00e3o de tonturas e falta de ar, coisas que nunca haviam sucedido antes.<\/li><li>Passou a dormir pouco, com sono leve, manifestando sonol\u00eancia e cansa\u00e7o durante o dia, o que antes n\u00e3o sucedia.<\/li><li>Passou a sofrer de problemas posturais, uma vez que, durante o dia, tende a flexionar o pesco\u00e7o para respirar melhor, com tend\u00eancia para ficar de boca aberta.<\/li><li>Viu tamb\u00e9m alterado o ritmo e amplitude da respira\u00e7\u00e3o, que agora se apresenta mais r\u00e1pida e mais curta, limitando os tempos de pausa necess\u00e1rios a uma fala normal, o que dificulta e limita a sua atividade profissional, gerando-lhe at\u00e9 mais cansa\u00e7o.<\/li><li>Padece agora tamb\u00e9m de problemas ao n\u00edvel fon\u00e9tico que condicionam essa atividade profissional de professora, ao comunicar com os seus alunos e os seus colegas na escola secund\u00e1ria.<\/li><li>O problema de halitose de que padeceu durante esse per\u00edodo de tempo causou-lhe constrangimentos, comprometeu a sua sociabiliza\u00e7\u00e3o, nomeadamente escolar, bem como as rela\u00e7\u00f5es interpessoais, e at\u00e9 conjugais, como mulher casada vivendo em comunh\u00e3o de lar.<\/li><li>Tudo isso motivou uma relativa perda da sua auto-estima e da auto-confian\u00e7a que antes detinha como sua caracter\u00edstica pessoal.<\/li><li>A Autora sofreu desgosto emocional e perdeu a qualidade de vida que gozava antes do tratamento.<\/li><li>A Autora foi uma paciente cumpridora e colaborante com o R\u00e9u cumprindo as recomenda\u00e7\u00f5es e cuidados por este indicados.<\/li><li>O referido em 74) pode surgir secundariamente \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um tratamento ortod\u00f4ntico sem que tal configure uma situa\u00e7\u00e3o de tratamento mal efetuado.<\/li><li>O R\u00e9u empregou todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e os meios necess\u00e1rios ao tratamento realizado pela Autora.<\/li><li>A Autora aufere o vencimento mensal l\u00edquido de cerca de \u20ac1.300,00.<\/li><li>O uso da fala \u00e9 essencial \u00e0 pr\u00e1tica da atividade profissional regular da Autora, na sua fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica de lecionar as aulas.<\/li><li>A Autora \u00e9 casada e tem dois filhos ainda menores, vivendo em economia de lar com esse agregado familiar.<\/li><li>S\u00f3 com as consultas e acompanhamento m\u00e9dico em Espanha, junto do consult\u00f3rio do Dr. JJ, \u00e9 que a Autora ficou bem ciente dos problemas de que padecia com o diagn\u00f3stico que lhe foi apresentado e que a Autora entendeu ter sido confirmado definitivamente em Janeiro de 2012 pela equipa do Hospital de ..., no Porto.<\/li><li>A Autora corre o risco, caso ocorra traumatismo na \u00e1rea, de poder vir a perder os dentes incisivos centrais maxilares, sendo necess\u00e1ria, apenas nessa altura, a sua extra\u00e7\u00e3o e posterior substitui\u00e7\u00e3o por implantes.<\/li><li>O R\u00e9u n\u00e3o informou a Autora de que o tratamento comportava o risco da Autora ficar a padecer dos problemas referidos em 74).<\/li><li>O R\u00e9u mediante contrato de seguro titulado pela ap\u00f3lice ..., transferiu para a CC SA (actualmente denominada DDSA) a responsabilidade civil por danos decorrentes do exerc\u00edcio da profiss\u00e3o, cujo capital de cobertura era de \u20ac600.000,00, limitado a \u20ac300.000,00 por sinistro, e com uma franquia de 10% do valor dos danos resultantes de les\u00f5es materiais, com um m\u00ednimo de \u20ac125,00.<\/li><li>A presente a\u00e7\u00e3o foi instaurada no dia 12\/06\/2014 e a Interveniente foi citada em 08\/10\/2014.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><u>Factos n\u00e3o provados:<\/u><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>Que o R\u00e9u explicou \u00e0 Autora que a coloca\u00e7\u00e3o do novo aparelho teria uma dura\u00e7\u00e3o muito curta, de cerca de um m\u00eas aproximadamente que seria o estritamente necess\u00e1rio para fechar o diastema.<\/li><li>Que numa consulta com o R\u00e9u em Janeiro de 2009 a Autora percebeu ou notou alguma estupefa\u00e7\u00e3o e apreens\u00e3o por parte dele, assim que a consulta teve o seu in\u00edcio e este passou a examinar a sua boca.<\/li><li>Que a Autora estranhava o referido em 29) dos factos provados uma vez que durante todo o tratamento o R\u00e9u havia feito exatamente o inverso (elevava a mand\u00edbula e empurrava-a para tr\u00e1s).<\/li><li>Que no dia 31 de Agosto de 2010, mais uma vez, a Autora refor\u00e7ou todas as queixas, relacionando os sintomas com o tratamento ortod\u00f4ntico efetuado e manifestou a sua preocupa\u00e7\u00e3o.<\/li><li>Que o R\u00e9u afirmou que o referido em 47) dos factos provados era normal.<\/li><li>Que o R\u00e9u referiu ainda que em Portugal n\u00e3o existem muitos especialistas em oclus\u00e3o e convenceu a Autora a aguardar por Setembro, pois ia ter no seu consult\u00f3rio, no Porto, uma m\u00e9dica especialista nessa mat\u00e9ria.<\/li><li>Que durante a consulta em 27\/09\/2010 a Dr.\u00aa FF chamou o R\u00e9u ao consult\u00f3rio, tendo este ent\u00e3o ali explicado que mexera num dos dentes superiores e que esse dente tinha arrastado todos os outros.<\/li><li>Que ap\u00f3s o tratamento com a Dr.\u00aa FF, o R\u00e9u apresentou \u00e0 Autora um novo plano de tratamento de foro pr\u00f3prio, que consistia em fazer novos desgastes nos dentes e que tal circunst\u00e2ncia determinou que a Autora procurasse uma segunda opini\u00e3o m\u00e9dica quanto a esse tratamento.<\/li><li>Que a equipa de m\u00e9dicos do Hospital de ... apresentou \u00e0 Autora como proposta de tratamento inclu\u00eda uma etapa ortod\u00f4ntica e outra cir\u00fargica, decidindo n\u00e3o concretizar o tratamento, uma vez que, tendo a Autora as ra\u00edzes reabsorvidas, n\u00e3o suportaria a recoloca\u00e7\u00e3o de novo aparelho.<\/li><li>Que na sequ\u00eancia do referido em 64) dos factos provados a Autora deixou a mand\u00edbula vir a deslocar-se para o lado direito.<\/li><li>Que durante esse per\u00edodo tinha a sensa\u00e7\u00e3o de que os m\u00fasculos da face davam uma esp\u00e9cie de \u201cestic\u00f5es\u201d, no sentido descendente.<\/li><li>Que em Maio de 2012 apresentava desvios da boca em ziguezague, sendo que a mand\u00edbula se deslocava facilmente de um lado para o outro.<\/li><li>Que a Autora na sequ\u00eancia do tratamento realizado pelo R\u00e9u ficou a padecer de outras sequelas para al\u00e9m das referidas nos factos provados.<\/li><li>Que a Autora apresenta um aspeto de envelhecimento facial que n\u00e3o \u00e9 consent\u00e2neo com a sua idade atual, de tal forma que a Autora j\u00e1 n\u00e3o se reconhece ao espelho, e evita o contacto social.<\/li><li>Que o R\u00e9u devia ter previsto que a coloca\u00e7\u00e3o do aparelho apenas na arcada dent\u00e1ria superior era suscet\u00edvel de causar nesta uma sobre-extens\u00e3o.<\/li><li>Que o custo da coloca\u00e7\u00e3o de implantes por unidade \u00e9 de \u20ac1.500,00 cada.<\/li><li>Que \u00e9 recomendado que a Autora realize cirurgia corretiva e que esta tem um custo de cerca de \u20ac25.000,00.<\/li><li>Que os dois dentes incisivos centrais, na atualidade, ter\u00e3o de ser substitu\u00eddos por implantes.<\/li><li>Que para realiza\u00e7\u00e3o da cirurgia corretiva a autora tem de submeter-se a ato ortod\u00f4ntico pr\u00e9vio cujo custo ascende a cerca de \u20ac3.500,00.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\"><strong><u>Apreciando:<\/u><\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Conforme se alcan\u00e7a do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, a Rela\u00e7\u00e3o, considerando que a responsabilidade m\u00e9dica se pode fundar na responsabilidade contratual e\/ou na responsabilidade extra contratual ou aquiliana (neste caso quando a mesma resulta, citando Antunes Varela, in \u201cDas Obriga\u00e7\u00f5es em Geral\u201d, vol. I, 10\u00aa Edi\u00e7\u00e3o, pag. 519, da \u201cviola\u00e7\u00e3o de direitos dos direitos absolutos ou da pr\u00e1tica de certos atos que, embora l\u00edcitos, causaram preju\u00edzo a outrem\u201d), sendo-lhe aplic\u00e1veis, ainda que com certas especialidades, os princ\u00edpios gerais da responsabilidade civil (o ato il\u00edcito, a culpa, o dano e o nexo da causalidade adequada entre o facto e o dano),\u00a0<u>tomou posi\u00e7\u00e3o no sentido de,\u00a0<em>in\u00a0<\/em><\/u><em>casu,\u00a0<\/em>a<u>\u00a0responsabilidade civil do r\u00e9u recorrente, n\u00e3o se verificando os pressupostos da responsabilidade contratual, se poder fundar na viola\u00e7\u00e3o de outro tipo de il\u00edcito<\/u>\u00a0(consubstanciado na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o):<\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>\u201cApesar de n\u00e3o ser un\u00edvoco na jurisprud\u00eancia e doutrina, entende-se, ali\u00e1s na esteira do que se tem por dominante, que nesta sede\u00a0<strong>s\u00e3o cumul\u00e1veis as regras da responsabiliza\u00e7\u00e3o fundada na viola\u00e7\u00e3o contratual ou noutro tipo de il\u00edcito, porquanto com o contrato as partes n\u00e3o pretendem renunciar \u00e0 tutela geral ou furtar-se aos deveres que a lei lhes atribui, mas antes refor\u00e7ar as suas obriga\u00e7\u00f5es e inerentes direitos<\/strong>\u00a0(cf. Ac RP de 09\/11\/2012 no processo 2488\/03.9TVPRT.P2, Ac RL de 04\/19\/2005 no processo 10341\/2004-7, Ac de 09\/11\/2007 no processo 1360\/2007-7,) mas contra Pinto Monteiro, \"Cl\u00e1usulas Limitativas e de Exclus\u00e3o da Responsabilidade Civil\", in BFD, Sup., vol XXVIII, Coimbra, 1985, pp. 398-400, Figueiredo Dias e Sinde Monteiro, A responsabilidade m\u00e9dica em Portugal, BMJ n\u00ba 332, 1984, p. 40, NUNES, Manuel Ros\u00e1rio, Da responsabilidade civil por actos m\u00e9dicos \u2013 Alguns Aspectos, Universidade Lus\u00edada, 2001, p. 54-63, VAZ SERRA, Responsabilidade contratual e responsabilidade extracontratual\u201d, BMJ n\u00ba 85, pp. 208 ss. e 238-239).<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>\u00c9, pac\u00edfico, nestes autos, que foi celebrado um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os entre o R\u00e9u m\u00e9dico e a Autora, assumindo este a obriga\u00e7\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, previsto no artigo 1157\u00ba do C\u00f3digo Civil, regulado em especial pelas normas que deste se estendem at\u00e9 ao artigo 1184\u00ba deste diploma, ao qual, em caso de viola\u00e7\u00e3o, se aplicam as regras que regulam a responsabilidade contratual.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Enfim,\u00a0<strong>h\u00e1 que recorrer ao regime da responsabilidade aquiliana ou contratual aqui concorrentes, iniciando-se a an\u00e1lise pela que mais favorece o lesado, sabendo-se, \u00e0 priori, que a responsabilidade contratual, em regra, tutela com maior alcance a parte que sofreu os danos e preju\u00edzos<\/strong>.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Na linha de tal racioc\u00ednio, considerou que a responsabilidade m\u00e9dica se tem estribado essencialmente em dois fatores: a m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica ou erro m\u00e9dico e a\u00a0<u>viola\u00e7\u00e3o dos direitos dos pacientes,<\/u>\u00a0<em>\u201creal\u00e7ando-se, entre estes (mas existem muitos outros), a sua autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o, por desrespeito do dever de informar, que impede que o paciente usufrua da sua liberdade. O paciente s\u00f3 autoriza a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica efetuada na sua pessoa, de forma plena e consciente, se estiver na posse dos elementos necess\u00e1rios para tomar essa decis\u00e3o: s\u00f3 ent\u00e3o se pode concluir pela verifica\u00e7\u00e3o do seu consentimento livre e informado.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">E,\u00a0<u>afastando desde logo a exist\u00eancia de erro m\u00e9dico<\/u>,\u00a0<strong>considerou estar apenas em causa nos autos aquela segundo vertente da responsabilidade m\u00e9dica<\/strong>, baseada na viola\u00e7\u00e3o dos direitos do paciente,\u00a0<u>no \u00e2mbito dos deveres de informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1rios para se alcan\u00e7ar o consentimento livre e esclarecido<\/u>\u00a0\u2013 viola\u00e7\u00e3o essa que considerou verificada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Isto porquanto, segundo o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, o dever de informa\u00e7\u00e3o \u201c<em>tem import\u00e2ncia primordial o dar a conhecer ao doente os riscos do procedimento, pois este n\u00e3o pode escolher, em consci\u00eancia, submeter-se ou n\u00e3o ao procedimento m\u00e9dico, se n\u00e3o estiver ciente da exist\u00eancia desses riscos.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>O tipo, profundidade e as pr\u00f3prias informa\u00e7\u00f5es que devem ser prestadas diferem em virtude de um conjunto de circunst\u00e2ncias; existem, al\u00e9m disso, diversos crit\u00e9rios para densificar a informa\u00e7\u00e3o devida, havendo quem entenda que \u00e9 de exigir que se explanem os riscos graves, mesmo que raros, outros que apenas apontam para os previs\u00edveis. Este dever, de qualquer forma, \u00e9 mais intenso nas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o terap\u00eauticas, como a presente, por ter em vista apenas raz\u00f5es est\u00e9ticas e logo ser maior a margem de liberdade do paciente para recusar o procedimento.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>Supra n\u00e3o s\u00f3 se concluiu que o R\u00e9u n\u00e3o prestou informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos inerentes ao procedimento est\u00e9tico que ia proceder na boca da Autora, como se concluiu, que mesmo que assim n\u00e3o fosse, o \u00f3nus da sua prova cabia ao m\u00e9dico e este n\u00e3o o logrou demonstrar.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 contra tal entendimento que se manifesta o r\u00e9u recorrente, nos termos das conclus\u00f5es recur\u00f3rias supra transcritas,\u00a0<u>defendendo (e apenas) que, inexistindo m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica conforme ficou demonstrado nos autos, irrelevante se torna a exist\u00eancia de viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o, pelo que deve ser absolvido<\/u>\u00a0\u2013 fazendo refer\u00eancia, para o efeito, a dois ac\u00f3rd\u00e3os, da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa e da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, em que se tomou posi\u00e7\u00e3o nesse sentido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Conforme bem se considerou no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido (o que nem sequer \u00e9 posto em causa na revista) estamos em presen\u00e7a de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os, que teve por objeto a realiza\u00e7\u00e3o de determinados atos m\u00e9dicos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">E efetivamente, conforme defende o recorrente e foi, de resto, considerado no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido,\u00a0<u>n\u00e3o se provou (bem pelo contr\u00e1rio) ter havido viola\u00e7\u00e3o, por parte do r\u00e9u recorrente. dos seus deveres contratuais relativos \u00e0 adequada pr\u00e1tica dos atos m\u00e9dicos, ou seja n\u00e3o se provou ter havido erro m\u00e9dico ou m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica,<\/u>\u00a0na medida em que se provou especificamente (n\u00ba 90 dos factos provados) que\u00a0<em>\u201co r\u00e9u empregou todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e os meios necess\u00e1rios ao tratamento realizado pela autora\u201d<\/em>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim,\u00a0<u>a responsabiliza\u00e7\u00e3o do recorrente apenas poderia assentar na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o do paciente<\/u>, informa\u00e7\u00e3o essa fundamental ao consentimento livre e esclarecido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ora o certo \u00e9 que\u00a0<u>a jurisprud\u00eancia, e em particular a jurisprud\u00eancia do STJ, na linha do entendimento seguido no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, tem vindo a tomar posi\u00e7\u00e3o clara no sentido da dupla sede de responsabilidade m\u00e9dica: baseada no erro m\u00e9dico (contratual) ou na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o<\/u>\u00a0ou seja, do consentimento informado \u2013\u00a0<strong>entendimento que sufragamos por inteiro<\/strong>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, em sede de interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, ainda que seguindo-se todos os procedimentos que \u00e0 data se julguem adequados \u00e0 pr\u00e1tica do respetivo ato, haver\u00e1 sempre uma margem de insucesso, de risco, traduzido na ocorr\u00eancia de efeitos nefastos, como de resto acabou por ocorrer no caso ora em apre\u00e7o (vide, particularmente, a factualidade constante dos n\u00bas 74 e sgs).<\/p><p style=\"text-align: justify\">E prova disso \u00e9 o facto de, conforme \u00e9 do conhecimento p\u00fablico, e felizmente que assim \u00e9, a ci\u00eancia e t\u00e9cnica m\u00e9dica terem vindo a evoluir constantemente.\u00a0\u00a0\u00a0Ora (e particularmente em situa\u00e7\u00f5es como a dos autos em que o ato m\u00e9dico visa no essencial uma corre\u00e7\u00e3o est\u00e9tica) \u00e9 de todo imprescind\u00edvel que o paciente disponha de adequada informa\u00e7\u00e3o, relativamente aos riscos inerentes, em ordem \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um consentimento esclarecido e verdadeiramente consciente \u2013 sendo certo que<em>, in casu,\u00a0<\/em>se provou especificamente (n\u00ba 96 dos factos provados) que\u00a0<em>\u201c<strong>o r\u00e9u n\u00e3o informou a autora de que o tratamento comportava o risco de a autora ficar a padecer dos problemas referidos em 74)\u201d<\/strong><\/em><strong>.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">No sentido de tal entendimento (ou seja, o entendimento do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido que, conforme referido, sufragamos) vide ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 02.11.2017 (proc. n\u00ba 23592\/11.4T2SNT.L1.S1, in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>) onde bem se considerou:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201c<em>Quer a lei portuguesa (cfr., em especial, os arts. 70.\u00ba, 81.\u00ba e 540.\u00ba do CC, bem como o art. 157.\u00ba do CP ou o n.\u00ba 11 do art. 135.\u00ba do Estatuto da Ordem dos M\u00e9dicos), quer diversos instrumentos internacionais (cfr. o art. 5.\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos do Homem e a Biomedicina \u2013 Conven\u00e7\u00e3o de Oviedo) exigem, como regra e\u00a0<strong>como condi\u00e7\u00e3o da licitude de uma inger\u00eancia m\u00e9dica<\/strong>\u00a0na integridade f\u00edsica dos pacientes \u2013 por exemplo, atrav\u00e9s de uma cirurgia, como no caso presente \u2013 que estes consintam nessa inger\u00eancia; e\u00a0<strong>que o consentimento seja prestado na posse das informa\u00e7\u00f5es relevantes sobre o ato a realizar, tendo em conta as concretas circunst\u00e2ncias do caso, sob pena de n\u00e3o poder valer como consentimento legitimador da interven\u00e7\u00e3o\u201d.<\/strong><\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">No mesmo sentido, o ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 05.06.2018 (proc. n\u00ba 1250\/13.5TVLSB.L1.S1, in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>):<\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>I \u2013 O utente assume a qualidade de consumidor na rela\u00e7\u00e3o com o prestador de cuidados de sa\u00fade, nos termos da Lei n.\u00ba 24\/96, de 31 de julho que aprovou o regime legal aplic\u00e1vel \u00e0 defesa do consumidor (Lei do Consumidor).<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>II - O utente tem o direito a ser informado atempadamente pelo prestador dos cuidados de sa\u00fade sobre os servi\u00e7os e valores a pagar;<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>III \u2013 Se o utente \u2013 com conhecimento do prestador de cuidados de sa\u00fade - celebrou um determinado contrato de seguro que financia a pr\u00e1tica de atos m\u00e9dicos em determinado estabelecimento hospitalar, deve ser esclarecido pelo prestador sobre a possibilidade de vir a ter que suportar algum custo, relativamente aos cuidados de sa\u00fade que lhe vierem a ser ministrados.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m no mesmo sentido, vide ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 22.03.2018 (proc. n\u00ba 7053\/12.7TBVNG.P1.S1, in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.dgsi.pt<\/a>):<\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>I - Em sede de responsabilidade civil por atos m\u00e9dicos ocorre frequentemente uma situa\u00e7\u00e3o de concurso de responsabilidade civil contratual e extracontratual, sendo orienta\u00e7\u00e3o reiterada da jurisprud\u00eancia do STJ a op\u00e7\u00e3o pelo regime da responsabilidade contratual tanto por ser mais conforme ao princ\u00edpio geral da autonomia privada, como por ser, em regra, mais favor\u00e1vel \u00e0 tutela efetiva do lesado.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>II - Tanto o direito nacional, como instrumentos internacionais, imp\u00f5em, como condi\u00e7\u00e3o da licitude de uma inger\u00eancia m\u00e9dica na integridade f\u00edsica dos pacientes, que estes consintam nessa inger\u00eancia\u00a0<strong>e que esse consentimento seja prestado de forma esclarecida, isto \u00e9, estando cientes dos dados relevantes em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias do caso, entre os quais avulta a informa\u00e7\u00e3o acerca dos riscos pr\u00f3prios de cada interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/strong><\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\"><em>III -\u00a0<strong>O consentimento do paciente prestado de forma gen\u00e9rica n\u00e3o preenche, s\u00f3 por si, as condi\u00e7\u00f5es do consentimento devidamente informado, sendo, al\u00e9m disso, necess\u00e1rio, em caso de repeti\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es, que tais esclarecimentos sejam atualizados, tendo em conta, designadamente, que os riscos se podem agravar com a passagem do tempo<\/strong>.\u201d<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No mesmo sentido, entre outros, vide ainda o ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 22.05.2003 (revista n\u00ba 912\/07 \u2013 7\u00aa sec\u00e7\u00e3o, in Sum\u00e1rios dos Ac\u00f3rd\u00e3os do STJ), o ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Coimbra de 11.11.2014 (proc. n\u00ba 308\/09.0TBCBR.C1, in www,dgsi,pt) e o ac\u00f3rd\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o de Guimar\u00e3es de 10.01.2019 (proc. n\u00ba 3192\/14.8TBBRG.G1, in\u00a0www.dgsi.pt).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Posto, isto, haveremos de\u00a0<u>concluir no sentido de n\u00e3o assistir raz\u00e3o ao recorrente quando, ao contr\u00e1rio do entendimento sufragado no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, defende que, tendo empregado todos os conhecimentos t\u00e9cnico-cient\u00edficos e os meios necess\u00e1rios ao tratamento realizado pela autora, n\u00e3o releva a quest\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de consentimento informado<\/u>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, atenta a factualidade provada, o que o recorrente poderia questionar era a eventual inexist\u00eancia de viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o \u2013 quest\u00e3o esta que n\u00e3o foi suscitada na revista e da qual, como tal, n\u00e3o nos compete conhecer.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Improcedem assim as conclus\u00f5es recurs\u00f3rias, impondo-se negar a revista e confirmar o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>Em s\u00edntese:<\/u><\/p><p style=\"text-align: justify\">A responsabilidade civil emergente da realiza\u00e7\u00e3o de ato m\u00e9dico, ainda que se prove a inexist\u00eancia de erro ou m\u00e1 pr\u00e1tica medica, pode radicar-se na viola\u00e7\u00e3o do dever de informa\u00e7\u00e3o do paciente relativamente aos riscos e aos danos eventualmente decorrentes da realiza\u00e7\u00e3o do ato m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Termos em que se acorda em negar a revista e em conformar o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas pelo recorrente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lisboa, 24 de outubro de 2019<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ac\u00e1cio das Neves (Relator)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fernando Sam\u00f5es\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<br \/>Maria Jo\u00e3o Vaz Tom\u00e9<\/p><p>Fonte:\"<a href=\"https:\/\/www.dgsi.pt\/jstj.nsf\/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814\/2feb138ecf6eb5cb8025849d0056a41a?OpenDocument\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dgsi.pt\/jstj.nsf\/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814\/2feb138ecf6eb5cb8025849d0056a41a?OpenDocument<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-b3354c7 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" 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class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Falsidade Inform\u00e1tica nos registos do Hospital<\/p><p>Facto Juridicamente relevante<\/p><p>RP2015052635\/07.2JACBR.P1<\/p><p>I \u2013 No crime de Falsidade inform\u00e1tica, quer na reda\u00e7\u00e3o do art. 4.\u00ba n.\u00ba 1, da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, em vigor aquando dos factos, quer na atual formula\u00e7\u00e3o do art.\u00ba. 3.\u00ba n.\u00ba 1, da Lei do Cibercrime (Lei n.\u00ba 109\/2009, de 15 de setembro), os dados inform\u00e1ticos t\u00eam de ser alterados com o prop\u00f3sito de desvirtuar a demonstra\u00e7\u00e3o dos factos que com aqueles dados podem ser comprovados.<\/p><p>II \u2013 Comete tal crime a arguida que fez introduzir no sistema inform\u00e1tico do hospital epis\u00f3dios de cirurgias realizadas em regime de ambulat\u00f3rio como se tivessem sido levadas a cabo em regime de internamento, quando tal n\u00e3o correspondia \u00e0 realidade.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-e8de7de elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"e8de7de\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-e8de7de\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">III \u2013 A rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que em virtude do comportamento da arguida foi introduzida no sistema inform\u00e1tico n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade, sendo certo que os dados assim vertidos no sistema inform\u00e1tico produzem os mesmos efeitos de um documento falsificado, pondo em causa o seu valor probat\u00f3rio e consequentemente a seguran\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddica<\/p><p style=\"text-align: justify\">Processo n.\u00ba35\/07.2JACBR.P1<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam, em confer\u00eancia, os ju\u00edzes na 1\u00aasec\u00e7\u00e3o criminal do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto:<br \/><strong>I \u2013 RELAT\u00d3RIO<\/strong><br \/>No processo comum [com interven\u00e7\u00e3o do tribunal singular ao abrigo do art.16.\u00ba do C.P.Penal] n.\u00ba35\/07.2JACBR da Comarca do Baixo Vouga, Aveiro, Ju\u00edzo de M\u00e9dia Inst\u00e2ncia Criminal, Juiz 2, por senten\u00e7a proferida em 15\/7\/2014 e depositada na mesma data, foi decidido:<br \/>- absolver a arguida B\u2026 da pr\u00e1tica de um crime de burla qualificada p. e p. pelos arts.26, 217.\u00ba e 218.\u00ba, n.\u00ba2, al.a) do C.Penal,<br \/>- condenar a arguida pela pr\u00e1tica de um crime de falsidade inform\u00e1tica p. e p. pelo art.4.\u00ba, n.\u00ba 1 e 3 da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, na reda\u00e7\u00e3o introduzida pela Lei n.\u00ba109\/91, de 17\/8, e alterada pelo DL n.\u00ba323\/2001, de 17712, por refer\u00eancia aos arts.26.\u00ba e 386.\u00ba do C.Penal, na pena de 1 ano e 8 meses de pris\u00e3o, a qual foi suspensa na sua execu\u00e7\u00e3o por igual per\u00edodo de empo, nos termos do art.50., n.\u00ba1 e 5, do C.Penal.<br \/>Inconformada com a decis\u00e3o condenat\u00f3ria, a arguida interp\u00f4s recurso, extraindo da respetiva motiva\u00e7\u00e3o, as seguintes conclus\u00f5es [transcri\u00e7\u00e3o]:<br \/>1 \u2013 No \u00e2mbito dos presentes autos foi a arguida B\u2026, acusada da pr\u00e1tica de um crime de burla qualificada e ainda de um crime de falsidade inform\u00e1tica;<br \/>2 \u2013 A recorrente foi absolvida pelo Tribunal a quo do crime de burla qualificada e condenada pela pr\u00e1tica de um crime de falsidade inform\u00e1tica, previsto e punido pelo artigo 4\u00ba, n.\u00ba1 e n.\u00ba3, da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica;<br \/>3 \u2013 Ora, sendo o crime de falsidade inform\u00e1tica de que foi acusada a arguida, instrumental do crime de burla, ou seja, na \u00f3tica da acusa\u00e7\u00e3o, foi \u201co meio para atingir o fim\u201d e tendo a arguida sido absolvida da burla, necess\u00e1ria e for\u00e7osamente inexiste o meio usado na concretiza\u00e7\u00e3o de tal fim \u2013 falsidade inform\u00e1tica, pelo que nunca que o Tribunal a quo poderia ter condenado a arguida pela pr\u00e1tica de tal il\u00edcito;<br \/>4 - A falsidade inform\u00e1tica \u00e9 punida quando contenha factos falsos, mas, entendendo-se por factos falsos, n\u00e3o todo e qualquer facto, mas t\u00e3o-somente os factos falsos que forem juridicamente relevantes, ou seja, factos que sejam aptos a constituir, modificar ou extinguir uma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, o que n\u00e3o aconteceu no presente processo,<br \/>5 \u2013 pois, consta dos documentos do processo \u2013 contrato programa e faturas \u2013 que o valor pago ao hospital pelo IGIF - Estado, relativamente a cirurgias oftalmol\u00f3gicas em ambulat\u00f3rio e em internamento, era exatamente o mesmo, sendo indiferente que as cirurgias tenham sido feitas em sistema ambulat\u00f3rio ou em internamento,<br \/>6 \u2013 O Tribunal a quo considerou provada a mat\u00e9ria de facto constante dos pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22, dos factos provados, que est\u00e3o em flagrante e objetiva oposi\u00e7\u00e3o e contradi\u00e7\u00e3o com os documentos juntos ao processo pela pr\u00f3pria acusa\u00e7\u00e3o - contrato programa do hospital e faturas do hospital \u2013 que provam que o valor pago por cada cirurgia era sempre igual e o mesmo, quer a cirurgia fosse feita em ambulat\u00f3rio ou em internamento.<br \/>7- Face \u00e0 exist\u00eancia das faturas emitidas pelo Hospital de Aveiro, durante todo o ano de 2004 e 2005 ao IGIF e pagas por este, face ainda ao teor do contrato programa que, objetivamente, estabelece que o valor unit\u00e1rio pago por cada cirurgia, quer ela seja em ambulat\u00f3rio, quer seja em internamento, \u00e9 exatamente igual, o mesmo valor;<br \/>8 \u2013 dizer-se que uma cirurgia foi feita em ambulat\u00f3rio ou em internamento \u00e9 irrelevante, pois o que \u00e9 pertinente \u00e9 se foi feita ou n\u00e3o a cirurgia e, nesta vertente, \u00e9 not\u00f3rio que foi feita aquela cirurgia, \u00e0quele paciente, naquele hospital, naquele dia, por aquele m\u00e9dico e o custo \u00e9 aquele que est\u00e1 fixado no anexo I ao contrato programa.<br \/>9\u00a0<strong>-\u00a0<\/strong>No contrato programa celebrado para 2004 e para 2005 celebrado entre Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e o Hospital \u2026, S.A. junto aos autos a fls. 943 e seguintes, onde no seu Anexo I, relativo a produ\u00e7\u00e3o contratada e remunera\u00e7\u00e3o, consta, no que respeita a internamentos (doentes equivalentes) e cirurgias ambulat\u00f3rias (doentes equivalentes), que o pre\u00e7o unit\u00e1rio contratado para cada um destes tipos de interven\u00e7\u00e3o, \u00e9 exatamente o mesmo, ou seja, o pre\u00e7o unit\u00e1rio de \u20ac1.849,10;<br \/>10 - Nas 17 faturas emitidas pelo Hospital \u2026, enquanto elemento integrante do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade ao IGIF respeitantes aos anos de 2004 e 2005 e que constam de folhas 182 a 199 dos autos onde expressamente consta que o valor faturado pelo Hospital com refer\u00eancia a Cirurgias Ambulat\u00f3rias (e doentes equivalentes) e Cirurgias por Internamento (e doentes equivalentes) \u00e9 exatamente o mesmo, ou seja, cada uma destas cirurgias, quer em ambulat\u00f3rio quer em internamento, nos anos de 2004 e 2005 tiveram sempre o mesmo pre\u00e7o unit\u00e1rio de \u20ac1.849,10;<br \/>11 - Com refer\u00eancia aos contratos-programa, h\u00e1 ainda que destacar o consagrado no artigo 24.\u00ba dos Estatutos do Hospital \u2026, SA aprovados pelo Decreto-Lei n\u00ba. 272\/2002, de 09\/12, que diz:1 - A execu\u00e7\u00e3o do plano de atividades do Hospital pautar-se-\u00e1, designadamente, por contrato-programa plurianual a celebrar com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, no qual se estabelecer\u00e3o os objetivos e as metas qualitativas e quantitativas, a sua calendariza\u00e7\u00e3o, os meios e instrumentos para os prosseguir, designadamente de investimento, os indicadores para a avalia\u00e7\u00e3o do desempenho e do n\u00edvel de satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades relevantes e as demais obriga\u00e7\u00f5es assumidas pelas partes. 2 - Da componente financeira de cada contrato ser\u00e1 dado conhecimento pr\u00e9vio ao Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as;<br \/>12 - Significa isto que, quer os doentes estivessem em regime ambulat\u00f3rio ou em regime de internamento o custo de tais doentes e as receitas decorrentes desses custos, tanto para o Hospital \u2026, como para qualquer entidade decorrente do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, sempre eram neutros, pois sempre o Estado era simultaneamente credor e devedor de toda e qualquer quantia;<br \/>13 - O que torna not\u00f3rio que os factos ocorridos, (se ocorreram), n\u00e3o permitem a subsun\u00e7\u00e3o t\u00edpica que o Tribunal invoca, uma vez que n\u00e3o preenchem os pressupostos do tipo de il\u00edcito inerente ao crime de falsidade inform\u00e1tica p. e. p. no artigo 4\u00ba, 1 e 3 da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, na reda\u00e7\u00e3o introduzida pela Lei n.\u00ba 109\/91 de 17 Agosto, e alterada pelo Decreto Lei n.\u00ba 323\/2001 de 17 de Dezembro;<br \/>14 - \u00c9 que mesmo que exista ou possa abstratamente entender-se que ocorreu uma falsidade inform\u00e1tica, que n\u00e3o ocorreu, a falsidade inform\u00e1tica \u00e9 punida quando se trate de uma declara\u00e7\u00e3o de factos falsos, s\u00f3 que, por factos falsos, n\u00e3o se pode entender ou considerar todo e qualquer facto, mas t\u00e3o-somente os factos falsos que forem juridicamente relevantes, ou seja, factos que sejam aptos a constituir, modificar ou extinguir uma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica;<br \/><strong>Veja-se:<\/strong><br \/>15 -<strong>\u00a0<\/strong>O in\u00edcio deste processo-crime foi despoletado com uma folha 7 dos autos que cont\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o de cirurgias feitas no hospital de Aveiro, na data de 25 de Outubro de 2004, tal folha cont\u00e9m as cirurgias de Setembro e Outubro de 2004,<strong>\u00a0<\/strong>no que respeita \u00e0s cirurgias de Setembro de 2004, estas, \u00e0 data da emiss\u00e3o daquela folha de 25 de Outubro, j\u00e1 haviam sido faturadas ao IGIF, pois as faturas tinham que ser enviadas, como haviam sido, at\u00e9 ao dia 20 de Outubro e \u00e0quela data de 25 de Outubro, j\u00e1 haviam sido enviadas;<br \/>16 - O pre\u00e7o das cirurgias, conforme se l\u00ea do texto das faturas e do anexo ao contrato programa \u00e9 exatamente o mesmo, ou seja, \u00e9 um valor igual, quer para cirurgias ambulat\u00f3rias, quer cirurgias por internamento;<br \/>17 \u2013 A ter existido um qualquer pedido de altera\u00e7\u00e3o para a passagem de cirurgias ambulat\u00f3rias para cirurgias por internamento, (que n\u00e3o houve), tal pedido s\u00f3 podia servir para fins estat\u00edsticos do pr\u00f3prio hospital, pois tal refer\u00eancia n\u00e3o se repercute, como nunca podia repercutir em qualquer rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que o hospital teve e continuou a ter, pois as rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas sempre se mantiveram\u00a0<u>iguais e reais<\/u>, em nada sendo alteradas em fun\u00e7\u00e3o das refer\u00eancias ambulat\u00f3ria ou internamento, pelo que nunca houve nem podia haver qualquer perigo de o Estado ser defraudado;<br \/>18 - O Tribunal a quo n\u00e3o teve em conta os factos provados por documentos, nem o contrato programa celebrado pelo hospital, nem o documento de fls. 7 ter contradi\u00e7\u00f5es pois apresenta-se feito na data de 25 de Outubro de 2004 e cont\u00e9m refer\u00eancias a cirurgias praticadas no m\u00eas de Setembro e Outubro, constando no contrato programa que as fatura\u00e7\u00f5es relativas a um m\u00eas t\u00eam que ser enviadas at\u00e9 ao dia 20 do m\u00eas seguinte;<br \/>19- Constando da folha assinada pela arguida na data de 25-10-2004, rela\u00e7\u00e3o de cirurgias feitas em Setembro, e dizendo a testemunha C\u2026 que alterou a rela\u00e7\u00e3o ambulat\u00f3rio por internamento nas cirurgias constantes nessa folha e que isso causou preju\u00edzo ao Estado porque as cirurgias por internamento eram mais caras do que as cirurgias de ambulat\u00f3rio, objetivamente tal testemunha prestou falsas declara\u00e7\u00f5es na medida em que, no dia 25 de Outubro, j\u00e1 n\u00e3o era poss\u00edvel enviar novas fatura\u00e7\u00f5es de Setembro, porque estas haviam j\u00e1 sido enviadas at\u00e9 ao dia 20 de Outubro, o valor unit\u00e1rio de cada cirurgia feita pelo hospital de Aveiro, \u00e9 exatamente o mesmo, quer a cirurgia seja ambulat\u00f3ria, quer seja por internamento;<br \/>20 - A falsidade inform\u00e1tica \u00e9 punida quando se tratar de uma declara\u00e7\u00e3o de facto falso, mas n\u00e3o de todo e qualquer facto falso, mas apenas aquele que for juridicamente relevante, ou seja, que seja apto a constituir, modificar ou extinguir uma rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica;<br \/>21- No caso concreto destes autos, vemos que os factos lan\u00e7ados no sistema inform\u00e1tico,\u00a0<u>documentam factos reais<\/u>, pois h\u00e1:<br \/>- A identidade real dos intervenientes nos atos cir\u00fargicos \u2013 m\u00e9dicos, enfermeiros, pacientes, hospital;<br \/>- A exist\u00eancia das cirurgias feitas e a qu\u00ea;<br \/>- O valor correspondente ao pagamento de cada uma das cirurgias feitas, sendo indiferente que as mesmas tenham sido feitas em sistema ambulat\u00f3rio ou por internamento;<br \/>22 -\u00a0<u>A rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica vertida no sistema inform\u00e1tico, \u00e9 totalmente verdadeira e real<\/u>;<br \/>23 - A \u00fanica quest\u00e3o levantada pela acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de saber se tais cirurgias foram feitas em ambulat\u00f3rio ou em internamento, quest\u00e3o meramente interna do hospital, para fins meramente estat\u00edsticos e que nenhum efeito tem ou teve, na rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica subjacente;<br \/>24- O tribunal a quo n\u00e3o relevou, que na base da den\u00fancia crime feita, da acusa\u00e7\u00e3o feita e dos depoimentos das testemunhas C\u2026 e D\u2026 est\u00e1 o documento a fls 7 dos autos que tem a data de 25 de Outubro de 2004 e reproduz as cirurgias feitas nos meses de Setembro e Outubro, at\u00e9 \u00e0quela data do dia 25, sendo que, tal documento cont\u00e9m a assinatura da arguida Dr\u00aa B\u2026 e, a l\u00e1pis, as anota\u00e7\u00f5es feitas com o punho da testemunha C\u2026;<br \/>25 - Em nenhum s\u00edtio do documento se diz ou \u00e9 dito que, com refer\u00eancia a esse documento, a Dr\u00aa B\u2026 deu instru\u00e7\u00f5es ou ordens para alterar a designa\u00e7\u00e3o de ambulat\u00f3rio para internamento para, com isso, o hospital receber mais dinheiro pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de cirurgia de oftalmologia.<br \/>26- E o pr\u00f3prio documento expressa a impossibilidade defendida pela acusa\u00e7\u00e3o e pelas testemunhas C\u2026 e D\u2026 dessa den\u00fancia e do depoimento destas testemunhas serem verdadeiras, pois resulta do contrato programa que o valor pago pelas cirurgias oftalmol\u00f3gicas que estas fossem em ambulat\u00f3rio quer fossem em internamento, tinham igual valor e resulta tamb\u00e9m que a fatura\u00e7\u00e3o pelos servi\u00e7os e cirurgias prestados pelo hospital num determinado m\u00eas tinham que ser faturados e enviadas as faturas at\u00e9 ao dia 20 do m\u00eas seguinte;<br \/>27 - Ora, tendo o documento de fls 7 que deu origem ao processo e acusa\u00e7\u00e3o, a data de 25 de Outubro de 2004 e constando desse documento a rela\u00e7\u00e3o das cirurgias feitas no m\u00eas de Setembro, no dia 25 de Outubro de 2004, j\u00e1 as cirurgias do m\u00eas de Setembro de 2004 haviam sido faturadas e as faturas enviadas para a entidade respons\u00e1vel;<br \/>28 - Pelo que a refer\u00eancia a l\u00e1pis feita no documento de fls 7 pela testemunha C\u2026 dizendo que havia mudado as indica\u00e7\u00f5es das cirurgias do m\u00eas de Setembro para prejudicar o Estado, revela-se, objetiva e notoriamente, como den\u00fancia ou depoimento falso e impratic\u00e1vel porque n\u00e3o podia, no dia 25 de Outubro de 2004 alterar a refer\u00eancia ambulat\u00f3rio por internamento para prejudicar o Estado, porque j\u00e1 as faturas relativas a tais cirurgias j\u00e1 haviam sido enviadas para a entidade respons\u00e1vel, entidade respons\u00e1vel esta que, como consta do processo, tinha acesso imediato e autom\u00e1tico ao sistema inform\u00e1tico, denominado \u201cE\u2026\u201d, o que significa uma impossibilidade objetiva de pr\u00e1tica de um ato que, al\u00e9m de in\u00fatil e sem valor, era impratic\u00e1vel e imposs\u00edvel de praticar;<br \/>29 - Independentemente de ter sido dada \u201cessa ordem\u201d ou n\u00e3o, a verdade \u00e9 que tal ordem, a ter sido dada e n\u00e3o o foi, era profunda e totalmente in\u00f3cua nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas existentes entre o Hospital, o Estado e o paciente e n\u00e3o era minimamente id\u00f3neo a concretizar uma inten\u00e7\u00e3o de causar preju\u00edzo, ou seja, dar-se uma ordem para que uma cirurgia passe de ambulat\u00f3ria para internamento ou vice-versa, mant\u00e9m sempre inc\u00f3lume a inating\u00edvel a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica criada entre o Hospital, o Estado e o paciente;<br \/>30 - O importante, face \u00e0 lei, \u00e9 que tenha existido as cirurgias faturadas e que n\u00e3o haja desconformidade entre o que \u00e9 faturado pelo hospital e a realidade e, de todos os documentos constantes no processo provam que n\u00e3o existe nenhuma desconformidade entre o que foi vertido no sistema inform\u00e1tico e a realidade, pois as interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas s\u00e3o reais, t\u00eam o valor econ\u00f3mico que foi faturado, tem a identifica\u00e7\u00e3o do paciente, a descrimina\u00e7\u00e3o da cirurgia feita, do m\u00e9dico, da data em que a mesma ocorreu, ou seja, a totalidade do sistema inform\u00e1tico e as faturas emitidas atrav\u00e9s dele, pelo Hospital incorporam factos totalmente verdadeiros face \u00e0 realidade concreta e objetiva;<br \/>31 - Para existir a pr\u00e1tica de um crime de falsidade inform\u00e1tica, tem que existir uma desconformidade relevante entre o que consta do sistema inform\u00e1tico e a realidade, por nele ter sido introduzido um facto falso que provoca uma altera\u00e7\u00e3o importante na rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica entre as partes;<br \/>32 - O que consta do sistema inform\u00e1tico no que concerne \u00e0s rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas e aos factos narrados decorrentes dessas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, \u00e9 exatamente real, verdadeiro e certo, mesmo a ser verdade (que n\u00e3o o \u00e9) que tenha existido altera\u00e7\u00f5es entre a designa\u00e7\u00e3o de cirurgia em ambulat\u00f3ria por cirurgia em internamento, o seu efeito sempre se operaria somente no dom\u00ednio interno do hospital e n\u00e3o na rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica do hospital com o paciente e com o Estado, ou seja, tal altera\u00e7\u00e3o poderia consubstanciar uma irregularidade, retific\u00e1vel e nunca uma falsidade, pois n\u00e3o \u00e9 relevante em termos de rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica, dito de outra forma, mesmo que fosse verdadeira a ordem de altera\u00e7\u00e3o de cirurgia ambulat\u00f3ria por internamento, tal declara\u00e7\u00e3o que o sistema inform\u00e1tico pudesse corporizar ou ter, n\u00e3o tem idoneidade para provar facto juridicamente relevante, o que significa que n\u00e3o tem dignidade jur\u00eddica para integrar ou preencher os requisitos essenciais e necess\u00e1rios para a pr\u00e1tica de um crime de falsidade inform\u00e1tica;<br \/><strong>De facto,<\/strong><br \/>33- Criminalidade Inform\u00e1tica, consiste em todo o ato em que o computador serve de meio para atingir um objetivo criminoso ou em que o computador \u00e9 o alvo desse ato, e na situa\u00e7\u00e3o que nos ocupa nos presentes autos, salvo melhor entendimento, teremos necess\u00e1ria e for\u00e7osamente que ser levados a concluir, que a alegada conduta praticada pela arguida B\u2026, n\u00e3o integra os elementos objetivos e subjetivos contidos na previs\u00e3o normativa do artigo 4\u00ba da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, para tal basta atentarmos no elemento literal contido no n.\u00ba1 do referido dispositivo legal \u201c\u2026engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas,\u2026\u201d, para preenchimento do tipo legal do crime de falsidade inform\u00e1tica, exige-se como elemento subjetivo da ilicitude a inten\u00e7\u00e3o do agente de provocar engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, o dolo caracteriza-se pelo fim de enganar nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas;<br \/>34 - Trata-se de uma interven\u00e7\u00e3o ileg\u00edtima no meio inform\u00e1tico quando os dados da\u00ed resultantes sejam suscet\u00edveis de servir como meio de prova, sendo que a visualiza\u00e7\u00e3o daqueles provocar\u00e1 ent\u00e3o os efeitos de um documento falsificado, sendo os interesses aqui protegidos a seguran\u00e7a e fiabilidade dos documentos, consistindo a a\u00e7\u00e3o na modifica\u00e7\u00e3o de dados j\u00e1 armazenados ou armazenar novos com o mesmo fim;<br \/>35<strong>\u00a0\u2013<\/strong>\u00a0Para que se encontrem preenchidos os requisitos do crime de falsidade inform\u00e1tica, exige-se que os factos criminosos alegadamente cometidos pelo agente, incidam sobre rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, o agente pratica um facto, tendente a enganar um terceiro prejudicando-o;<br \/>36 \u2013 No caso concreto, teremos que ser levados a concluir que inexiste, desde logo o<u>\u00a0preju\u00edzo<\/u>\u00a0causado pelo eventual \u201c\u2026engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas,\u2026\u201d, na medida em que o Tribunal a quo e bem, absolveu a arguida da pr\u00e1tica do crime de burla qualificada, e teremos ainda que ser levados necess\u00e1ria e for\u00e7osamente a concluir, que inexistiu qualquer \u201c\u2026engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas,\u2026\u201d;<br \/><strong>Sen\u00e3o veja-se:<\/strong><br \/>37 - Todas as interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas constantes dos autos ou se preferirmos, todas as rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, s\u00e3o reais, efetivamente todos os utentes inquiridos nos autos afirmam terem sido sujeitos a interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o subjacente existe, \u00e9 real, e por isso nos presentes autos, n\u00e3o existiu qualquer engano ou altera\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, nem existiu, como ali\u00e1s o Tribunal a quo deu como provado, qualquer custo ou preju\u00edzo, absolvendo nessa medida a arguida do crime de burla qualificada, tratando-se de diverg\u00eancias, que relevam para efeitos meramente estat\u00edsticos, sem qualquer relev\u00e2ncia ou repercuss\u00e3o, na medida em que como ficou sobejamente provado nos autos, o custo de uma cirurgia realizada em regime de ambulat\u00f3rio \u00e9 exatamente igual ao custo de uma cirurgia convencional\/internamento;<br \/><strong>Mais,<\/strong><br \/>38\u00a0<strong>-\u00a0<\/strong>O crime de falsidade inform\u00e1tica apresenta-se como o meio de concretiza\u00e7\u00e3o \/ consuma\u00e7\u00e3o do crime de burla qualificada, ao servi\u00e7o do qual se concretizou, e tendo a arguida sido absolvida da pr\u00e1tica deste \u00faltimo, tal fato ter\u00e1 necess\u00e1ria e for\u00e7osamente que nos levar a concluir pela verifica\u00e7\u00e3o in casu, de uma situa\u00e7\u00e3o de consump\u00e7\u00e3o relativamente aos dois tipos de il\u00edcito, o tribunal a quo ao absolver e bem, tal como o fez, a arguida da pr\u00e1tica do crime de burla qualificada, pelos doutos fundamentos constantes da senten\u00e7a recorrida, e ao mesmo tempo ao condenar a arguida pela pr\u00e1tica do crime de falsidade inform\u00e1tica, tal decis\u00e3o, salvo o devido respeito, redunda por si s\u00f3, numa contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel nos fundamentos aduzidos pelo Tribunal a quo ao proferir tal decis\u00e3o;<br \/>39 - O ju\u00edzo valorativo do Tribunal a quo, assentou em prova indici\u00e1ria, recorrendo o Tribunal a quo, na forma\u00e7\u00e3o da sua convic\u00e7\u00e3o em presun\u00e7\u00f5es simples ou naturais, que extravasaram em muito o que se poderia concluir de forma l\u00f3gica, segura e objetiva da prova produzida, salvo o devido respeito, o ju\u00edzo subjacente \u00e0 Senten\u00e7a ora em crise, n\u00e3o tem subjacente um nexo preciso, direto e conforme \u00e0s regras da experi\u00eancia, entre os factos base e os ind\u00edcios, que permitisse a exclus\u00e3o de outras conclus\u00f5es com igual grau de verosimilhan\u00e7a, como \u00e9 o caso da vers\u00e3o dos factos apresentada pela arguida;<br \/>40 - A recorrente \u00e9 m\u00e9dica e cirurgi\u00e3 ortopedista, que sempre tem dado o seu melhor com efici\u00eancia, compet\u00eancia e esp\u00edrito de entreajuda quer no exerc\u00edcio dos seus deveres e atividades profissionais quer no relacionamento humano e solid\u00e1rio que mant\u00e9m com todas as pessoas que se relacionam no seu dia-a-dia;<br \/>41 - A ora recorrente, \u00e0 data dos factos objeto dos presentes autos, para al\u00e9m do cargo de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes no Hospital \u2026, sito em Aveiro, era m\u00e9dica no servi\u00e7o de Ortopedia, a fun\u00e7\u00e3o de diretora do servi\u00e7o de gest\u00e3o de doentes, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o gratuita de nomea\u00e7\u00e3o do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o, feita para efeitos de coordena\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, e para essa fun\u00e7\u00e3o, o Conselho de Administra\u00e7\u00e3o escolhe o m\u00e9dico competente e respeitado pelos demais colegas e pelos funcion\u00e1rios por forma a esbater o mais poss\u00edvel quaisquer atritos que surjam na interliga\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias \u00e1reas cl\u00ednicas e o funcionamento normal do hospital;<br \/>42 - Pela an\u00e1lise do organigrama do Hospital \u2026, constante a fls. 2156 dos autos, o \u201cServi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes\u201d, \u00e9 um servi\u00e7o que est\u00e1 apenas diretamente ligado \u00e0s diversas \u00e1reas clinicas, nada tendo que ver com os Servi\u00e7os de Administra\u00e7\u00e3o ou menos ainda com o \u201cDepartamento de Informa\u00e7\u00e3o Organizacional\u201d;<br \/>43 - A recorrente, nenhuma interfer\u00eancia, nem interesse\u00a0<u>tinha, teve ou tem nos resultados econ\u00f3micos, financeiros ou administrativos do Hospital \u2026<\/u>, facto a que foi totalmente alheia, e o \u00fanico objetivo que tinha e tem num hospital \u00e9 os doentes serem o mais bem tratados poss\u00edvel, e obter bons resultados cl\u00ednicos, n\u00e3o tendo qualquer interven\u00e7\u00e3o em termos do tratamento de dados inform\u00e1ticos daquele hospital, ali\u00e1s a recorrente n\u00e3o possui sequer conhecimentos inform\u00e1ticos para tal;<br \/>44 -\u00a0<strong>O que por si s\u00f3 redunda na impugna\u00e7\u00e3o do facto 2.1.8. dado por provado,<\/strong>\u00a0na sua qualidade de diretora do servi\u00e7o de gest\u00e3o de doentes, a recorrente tem o direito de exigir do pessoal administrativo, no que toca \u00e0 gest\u00e3o de doentes, e sem que isso represente uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica vinculativa e funcional, o cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es que forem mais eficazes e eficientes \u00e0 gest\u00e3o do servi\u00e7o, veja-se o depoimento da arguida B\u2026 (Cfr. Acta da Audi\u00eancia de Julgamento de 04.07.2014 e ficheiro 20140704101905_738115_1498370 de 03:39 a 05:19;<br \/>45 -\u00a0<strong>Impugnando-se ainda especificadamente os factos dados como provados nos pontos 2.1.10., 2.1.11., 2.1.12., 2.1.14. e 2.1.15.,\u00a0<\/strong>de facto, \u00e9 totalmente falso que a recorrente tenha alguma vez dado ordens a quem quer que fosse para converter epis\u00f3dios de doentes operados em regime ambulat\u00f3rio, para epis\u00f3dios de internamento;<br \/>46 - Na verdade, o depoimento e a vers\u00e3o dos factos apresentada pela arguida, ora recorrente foi totalmente desvalorizada pelo Tribunal a quo, em clara e manifesta viola\u00e7\u00e3o do preceituado no artigo 127\u00ba do CPP, tratando-se de uma vers\u00e3o l\u00f3gica, cred\u00edvel e plaus\u00edvel e corroborada pelo depoimento das testemunhas, veja-se ainda a este prop\u00f3sito o depoimento da arguida (Cfr. Acta da Audi\u00eancia de Julgamento de 04.07.2014 e ficheiro 20140704101905_738115_1498370 de 15:30 a 16:48; 28:58 a 29:32; 33:00 a 34:03;<br \/>47 - Ainda no que a tais factos se reporta, as declara\u00e7\u00f5es prestadas pela testemunha M\u2026, em sede de Audi\u00eancia de Julgamento, revelam-se pouco claras, revelando a testemunha falta de convic\u00e7\u00e3o, certeza e assertividade ao que lhe estava a ser perguntado, quanto \u00e0s alegadas ordens que lhe ter\u00e3o sido dadas pela arguida, veja-se: (Cfr. Acta da Audi\u00eancia de Julgamento de 07.07.2014 e ficheiro 20140707101230_738115_1498370 de14:30 a 14:42; 16:51 a 17:58; 32:03 a 33:28; 40:19 a 40:59;<br \/>48 - Todas as testemunhas inquiridas quando confrontadas com a pergunta \u2013 Se alguma vez receberam ordens por parte da Dra. B\u2026, para alterar\/remover\/deturpar dados referentes a atos cir\u00fargicos \u2013 afirmaram peremptoriamente nunca terem recebido da parte da arguida instru\u00e7\u00f5es nesse sentido, nem nunca viram a arguida a \u201cmexer\u201d no sistema inform\u00e1tico no que se reporta \u00e0 gest\u00e3o de doentes, afirmando claramente que a arguida n\u00e3o tinha sequer conhecimentos inform\u00e1ticos para tal, veja-se a este prop\u00f3sito o depoimento da testemunha F\u2026 (Cfr. Ata da Audi\u00eancia de Julgamento de 07.07.2014 e ficheiro 20140707141903_738115_1498370 de 07:56 a 08:53; o depoimento da testemunha G\u2026 (Cfr. Ata da Audi\u00eancia de Julgamento de 07.07.2014 e ficheiro 20140707150151_738115_1498370 de 03:49 a 04:41; 05:38 a 06:13; o depoimento da testemunha H\u2026 (Cfr. Ata da Audi\u00eancia de Julgamento de 07.07.2014 e ficheiro 20140707143923_738115_1498370 de 04:57 a 05:47;<br \/>49 - Da an\u00e1lise atenta dos presentes depoimentos, prestados em sede de audi\u00eancia de julgamento seremos necess\u00e1ria e for\u00e7osamente uma vez mais levados a concluir que o Tribunal a quo, revela clara e inequivocamente que se limitou a proferir uma decis\u00e3o, baseada meramente na acusa\u00e7\u00e3o, revelando um total e absoluto desconhecimento dos autos, n\u00e3o valorando devida e convenientemente toda a prova documental contida nos autos, bem como, toda a prova testemunhal produzida em sede de audi\u00eancia de julgamento;<br \/>50 \u2013 O Tribunal a quo, ao dar como\u00a0<strong>provados os fatos 2.1.20, 2.1.21,<\/strong>\u00a0<strong>2.1.22<\/strong>\u00a0que desde j\u00e1 se impugnam, e como\u00a0<strong>n\u00e3o provados os factos 2.2.1., 2.2.5 e 2.2.6,<\/strong>\u00a0revela-se numa clara e manifesta contradi\u00e7\u00e3o insan\u00e1vel entre os fundamentos e a decis\u00e3o proferida pelo Tribunal a quo, o que desde j\u00e1 se impugna;<br \/>51 - Relativamente a tais fatos veja-se o depoimento da testemunha I\u2026, ent\u00e3o Presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o, \u00e0 data dos fatos a que se reportam os presentes autos, (Cfr. Acta da Audi\u00eancia de Julgamento de 07.07.2014 e ficheiro 20140707113412_738115_1498370 de 07:30 a 11:52;<br \/>52 - Face ao teor do contrato programa que, objetivamente, estabelece que o valor unit\u00e1rio pago por cada cirurgia, quer ela seja em ambulat\u00f3rio, quer seja em internamento, \u00e9 exatamente igual, o mesmo valor, n\u00e3o se percebe como \u00e9 que o Tribunal a quo d\u00e1 como provado, este diferencial de fatura\u00e7\u00e3o, e ao mesmo tempo, na fundamenta\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o refere o seguinte: \u201cN\u00e3o se pode assim afirmar, para al\u00e9m de qualquer d\u00favida razo\u00e1vel, que tenha existido um efetivo preju\u00edzo dos alegados ofendidos\u2026 Por todas estas raz\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 demonstrado que tenha havido de facto um concreto preju\u00edzo para o SNS, na justa medida da apontada diferen\u00e7a de pre\u00e7os, e para os demais subsistemas de sa\u00fade aqui em causa\u201d;<br \/>53 - N\u00e3o se percebe uma vez mais, como \u00e9 que o Tribunal a quo, d\u00e1 como provados fatos, quando nenhuma testemunha ouvida em sede de audi\u00eancia de julgamento se refere a tal mat\u00e9ria ou demonstra ter sequer conhecimento direto ou indireto acerca de uma eventual fatura\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de existirem nos autos documentos com for\u00e7a probat\u00f3ria plena, que provam a inexist\u00eancia de qualquer diferencial de fatura\u00e7\u00e3o, estando uma vez mais, o Tribunal a quo, a violar os mais elementares Princ\u00edpios de Direito de subjazem \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o e valora\u00e7\u00e3o da prova em Direito Penal, em clara e manifesta viola\u00e7\u00e3o da credibilidade e garantia de defesa de um cidad\u00e3o em pleno Estado de Direito Democr\u00e1tico;<br \/>54 -Termos em que, pugna-se pela substitui\u00e7\u00e3o da Senten\u00e7a em crise por outra que absolva a Arguida da pr\u00e1tica de um crime de falsidade inform\u00e1tica, p. e p. pelo artigo 4\u00ba, n.\u00bas 1 e 3 da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, na reda\u00e7\u00e3o introduzida pela Lei n.\u00ba 109\/91 de 17 Agosto, e alterada pelo Decreto Lei n.\u00ba 323\/2001 de 17 de Dezembro sob pena de viola\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio in dubio pro reo, que \u00e9 limite das presun\u00e7\u00f5es judiciais que sustentam a condena\u00e7\u00e3o, com as legais consequ\u00eancias da\u00ed decorrentes.<br \/>O Minist\u00e9rio P\u00fablico junto da 1\u00aainst\u00e2ncia respondeu ao recurso, pugnando pela sua improced\u00eancia [fls.3242 a 3247].<br \/>Remetidos os autos ao Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o e aberta vista para efeitos do art.416.\u00ba n.\u00ba1 do C.P.Penal, a Exma. Procuradora emitiu parecer em que se pronunciou pelo n\u00e3o provimento do recurso [fls.3270 a 3279].<br \/>Cumprido o disposto no art.417.\u00ba n.\u00ba2 do C.P.Penal, n\u00e3o foi apresentada resposta.<br \/>Colhidos os vistos legais, foram os autos submetidos \u00e0 confer\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>II \u2013 FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong><u>Decis\u00e3o recorrida<\/u><\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">A senten\u00e7a recorria deu como provados e n\u00e3o provados os seguintes factos e respetiva motiva\u00e7\u00e3o:<br \/>\u00ab2.1. Factos provados<br \/>2.1.1. O Hospital Infante D. Pedro, situado em Aveiro, foi transformado em sociedade an\u00f3nima de capitais exclusivamente p\u00fablicos por for\u00e7a do Decreto-Lei n.\u00ba 272\/2002, de 09.12, que entrou em vigor a 10.12.2002, sendo posteriormente transformado em entidade p\u00fablica empresarial pelo Decreto-Lei n.\u00ba 93\/2005, de 07.06,<br \/>2.1.2. O modelo de financiamento do Hospital Infante D. Pedro, S.A., assentou na celebra\u00e7\u00e3o de um dito contrato programa com o Estado - Minist\u00e9rio da Sa\u00fade - atrav\u00e9s do IGF (Instituto de Gest\u00e3o Inform\u00e1tica e Financeira da Sa\u00fade).<br \/>2.1.3. Assim, mediante a outorga daqueles contratos, era por a\u00ed determinada a quantidade e qualidade da produ\u00e7\u00e3o a realizar pelo Hospital e o respetivo pre\u00e7o a faturar ao SNS (Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade) ou subsistemas de sa\u00fade, nomeadamente \u00e0 ADSE (Assist\u00eancia na Doen\u00e7a dos Servidores do Estado) e \u00e0 ADMG (Assist\u00eancia na Doen\u00e7a aos Militares da Guarda).<br \/>2.1.4. Para tanto eram fixados previamente objetivos para cada linha de produ\u00e7\u00e3o hospitalar (internamento, cirurgia ambulat\u00f3ria, consulta externa, urg\u00eancia, hospital de dia, servi\u00e7o domicili\u00e1rio).<br \/>2.1.5. Quanto ao respetivo pre\u00e7o, era fixado com base no grupo hospitalar em que a unidade de sa\u00fade estava integrada (O Hospital \u2026, S.A., era e \u00e9 um Hospital Distrital) e atendendo \u00e0 realidade efetivamente realizada, ou seja \u00e0 qualidade e quantidade das presta\u00e7\u00f5es de cuidados de sa\u00fade nos termos estabelecidos pela Portaria 189\/2001, de 09.03, e posteriormente pela Portaria 132\/2003, de 05.02.<br \/>2.1.6. A arguida B\u2026 era e \u00e9 m\u00e9dica no Hospital em refer\u00eancia, encontrando-se submetida ao regime dos trabalhadores que exercem fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e tendo tomado posse como assistente hospitalar da especialidade de ortopedia do quadro de pessoal a 23.02.2000, tendo ainda desempenhado as fun\u00e7\u00f5es de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes entre Maio de 2004 e Outubro de 2005.<br \/>2.1.7. Durante o per\u00edodo temporal em que desempenhou as fun\u00e7\u00f5es de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes, C\u2026, J\u2026, K\u2026 e L\u2026 exerceram fun\u00e7\u00f5es de assistente administrativa no Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o Clinica, enquanto M\u2026 e N\u2026 eram e s\u00e3o secret\u00e1rias clinicas, respetivamente (Especialidades Cir\u00fargicas) nos Servi\u00e7os de Oftalmologia e de Ortopedia.<br \/>2.1.8. Estando aqueles no aludido per\u00edodo hierarquicamente subordinados \u00e0 arguida.<br \/>2.1.9. Competia-lhes, entre outras mat\u00e9rias, registar no sistema inform\u00e1tico geral de doentes em uso naquele Hospital, denominado \u00abE\u2026\u00bb, todas as consultas, urg\u00eancias, internamentos e exames de diagn\u00f3stico relativos a cada doente, sendo que este sistema inform\u00e1tico estava em rede com um outro denominado \u00abIntegrador - GDH\u00bb, o qual definiria em termos operacionais a produ\u00e7\u00e3o do Hospital, agrupando os doentes em grupos de diagn\u00f3sticos homog\u00e9neos (GDH) em fun\u00e7\u00e3o de diversas vari\u00e1veis, nomeadamente o diagn\u00f3stico principal e secund\u00e1rio, complica\u00e7\u00f5es procedimentos cl\u00ednicos, idade, sexo, de forma a consolidar uma coer\u00eancia do ponto de vista clinico e de consumo de recursos.<br \/>2.1.10. No dia 26 de Outubro de 2004, a arguida, na qualidade de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes, ordenou verbalmente ao funcion\u00e1rio C\u2026 que este imprimisse a lista de doentes intervencionados naquele Hospital \u00e0s Cataratas entre os dias 01.09.2004 e 26.10.2004 e que removesse do sistema inform\u00e1tico a men\u00e7\u00e3o ao regime de cirurgia ambulat\u00f3ria que teria sido realizada, visando que aqueles epis\u00f3dios viessem a ser inseridos mais tarde no sistema com a men\u00e7\u00e3o de internamento cir\u00fargico.<br \/>2.1.11. Perante as reservas suscitadas pelo referido funcion\u00e1rio, a arguida tomou aquela lista impressa em suporte de papel, conforme documentada a fls.7 dos autos e, pelo seu punho, nela anotou o seu nome e ap\u00f4s a data 26.10.2004, ratificando os procedimentos inform\u00e1ticos a observar naquele concreto caso e que foram ali colocados pelo punho do referido funcion\u00e1rio.<br \/>2.1.12. Entregando tal documento ao referido funcion\u00e1rio e reiterando que se tratava de uma ordem a observar e a que devida obedi\u00eancia, o que aquele acabou por acatar, retirando do sistema inform\u00e1tico 20 dos 23 epis\u00f3dios constantes da lista.<br \/>2.1.13. No seguimento deste epis\u00f3dio, a arguida incumbiu a funcion\u00e1ria J\u2026 de proceder doravante \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o das listas de doentes a aguardar cirurgia, fun\u00e7\u00e3o at\u00e9 ent\u00e3o atribu\u00edda ao referido funcion\u00e1rio C\u2026, designando tamb\u00e9m a funcion\u00e1ria L\u2026 daquele Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o para a auxiliar nessa tarefa.<br \/>2.1.14. Em data n\u00e3o concretamente apurada do ano de 2004, a arguida, mais uma vez na qualidade de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes, ordenou verbalmente \u00e0 funcion\u00e1ria M\u2026 para que da\u00ed em diante procedesse \u00e0 inscri\u00e7\u00e3o do regime de internamento no sistema inform\u00e1tico, por si ou por interm\u00e9dio de terceiros, n\u00e3o obstante estarem de facto em causa cirurgias oftalmol\u00f3gicas realizadas em ambulat\u00f3rio, tendo esta obedecido e passado a executar desta forma.<br \/>2.1.15. Procedimento que vigorou enquanto a arguida exerceu fun\u00e7\u00f5es de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes.<br \/>2.1.16. Desde 1 de Setembro de 2004 e 31 de Outubro de 2005 realizaram-se no Hospital \u2026, S.A., pelo menos 168 cirurgias relativas a cataratas, t\u00fanel c\u00e1rpico e procedimentos em tecidos moles.<br \/>2.1.17. Dos quais em dois daqueles casos os pacientes ficaram efetivamente internados naquela unidade hospitalar, j\u00e1 que as demais cirurgias foram realizadas em regime de ambulat\u00f3rio o que quer significar que os pacientes entraram e sa\u00edram no mesmo dia em que foram operados.<br \/>2.1.18. Em virtude dos referidos funcion\u00e1rios terem observados as ordens indevidamente emanadas pela arguida nas aludidas circunst\u00e2ncias, enquanto sua superiora hier\u00e1rquica ou pelo menos assim havida por estes, foram introduzidos e modificados dados no sistema inform\u00e1tico que serviram de base mais tarde \u00e0 emiss\u00e3o de faturas e cobran\u00e7a dos respetivos pre\u00e7os ao SNS e aos subsistemas ADSE e ADMG.<br \/>2.1.19. Violando a arguida com esta sua atua\u00e7\u00e3o os deveres de isen\u00e7\u00e3o, zelo e lealdade a que estava obrigada e de que era capaz e comprometendo com aquele ato a lisura da prossecu\u00e7\u00e3o do interesse p\u00fablico e a sua imagem enquanto agente da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica que \u00e9, bem sabendo que aquela conduta era proibida e punida por lei criminal.<br \/>Concretizando,<br \/>2.1.20. Relativamente ao ano de 2004, foram faturados pelo Hospital \u2026, S.A. ao SNS 41 (quarenta e um) internamentos cir\u00fargicos pelo valor global de 67.655,61 \u20ac, quando se tivessem sido faturados como cirurgias ambulat\u00f3rias que foram o valor seria de 43.827,55 \u20ac; e ao subsistema ADSE 2 (duas) cirurgias de cataratas, em regime de internamento, pelo valor global de 3.461,30 \u20ac, quando se tivessem sido faturadas como cirurgias de ambulat\u00f3rio que foram o valor seria de apenas 1.711,26 \u20ac.<br \/>2.1.21. Relativamente ao ano de 2005, foram faturados pelo Hospital \u2026, S.A. ao SNS 115 (cento e quinze) internamentos cir\u00fargicos pelo valor global de 267.147,80 \u20ac, quando se tivessem sido faturados como cirurgias ambulat\u00f3rias que foram o valor seria de 152.488.81 \u20ac; e ao subsistema ADSE 6 (seis) cirurgias das quais 1 (uma) ao t\u00fanel c\u00e1rpico e as demais \u00e0s cataratas, todas elas em regime de internamento, pelo valor global de 9.840,63 \u20ac, quando se tivessem sido faturadas como cirurgias de ambulat\u00f3rio que foram o valor seria de 5.114,81 \u20ac.<br \/>2.1.22. Nesse mesmo ano, foi faturado pelo Hospital \u2026, S.A. ao subsistema de sa\u00fade ADMG 1 (uma) cirurgia de cataratas, em regime de internamento, pelo valor de 1.730,65 \u20ac, quando se tivesse sido faturado como cirurgia em ambulat\u00f3rio que foi o valor seria apenas de 855,63 \u20ac.<br \/>(mais se provou ainda que:)<br \/>2.1.23. A arguida nasceu a 26 de Mar\u00e7o de 1963 e \u00e9 a quinta de uma fratria de nove irm\u00e3os; o pai era caixeiro-viajante e a m\u00e3e dom\u00e9stica; a sua inf\u00e2ncia foi passada com todos aqueles membros do seu agregado familiar; completou o 12.\u00ba ano de escolaridade numa escola secund\u00e1ria em Espinho e ingressou mais tarde na Faculdade de Medicina \u2026; casou com 20 anos de idade e n\u00e3o trabalhou enquanto frequentou o ensino superior; tem dois filhos com 31 e 25 anos de idade e a filha mais nova mora consigo; est\u00e1 divorciada e o ex-marido era eletricista; efetuou o internato geral no Hospital de Gaia e o internato complementar no Hospital de Aveiro; \u00e9 atualmente assistente hospitalar graduada da especialidade m\u00e9dica de ortopedia; vive em casa pr\u00f3pria; possui um empr\u00e9stimo para aquisi\u00e7\u00e3o de casa no valor de 1.000,00 \u20ac por m\u00eas e outro empr\u00e9stimo para aquisi\u00e7\u00e3o de viatura pr\u00f3pria no valor de 200,00 \u20ac mensais; do exerc\u00edcio p\u00fablico e privado da sua atividade m\u00e9dica retira cerca de 3.800,00 \u20ac de rendimentos l\u00edquidos por m\u00eas;<br \/>2.1.24. N\u00e3o s\u00e3o conhecidos antecedentes criminais \u00e0 arguida.<br \/>2.1.25. A arguida \u00e9 havida por alguns dos seus colegas, funcion\u00e1rios e pelos seus amigos como sendo uma pessoa educada, dispon\u00edvel, frontal e profissionalmente dedicada \u00e0 medicina e ao exerc\u00edcio da causa p\u00fablica e trabalhadora.<br \/>2.2.2. Factos n\u00e3o provados<br \/>2.2.1. Em data n\u00e3o concretamente apurada do m\u00eas de Outubro de 2004, a arguida tenha formulado o prop\u00f3sito concretizado de converter para efeitos administrativos as interven\u00e7\u00f5es realizadas no Hospital \u2026, S.A., em regime ambulat\u00f3rio em interven\u00e7\u00f5es com Internamento com vista apenas a vir a faturar ao SNS e aos subsistemas de sa\u00fade ADSE e ADMG um pre\u00e7o mais elevado que o devido e obter por esta via e para aquela unidade Hospitalar proveitos econ\u00f3micos que sabia serem ileg\u00edtimos.<br \/>2.2.2. Em conformidade com este plano ordenou \u00e0s funcion\u00e1rias administrativas J\u2026, L\u2026 e N\u2026 que transformassem as cirurgias ambulat\u00f3rias informaticamente registadas em epis\u00f3dios de internamento para efeitos administrativos.<br \/>2.2.3. Que a arguida tenha aposto pelo seu punho no documento constante de fls.7 os dizeres \u00abdesagrupar para transfer\u00eancia em internamento.\u00bb, \u00abRemover\u00bb, \u00abRemovido = R\u00bb, \u00abR.\u00bb \u00abfacturado \u00e0 ADSE\u00bb. 2.2.4. Que o SNS e os subsistemas de sa\u00fade ADSE e ADMG tenham procedido ao pagamento do pre\u00e7o que lhes foi faturado correspondente ao acr\u00e9scimo que decorreu da ileg\u00edtima transmuda\u00e7\u00e3o das cirurgias oftalmol\u00f3gicas (cataratas) e ortop\u00e9dicas (t\u00fanel c\u00e1rpico) efetivamente realizadas em regime de ambulat\u00f3rio em interven\u00e7\u00f5es em internamento nos termos referidos a 2.1.20. a 2.1.22.<br \/>2.2.5. Porquanto confiaram que os valores faturados correspondiam \u00e0 linha de produ\u00e7\u00e3o efetivamente levado a cabo pelo Hospital, em especial no que diz respeito \u00e0 sua qualidade.<br \/>2.2.5. A arguida tenha atuado em todas as circunst\u00e2ncias dadas como provadas com o prop\u00f3sito concretizado de obter para o Hospital um enriquecimento ileg\u00edtimo no valor global de 145.837,93 \u20ac, correspondente a um empobrecimento do SNS e dos subsistemas de sa\u00fade ADSE e ADMG, respetivamente, em id\u00eantico valor globalmente considerado, pela orientada manipula\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios que subjazem a cada fatura imputada ao respetivo respons\u00e1vel civil.<br \/>2.2.6. Levando aquele Servi\u00e7o e subsistemas de sa\u00fade, iludidos com a encena\u00e7\u00e3o por si realizada e convictos da autenticidade dos dados constantes do sistema inform\u00e1tico, a pagar aqueles epis\u00f3dios como cirurgias de internamento, a fim de obter para o Hospital Infante D. Pedro, S.A., um enriquecimento que sabia ileg\u00edtimo e correspondente ao diferencial do valor existente entre os dois tipos de cirurgia e \u00e1 custa do correspondente preju\u00edzo patrimonial daquelas entidades.<br \/>2.3. Da motiva\u00e7\u00e3o<br \/>2.3.1. O artigo 127.\u00ba do C\u00f3digo de Processo Penal (CPP) estatui que a prova seja apreciada pelo julgador \u00e0 luz das regras da experi\u00eancia comum e da sua livre convic\u00e7\u00e3o, o que pretende significar que o julgador \u00e9 livre de decidir a causa segundo imperativos de bom senso e as regras da experi\u00eancia comum, claro est\u00e1, tendo presente a sua capacidade cr\u00edtica e o distanciamento e pondera\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5em no ato de julgar.<br \/>De acordo com o enunciado princ\u00edpio da liberdade da prova o julgador tem a liberdade de formar a sua convic\u00e7\u00e3o sobre os factos que s\u00e3o submetidos \u00e0 sua aprecia\u00e7\u00e3o com base em ju\u00edzos que se fundem no m\u00e9rito objetivamente concretizado na sua individualidade hist\u00f3rica tal qual foi exposta e adquirida, de forma v\u00e1lida, no processo (art.355.\u00ba do CPP).<br \/>2.3.2. Posto isto, vejamos o contributo de cada meio de prova para a consigna\u00e7\u00e3o dos factos que antecedem e que foram julgados provados e n\u00e3o provados de entre os meios de prova indicados na acusa\u00e7\u00e3o; pela defesa e carreados para os autos na fase da instru\u00e7\u00e3o do processo.<br \/>O primeiro grupo de factos atinentes (2.1.1. a 2.1.5.) \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, em Aveiro, em sociedade an\u00f3nima detida integralmente por capitais p\u00fablicos e ao subsequente modelo de financiamento e seus crit\u00e9rios operativos foram valorados, como n\u00e3o poderia deixar de ser, os diplomas legais que a\u00ed s\u00e3o mencionados a respeito de tais mat\u00e9rias e ainda os contratos programas celebrados por aquela institui\u00e7\u00e3o de sa\u00fade nos anos de 2004 e de 2005 com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, melhor documentados a fls.941 e ss., e o relat\u00f3rio e contas respeitante a esses mesmos dois anos, mas n\u00e3o acompanhado do Visto do tribunal de Contas, onde se mostra enquadrada a figura jur\u00eddica do Hospital e o seu respetivo organigrama (fls.2160\/1 e 2198 a 2200, e ainda o de fls.2205\/6 e 2235 e 2236).<br \/>Para al\u00e9m disso tais mat\u00e9rias foram parcialmente corroboradas e nalguns casos at\u00e9 enquadradas pelos depoimentos de D\u2026 (administrador Hospitalar e Presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, S.A., entre Novembro de 2005 e Agosto de 2008, que denunciou os factos que conduziram \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o deste processo) e I\u2026 (consultor na \u00e1rea da sa\u00fade e ex-Presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, S.A., entre 14.08.2002 e 31.12.2004, embora em gest\u00e3o at\u00e9 \u00e0 tomada de posse daquela outra testemunha) que, aqui e ali, com maior \u00eanfase para esta \u00faltima testemunha, se reportaram a estas mat\u00e9rias de forma convergente com aqueles diplomas legais e demais documentos retro aludidos.<br \/>O facto dado como provado em 2.1.6. decorre das declara\u00e7\u00f5es prestadas pela arguida a este respeito e no sentido dado como provado, sem que exista qualquer prova documental ou outra que infirmasse aquelas suas declara\u00e7\u00f5es. Mostra-se igualmente corroborado pelas demais testemunhas ouvidas, que com aquela, direta ou indiretamente, trabalharam (e ainda trabalham) naquela mesma unidade de sa\u00fade e que o confirmaram. Neste particular demos destaque quanto \u00e0 data da tomada da sua posse e \u00e0 sua categoria profissional ao testemunho de O\u2026 (m\u00e9dico patologista clinico, aposentado desde 31 de Janeiro de 2007, tendo trabalhado durante cerca de 30 anos no Hospital \u2026, e que teve em tempos idos a arguida, que entretanto se tornou sua amiga, como sua interna) e quanto \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de Diretora do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o de Doentes e ao per\u00edodo em que exerceu aquelas mesmas fun\u00e7\u00f5es aos depoimentos convergentes das testemunhas D\u2026 e I\u2026, ex-presidentes do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Hospital entretanto redenominado de Baixo Vouga, E.P.E., com especial destaque para este \u00faltimo que indigitou a arguida para o lugar sob recomenda\u00e7\u00e3o de um dos seus Diretores de Servi\u00e7o. E ainda aos testemunhos convergentes de C\u2026, J\u2026, L\u2026, M\u2026, N\u2026, F\u2026, P\u2026, H\u2026, Q\u2026, G\u2026 e S\u2026, todos eles funcion\u00e1rios daquela Unidade de Sa\u00fade e que trabalharam e\/ou trabalham diretamente com a arguida e que o especificaram.<br \/>Os factos dados como provados a 2.1.7. decorrem dos depoimentos seguros, sinceros e escorreitos que a este prop\u00f3sito foram prestados pelos pr\u00f3prios visados naquele concreto ponto, a saber C\u2026 (casado, funcion\u00e1rio daquele Hospital e a prestar servi\u00e7o no Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o desde meados de 1989), J\u2026 (casada, assistente t\u00e9cnica daquele Hospital desde meados de 1993\/4, que no ano de 2004\/5 exerceu fun\u00e7\u00f5es administrativas no \u00e2mbito da admiss\u00e3o de doentes), L\u2026 (solteira, assistente t\u00e9cnica naquele Hospital desde 1999, que no ano de 2004\/5 estava a trabalhar no Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o), M\u2026 (solteira, assistente t\u00e9cnica naquele Hospital h\u00e1 cerca de 21 anos e que no ano de 2004\/5 estava a trabalhar como secret\u00e1ria clinica no Servi\u00e7o de Oftalmologia) e N\u2026 (divorciada, assistente t\u00e9cnica naquele Hospital desde 1987, que no ano de 2004\/5 esteve a trabalhar como secret\u00e1ria clinica no Servi\u00e7o de Ortopedia).<br \/>Os seus depoimentos foram em todos os momentos, nesta mat\u00e9ria, congruentes entre si e por outro lado consent\u00e2neos com as fun\u00e7\u00f5es por cada um deles exercidas \u00e0 data e que tamb\u00e9m foram confirmadas pela arguida, quando se referiu a cada uma daquelas pessoas nas suas declara\u00e7\u00f5es, como ainda pelos demais funcion\u00e1rios daquele Hospital que foram sendo ouvidos e que jamais puseram em causa que aquelas pessoas exercessem de facto aquelas fun\u00e7\u00f5es naquele Hospital e nas concretas datas em que o disseram ter feito.<br \/>Quanto ao \u00e2mbito funcional de cada um daqueles funcion\u00e1rios e sua interliga\u00e7\u00e3o com os sistemas inform\u00e1ticos em uso naquele Hospital \u00e0 data dos factos decorre do depoimento que cada um deles prestou a este respeito, sem que resultem quaisquer incongru\u00eancias sobre esta mat\u00e9ria em respaldo com o relat\u00f3rio pericial realizada ao sistema inform\u00e1tico em uso naquele Hospital e esclarecimentos complementares de documentados nos autos (art.163.\u00ba do CPP). Raz\u00e3o pela qual se deu como provado o facto vertido em 2.1.8..<br \/>Os factos que se mostram vertidos no ponto 2.1.9. a 2.1.18. e que sumariza no fundo os atos materiais dos dois crimes de que se mostra incursa foram sempre negados pela arguida que recusou de forma veemente qualquer responsabilidade pelo cometimento dos factos de que se mostra acusada. Alegando em sua defesa, qui\u00e7\u00e1 em busca de uma explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel e alternativa para alguns dos factos que lhe s\u00e3o imputados sem colher integralmente como se ver\u00e1, que no \u00e2mbito da atividade cir\u00fargica seria usual que os pacientes submetidos a cirurgias oftalmol\u00f3gicas ou ortop\u00e9dicas em regime de ambulat\u00f3rio (cirurgias ditas programadas, em especial \u00e0s cataratas e t\u00fanel c\u00e1rpico) fossem intervencionados e sofressem subsequentemente necessidade de internamento por for\u00e7a de complica\u00e7\u00f5es clinicas concomitantes ou posteriores \u00e0 interven\u00e7\u00e3o ou por quaisquer outras raz\u00f5es atinentes \u00e0 sa\u00fade do paciente, conexas ou n\u00e3o com a cirurgia, atend\u00edveis, que justificassem que passassem a noite no Hospital em regime de internamento e sob observa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<br \/>O que a acontecer justificaria a transmuda\u00e7\u00e3o de uma interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica origin\u00e1ria de ambulat\u00f3rio para internamento. A d\u00favida existencial, se assim se pode dizer, no confronto com os 168 casos que aqui se tratavam apenas em 2 teve integral respaldo.<br \/>At\u00e9 aqui tudo correto e compreens\u00edvel \u00e0 luz das regras estabelecidas para o setor de atividade m\u00e9dico e at\u00e9 das mais elementares regras da experi\u00eancia e da l\u00f3gica \u2013 com recurso \u00e0 figura da altera\u00e7\u00e3o superveniente dos pressupostos do ato m\u00e9dico prestado \u2013 ou at\u00e9 dos protocolos outorgados no ano de 2004 e 2005 entre o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e o Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, S.A., onde a arguida exercia as fun\u00e7\u00f5es Diretora da Gest\u00e3o dos Doentes em acumula\u00e7\u00e3o com as de m\u00e9dica assistente de ortopedia, qualidade que ainda hoje assume naquele Hospital, que previa de forma expressa esta situa\u00e7\u00e3o.<br \/>Ter\u00e1 ent\u00e3o sido demonstrado, como se imp\u00f5em de acordo com as regras probat\u00f3rias que presidem \u00e0 natureza deste processo, que a arguida ordenou dolosamente a transmuda\u00e7\u00e3o de casos de cirurgias ambulat\u00f3rias em cirurgias em regime de internamento com vista a desta forma induzir os servi\u00e7os de fatura\u00e7\u00e3o daquele Hospital em erro e consequentemente obter dos respons\u00e1veis pelo pagamento dos servi\u00e7os prestados proventos a que n\u00e3o tinha direito na justa propor\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a de pre\u00e7o operada?<br \/>Resulta a nosso ver que a arguido deturpou conscientemente a realidade contabil\u00edstica do Hospital e que tinha conhecimento das implica\u00e7\u00f5es que tal circunst\u00e2ncia poderia ter. No sentido que esta voluntariamente procedeu \u00e0 deturpa\u00e7\u00e3o da realidade de dois tipos de interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargicas, pelo menos, no \u00e2mbito da cirurgia oftalmol\u00f3gica e ortop\u00e9dica, que n\u00e3o tinham tido lugar nos moldes em que ordenou (internamento) que passassem a ser registados para efeitos internos.<br \/>Em primeiro lugar cumprir\u00e1 explicar como \u00e9 que \u00e0 data dos factos se processava a tramita\u00e7\u00e3o interna e documental respeitante a um paciente que fosse intervencionado em regime de ambulat\u00f3rio e\/ou em regime de internamento.<br \/>- O paciente operado em regime de ambulat\u00f3rio apresentava-se no dia da cirurgia, efetuava os exames complementares que fossem necess\u00e1rios se j\u00e1 n\u00e3o os tivesse feito em data anterior, era intervencionado da parte da manh\u00e3 (por regra) e teria alta m\u00e9dica a partir da hora de almo\u00e7o se tudo corresse como era suposto.<br \/>- O paciente operado no seguimento de internamento poder\u00e1 corresponder a uma situa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia (n\u00e3o programa) e poder\u00e1 decorrer de uma indica\u00e7\u00e3o m\u00e9dica de qualquer especialidade, em especial do servi\u00e7o de consultas externas ou das urg\u00eancias.<br \/>- Em qualquer um dos casos era preenchida uma folha designada de admiss\u00e3o e alta (doc. a fls.46), em formul\u00e1rio \u00fanico (\u00e1 data), onde se colocavam os elementos de identifica\u00e7\u00e3o do paciente e o respetivo verbete respeitante ao epis\u00f3dio em causa que era colocado no canto superior esquerdo da folha. Assinalava-se ainda numa quadr\u00edcula existente no ponto 7 do formul\u00e1rio a natureza da admiss\u00e3o, se programada ou n\u00e3o, correspondendo a primeira a um ambulat\u00f3rio (ou pela coloca\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo de uma arroba, isto \u00e9, o sinal @).<br \/>- Realizada a cirurgia \u00e0s cataratas ou ao t\u00fanel c\u00e1rpico, conforme o caso, a pr\u00e1tica institu\u00edda era a de dar imediatamente alta m\u00e9dica ao paciente. Nesta altura se o paciente tivesse sido admitido em regime de ambulat\u00f3rio o sistema inform\u00e1tico (E\u2026) e o seu processo clinico apenas evidenciaria aquele ato cir\u00fargico que seria passado algum tempo da alta remetido ao Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s passar pelos m\u00e9dicos codificadores, por meio da dita ficha de admiss\u00e3o, verbete e alta m\u00e9dica.<br \/>- Nesta altura os funcion\u00e1rios codificadores iriam conciliar os dados respeitantes aos atos m\u00e9dicos praticados em rela\u00e7\u00e3o a cada paciente e aos demais consum\u00edveis previamente classificados em GDH e lan\u00e7\u00e1-los noutra plataforma inform\u00e1tica do IGIF com vista a remeter tal informa\u00e7\u00e3o integrada ao servi\u00e7o de fatura\u00e7\u00e3o e a esta entidade e aos respons\u00e1veis pelos pagamentos dos servi\u00e7os prestados para liquida\u00e7\u00e3o nos termos protocolizados \u2013 cfr. lista de doentes reduzida de fls.7.<br \/>- Importava saber se o paciente tinha dado entrada no Hospital em regime de ambulat\u00f3rio ou internamento para saber onde \u00e9 que os dados estariam alojados no Sistema Inform\u00e1tico (vide per\u00edcia de fls. 2434 e ss e demais esclarecimentos complementares de fls.2463 e ss.).<br \/>- Depois de devidamente faturado pela sec\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel \u00e0 entidade respons\u00e1vel pelo pagamento do servi\u00e7o prestado o sistema inform\u00e1tico em uso no Hospital n\u00e3o permitia mais alterar os dados que subjazem ao GDH lan\u00e7ado. Mas antes desse momento cr\u00edtico poderia ser gerado a respeito de cada paciente intervencionado um novo epis\u00f3dio e classific\u00e1-lo como de internamento quando havia sido operado em regime de ambulat\u00f3rio e gerar assim um novo e correspondente GDH \u2013 vide a per\u00edcia supra citada.<br \/>- Esta nova inser\u00e7\u00e3o de dados poderia ser feita no servi\u00e7o de cirurgia existente nas respetivas especialidades cir\u00fargicas que estivessem em causa e\/ou nas que prestavam servi\u00e7o na admiss\u00e3o de pacientes, como no Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o ou Departamento Inform\u00e1tico que teriam as permiss\u00f5es de seguran\u00e7a mais elevadas.<br \/>- Conclus\u00e3o o sistema inform\u00e1tico em uso \u00e0 data era fal\u00edvel porque consentia na altera\u00e7\u00e3o de dados at\u00e9 \u00e0 integra\u00e7\u00e3o do GDH e sua fatura\u00e7\u00e3o, pelo menos, o que implicava, em regra, a anula\u00e7\u00e3o de todo o registo inform\u00e1tico do doente em causa (ambulat\u00f3rio) e a cria\u00e7\u00e3o de novo registo inform\u00e1tico a que os documentos internos \u2013 folha de admiss\u00e3o e alta \u2013 seriam \u00abafei\u00e7oados\u00bb, conciliados com a coloca\u00e7\u00e3o de um novo verbete sobre o anterior de ambulat\u00f3rio; com a rasura (grosseira) da data de entrada (antecedendo a da interven\u00e7\u00e3o) em alguns casos ou com a elabora\u00e7\u00e3o de um novo documento que evidenciasse de forma n\u00e3o truncada tudo isto, embora se tivesse de mantiver sempre o documento m\u00e9dico a conceder a alta clinica e que invariavelmente - em quase todos os casos registados nos apensos I e II - fazia coincidir o dia da alta clinica com o da cirurgia em causa ao contr\u00e1rio da informa\u00e7\u00e3o constante da folha de admiss\u00e3o.<br \/>Em segundo lugar da per\u00edcia colegial realizada nos autos (fls.776 e ss.) conclui que apenas em dois casos se registou que pacientes admitidos para uma cirurgia programada tiveram necessidade de ficar internados para o dia seguinte, j\u00e1 que nos demais casos os pacientes ter\u00e3o entrado e sa\u00eddo do Hospital no mesmo dia em que foram operados, em linha, ali\u00e1s, com as leis da arte (cirurgias ditas limpas, sendo que a t\u00edtulo de exemplo a interven\u00e7\u00e3o ao t\u00fanel c\u00e1rpico demandaria cerca de 10 a 15 minutos de bloco oper\u00e1rio, segundo declarou a arguida) e pr\u00e1ticas m\u00e9dicas observada nas cirurgias \u00e0s cataratas e ao t\u00fanel c\u00e1rpico (bem como \u00e0s datas apostas nas altas m\u00e9dicas).<br \/>Este meio de prova (per\u00edcia) assentou em depoimentos diretos dos pacientes em causa ou dos familiares que os acompanharam nesses dias (no caso dos que entretanto faleceram ou n\u00e3o se mostravam dispon\u00edveis) e tamb\u00e9m no cruzamento destas informa\u00e7\u00f5es com os registos cl\u00ednicos dos pacientes em quest\u00e3o e valora\u00e7\u00e3o das consequentes informa\u00e7\u00f5es da enfermagem (se uma pessoa fica internada ter\u00e1 de existir o registo de uma cama\/maca dispon\u00edvel; o sector onde fez o recobro; a identifica\u00e7\u00e3o do enfermeiro respons\u00e1vel e os cuidados de alimenta\u00e7\u00e3o e de higiene que s\u00e3o registados na ficha clinica, para al\u00e9m dos de sa\u00fade que teriam justificado o internamento, e que nestes casos inexistiam). Isto para concluir que resulta de uma forma a nosso ver clara que aquelas pessoas n\u00e3o foram internadas de facto como dos seus registos de admiss\u00e3o e alta passou a constar. E se assim \u00e9 n\u00e3o poderia a arguida ordenar uma altera\u00e7\u00e3o administrativa desta realidade de facto como o fez sem qualquer margem para d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o aos pacientes documentados a fls.7, quando, ordenou que o seu processo origin\u00e1rio fosse anulado.<br \/>Em terceiro lugar h\u00e1 que atentar no depoimento da testemunha C\u2026, respons\u00e1vel pelo Gabinete de Codifica\u00e7\u00e3o do Hospital \u00e0 data dos factos e atualmente ainda, que por refer\u00eancia ao documento de fls.7 explicou de forma circunstanciada que na data que se mostra aposta no documento recebeu uma ordem verbal da arguida, esta na qualidade de Diretora da Gest\u00e3o dos Doentes e ele como funcion\u00e1rio administrativo, no sentido de emitir uma lista dos doentes intervencionados em cirurgia oftalmol\u00f3gica em regime de ambulat\u00f3rio entre os dias 1 de Setembro e 26 de Outubro de 2004, o que aquele observou de imediato, ap\u00f3s o que lhe ordenou que removesse cada um dos registos inform\u00e1ticos para que pudessem vir a ser registados como epis\u00f3dios de internamento.<br \/>Questionando a legitimidade da ordem que lhe estava a ser dada solicitou \u00e0 arguida, enquanto sua superiora hier\u00e1rquica, que apusesse o seu nome e a data a seguir \u00e0 ordem que estava a dar e que aquele (C\u2026) ap\u00f4s pelo seu punho antes daquela assinar (\u00abdesagrupar para transfer\u00eancia em internamento.\u00bb, \u00abRemover\u00bb e \u00abR.\u00bb).<br \/>A arguida n\u00e3o deu qualquer explica\u00e7\u00e3o (ou sequer tentou) para ter aposto a sua assinatura e data no referido documento, que reconhece ser sua (tal como as per\u00edcias efetuadas \u00e0 sua letra pelo LIC da PJ atestam) o que muito se estranha, ao contr\u00e1rio daquela testemunha que o fez e cuja vers\u00e3o dos factos surge como bastante cred\u00edvel e plaus\u00edvel \u00e0 luz do encadeado de toda a prova e da forma circunstanciada, distanciada e sincera como dep\u00f4s (discurso direto, nada emotivo, respondendo ao que sabia e n\u00e3o se pronunciando sobre o que n\u00e3o tinha conhecimento direto). Pois que de facto, e como se pode constatar dos depoimento ouvidos a respeito do \u00abexpurgo das listas de espera\u00bb que era mat\u00e9ria da responsabilidade funcional da arguida, os funcion\u00e1rios cl\u00ednicos e administrativos deviam e mostravam obedi\u00eancia \u00e0s ordens verbais emanadas nesta mat\u00e9ria pela arguida que, por sua vez, conhecedora dos poderes funcionais de que estava investida (na qualidade de gestora dos doentes) n\u00e3o se inibia de os exercer para levar a cabo aquela que considerava ser a sua miss\u00e3o (e que aqui n\u00e3o era sequer objeto da acusa\u00e7\u00e3o crime). Pelo que \u00e9 com naturalidade que se constata existir uma assun\u00e7\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o entre arguida e funcion\u00e1rios desta rela\u00e7\u00e3o hierarquizada (concretizada na afeta\u00e7\u00e3o das concretas fun\u00e7\u00f5es dos funcion\u00e1rios da Codifica\u00e7\u00e3o e de procedimentos internos a observar pelos administrativos no registo dos atos cl\u00ednicos e das pr\u00e1ticas a observar sobre esta mat\u00e9ria).<br \/>A n\u00e3o identifica\u00e7\u00e3o desta testemunha com a forma de trabalhar da arguida, como o pr\u00f3prio explicou, levou a que n\u00e3o mais procedesse a atos como aqueles que diz ter feito a respeito da lista documentada a fls.7 (sua elimina\u00e7\u00e3o), fun\u00e7\u00f5es que a arguida (re-) afetou \u00e0s suas outras duas colegas em especial \u00e1 J\u2026 que ficou incumbida dos expurgos da lista de espera, conforme esta confirmou no seu depoimento e a colega de ambos, L\u2026, o corroborou tamb\u00e9m.<br \/>Em quarto lugar a testemunha M\u2026 (amiga da arguida, assistente t\u00e9cnica desde h\u00e1 21 anos no Hospital do Baixo Vouga, EPE, e que no ano de 2004\/5 estava colocada nas especialidades cir\u00fargicas) referiu de forma circunstanciada e segura que a arguida em data que n\u00e3o se consegue recordar \u2013 mas enquanto aquela exerceu as fun\u00e7\u00f5es de Diretora de Gest\u00e3o de Doentes daquele Hospital - lhe ordenou verbalmente que todos os doentes de oftalmologia com indica\u00e7\u00e3o para cirurgia ambulat\u00f3ria passassem a ser registados como se de um internamento se tratasse.<br \/>Questionada a esse respeito a arguida refutou dizendo que a ordem era para cumprir. Comentou o sucedido com a testemunha C\u2026 que a aconselhou a tirar c\u00f3pia de todas as etiquetas\/situa\u00e7\u00f5es de falsos internamentos para se precaver e que se mostram documentados a fls.8 e ss., que esta confirmou em audi\u00eancia, explicando as altera\u00e7\u00f5es que teriam sido alvo por refer\u00eancia \u00e0s fichas de admiss\u00e3o e alta correspondentes existentes no apenso I e II.<br \/>Mais confessou ainda a testemunha que a ordem foi sendo por si executada sem nunca comunicar ao seu Diretor de Servi\u00e7os.<br \/>Explicou ainda que com a ordem dada sempre que o paciente faltava \u00e0 cirurgia, o que acontecia de vez em quando, obrigava ao anulamento inform\u00e1tico do registo do internamento em causa porque reportado sempre ao dia imediatamente anterior ao da cirurgia programada que por sua vez tamb\u00e9m n\u00e3o tinha lugar.<br \/>Seja como for em circunst\u00e2ncia alguma a arguida reconheceu ter dado tais ordens e acima de tudo algum funcion\u00e1rio \u2013 qui\u00e7\u00e1 temendo a sua pr\u00f3pria responsabilidade, o que se compreende \u2013 assumiu ter levado a cabo a necess\u00e1ria introdu\u00e7\u00e3o de um novo epis\u00f3dio do paciente no sistema E\u2026, mas desta feita no regime de internamento, sob indica\u00e7\u00e3o da arguida, o que seria necess\u00e1rio fazer para que o resultado da fatura\u00e7\u00e3o subsequente e o preju\u00edzo lhe viesse a ser imputado a t\u00edtulo de crime de burla.<br \/>A arguida n\u00e3o tinha, tanto quanto resultou do julgamento, acesso direto (password) \u00e0queles dois sistemas inform\u00e1ticos, pelo que seriam os funcion\u00e1rios da cirurgia, admiss\u00e3o de doentes, da codifica\u00e7\u00e3o e os inform\u00e1ticos a proceder aos necess\u00e1rios inputs e outputs.<br \/>Posto isto, e aqui chegados, for\u00e7oso ser\u00e1 concluir que os demais testemunhos ouvidos sobre esta mat\u00e9ria \u2013 quase todas as indicadas pela defesa - negaram ter conhecimento de eventuais desconformidades na fatura\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios cir\u00fargicos em linha de produ\u00e7\u00e3o hospitalar distintas internamento e ambulat\u00f3rio, nas especialidades cir\u00fargicas de Oftalmologia (catartas) e Ortopedia (t\u00fanel c\u00e1rpico) \u2013 aquelas aqui em causa \u2013 com base em diretrizes verbais da arguida, na qualidade de Diretora de Gest\u00e3o de Doentes, e na transforma\u00e7\u00e3o de cirurgias de ambulat\u00f3rio em cirurgias de internamento, n\u00e3o tiveram a virtualidade de infirmar aqueles depoimentos e demonstra\u00e7\u00f5es documentais em sentido diverso.<br \/>Em primeiro lugar estes depoimentos n\u00e3o descredibilizam a nosso ver, de modo algum, os depoimentos convergentes e cred\u00edveis das testemunhas C\u2026 e M\u2026 que afirmam ter recebido ordens nesse sentido (aquele de retirar aquela integra\u00e7\u00e3o de GDH do sistema \u2013 fls.7 e esta de passar a internar ficticiamente os pacientes oftalmol\u00f3gicos de v\u00e9spera \u00e0 cirurgia ambulat\u00f3ria) e cujos depoimentos tiveram integral respaldo no documento de fls.7, quanto \u00e0 primeira testemunha, e nos documentos de fls.8 a 45 quanto \u00e0 segunda testemunha entrecruzado com os demais documentos reunidos no Apenso I e II no que concerne \u00e0s interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas \u00e0s cataratas.<br \/>Em segundo lugar existem outros elementos corroboradores externos e isentos como seja o depoimento das testemunhas J\u2026, L\u2026 e N\u2026 que embora negando que alguma vez a arguida lhes tenha feito as solicita\u00e7\u00f5es que fez \u00e0quelas duas outras testemunhas, mostraram conhecer as ordens que aquelas receberam da parte da arguida, dadas na qualidade de Diretora da Gest\u00e3o de Doentes, por lhe haver sido contado, nem que n\u00e3o seja, por aquelas testemunhas, como as mesmas reconheceram em audi\u00eancia.<br \/>Em terceiro lugar e acima de tudo, os depoimentos assim valorados foram sujeitos a um confronto direto com os documentos coligidos nos autos, por um lado, e analisados de acordo com as pr\u00e1ticas hospitalares institu\u00eddas e com as regras da experi\u00eancia e uma per\u00edcia colegial (de dois \u2013 fls.776 e ss.) que tendo por base os elementos de prova e o enquadramento jur\u00eddico do sector de atividade em quest\u00e3o elencado nos 11 par\u00e1grafos do ponto 1 do relat\u00f3rio pericial, cujo teor dou aqui por integrado, conclu\u00edram \u2013 com grande \u00eanfase na especialidade m\u00e9dica oftalmol\u00f3gica \u2013 que dos 168 epis\u00f3dios descritos nas folhas 174 a 182 do processo, apenas em 2 situa\u00e7\u00f5es (epis\u00f3dio 5010924 e 5001991) dos 38 casos em que as pessoas afirmavam ter ficado internadas (13 pessoas) ou n\u00e3o se revelava poss\u00edvel confirmar o per\u00edodo de perman\u00eancia (25 pessoas) naquele hospital \u00e9 que as pessoas de facto estiveram internadas.<br \/>Isto porquanto os Srs. Peritos consultaram os processos cl\u00ednicos de cada um destes 168 pacientes e conclu\u00edram existir naqueles 38 casos desconformidades nos seus processos cl\u00ednicos porquanto invariavelmente a enfermaria apenas registava o dia da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica; a alta m\u00e9dica corresponde ao dia da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica e quando o dia da admiss\u00e3o e da alta n\u00e3o coincidem uma delas mostra-se rasurada e em desconformidade com a alta m\u00e9dica \u2013 vide quadro de fls.788 a 790.<br \/>Por outro lado, se bem que por amostragem, conclu\u00edram de igual forma os Srs. Peritos que existia integral converg\u00eancia entre os depoimentos dos pacientes (130 pessoas) que haviam declarado ter sido intervencionadas no mesmo dia em que sa\u00edram do Hospital de Aveiro e o registo de enfermagem respeitante aos internamentos e alta clinica.<br \/>Nesta decorr\u00eancia parece-nos que come\u00e7ando pelo fim resultam demonstrados todos os elementos objetivos e subjetivos do crime de falsidade inform\u00e1tica agravada de que a arguida vem incursa, porquanto atua\u00e7\u00e3o que vem sendo descrita foi a causa direta e necess\u00e1ria de enganos nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas ao fazer introduzir, modificar, apagar e suprimir dados do programa inform\u00e1tico em uso naquele Hospital, com recurso a funcion\u00e1rios que lhe deviam obedi\u00eancia, interferindo no tratamento inform\u00e1tico de dados, quando bem sabia que esses dados ou programas serviam como meio de prova, de tal modo que a sua visualiza\u00e7\u00e3o produzia os mesmos efeitos de um documento falsificado.<br \/>Isto sem que naqueles apontados 166 casos, pelo menos, se possa dizer que tenha agido ao abrigo de qualquer causa de exclus\u00e3o da ilicitude ou da sua culpa.<br \/>Mas ter\u00e1 ainda assim a arguida atuada com o prop\u00f3sito concretizado de induzir em erro os v\u00e1rios respons\u00e1veis pelo pagamento dos servi\u00e7os prestados naquele Hospital e naquelas duas especialidades, pelo menos, e obter desta forma um enriquecimento ileg\u00edtimo no montante da diferen\u00e7a do pre\u00e7o contratado ou tabelado entre a cirurgia ambulat\u00f3ria e em regime de internamento que transmudou?<br \/>Quanto a este prop\u00f3sito s\u00e3o s\u00e9rias as nossas reservas do ponto de vista objetivo e at\u00e9 ao n\u00edvel do elemento subjetivo do tipo de crime aqui em causa.<br \/>Quanto ao primeiro elemento temos que a ast\u00facia que a acusa\u00e7\u00e3o imputa \u00e0 arguida e a que nos temos vindo a referir anteriormente, apesar de id\u00f3nea em termos abstratos a induzir em erro o sector da fatura\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, S.A., e consequentemente os respons\u00e1veis pelo pagamento dos servi\u00e7os prestados, no confronto com a fatura\u00e7\u00e3o, mat\u00e9ria com a qual os alegados lesados teriam tido direto contacto, n\u00e3o nos parece t\u00e3o linear.<br \/>Tendo por premissa base o valor da produ\u00e7\u00e3o contratada e consequente remunera\u00e7\u00e3o nos anos de 2004 e 2005 (vide anexo I de fls.960 e anexo I de fls.1001) temos que naquele primeiro ano o pre\u00e7o de refer\u00eancia da cirurgia era o mesmo (1849,10 \u20ac); o n\u00famero de interven\u00e7\u00f5es contratadas para esse ano em regime de ambulat\u00f3rio (1.179) e de internamento (14.683) diverso, tal como o respetivo coeficiente multiplicador (case-mix = ICM) que era naquele primeiro caso de 0,5781 e no segundo de 0,8924; enquanto no segundo ano se manteve o valor de refer\u00eancia da cirurgia; o n\u00famero de interven\u00e7\u00f5es contratadas passou respetivamente de 923 e 3.693 cirurgias e uma produ\u00e7\u00e3o adicional de 151 cirurgias, a um ICM de 0,7171 e 1,2563.<br \/>Tal forma de c\u00e1lculo teve plena tradu\u00e7\u00e3o nas faturas de fls.182 a 199 emitidas entre 2004 e 2006, pelo que a \u00fanica quest\u00e3o seria a de em primeiro lugar demonstrar que os 166 casos a que se refere a acusa\u00e7\u00e3o foram efetivamente faturados nos termos que dela constam e em segundo lugar e em caso de resposta positiva demonstrar o pagamento indevido por parte dos respons\u00e1veis civis na justa medida da diferen\u00e7a entre aqueles dois ICM.<br \/>Quanto \u00e0 primeira quest\u00e3o fez-se prova documental em como aqueles 166 caso foram faturados aos respetivos respons\u00e1veis pelo pagamento das interven\u00e7\u00f5es como consta na acusa\u00e7\u00e3o e decorre do devido cruzamento entre as faturas documentadas a fls.3 do Apenso I e as pessoas mencionadas a fls.7 e as vinhetas constantes de fls.8 e ss. do apenso I e II.<br \/>Mas j\u00e1 n\u00e3o decorre comprovado em termos documentais que os alegados lesados tenham liquidado efetivamente tais faturas e em particular as daqueles 166 casos ou sequer que os relat\u00f3rios de presta\u00e7\u00e3o e contas respeitante aos anos 2004 e 2005 sejam uma prova cabal da liquida\u00e7\u00e3o desses cr\u00e9ditos.<br \/>Antes pelo contr\u00e1rio as reservas apostas pelo ROC naqueles anos apontam para a exist\u00eancia de cr\u00e9ditos por parte do Hospital junto de outras entidades nomeadamente p\u00fablicas que n\u00e3o se mostram liquidadas ou sequer confirmaram possuir sobre o Hospital tais d\u00e9bitos.<br \/>A isso se referiram nos seus depoimentos as duas testemunhas ouvidas a t\u00edtulo de ex-presidentes do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, S.A., a saber, D\u2026 e I\u2026.<br \/>N\u00e3o se pode assim afirmar, para al\u00e9m de qualquer d\u00favida razo\u00e1vel, que tenha existido um efetivo preju\u00edzo dos alegados ofendidos, descontado o proveito que tenha ainda assim obtido pelos servi\u00e7os concretamente prestados.<br \/>Mais concretamente a respeito do SNS chega a falara-se de um encontro ou consolida\u00e7\u00e3o de contas pelo valor de x, de que forma foi apurada e o que \u00e9 que abrange, n\u00e3o foi poss\u00edvel a este tribunal descortinar e seria necess\u00e1rio faz\u00ea-lo com acuidade para que se pudesse dar como demonstrado o preju\u00edzo.<br \/>De outro prisma tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 de todo invi\u00e1vel uma vis\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o da arguida no sentido da mesma ter sido movida na sua atua\u00e7\u00e3o pelo ensejo de ser bem-sucedida na sua miss\u00e3o\/fun\u00e7\u00e3o e de combater desta forma as listas de espera de cirurgia sem que tenha sido sua inten\u00e7\u00e3o \u2013 e estamos perante um crime doloso \u2013 prejudicar financeiramente terceiros em detrimento do Hospital.<br \/>Porque a ser assim, como defende a acusa\u00e7\u00e3o, os benef\u00edcios diretos iriam todos para uma hipot\u00e9tica \u00abgest\u00e3o menos \u00e9tica\u00bb assente numa \u00abengenharia financeira\u00bb que seria conivente, no m\u00ednimo, com o falsear da produ\u00e7\u00e3o hospitalar cir\u00fargica com vista a colher maiores dividendos, mas que teria de estar disseminada por outros sectores hospitalares e envolver toda uma rede mais vasta de funcion\u00e1rios e m\u00e9dicos do que a tese da acusa\u00e7\u00e3o centrada apenas na aqui arguida deixa evidenciar.<br \/>Nem constat\u00e1mos qualquer ind\u00edcio que assim tenha acontecido, conv\u00e9m frisar.<br \/>Por todas estas raz\u00f5es n\u00e3o est\u00e1 demonstrado que tenha havido de facto um concreto preju\u00edzo para o SNS, na justa medida da apontada diferen\u00e7a de pre\u00e7os, e para os demais subsistemas de sa\u00fade aqui em causa, para que a arguida se tenha comprometido com o crime de burla que se mostra incursa, nem que esta, ainda assim, e no que resulta provado, tenha agido com a vontade concretizada de se aproveitar das fragilidades do sistema inform\u00e1tico a que n\u00e3o tinha acesso para desta forma falsear a contabilidade interna do hospital que subjaz \u00e0 fatura\u00e7\u00e3o e assim prejudicar patrimonialmente aquelas entidades.<br \/>Raz\u00f5es pelas quais foram consignados como n\u00e3o provados os factos constantes do ponto 2.2.<br \/>No que concerne aos factos pessoais respeitantes \u00e0 arguida os mesmos foram dados como provados com base nas suas pr\u00f3prias declara\u00e7\u00f5es que \u00e0 m\u00edngua de outros meios de prova que as infirmassem foram a nosso ver julgados cred\u00edveis porque consent\u00e2neos com o enquadramento social, profissional e familiar.<br \/>Para al\u00e9m disso foram ainda valoradas as declara\u00e7\u00f5es que a este prop\u00f3sito e no mesmo sentido prestaram as testemunhas I\u2026, T\u2026, U\u2026, F\u2026, P\u2026, H\u2026, Q\u2026, G\u2026 e O\u2026.<br \/>A respeito dos factos em apre\u00e7o e narrados na acusa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, com as exce\u00e7\u00f5es que pontualmente se indicaram, estas testemunhas revelaram n\u00e3o ter conhecimento direto dos factos em discuss\u00e3o e como n\u00e3o infirmaram ou confirmaram o que quer que fosse, n\u00e3o obstante, aqui e ali, ser evidente a vasta experi\u00eancia profissional no sector da atividade hospitalar mas que em momento algum fragilizou os depoimentos de C\u2026 e de M\u2026 ou sequer abalou de forma avalisada o teor da per\u00edcia colegial aos sistemas inform\u00e1ticos em uso \u00e0 data e que consentiam, em suma, a manipula\u00e7\u00e3o de dados nos termos dados por assentes.<br \/>O mesmo acontecendo quanto ao abono das caracter\u00edsticas pessoais e profissionais da arguida.<br \/>Quanto aos seus antecedentes criminais o seu CRC documentado nos autos.\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong><u>Aprecia\u00e7\u00e3o<\/u><\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">De harmonia com o disposto no art.417.\u00ba n.\u00ba2 do C.P.Penal, o \u00e2mbito do recurso est\u00e1 delimitado pelo teor das respetivas conclus\u00f5es, as quais devem sintetizar as raz\u00f5es do pedido, sem preju\u00edzo do tribunal ad quem apreciar as quest\u00f5es de conhecimento oficioso, como s\u00e3o os v\u00edcios da senten\u00e7a previstos no art.40.\u00ba n.\u00ba2 do C.P.Penal.<br \/>No caso vertente, face \u00e0s conclus\u00f5es apresentadas, que pecam pela falta de sintetiza\u00e7\u00e3o, afigura-se-nos que as quest\u00f5es trazidas \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o deste tribunal s\u00e3o as seguintes:<br \/>- erro de julgamento dos factos provados sob os pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 por desconformidade com a prova documental;<br \/>- contradi\u00e7\u00e3o entre os pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 e os factos n\u00e3o provados sob os pontos 2.2.1, 2.2.5 e 2.2.6.<br \/>- erro de julgamento dos factos provados sob os pontos 2.1.8, 2.110, 2.1.11, 2.1.12, 2.1.14, 2.1.15, atentas as declara\u00e7\u00f5es da arguida e das testemunhas F\u2026, G\u2026 e H\u2026.<br \/>- car\u00e1ter instrumental do crime de falsidade inform\u00e1tica face ao crime de burla, pelo que a absolvi\u00e7\u00e3o quanto a este imp\u00f5e a absolvi\u00e7\u00e3o quanto \u00e0quele.<br \/>- n\u00e3o preenchimento do crime de falsidade inform\u00e1tica.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><u>1\u00aaquest\u00e3o: erro de julgamento dos factos provados sob os pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 face \u00e0 prova documental<\/u><br \/>Na tese recursiva, os factos dados como provados sob os pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 devem integrar a factualidade dada como n\u00e3o provada face \u00e0 exist\u00eancia das faturas emitidas pelo Hospital de Aveiro durante os anos de 2004 e 2005 ao IGIF e pagas por este, assim como ao teor do contrato programa que estabelece que o valor unit\u00e1rio pago por cada cirurgia, quer seja em ambulat\u00f3rio, quer seja em internamento, \u00e9 igual. Ou seja, a quest\u00e3o das cirurgias serem feitas em ambulat\u00f3rio ou mediante internamento \u00e9 uma quest\u00e3o interna do hospital, para fins meramente estat\u00edsticos, sem efeito na rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica subjacente. Por outro lado, o documento de fls.7 apresenta contradi\u00e7\u00f5es que o tribunal n\u00e3o relevou, uma vez que est\u00e1 datado de 26\/10\/2004 e as cirurgias realizadas em Setembro a\u00ed mencionadas, j\u00e1 haviam sido faturadas, pois, de acordo com o contrato programa, as faturas t\u00eam de ser enviadas at\u00e9 ao dia 20 do m\u00eas seguinte \u00e0quele em que foram prestados os servi\u00e7os.<br \/>N\u00e3o assiste raz\u00e3o \u00e0 recorrente. Vejamos.<br \/>Refere o relat\u00f3rio pericial, de fls.776 e ss., que \u00abo pre\u00e7o \u00e9 ajustado pela estrutura, grupo hospitalar a que o hospital pertence (est\u00e3o definidos 4 grandes grupos) e pela casu\u00edstica\u00a0<strong>vezes<\/strong>\u00a0a quantidade contratada. O ajustamento do pre\u00e7o pela complexidade aplica-se exclusivamente \u00e0s linhas de produ\u00e7\u00e3o, internamento, cirurgia de ambulat\u00f3rio e consulta externa\u00bb, constituindo vari\u00e1veis de remunera\u00e7\u00e3o: a vari\u00e1vel de medida (n\u00famero de doentes), a quantidade contratada e o \u00edndice de case-mix [coeficiente global de pondera\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o que reflete a relatividade de um hospital face a outros, definindo-se como a ratio entre o n\u00famero de doentes da cada grupo de diagn\u00f3stico homog\u00e9neo (GDH)]. Os GDH das cirurgias de internamento e de cirurgias em ambulat\u00f3rio s\u00e3o diversos<br \/>Embora nos anos de 2004\/2005 o valor de refer\u00eancia de cirurgia, em ambulat\u00f3rio ou em internamente, fosse o mesmo, o coeficiente multiplicador (case-mix) era diferente \u2013 em 2004, 0,5781 para o ambulat\u00f3rio e 0,8924 para o internamento e no ano de 2005, 0,7171 para o ambulat\u00f3rio e 1,2563 para o internamento -, pelo que o valor a pagar ao hospital por cada uma das cirurgias realizadas n\u00e3o era equivalente.<br \/>Ali\u00e1s, isto mesmo consta da cl\u00e1usula 19 do contrato programa e do seu Anexo I [fls.960], em que o case-mix \u00e9 diferente consoante se trate de cirurgia em ambulat\u00f3rio ou com internamento, pelo que, n\u00e3o obstante o valor de refer\u00eancia da cirurgia seja o mesmo, o valor a pagar ao hospital por cada cirurgia \u00e9 necessariamente diverso.<br \/>Acresce que a recorrente pretende extrair da data do documento de fls. 7 - 26\/10\/2004 - uma consequ\u00eancia que n\u00e3o se imp\u00f5e: na tese recursiva, a altera\u00e7\u00e3o da men\u00e7\u00e3o de cirurgias realizadas em ambulat\u00f3rio para cirurgias com internamento, a ter sido ordenada pela arguida, facto que esta nega, s\u00f3 poderia relevar para efeitos estat\u00edsticos, pois as cirurgias j\u00e1 tinham sido faturadas considerando que as faturas t\u00eam de ser enviadas at\u00e9 ao dia 20 do m\u00eas seguinte aquele a que se reportam face ao contrato programa. Se \u00e9 certo que em tal documento constam cirurgias realizadas em Setembro, a maioria das mencionadas no documento foram efetuadas em Outubro, pelo que ainda n\u00e3o tinham sido faturadas e como tal, a altera\u00e7\u00e3o a que a testemunha C\u2026 se referiu como ordenada pela arguida, teve consequ\u00eancias quer a n\u00edvel estat\u00edstico quer contabil\u00edstico.<br \/>Nesta conformidade, bem andou o tribunal a quo ao dar como provados os factos constantes dos pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22.<br \/>Improcede, assim, este fundamento do recurso.<br \/><u>2\u00aaquest\u00e3o: contradi\u00e7\u00e3o entre os pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 e os factos n\u00e3o provados sob os pontos 2.2.1, 2.2.5 e 2.2.6.<\/u><br \/>Invoca a recorrente que h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre os factos provados contantes dos pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 e os factos n\u00e3o provados dos pontos 2.2.1 e 2.2.5 e 2.2.6<br \/>Os pontos 2.1.20, 2.1.21 e 2.1.22 t\u00eam a seguinte reda\u00e7\u00e3o:<br \/>\u00ab2.1.20. Relativamente ao ano de 2004, foram faturados pelo Hospital \u2026, S.A. ao SNS 41 (quarenta e um) internamentos cir\u00fargicos pelo valor global de 67.655,61 \u20ac, quando se tivessem sido faturados como cirurgias ambulat\u00f3rias que foram o valor seria de 43.827,55 \u20ac; e ao subsistema ADSE 2 (duas) cirurgias de cataratas, em regime de internamento, pelo valor global de 3.461,30 \u20ac, quando se tivessem sido faturadas como cirurgias de ambulat\u00f3rio que foram o valor seria de apenas 1.711,26 \u20ac.<br \/>2.1.21. Relativamente ao ano de 2005, foram faturados pelo Hospital \u2026, S.A. ao SNS 115 (cento e quinze) internamentos cir\u00fargicos pelo valor global de 267.147,80 \u20ac, quando se tivessem sido faturados como cirurgias ambulat\u00f3rias que foram o valor seria de 152.488.81 \u20ac; e ao subsistema ADSE 6 (seis) cirurgias das quais 1 (uma) ao t\u00fanel c\u00e1rpico e as demais \u00e0s cataratas, todas elas em regime de internamento, pelo valor global de 9.840,63 \u20ac, quando se tivessem sido faturadas como cirurgias de ambulat\u00f3rio que foram o valor seria de 5.114,81 \u20ac.<br \/>2.1.22. Nesse mesmo ano, foi faturado pelo Hospital \u2026, S.A. ao subsistema de sa\u00fade ADMG 1 (uma) cirurgia de cataratas, em regime de internamento, pelo valor de 1.730,65 \u20ac, quando se tivesse sido faturado como cirurgia em ambulat\u00f3rio que foi o valor seria apenas de 855,63 \u20ac.\u00bb<br \/>E os factos n\u00e3o provados supra mencionados t\u00eam o seguinte teor:<br \/>\u00ab2.2.1. Em data n\u00e3o concretamente apurada do m\u00eas de Outubro de 2004, a arguida tenha formulado o prop\u00f3sito concretizado de converter para efeitos administrativos as interven\u00e7\u00f5es realizadas no Hospital \u2026, S.A., em regime ambulat\u00f3rio em interven\u00e7\u00f5es com Internamento com vista apenas a vir a faturar ao SNS e aos subsistemas de sa\u00fade ADSE e ADMG um pre\u00e7o mais elevado que o devido e obter por esta via e para aquela unidade Hospitalar proveitos econ\u00f3micos que sabia serem ileg\u00edtimos.<br \/>2.2.5. A arguida tenha atuado em todas as circunst\u00e2ncias dadas como provadas com o prop\u00f3sito concretizado de obter para o Hospital um enriquecimento ileg\u00edtimo no valor global de 145.837,93 \u20ac, correspondente a um empobrecimento do SNS e dos subsistemas de sa\u00fade ADSE e ADMG, respetivamente, em id\u00eantico valor globalmente considerado, pela orientada manipula\u00e7\u00e3o dos epis\u00f3dios que subjazem a cada fatura imputada ao respetivo respons\u00e1vel civil.<br \/>2.2.6. Levando aquele Servi\u00e7o e subsistemas de sa\u00fade, iludidos com a encena\u00e7\u00e3o por si realizada e convictos da autenticidade dos dados constantes do sistema inform\u00e1tico, a pagar aqueles epis\u00f3dios como cirurgias de internamento, a fim de obter para o Hospital Infante D. Pedro, S.A., um enriquecimento que sabia ileg\u00edtimo e correspondente ao diferencial do valor existente entre os dois tipos de cirurgia e \u00e1 custa do correspondente preju\u00edzo patrimonial daquelas entidades.\u00bb<br \/>Como bem refere a Exma. Magistrada do Minist\u00e9rio P\u00fablico junto desta 2\u00aainst\u00e2ncia a referida factualidade dada como provada reporta-se \u00e0 fatura\u00e7\u00e3o do Hospital \u2026, S.A enquanto o ponto 2.2.1 dos factos n\u00e3o provados refere-se \u00e0 inten\u00e7\u00e3o da arguida quando ordenou a realiza\u00e7\u00e3o dos procedimentos descritos no facto provado sob o n.\u00ba2.1.14, enquanto o ponto 2.2.5 dos factos n\u00e3o provados reporta-se \u00e0 circunst\u00e2ncia do SNS, a ADSE e a ADMG terem confiado que os valores faturados correspondiam \u00e0 linha de produ\u00e7\u00e3o efetivamente levada a cabo pelo hospital e o ponto 2.2.6 refere-se ao facto da arguida ter levado o SNS e subsistemas de sa\u00fade a pagar aqueles epis\u00f3dios como cirurgias de internamento, com o intuito de obter para o Hospital \u2026, S.A., um enriquecimento que sabia ileg\u00edtimo e correspondente ao diferencial do valor existente entre os dois tipos de cirurgia e \u00e1 custa do correspondente preju\u00edzo patrimonial daquelas entidades. Ou seja, o facto dado como provado e os factos n\u00e3o provados em quest\u00e3o versam sobre realidades distintas, pelo que n\u00e3o podem ser contradit\u00f3rios entre si.<br \/>So\u00e7obra, por isso, este fundamento do recurso.<br \/><u>3\u00aaquest\u00e3o: - erro de julgamento dos factos provados sob os pontos 2.1.8, 2.110, 2.1.11, 2.1.12, 2.1.14, 2.1.15, atentas as declara\u00e7\u00f5es da arguida e das testemunhas F\u2026, G\u2026 e H\u2026.<\/u><br \/>Tendo sido documentadas, mediante grava\u00e7\u00e3o, as declara\u00e7\u00f5es prestadas em audi\u00eancia de julgamento, este tribunal de recurso pode conhecer amplamente da decis\u00e3o de facto, desde que se mostre cumprido o disposto no art.412.\u00ba n.\u00bas 3 e 4 do C.P.Penal<br \/>Disp\u00f5e o art.412.\u00ba n.\u00ba3 do C.P.Penal \u00abquando impugne a decis\u00e3o proferida sobre mat\u00e9ria de facto, o recorrente deve especificar:<br \/>a) Os concretos pontos de facto que considera incorretamente provados;<br \/>b) As concretas provas que imp\u00f5em decis\u00e3o diversa da recorrida;<br \/>c) As provas que devem ser renovadas.\u00bb<br \/>E o n.\u00ba4 do mesmo dispositivo estabelece \u00abQuando as provas tenham sido gravadas, as especifica\u00e7\u00f5es previstas nas al\u00edneas b) e c) do n\u00famero anterior fazem-se por refer\u00eancia ao consignado na ata, nos termos do disposto no n.\u00ba2 do art.364.\u00ba,\u00a0<u>devendo o recorrente indicar concretamente as passagens em que se funda a impugna\u00e7\u00e3o<\/u>.\u201d<br \/>A prop\u00f3sito da impugna\u00e7\u00e3o ampla da mat\u00e9ria de facto, cabe real\u00e7ar que o recurso de facto para a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um novo julgamento em que a 2\u00aainst\u00e2ncia aprecia toda a prova produzida em 1\u00aainst\u00e2ncia, como se o julgamento ali realizado n\u00e3o existisse; ao inv\u00e9s, os recursos, em mat\u00e9ria de facto, s\u00e3o rem\u00e9dios jur\u00eddicos destinados a colmatar erros de julgamento, os quais devem ser indicados com men\u00e7\u00e3o das provas que os evidenciam.<br \/>Note-se que o art.412.\u00ba n.\u00ba3 al.b) do C.P.Penal refere \u00abAs provas que imp\u00f5em decis\u00e3o diversa da recorrida\u00bb e n\u00e3o as que permitiriam uma decis\u00e3o diversa. H\u00e1 casos em que, face \u00e0 prova produzida, as regras da experi\u00eancia comum permitem mais do que uma solu\u00e7\u00e3o. Se a decis\u00e3o do julgador, devidamente fundamentada, for uma das solu\u00e7\u00f5es plaus\u00edveis, ela \u00e9 inatac\u00e1vel pois foi proferida de acordo com o princ\u00edpio da livre aprecia\u00e7\u00e3o \u2013 art.127.\u00ba do C.P.Penal. A garantia do duplo grau de jurisdi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto n\u00e3o subverte este princ\u00edpio que est\u00e1 deferido ao tribunal da primeira inst\u00e2ncia, o qual beneficia da imedia\u00e7\u00e3o e da oralidade, sendo que na forma\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o do julgador n\u00e3o interv\u00eam apenas elementos racionalmente demonstr\u00e1veis, mas tamb\u00e9m fatores n\u00e3o materializados e que s\u00e3o impercet\u00edveis na grava\u00e7\u00e3o de um depoimento, como a linguagem gestual.<br \/>Tendo presente o que acabou de se referir, a impugna\u00e7\u00e3o apresentada pela recorrente n\u00e3o colhe. Vejamos.<br \/>A recorrente impugna o facto dado como provado sob o ponto 2.1.8, com fundamento num excerto das declara\u00e7\u00f5es da arguida, em que a mesma afirma que, como diretora de gest\u00e3o dos doentes, lhe cabia essencialmente facilitar e interligar a parte clinica \u00e0 parte administrativa para que todos os atos praticados fossem devidamente registados.<br \/>Esta afirma\u00e7\u00e3o em nada contende com o facto dado como provado sob o ponto 2.1.8, cujo teor \u00e9 o seguinte: \u00abEstando aqueles [funcion\u00e1rios C\u2026, J\u2026, K\u2026, L\u2026, M\u2026 e N\u2026 \u2013 entre par\u00eantesis nosso] no aludido per\u00edodo hierarquicamente subordinados \u00e0 arguida\u00bb.<br \/>Na verdade, atentando na fundamenta\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto da senten\u00e7a relativamente a este ponto, refere a mesma \u00abQuanto ao \u00e2mbito funcional de cada um daqueles funcion\u00e1rios e sua interliga\u00e7\u00e3o com os sistemas inform\u00e1ticos em uso naquele Hospital \u00e0 data dos factos decorre do depoimento que cada um deles prestou a este respeito, sem que resultem quaisquer incongru\u00eancias sobre esta mat\u00e9ria em respaldo com o relat\u00f3rio pericial realizado ao sistema inform\u00e1tico em uso naquele Hospital e esclarecimentos complementares de documentados nos autos (art.163.\u00ba do CPP). Raz\u00e3o pela qual se deu como provado o facto vertido em 2.1.8..\u00bb.<br \/>A decis\u00e3o recorrida ao dar como provado esta factualidade baseou a sua convic\u00e7\u00e3o nos depoimentos das aludidas testemunhas e n\u00e3o nas declara\u00e7\u00f5es da arguida, sendo que o tribunal n\u00e3o tem de dar como provado um facto s\u00f3 por que a arguida apresentou uma determinada vers\u00e3o, cabendo-lhe dilucidar nas declara\u00e7\u00f5es e depoimentos prestados o que merece credibilidade.<br \/>N\u00e3o pode a recorrente pretender que este tribunal ad quem proceda a um novo julgamento e forme a sua convic\u00e7\u00e3o com base em outros depoimentos que n\u00e3o serviram para a convic\u00e7\u00e3o do tribunal recorrido quanto ao aspeto concreto em discuss\u00e3o.<br \/>A recorrente impugna ainda os factos dados como provados sob os pontos 2.1.10, 2.1.11, 2.1.12, 2.1.14 e 2.1.15., com fundamento nas declara\u00e7\u00f5es da arguida e nos depoimentos das testemunhas F\u2026, G\u2026 e H\u2026, insurgindo-se contra o facto da sua vers\u00e3o ter sido desvalorizada pelo tribunal, a qual, na sua opini\u00e3o, \u00e9 l\u00f3gica, cred\u00edvel e corroborada pelo depoimento de algumas testemunhas. Para tanto transcreve segmentos das suas declara\u00e7\u00f5es e dos depoimentos das testemunhas F\u2026, G\u2026 e H\u2026. Acresce que quanto \u00e0 testemunha M\u2026, a recorrente sustenta que o seu depoimento revelou falta de convic\u00e7\u00e3o, certeza e assertividade ao que lhe estava a seu perguntado.<br \/>No caso presente, a recorrente n\u00e3o aponta erros de julgamento, questionando antes a aprecia\u00e7\u00e3o da prova feita pelo tribunal recorrido, contrapondo a sua pr\u00f3pria aprecia\u00e7\u00e3o da prova produzida, o que \u00e9 in\u00f3cuo em termos de impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto em sede de recurso.<br \/>\u00abA censura quanto \u00e0 forma de forma\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o do Tribunal n\u00e3o pode (\u2026) assentar de forma simplista no ataque da fase final da forma\u00e7\u00e3o dessa convic\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, na valora\u00e7\u00e3o da prova; tal censura ter\u00e1 de assentar na viola\u00e7\u00e3o de qualquer dos passos para a forma\u00e7\u00e3o de tal convic\u00e7\u00e3o, designadamente porque n\u00e3o existem os dados objetivos que se apontam na motiva\u00e7\u00e3o ou porque se violaram os princ\u00edpios para a aquisi\u00e7\u00e3o desses dados objetivos ou porque n\u00e3o houve liberdade na forma\u00e7\u00e3o da convic\u00e7\u00e3o.<br \/>Doutra forma, seria uma invers\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o dos personagens do processo, como seja a de substituir a convic\u00e7\u00e3o de quem tem de julgar, pela convic\u00e7\u00e3o dos que esperam a decis\u00e3o\u00bb \u2013 Ac. do Tribunal Constitucional n.\u00ba 184\/2004, de 24\/11\/2004, dispon\u00edvel in\u00a0<u>www.tribunalconstitucional.pt.<\/u><br \/>Atentando na exaustiva fundamenta\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto est\u00e1 devidamente explicitado o racioc\u00ednio percorrido pelo tribunal na forma\u00e7\u00e3o da sua convic\u00e7\u00e3o, esclarecendo as raz\u00f5es pelas quais a vers\u00e3o da arguida, negando os factos, n\u00e3o se mostrou cred\u00edvel, analisando as incoer\u00eancias da sua vers\u00e3o em si mesma, assim como conjugando-a com a per\u00edcia. Por outro lado, na fundamenta\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o recorrida h\u00e1 uma aprecia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos depoimentos das testemunhas e sua conjuga\u00e7\u00e3o com os documentos juntos aos autos. De real\u00e7ar ainda que os depoimentos das testemunhas F\u2026, G\u2026 e H\u2026, testemunhas de defesa, que negaram ter conhecimento de desconformidades na fatura\u00e7\u00e3o das cirurgias, n\u00e3o foram relevantes para o tribunal face \u00e0 prova documental junta aos autos e \u00e0 demais prova testemunhal produzida, sendo que o tribunal a quo explicou as raz\u00f5es para assim concluir, conclus\u00e3o que se mostra coerente e de acordo com as regras da normalidade.<br \/>E n\u00e3o tem fundamento invocar, como faz a recorrente, a viola\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio in d\u00fabio pro reo.<br \/>Este princ\u00edpio, enquanto corol\u00e1rio do princ\u00edpio da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia consagrado no art.32.\u00ba n.\u00ba2 da CRP, implica que n\u00e3o possam considerar-se como provados os factos que, apesar da prova produzida, n\u00e3o possam ser subtra\u00eddos \u00e0 \u00abd\u00favida razo\u00e1vel\u00bb do tribunal [Figueiredo Dias, in Direito Processual Penal, p\u00e1g. 213]. A viola\u00e7\u00e3o deste princ\u00edpio s\u00f3 ocorre assim quando do texto da decis\u00e3o recorrida decorrer que o tribunal ficou na d\u00favida em rela\u00e7\u00e3o a qualquer facto e,\u00a0<u>nesse estado de d\u00favida<\/u>, decidiu contra o arguido.<u>\u00a0A d\u00favida \u00e9 a d\u00favida que o tribunal teve, n\u00e3o a d\u00favida que o recorrente acha que o tribunal deveria ter tido.<\/u><br \/>No caso dos autos, a fundamenta\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o impugnada n\u00e3o revela qualquer d\u00favida do tribunal a quo quanto aos factos explicando, com coer\u00eancia e segundo um racioc\u00ednio l\u00f3gico, como formou a sua convic\u00e7\u00e3o.<br \/>Pelo exposto, improcede a impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto.<br \/><u>4\u00aaquest\u00e3o: -car\u00e1ter instrumental do crime de falsidade inform\u00e1tica face ao crime de burla, pelo que a absolvi\u00e7\u00e3o quanto a este imp\u00f5e a absolvi\u00e7\u00e3o quanto \u00e0quele.<\/u><br \/>A Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, prevista originariamente pela Lei 109\/91, de 17\/2, posteriormente alterada pelo DL 323\/01, de 14\/12, na reda\u00e7\u00e3o em vigor aquando dos factos, disp\u00f5e no seu art.4.\u00ba:<br \/>\u00ab1- Quem, com inten\u00e7\u00e3o de provocar engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, introduzir, modificar, apagar ou suprimir dados ou programas inform\u00e1ticos ou, por qualquer outra forma, interferir num tratamento inform\u00e1tico de dados, quando esses dados ou programas sejam suscet\u00edveis de servirem como meio de prova, de tal modo que a sua visualiza\u00e7\u00e3o produza os mesmos efeitos de um documento falsificado, ou, bem assim, os utilize para os fins descritos, ser\u00e1 punido com pena de pris\u00e3o at\u00e9 cinco anos ou multa de 120 a 600 dias.<br \/>2- (\u2026)<br \/>3- Se os factos referidos nos n\u00fameros anteriores forem praticados por funcion\u00e1rio no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es, a pena \u00e9 de pris\u00e3o de um a cinco anos.\u00bb<br \/>A Lei 109\/2009, de 15\/2, aprova a Lei do Cibercrime e no seu art.31.\u00ba veio revogar a Lei 109\/91, de 17\/2.<br \/>O art.3.\u00ba da Lei do Cibercrime, prev\u00ea o crime de falsidade inform\u00e1tica, estatuindo:<br \/>\u00ab1 - Quem, com inten\u00e7\u00e3o de provocar engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas, introduzir, modificar, apagar ou suprimir dados inform\u00e1ticos ou por qualquer outra forma interferir num tratamento inform\u00e1tico de dados, produzindo dados ou documentos n\u00e3o genu\u00ednos, com a inten\u00e7\u00e3o de que estes sejam considerados ou utilizados para finalidades juridicamente relevantes como se o fossem, \u00e9 punido com pena de pris\u00e3o at\u00e9 5 anos ou multa de 120 a 600 dias.<br \/>2 \u2013 (\u2026).<br \/>3 - Quem, atuando com inten\u00e7\u00e3o de causar preju\u00edzo a outrem ou de obter um benef\u00edcio ileg\u00edtimo, para si ou para terceiro, usar documento produzido a partir de dados inform\u00e1ticos que foram objeto dos atos referidos no n.\u00ba 1 ou cart\u00e3o ou outro dispositivo no qual se encontrem registados ou incorporados os dados objeto dos atos referidos no n\u00famero anterior, \u00e9 punido com as penas previstas num e noutro n\u00famero, respectivamente.<br \/>4 \u2013(\u2026).<br \/>5 - Se os factos referidos nos n\u00fameros anteriores forem praticados por funcion\u00e1rio no exerc\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es, a pena \u00e9 de pris\u00e3o de 2 a 5 anos.\u00bb<br \/>A Lei do Cibercrime disp\u00f5e que os \u00abdados inform\u00e1ticos\u00bb, na defini\u00e7\u00e3o da al\u00ednea b) do art. 2.\u00ba, s\u00e3o toda e qualquer representa\u00e7\u00e3o de factos, informa\u00e7\u00f5es ou conceitos sob uma forma suscet\u00edvel de processamento num sistema inform\u00e1tico, incluindo os programas aptos a fazerem um sistema inform\u00e1tico executar uma fun\u00e7\u00e3o.<br \/>Sustenta a recorrente que sendo o crime de burla inform\u00e1tica instrumental em rela\u00e7\u00e3o ao crime de burla, tendo sido absolvida deste, impunha-se tamb\u00e9m a sua absolvi\u00e7\u00e3o quanto \u00e0quele.<br \/>No crime de falsidade inform\u00e1tica o bem jur\u00eddico tutelado \u00e9 a seguran\u00e7a do tr\u00e1fico jur\u00eddico probat\u00f3rio, enquanto no crime de burla, o bem jur\u00eddico \u00e9 o patrim\u00f3nio. [v., a este prop\u00f3sito Ac.R.Porto de 30\/4\/2008, proc. n.\u00ba 0745386, relatado pelo Desembargador Ant\u00f3nio Gama].Os bens jur\u00eddicos tutelados por estes il\u00edcitos s\u00e3o, assim, diferentes.<br \/>O crime de falsidade inform\u00e1tica exige um dolo espec\u00edfico - a inten\u00e7\u00e3o de provocar engano nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas. Embora o engano esteja na maioria das vezes associado ao preju\u00edzo de outrem ou ao benef\u00edcio ileg\u00edtimo para o pr\u00f3prio ou para terceiro, para o preenchimento do il\u00edcito n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que o engano determine preju\u00edzo ou benef\u00edcio ileg\u00edtimo para o pr\u00f3prio ou para terceiro.<br \/>Por isso, mostrando-se preenchidos os elementos constitutivos do crime de falsidade inform\u00e1tica, n\u00e3o tem fundamento a pretens\u00e3o da recorrente.<br \/><u>5\u00aaquest\u00e3o: n\u00e3o preenchimento do crime de falsidade inform\u00e1tica<\/u><br \/>Na tese recursiva n\u00e3o se mostra preenchido o crime de falsidade inform\u00e1tica pois mesmo admitindo, por mera hip\u00f3tese de racioc\u00ednio, que houve altera\u00e7\u00e3o interna da refer\u00eancia de cirurgias ambulat\u00f3rias para cirurgias com internamento, essa altera\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite a subsun\u00e7\u00e3o dos factos ao crime de falsidade inform\u00e1tica, dado que esta s\u00f3 ocorre quando h\u00e1 factos falsos e estes s\u00e3o juridicamente relevantes. Ora, no caso concreto a altera\u00e7\u00e3o de cirurgias ambulat\u00f3rias para cirurgias por internamento s\u00f3 podia servir para fins estat\u00edsticos do hospital e, como tal, sem relev\u00e2ncia jur\u00eddica<br \/>No crime de falsidade inform\u00e1tica, quer na reda\u00e7\u00e3o do art.4.\u00ba n.\u00ba1 da Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica, em vigor aquando dos factos, quer na sua atual formula\u00e7\u00e3o do art.3.\u00ba n.\u00ba1 da Lei do Cibercrime, tem de haver a inten\u00e7\u00e3o de que os dados inform\u00e1ticos \u00absejam considerados ou utilizados para finalidades juridicamente relevantes\u00bb. Os dados inform\u00e1ticos t\u00eam de ser alterados com o prop\u00f3sito de desvirtuar a demonstra\u00e7\u00e3o dos factos que com aqueles dados podem ser comprovados, como bem refere no seu parecer a Exma. Magistrada do Minist\u00e9rio P\u00fabico junto deste Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o.<br \/>In casu, atenta a factualidade assente, a arguida fez introduzir no sistema inform\u00e1tico epis\u00f3dios de cirurgias realizadas em regime de ambulat\u00f3rio como se tivessem sido levadas a cabo em regime de internamento, quando tal n\u00e3o correspondia \u00e0 realidade.<br \/>No sistema inform\u00e1tico do Hospital Infante D.Pedro SA estavam registados todos os internamentos, exames de diagn\u00f3stico, consultas e urg\u00eancias relativos aos utentes do hospital, permitindo o tratamento dessa informa\u00e7\u00e3o quer para a defini\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do hospital quer para a cobran\u00e7a dos servi\u00e7os prestados. Assim, a arguida ao fazer introduzir aqueles dados falsos no sistema inform\u00e1tico, os mesmos passaram a constar para efeitos m\u00e9dicos, estat\u00edsticos e contabil\u00edsticos, pelo que \u00e9 manifesta a sua relev\u00e2ncia jur\u00eddica.<br \/>A rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica que em virtude do comportamento da arguida foi introduzida no sistema inform\u00e1tico n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade, sendo que os dados assim vertidos no sistema inform\u00e1tico produzem os mesmos efeitos de um documento falsificado, pondo em causa o seu valor probat\u00f3rio e consequentemente a seguran\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas.<br \/>Nesta conformidade, o comportamento da arguida preenche o crime de falsidade inform\u00e1tica quer \u00e0 luz do regime em vigor aquando da pr\u00e1tica dos facos \u2013 Lei da Criminalidade Inform\u00e1tica \u2013 quer \u00e0 luz do atual regime \u2013 Lei do Cibercrime.<br \/>Por todo o exposto, improcede o recurso.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>III \u2013 DISPOSITIVO<\/strong><br \/>Pelo exposto, acordam os ju\u00edzes na 1\u00aase\u00e7\u00e3o criminal do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto em julgar o recurso improcedente, confirmando a decis\u00e3o recorrida.<br \/>Custas pela recorrente, fixando em 4 Ucs a taxa de justi\u00e7a.<br \/>[texto elaborado pela relatora e revisto pelas signat\u00e1rias].<\/p><p style=\"text-align: justify\">Porto, 26\/5\/2015<br \/>Maria Lu\u00edsa Arantes<br \/>Ana Bacelar<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"https:\/\/www.dgsi.pt\/jtrp.nsf\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/aa9d0fb297dcca7880257e62003a86e4?OpenDocument\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dgsi.pt\/jtrp.nsf\/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf\/aa9d0fb297dcca7880257e62003a86e4?OpenDocument<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" 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data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p><strong>\u201c<\/strong><strong>em falta de consentimento devidamente informado\u201d<\/strong><\/p><p><strong>Emissor:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/7053-2018-116181965\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Supremo Tribunal de Justi\u00e7a<\/a><\/p><p><strong>Tipo:\u00a0<\/strong>Ac\u00f3rd\u00e3o<\/p><p><strong>Data de Publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/7053-2018-116181965\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2018-03-22<\/a><\/p><p><strong>Processo:\u00a0<\/strong>7053\/12.7TBVNG.P1.S1<\/p><p><strong>Fonte Direito:\u00a0<\/strong>JURISPRUDENCIA<\/p><p><strong>Relator:\u00a0<\/strong>MARIA DA GRA\u00c7A TRIGO<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-6945fcd elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"6945fcd\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-6945fcd\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\"><strong>Descritores:\u00a0<\/strong>RESPONSABILIDADE M\u00c9DICA; RESPONSABILIDADE CONTRATUAL; RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL; CONSENTIMENTO; OBRIGA\u00c7\u00d5ES DE MEIOS E DE RESULTADO; DEVER DE ESCLARECIMENTO PR\u00c9VIO; \u00d3NUS DA PROVA; ILICITUDE; M\u00c9DICO; HOSPITAL; RESPONSABILIDADE SOLID\u00c1RIA; DANOS PATRIMONIAIS; DANOS N\u00c3O PATRIMONIAIS<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Fonte Externa:<\/strong><a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/jstj.nsf\/-\/988C851558ED0AB88025825800550BEF\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0Aceder \u00e0 fonte externa<\/a><\/p><p style=\"text-align: justify\">SUM\u00c1RIO<\/p><p style=\"text-align: justify\">I - Em sede de responsabilidade civil por actos m\u00e9dicos ocorre frequentemente uma situa\u00e7\u00e3o de concurso de responsabilidade civil contratual e extracontratual, sendo orienta\u00e7\u00e3o reiterada da jurisprud\u00eancia do STJ a op\u00e7\u00e3o pelo regime da responsabilidade contratual tanto por ser mais conforme ao princ\u00edpio geral da autonomia privada, como por ser, em regra, mais favor\u00e1vel \u00e0 tutela efetiva do lesado. II - Tanto o direito nacional, como instrumentos internacionais, imp\u00f5em, como condi\u00e7\u00e3o da licitude de uma inger\u00eancia m\u00e9dica na integridade f\u00edsica dos pacientes, que estes consintam nessa inger\u00eancia e que esse consentimento seja prestado de forma esclarecida, isto \u00e9, estando cientes dos dados relevantes em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias do caso, entre os quais avulta a informa\u00e7\u00e3o acerca dos riscos pr\u00f3prios de cada interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. III - O consentimento do paciente prestado de forma gen\u00e9rica n\u00e3o preenche, s\u00f3 por si, as condi\u00e7\u00f5es do consentimento devidamente informado, sendo, al\u00e9m disso, necess\u00e1rio, em caso de repeti\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es, que tais esclarecimentos sejam atualizados, tendo em conta, designadamente, que os riscos se podem agravar com a passagem do tempo. IV - Estando em causa a realiza\u00e7\u00e3o de um exame de colonoscopia, sem fun\u00e7\u00e3o curativa, do qual nasce uma obriga\u00e7\u00e3o de resultado (obten\u00e7\u00e3o dos dados cl\u00ednicos do exame), ocorrendo uma perfura\u00e7\u00e3o do colon do paciente, sem que esteja em discuss\u00e3o o cumprimento do dever prim\u00e1rio de presta\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico mas o cumprimento do dever acess\u00f3rio de, na realiza\u00e7\u00e3o do exame clinico, ser respeitada a integridade f\u00edsica daquele, duas constru\u00e7\u00f5es dogm\u00e1ticas podem ser perfilhadas: (i) a ocorr\u00eancia da perfura\u00e7\u00e3o do colon basta para configurar a ilicitude, uma vez que uma les\u00e3o da integridade f\u00edsica do paciente, n\u00e3o exigida pelo cumprimento do contrato, implica a sua verifica\u00e7\u00e3o(ilicitude do resultado), caso em que haver\u00e1 que ponderar da exclus\u00e3o da ilicitude pelo consentimento informado daquele quanto aos riscos pr\u00f3prios daquela colonoscopia (cfr. art. 340\u00ba, n\u00ba 1, do CC); (ii) incumbe ao paciente lesado provar a ilicitude da conduta do m\u00e9dico, isto \u00e9 a falta de cumprimento do dever objectivo de dilig\u00eancia ou de cuidado, imposto pelas leges artis, dever que integra a necessidade de, no decurso da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, tudo fazer para n\u00e3o afectar a integridade f\u00edsica daquele (ilicitude da conduta), caso em que, mesmo n\u00e3o se provando a viola\u00e7\u00e3o desse dever, ainda assim, sempre se ter\u00e1 de averiguar se foi devidamente cumprido o dever de informar o paciente dos riscos inerentes \u00e0 interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e se este os aceitou. V - A circunst\u00e2ncia de se ter provado que a A., paciente, antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame feito pelo R. m\u00e9dico assinou um impresso do Hospital com o t\u00edtulo \u00abConsentimento Informado\u00bb, contendo uma declara\u00e7\u00e3o em que afirma estar \u201cperfeitamente informada e consciente dos riscos, complica\u00e7\u00f5es ou sequelas que possam surgir\u201d, e ainda que conhecia os riscos inerentes \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame de colonoscopia, incluindo a possibilidade de perfura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 suficiente para preencher as exig\u00eancias do consentimento devidamente informado uma vez que, no caso, sendo os riscos de perfura\u00e7\u00e3o superiores ao normal devido \u00e0 idade e aos antecedentes cl\u00ednicos da A., era imperativo que o R. fizesse prova de que a A. fora informada de tais riscos acrescidos. VI - Tendo havido viola\u00e7\u00e3o do dever de esclarecimento do paciente, com consequ\u00eancias laterais desvantajosas, isto \u00e9, a perfura\u00e7\u00e3o do colon, e com agravamento do estado de sa\u00fade, os bens jur\u00eddicos protegidos s\u00e3o a liberdade e a integridade f\u00edsica e moral, e os danos ressarc\u00edveis tanto s\u00e3o os danos patrimoniais como os danos n\u00e3o patrimoniais. VII - Por conseguinte, quer se siga a concep\u00e7\u00e3o da ilicitude do resultado quer a concep\u00e7\u00e3o da ilicitude da conduta, o R. m\u00e9dico e a respectiva seguradora encontram-se solidariamente obrigados a reparar os danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais sofridos pela A. com fundamento em falta de consentimento devidamente informado para a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia. VIII - Identificando-se, da mat\u00e9ria de facto, uma rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e o R. m\u00e9dico, que tem como objecto a presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os especificamente m\u00e9dicos e uma outra rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e a R. Hospital, que n\u00e3o envolve a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos em sentido estrito, estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o, denominada pela doutrina, como \u201ccontrato dividido\u201d ou aut\u00f3nomo, pelo que tendo-se conclu\u00eddo pela responsabilidade do R. m\u00e9dico com fundamento na falta de consentimento devidamente informado da A., n\u00e3o pode responsabilizar-se a R. Hospital pela conduta do mesmo m\u00e9dico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Acordam no Supremo Tribunal de Justi\u00e7a 1. AA intentou a presente ac\u00e7\u00e3o declarativa, sob a forma de processo ordin\u00e1rio, contra Hospital BB, S.A., e CC, peticionando a condena\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria dos RR. no pagamento da quantia de \u20ac 100.000,00, acrescida de juros de mora a contar da data da cita\u00e7\u00e3o. Para tanto, e em s\u00edntese, invocou que, em 17\/03\/2011, foi submetida a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica levada a cabo pelo 2\u00ba R., que exerce profissionalmente na 1\u00aa R., que consistiu num exame de colonoscopia, interven\u00e7\u00e3o da qual resultou perfura\u00e7\u00e3o do colon, o que a obrigou a submeter-se a sucessivas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas. Fruto da actua\u00e7\u00e3o do 2\u00ba R. na execu\u00e7\u00e3o do exame de colonoscopia, assim como da falta de acompanhamento por ambos os RR. na fase de recupera\u00e7\u00e3o do mesmo exame (tanto antes como ap\u00f3s a alta cl\u00ednica), a A. sofreu danos patrimoniais, descritos nos autos, no valor de \u20ac 11.258,42, e ainda danos n\u00e3o patrimoniais, que tamb\u00e9m descreve, e pelos quais peticiona uma compensa\u00e7\u00e3o no montante de \u20ac 90.000,00. Os RR. contestaram, negando a sua responsabilidade no evento; requerendo a R. Hospital BB, S.A.. a interven\u00e7\u00e3o principal da seguradora Companhia de Seguros DD, S.A. (actual Seguradoras EE, S.A.) e requerendo o R. CC a interven\u00e7\u00e3o principal da seguradora FF - Companhia de Seguros, S.A. (actual GG, Companhia de Seguros, S.A.). Por despacho de fls. 197 ambos os requerimentos foram deferidos nos exactos termos. As intervenientes contestaram, impugnando a factualidade alegada e concluindo, a final, pela improced\u00eancia da pretens\u00e3o da A. Realizado o julgamento foi proferida senten\u00e7a de fls. 383, que julgou improcedente a causa, absolvendo os RR. do pedido. Por decis\u00e3o proferida a fls. 444 foram declarados habilitados como herdeiros da A., entretanto falecida, os seus filhos HH, II, JJ e KK. Inconformados com a decis\u00e3o da senten\u00e7a, vieram os habilitados, na posi\u00e7\u00e3o da origin\u00e1ria autora, interpor recurso de apela\u00e7\u00e3o, pedindo a modifica\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o relativa \u00e0 mat\u00e9ria de facto e a reaprecia\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de direito. O R. CC juntou parecer, que consiste em texto doutrinal relativo \u00e0 responsabilidade m\u00e9dica em geral, n\u00e3o se referindo especificamente ao caso dos autos. Por ac\u00f3rd\u00e3o de fls. 631 foi considerada prejudicada a quest\u00e3o da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, e, a final, proferida a seguinte decis\u00e3o: \u201cPelos fundamentos acima expostos, acordam os Ju\u00edzes deste Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o em julgar procedente a apela\u00e7\u00e3o, revogando a senten\u00e7a recorrida e condenando os RR. e as Intervenientes a pagarem, solidariamente, \u00e0 Autora, ora representada pelos seus herdeiros legais, i). a t\u00edtulo de danos patrimoniais, a quantia de \u20ac 8. 746, 98, acrescida de juros de mora, \u00e0 taxa legal, sucessivamente aplic\u00e1vel, desde 6.09.2012 e at\u00e9 efectivo e integral pagamento; ii). a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais, a quantia de \u20ac 28. 000, 00, acrescida de juros de mora, \u00e0 taxa legal, sucessivamente aplic\u00e1vel, desde a data deste ac\u00f3rd\u00e3o e at\u00e9 efectivo e integral pagamento\u201d 2. V\u00eam os RR. e as intervenientes recorrer, autonomamente, para o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a. O R. Hospital BB, S.A. formula as seguintes conclus\u00f5es: 1. O douto Ac\u00f3rd\u00e3o fez errada interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o do Direito no caso concreto, por manifesta desconsidera\u00e7\u00e3o da factualidade assente, incorrendo em erro de julgamento. 2. A par deste, a decis\u00e3o \u00e9 nula por falta de especifica\u00e7\u00e3o dos fundamentos de facto que justificam v\u00e1rios segmentos da sua argumenta\u00e7\u00e3o e por contradi\u00e7\u00e3o entre os seus fundamentos e a decis\u00e3o (cfr. artigo 615\u00ba, n\u00ba 1 al\u00edneas d) e c) do CPC). 3. A asser\u00e7\u00e3o de que o ato m\u00e9dico de cariz diagn\u00f3stico em causa \u00e9, independentemente das circunst\u00e2ncias concretas, uma obriga\u00e7\u00e3o de resultado e, como tal, a ocorr\u00eancia de uma perfura\u00e7\u00e3o configura per si um ato il\u00edcito (desconsiderando o consentimento informado prestado e o risco espec\u00edfico do mesmo), traduz uma pervers\u00e3o dos princ\u00edpios b\u00e1sicos do direito tradicional da responsabilidade civil aquiliana e contratual, transformando-a em responsabilidade pelo risco ou por factos l\u00edcitos danosos. 4. A configura\u00e7\u00e3o da concreta presta\u00e7\u00e3o em discuss\u00e3o como obriga\u00e7\u00e3o de resultado, porque fundada em aus\u00eancia de fins curativos ou terap\u00eauticos, \u00e9 errada na medida em que desconsiderou o \u00e2mbito terap\u00eautico em que o exame (colonoscopia) foi realizado e, bem assim, n\u00e3o levou em conta e ali\u00e1s est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria provada dos pontos 2, 4, 5, 6,7, 24, 25, 37 e 40 dos Factos Provados. 5. Atendendo ao seu concreto contexto, o exame realizado \u00e0 Autora n\u00e3o pode ser considerado um vulgar exame de rotina realizado em condi\u00e7\u00f5es de normalidade (contrariamente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o discutida no Ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 01\/10\/2015 no qual o presente Ac\u00f3rd\u00e3o se baseia). 6. Pese embora se trate de um exame de diagn\u00f3stico, n\u00e3o resulta da factualidade provada que o R\u00e9u M\u00e9dico tenha assegurado que seria poss\u00edvel a observa\u00e7\u00e3o correta, integral e n\u00edtida do intestino da Autora e bem sucedida no diagn\u00f3stico de eventuais altera\u00e7\u00f5es, o que n\u00e3o \u00e9 sequer compat\u00edvel com qualquer procedimento diagn\u00f3stico invasivo, como \u00e9 o caso da colonoscopia. 7. Para configurar o ato m\u00e9dico como obriga\u00e7\u00e3o de resultado, n\u00e3o basta concluir pela aus\u00eancia de \"fins curativos ou terap\u00eauticos\" (como se bastou o Tribunal a quo a considerar), j\u00e1 que em contrapartida nem todas as obriga\u00e7\u00f5es de meios t\u00eam \"fins curativos ou terap\u00eauticos\" e nem por isso deixam de o ser. 8. Importa ter em conta que a atividade m\u00e9dica comporta quase sempre uma certa \u00e1lea que resulta da exist\u00eancia de um conjunto de fatores externos imprevis\u00edveis ou incontrol\u00e1veis que impossibilita o m\u00e9dico de assegurar ao doente um resultado certo da interven\u00e7\u00e3o proposta, a saber: circunst\u00e2ncias inerentes ao doente que condicionam a maior ou menor dificuldade do procedimento, equipamento utilizado e os riscos pr\u00f3prios do procedimento [cfr. pontos 7., 25., 40., 53., 54. e 55. dos Factos Provados]. 9. Por isso \u00e9 incontest\u00e1vel que a presta\u00e7\u00e3o em causa, nas concretas circunst\u00e2ncias que resultaram provadas, n\u00e3o pode sen\u00e3o haver-se como uma mera obriga\u00e7\u00e3o de meios, no sentido da jurisprud\u00eancia maiorit\u00e1ria. Assim, o R\u00e9u M\u00e9dico vinculou-se t\u00e3o-somente a empregar o seu saber, experi\u00eancia, per\u00edcia, cuidado e dilig\u00eancia no sentido de atingir o melhor \"resultado\" poss\u00edvel em termos de diagn\u00f3stico, com os meios t\u00e9cnicos que tinha ao seu dispor e o estado atual da ci\u00eancia m\u00e9dica. 10. Ainda que se assumisse a presta\u00e7\u00e3o realizada como obriga\u00e7\u00e3o de resultado, \u00e9 essencial identificar o \"resultado\" visado pela concreta presta\u00e7\u00e3o para aferir o cumprimento ou incumprimento ou cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o. 11. Inexiste fundamento para responsabilizar os R\u00e9us com base em responsabilidade contratual quando resulta demonstrado ter sido cumprida a obriga\u00e7\u00e3o subjacente, j\u00e1 que a este respeito o douto Ac\u00f3rd\u00e3o considerou que um exame se \"esgota em si mesmo enquanto meio de diagn\u00f3stico\" e tomou como certo que o mesmo foi realizado e o resultado entregue \u00e0 Autora. Pelo que se impunha que tivesse conclu\u00eddo, por coer\u00eancia, ter sido cumprida a presta\u00e7\u00e3o contratada. 12. Ao concluir em sentido divergente, incorreu o douto Ac\u00f3rd\u00e3o em manifesta contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos apresentados e a conclus\u00e3o deles extra\u00edda que fere de nulidade a decis\u00e3o neste segmento (cfr. artigo 615\u00ba, n.\u00ba 1 al\u00ednea c) do CPC). 13. O douto Ac\u00f3rd\u00e3o configurou a perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon como \"facto volunt\u00e1rio\", por\u00e9m nenhum dos factos em que o Tribunal a quo se baseou para tal, nem a restante mat\u00e9ria assente permitem extrair tal conclus\u00e3o, j\u00e1 que ficou demonstrado que a perfura\u00e7\u00e3o \u00e9 um risco do procedimento que pode ocorrer por causas involunt\u00e1rias ou alheias \u00e0 atua\u00e7\u00e3o concreta do m\u00e9dico e pode mesmo sobrevir ao procedimento, sem ser sequer percecion\u00e1vel no momento [cfr. pontos 53, 54 e 55 dos Factos Provados]. 14. N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel a conclus\u00e3o pela verifica\u00e7\u00e3o do \"facto volunt\u00e1rio\", na medida em que a factualidade provada n\u00e3o evidencia que a perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon tenha acontecido durante o exame, por causa da atua\u00e7\u00e3o do R\u00e9u M\u00e9dico, j\u00e1 que a Autora n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o apresentava quaisquer ind\u00edcios objetivos de perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon durante e ap\u00f3s o exame, como ainda revelava sinais objetivos de normalidade [cfr. pontos 10, 22, 23,42,45, 46,47,48, 49, 50 e 51 dos Factos Provados]. 15. Para poder concluir pela verifica\u00e7\u00e3o do \"facto volunt\u00e1rio\" como pressuposto da responsabilidade civil, impunha-se que o douto Ac\u00f3rd\u00e3o especificasse os fundamentos de facto que justificam a evid\u00eancia de que a perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon resultou de uma conduta comissiva ou omissiva do R\u00e9u M\u00e9dico, domin\u00e1vel ou control\u00e1vel pela sua vontade: n\u00e3o o fez, pelo que a decis\u00e3o est\u00e1 ferida de nulidade nesta parte (cfr. artigo 615\u00ba, n,\u00ba 1 al\u00ednea b) do CPC). 16. Quanto ao pressuposto do \"facto il\u00edcito\", andou bem a Senten\u00e7a revogada que concluiu pela improced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o por n\u00e3o provada a ilicitude, na medida em que n\u00e3o resultou demonstrado que tivesse havido um ato m\u00e9dico errado ou que tivesse sido violado, por parte do R\u00e9u M\u00e9dico ou da ora Recorrente, um dever jur\u00eddico ou qualquer dos deveres principais ou acess\u00f3rios que se impunham, considerando, em contrapartida, que a perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon se tratou de um risco pr\u00f3prio do exame. 17. J\u00e1 o douto Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o divergiu desta posi\u00e7\u00e3o julgando verificado o pressuposto da ilicitude com fundamento na perce\u00e7\u00e3o de a perfura\u00e7\u00e3o ser em alt\u00edssimo grau estranha ao cumprimento do fim do contrato (probabilidade inferior a 1%) e a sua gravidade resultar desproporcionada quando comparada com os riscos normais para o lesado, inerentes \u00e0quela concreta interven\u00e7\u00e3o ou ato m\u00e9dico. 18. Ficou, por\u00e9m, provado que n\u00e3o s\u00f3 a Autora consentiu expressa e formalmente na realiza\u00e7\u00e3o daquele exame invasivo, ciente da sua situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e dos riscos associados \u00e0quele ato m\u00e9dico (especificamente sobre o risco de perfura\u00e7\u00e3o), como tamb\u00e9m que a colonoscopia, enquanto procedimento invasivo, comporta necessariamente riscos (vg. o risco de perfura\u00e7\u00e3o) que ocorre num 1 a 8 casos em cada 1.000 exames realizados [cfr. pontos 37, 38 e 53 dos Factos Provados]. 19. O consentimento informado assenta nos pressupostos de auto-responsabiliza\u00e7\u00e3o e liberdade de escolha, pelo que o exerc\u00edcio pelo doente da sua liberdade de escolha \u00e9 correlativo da sua auto-responsabiliza\u00e7\u00e3o. Nessa medida, o doente que consente na realiza\u00e7\u00e3o de determinado procedimento m\u00e9dico ciente, porque previamente informado, dos riscos inerentes ao mesmo, assume por essa via o risco da sua eventual verifica\u00e7\u00e3o. 20. O consentimento da Autora \u00e9 causa de exclus\u00e3o da responsabilidade dos R\u00e9us a partir do momento em que a les\u00e3o f\u00edsica (perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon), pela sua natureza e gravidade, se cont\u00e9m dentro do risco pr\u00f3prio do ato m\u00e9dico que foi previamente conhecido e aceite pela Autora (cfr. artigo 340.\u00ba, n.\u00ba 1 do C\u00f3digo Civil). 21. De outra forma, impunha-se que o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o tivesse considerado nulo o consentimento prestado (cfr. artigo 8\u00ba, n.\u00ba 1 do C\u00f3digo Civil), o que n\u00e3o foi suscitado, nem discutido. 22. Por outro lado, a incid\u00eancia de risco de perfura\u00e7\u00e3o inferior a 1% em colonoscopias de cariz diagn\u00f3stico n\u00e3o pode redundar em aus\u00eancia de risco, mormente quando resultou demonstrado que a Autora foi dele pr\u00e9via e especificamente informada [pontos 37. e 38. dos factos provados]. 23. Se o concreto procedimento diagn\u00f3stico envolve riscos e se a Autora os assumiu ao aceitar submeter-se ao exame informada dos riscos, \u00e9 inaceit\u00e1vel a conclus\u00e3o de que a sua ocorr\u00eancia seja totalmente estranha \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do procedimento contratado. 24. A preval\u00eancia do risco de perfura\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode deixar de ser aferido[a] em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias concretas do doente, em especial as condi\u00e7\u00f5es do campo de interven\u00e7\u00e3o, sendo que no caso resultou demonstrado que a anterior opera\u00e7\u00e3o oncol\u00f3gica que a Autora realizara propicia a forma\u00e7\u00e3o de processos aderenciais que n\u00e3o s\u00f3 podem ser causa direta de perfura\u00e7\u00e3o no c\u00f3lon, como agravam o risco de perfura\u00e7\u00e3o por aumento da press\u00e3o intrac\u00f3lica, decorrente da maior quantidade de ar que \u00e9 necess\u00e1rio insuflar para realizar o exame [cfr. pontos 40. e 54. dos factos provados]. 25. Nas concretas circunst\u00e2ncias que resultaram provadas n\u00e3o \u00e9 plaus\u00edvel a conclus\u00e3o de que a perfura\u00e7\u00e3o ocorrida seja desproporcionada face aos riscos normais para o lesado inerentes \u00e0 concreta interven\u00e7\u00e3o, pelo que a conclus\u00e3o vertida no ponto IV. do sum\u00e1rio do douto Ac\u00f3rd\u00e3o \u00e9 nula, por inintelig\u00edvel e infundada (cfr. artigo 615\u00ba, n.\u00ba 1 al\u00edneas a) e c) do CPC). 26. O consentimento da Autora s\u00f3 n\u00e3o releva se a les\u00e3o provier de ato il\u00edcito (cfr. artigo 340\u00ba, n.\u00ba 2 do C\u00f3digo Civil) que no caso n\u00e3o se verificou. 27. Apesar de ter julgado verificado o pressuposto da ilicitude, o douto Ac\u00f3rd\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o identificou quaisquer factos que permitissem concluir ter existido uma atua\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o, especificamente inadequada, incorreta, imprudente, imperita ou negligente, diretamente imput\u00e1vel aos R\u00e9us, como tamb\u00e9m n\u00e3o revelou quais as regras da arte m\u00e9dica ou os espec\u00edficos deveres que resultam do contrato ou da deontologia profissional que tenham sido infringidos pelos R\u00e9us, o que fere de nulidade a decis\u00e3o (cfr. artigo 615\u00ba, n.\u00ba 1 al\u00ednea b) do CPC). 28. Da factualidade assente tamb\u00e9m n\u00e3o resulta qualquer evid\u00eancia de conduta errada, descuidada, impudente ou negligente por parte de qualquer dos R\u00e9us de molde a conformar ato il\u00edcito, tal como justamente constatou a senten\u00e7a da primeira inst\u00e2ncia que, por isso, julgou improcedente a a\u00e7\u00e3o. 29. Competindo \u00e0 Autora o \u00f3nus de prova da ilicitude como facto constitutivo do direito de indemniza\u00e7\u00e3o dela emergente (cfr. artigo 342\u00ba, 483\u00ba e 798\u00ba do C\u00f3digo Civil), s\u00f3 assistiria aos herdeiros legais da Autora direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o mediante prova de que a perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica fora causada por viola\u00e7\u00e3o por parte dos R\u00e9us das \u00ableges artis\u00bb, de algum dever jur\u00eddico ou de deveres principais ou acess\u00f3rios contratados. 30. Face \u00e0 falta de evid\u00eancia, com base na mat\u00e9ria de facto provada, quer do cumprimento pela Autora (pelos seus herdeiros legais) do respetivo \u00f3nus probat\u00f3rio da ilicitude, quer da conduta volunt\u00e1ria do m\u00e9dico objetivamente il\u00edcita por refer\u00eancia \u00e0 atua\u00e7\u00e3o que pelas \u00ableges artis\u00bb lhe seria em concreto exig\u00edvel, o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o nunca poderia ter julgado verificada a ilicitude. 31. Ao concluir nos termos do ponto IV. do seu sum\u00e1rio e fundar a decis\u00e3o com base nesse pressuposto, o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o redundou numa condena\u00e7\u00e3o dos R\u00e9us em responsabilidade objetiva (pelo risco ou por facto l\u00edcitos) num caso imprevisto pela lei. 32. Por conseguinte, a decis\u00e3o est\u00e1 ferida de erro de Direito (error in judicando), j\u00e1 que a mat\u00e9ria assente n\u00e3o demonstra qualquer ato il\u00edcito que tenha sido praticado pelos R\u00e9us e a lei n\u00e3o prev\u00ea responsabilidade m\u00e9dica objetiva ou por factos l\u00edcitos danosos. 33. A factualidade assente demonstra, ao inv\u00e9s, de ter sido empregue pelo R\u00e9u M\u00e9dico um razo\u00e1vel grau de per\u00edcia e compet\u00eancia na execu\u00e7\u00e3o do exame e terem sido cumpridos pela R\u00e9 Hospital os deveres de vigil\u00e2ncia e cuidado no recobro posterior ao exame [cfr. pontos 6,7, 8, 22,40,43,45,46, 51 dos Factos Assentes]. 34. Resulta ainda demonstrado que a perfura\u00e7\u00e3o que sobreveio ao exame realizado \u00e0 Autora pelo R\u00e9u M\u00e9dico, na R\u00e9 Hospital n\u00e3o decorreu de m\u00e1 pr\u00e1tica ou falta de cuidado destes, mas tratou-se de um risco pr\u00f3prio do exame que, com razo\u00e1vel probabilidade, pode ter tido origem em circunst\u00e2ncias excecionais, anormais ou extraordin\u00e1rias relacionadas com o aparelho intestinal da Autora, fragilizado por tratamento cir\u00fargico anterior, e at\u00e9 ter sucedido em momento posterior ao exame a partir de uma microfissura comprovadamente desapercebida e assintom\u00e1tica [cfr. pontos 42, 49, 50, 53, 54 e 55 dos Factos Assentes]. 35. Assim, os R\u00e9us lograram ilidir a presun\u00e7\u00e3o de culpa que seria seu \u00f3nus, se porventura se verificasse o pressuposto pr\u00e9vio da ilicitude, o que n\u00e3o sucedeu. 36. O douto Ac\u00f3rd\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o concretizou, estribando-se na factualidade assente, o que os R\u00e9us podiam ou deveriam ter feito e n\u00e3o fizeram, ou o que n\u00e3o podiam, nem deviam ter feito e fizeram, de molde a dar como demonstrado o pressuposto da culpa configurado nos termos citados, pelo que a decis\u00e3o est\u00e1 ferida de nulidade (cfr. artigo 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea b) do CPC). 37. Sendo certo que a discuss\u00e3o do pressuposto da culpa \u00e9 esp\u00fario, a partir do momento em que n\u00e3o se encontra verificado sequer o pressuposto pr\u00e9vio da ilicitude. 38. Em face de todo o exposto, e salvo o devido respeito, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel censurar a conduta dos R\u00e9us \u00e0 luz da responsabilidade civil contratual ou extracontratual, o que imp\u00f5e a sua absolvi\u00e7\u00e3o do pedido, com a consequente repristina\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a da primeira inst\u00e2ncia que bem decidiu nesse sentido. 39. Ao entender em sentido diferente, o douto Ac\u00f3rd\u00e3o incorreu em erro not\u00f3rio no ju\u00edzo de subsun\u00e7\u00e3o das normas jur\u00eddicas aos factos assentes na decis\u00e3o da primeira inst\u00e2ncia, violando o disposto nos artigos 342\u00ba,483\u00ba, 798\u00ba e 799\u00ba do C\u00f3digo Civil. 40. Inexiste ainda fundamento de facto e de direito que justifiquem a decis\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o da R\u00e9 Hospital com base em responsabilidade objetiva prevista no artigo 800.\u00ba do C\u00f3digo Civil, j\u00e1 que n\u00e3o ficou provado que a Autora tivesse contratado diretamente com a R\u00e9 Hospital a presta\u00e7\u00e3o de quaisquer servi\u00e7os. 41. A factualidade assente n\u00e3o evidencia que o R\u00e9u M\u00e9dico tivesse atuado como auxiliar no cumprimento dos servi\u00e7os contratados entre a Autora e a R\u00e9 Hospital, mas sim o inverso: a R\u00e9 Hospital cedeu ao R\u00e9u M\u00e9dico os seus meios e instala\u00e7\u00f5es para que este executasse o exame que lhe foi solicitado pela Autora, em regime de consulta de acompanhamento, o que \u00e9 incompat\u00edvel com o sentido da norma prevista no artigo 800\u00ba do C\u00f3digo Civil. 42. A escolha da Autora nesta concreta presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os recaiu sobre o R\u00e9u M\u00e9dico, intuitu personae, e n\u00e3o sobre a R\u00e9 Hospital, a qual interveio na mesma como auxiliar do seu cumprimento. Donde, \u00e9 for\u00e7oso concluir que a rela\u00e7\u00e3o contratual foi estabelecida pela Autora com o R\u00e9u M\u00e9dico, a quem solicitou diretamente a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de sa\u00fade. 43. A factualidade provada apenas permite concluir que a Autora estabeleceu rela\u00e7\u00e3o contratual com o R\u00e9u M\u00e9dico ou, quanto muito, duas rela\u00e7\u00f5es contratuais conexas com sujeitos e \u00e2mbitos distintos: a primeira com o R\u00e9u M\u00e9dico para presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade, a segunda com a R\u00e9 Hospital para fornecimento de instala\u00e7\u00f5es e meios necess\u00e1rios \u00e0 presta\u00e7\u00e3o daqueles cuidados. 44. De uma forma ou de outra, n\u00e3o tem aplica\u00e7\u00e3o o disposto no artigo 800\u00ba do C\u00f3digo Civil, nem o douto Ac\u00f3rd\u00e3o especificou raz\u00f5es de facto que sustentam a aplica\u00e7\u00e3o desta norma. 45. Na modalidade de contrato dividido que est\u00e1 presente in casu, a R\u00e9 Hospital assume contratualmente apenas a parte relativa aos meios para a presta\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o, sendo o R\u00e9u M\u00e9dico contratualmente respons\u00e1vel pelos seus atos e pelos atos das pessoas que utilize no cumprimento da presta\u00e7\u00e3o acordada com a Autora. 46. Uma vez que n\u00e3o resultou provando que a realiza\u00e7\u00e3o do exame em apre\u00e7o tenha sido contratada pela Autora diretamente com a R\u00e9 Hospital, esta n\u00e3o pode ser responsabilizada por (eventual) incumprimento ou cumprimento defeituoso de uma presta\u00e7\u00e3o n\u00e3o contratada (ou pelo menos n\u00e3o provado que o tivesse sido) entre a Autora e a R\u00e9 Hospital. 47. E bem assim, tamb\u00e9m n\u00e3o resultaram provados factos que apontem no sentido da pr\u00e1tica de ato il\u00edcito por parte da R\u00e9 Hospital, nem do seu incumprimento ou cumprimento defeituoso de qualquer obriga\u00e7\u00e3o a que estivesse concretamente vinculada, decorrente de contrato celebrado (a ter sido) com a Autora. 48. Inexistem fundamentos de facto e de direito para condenar solidariamente a R\u00e9 Hospital j\u00e1 que, nos termos do disposto no artigo 513\u00ba do C\u00f3digo Civil, a solidariedade de devedores s\u00f3 existe quando resulte da lei ou da vontade das partes. 49. Pelo que, mesmo que se considere a exist\u00eancia de um contrato com pluralidade de devedores - como parece ser o que resulta da fundamenta\u00e7\u00e3o do douto Ac\u00f3rd\u00e3o (cfr. p\u00e1g. 25) - imp\u00f5e-se aplicar o regime geral das obriga\u00e7\u00f5es conjuntas ou parci\u00e1rias (cfr. 796\u00ba, n.\u00ba 3 do C\u00f3digo Civil). 50. No \u00e2mbito da responsabilidade contratual - que o douto Tribunal considerou ser o regime aplic\u00e1vel no caso concreto - n\u00e3o tem aplicabilidade a regra da solidariedade estabelecida na responsabilidade extracontratual (cfr. artigo 497\u00ba do C\u00f3digo Civil), j\u00e1 que a mesma n\u00e3o resulta da lei, nem resultou provado que tivesse havido acordo das partes a esse respeito. 51. Assim, a conclu\u00edda verifica\u00e7\u00e3o de responsabilidade objetiva da R\u00e9 Hospital fundada no artigo 800\u00ba do C\u00f3digo Civil est\u00e1 inquinada de erro de julgamento, em resultado de uma inexata qualifica\u00e7\u00e3o jur\u00eddica da interven\u00e7\u00e3o da R\u00e9 Hospital nos factos em discuss\u00e3o que n\u00e3o encontra fundamento na mat\u00e9ria de facto provada. 52. A par deste a decis\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria da R\u00e9 Hospital \u00e9 igualmente inadmiss\u00edvel por aus\u00eancia de especifica\u00e7\u00e3o dos fundamentos de facto e de direito que justifiquem a decis\u00e3o, no \u00e2mbito da responsabilidade contratual, donde a decis\u00e3o est\u00e1 ferida de nulidade (cfr. artigo 615\u00ba, n.\u00ba 1 al\u00ednea b) do CPC). 53. Caso assim n\u00e3o se entenda, discute-se, por mera cautela e dever de patroc\u00ednio, o quantum indemnizat\u00f3rio arbitrado pelo Tribunal a quo para compensa\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pela Autora e atribu\u00eddo aos seus herdeiros legais, j\u00e1 que o mesmo se mostra desajustado, face aos danos provados, e excessivo, face \u00e0 pr\u00e1tica jurisprudencial. 54. Neste contexto, ponderando comparativamente os valores fixadas na jurisprud\u00eancia e as circunst\u00e2ncias concretas provadas, parece resultar, salvo o devido respeito, que o valor atribu\u00eddo a t\u00edtulo de indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais pelo Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o se mostra desajustado. Termina pedindo que seja declarada a nulidade do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido e a sua substitui\u00e7\u00e3o por outro que absolva os RR. do pedido. Por sua vez, o R. CC formulou as seguintes conclus\u00f5es: 1\u00ba Vem o presente recurso de revista interposto do douto ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto, antes identificado, que, revogando a decis\u00e3o de 1\u00aa inst\u00e2ncia, considerou a a\u00e7\u00e3o parcialmente procedente. 2\u00ba Para tanto, considerou que: (I) Que o contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os em causa n\u00e3o traduz uma obriga\u00e7\u00e3o de meios, mas sim de resultado (ou que tal distin\u00e7\u00e3o \u00e9 irrelevante, o que, no fundo, \u00e9 a mesma coisa); (II) Em resultado disso mesmo, que existe ilicitude porque a les\u00e3o da integridade f\u00edsica da Autora n\u00e3o era exigida pelo contrato e n\u00e3o foi abrangida pelo consentimento ou pretens\u00e3o da mesma; (III) Que, podendo da colonoscopia resultar a perfura\u00e7\u00e3o, se impunha um especial dever de cuidado (art.\u00ba 762 n\u00ba 2 CC), a ter em conta os interesses da Autora e a gerar responsabilidade contratual art.\u00ba 798 CC; Ainda, (IV) Que, na d\u00favida, presume-se a culpa (art.\u00ba 799 n\u00ba 2 CC), presun\u00e7\u00e3o n\u00e3o ilidida (art.\u00ba 344 n\u00ba 1 CC). 3\u00b0 Salvo o devido respeito por melhor opini\u00e3o, sem raz\u00e3o. 3\u00ba Na verdade, entendeu que, demonstrada (na sua tese) a ilicitude, n\u00e3o se encontra provada mat\u00e9ria de fato que afaste a presun\u00e7\u00e3o de culpa que foi adotada. 4\u00ba Salvo o devido respeito por melhor opini\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade. 5\u00ba Pois que foi efetuada prova no sentido de que o r\u00e9u CC agiu com toda a corre\u00e7\u00e3o profissional, com cuidado e de acordo com a leges artis do ramo - Cfr. Os pontos 37, 38, 40, 41, 42, 43, 44, 45,46, 47, 48, 49, 50, 51, 53, 54, 55 e 56 da mat\u00e9ria de fato dada como provada. 6\u00ba Os fatos antes referidos - ignorados pelo douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido - operam (se necess\u00e1rio fosse - que n\u00e3o \u00e9) a elis\u00e3o da dita presun\u00e7\u00e3o (iuris tantum), com a prova do contr\u00e1rio. 7\u00ba Provam que o ora recorrente e os restantes intervenientes nos atos em causa, usaram de toda a dilig\u00eancia, se esfor\u00e7aram por cumprir, usando as cautelas e zelo que utilizaria um \u00abbom pai de fam\u00edlia\u00bb nas concretas circunst\u00e2ncias do caso, decorrendo as les\u00f5es verificadas de fatores e circunst\u00e2ncias que, escapando inteiramente ao seu dom\u00ednio, n\u00e3o foi poss\u00edvel controlar adequadamente (nesse sentido, de que tal poderia ocorrer, o conhecimento dos riscos e consentimento devidamente esclarecido da paciente). 8\u00ba Tais factos s\u00e3o impeditivos do funcionamento da presun\u00e7\u00e3o de culpa em causa, dado o seu inquestion\u00e1vel relevo substantivo ou material para o preenchimento, atua\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o das normas que condicionam a decis\u00e3o do m\u00e9rito da causa. Acresce que, 9\u00b0 O douto ac\u00f3rd\u00e3o fundamenta tamb\u00e9m a sua decis\u00e3o no sentido de que o consentimento informado \"n\u00e3o abrange a les\u00e3o f\u00edsica que, em termos de normalidade ou previsibilidade, n\u00e3o \u00e9 exigida para a realiza\u00e7\u00e3o do aludido exame e cumprimento do contratado e que, assim, se apresenta como il\u00edcita\" (segundo par\u00e1grafo de fls. 41). 10\u00b0 Mais uma vez, ignora (e contraria) a mat\u00e9ria de fato dada como provada e que invocou como fundamento da sua decis\u00e3o. 11\u00b0 Pois que resulta dos pontos 37 e 38 da mat\u00e9ria de fato provada que a paciente foi devidamente informada dos riscos que uma colonoscopia implicava, incluindo as eventuais perfura\u00e7\u00f5es do intestino que pudessem ocorrer - riscos que aceitou correr. 12\u00b0 Impunha-se, sob pena de nulidade, que a douta decis\u00e3o recorrida observasse, na sua elabora\u00e7\u00e3o, toda a realidade objetiva e processual dos autos - o que n\u00e3o aconteceu. 13\u00b0 Pelo que, o douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido \u00e9 nulo e como tal deve ser declarado, por contradi\u00e7\u00e3o entre os seus fundamentos, a mat\u00e9ria dada como provada e o decidido, nos termos do disposto no art. 615 NCPC (antigo art 668). Sem prescindir e subsidiariamente, 14\u00b0 Os presentes autos consubstanciam uma a\u00e7\u00e3o de responsabilidade m\u00e9dica, na qual a origin\u00e1ria Autora solicitou uma indemniza\u00e7\u00e3o em virtude dos danos materiais e morais sofridos em consequ\u00eancia da realiza\u00e7\u00e3o de um exame de colonoscopia do qual resultou uma perfura\u00e7\u00e3o do seu intestino, indemniza\u00e7\u00e3o essa que lhe foi parcialmente concedida (no entender do recorrente, sem qualquer fundamento). 15\u00b0 Em primeiro lugar, a possibilidade de uma eventual perfura\u00e7\u00e3o foi consentida e o seu eventual risco assumido (Cfr. Os pontos 37 e 38 da mat\u00e9ria dada como provada). 16\u00b0 Tal consentimento constituiu um facto impeditivo do direito invocado (causa de exclus\u00e3o da ilicitude - art\u00b0s 342, 483 e 800 CC), tendo sido realizada a sua prova (art. 342\u00b0, n\u00b0 2 CC): (I) A paciente foi informada do \"risco mais grave\" que pode ocorrer numa colonoscopia (perfura\u00e7\u00e3o do intestino); (II) Pois que, apesar de ser \"raro\" \u00e9 espec\u00edfico daquela concreta interven\u00e7\u00e3o; (III) Colocando nas m\u00e3os daquela toda a informa\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que a mesma se determinasse responsavelmente, assumindo aquele risco; (IV) Como aconteceu. 17\u00b0 Em segundo lugar, ainda que fosse necess\u00e1rio ilidir qualquer presun\u00e7\u00e3o de culpa (e como infra se ver\u00e1, tal n\u00e3o era necess\u00e1rio) foi efetuada prova no sentido de que o r\u00e9u CC agiu com toda a corre\u00e7\u00e3o profissional, com cuidado e de acordo com a leges artis do ramo - Cfr. os pontos 37, 38, 40, 41, 42, 43, 44, 45,46, 47, 48, 49, 50, 51, 53, 54, 55\u00a0 e\u00a0 56\u00a0 da\u00a0 mat\u00e9ria de fato dada como provada (e o antes referido acerca da nulidade do douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido) Ainda subsidiariamente, 18\u00b0 Mesmo que se entendesse n\u00e3o ter ficado provado que o r\u00e9u CC agiu de acordo com a leges artis do ramo (o que apenas se admite por mero efeito de racioc\u00ednio), a douta decis\u00e3o recorrida n\u00e3o poderia ter um sentido diferente daquele que foi assumido pelo Dig.\u00b0 Tribunal de 1\u00aa inst\u00e2ncia. 19\u00b0 Na verdade, a charneira das duas diferentes posi\u00e7\u00f5es escalpelizadas no douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, encontra-se nos diferentes conceitos de \"obriga\u00e7\u00e3o de meios\" e de \"resultado\" e da sua subsun\u00e7\u00e3o ao caso dos autos. 20\u00b0 Os crit\u00e9rios de distin\u00e7\u00e3o n\u00e3o excluem figuras mistas (v. g. os casos de dupla defini\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o). 21\u00b0A diferen\u00e7a est\u00e1 naquilo a que o devedor se obriga: nas de resultado, obriga-se a caus\u00e1-lo; nas de meios, obriga-se a tentar adequadamente caus\u00e1-lo. 22\u00b0 S\u00f3 h\u00e1 cumprimento das primeiras quando o resultado definidor da presta\u00e7\u00e3o ocorra causado pelo devedor; nas de meios, h\u00e1 cumprimento quando o resultado \u00e9 adequadamente tentado. 23\u00b0 Nas obriga\u00e7\u00f5es de meios, o devedor est\u00e1 vinculado a todo o ato necess\u00e1rio - necess\u00e1rio, n\u00e3o suficiente -, pois todos os atos indispens\u00e1veis ao resultado definidor (i.e., necess\u00e1rios) se incluem for\u00e7osamente nos atos a ele adequados. 24\u00b0 Os atos adequados englobam todos os atos necess\u00e1rios, embora insuficientes, e ainda, nos termos gerais, as cautelas pr\u00f3prias do bonus pater \u00e0 face da situa\u00e7\u00e3o (salvo estipula\u00e7\u00e3o adicional, que, ali\u00e1s, neste caso existiu sobre a forma de risco consentido). 25\u00b0 O douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido n\u00e3o atendeu ao conceito-chave de resultado definidor da presta\u00e7\u00e3o, que se contrap\u00f5e aos resultados exteriores - por vezes chamados \u00abfim da presta\u00e7\u00e3o\u00bb, e, ainda, aos resultados subalternos (a perfura\u00e7\u00e3o, de que aquele exame m\u00e9dico \u00e9 exemplo - risco esse inerente a qualquer exame de colonoscopia que a origin\u00e1ria Autora expressamente assumiu: pontos n\u00b0s 37, 38, 53, 54 e 55 dos factos provados. 26\u00b0 No \u00e2mbito da responsabilidade contratual, tendo conjugadamente em conta o disposto nos artigos 398, 762 n\u00b02, 763, 798, 799 n\u00b0 2, 487 n\u00b0 2 e 342, todos do C\u00f3digo Civil, um exame de colonoscopia, inserido num \u00e2mbito alargado de acompanhamento e tratamento de um doente, consubstancia uma obriga\u00e7\u00e3o de meios cabendo a prova da ilicitude ao doente. 27\u00b0 Ilicitude liminarmente exclu\u00edda face ao consentimento informado prestado. 28\u00b0 Ali\u00e1s, haver\u00e1 que ressaltar que, no caso de uma colonoscopia, existem riscos evidentes (ali\u00e1s, dados como provados) em virtude de se tratar de um exame invasivo. 29\u00b0 N\u00e3o se trata de um mero exame de diagn\u00f3stico (de que se pretende apenas o \"relat\u00f3rio\"), mas sim um exame que ofende a integridade f\u00edsica do paciente, com os riscos inerentes a tal fato, sendo que, e havendo essa necessidade, tal exame ser\u00e1 complementado com objetivos curativos (v. g. extra\u00e7\u00e3o de p\u00f3lipos). 30\u00b0 A atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 unit\u00e1ria e toda ela se esgota no mesmo procedimento, o qual est\u00e1 na origem, seja do exame m\u00e9dico, seja da perfura\u00e7\u00e3o do intestino enquanto evento adverso 31\u00b0 Quando se defende (erradamente) a irrelev\u00e2ncia da distin\u00e7\u00e3o entre obriga\u00e7\u00e3o de meios e de resultado, o que se est\u00e1 a defender \u00e9 que se trata - sempre - de uma obriga\u00e7\u00e3o de resultado...; 32\u00b0 E, ent\u00e3o, na realiza\u00e7\u00e3o de uma colonoscopia, o m\u00e9dico n\u00e3o estaria obrigado, a contrario sensu, a atuar segundo as regras da arte, utilizando o seu melhor saber, uma vez que, naquela tese, s\u00f3 interessaria \"o resultado\" (poderia violar as leges artis desde que n\u00e3o houvesse perfura\u00e7\u00e3o). 33\u00b0 Trata-se de um conclus\u00e3o absurda, que n\u00e3o se pode manter na ordem jur\u00eddica! 34\u00b0 O presente caso, \u00e9 diferente e diverso do que estava em causa no citado ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 01\/10\/2015 (invocado pelo douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido), que n\u00e3o tem aplica\u00e7\u00e3o no presente caso: (I) porque no caso a\u00ed julgado, n\u00e3o tinha havido (prova) de um consentimento expresso de risco consentido - e, aqui, tal consentimento existiu; (ii) porque, nesse mesmo processo, a prova do \"processamento\" da colonoscopia (digamos assim) tinha sido praticamente inexistente - e, aqui, ficou provada toda a atenta, cuidadosa e profissionalmente correta atua\u00e7\u00e3o do recorrido CC. 35\u00b0 A \"vis\u00e3o\" do douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido (\"vendo em tudo\" obriga\u00e7\u00f5es de resultado ou considerando que, na responsabilidade contratual, se imp\u00f5e sempre a invers\u00e3o do \u00f3nus da prova por for\u00e7a do disposto no art.\u00b0 799 n\u00b0 1 do C.C. - o que, na pr\u00e1tica acaba por ser a mesma coisa), se adotada pelos nossos Tribunais, levaria, na realidade, a uma constante e injusta suscita\u00e7\u00e3o do regime de presun\u00e7\u00e3o da ilicitude do profissional de sa\u00fade: (I) teria de ser o profissional de sa\u00fade a provar - sempre - que n\u00e3o praticou qualquer ato il\u00edcito e, na hip\u00f3tese negativa (de n\u00e3o conseguir efetuar tal prova, ainda que o contr\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o fique provado) a responder por for\u00e7a de tal presun\u00e7\u00e3o; (II) tanto mais que a ilicitude n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico pressuposto da responsabilidade subjetiva e a prova do nexo de causalidade entre o facto e o dano \u00e9 muito mais f\u00e1cil e simples se estiver em causa uma obriga\u00e7\u00e3o de resultado e n\u00e3o de meio. 36\u00b0 O douto ac\u00f3rd\u00e3o recorrido \u00e9 nulo e como tal deve ser declarado. Caso assim se n\u00e3o entenda e subsidiariamente, deve ele ser revogado, por erro de interpreta\u00e7\u00e3o do disposto nos citados preceitos e diplomas legais, e substitu\u00eddo por outro que decida no sentido defendido (decis\u00e3o de 1\u00aa inst\u00e2ncia) A interveniente Seguradoras EE, S.A. (seguradora da R. Hospital, S.A.) concluiu da seguinte forma: 1. A aqui recorrente n\u00e3o pode aceitar o entendimento perfilhado pelo Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido nos termos do qual se verifica objectivamente o preenchimento inevit\u00e1vel do requisito da ilicitude sempre que de um acto m\u00e9dico, mesmo quando este \u00e9 autorizado e os respectivos riscos explicados ao paciente, decorre uma ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica do doente, tida como n\u00e3o querida ou n\u00e3o exigida pelo cumprimento do contrato. 2. Considerando que na maior parte dos actos m\u00e9dicos - como acontece no caso das colonoscopias - por via de regra, existe sempre uma ofensa \u00e0 integridade f\u00edsica do paciente, para se aferir da exist\u00eancia da eventual verifica\u00e7\u00e3o do requisito da ilicitude, importa proceder sempre a uma avalia\u00e7\u00e3o concreta do grau, da natureza e da extens\u00e3o dessa ofensa em fun\u00e7\u00e3o do acto m\u00e9dico realizado e da finalidade da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em causa. 3. A an\u00e1lise levada a cabo pelo Tribunal recorrido na aprecia\u00e7\u00e3o do caso dos autos configura, ressalvando sempre o devido respeito por opini\u00e3o diversa, um est\u00edmulo a uma pr\u00e1tica m\u00e9dica defensiva, sem assun\u00e7\u00e3o dos riscos pr\u00f3prios e moderados da actividade m\u00e9dica, com manifesto preju\u00edzo da sa\u00fade p\u00fablica, dos doentes e da evolu\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas m\u00e9dicas. 4. De todo o modo, sempre se dir\u00e1 que mesmo segundo a perspectiva do Tribunal a quo, o pressuposto da ilicitude nunca estaria seria verificado na hip\u00f3tese dos autos, pois a les\u00e3o sofrida pela primitiva autora n\u00e3o \u00e9 nem completamente estranha ao cumprimento do contrato (era, ali\u00e1s, um risco conhecido da primitiva autora, que esta mesmo assim assumiu), nem, em concreto, se pode considerar desproporcionada relativamente aos riscos normais inerentes aquela interven\u00e7\u00e3o (realiza\u00e7\u00e3o de uma colonoscopia). 5. Na an\u00e1lise que levou a cabo, o Tribunal a quo n\u00e3o atendeu \u00e0 circunst\u00e2ncia de o c\u00f3lon da autora se encontrar fragilizado, por virtude de aquela ter sido anteriormente submetida a uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica para remo\u00e7\u00e3o de tumor maligno, diagnosticado pelo segundo r\u00e9u num exame id\u00eantico. 6. De todo o modo, face \u00e0 factualidade que vem dada como demonstrada, n\u00e3o se divisa, na actua\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us qualquer conduta errada ou negligente que indicie a pr\u00e1tica por parte de qualquer um deles de algum il\u00edcito. 7. Pelo contr\u00e1rio, a factualidade que vem dada como provada indicia que o segundo r\u00e9u actuou com todo o cuidado na execu\u00e7\u00e3o do exame aqui em apre\u00e7o, agindo mais lentamente do que \u00e9 habitual, visto estar perante um col\u00f3n mais fragilizado e insuflando uma quantidade maior de ar, para mais facilmente permitir avan\u00e7o do colonosc\u00f3pio. 8. Resulta bem assim da factualidade provada que nada fazia suspeitar ao segundo r\u00e9u, ou \u00e0 enfermeira e ao anestesista que acompanharam a primitiva autora, durante o per\u00edodo em que esta esteve no recobro, que teria ocorrido uma perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon durante o exame a que a mesma fora submetida. 9. Em suma, na conduta do segundo r\u00e9u n\u00e3o se vislumbra qualquer desvio do dito padr\u00e3o de comportamento diligente e competente, designadamente uma desconformidade entre a actua\u00e7\u00e3o e as \"leges artis\", seja por ter realizado o exame de modo deficiente, seja por ter omitido actos necess\u00e1rios e adequados \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o e tratamento da sobredita perfura\u00e7\u00e3o. 10. O mesmo diz relativamente \u00e0 primeira r\u00e9, j\u00e1 que n\u00e3o se vislumbra no seu comportamento qualquer acto, ou omiss\u00e3o suscept\u00edvel de poder ser configurada como contr\u00e1ria \u00e0s \"leges artis\". 11. Da\u00ed que, salvo o devido respeito, n\u00e3o seja poss\u00edvel censurar civilmente a conduta dos r\u00e9us, os quais dever\u00e3o ser absolvidos do pedido, com a consequente absolvi\u00e7\u00e3o da ora recorrente. 12. Ainda que assim se n\u00e3o entenda, o que apenas se admite para efeitos do presente racioc\u00ednio, sempre se dir\u00e1 que, face \u00e0 factualidade que vem dada como demonstrada, n\u00e3o h\u00e1 fundamento que justifique a condena\u00e7\u00e3o da primeira r\u00e9 e, consequentemente, da aqui recorrente, tal como estabelecida pelo Tribunal a quo. 13. Na verdade, n\u00e3o resultou demonstrado que tipo de contrato foi celebrado (se \u00e9 que o foi) entre a mencionada AA e a primeira r\u00e9, n\u00e3o se sabendo nomeadamente se aquela foi internada nas instala\u00e7\u00f5es desta \u00faltima como doente particular do segundo r\u00e9u, ou se contratou os servi\u00e7os directamente com o hospital e em que termos. 14. A decis\u00e3o proferida pelo Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido quanto \u00e0 primeira r\u00e9 e \u00e0 aqui recorrente \u00e9 inaceit\u00e1vel, dado que nada se provou nos autos relativamente ao comportamento interventivo daquela no acto m\u00e9dico realizado \u00e0 primitiva autora, inexistindo, por isso, a verifica\u00e7\u00e3o dos pressupostos da responsabilidade contratual da primeira r\u00e9, nomeadamente qualquer ilicitude que tenha sido por si praticada e muito menos a sua culpa. 15. Da\u00ed que a primeira r\u00e9 deva ser absolvida do pedido, o que desde j\u00e1 se requer, com a consequente absolvi\u00e7\u00e3o da ora recorrente. 16. Mas mesmo que assim se n\u00e3o entendesse, o que apenas se equaciona para efeitos do presente racioc\u00ednio, sempre importa referir que Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido peca tamb\u00e9m nos termos em que condenou a recorrente, sem atender ao contrato de seguro que a legitima para os termos da presente ac\u00e7\u00e3o. 17. A este prop\u00f3sito importa ter presente que relativamente \u00e0 cobertura de \"Responsabilidade Civil Profissional\" o contrato de seguro aqui em apre\u00e7o apenas garante a Responsabilidade Civil \"...profissional de m\u00e9dicos que perten\u00e7am aos quadros efectivos do hospital\", tal como consta da al. h) do n\u00b0. 2 das Condi\u00e7\u00f5es Particulares da Ap\u00f3lice, isto \u00e9 do documento de fls. 221 a 234 dos autos, junto com a contesta\u00e7\u00e3o da aqui recorrente e cujo teor foi dado por reproduzido na mat\u00e9ria de Facto Provada (vide respectivo Ponto 57). 18. Ora, n\u00e3o consta dos autos e, muito menos, est\u00e1 dado como provado que o segundo r\u00e9u Dr. CC alguma vez tenha integrado os quadros efectivos do Hospital BB, ou que os integrasse, aquando da realiza\u00e7\u00e3o do exame m\u00e9dico aqui em discuss\u00e3o. 19. N\u00e3o estando a actividade exercida pelo m\u00e9dico Dr. CC nas instala\u00e7\u00f5es da primeira r\u00e9 abrangida pelo contrato de seguro celebrado com a ora recorrente, dever\u00e1 o Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido ser revogado e substitu\u00eddo por outro que absolva a ora recorrente do pedido. 20. Ainda que assim n\u00e3o fosse - o que apenas se admite para efeitos do presente racioc\u00ednio - cumpre salientar que, apesar de ser ter demonstrado que a cobertura de \"Responsabilidade Civil Profissional\" prevista no contrato de seguro celebrado com a ora recorrente, tem estabelecida uma franquia de 10%, sobre o valor do sinistro, com o m\u00ednimo de 1.000,00\u20ac (vide ponto 57 da Fundamenta\u00e7\u00e3o de Facto e documento de fls 221 a 234 dos autos), o Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido n\u00e3o procedeu \u00e0 sua dedu\u00e7\u00e3o no momento da atribui\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o que arbitrou aos recorridos. 21. Em face do exposto, importa proceder \u00e0 dedu\u00e7\u00e3o \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o que venha a ser fixada aos recorridos um montante equivalente a 10% do valor dessa indemniza\u00e7\u00e3o, o qual n\u00e3o poder\u00e1 ser inferior a 1.000,00\u20ac. 22. Quando assim se n\u00e3o entenda, sempre se dir\u00e1 que o montante arbitrado pelo Tribunal a quo a t\u00edtulo de indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais sofridos pela primitiva autora se mostra excessivo e desajustado, se tivermos em conta n\u00e3o apenas os factos dados como provados, mas tamb\u00e9m a orienta\u00e7\u00e3o que vem sendo seguida pela nossa Jurisprud\u00eancia em situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas e at\u00e9 mais gravosas. 23. Importa salientar a este prop\u00f3sito que a estabiliza\u00e7\u00e3o [a estabiliza\u00e7\u00e3o] total da les\u00e3o sofrida pela mencionada AA, em consequ\u00eancia da perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica ocorrida, deu-se cerca de 8 meses depois, n\u00e3o havendo not\u00edcia nos autos que aponte no sentido de esta ter ficado a padecer de qualquer sequela permanente decorrente dos factos aqui em apre\u00e7o. 24. Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o se demonstrou que, ap\u00f3s 07.011.2011, a indicada AA tivesse sofrido quaisquer dores, inc\u00f3modos, ou outros padecimentos, relacionados com os factos aqui em discuss\u00e3o, ou mesmo que aquela se visse na necessidade de se submeter a qualquer consulta, ou tratamento que a obrigasse a alterar as suas rotinas di\u00e1rias. 25. Importa, bem assim, salientar que, a perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon que veio a ocorrer e, consequentemente, todos os efeitos e constrangimentos a ela inerentes, foram, de certo modo, consentidos pela primitiva autora, que, conhecendo a possibilidade da verifica\u00e7\u00e3o desse risco, ainda assim o aceitou, face aos benef\u00edcios que o aludido exame lhe poderia trazer. 26. Note-se que o segundo r\u00e9u tinha j\u00e1 anteriormente diagnosticado \u00e0 primitiva autora um tumor maligno, por via de um exame complementar de diagn\u00f3stico id\u00eantico que realizou, o que permitiu que, tal tumor, lhe viesse a ser mais tarde removido. 27. Acresce que no caso aqui em apre\u00e7o sabemos que a compensa\u00e7\u00e3o que venha a ser atribu\u00edda por danos morais sofridos pela indicada AA jamais cumprir\u00e1, por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias conhecidas, a sua fun\u00e7\u00e3o reparadora, uma vez que ser\u00e1 atribu\u00edda aos seus herdeiros e n\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria. 28. Atento o supra exposto, considerando a factualidade que vem dada como provada e a orienta\u00e7\u00e3o que vem sendo seguida pela nossa Jurisprud\u00eancia em situa\u00e7\u00f5es an\u00e1logas (nomeadamente as que se citam no corpo destas alega\u00e7\u00f5es), \u00e9 a recorrente da opini\u00e3o de que se mostra mais adequada a quantia de 15.000,00 \u20ac como indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos morais sofridos pela primitiva autora. 29. A este montante sempre haver\u00e1 de ser deduzida a franquia de 10%, com um m\u00ednimo de 1.000,00\u20ac, tal como estabelecido no contrato de seguro celebrado entre a ora recorrente e a primeira r\u00e9 30. O Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido violou o disposto nos artigos 342.\u00b0, 483.\u00b0, 800.\u00b0, 496.\u00b0, 562.\u00b0 e 566.\u00b0 do C\u00f3digo Civil. Termina pedindo que seja dado provimento ao recurso. A interveniente GG, S.A. (seguradora do R. CC) concluiu da seguinte forma: 1. Os autos versam a quest\u00e3o da responsabilidade civil m\u00e9dica, visando os recorridos a fixa\u00e7\u00e3o de indemniza\u00e7\u00e3o por alegados danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais, causados \u00e0 malograda AA e que atribuem \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de endoscopia digestiva baixa levada a cabo pelo R. m\u00e9dico nas instala\u00e7\u00f5es do R, HOSPITAL. 2. Aos recorridos assistir\u00e1 o direito \u00e0 indemniza\u00e7\u00e3o mediante a prova de que os danos foram causados pela falta de cumprimento ou cumprimento defeituoso da obriga\u00e7\u00e3o. 3. No caso concreto, e de acordo com o alegado, o dano traduz-se na altera\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade da falecida AA. 4. Tal como resulta do douto ac\u00f3rd\u00e3o em aprecia\u00e7\u00e3o no presente recurso a p\u00e1ginas 31, quando o m\u00e9dico privado ou a entidade privada prestadora de cuidados de sa\u00fade, por causa que lhe seja imput\u00e1vel n\u00e3o efetue, ou efetue defeituosamente, a presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade a que se obrigou, causando danos ao doente, credor dessa presta\u00e7\u00e3o, por regra, constitu\u00edsse na obriga\u00e7\u00e3o de reparar o preju\u00edzo causado - artigos 798\u00b0 e 562\u00b0, ambos do C\u00f3digo Civil. Como assim, \u00e9 preciso que o facto do n\u00e3o cumprimento (a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o) se revista de ilicitude, a qual, no dom\u00ednio da responsabilidade contratual, se traduz numa rela\u00e7\u00e3o de desconformidade entre o comportamento devido, que seria necess\u00e1rio para a realiza\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o devida, e o comportamento tido pelo agente (artigo 762\u00b0 do C\u00f3digo Civil). 5. A responsabilidade extracontratual surge como consequ\u00eancia da viola\u00e7\u00e3o de direitos absolutos, que se encontram desligados de qualquer rela\u00e7\u00e3o pr\u00e9-existente entre o lesante e o lesado (obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar em consequ\u00eancia de um acidente de via\u00e7\u00e3o, por exemplo), a responsabilidade contratual pressup\u00f5e a exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o intersubjetiva, que atribu\u00eda ao lesado um direito \u00e0 presta\u00e7\u00e3o, surgindo como consequ\u00eancia da viola\u00e7\u00e3o de um dever emergente dessa mesma rela\u00e7\u00e3o (caso t\u00edpico de um contrato). 6. Nesta conformidade, aceita-se que a responsabilidade civil m\u00e9dica admite ambas as formas de responsabilidade referidas. \u00c9 que o mesmo facto poder\u00e1, ao mesmo tempo, representar a viola\u00e7\u00e3o de um contrato e um facto il\u00edcito extracontratual. Mas, no dom\u00ednio da responsabilidade aquiliana, apenas a responsabilidade civil fundada em factos il\u00edcitos \u00e9 admiss\u00edvel (e n\u00e3o pelo risco ou por facto l\u00edcitos). 7. Em situa\u00e7\u00f5es de concurso entre uma e outra das responsabilidades, e n\u00e3o olvidando que em \u00faltima an\u00e1lise toda a responsabilidade civil radica num princ\u00edpio geral de \"neminem laedere\", surgindo a responsabilidade contratual como uma das aplica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis deste princ\u00edpio, a resposta deve encontrar-se no regime da responsabilidade contratual, entendendo-se que esta subsume a responsabilidade extracontratual (ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa de 27 de setembro de 2012, processo n.\u00b0 512\/10.8TCFUN.L1-2, sendo relatora TERESA ALBUQUERQUE). 8. Os autos versam a quest\u00e3o da responsabilidade civil pela pr\u00e1tica de ato m\u00e9dico, entendido o conceito como ato executado por um profissional de sa\u00fade que consiste numa avalia\u00e7\u00e3o diagnostica, progn\u00f3stica ou de prescri\u00e7\u00e3o e execu\u00e7\u00e3o de medidas terap\u00eauticas. 9. Com efeito, a autora mediante o pagamento de um pre\u00e7o solicitou ao r\u00e9u, enquanto m\u00e9dico gastrenterologista, a realiza\u00e7\u00e3o de um exame m\u00e9dico da sua especialidade, o que exprime vincula\u00e7\u00e3o contratual. 10. A atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico perante o doente\/paciente pode, nuns casos, reconduzir-se \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de meios e, noutros, \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es de resultado, dependendo o enquadramento numa ou noutra da pondera\u00e7\u00e3o casu\u00edstica da natureza e do objetivo do ato m\u00e9dico (ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 17 de junho de 2014, processo n\u00ba 11279\/09.2TBVNG.P1, sendo relator M. PINTO DOS SANTOS). 11. No caso em apre\u00e7o, provou-se que a autora foi submetida a um exame de endoscopia digestiva baixa em regime de acompanhamento; o exame em causa demorou cerca de 50 minutos; uma colonoscopia, em m\u00e9dia, num paciente cuja execu\u00e7\u00e3o da mesma n\u00e3o comporte especial dificuldade, demora cerca de 15-20 minutos; a dura\u00e7\u00e3o do exame deveu-se \u00e0 circunst\u00e2ncia de se tratar de c\u00f3lon anteriormente sujeito a uma opera\u00e7\u00e3o de retirada de um tumor com necessidade de insuflar mais ar do que em outras situa\u00e7\u00f5es para facilitar a progress\u00e3o do colonosc\u00f3pio; a taxa de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica para colonoscopias est\u00e1 descrita como sendo da ordem dos 0,1 a 0,8%; a causa de uma perfura\u00e7\u00e3o do colon durante uma colonoscopia pode n\u00e3o derivar de incorreta introdu\u00e7\u00e3o ou manuseamento do aparelho ou excessiva introdu\u00e7\u00e3o de ar, podendo ter origem em c\u00f3lon com certos locais com processos aderenciais derivados de anteriores opera\u00e7\u00f5es, a configura\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio c\u00f3lon (sua angula\u00e7\u00e3o) ou a existirem segmentos e\u00f3licos isolados que podem conduzir a um aumento de press\u00e3o intrac\u00f3lica durante a colonoscopia. 12. A Autora foi submetida \u00e0 colonoscopia com vista a verificar da evolu\u00e7\u00e3o da sua doen\u00e7a, porquanto em 15 de janeiro de 2010 tinha-se realizado um outro exame de colonoscopia digestiva baixa e detetado um tumor maligno. 13. \u00ab\u00c9 de considerar que em especialidade como medicina interna, cirurgia geral, cardiologia, gastroenterologia, o especialista compromete-se com uma obriga\u00e7\u00e3o de meios \u2013 o contrato que o vincula ao paciente respeita apenas \u00e0s leges artis na execu\u00e7\u00e3o do ato m\u00e9dico; a um comportamento de acordo com a prud\u00eancia, o cuidado, a per\u00edcia e atua\u00e7\u00e3o diligentes, n\u00e3o estando obrigado a curar o doente. Mas especialidades h\u00e1 que visam n\u00e3o uma atua\u00e7\u00e3o direta sobre o corpo do doente, mas antes auxiliar na cura ou tentativa dela, como sejam os exames m\u00e9dicos realizados, por exemplo, nas \u00e1reas da bioqu\u00edmica, radiologia e, sobretudo, nas an\u00e1lises cl\u00ednicas\u00bb (Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Porto de 17 de junho de 2014, processo 1279\/09.2TBVNG.P1, sendo relator M. PINTO DOS SANTOS). 14. Independentemente do facto de a endoscopia a realizar ter ou n\u00e3o fins terap\u00eauticos ou curativos, este exame traduz-se numa interven\u00e7\u00e3o de natureza invasiva, implica a introdu\u00e7\u00e3o e manuseamento do colonosc\u00f3pio no organismo do paciente, possibilitando a observa\u00e7\u00e3o do intestino com vista ao diagn\u00f3stico e terap\u00eautica, tais como, a recolha de fragmentos da mucosa (bi\u00f3psia), a remo\u00e7\u00e3o de p\u00f3lipos (polipectomia) ou outros. 15. Na situa\u00e7\u00e3o dos autos o m\u00e9dico, ora r\u00e9u, ao aceitar fazer a colonoscopia apenas se obrigou a desenvolver e desempenhar a sua atividade colocando o seu saber \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da autora para assim alcan\u00e7ar o fim pretendido, o diagn\u00f3stico e eventual defini\u00e7\u00e3o de terap\u00eautica. 16. Pretendia-se averiguar se existia qualquer anomalia, o que impunha a introdu\u00e7\u00e3o do colonosc\u00f3pio o organismo da autora para observa\u00e7\u00e3o direta do intestino, o m\u00e9dico comprometeu-se a desenvolver prudente e diligentemente esta interven\u00e7\u00e3o, mas sem assegurar que efetivamente seria poss\u00edvel a observa\u00e7\u00e3o correta do intestino, a recolha de fragmentos da mucosa (bi\u00f3psia) ou a remo\u00e7\u00e3o de p\u00f3lipos (polipectomia) (v. g. a obriga\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico de empregar o seu saber tendente \u00e0 cura do doente, mas n\u00e3o se comprometendo \u00e0 cura efetiva). 17. O m\u00e9dico n\u00e3o pode assegurar o resultado, nem tal lhe pode ser exigido, a falta de obten\u00e7\u00e3o do resultado almejado com o exame pode resultar de factos que lhe s\u00e3o alheios. Alguns doentes apresentam angula\u00e7\u00f5es muito acentuadas do intestino, algumas cong\u00e9nitas, outras adquiridas ap\u00f3s processos inflamat\u00f3rios, o que inviabiliza ou dificulta a progress\u00e3o do endosc\u00f3pio. 18. A presen\u00e7a de les\u00f5es que obstruem significativamente o interior do intestino, tamb\u00e9m inviabiliza a progress\u00e3o do aparelho, impedindo a explora\u00e7\u00e3o intestinal acima dessa les\u00e3o. 19. A realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia \u00e0 autora n\u00e3o era uma interven\u00e7\u00e3o rotineira, conforme resulta demonstrado nos autos, o seu historial cl\u00ednico obrigou o m\u00e9dico a redobrados cuidados. 20. Constatando-se a perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica, mas n\u00e3o provado, como alegado pela autora, que tal se deveu a viola\u00e7\u00e3o grave das leges artis, fica por determinar a sua causa, tanto mais que o exame comporta alguns riscos e a perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica podia ter resultado de a autora ter sido sujeita a uma opera\u00e7\u00e3o pr\u00e9via de retirada de tumor e existirem no local processos aderenciais derivados dessa interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, o que pode ter conduzido a um aumento de press\u00e3o intrac\u00f3lica durante a colonoscopia e ter dado causa \u00e0 perfura\u00e7\u00e3o. 21. O r\u00e9u m\u00e9dico n\u00e3o pode ser responsabilizado civilmente com base em incumprimento contratual ou cumprimento defeituoso. 22. Para a proced\u00eancia da a\u00e7\u00e3o impunha-se a demonstra\u00e7\u00e3o de algum comportamento do m\u00e9dico que, objetivamente considerado, se mostrasse contr\u00e1rio ao Direito, com desconformidade entre a conduta devida e o comportamento observado. 23. Na opini\u00e3o da ora recorrente, da mat\u00e9ria assente n\u00e3o se consegue descortinar o que o m\u00e9dico fez e n\u00e3o deveria ter feito ou o que n\u00e3o fez e deveria ter feito. 24. N\u00e3o \u00e9 suficiente a alega\u00e7\u00e3o e prova da n\u00e3o obten\u00e7\u00e3o de um dado resultado. \u00c9 necess\u00e1rio provar a desconformidade objetiva entre os atos praticados pelo m\u00e9dico e os que lhe s\u00e3o exig\u00edveis, atendendo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o concreta do paciente. No campo da medicina, essa desconformidade objetiva que \u00e9 a ilicitude, afere-se pela viola\u00e7\u00e3o das leges artis. Significa portanto, que a ilicitude na atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico traduz-se no comportamento que aquele tenha tomado que contrarie as guide lines e standards de atua\u00e7\u00e3o cl\u00ednicos, atendendo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o concreta. 25. N\u00e3o resulta da mat\u00e9ria de facto provada nenhum comportamento que o R. devesse ter tomado em obedi\u00eancia \u00e0s boas pr\u00e1ticas m\u00e9dicas atendendo ao caso concreto. O que vale por dizer que n\u00e3o existe nenhum facto il\u00edcito gerador do dever de indemnizar. 26. \u00abNa responsabilidade contratual por neglig\u00eancia em ato m\u00e9dico, compete ao lesante provar a n\u00e3o culpa, mas a ilicitude da atua\u00e7\u00e3o deve ser provada pelo lesado. Ilicitude e culpa no ato m\u00e9dico danoso s\u00e3o conceitos diferentes, indicando o primeiro o que houve de errado na atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico e o segundo se esse erro deve ser-lhe assacado a t\u00edtulo de neglig\u00eancia\u00bb (Ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 22 de setembro de 2011, processo 674\/2001 P.L.S1, sendo relator BETTENCOURT DE FARIA). 27. Ao decidir diferentemente o douto ac\u00f3rd\u00e3o sob recurso violou as disposi\u00e7\u00f5es dos artigos 483.\u00b0, 798.\u00b0, 799.\u00b0 e 342.\u00b0, do C\u00f3digo Civil. 28. Se se entender n\u00e3o assistir raz\u00e3o \u00e0 recorrente, contrariamente ao que aqui se defende e que se admite por mero dever de patroc\u00ednio, o presente recurso destina-se ainda \u00e0 reaprecia\u00e7\u00e3o por este Tribunal do douto ac\u00f3rd\u00e3o que decidiu arbitrar uma indemniza\u00e7\u00e3o por dados n\u00e3o patrimoniais no valor de \u20ac28.000,00. 29. Existem danos n\u00e3o patrimoniais sempre que \u00e9 ofendido objetivamente um bem imaterial, cujo valor \u00e9 insuscet\u00edvel de ser avaliado pecuniariamente. 30. E o montante da indemniza\u00e7\u00e3o, nos termos dos artigos 496.\u00b0, n.\u00b0 3 e 494.\u00b0 do C\u00f3digo Civil, ser\u00e1 fixado equitativamente pelo tribunal, que atender\u00e1 ao grau de culpa do lesante \u00e0s demais circunst\u00e2ncias que contribuam para uma solu\u00e7\u00e3o equitativa, bem como aos crit\u00e9rios geralmente aditados pela jurisprud\u00eancia e \u00e0s flutua\u00e7\u00f5es do valor da moeda (ALMEIDA COSTA, Direito das Obriga\u00e7\u00f5es, 5a edi\u00e7\u00e3o, Coimbra, 1991, p\u00e1gs. 484 e 485). 30. Na situa\u00e7\u00e3o em aprecia\u00e7\u00e3o provou-se que a recorrida em virtude da perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica sofreu tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, v\u00e1rios per\u00edodo de internamento hospitalar, sofreu dores, teve de usar um saco de colostomia (para armazenar as fezes), carecendo durante cerca de oito meses de ajuda de terceiras pessoas para se vestir e despir, assim como para cuidar da sua higiene pessoal, sentiu-se diminu\u00edda, sofreu inc\u00f3modos e mal-estar e abalo moral. 31. Sem embargo destas les\u00f5es e do sofrimento intr\u00ednseco, o dano sofrido n\u00e3o assume a gravidade que \u00e9 traduzida pelo valor compensat\u00f3rio fixado, isto atendendo \u00e0s situa\u00e7\u00f5es apreciadas e valorizadas pela jurisprud\u00eancia mais recente. 32. As circunst\u00e2ncias espec\u00edficas do caso concreto demandam uma pondera\u00e7\u00e3o do montante equivalente a uma compensa\u00e7\u00e3o digna de todo o sofrimento, sem olvidar que a mesma se dirige, primordialmente, para satisfa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio lesado, na perspetiva de minimizar a sua dor e as suas perdas, por isso se imp\u00f5e que seja s\u00e9ria e que corresponda \u00e0 dignidade dos valores lesados mas, por outro lado, levando em considera\u00e7\u00e3o a relatividade de cada caso e as circunst\u00e2ncias da vida que evidenciam, quotidianamente, que valores mais elevados s\u00e3o infringidos. 33. Para alcan\u00e7armos esta harmonia importa considerar os crit\u00e9rios jurisprudenciais como forma de evitar desigualdade, apelando \u00e0 dimens\u00e3o e abrang\u00eancia dos valores imateriais efetivamente tutelados. 34. Assim sendo, \u00e0 luz dos crit\u00e9rios jurisprudenciais mais recentes (atente-se nos ac\u00f3rd\u00e3o citados no corpo destas alega\u00e7\u00f5es) cr\u00ea-se que a indemniza\u00e7\u00e3o arbitrada em primeira inst\u00e2ncia \u00e9 excessiva, tendo o tribunal feito errada aplica\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o do disposto no artigo 496.\u00b0, do C\u00f3digo Civil. Termina pedindo que seja revogado o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido e substitu\u00eddo por outro que absolva os RR. e as intervenientes do pedido. Subsidiariamente, pede que seja reduzido o montante fixado para compensa\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais. A Recorrida herdeira habilitada AA contra-alegou, formulando as seguintes conclus\u00f5es: A) Como decidido e sumariado no douto Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, \"se a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos se reconduz \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame-colonoscopia-, sem fins curativos ou terap\u00eauticos, \u00e9 de considerar verificado o pressuposto da ilicitude quando a les\u00e3o sofrida (perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica) seja em alt\u00edssimo grau estranha ao cumprimento do fim do contrato (probabilidade inferior a 1%) e a sua gravidade resulte desproporcionada quando comparada com os riscos normais para o lesado, inerentes \u00e0quela interven\u00e7\u00e3o ou acto m\u00e9dico.\" B) Na verdade, \"nas sobreditas circunst\u00e2ncias, o consentimento informado do doente (o conhecimento de risco de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica) n\u00e3o exclui a ilicitude do acto m\u00e9dico, pois que o consentimento n\u00e3o abrange a les\u00e3o f\u00edsica perpetrada.\" C) Posto que \"verificada a ilicitude, por for\u00e7a do preceituado no art. 799\u00b0, n\u00b0 1 do C\u00f3digo Civil incumbe ao m\u00e9dico afastar a presun\u00e7\u00e3o de culpa, comprovando que os procedimentos adoptados eram os exigidos pelas \"leges artis\" aplic\u00e1veis ao caso ou que a les\u00e3o sobreveio por causa de for\u00e7a maior e\/ou facto imput\u00e1vel ao lesado\". D) Ao contr\u00e1rio do que pretende o recorrente CC, da mat\u00e9ria de facto dada como provada na senten\u00e7a de 1\u00aa Inst\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de forma alguma dar por ilidida a referida presun\u00e7\u00e3o de culpa. E) Ali\u00e1s, ainda que o douto Ac\u00f3rd\u00e3o \"a quo\" tivesse errado na aprecia\u00e7\u00e3o da prova, o que de todo n\u00e3o se verifica, tal facto n\u00e3o poderia ser objecto do presente recurso de revista, como decorre do disposto no art.\u00b0 674\u00b0, n\u00b0 3, do C.P.C F) Inexiste, ao contr\u00e1rio do que pretende o recorrente CC, qualquer contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos da decis\u00e3o, os factos provados e o decidido, suscept\u00edvel de gerar a pretendida nulidade do Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido. G) O Ac\u00f3rd\u00e3o em quest\u00e3o destrin\u00e7ou de forma detalhada e profunda no dom\u00ednio da responsabilidade civil m\u00e9dica, a obriga\u00e7\u00e3o de meios da obriga\u00e7\u00e3o de resultado, n\u00e3o procedendo a alega\u00e7\u00e3o segundo a qual dele resultaria a irrelev\u00e2ncia da distin\u00e7\u00e3o entre obriga\u00e7\u00e3o de meios e de resultado, acabando por considerar que se trataria sempre de uma obriga\u00e7\u00e3o do resultado, tese que n\u00e3o encontra qualquer sustenta\u00e7\u00e3o no douto Ac\u00f3rd\u00e3o \"a quo\". H) Ao contr\u00e1rio do que sustenta o recorrente Hospital BB, no douto Ac\u00f3rd\u00e3o n\u00e3o existe qualquer contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos apresentados e a conclus\u00e3o deles extra\u00edda, inexistindo a invocada nulidade nos termos do art. 615\u00b0, n\u00b0 1, c), do C.P.C. I) Posto que como resultou clara e inequivocamente provado nos autos, do exame em causa resultou a perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica que era em alt\u00edssimo grau estranha ao cumprimento do fim do contrato (probabilidade inferior a 1%) e a sua gravidade desproporcionada quando comparada com os riscos normais para o lesado, inerentes \u00e0quela concreta interven\u00e7\u00e3o ou acto m\u00e9dico. J) De resto, uma coisa \u00e9 o facto il\u00edcito resultante de ter havido a referida perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica, outra coisa bem distinta \u00e9, uma vez verificada a ilicitude, incumbir aos RR afastar a presun\u00e7\u00e3o de culpa por for\u00e7a do disposto no art. 799\u00b0, n\u00b0 1, do C\u00f3digo Civil, o que, atendendo aos factos dados como provados, n\u00e3o ocorreu. K) Improcede a alega\u00e7\u00e3o do recorrente Hospital BB, segundo a qual caberia \u00e0 Autora o \u00f3nus da prova da ilicitude como facto constitutivo do direito da indemniza\u00e7\u00e3o quando aquela decorre \"ipso facto\" da perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon verificada, no que o Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido acolhe e subscreve o entendimento sufragado pelo douto Ac\u00f3rd\u00e3o desse Supremo Tribunal (cfr. Ac\u00f3rd\u00e3o de 1 de Outubro de 2015, 7\u00aa Sec\u00e7\u00e3o, Relatora Cons.\u00aa Maria dos Prazeres Beleza, tirado no Recurso n.\u00b0 2104\/05.4TBPVZ.P.S1, dispon\u00edvel in www.dgsi.pt), em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 dos autos. L) O Ac\u00f3rd\u00e3o \"a quo\" considerou, com total congru\u00eancia, que havendo facto il\u00edcito caberia ao R. m\u00e9dico afastar a presun\u00e7\u00e3o de culpa por for\u00e7a do disposto no art. 799\u00b0, n\u00b0 1, do C\u00f3digo Civil, comprovando que os procedimentos adoptados eram os exigidos pelas \u00ableges artis\u00bb ou que a les\u00e3o sobreveio por causa de for\u00e7a maior ou facto imput\u00e1vel ao lesado, o que n\u00e3o provou. M) Improcede, pois, a tese do Hospital segundo a qual a decis\u00e3o recorrida estaria ferida de nulidade por n\u00e3o especificar os fundamentos de facto e de direito que a justificam. N) N\u00e3o se mostra igualmente procedente a alega\u00e7\u00e3o do recorrente Hospital segundo a qual a factualidade assente n\u00e3o evidencia que o R\u00e9u m\u00e9dico tivesse actuado como auxiliar no cumprimento dos servi\u00e7os contratados entre a Autora e o R\u00e9u Hospital, concluindo n\u00e3o ter aplica\u00e7\u00e3o o disposto no art. 800\u00b0 do C\u00f3digo Civil, uma vez que a tese agora defendida pelo Recorrente Hospital contradiz o teor da contesta\u00e7\u00e3o que apresentou na 1\u00aa Inst\u00e2ncia. O) A quest\u00e3o suscitada ex novo pela recorrente seguradora segundo a qual n\u00e3o estaria provado que o r\u00e9u Dr. CC alguma vez tivesse integrado os quadros efectivos do Hospital BB, ou que os integrasse, aquando da realiza\u00e7\u00e3o do exame m\u00e9dico, n\u00e3o foi suscitada oportunamente nem foi considerada na decis\u00e3o de 1\u00aa Inst\u00e2ncia, pelo que \u00e9 intempestiva, n\u00e3o podendo constituir fundamento da presente Revista. P) Com efeito, n\u00e3o pode agora em sede de recurso de Revista suscitar tal d\u00favida sobre a integra\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, do R\u00e9u Dr. CC nos quadros efectivos do Hospital BB, mat\u00e9ria que notoriamente est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com os factos singelos dados como provados na 1\u00aa Inst\u00e2ncia e que oportunamente n\u00e3o impugnou. Q) Quanto ao car\u00e1cter pretensamente excessivo da quantia atribu\u00edda por danos n\u00e3o patrimoniais (de \u20ac 28.000,00) - e atento o extenso rol de danos sofridos pela A. e dados como provados - n\u00e3o se afigura pass\u00edvel da menor cr\u00edtica a indemniza\u00e7\u00e3o fixada pelo Ac\u00f3rd\u00e3o recorrido. Cumpre decidir. 3. Vem provado o seguinte (mant\u00eam-se a identifica\u00e7\u00e3o e a redac\u00e7\u00e3o das inst\u00e2ncias): 1 - A Autora nasceu a 19.01.1928. 2 - A Autora foi paciente do R\u00e9u CC que exerce as fun\u00e7\u00f5es de m\u00e9dico gastrenterologista no R\u00e9u Hospital [BB, SA] desde 1.03.1999. 3 - O R\u00e9u Hospital tem por objecto a presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade. 4 - No dia 15.03.2011, pelas 17 horas, a Autora foi submetida a um exame de endoscopia digestiva baixa nas instala\u00e7\u00f5es do R\u00e9u Hospital pelo R\u00e9u CC em regime de consulta de acompanhamento. 5 - O R\u00e9u CC conhecia a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica anterior da Autora. 6 - O exame em causa demorou cerca de 50 minutos. 7 - Uma colonoscopia, em m\u00e9dia, num paciente cuja execu\u00e7\u00e3o da mesma n\u00e3o comporte especial dificuldade, demora cerca de 15-20 minutos. 8 - A Autora, depois da realiza\u00e7\u00e3o do exame, foi para o recobro, de onde saiu pelas 20:00 horas. 9 - N\u00e3o foram dadas \u00e0 Autora, ao ser-lhe dada alta, recomenda\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas em concreto, nomeadamente quanto ao que deveria comer. 10 - Quando saiu do R\u00e9u Hospital, a Autora sentia desconforto na zona da barriga caminhando com a ajuda primeiro de uma enfermeira e depois da sua filha. 11 - No dia 16.03.2011, a Autora sentia desconforto na zona da barriga, com dores e mal-estar tendo, depois de ter telefonado de manh\u00e3 para o Dr. LL e \u00e0 tarde para o R\u00e9u Hospital, por volta das 23 horas deu entrada no ent\u00e3o denominado Hospital Privado \u2026., actual Hospital MM onde realizou radiografia abdominal e tor\u00e1xica, tomografia axial computorizada (TAC) ao abd\u00f3men e zona p\u00e9lvica bem como exames hematol\u00f3gicos. 12 - Nesse Hospital Privado \u2026 foi conclu\u00eddo que a Autora apresentava exuberante quantidade de ar livre intra-abdominal (intra e retro peritoneal) sugerindo perfura\u00e7\u00e3o de v\u00edscera oca, tinha pequena quantidade de l\u00edquido livre na cavidade p\u00e9lvica, aspectos imagiol\u00f3gicos compat\u00edveis com cirurgia c\u00f3lica pr\u00e9via. Foi igualmente conclu\u00eddo que a Autora apresentava distens\u00e3o abdominal e dor localizada nos quadrantes inferiores e que a radiografia abdominal n\u00e3o foi poss\u00edvel de interpretar mas que com a TAC se confirmou pneumoperitoeu. 13 - A pedido da Autora, esta foi encaminhada para o Hospital NN, onde foi internada no dia 17.03.2011, \u00e0s 01h e 25 m, apresentando no servi\u00e7o de urg\u00eancia abd\u00f3men distendido, timpanizado, com dores \u00e0 palpa\u00e7\u00e3o difusa sem sinais de irrita\u00e7\u00e3o peritoneal, tendo sido submetida a laparotomia, constatando-se perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica e realizou colostomia lateral sobre bagette. 14 - A Autora teve alta do Hospital NN, em 30.03.2011. 15 - Com o consentimento da Autora, esta foi admitida no Hospital OO no mesmo dia 30.03.2011 para realiza\u00e7\u00e3o de medidas de suporte e tratamento, por motivo de infec\u00e7\u00e3o e deisc\u00eancia de ferida operat\u00f3ria (com eviscera\u00e7\u00e3o contida), desnutri\u00e7\u00e3o e cuidados de manuseamento e colostomia derivativa, tendo alta a 9.04.2011, em condi\u00e7\u00e3o est\u00e1vel, apir\u00e9tica, a tolerar dieta com refor\u00e7o proteico e vitam\u00ednico, com necessidade de suporte de terceira pessoa para algumas actividades da vida di\u00e1ria e para a realiza\u00e7\u00e3o de pensos. 16 - Foi prevista na data da alta pelo Hospital OO um novo internamento de curto prazo para desbridamento cir\u00fargico da ferida operat\u00f3ria e enxerto de pele sendo considerada futura candidata a reconstru\u00e7\u00e3o do tr\u00e2nsito c\u00f3lico e repara\u00e7\u00e3o da h\u00e9rnia incisional. 17 - Em 12.04.2011, a Autora foi sujeita a cirurgia pl\u00e1stica pelo Dr. PP para fechamento da deisc\u00eancia da pele mediante enxerto em rede tendo ficado internada depois dessa cirurgia at\u00e9 18.04.2011. 18 - Em 2.11.2011, a Autora foi internada na Ordem QQ para encerramento da colostomia, tendo a\u00ed ficado internada at\u00e9 17.11.2011. 19 - As opera\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas referidas em 13., 15., 17. e 18. tiveram como causa directa a perfura\u00e7\u00e3o referida em 13. ocorrida no exame de colonoscopia de 15.03.2011. 20 - O R\u00e9u n\u00e3o referiu \u00e0 Autora nem \u00e0 filha que tinha ocorrido perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon na realiza\u00e7\u00e3o do exame do dia 15.03.2011. 21 - A Autora, depois do exame, sentia desconforto e mal-estar abdominal, com a sensa\u00e7\u00e3o de ter \u00abduas barrigas\u00bb e sentir a barriga como \u00abum tambor\u00bb. 22 - No recobro, foi colocada uma sonda na Autora para a aliviar retirando o ar que tinha sido colocado no intestino, tendo a Autora passado a sentir-se melhor. 23 - Pessoal de enfermagem do R\u00e9u Hospital informou a filha da Autora que esta se encontrava no recobro em bom estado de sa\u00fade. 24 - O R\u00e9u CC realizou a 25.01.2010 um outro exame de colonoscopia digestiva baixa \u00e0 Autora tendo-lhe detectado um tumor maligno. 25 - Antes dessa colonoscopia realizada em 2010, a 29.12.2009 o mesmo CC iniciou colonoscopia \u00e0 Autora interrompendo-a por falta de prepara\u00e7\u00e3o adequada do colon. 26 - Desde o fim do exame realizado pelo R\u00e9u CC a 15.03.2011 e at\u00e9 Abril de 2011 a Autora sentiu dores. 27 - Na opera\u00e7\u00e3o realizada a 17.03.2011 no Hospital NN, Porto, ocorreu abertura do abd\u00f3men da Autora por uma anterior abertura cicatrizada. 28 - Com essa abertura, depois de cicatrizada, a Autora sentiu mais cansa\u00e7o. 29 - Por for\u00e7a dessa abertura, a Autora passou a usar cinta que lhe causava desconforto e a n\u00edvel est\u00e9tico a perturbou n\u00e3o usando roupas que permitissem que fosse vista a cicatriz, nomeadamente na praia. 30 - A Autora sentia-se desconfort\u00e1vel com o saco de colostomia que n\u00e3o aplicava sozinha, necessitando de ajuda de terceiros para o mudar, tendo mesmo rebentado por algumas vezes, incluindo de noite, implicando a toma de banho e mudan\u00e7a de roupa pessoal e de cama. 31 - Depois da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica do dia 17.03.2011 e at\u00e9 Novembro de 2011, a Autora ficou dependente de terceiros para se vestir e despir, tratar da sua higiene. 32 - O filho da Autora, que vive com a mesma, auxiliou-a, incluindo na mudan\u00e7a de saco, tomas de banho, mudan\u00e7a de roupa, dormindo inclusive a Autora no seu quarto durante algum tempo. 33 - Por usar saco de colostomia, a Autora sentiu-se diminu\u00edda, com perda de auto-estima e vergonha da sua situa\u00e7\u00e3o, reduziu as suas sa\u00eddas de casa e conviv\u00eancia com amigas. 34 - Antes da coloca\u00e7\u00e3o de tal saco, a Autora era uma pessoa alegre, aut\u00f3noma, que gostava de sair sozinha ou com amigas, fazia \u00abPilates\u00bb, que se destinava tamb\u00e9m \u00e0 melhora da sua escoliose. 35 - Depois da coloca\u00e7\u00e3o do referido saco, a Autora deixou de praticar \u00abPilates\u00bb. 36 - Por for\u00e7a da acima referida perfura\u00e7\u00e3o do colon, a Autora teve as seguintes despesas: \u00bb 1. 275, 00 \u20ac \u2013 opera\u00e7\u00e3o realizada a 12.04.2011; \u00bb 300 \u20ac - servi\u00e7os m\u00e9dicos prestados durante o internamento da opera\u00e7\u00e3o realizada em 12.04.2011 pelo Dr. RR; \u00bb 400 \u20ac - assist\u00eancia hospitalar e realiza\u00e7\u00e3o de pensos \u00e0 Autora no internamento ocorrido a 30.03.2011; \u00bb 1. 830, 09 \u20ac - internamento na Ordem QQ pelo internamento de 12.04 a 18.04.2011; \u00bb 60 \u20ac - consulta de cirurgia geral na Ordem QQ; \u00bb 2. 753, 25 \u20ac \u2013 internamento na Ordem QQ de 2.11. a 7.11.2011; \u00bb 2. 000, 00 \u20ac - pagamentos de actos m\u00e9dicos da cirurgia de 2.02.2011; \u00bb 1 \u20ac em paracetamol, 12, 60 \u20ac em vitaminas, 1, 18 \u20ac em sab\u00e3o, 0, 61 \u20ac em compressas, 41, 45 \u20ac (um saco de colostomia), 0, 90 \u20ac em ligadura, 2, 75 \u20ac em adesivo, 1, 71 \u20ac em soro fisiol\u00f3gico, 3, 40 \u20ac em compressas, 2, 25 \u20ac em compressas, 2, 25 \u20ac em compressas, 1, 70 \u20ac em compressas, 15, 82 \u20ac em medicamentos, 41, 11 \u20ac em material ortop\u00e9dico e\/ou fisi\u00e1trico. 37 - A Autora conhecia os riscos inerentes \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame de colonoscopia, incluindo a possibilidade de perfura\u00e7\u00e3o, tendo-lhe sido transmitido em 29.12.2009, 25.01.2010 e 15.03.2011, informa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos exames. 38 - A Autora assinou em 15.03.2011, antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame desse dia feito pelo R\u00e9u CC, um impresso do Hospital com o t\u00edtulo \u00abConsentimento Informado\u00bb, onde a Autora assina uma declara\u00e7\u00e3o em que afirma compreender a explica\u00e7\u00e3o fornecida acerca do seu caso cl\u00ednico e os riscos em causa, conforme consta a fls. 125 dos autos. 39 - Antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame, foi enviado pelo R\u00e9u Hospital um e-mail \u00e0 filha da Autora com as recomenda\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia. 40 - A dura\u00e7\u00e3o do exame referida em 6. deveu-se \u00e0 circunst\u00e2ncia de se tratar de um colon anteriormente sujeito a uma opera\u00e7\u00e3o de retirada de um tumor com necessidade de se insuflar mais ar do que em outras situa\u00e7\u00f5es para facilitar a progress\u00e3o do clonosc\u00f3pio. 41 - O exame foi realizado com seda\u00e7\u00e3o geral da Autora. 42 - No decurso do exame n\u00e3o foi detectada a perfura\u00e7\u00e3o do colon, sem sinais de sangue no mesmo. 43 - O R\u00e9u CC tentou retirar a maior quantidade de ar poss\u00edvel na fase final do exame. 44 - Parte do ar que foi insuflado para o intestino delgado, aumentando a distens\u00e3o do abd\u00f3men da Autora. 45 - Depois do exame, na sala de recobro, a Autora esteve sempre vigiada pelo anestesista e enfermeira. 46 - No recobro, o R\u00e9u CC analisou a Autora, apalpou-lhe o abd\u00f3men e referiu-lhe que tinha muito ar. 47 - No recobro, a Autora foi \u00e0 casa de banho evacuar ar e revelou melhorias. 48 - A Autora comeu bolachas e bebeu ch\u00e1 no recobro e andou a p\u00e9 ainda que com aux\u00edlio de terceiros. 49 - No recobro n\u00e3o foram detectados sinais de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica, estando a tens\u00e3o arterial da Autora est\u00e1vel e em valores adequados \u00e0 idade desta, sem febre e sempre consciente. 50 - Tais sinais de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica podem ser a presen\u00e7a de sangue na realiza\u00e7\u00e3o do exame, contratura abdominal, dor aguda, v\u00f3mitos, febre, incapacidade de o doente se alimentar, levantar ou andar. 51 - Se o R\u00e9u CC tivesse detectado ind\u00edcios de perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon da Autora, n\u00e3o teria permitido a sua sa\u00edda e determinava a realiza\u00e7\u00e3o de exames para o aferir e se fosse confirmada seria, em princ\u00edpio, sujeita a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. 52 - Depois da alta, a Autora n\u00e3o conseguiu falar com o R\u00e9u CC por telefone. 53 - A taxa de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica para colonoscopias diagn\u00f3stica est\u00e1 descrita como sendo da ordem dos 0,1 a 0,8%. 54 - A causa de uma perfura\u00e7\u00e3o do colon durante uma colonoscopia pode n\u00e3o derivar de incorrecta introdu\u00e7\u00e3o ou manuseamento do aparelho ou excessiva introdu\u00e7\u00e3o de ar, podendo ter origem em c\u00f3lon estar em certos locais com processos aderenciais derivados de anteriores opera\u00e7\u00f5es, a configura\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio colon (sua angula\u00e7\u00e3o) ou existirem segmentos c\u00f3licos isolados que podem conduzir a um aumento de press\u00e3o intrac\u00f3lica durante a colonoscopia. 55 - A perfura\u00e7\u00e3o do colon durante a colonoscopia pode iniciar-se com uma microfissura, pode a perfura\u00e7\u00e3o estar oculta nomeadamente por uma prega do intestino ou pela parede do mesmo. 56 - O R\u00e9u CC \u00e9 um gastroenterologista conceituado, com mais de 30 anos de experi\u00eancia, tendo realizado in\u00fameros exames como o realizado \u00e0 Autora. 57 - Por contrato titulado pela ap\u00f3lice n.\u00ba 0001\u20262 foi transferida para a interveniente \u201c Companhia de Seguros DD, SA \u201c a responsabilidade civil imput\u00e1vel ao R\u00e9u Hospital por les\u00f5es materiais ou corporais causadas involuntariamente a pacientes ou terceiros em geral sendo os capitais contratados de 1. 250. 000, 00 para \u00abResponsabilidade Civil Explora\u00e7\u00e3o\u00bb, com franquia de 10 %, sobre o valor do sinistro, com um m\u00ednimo de \u20ac 250, 00, 1. 250. 000, 00 para \u00abResponsabilidade Civil Profissional\u00bb, com franquia de 10% sobre o valor do sinistro, com um m\u00ednimo de \u20ac 1. 000, 00, conforme documento a fls. 221 a 234 dos autos, cujo teor se d\u00e1 por reproduzido. 58 - Por contrato titulado pela ap\u00f3lice n.\u00ba 0084\u20266 foi transferida para a interveniente \u201cFF - Companhia de Seguros, S.A.\u201d a responsabilidade civil imput\u00e1vel ao R\u00e9u CC por danos causados a terceiros no exerc\u00edcio da sua profiss\u00e3o de gastroenterologista de \u20ac 300. 000, 00 para \u00abResponsabilidade Civil Explora\u00e7\u00e3o\u00bb e \u20ac 600. 000, 00 para \u00abResponsabilidade Civil Profissional\u00bb, conforme documento a fls. 246 a 265 dos autos, cujo teor se d\u00e1 por reproduzido. Foram dados como n\u00e3o provados os seguintes factos: 1) O R\u00e9u CC exer\u00e7a fun\u00e7\u00f5es no \u00abGabinete de Endoscopia Digestiva-Doutor CC &amp; Doutor SS, Lda.\u00bb, Ordem do TT. 2) O exame referido em 4), dos factos provados tenha durado at\u00e9 \u00e0s 20.30 horas. 3) A Autora levasse consigo o seu processo cl\u00ednico. 4) Quando a Autora saiu do R\u00e9u \u00abHospital.,.\u00bb estivesse com dores intensas na barriga. 5) O R\u00e9u CC tenha dito \u00e0 Autora e filha que o exame de 15\/03\/2011 tinha sido dif\u00edcil. 6) A Autora tenha sido incapaz de realizar movimentos incluindo abdominais para o seu al\u00edvio. 7) A Autora tenha repetido v\u00e1rias vezes ao R\u00e9u CC \u00abentrei bem e saio daqui muito mal\u00bb. 8) O pessoal do R\u00e9u \u00abHospital, .. \u00bb tenha ignorado as queixas da Autora . .... \" 9) Quando a Autora saiu do R\u00e9u \u00abHospital, .. \u00bb o seu abd\u00f3men estivesse anormalmente inchado e estivesse incapaz de andar sozinha. 10) \u00c0 Autora tenha sido unicamente recomendado pelo R\u00e9u CC que tinha de \u00abficar a ch\u00e1\u00bb no dia 16\/03\/2011. 11) A Autora tenha sentido dores duramente meses ap\u00f3s 15\/03\/2011. 12) A cicatriz no abd\u00f3men da Autora referida em 27) tenha 15 cms. por 3,5 cms. e exista por causa da perfura\u00e7\u00e3o no colon causada pelo exame realizado pelo R\u00e9u CC. 13) A Autora por causa da perfura\u00e7\u00e3o no colon ocorrida no dia 15\/03\/2011 gaste 1 073,93 EUR em medicamentos, 152 EUR em cintas, 137,65 EUR em exames m\u00e9dicos, 228,50 EUR em tratamentos de fisioterapia, 200 EUR em desloca\u00e7\u00f5es, 1 000 EUR com assist\u00eancia no domic\u00edlio. 14) \u00c0 Autora tenha sido expressamente referido pelo R\u00e9u CC ou por algum profissional do R\u00e9u \u00abHospital, .. \u00bb que por estar em causa um c\u00f3lon operado e o estado geral do mesmo c\u00f3lon estar mais debilitado face \u00e0 opera\u00e7\u00e3o ao tumor, o exame consubstanciava um maior risco. 15) Tenha sido dito \u00e0 Autora que o exame ia demorar mais tempo por que tinham de se adotar cuidados acrescidos. 16) \u00c0 Autora, no fim do recobro, tenha sido aconselhado a comer mais bolachas e beber ch\u00e1. 17) Depois da alta, a Autora n\u00e3o tenha contactado o R\u00e9u \u00abHospital. .. \u00bb. 18) Os anos concretos de experi\u00eancia do R\u00e9u CC e o n\u00famero de colonoscopias que j\u00e1 realizou. 19) O R\u00e9u \u00abHospital... \u00bb tenha entregue \u00e0 Autora ou \u00e0 sua filha a denominada nota informativa 302 cuja c\u00f3pia consta a fls. 162 164, seja em dezembro de 2001, janeiro de 2010 ou mar\u00e7o de 2011, previamente aos exames referidos nos factos provados. 4. Tendo em conta o disposto no n\u00ba 4, do art. 635\u00ba, do C\u00f3digo de Processo Civil, o objecto dos recursos delimita-se pelas conclus\u00f5es dos mesmos. Assim, nos presentes recursos, est\u00e3o em causa as seguintes quest\u00f5es: Recurso da R. Hospital BB, S.A.: - Nulidade por falta de especifica\u00e7\u00e3o dos fundamentos de facto (art. 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea b), do CPC); - Nulidade por contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos e a decis\u00e3o (art. 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea c), do CPC); - N\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o do pressuposto da ilicitude da conduta do R. CC; - N\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o do pressuposto da culpa da conduta do R. CC; - Inexist\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e a R. Hospital. S.A. ou exist\u00eancia de duas rela\u00e7\u00f5es contratuais (uma entre a A. e o m\u00e9dico CC, e outra entre a A. e o Hospital); - Inexist\u00eancia de solidariedade entre a responsabilidade da R. Hospital e a responsabilidade do R. CC; - Subsidiariamente, redu\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais. Recurso da interveniente Seguradoras EE (seguradora da R. Hospital, S.A.): - N\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o do pressuposto da ilicitude da conduta do R. m\u00e9dico; - Subsidiariamente, inexist\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e a R. Hospital. S.A. ou, se existiu, falta de prova da sua natureza; - Subsidiariamente, exclus\u00e3o do evento lesivo da cobertura do contrato de seguro celebrado entre a R. Hospital, S.A. e a interveniente Tranquilidade (actual Seguradoras EE); - Subsidiariamente, dedu\u00e7\u00e3o do valor da franquia, prevista no mesmo contrato de seguro; - Subsidiariamente, redu\u00e7\u00e3o do montante da indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais para \u20ac 15.000. Recurso do R. CC: - Nulidade por contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos, a mat\u00e9ria dada como provada, e o decidido; - N\u00e3o responsabiliza\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico por n\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o dos pressupostos da ilicitude e da culpa. Recurso da interveniente GG, S.A. (seguradora do R. CC): - Aus\u00eancia de responsabilidade do R. CC por n\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o dos pressupostos da ilicitude e da culpa; - Subsidiariamente, redu\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais. As quest\u00f5es ser\u00e3o apreciadas pela seguinte ordem de preced\u00eancia: - Nulidade por falta de especifica\u00e7\u00e3o dos fundamentos de facto (art. 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea b), do CPC) [recurso da R. Hospital, S.A.]; - Nulidade por contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos e a decis\u00e3o (art. 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea c), do CPC) [recursos da R. Hospital, S.A. e do R. CC]; - N\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o dos pressupostos da ilicitude e da culpa na conduta do m\u00e9dico (o R. CC) [todos os recursos]; - Subsidiariamente, redu\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais [recursos da R. Hospital, S.A. e de ambas as intervenientes]; - Inexist\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e a R. Hospital, S.A. ou exist\u00eancia de duas rela\u00e7\u00f5es contratuais (uma entre a A. e o m\u00e9dico CC; e outra entre a A. e o Hospital, S.A.) [recurso da R. Hospital, S.A. e da interveniente Seguradoras EE]; - Inexist\u00eancia de solidariedade entre a responsabilidade da R. Hospital, S.A. e a responsabilidade do R. CC; [recurso da R. Hospital, S.A.]; Apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 responsabilidade da interveniente Seguradoras EE (seguradora da R. Hospital, S.A.): - Subsidiariamente, exclus\u00e3o do evento lesivo da cobertura do contrato de seguro celebrado entre a R. Hospital, S.A. e a interveniente DD (actual Seguradoras EE); - Subsidiariamente, dedu\u00e7\u00e3o do valor da franquia, prevista no mesmo contrato de seguro. 5. Relativamente \u00e0 quest\u00e3o da alegada nulidade por falta de especifica\u00e7\u00e3o dos fundamentos de facto que justificam a decis\u00e3o (art. 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea b), do CPC), suscitada pela Recorrente Hospital, S.A. de forma repetida ao longo das conclus\u00f5es recurs\u00f3rias, a resposta n\u00e3o pode deixar de ser negativa. N\u00e3o apenas a factualidade dada como provada consta do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, como a decis\u00e3o de direito resulta da interpreta\u00e7\u00e3o das normas legais e sua aplica\u00e7\u00e3o aos factos. Tal decis\u00e3o poder\u00e1 padecer de erro de julgamento, mas este n\u00e3o se confunde com o v\u00edcio de falta de fundamenta\u00e7\u00e3o de facto que justifique a decis\u00e3o, concluindo-se pela inexist\u00eancia da alegada nulidade. 6. Quanto \u00e0 quest\u00e3o da alegada nulidade por contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos e a decis\u00e3o (art. 615\u00ba, n\u00ba 1, al\u00ednea c), do CPC), constata-se que a Recorrente Hospital, S.A. e o Recorrente CC pretendem que existe contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos de facto e a decis\u00e3o de direito. Mais uma vez, incorrem num equ\u00edvoco. A nulidade prevista na primeira parte da al\u00ednea c), do n\u00ba 1 do art. 615\u00ba, do CPC, refere-se \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o entre a fundamenta\u00e7\u00e3o de direito e a decis\u00e3o final; o que qualificam como contradi\u00e7\u00e3o entre os fundamentos de facto e a decis\u00e3o de direito poder\u00e1 configurar erro de julgamento, mas n\u00e3o v\u00edcio que comine o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido com a san\u00e7\u00e3o de nulidade. 7. Antes de iniciar a aprecia\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es substantivas, afigura-se conveniente considerar os termos em que as inst\u00e2ncias decidiram. Quer a 1\u00aa inst\u00e2ncia, quer a Rela\u00e7\u00e3o qualificaram a rela\u00e7\u00e3o jur\u00eddica da A. com os RR. como uma rela\u00e7\u00e3o contratual de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos (no caso, um exame de colonoscopia), estando em causa o alegado cumprimento defeituoso do mesmo contrato. A 1\u00aa inst\u00e2ncia concluiu pela n\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o dos pressupostos da ilicitude e da culpa da conduta do m\u00e9dico (o aqui R. CC), tanto porque n\u00e3o foi provada a viola\u00e7\u00e3o das leges artis no decurso da colonoscopia ou na fase de recupera\u00e7\u00e3o da paciente, como porque se deu como provado que o exame em causa comporta um certo grau de risco de perfura\u00e7\u00e3o do colon e se provou tamb\u00e9m que a A. tomou antecipadamente conhecimento desse risco, aceitando-o. Tendo a A. vindo a falecer (sem rela\u00e7\u00e3o causal com o evento lesivo dos autos), os herdeiros habilitados interpuseram recurso da senten\u00e7a: (i) impugnando a decis\u00e3o da mat\u00e9ria de facto, pretendendo que se d\u00ea como provados factos que poder\u00e3o revelar cumprimento defeituoso do contrato na fase de recupera\u00e7\u00e3o (tanto antes como ap\u00f3s a alta m\u00e9dica), quer pelo R. m\u00e9dico quer pela R. hospital; (ii) e pedindo a reaprecia\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o de direito. A Rela\u00e7\u00e3o decidiu considerar prejudicada a quest\u00e3o da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto e, reapreciando a decis\u00e3o de direito, apoiou-se no teor do ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 01\/10\/2015 (proc. n\u00ba 2104\/05.4TBPVZ.P1.S1, consult\u00e1vel em www.dgsi.pt) para concluir pela verifica\u00e7\u00e3o da ilicitude e consequente culpa presumida do R. m\u00e9dico. N\u00e3o se pronunciando especificamente sobre a relev\u00e2ncia da declara\u00e7\u00e3o de consentimento e\/ou dos esclarecimentos prestados \u00e0 A. sobre os riscos inerentes ao exame m\u00e9dico, decidiu, a final, em sentido favor\u00e1vel \u00e0 apelante, condenando os RR. e as intervenientes no pagamento de indemniza\u00e7\u00e3o por danos patrimoniais, no montante de \u20ac 8.746,98, e, por danos n\u00e3o patrimoniais, no montante de \u20ac 28.000. Deste modo, deve ter-se presente que, se no presente recurso se vier a concluir pela aus\u00eancia de responsabilidade de um ou de ambos os RR. pelos factos ocorridos no decurso do exame de colonoscopia, sempre se ter\u00e1 de considerar a necessidade de mandar baixar o processo ao Tribunal de Rela\u00e7\u00e3o para apreciar a quest\u00e3o da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto quanto aos factos relativos \u00e0 fase de recupera\u00e7\u00e3o do exame de colonoscopia (tanto antes como ap\u00f3s a alta m\u00e9dica), quest\u00e3o que foi julgada prejudicada pelo ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, desde que se conclua que a eventual proced\u00eancia daquela impugna\u00e7\u00e3o poder\u00e1 alterar a decis\u00e3o de m\u00e9rito. 8. A quest\u00e3o essencial a apreciar \u00e9 a da verifica\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o dos pressupostos da ilicitude e da culpa na conduta do m\u00e9dico (o R. CC) na execu\u00e7\u00e3o do exame m\u00e9dico de colonoscopia e na fase de recupera\u00e7\u00e3o (com base na factualidade dada como provada). 8.1. Estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o t\u00edpica de alegado cumprimento defeituoso do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos. Sem preju\u00edzo de ser tamb\u00e9m convoc\u00e1vel a responsabilidade extracontratual, uma vez que foi violado o direito \u00e0 integridade f\u00edsica da A., direito absoluto tutelado pelo princ\u00edpio geral da responsabilidade civil delitual do art. 483\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil. Trata-se, afinal, de uma situa\u00e7\u00e3o de concurso de responsabilidade civil contratual e extracontratual, como ocorre frequentemente nas hip\u00f3teses de responsabilidade civil por actos m\u00e9dicos. A orienta\u00e7\u00e3o reiterada da jurisprud\u00eancia deste Supremo Tribunal (cfr. por exemplo, os ac\u00f3rd\u00e3os de 17\/12\/2009 (proc. 544\/09.9YFLSB), de 15\/09\/2011 (proc. n\u00ba 674\/2001.P1.S1), de 15\/12\/2011 (proc. n\u00ba 209\/06.3TVPRT.P1.S1), de 11\/06\/2013 (proc. n\u00ba 544\/10.6TBSTS.P1.S1), de 02\/06\/2015 (proc. n\u00ba 1263\/06.3TVPRT.P1.S1), de 01\/10\/2015 (proc. n\u00ba 2104\/05.4TBPVZ.P1.S1), de 28\/01\/2016 (proc. n\u00ba 136\/12.5TVLSB.L1.S1) e de 23-03-2017 (proc. n\u00ba 296\/07.7TBMCN.P1.S1), todos consult\u00e1veis em www.dgsi.pt) \u00e9 no sentido da op\u00e7\u00e3o pelo regime da responsabilidade contratual tanto por ser mais conforme ao princ\u00edpio geral da autonomia privada, como por ser, em regra, mais favor\u00e1vel \u00e0 tutela efectiva do lesado. No caso dos autos, relevam os seguintes factos provados: 5 - O R\u00e9u CC conhecia a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica anterior da Autora. 6 - O exame em causa demorou cerca de 50 minutos. 7 - Uma colonoscopia, em m\u00e9dia, num paciente cuja execu\u00e7\u00e3o da mesma n\u00e3o comporte especial dificuldade, demora cerca de 15-20 minutos. 11 - No dia 16.03.2011, a Autora sentia desconforto na zona da barriga, com dores e mal-estar tendo, depois de ter telefonado de manh\u00e3 para o Dr. LL e \u00e0 tarde para o R\u00e9u Hospital, por volta das 23 horas deu entrada no ent\u00e3o denominado Hospital Privado \u2026, actual Hospital MM onde realizou radiografia abdominal e tor\u00e1xica, tomografia axial computorizada (TAC) ao abd\u00f3men e zona p\u00e9lvica bem como exames hematol\u00f3gicos. 12 - Nesse Hospital Privado \u2026 foi conclu\u00eddo que a Autora apresentava exuberante quantidade de ar livre intra-abdominal (intra e retro peritoneal) sugerindo perfura\u00e7\u00e3o de v\u00edscera oca, tinha pequena quantidade de l\u00edquido livre na cavidade p\u00e9lvica, aspectos imagiol\u00f3gicos compat\u00edveis com cirurgia c\u00f3lica pr\u00e9via. Foi igualmente conclu\u00eddo que a Autora apresentava distens\u00e3o abdominal e dor localizada nos quadrantes inferiores e que a radiografia abdominal n\u00e3o foi poss\u00edvel de interpretar mas que com a TAC se confirmou pneumoperitoeu. 13 - A pedido da Autora, esta foi encaminhada para o Hospital NN, onde foi internada no dia 17.03.2011, \u00e0s 01h e 25 m, apresentando no servi\u00e7o de urg\u00eancia abd\u00f3men distendido, timpanizado, com dores \u00e0 palpa\u00e7\u00e3o difusa sem sinais de irrita\u00e7\u00e3o peritoneal, tendo sido submetida a laparotomia, constatando-se perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica e realizou colostomia lateral sobre bagette. 19 - As opera\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas referidas em 13., 15., 17. e 18. tiveram como causa directa a perfura\u00e7\u00e3o referida em 13. ocorrida no exame de colonoscopia de 15.03.2011. 24 - O R\u00e9u CC realizou a 25.01.2010 um outro exame de colonoscopia digestiva baixa \u00e0 Autora tendo-lhe detectado um tumor maligno. 37 - A Autora conhecia os riscos inerentes \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame de colonoscopia, incluindo a possibilidade de perfura\u00e7\u00e3o, tendo-lhe sido transmitido em 29.12.2009, 25.01.2010 e 15.03.2011, informa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos exames. 38 - A Autora assinou em 15.03.2011, antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame desse dia feito pelo R\u00e9u CC, um impresso do Hospital com o t\u00edtulo \u00abConsentimento Informado\u00bb, onde a Autora assina uma declara\u00e7\u00e3o em que afirma compreender a explica\u00e7\u00e3o fornecida acerca do seu caso cl\u00ednico e os riscos em causa, conforme consta a fls. 125 dos autos. 39 - Antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame, foi enviado pelo R\u00e9u Hospital um e-mail \u00e0 filha da Autora com as recomenda\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia. 40 - A dura\u00e7\u00e3o do exame referida em 6. deveu-se \u00e0 circunst\u00e2ncia de se tratar de um colon anteriormente sujeito a uma opera\u00e7\u00e3o de retirada de um tumor com necessidade de se insuflar mais ar do que em outras situa\u00e7\u00f5es para facilitar a progress\u00e3o do clonosc\u00f3pio. 41 - O exame foi realizado com seda\u00e7\u00e3o geral da Autora. 42 - No decurso do exame n\u00e3o foi detectada a perfura\u00e7\u00e3o do colon, sem sinais de sangue no mesmo. 43 - O R\u00e9u CC tentou retirar a maior quantidade de ar poss\u00edvel na fase final do exame. 44 - Parte do ar que foi insuflado para o intestino delgado, aumentando a distens\u00e3o do abd\u00f3men da Autora. 45 - Depois do exame, na sala de recobro, a Autora esteve sempre vigiada pelo anestesista e enfermeira. 46 - No recobro, o R\u00e9u CC analisou a Autora, apalpou-lhe o abd\u00f3men e referiu-lhe que tinha muito ar. 47 - No recobro, a Autora foi \u00e0 casa de banho evacuar ar e revelou melhorias. 48 - A Autora comeu bolachas e bebeu ch\u00e1 no recobro e andou a p\u00e9 ainda que com aux\u00edlio de terceiros. 49 - No recobro n\u00e3o foram detectados sinais de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica, estando a tens\u00e3o arterial da Autora est\u00e1vel e em valores adequados \u00e0 idade desta, sem febre e sempre consciente. 50 - Tais sinais de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica podem ser a presen\u00e7a de sangue na realiza\u00e7\u00e3o do exame, contratura abdominal, dor aguda, v\u00f3mitos, febre, incapacidade de o doente se alimentar, levantar ou andar. 51 - Se o R\u00e9u CC tivesse detectado ind\u00edcios de perfura\u00e7\u00e3o do c\u00f3lon da Autora, n\u00e3o teria permitido a sua sa\u00edda e determinava a realiza\u00e7\u00e3o de exames para o aferir e se fosse confirmada seria, em princ\u00edpio, sujeita a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. 53 - A taxa de perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica para colonoscopias diagn\u00f3stica est\u00e1 descrita como sendo da ordem dos 0,1 a 0,8%. 54 - A causa de uma perfura\u00e7\u00e3o do colon durante uma colonoscopia pode n\u00e3o derivar de incorrecta introdu\u00e7\u00e3o ou manuseamento do aparelho ou excessiva introdu\u00e7\u00e3o de ar, podendo ter origem em c\u00f3lon estar em certos locais com processos aderenciais derivados de anteriores opera\u00e7\u00f5es, a configura\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio colon (sua angula\u00e7\u00e3o) ou existirem segmentos c\u00f3licos isolados que podem conduzir a um aumento de press\u00e3o intrac\u00f3lica durante a colonoscopia. 55 - A perfura\u00e7\u00e3o do colon durante a colonoscopia pode iniciar-se com uma microfissura, pode a perfura\u00e7\u00e3o estar oculta nomeadamente por uma prega do intestino ou pela parede do mesmo. 56 - O R\u00e9u CC \u00e9 um gastroenterologista conceituado, com mais de 30 anos de experi\u00eancia, tendo realizado in\u00fameros exames como o realizado \u00e0 Autora. Importa tamb\u00e9m ter presente que foram dados como n\u00e3o provados os seguintes factos: 14) \u00c0 Autora tenha sido expressamente referido pelo R\u00e9u CC ou por algum profissional do R\u00e9u \u00abHospital, .. \u00bb que por estar em causa um c\u00f3lon operado e o estado geral do mesmo c\u00f3lon estar mais debilitado face \u00e0 opera\u00e7\u00e3o ao tumor, o exame consubstanciava um maior risco. 15) Tenha sido dito \u00e0 Autora que o exame ia demorar mais tempo por que tinham de se adotar cuidados acrescidos. Tal como assinalado pelo ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, a situa\u00e7\u00e3o dos autos \u2013 realiza\u00e7\u00e3o de exame de colonoscopia com perfura\u00e7\u00e3o do colon \u2013 encontra evidente paralelismo com a situa\u00e7\u00e3o apreciada no ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 01\/10\/2015 (proc. n\u00ba 2104\/05.4TBPVZ.P.S1), j\u00e1 indicado. Por\u00e9m, com pelo menos a seguinte importante diferen\u00e7a, que desde j\u00e1 se regista: enquanto no ac\u00f3rd\u00e3o de 01\/10\/2015 n\u00e3o se provou ter existido esclarecimento da paciente quanto aos riscos de perfura\u00e7\u00e3o nem declara\u00e7\u00e3o de consentimento informado da mesma paciente, no caso dos autos, foram provados factos (pontos 37 e 38) relativos \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de esclarecimentos \u00e0 A. lesada e \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de consentimento por esta assinada. Tendo presente tal diferen\u00e7a, consideremos os termos em que o referido ac\u00f3rd\u00e3o de 01\/10\/2015 fundamentou a decis\u00e3o de condena\u00e7\u00e3o do r\u00e9u m\u00e9dico pela ocorr\u00eancia de perfura\u00e7\u00e3o no intestino no decurso de um exame de colonoscopia: \u201c8. Trata-se de um contrato destinado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame m\u00e9dico \u2013 um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos (cfr. ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 4 de Mar\u00e7o de 2008, www.dgsi.pt, proc. n\u00ba 08A183) \u2013, sem fun\u00e7\u00e3o curativa; e n\u00e3o se questiona a correc\u00e7\u00e3o do resultado do exame (diferentemente do caso que se apreciou no ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 17 de Janeiro de 2013, www.dgsi.pt, proc. n\u00ba 9434\/06.6TBMTS.P1.S1). N\u00e3o tem pois utilidade procurar determinar, no caso concreto, se a obriga\u00e7\u00e3o que o m\u00e9dico assumiu perante a autora deve ser havida como uma obriga\u00e7\u00e3o de meios ou de resultado, para o efeito de definir o conte\u00fado da obriga\u00e7\u00e3o contra\u00edda e, assim, apurar o seu cumprimento ou incumprimento (cfr. o citado ac\u00f3rd\u00e3o de 4 de Mar\u00e7o de 2008). Vem assente que o r\u00e9u BB assumiu e executou a obriga\u00e7\u00e3o de realizar a colonoscopia e deu a conhecer \u00e0 autora o correspondente resultado. Na execu\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o contratualmente assumida, BB perfurou o intestino da autora. Ora, poder-se-\u00e1 questionar se essa perfura\u00e7\u00e3o deve ser considerada como que desligada do contrato em execu\u00e7\u00e3o (estranha \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do contrato, escreve-se na senten\u00e7a), e trat\u00e1-la como uma agress\u00e3o \u00e0 integridade f\u00edsica da autora e, por esse facto, como geradora de responsabilidade civil extra-contratual. Foi a via seguida em 1\u00aa Inst\u00e2ncia (\u2026). Mas a Rela\u00e7\u00e3o deslocou a quest\u00e3o para o cumprimento imperfeito do contrato de servi\u00e7os m\u00e9dicos e veio a concluir que, no caso, n\u00e3o estava preenchido o pressuposto da ilicitude (\u201cn\u00e3o se apurou que no decurso do exame tivesse havido por parte do r\u00e9u qualquer afastamento das boas pr\u00e1ticas da medicina\u201d), n\u00e3o cabendo curar dos demais. Referiu, no entanto, que, a ter-se provado a ilicitude, a autora beneficiaria de uma presun\u00e7\u00e3o de culpa do r\u00e9u. No entanto, a justifica\u00e7\u00e3o da Rela\u00e7\u00e3o, no que toca \u00e0 n\u00e3o verifica\u00e7\u00e3o da ilicitude, n\u00e3o se afigura adequada \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o concretamente assumida no caso dos autos, que se n\u00e3o pode analisar como se de uma obriga\u00e7\u00e3o de meios se tratasse; numa situa\u00e7\u00e3o dessas \u2013 como ocorrer\u00e1, por exemplo, com a realiza\u00e7\u00e3o de uma interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica ou com a defini\u00e7\u00e3o de um tratamento, em ambos os casos com fun\u00e7\u00e3o curativa (n\u00e3o vem agora ao caso analisar a especificidade das interven\u00e7\u00f5es ou tratamentos com finalidade est\u00e9tica) \u2013 \u00e9 que se poderia ponderar se o m\u00e9dico estaria apenas vinculado a actuar segundo as regras da arte, utilizando o seu melhor saber, e n\u00e3o a obter a cura, ou a melhoria pretendida. Mas a inadequa\u00e7\u00e3o da conclus\u00e3o de que n\u00e3o se demonstrou a pr\u00e1tica de um acto il\u00edcito n\u00e3o significa que se deva desconsiderar o enquadramento contratual da actua\u00e7\u00e3o do r\u00e9u e dos danos dela resultantes.\u00a0 Na verdade, a perfura\u00e7\u00e3o do intestino ocorreu durante e por causa da execu\u00e7\u00e3o do contrato destinado \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame m\u00e9dico; independentemente de encontrar a constru\u00e7\u00e3o juridicamente mais correcta, a verdade \u00e9 que objectivamente ocorreu uma les\u00e3o da integridade f\u00edsica da autora, n\u00e3o exigida pelo cumprimento do contrato; a ilicitude est\u00e1 verificada.\u00a0 Com esta afirma\u00e7\u00e3o quer-se dizer que, em si mesmo, o exame foi uma intromiss\u00e3o na integridade f\u00edsica, natural e necessariamente consentida e pretendida pela autora; assim suceder\u00e1, em regra, com os exames m\u00e9dicos. Mas esse consentimento ou pretens\u00e3o da autora n\u00e3o abrange a les\u00e3o em discuss\u00e3o neste processo. Poder-se-\u00e1 sustentar que se n\u00e3o se tratar\u00e1 (ou n\u00e3o se tratar\u00e1 apenas) de um cumprimento defeituoso do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos, mas da les\u00e3o do direito \u00e0 integridade f\u00edsica da autora, ocorrido no \u00e2mbito e por causa da execu\u00e7\u00e3o do contrato; no entanto, esta liga\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca significa que o regime aplic\u00e1vel \u00e0s consequ\u00eancias dessa execu\u00e7\u00e3o deve ser o regime da responsabilidade contratual. Ali\u00e1s, dificilmente se poder\u00e1 sustentar que a protec\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica do paciente n\u00e3o integra o \u00e2mbito de protec\u00e7\u00e3o de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos. 9. Sabe-se que a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia implica a utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e9todos dos quais pode resultar a perfura\u00e7\u00e3o do intestino, ainda que raramente (cfr. ponto 127 da mat\u00e9ria de facto); o que significa que o profissional que a executa h\u00e1-de adoptar os procedimentos pr\u00f3prios do exame com a espec\u00edfica preocupa\u00e7\u00e3o de tentar evitar que haja perfura\u00e7\u00e3o. Pode assim entender-se que est\u00e1 em causa um \u201cdever imposto pela regra de que, no cumprimento dos contratos, cada contraente deve ter na devida conta os interesses da contraparte (n\u00ba 2 do artigo 762\u00ba do C\u00f3digo Civil); e que, sendo violado\u201d, acarreta a responsabilidade do m\u00e9dico, nos termos pr\u00f3prios da responsabilidade contratual (artigo 798\u00ba do C\u00f3digo Civil). A frase que se transcreveu consta do ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 1 de Julho de 2010, www.dgsi.pt, proc. n\u00ba 623\/09.2YFLSB, que n\u00e3o versou sobre um caso de responsabilidade m\u00e9dica, como agora sucede, mas no qual tamb\u00e9m se tratava da les\u00e3o de um direito absoluto (ent\u00e3o o direito de propriedade) ocorrida na execu\u00e7\u00e3o de um contrato, no caso, de empreitada. O apelo a este ac\u00f3rd\u00e3o destina-se a mostrar o ponto comum \u00e0s duas situa\u00e7\u00f5es em aprecia\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m est\u00e1 em causa no caso presente a \u201cviola\u00e7\u00e3o\u201d de \u201cdeveres de protec\u00e7\u00e3o, de conduta ou laterais (para referir algumas das designa\u00e7\u00f5es que t\u00eam sido utilizadas) caracterizados \u201cpor uma fun\u00e7\u00e3o auxiliar da realiza\u00e7\u00e3o positiva do fim contratual e de protec\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa ou aos bens da outra parte contra os riscos de danos concomitantes\u201d, resultantes da sua \u201cconex\u00e3o com o contrato\u201d (Mota Pinto, Cess\u00e3o da Posi\u00e7\u00e3o Contratual, reimp, Coimbra, 1982, p\u00e1g.337 e segs.)\u201d. Como ali se d\u00e1 nota e todos sabemos, h\u00e1 diverg\u00eancias quanto ao enquadramento da viola\u00e7\u00e3o de tais deveres no \u00e2mbito da responsabilidade contratual ou extra-contratual. E \u201csabe-se igualmente que, embora unificados pela fun\u00e7\u00e3o desempenhada, t\u00eam conte\u00fados muito diversos, englobando deveres t\u00e3o distintos como \u201cdeveres de informa\u00e7\u00e3o e conselho, de coopera\u00e7\u00e3o, de segredo e n\u00e3o concorr\u00eancia, de cust\u00f3dia e de vigil\u00e2ncia, de lealdade, etc\u201d (a exemplifica\u00e7\u00e3o \u00e9 de Manuel Carneiro da Frada, Contrato e Deveres de Protec\u00e7\u00e3o, Coimbra, 1994, p\u00e1g. 40), que Menezes Cordeiro (Da Boa F\u00e9 no Direito Civil, I, Coimbra, 1984, p\u00e1g. 604) agrupa em \u201cdeveres de protec\u00e7\u00e3o, de esclarecimento e de lealdade\u201d. Aqui como ali, no entanto, entende-se que n\u00e3o vem ao caso \u201coptar, em tese geral, pela aplica\u00e7\u00e3o do regime da responsabilidade contratual (por exemplo, Mota Pinto, op. cit, p\u00e1g. 342) ou extra-contratual (por exemplo, Pedro Romano Mart\u00ednez, Cumprimento Defeituoso, em Especial na Compra e Venda e na Empreitada, Coimbra, 2001, p\u00e1g. 253) a todas as situa\u00e7\u00f5es (realmente diversificadas) que podem reconduzir-se \u00e0 sua viola\u00e7\u00e3o\u201d; mas que, tamb\u00e9m aqui, a apontada liga\u00e7\u00e3o entre a realiza\u00e7\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o principal e o risco de perfura\u00e7\u00e3o do intestino torna especialmente desadequado analisar o dever do m\u00e9dico \u00ab\u00e0 luz do \u201cdever geral de cuidado da \u00e1rea delitual\u201d (express\u00e3o de Manuel Carneiro da Frada, op.cit., p\u00e1g. 275)\u00bb.\u201d (negrito nosso). Vejamos at\u00e9 que ponto esta orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 suscept\u00edvel de ser aplicada ao caso sub judice. Antes de mais, n\u00e3o oferece d\u00favidas que, do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos dos autos, nasceu uma obriga\u00e7\u00e3o de resultado, qual seja a de obten\u00e7\u00e3o dos dados cl\u00ednicos do exame de colonoscopia. Que tal resultado tenha sido alcan\u00e7ado n\u00e3o \u00e9 posto em causa pela A., n\u00e3o sendo de considerar a hip\u00f3tese de a colonoscopia ter tido uma fun\u00e7\u00e3o curativa, uma vez que tal n\u00e3o foi alegado pelas partes. Assim, o que est\u00e1 em discuss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o cumprimento do dever prim\u00e1rio de presta\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico, mas o cumprimento do dever acess\u00f3rio de, na realiza\u00e7\u00e3o do exame cl\u00ednico, respeitar a integridade f\u00edsica da A. Ora, na constru\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica acolhida pelo citado ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 01\/10\/2015, tendo ocorrido \u201cuma les\u00e3o da integridade f\u00edsica da autora, n\u00e3o exigida pelo cumprimento do contrato; a ilicitude est\u00e1 verificada\u201d. Aceitando-se esta via qualificativa, e procurando-se aplic\u00e1-la ao caso dos autos, a perfura\u00e7\u00e3o do colon no decurso do exame de colonoscopia configurar\u00e1, sem mais, ilicitude do resultado. Por via do regime do art. 799\u00ba, n\u00ba 1, do CC, tal facto ser\u00e1 presuntivamente culposo. Em alternativa, segundo a orienta\u00e7\u00e3o, porventura prevalente na jurisprud\u00eancia no dom\u00ednio da responsabilidade civil m\u00e9dica (cfr., entre outros, os ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 24\/06\/2016 (proc. n\u00ba 6844\/03.4TBCSC.L1.S1) e de 23\/03\/2017 (proc. n\u00ba 296\/07.7TBMCN.P1.S1), in www.dgsi.pt, ambos relativos a casos, em que em interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas ao f\u00e9mur, ocorreu uma les\u00e3o do nervo ci\u00e1tico), caber\u00e1 ao paciente lesado provar a ilicitude da conduta do m\u00e9dico, isto \u00e9 a falta de cumprimento do dever objectivo de dilig\u00eancia ou de cuidado, imposto pelas leges artis, dever que integra a necessidade de, no decurso da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, tudo fazer para n\u00e3o afectar a integridade f\u00edsica do paciente. No caso dos autos, tendo sido provado que os riscos de perfura\u00e7\u00e3o, embora raros, s\u00e3o inerentes a um exame de colonoscopia, mesmo que correctamente executado (facto provado 53) e ainda que, devido aos antecedentes cl\u00ednicos da A., tais riscos eram acrescidos (factos provados 40 e 54), afigura-se que ambas as concep\u00e7\u00f5es (ilicitude do resultado ou ilicitude da conduta) conduzir\u00e3o, afinal, a solu\u00e7\u00f5es convergentes. Vejamos. Admitindo-se a primeira concep\u00e7\u00e3o (a ocorr\u00eancia da perfura\u00e7\u00e3o do colon basta para configurar ilicitude), haver\u00e1 que ponderar da exclus\u00e3o da ilicitude pelo consentimento informado da A. quanto aos riscos pr\u00f3prios daquela colonoscopia, tendo presente que, segundo a regra geral do art. 340\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil, \u201cO acto lesivo dos direitos de outrem \u00e9 l\u00edcito, desde que este tenha consentido na les\u00e3o\u201d. Seguindo-se a segunda concep\u00e7\u00e3o (necessidade de que o paciente fa\u00e7a prova do incumprimento do dever objectivo de dilig\u00eancia ou de cuidado na execu\u00e7\u00e3o do exame m\u00e9dico, imposto pelas leges artis), tem de se reconhecer que tal prova n\u00e3o foi feita. Ainda assim, sempre se ter\u00e1 de averiguar se foi devidamente cumprido o dever de informar a A. dos riscos inerentes \u00e0 interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e se aquela os aceitou. Deste modo, a exist\u00eancia ou n\u00e3o de consentimento devidamente informado constitui factor essencial para a decis\u00e3o do pleito. 8.2. Tanto o direito nacional (cfr., al\u00e9m do citado art. 340\u00ba do C\u00f3digo Civil, os arts. 70\u00ba e 81\u00ba do mesmo C\u00f3digo, assim como o art. 157\u00ba do C\u00f3digo Penal e o n\u00ba 11, do artigo 135\u00ba do Estatuto da Ordem dos M\u00e9dicos, aprovado pelo Decreto-Lei n\u00ba 282\/77, de 5 de Julho, republicado em anexo \u00e0 Lei n\u00ba 117\/2015, de 31 de Agosto (\u201cO m\u00e9dico deve fornecer a informa\u00e7\u00e3o adequada ao doente e dele obter o seu consentimento livre e esclarecido\u201d), como instrumentos internacionais (cfr. o art. 5\u00ba da Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos do Homem e a Biomedicina -Conven\u00e7\u00e3o de Oviedo), imp\u00f5em, como condi\u00e7\u00e3o da licitude de uma inger\u00eancia m\u00e9dica na integridade f\u00edsica dos pacientes, que estes consintam nessa inger\u00eancia; e que o consentimento dos pacientes seja prestado de forma esclarecida, isto \u00e9, estando estes cientes dos dados relevantes em fun\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias do caso, entre os quais avulta a informa\u00e7\u00e3o acerca dos riscos pr\u00f3prios de cada interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Antes de se apreciar se, no caso dos autos, tais exig\u00eancias foram respeitadas, considerem-se as consequ\u00eancias que, a existir, ter\u00e1 o consentimento informado prestado pela paciente. Afigura-se que, seguindo-se o entendimento de que a perfura\u00e7\u00e3o do colon no decurso do exame de colonoscopia configura, sem mais, ilicitude do resultado, a prova do consentimento devidamente informado por parte da A. constituir\u00e1 causa de exclus\u00e3o da ilicitude. Seguindo-se a segunda concep\u00e7\u00e3o (ilicitude da conduta) e nas palavras de Andr\u00e9 Dias Pereira (Direitos dos pacientes e responsabilidade m\u00e9dica, Coimbra Editora, 2015, p\u00e1g. 459), \u201cse o paciente consentiu (tendo sido previamente devidamente informado) s\u00f3 h\u00e1 lugar a indemniza\u00e7\u00e3o em caso de m\u00e1 pr\u00e1tica m\u00e9dica, por viola\u00e7\u00e3o negligente das regras da arte. O consentimento v\u00e1lido transfere para a esfera jur\u00eddica do paciente os riscos da interven\u00e7\u00e3o, desde que esta seja realizada diligentemente.\u201d Afigura-se, assim, ser este o problema nuclear a resolver: pode ou n\u00e3o considerar-se que a A. assumiu na sua esfera jur\u00eddica os riscos do exame de colonoscopia efectuado de acordo com as leges artis? Enquanto facto impeditivo do direito da A. (art. 342\u00ba, n\u00ba 2, do CC), n\u00e3o se discute que compete ao R. m\u00e9dico fazer a prova do consentimento informado (neste sentido, cfr. os ac\u00f3rd\u00e3os do STJ de 02\/06\/2015, proc. n\u00ba 1206.3TVPRT.P1.S1 e de 16\/06\/2015, proc. n\u00ba 308\/09.0TBCBR.C1.S1. consult\u00e1veis em www.dgsi.pt). Vejamos se tal prova foi feita. Foi dado como provado que \u201cA Autora assinou em 15.03.2011, antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame desse dia feito pelo R\u00e9u CC, um impresso do Hospital com o t\u00edtulo \u00abConsentimento Informado\u00bb, onde a Autora assina uma declara\u00e7\u00e3o em que afirma compreender a explica\u00e7\u00e3o fornecida acerca do seu caso cl\u00ednico e os riscos em causa, conforme consta a fls. 125 dos autos\u201d. Do documento de fls. 125 consta a declara\u00e7\u00e3o da A. a autorizar a realiza\u00e7\u00e3o do exame de colonoscopia, \u201cestando perfeitamente informada e consciente dos riscos, complica\u00e7\u00f5es ou sequelas que possam surgir\u201d. O consentimento, prestado desta forma gen\u00e9rica, n\u00e3o preenche, s\u00f3 por si, as condi\u00e7\u00f5es do consentimento devidamente informado. Por\u00e9m, h\u00e1 que atentar tamb\u00e9m na prova de que \u201cA Autora conhecia os riscos inerentes \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um exame de colonoscopia, incluindo a possibilidade de perfura\u00e7\u00e3o, tendo-lhe sido transmitido em 29.12.2009, 25.01.2010 e 15.03.2011, informa\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o dos exames\u201d. Qual a relev\u00e2ncia desta prova? Considera-se relevante o facto de a A. ter sido informada do risco concreto de perfura\u00e7\u00e3o do intestino e ainda que tal informa\u00e7\u00e3o tenha sido prestada em 15\/03\/2011, em momento anterior ao exame dos autos (embora se pudesse discutir se com a anteced\u00eancia suficiente). Com efeito, n\u00e3o podem considerar-se como relevantes \u2013 para efeitos da validade do consentimento \u2013 os esclarecimentos prestados por ocasi\u00e3o de anteriores colonoscopias. Em rela\u00e7\u00e3o a cada um dos exames tais esclarecimentos t\u00eam de ser actualizados, tendo em conta, designadamente, que os riscos se podem agravar com a passagem do tempo. Se assim \u00e9 para qualquer paciente, por maioria de raz\u00e3o para algu\u00e9m como a A. que, em 15\/03\/2011, tinha j\u00e1 83 anos de idade. Por\u00e9m, n\u00e3o basta a prova do esclarecimento quanto aos riscos comuns de perfura\u00e7\u00e3o. No caso dos autos em que os riscos de perfura\u00e7\u00e3o eram superiores ao normal (factos 40 e 54) era imperativo que o R. fizesse prova de que a A. fora informada de tais riscos acrescidos. Ora, n\u00e3o se provou que \u201c\u00c0 Autora tenha sido expressamente referido pelo R\u00e9u CC ou por algum profissional do R\u00e9u \u00abHospital, .. \u00bb que por estar em causa um c\u00f3lon operado e o estado geral do mesmo c\u00f3lon estar mais debilitado face \u00e0 opera\u00e7\u00e3o ao tumor, o exame consubstanciava um maior risco\u201d. Assim sendo, conclui-se n\u00e3o ter sido feita prova bastante para preencher as exig\u00eancias do consentimento devidamente informado. 8.3. A avalia\u00e7\u00e3o das consequ\u00eancias da falta de prova da exist\u00eancia de consentimento devidamente informado da A. implica a pondera\u00e7\u00e3o de quais sejam os bens jur\u00eddicos protegidos pela exig\u00eancia desse consentimento e, em correspond\u00eancia, de quais sejam os danos ressarc\u00edveis. Retomemos as duas vias de aferi\u00e7\u00e3o da ilicitude enunciadas supra, no ponto 8.2. Considerando-se que a ocorr\u00eancia da perfura\u00e7\u00e3o no colon configura sem mais, ilicitude do resultado, a aus\u00eancia de consentimento devidamente informado do lesado conduz \u00e0 n\u00e3o exclus\u00e3o da ilicitude. Assim sendo, estando em causa a tutela do bem \u201cintegridade f\u00edsica\u201d, ser\u00e3o ressarc\u00edveis, nos termos gerais, tanto os danos patrimoniais como os danos n\u00e3o patrimoniais resultantes do facto il\u00edcito culposo. Considerando-se que \u00e9 de exigir a prova da ilicitude da conduta do m\u00e9dico, a aus\u00eancia de consentimento devidamente informado configura, por si s\u00f3, um acto il\u00edcito aut\u00f3nomo (e, por aplica\u00e7\u00e3o do regime do art. 799\u00ba, n\u00ba 1, do CC, presuntivamente culposo). De acordo com Andr\u00e9 Dias Pereira, se se \u201cconcluir que a informa\u00e7\u00e3o (maxime sobre os riscos) n\u00e3o foi suficiente para o paciente se poder autodeterminar com toda a informa\u00e7\u00e3o de que necessitava, o consentimento \u00e9 inv\u00e1lido e a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica ferida de ilicitude, visto que a causa de justifica\u00e7\u00e3o \u2013 consentimento \u2013 n\u00e3o \u00e9 eficaz, como resulta dos arts. 81\u00ba e 340\u00ba do CC e do art. 157\u00ba do CP. Por isso mesmo, a viola\u00e7\u00e3o do dever de esclarecimento do paciente \u00e9 fundamento de responsabilidade m\u00e9dica independentemente de neglig\u00eancia no que respeita \u00e0 interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em termos t\u00e9cnicos e independentemente do seu resultado positivo ou negativo (\u201cO dever de esclarecimento e a responsabilidade m\u00e9dica\u201d, in Responsabilidade civil dos m\u00e9dicos, Coimbra Editora, 2005, p\u00e1g. 459). Subsistindo a quest\u00e3o de apurar quais os bens jur\u00eddicos tutelados e os danos ressarc\u00edveis. Seguindo a orienta\u00e7\u00e3o do autor que vimos citando: - \u201cSe a interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica for arbitr\u00e1ria, porque n\u00e3o se obteve consentimento ou se obteve um consentimento viciado (por falta de informa\u00e7\u00e3o adequada), devemos distinguir duas situa\u00e7\u00f5es: na primeira, verifica-se uma interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica sem consentimento (ou com consentimento viciado), mas sem quaisquer danos (corporais), ou seja, sem qualquer agravamento do estado de sa\u00fade do paciente; na segunda, a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 arbitr\u00e1ria e n\u00e3o obteve \u00eaxito, ou verificaram-se riscos pr\u00f3prios da opera\u00e7\u00e3o, ou provocou consequ\u00eancias laterais desvantajosas\u201d (Direitos dos pacientes e responsabilidade m\u00e9dica, cit., p\u00e1g. 459); - Na primeira situa\u00e7\u00e3o, o bem jur\u00eddico protegido \u00e9 a liberdade de decis\u00e3o, havendo lugar a indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais (cit., p\u00e1gs. 459 e segs.); - Na segunda situa\u00e7\u00e3o, os bens jur\u00eddicos protegidos s\u00e3o a liberdade e a integridade f\u00edsica e moral, pelo que \u201cser\u00e3o, assim ressarc\u00edveis n\u00e3o s\u00f3 os danos n\u00e3o patrimoniais causados pela viola\u00e7\u00e3o do seu direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o e \u00e0 liberdade, mas tamb\u00e9m por viola\u00e7\u00e3o da sua integridade f\u00edsica (e, eventualmente, da vida) (arts. 70\u00ba e 483\u00ba CC), bem como os danos patrimoniais derivados do agravamento do estado de sa\u00fade\u201d (cit., p\u00e1g. 465); - \u201cAssim sendo, o montante das indemniza\u00e7\u00f5es resultantes de um processo de responsabilidade por viola\u00e7\u00e3o do consentimento informado pode ser t\u00e3o elevado como os casos de neglig\u00eancia m\u00e9dica\u201d (p\u00e1g. 465). No caso dos autos, estamos perante um caso subsum\u00edvel na segunda situa\u00e7\u00e3o: a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi devidamente consentida e teve consequ\u00eancias laterais desvantajosas, isto \u00e9, a perfura\u00e7\u00e3o do colon. Haver\u00e1 pois lugar a repara\u00e7\u00e3o tanto dos danos n\u00e3o patrimoniais como dos danos patrimoniais dados como provados. Neste sentido decidiu o j\u00e1 indicado ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 02\/06\/2015 (proc. n\u00ba 1206.3TVPRT.P1.S1) num caso de inexist\u00eancia de consentimento: \u201cN\u00e3o tendo a autora prestado qualquer consentimento, escrito ou verbal, expresso ou t\u00e1cito, presumido ou hipot\u00e9tico, para a pr\u00e1tica do ato cir\u00fargico a que foi sujeita, est\u00e3o assim preenchidos os pressupostos da responsabilidade civil contratual: ilicitude (incumprimento do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e de regras de conduta decorrentes da \u00e9tica m\u00e9dica e do C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos, como a obriga\u00e7\u00e3o de obter um consentimento informado); culpa, a qual se presume nos termos do art. 799.\u00ba, n.\u00ba 1 do CC; nexo de causalidade entre o facto \u2013 interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o consentida \u2013 e o dano, no sentido em que aquela \u00e9 a causa adequada do dano; danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais amplamente documentados nos autos e refletidos na mat\u00e9ria de facto.\u201d Especialmente relevante se afigura o teor do ac\u00f3rd\u00e3o do STJ de 02\/11\/2017 (proc. n\u00ba 23592\/11.4T2SNT.L1.S1, consult\u00e1vel em www.dgsi.pt) relativo a um caso de falta de consentimento informado quanto aos riscos inerentes \u00e0 extrac\u00e7\u00e3o de um dente do siso incluso: \u201c\u00c9 exacto que n\u00e3o se pode afirmar que, naturalisticamente, foi a falta de informa\u00e7\u00e3o \u2013 que, no caso, est\u00e1 provada (pontos ccc), iii), bbbb)) e tem como objecto a comunica\u00e7\u00e3o do risco que a extrac\u00e7\u00e3o do siso incluso implica para o paciente \u2013, que provocou \u201ca les\u00e3o do nervo lingual direito\u201d (bbb)) e demais danos que v\u00eam provados; desde logo, nem sequer vem demonstrado que, se conhecesse o risco que a interven\u00e7\u00e3o implicava, a autora n\u00e3o teria consentido na sua realiza\u00e7\u00e3o; se essa prova tivesse sido feita, poder-se-ia estabelecer uma cadeia natural\u00edstica de causas, assim contrariando a alega\u00e7\u00e3o dos recorrentes, como \u00e9 manifesto. N\u00e3o estando provado que a autora s\u00f3 aceitou submeter-se \u00e0 interven\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o foi devidamente informada quanto aos respectivos riscos, porque, se tivesse sido, n\u00e3o a teria aceitado, a perspectiva jur\u00eddica que se nos afigura correcta \u00e9 antes a de determinar se deve ser ressarcido o concreto dano consistente na perda da oportunidade de decidir correr o risco da les\u00e3o do nervo e das suas consequ\u00eancias; perda de oportunidade que, em si mesma, \u00e9 um dano causado pela falta de informa\u00e7\u00e3o devida, em abstracto suscept\u00edvel de ser indemnizado, e cuja protec\u00e7\u00e3o tem como sustenta\u00e7\u00e3o material o direito \u00e0 integridade f\u00edsica e ao livre desenvolvimento da personalidade (artigos 25\u00ba, n\u00ba 1 e 26\u00ba, n\u00ba 1 da Constitui\u00e7\u00e3o e artigo 70\u00ba, n\u00ba 1 do C\u00f3digo Civil). No seu conte\u00fado inclui-se, nomeadamente, o poder do titular de decidir em que agress\u00f5es \u00e0 sua integridade f\u00edsica consente, assim afastando a ilicitude das interven\u00e7\u00f5es consentidas (cfr. n\u00ba 2 do artigo 70\u00ba e artigo 81\u00ba do C\u00f3digo Civil). Nesta perspectiva, est\u00e1 ostensivamente demonstrado o concreto nexo de causalidade natural\u00edstico, questionado pelos recorrentes; e preenchido o requisito da causalidade adequada (art. 563\u00ba do C\u00f3digo Civil), consagrado na lei portuguesa no \u00e2mbito da responsabilidade civil (contratual ou extracontratual): para al\u00e9m de f\u00e1ctica ou naturalisticamente se ter de apurar se uma determinada actua\u00e7\u00e3o (ac\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o) provocou o dano (cfr. ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 7 de Julho de 2010, www.dgsi.pt, proc. 1399\/06.OTVPRT.P1.S1), cumpre ainda averiguar, tendo em conta as regras da experi\u00eancia, se era ou n\u00e3o prov\u00e1vel que da ac\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o resultasse o preju\u00edzo sofrido, ou seja, se aquela n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 causa adequada do preju\u00edzo verificado. \u00c9 necess\u00e1rio que, em concreto, a ac\u00e7\u00e3o (ou omiss\u00e3o) tenha sido condi\u00e7\u00e3o do dano; e que, em abstracto, dele seja causa adequada (Antunes Varela, Das Obriga\u00e7\u00f5es em Geral, I, 10\u00aaed., Coimbra, 2000, p\u00e1g. 900).\u00a0 No fundo, pode entender-se que ocorre ainda a hip\u00f3tese descrita por Andr\u00e9 Gon\u00e7alo Dias Pereira, O dever de esclarecimento e a responsabilidade m\u00e9dica, in \u201cResponsabilidade Civil dos M\u00e9dicos, Coimbra, 2005, p\u00e1g. 435 e segs., p\u00e1g. 496: \u201ca falta de informa\u00e7\u00e3o impossibilitou o paciente de tomar uma decis\u00e3o informada em termos de pondera\u00e7\u00e3o adequada de riscos e benef\u00edcios\u201d, apta a gerar responsabilidade civil do m\u00e9dico, atrav\u00e9s da sua inser\u00e7\u00e3o no c\u00edrculo de protec\u00e7\u00e3o das normas que exigem o consentimento informado; embora se entenda, com Rui Cardona Ferreira A perda de chance na responsabilidade civil por acto m\u00e9dico, sep. da Revista de Direito Civil,\u00a0 II (2017), 1, p\u00e1g. 131-155, que o dano da perda de oportunidade tem autonomia, para efeitos indemnizat\u00f3rios. Assim se decidiu, ali\u00e1s, no ac\u00f3rd\u00e3o de 14 de Mar\u00e7o de 2013, www.dgsi.pt, proc. n\u00ba 78\/09.1TVLSB.L1.S1.\u201d No caso dos autos, o exame m\u00e9dico realizado destinava-se \u00e0 obten\u00e7\u00e3o de dados quanto ao estado de sa\u00fade da A., sem que tivesse sido provado ou sequer alegado que o mesmo exame possu\u00edsse qualquer fun\u00e7\u00e3o curativa. Tamb\u00e9m aqui n\u00e3o se sabe se a A., se tivesse sido devidamente informada dos riscos acrescidos de perfura\u00e7\u00e3o do intestino em raz\u00e3o dos seus antecedentes cl\u00ednicos, teria ou n\u00e3o aceitado submeter-se \u00e0 colonoscopia. De qualquer forma, quer o nexo de causalidade entre o facto il\u00edcito e culposo do m\u00e9dico (a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o devidamente autorizada) e os danos seja aferido pela causalidade adequada, quer pelo \u00e2mbito de protec\u00e7\u00e3o das normas que imp\u00f5em o consentimento informado, sempre dever\u00e1 ser ressarcida a perda da oportunidade de a A. decidir n\u00e3o correr os riscos da les\u00e3o. Conclui-se assim que, quer se siga a concep\u00e7\u00e3o da ilicitude do resultado quer a concep\u00e7\u00e3o da ilicitude da conduta, o R. m\u00e9dico e a respectiva seguradora se encontram solidariamente obrigados a reparar os danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais sofridos pela A. com fundamento em falta de consentimento devidamente informado da A. para a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia. 9. Na aprecia\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o da indemniza\u00e7\u00e3o por danos n\u00e3o patrimoniais recordam-se os par\u00e2metros indicados no ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a de 28\/01\/2016, proc. n\u00ba 7793\/09.8T2SNT.L1.S1, www.dgsi.pt, relatado pela relatora do presente ac\u00f3rd\u00e3o): - \u201cA compensa\u00e7\u00e3o dos danos n\u00e3o patrimoniais que, pela sua gravidade, mere\u00e7am a tutela do direito (art. 496\u00ba, n\u00ba 1, do CC), n\u00e3o pode \u2013 por defini\u00e7\u00e3o \u2013 ser feita atrav\u00e9s da f\u00f3rmula da diferen\u00e7a. Deve antes ser decidida pelo tribunal, segundo um ju\u00edzo de equidade (art. 496\u00ba, n\u00ba 4, primeira parte, do CC), tendo em conta as circunst\u00e2ncias previstas na parte final do art. 494\u00ba, do CC\u201d; - \u201cComo tem sido considerado pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a (cfr., por exemplo, o ac\u00f3rd\u00e3o de 6 de Abril de 2015, proc. n\u00ba 1166\/10.7TBVCD.P1.S1, com remiss\u00e3o para o ac\u00f3rd\u00e3o de 28 de Outubro de 2010, proc. n\u00ba 272\/06.7TBMTR.P1.S1, e para o ac\u00f3rd\u00e3o de 5 de Novembro de 2009, proc. n\u00ba 381\/2002.S1, todos em www.dgsi.pt), \u201ca aplica\u00e7\u00e3o de puros ju\u00edzos de equidade n\u00e3o traduz, em bom rigor, a resolu\u00e7\u00e3o de uma \u00abquest\u00e3o de direito\u00bb\u201d; se \u00e9 chamado a pronunciar-se sobre \u201co c\u00e1lculo da indemniza\u00e7\u00e3o\u201d que \u201chaja assentado decisivamente em ju\u00edzos de equidade\u201d, n\u00e3o lhe \u201ccompete a determina\u00e7\u00e3o exacta do valor pecuni\u00e1rio a arbitrar (\u2026), mas t\u00e3o somente a verifica\u00e7\u00e3o acerca dos limites e pressupostos dentro dos quais se situou o referido ju\u00edzo equitativo, formulado pelas inst\u00e2ncias face \u00e0 pondera\u00e7\u00e3o casu\u00edstica da individualidade do caso concreto \u00absub iudicio\u00bb\u201d; - \u201cA sindic\u00e2ncia do ju\u00edzo equitativo n\u00e3o afasta a necessidade de ponderar as exig\u00eancias do princ\u00edpio da igualdade, o que aponta para uma tendencial uniformiza\u00e7\u00e3o de par\u00e2metros na fixa\u00e7\u00e3o judicial das indemniza\u00e7\u00f5es, sem preju\u00edzo da considera\u00e7\u00e3o das circunst\u00e2ncias do caso concreto. Nos termos do ac\u00f3rd\u00e3o deste Supremo Tribunal de 31 de Janeiro de 2012, proc. n\u00ba 875\/05.7TBILH.C1.S1, www.dgsi.pt, \u201cos tribunais n\u00e3o podem nem devem contribuir de nenhuma forma para alimentar a ideia de que neste campo as coisas s\u00e3o mais ou menos aleat\u00f3rias, vogando ao sabor do acaso ou do arb\u00edtrio judicial. Se a justi\u00e7a, como cremos, tem impl\u00edcita a ideia de propor\u00e7\u00e3o, de medida, de adequa\u00e7\u00e3o, de relativa previsibilidade, \u00e9 no \u00e2mbito do direito privado e, mais precisamente, na \u00e1rea da responsabilidade civil que a afirma\u00e7\u00e3o desses vectores se torna mais premente e necess\u00e1ria, j\u00e1 que eles conduzem em linha recta \u00e0 efectiva concretiza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio da igualdade consagrado no art\u00ba 13\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d. Exig\u00eancia plasmada tamb\u00e9m no art. 8\u00ba, n\u00ba 3, do CC: \u201cnas decis\u00f5es que proferir, o julgador ter\u00e1 em considera\u00e7\u00e3o todos os casos que mere\u00e7am tratamento an\u00e1logo, a fim de obter uma interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o uniformes do direito.\u201d Tendo presentes estes par\u00e2metros, vejamos os termos em que o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido fundamentou a decis\u00e3o: \u201c(\u2026) no caso dos autos, temos que a Autora, em virtude da perfura\u00e7\u00e3o c\u00f3lica, teve que ser assistida no Hospital Privado \u2026 (hoje MM), onde efectuou consulta e exames, sofreu tr\u00eas interven\u00e7\u00f5es cir\u00fargicas, v\u00e1rios per\u00edodos de internamento hospitalar entre os dias 16.03 a 30.03.2011, 30.03.2011 a 9.04.2011, de 12.04.2011 a 18.04.2011 e, ainda, de 2.11.2011 a 17.11.2011 \u2013 vide factos provados em 11., 13., 14., 15., 17., 18. e 19. Sofreu, assim, a Autora 49 dias de internamento hospitalar. Por outro lado, desde o termo do exame de colonoscopia (a 15.03.2011) e at\u00e9 Abril de 2011, a Autora sofreu dores, ou seja durante cerca de 1 m\u00eas e meio. (facto provado em 26.) Depois da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica do dia 17.03.2011, a Autora teve de usar um saco de colostomia (para armazenar as fezes), carecendo, at\u00e9 Novembro de 2011, de ajuda de terceiras pessoas para se vestir e despir, assim como para cuidar da sua higiene (facto provado em 31.) O uso do aludido saco fazia a Autora sentir-se desconfort\u00e1vel, sendo que o mesmo chegou a rebentar em algumas ocasi\u00f5es, incluindo de noite, obrigando a tomas de banho e mudan\u00e7a de roupa, no que contou com a ajuda de terceiros, nomeadamente do seu filho (factos provados em 30. e 32.) A Autora, por ter que usar o saco de colostomia, sentiu-se diminu\u00edda, com perda de auto-estima e vergonha, reduzindo as suas sa\u00eddas e o conv\u00edvio com amigas, sendo certo que antes do evento em causa, a Autora era uma pessoa alegre, aut\u00f3noma e que sa\u00eda sozinha e com amigas, participando em aulas de \u00abPilates\u00bb, aulas que deixou ap\u00f3s ter de usar o dito saco. (factos provados em 33., 34. e 35.) Por outro lado, ainda, \u00e9 de considerar que a Autora tinha, \u00e0 data do evento, uma idade avan\u00e7ada (83 anos), assumindo, pois, as sobreditas circunst\u00e2ncias uma maior penosidade, pois que associadas \u00e0s limita\u00e7\u00f5es de sa\u00fade pr\u00f3prias e naturais de quem possui aquela provecta idade. Por \u00faltimo, \u00e9 de considerar que a culpa do R\u00e9u\/m\u00e9dico \u00e9 uma culpa presumida. Como assim, ponderando todos os sobreditos elementos, \u00e0 luz de crit\u00e9rios de equidade e tendo presente os valores indemnizat\u00f3rios que se colhem da nossa jurisprud\u00eancia j\u00e1 antes citada, afigura-se-nos ser equitativo fixar-se a favor da Autora (e ainda que a indemniza\u00e7\u00e3o em apre\u00e7o integre j\u00e1 a sua heran\u00e7a e, por via do fen\u00f3meno sucess\u00f3rio, se venha a transmitir aos seus herdeiros \u2013 os ora apelantes), a t\u00edtulo de danos n\u00e3o patrimoniais, e tendo por refer\u00eancia a data do presente ac\u00f3rd\u00e3o, a quantia de \u20ac 28. 000, 00 (vinte e oito mil euros), a que acrescer\u00e3o os juros de mora \u00e0 mesma taxa legal, desde a data deste ac\u00f3rd\u00e3o e at\u00e9 integral e efectivo pagamento.\u201d Entende-se serem inteiramente correctos os pressupostos e limites dentro dos quais se situou o ju\u00edzo equitativo da Rela\u00e7\u00e3o, fixando a indemniza\u00e7\u00e3o pelos danos n\u00e3o patrimoniais da A. no valor de \u20ac 28.000,00, conclus\u00e3o que se afigura em linha com a jurisprud\u00eancia deste Supremo Tribunal, respeitando-se assim as exig\u00eancias impostas pelo princ\u00edpio da igualdade. Conclui-se, assim, ser de manter o montante indemnizat\u00f3rio por danos n\u00e3o patrimoniais. 10. Quanto \u00e0 quest\u00e3o da inexist\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e a R. Hospital. S.A. ou exist\u00eancia de duas rela\u00e7\u00f5es contratuais (uma entre a A. e o m\u00e9dico CC, e outra entre a A. e a R. Hospital, S.A.), importa ter em conta a tipologia que a doutrina mais recente prop\u00f5e, a respeito do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos privados (ver Andr\u00e9 Dias Pereira, Direitos dos pacientes e responsabilidade m\u00e9dica, cit., p\u00e1gs. 684 e segs., desenvolvendo a proposta de Carlos Ferreira de Almeida, \u201cOs contratos civis de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico\u201d, in Direito da Sa\u00fade e da Bio\u00e9tica, AAFDL, Lisboa, 1996, p\u00e1gs. 75 e segs.), tipologia que aqui se indica: (i) \u201ccontrato total\u201d, que \u00e9 \u201cum contrato misto (combinado) que engloba um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos, a que se junta um contrato de internamento (presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico e param\u00e9dico), bem como um contrato de loca\u00e7\u00e3o e eventualmente de compra e venda (fornecimento de medicamentos) e ainda de empreitada (confec\u00e7\u00e3o de alimentos)\u201d; (ii) \u201ccontrato total com escolha de m\u00e9dico (contrato m\u00e9dico adicional)\u201d, que corresponde a \u201cum contrato total mas com a especificidade de haver um contrato m\u00e9dico adicional (relativo a determinadas presta\u00e7\u00f5es)\u201d; (iii) \u201ccontrato dividido\u201d, que \u00e9 aquele em que \u201ca cl\u00ednica apenas assume as obriga\u00e7\u00f5es decorrentes do internamento (hospedagem, cuidados param\u00e9dicos, etc.), enquanto o servi\u00e7o m\u00e9dico \u00e9 direta e autonomamente celebrado por um m\u00e9dico (actos m\u00e9dicos).\u201d Os factos provados relevantes s\u00e3o os seguintes: 2 - A Autora foi paciente do R\u00e9u CC que exerce as fun\u00e7\u00f5es de m\u00e9dico gastrenterologista no R\u00e9u Hospital [Hospital BB, SA] desde 1.03.1999. 3 - O R\u00e9u Hospital tem por objeto a presta\u00e7\u00e3o de cuidados de sa\u00fade. 4 - No dia 15.03.2011, pelas 17 horas, a Autora foi submetida a um exame de endoscopia digestiva baixa nas instala\u00e7\u00f5es do R\u00e9u Hospital pelo R\u00e9u CC em regime de consulta de acompanhamento. 5 - O R\u00e9u CC conhecia a situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica anterior da Autora. 24 - O R\u00e9u CC realizou a 25.01.2010 um outro exame de colonoscopia digestiva baixa \u00e0 Autora tendo-lhe detectado um tumor maligno. 25 - Antes dessa colonoscopia realizada em 2010, a 29.12.2009 o mesmo CC iniciou colonoscopia \u00e0 Autora interrompendo-a por falta de prepara\u00e7\u00e3o adequada do colon. 38 - A Autora assinou em 15.03.2011, antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame desse dia feito pelo R\u00e9u CC, um impresso do Hospital com o t\u00edtulo \u00abConsentimento Informado\u00bb, onde a Autora assina uma declara\u00e7\u00e3o em que afirma compreender a explica\u00e7\u00e3o fornecida acerca do seu caso cl\u00ednico e os riscos em causa, conforme consta a fls. 125 dos autos. 39 - Antes da realiza\u00e7\u00e3o do exame, foi enviado pelo R\u00e9u Hospital um e-mail \u00e0 filha da Autora com as recomenda\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o oferece d\u00favida que, entre o R. CC, m\u00e9dico gastrenterologista, e a A. existe uma rela\u00e7\u00e3o contratual de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos. Aquele R. foi o m\u00e9dico escolhido pela A. para a acompanhar ao longo de v\u00e1rios anos. Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a A. e a R. Hospital, S.A., os factos provados, ainda que escassos, permitem concluir pela exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o contratual directa, mas s\u00e3o insuficientes para que tal rela\u00e7\u00e3o possa ser qualificada como de \u201ccontrato total com escolha de m\u00e9dico\u201d. \u00c9 certo que a celebra\u00e7\u00e3o de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos completos entre a A. e a R. Hospital, S.A. n\u00e3o depende da prova de que entre esta R. e o R. m\u00e9dico existisse uma rela\u00e7\u00e3o de contrato de trabalho. Com efeito, na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dico-cl\u00ednicos, o Hospital tanto se pode socorrer de m\u00e9dicos que integrem os seus quadros (mediante rela\u00e7\u00e3o laboral) como de m\u00e9dicos com os quais celebre contratos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Em qualquer caso, o que importa apurar \u00e9 se a A. contratou com a R. Hospital, S.A. a presta\u00e7\u00e3o total de servi\u00e7os, ainda que escolhendo ela o m\u00e9dico de entre os que prestam servi\u00e7os no mesmo hospital; ou se, diferentemente, a A. contratou, separadamente, o m\u00e9dico e o hospital. Perante a prova feita, afigura-se que se trata de uma situa\u00e7\u00e3o de \u201ccontrato dividido\u201d ou aut\u00f3nomo pelo qual a A. e a R. Hospital, S.A. acordaram que esta prestaria \u00e0quela servi\u00e7os \u201cdecorrentes do internamento (hospedagem, cuidados param\u00e9dicos, etc.)\u201d. \u00a0 Identifica-se, assim, uma rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e o R. CC, que tem como objecto a presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os especificamente m\u00e9dicos; e uma outra rela\u00e7\u00e3o contratual entre a A. e a R. Hospital, S.A., que n\u00e3o envolve a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos em sentido estrito. Deste modo, quanto ao fundamento da ac\u00e7\u00e3o relativo \u00e0 execu\u00e7\u00e3o do exame de colonoscopia, o R. m\u00e9dico n\u00e3o \u00e9 auxiliar de cumprimento das obriga\u00e7\u00f5es da R. Hospital, S.A., n\u00e3o podendo, pois, esta ser responsabilizada pela conduta daquele (ao abrigo do regime geral do art. 800\u00ba, n\u00ba 1, do C\u00f3digo Civil). Tendo-se conclu\u00eddo no presente ac\u00f3rd\u00e3o pela responsabilidade do R. m\u00e9dico CC com fundamento na falta de consentimento devidamente informado da A., n\u00e3o pode responsabilizar-se a R. Hospital, S.A. pela conduta do mesmo m\u00e9dico. 11. Contudo, n\u00e3o pode esquecer-se existir um outro fundamento da ac\u00e7\u00e3o \u2013 a alegada deficiente presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os m\u00e9dico-cl\u00ednicos na fase de recupera\u00e7\u00e3o do exame (tanto antes como ap\u00f3s a alta m\u00e9dica) \u2013 podendo, pelos factos alegados na peti\u00e7\u00e3o inicial e na r\u00e9plica, estar em causa quer a viola\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00f5es do R. m\u00e9dico quer da R. Hospital, pelo que ambos poderiam vir ser responsabilizados. Pela factualidade dada como provada pela 1\u00aa inst\u00e2ncia n\u00e3o ter\u00e1 havido defici\u00eancias na presta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os na fase p\u00f3s-colonoscopia. Mas, recorde-se, sempre se teria de considerar a necessidade de mandar baixar o processo ao Tribunal de Rela\u00e7\u00e3o para apreciar a quest\u00e3o da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto quanto aos factos relativos \u00e0 fase de recupera\u00e7\u00e3o do exame de colonoscopia (tanto antes como ap\u00f3s a alta m\u00e9dica), quest\u00e3o que foi julgada prejudicada pelo ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, desde que se conclua que a eventual proced\u00eancia daquela impugna\u00e7\u00e3o poder\u00e1 alterar a decis\u00e3o de m\u00e9rito. Ora, compulsada a p.i. e a r\u00e9plica verifica-se que todos os danos alegados s\u00e3o conexionados com a ocorr\u00eancia da perfura\u00e7\u00e3o do colon no decurso da execu\u00e7\u00e3o do exame de colonoscopia e n\u00e3o com o eventual agravamento dos danos na fase p\u00f3s-colonoscopia. Ou seja, apesar de terem sido alegados abundantes factos relativos a um alegado incumprimento dos deveres de dilig\u00eancia e de cuidado, tanto do m\u00e9dico como dos funcion\u00e1rios do Hospital, na fase de recupera\u00e7\u00e3o, certo \u00e9 que o conhecimento da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto nesta parte sempre se revelaria como in\u00fatil, na medida em que os danos alegados e provados pela A. foram causados pela perfura\u00e7\u00e3o do colon e n\u00e3o pelo agravamento do estado de sa\u00fade na fase de recupera\u00e7\u00e3o. Conclui-se, assim, ficar prejudicada a quest\u00e3o do conhecimento da impugna\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria de facto pela Rela\u00e7\u00e3o. Consequentemente, a R. Hospital, S.A. e a interveniente Seguradoras EE, S.A. n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pelos danos sofridos pela A. 12. Concluindo-se pela aus\u00eancia de responsabilidade quer da R. Hospital, S.A. quer da interveniente Seguradoras EE, S.A. todas as demais quest\u00f5es relativas a estas ficam prejudicadas. 13. Pelo exposto, julgam-se procedentes os recursos da R. Hospital BB, S.A.. e da interveniente Seguradoras EE, S.A. e improcedentes os recursos do R. CC e da interveniente GG, S.A., decidindo-se: a) Revogar parcialmente o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, absolvendo do pedido a R. Hospital BB, S.A.. e a interveniente Seguradoras EE, S.A.; b) Manter a condena\u00e7\u00e3o do R. CC \u2013 com fundamento em falta de consentimento devidamente informado da A. para a realiza\u00e7\u00e3o da colonoscopia \u2013 e da interveniente GG, S.A, a pagar solidariamente \u00e0 A. a indemniza\u00e7\u00e3o, por danos patrimoniais a por danos n\u00e3o patrimoniais, fixada pelo ac\u00f3rd\u00e3o recorrido. Na a\u00e7\u00e3o, custas na propor\u00e7\u00e3o do decaimento. Nos recursos da R. Hospital BB, S.A.. e da interveniente Seguradoras EE, S.A., custas pelos Recorridos. Nos recursos do R. CC e da interveniente GG, S.A., custas pelos Recorrentes. Lisboa, 22 de Mar\u00e7o de 2018 Maria da Gra\u00e7a Trigo (Relatora) Maria Rosa Tching Rosa Maria Ribeiro Coelho<\/p><p>Fonte:\"<a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/7053-2018-116181965\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/acordao\/7053-2018-116181965<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-6945fcd normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-6945fcd opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-6945fcd\").on('click', function(){\n                        $(\".htmega-toggle-content-6945fcd\").slideToggle('slow');\n                        $(this).removeAttr(\"href\");\n 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Constitui\u00e7\u00e3o, o seguinte:<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-72e1a69 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"72e1a69\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-72e1a69\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">Artigo 1.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Objeto<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - A presente lei estabelece um conjunto de direitos das pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida, consagrando o direito a n\u00e3o sofrerem de forma mantida, disruptiva e desproporcionada, e prevendo medidas para a realiza\u00e7\u00e3o desses direitos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - A presente lei prev\u00ea ainda um conjunto de direitos dos familiares das pessoas doentes previstas no n\u00famero anterior.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 2.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00c2mbito<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Para efeitos da presente lei, considera-se que uma pessoa se encontra em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida quando pade\u00e7a de doen\u00e7a grave, que ameace a vida, em fase avan\u00e7ada, incur\u00e1vel e irrevers\u00edvel e exista progn\u00f3stico vital estimado de 6 a 12 meses.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 3.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Direitos em mat\u00e9ria de informa\u00e7\u00e3o e de tratamento<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida, desde que nisso tenham consentido depois de informadas pelos profissionais de sa\u00fade, t\u00eam direito a receber informa\u00e7\u00e3o detalhada sobre os seguintes aspetos relativos ao seu estado de sa\u00fade:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>a) A natureza da sua doen\u00e7a;<\/li><li>b) O progn\u00f3stico estimado;<\/li><li>c) Os diferentes cen\u00e1rios cl\u00ednicos e tratamentos dispon\u00edveis.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">2 - As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida t\u00eam tamb\u00e9m direito a participar ativamente no seu plano terap\u00eautico, explicitando as medidas que desejam receber, mediante consentimento informado, podendo recusar tratamentos nos termos previstos na presente lei, sem preju\u00edzo das compet\u00eancias dos profissionais de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida t\u00eam ainda direito a receber tratamento rigoroso dos seus sintomas, e nos casos em que seja evidente um estado confusional agudo ou a agudiza\u00e7\u00e3o de um estado pr\u00e9vio, \u00e0 conten\u00e7\u00e3o qu\u00edmica dos mesmos atrav\u00e9s do uso dos f\u00e1rmacos apropriados para o efeito, mediante prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 - A conten\u00e7\u00e3o f\u00edsica com recurso a imobiliza\u00e7\u00e3o e restri\u00e7\u00e3o f\u00edsicas reveste car\u00e1ter excecional, n\u00e3o prolongado, e depende de prescri\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e de decis\u00e3o da equipa multidisciplinar que acompanha a pessoa doente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 4.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica e diagn\u00f3stica<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida t\u00eam direito a ser tratadas de acordo com os objetivos de cuidados definidos no seu plano de tratamento, previamente discutido e acordado, e a n\u00e3o ser alvo de distan\u00e1sia, atrav\u00e9s de obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica e diagn\u00f3stica, designadamente, pela aplica\u00e7\u00e3o de medidas que prolonguem ou agravem de modo desproporcionado o seu sofrimento, em conformidade com o previsto nos c\u00f3digos deontol\u00f3gicos da Ordem dos M\u00e9dicos e da Ordem dos Enfermeiros e nos termos de normas de orienta\u00e7\u00e3o cl\u00ednica aprovadas para o efeito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 5.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Consentimento informado<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida t\u00eam direito a dar o seu consentimento, contempor\u00e2neo ou antecipado, para as interven\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas de que sejam alvo, desde que previamente informadas e esclarecidas pelo m\u00e9dico respons\u00e1vel e pela equipa multidisciplinar que a acompanham.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - O consentimento previsto no n\u00famero anterior deve ser prestado por escrito, no caso de interven\u00e7\u00f5es de natureza mais invasiva ou que envolvam maior risco para o bem-estar dos doentes, sendo obrigatoriamente prestado por escrito e perante duas testemunhas quando estejam em causa interven\u00e7\u00f5es que possam p\u00f4r em causa as suas vidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida, desde que devidamente informadas sobre as consequ\u00eancias previs\u00edveis dessa op\u00e7\u00e3o pelo m\u00e9dico respons\u00e1vel e pela equipa multidisciplinar que as acompanham, t\u00eam direito a recusar, nos termos da lei, o suporte artificial das fun\u00e7\u00f5es vitais e a recusar a presta\u00e7\u00e3o de tratamentos n\u00e3o proporcionais nem adequados ao seu estado cl\u00ednico e tratamentos, de qualquer natureza, que n\u00e3o visem exclusivamente a diminui\u00e7\u00e3o do sofrimento e a manuten\u00e7\u00e3o do conforto do doente, ou que prolonguem ou agravem esse sofrimento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 6.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Cuidados paliativos<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - As pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida t\u00eam direito a receber cuidados paliativos atrav\u00e9s do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, com o \u00e2mbito e forma previstos na Lei de Bases dos Cuidados Paliativos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - Considera-se ainda presta\u00e7\u00e3o de cuidados paliativos o apoio espiritual e o apoio religioso, caso o doente manifeste tal vontade, bem como o apoio estruturado \u00e0 fam\u00edlia, que se pode prolongar \u00e0 fase do luto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - Os cuidados paliativos s\u00e3o prestados por equipa multidisciplinar de profissionais devidamente credenciados e em ambiente hospitalar, domicili\u00e1rio ou em institui\u00e7\u00f5es residenciais, nos termos da lei.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 - Para os efeitos do disposto no n\u00famero anterior, cabe ao m\u00e9dico respons\u00e1vel e \u00e0 equipa multidisciplinar que acompanham a pessoa doente contribuir para a forma\u00e7\u00e3o do respetivo consentimento informado, com base numa rigorosa avalia\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da situa\u00e7\u00e3o no plano cient\u00edfico, e pela adequada pondera\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios da benefic\u00eancia e da n\u00e3o malefic\u00eancia, no plano \u00e9tico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 7.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Cuidados paliativos em ambiente domicili\u00e1rio<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - Os cuidadores informais da pessoa em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida que recebe cuidados paliativos em ambiente domicili\u00e1rio t\u00eam direito a receber forma\u00e7\u00e3o adequada e apoio estruturado, proporcionados pelo Estado atrav\u00e9s da articula\u00e7\u00e3o entre o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e o Minist\u00e9rio do Trabalho, Solidariedade e Seguran\u00e7a Social.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - Os profissionais de sa\u00fade devem requerer o direito ao descanso do cuidador informal da pessoa em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida que se encontra em ambiente domicili\u00e1rio sempre que tal se justifique.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - Para efeitos do disposto nos n.os 1 e 2, a pessoa em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida tem de estar devidamente sinalizada na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e ou na Rede Nacional de Cuidados Paliativos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">4 - No \u00e2mbito dos cuidados de sa\u00fade prim\u00e1rios, os profissionais de sa\u00fade t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de sinalizar todos os casos de pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida que se encontrem em ambiente domicili\u00e1rio sem acesso ao devido apoio estruturado e profissionalizado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 8.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Progn\u00f3stico vital breve<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - As pessoas com progn\u00f3stico vital estimado em semanas ou dias, que apresentem sintomas de sofrimento n\u00e3o controlado pelas medidas de primeira linha previstas no n.\u00ba 1 do artigo 6.\u00ba, t\u00eam direito a receber seda\u00e7\u00e3o paliativa com f\u00e1rmacos sedativos devidamente titulados e ajustados exclusivamente ao prop\u00f3sito de tratamento do sofrimento, de acordo com os princ\u00edpios da boa pr\u00e1tica cl\u00ednica e da leges artis.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - As pessoas que se encontrem na situa\u00e7\u00e3o prevista no n\u00famero anterior s\u00e3o alvo de monitoriza\u00e7\u00e3o cl\u00ednica regular por parte de equipas de profissionais devidamente credenciados na presta\u00e7\u00e3o de cuidados paliativos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 - \u00c0 pessoa em situa\u00e7\u00e3o de \u00faltimos dias de vida, \u00e9 assegurado o direito \u00e0 recusa alimentar ou \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de determinados cuidados de higiene pessoal, respeitando, assim, o processo natural e fisiol\u00f3gico da sua condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 9.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Direitos n\u00e3o cl\u00ednicos<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o direitos das pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida, nos termos previstos na lei:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>a) Realizar testamento vital e nomear procurador de cuidados de sa\u00fade;<\/li><li>b) Ser o \u00fanico titular do direito \u00e0 informa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica relativa \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e tomar as medidas necess\u00e1rias e convenientes \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da sua confidencialidade, podendo decidir com quem partilhar essa informa\u00e7\u00e3o;<\/li><li>c) Dispor sobre o destino do seu corpo e \u00f3rg\u00e3os, para depois da sua morte, nos termos da lei;<\/li><li>d) Designar familiar ou cuidador de refer\u00eancia que o assistam ou, quando tal se mostre imposs\u00edvel, designar procurador ou representante legal;<\/li><li>e) Receber os apoios e presta\u00e7\u00f5es sociais que lhes sejam devidas, a si ou \u00e0 sua fam\u00edlia, em fun\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a e de perda de autonomia.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Artigo 10.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Decis\u00f5es terap\u00eauticas<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - Caso as pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida nisso consintam, podem ser assistidas pelos seus familiares ou cuidadores na tomada das decis\u00f5es sobre o seu processo terap\u00eautico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - Quando as pessoas em contexto de doen\u00e7a avan\u00e7ada e em fim de vida n\u00e3o estejam no pleno uso das suas faculdades mentais, e n\u00e3o se verificando o caso previsto no n\u00famero anterior, \u00e9 ao m\u00e9dico respons\u00e1vel e \u00e0 equipa de sa\u00fade que as acompanham, que compete tomar decis\u00f5es cl\u00ednicas, ouvida a fam\u00edlia, no exclusivo e melhor interesse do doente e de acordo com a vontade conhecida do mesmo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 11.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Discrep\u00e2ncia de vontades ou decis\u00f5es<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 - Em caso de discord\u00e2ncia insan\u00e1vel entre os doentes ou seus representantes legais e os profissionais de sa\u00fade quanto \u00e0s medidas a aplicar, ou entre aqueles e as entidades prestadoras quanto aos cuidados de sa\u00fade prestados, \u00e9 facultado aos doentes ou aos seus representantes legais o acesso aos conselhos de \u00e9tica das entidades prestadoras de cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">2 - Quando a assist\u00eancia seja prestada no domic\u00edlio ou em entidade que n\u00e3o disponha de conselho de \u00e9tica \u00e9 facultado aos doentes ou aos seus representantes legais o acesso aos \u00f3rg\u00e3os competentes em mat\u00e9ria de \u00e9tica da Ordem dos M\u00e9dicos, da Ordem dos Enfermeiros e da Ordem dos Psic\u00f3logos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 12.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Disposi\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">O disposto na presente lei n\u00e3o prejudica a aplica\u00e7\u00e3o do regime jur\u00eddico sobre diretivas antecipadas de vontade em mat\u00e9ria de cuidados de sa\u00fade, testamento vital e nomea\u00e7\u00e3o de procurador de cuidados de sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Aprovada em 4 de maio de 2018.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Vice-Presidente da Assembleia da Rep\u00fablica, em substitui\u00e7\u00e3o do Presidente da Assembleia da Rep\u00fablica, Jorge Lac\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Promulgada em 29 de junho de 2018.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Publique-se.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Presidente da Rep\u00fablica, Marcelo Rebelo de Sousa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Referendada em 9 de julho de 2018.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Primeiro-Ministro, Ant\u00f3nio Lu\u00eds Santos da Costa.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/diario-republica\/137-2018-115712222\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Di\u00e1rio da Rep\u00fablica n.\u00ba 137\/2018, S\u00e9rie I de 2018-07-18<\/a>,<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Emissor:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/31-2018-115712240\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Assembleia da Rep\u00fablica<\/a><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Data de Publica\u00e7\u00e3o:\u00a0<\/strong><a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/31-2018-115712240\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">2018-07-18<\/a><\/p><p>Fonte:\"<a href=\"https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/31-2018-115712240\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/diariodarepublica.pt\/dr\/detalhe\/lei\/31-2018-115712240<\/a>\"<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00a0<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-72e1a69 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-72e1a69 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-72e1a69\").on('click', function(){\n                        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afigura tipologicamente coincidente de um ponto de vista jur\u00eddico-normativo, o que exclui que haja identidade substancial da situa\u00e7\u00e3o litigiosa para poder ser equiparada nesse n\u00facleo essencial de aprecia\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria subjacente a cada uma das decis\u00f5es em confronto, assim como que a fundamenta\u00e7\u00e3o dos ac\u00f3rd\u00e3os n\u00e3o revela diversidade interpretativa e aplicativa, em termos de &#8230;<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-805e946 elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"805e946\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-805e946\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">oposi\u00e7\u00e3o expressa e frontal, das normas jur\u00eddicas que exigem o consentimento informado do paciente (desde logo, o art. 340.\u00ba, n.\u00bas 1 e 3, do CC) para efeitos de responsabilidade civil em caso de interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica, desde logo porque n\u00e3o existe equipara\u00e7\u00e3o dos objetos decidindo, n\u00e3o se preenche a contradi\u00e7\u00e3o-oposi\u00e7\u00e3o de julgados sobre a mesma quest\u00e3o fundamental de direito que justifique a admissibilidade do recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia, como exigido pelo art. 688.\u00ba, n.\u00ba 1, do CPC.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Processo n.\u00ba 765\/16.8T8AVR.P1.S1-A<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Recurso de Uniformiza\u00e7\u00e3o de Jurisprud\u00eancia (arts. 688\u00ba e ss CPC)<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Recorrente e Reclamante (art. 692\u00ba, 2, CPC): AA \u00a0<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Acordam em Confer\u00eancia na 6.\u00aa Sec\u00e7\u00e3o do Supremo Tribunal de Justi\u00e7a<\/strong><\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><strong>I) RELAT\u00d3RIO<\/strong><\/li><li>Notificada do\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o\u00a0<\/em><\/strong>proferido nestes autos pelo<strong><em>Supremo Tribunal de Justi\u00e7a<\/em><\/strong>, em\u00a0<strong><em>2 de Mar\u00e7o de 2021<\/em><\/strong>, que indeferiu a Reclama\u00e7\u00e3o para a Confer\u00eancia requerida para aprecia\u00e7\u00e3o de nulidade decis\u00f3ria arguida relativamente ao\u00a0<strong><em>Ac\u00f3rd\u00e3o proferido em 15 de Dezembro de 2020<\/em><\/strong>, a Recorrente de revista\u00a0<strong>AA<\/strong>, que viu neste \u00faltimo aresto julgar procedente a revista interposta pelo R\u00e9u\u00a0<strong><em>BB<\/em><\/strong>,\u00a0<em>\u201crepristinando-se o disposto pela senten\u00e7a de 1.\u00aa inst\u00e2ncia, ainda que com fundamenta\u00e7\u00e3o adicional e diversa\u201d<\/em>,<strong>\u00a0<\/strong>veio interpor\u00a0<strong><em>recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia\u00a0<\/em><\/strong>(RUJ), ao abrigo dos arts. 688\u00ba e ss do CPC.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Para este efeito, alegaram a contradi\u00e7\u00e3o do julgado com o\u00a0<strong><em>Ac\u00f3rd\u00e3o\u00a0<\/em><\/strong>deste<strong><em>\u00a0STJ<\/em><\/strong>, proferido em<strong><em>\u00a02 de Junho de 2015<\/em><\/strong>, 1263\/06.3TVPRT.P1.SI, 1.\u00aa Sec\u00e7\u00e3o, de 02 de junho de 2015, Rel. MARIA CLARA SOTTOMAYPOR, com tr\u00e2nsito em julgado, juntando certid\u00e3o com c\u00f3pia certificada e comprovativa do tr\u00e2nsito.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"2\"><li>A aqui Recorrente para o Pleno das Sec\u00e7\u00f5es C\u00edveis finalizou ent\u00e3o as suas alega\u00e7\u00f5es com as seguintes\u00a0<strong>Conclus\u00f5es<\/strong>, visando a revoga\u00e7\u00e3o do ac\u00f3rd\u00e3o e a sua substitui\u00e7\u00e3o por outro que, confirmando o decidido pelo Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do \u2026.., uniformize a jurisprud\u00eancia no sentido em que\u00a0<em>\u201ca aus\u00eancia da presta\u00e7\u00e3o de toda e qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos do procedimento m\u00e9dico \u00e0 paciente implica a inexist\u00eancia [de] consentimento informado v\u00e1lido e eficaz, que todos os riscos passam a correr por conta do m\u00e9dico, e, consequentemente, que conclua pela verifica\u00e7\u00e3o dos requisitos da responsabilidade civil m\u00e9dica do R. Recorrido\u201d<\/em>:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">\u201c<strong>A.<\/strong>\u00a0O recurso de uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia \u00e9 um meio processual previsto para suprir a contradi\u00e7\u00e3o de julgados de um mesmo tribunal superior, sobre a mesma quest\u00e3o fundamental de Direito, no dom\u00ednio temporal da mesma legisla\u00e7\u00e3o.<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>A Recorrente, entende, salvo devido respeito por opini\u00e3o diversa, que a decis\u00e3o proferida pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a, nos presentes autos, perfilhou uma solu\u00e7\u00e3o contradit\u00f3ria com as de outros arestos proferidos pelo mesmo Tribunal sobre o consentimento informado, no \u00e2mbito da responsabilidade civil m\u00e9dica.<\/li><li>O Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido, proferido em 15 de dezembro de 2020 e transitado em julgado em 18 de mar\u00e7o 2021, e o Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento, processo n.\u00ba 1263\/06.3TVPRT.P1.SI, 1.\u00aa Sec\u00e7\u00e3o, de 02 de junho de 2015, transitado em julgado em 18 de junho de 2015, ambos proferidos pelo Supremo Tribunal de Justi\u00e7a fazem aprecia\u00e7\u00f5es completamente contradit\u00f3rias do consentimento informado.<\/li><li>Entende a Recorrente, que a mesma quest\u00e3o fundamental de Direito apreciada e julgadaem ambos os Ac\u00f3rd\u00e3os obteve resposta diversa em cada um deles, com influ\u00eancia direta no resultado da causa, designadamente quanto \u00e0 aus\u00eancia da presta\u00e7\u00e3o de qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos do procedimento m\u00e9dico ao paciente, que, segundo o Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento, determina a invalidade e inefic\u00e1cia do consentimento, mas que no Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido foi desvalorizada porque o risco que se veio a materializar se tratava de um risco considerado pouco frequente.<\/li><li>O consentimento livre e esclarecido \u00e9 um postulado axiol\u00f3gico e normativo reconhecido em v\u00e1rias ordens jur\u00eddicas e consagrado no Direito Portugu\u00eas, constituindo um dos requisitos de licitude da atividade m\u00e9dica.<\/li><li>Os deveres e esclarecimentos do m\u00e9dico conformam-se individualmente perante cada paciente em concreto, porquanto, visam efetivamente a prote\u00e7\u00e3o do direito de autodetermina\u00e7\u00e3o e a correta forma\u00e7\u00e3o da vontade do paciente individual.<\/li><li>Para al\u00e9m de ser um direito absoluto de personalidade, a doutrina e a jurisprud\u00eancia t\u00eam vindo tamb\u00e9m a considerar o dever de informar como um dever contratual, porquanto as obriga\u00e7o\u0303es decorrentes da presta\u00e7a\u0303o de servi\u00e7os me\u0301dicos se caraterizam pela designada \u201c<em>relac\u0327\u00e3o<\/em><em>obrigacional<\/em>\u00a0<em>complexa<\/em>\u201d ou \u201c<em>rela\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0<em>obrigacional<\/em>\u00a0<em>em<\/em>\u00a0<em>sentido<\/em>\u00a0<em>amplo\u201d,<\/em>\u00a0em que coabitam deveres laterais ou acess\u00f3rios, alguns dos quais persistem mesmo apo\u0301s a extin\u00e7a\u0303o da rela\u00e7a\u0303o contratual e que, mesmo que n\u00e3o inclu\u00eddos no clausulado do contrato ou em norma legal expressa, encontram no princ\u00edpio geral da boa f\u00e9 a sua raza\u0303o de ser.<\/li><li>O consentimento informado do paciente, por for\u00e7a do princ\u00edpio do primado da dignidade da pessoa humana e da sua autodetermina\u00e7\u00e3o, \u00e9 requisito essencial da licitude da atividade m\u00e9dica.<\/li><li>Imp\u00f5e-se que o me\u0301dico, de forma simples, adequada e facilmente percet\u00edvel, informe o paciente da situa\u00e7a\u0303o cl\u00ednica deste: sobre o diagn\u00f3stico, o progn\u00f3stico, tratamentos e terape\u0302uticas aconselhados a\u0300 referida situa\u00e7a\u0303o e dos riscos que os mesmos comportam, com vista a permitir a autodetermina\u00e7\u00e3o dos riscos assumidos e proceder, assim, a uma delimita\u00e7\u00e3o ou segrega\u00e7\u00e3o dos riscos que foram assumidos pelo paciente e dos que, pelo contr\u00e1rio, correr por conta do m\u00e9dico.<\/li><li>Mais recentemente, alguma doutrina e jurisprud\u00eancia t\u00eamvindo a defender que recai sobre o me\u0301dico a obriga\u00e7a\u0303o de informar sobre os \u201criscos significativos\u201d (\u201c<em>os<\/em><em>riscos<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0[o m\u00e9dico]\u00a0<em>sabe<\/em>\u00a0<em>ou<\/em>\u00a0<em>devia<\/em>\u00a0<em>saber<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>s\u00e3o<\/em>\u00a0<em>relevantes<\/em>\u00a0<em>e<\/em>\u00a0<em>pertinentes<\/em>\u00a0<em>para<\/em>\u00a0<em>uma<\/em>\u00a0<em>pessoa<\/em>\u00a0<em>normal<\/em>\u00a0<em>colocada<\/em>\u00a0<em>nas<\/em>\u00a0<em>mesmas<\/em>\u00a0<em>circunst\u00e2ncias<\/em>\u00a0<em>do<\/em>\u00a0<em>paciente,<\/em>\u00a0<em>chamado<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>consentir<\/em>\u00a0\u201d), que sa\u0303o caraterizados em fun\u00e7a\u0303o dos seguintes crite\u0301rios: a) a necessidade terap\u00eautica da interven\u00e7\u00e3o; b) a frequ\u00eancia do risco; c) a gravidade do risco (ainda que n\u00e3o seja frequente); d) o comportamento do paciente.<\/li><li>Impendendo, tamb\u00e9m, sobre o R. m\u00e9dico, Recorrido, o \u00f3nus da prova do consentimento (informado) e da presta\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es devidas e adequadas (art. 342.\u00ba, n.\u00ba 2 do CC), como ali\u00e1s, tem sido entendido quer pela jurisprud\u00eancia, quer pela doutrina nacionais dominantes.<\/li><li>A lei na\u0303o exige a ocorre\u0302ncia de danos para a atribui\u00e7a\u0303o de uma indemniza\u00e7\u00e3o, pois que o objetivo do consentimento (informado) v\u00e1lido e eficaz, na\u0303o e\u0301 evitar leso\u0303es a\u0300 sa\u00fade ou ao corpo do paciente, mas salvaguardar a sua autodetermina\u00e7a\u0303o e o direito a\u0300 disposi\u00e7a\u0303o do seu corpo.<\/li><li>Independentemente do resultado lesivo que se venha a materializar, a n\u00e3o transmiss\u00e3o dos riscos do procedimento m\u00e9dico implica necessariamente a invalidade e inefic\u00e1cia do consentimento, e a\u00a0<strong>falta<\/strong><strong>de<\/strong>\u00a0<strong>consentimento<\/strong>\u00a0<strong>informado<\/strong>\u00a0<strong>\u00e9<\/strong>\u00a0<strong>um<\/strong>\u00a0<strong>dano<\/strong>\u00a0<strong>em<\/strong>\u00a0<strong>si<\/strong>\u00a0<strong>mesmo<\/strong>, coartando o direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o do paciente e ao respeito pela correta forma\u00e7\u00e3o da vontade individual do paciente que constitui, em si mesma, um dano n\u00e3o patrimonial indemniz\u00e1vel.<\/li><li>Por outro lado, essa falta (ou insufici\u00eancia) de informa\u00e7\u00e3o consubstancia um dano(aut\u00f3nomo)\u00a0<em>daperdadaoportunidade<\/em>do pacientetomar umadecis\u00e3o livre e esclarecida em termos de pondera\u00e7\u00e3o adequada de riscos e benef\u00edcios do procedimento\/ato m\u00e9dico.<\/li><li>No Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido o R. m\u00e9dico\u00a0<strong>apenas<\/strong><strong>transmitiu<\/strong>\u00a0<strong>\u00e0<\/strong>\u00a0<strong>paciente<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>ato<\/strong>\u00a0<strong>m\u00e9dico<\/strong>\u00a0<strong>em<\/strong>\u00a0<strong>causa<\/strong>\u00a0<strong>era<\/strong>\u00a0<strong>um<\/strong>\u00a0<strong>\u201cprocedimento<\/strong>\u00a0<strong>simples<\/strong>\u201d, sendo que o consentimento da A., Recorrente, a existir estaria limitado a essa informa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que, tendo-lhe sido\u00a0<strong><u>omitida toda e qualquer informa\u00e7\u00e3o relativa aos riscos<\/u><\/strong>, e em plena concord\u00e2ncia com a doutrina objetivista \u2013 a teoria da impressa\u0303o do declarat\u00e1rio (art. 236.\u00ba do CC) \u2013, qualquer declarat\u00e1rio normal entenderia que o consentimento a existir estava limitado a um\u00a0<strong><u>procedimento simples, e sem<\/u><\/strong><u>\u00a0<strong>intercorr\u00eancias<\/strong><\/u>, que justificasse a ligeireza com que foi abordado pelo profissional de sa\u00fade. Isto \u00e9, a paciente depreendeu e criou a expetativa de que ia ser curada, por via deste procedimento e que o mesmo seria in\u00f3cuo, em termos de riscos.<\/li><li>E \u00e9 precisamente por isso que o Ac\u00f3rd\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o \u00a0\u2026.. refere que\u00abEsta[aAutora] concordou comainterven\u00e7\u00e3ocir\u00fargica (factos provados nos postos 18 e 22), a qual se realizava no \u00e2mbito de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Mas a sua concord\u00e2ncia limitava-se a\u0300 \u201cpequena cirurgia\u201d nos termos e com os efeitos que o R\u00e9u tinha informado\u00bb.<\/li><li>O R. m\u00e9dico, Recorrido, deveria ter provado que informou sobre as consequ\u00eancias e riscos do procedimento, pelo menos, no que respeita aos riscos mais frequentes. Mas, dada a\u00a0<strong>falta<\/strong><strong>de<\/strong>\u00a0<strong>urg\u00eancia<\/strong>, isto \u00e9, tratando-se de um procedimento programado e deferido, impunha-se que a informa\u00e7\u00e3o poderia e deveria ter adquirido um car\u00e1cter mais pormenorizado - o que, salvo devido respeito, foi completamente ignorado pelo Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido, pois que, \u00e0 A., Recorrente\u00a0<strong><u>n\u00e3o foi transmitido qualquer risco<\/u><\/strong>\u00a0<strong>(nem<\/strong>\u00a0<strong>muito<\/strong>\u00a0<strong>frequente,<\/strong>\u00a0<strong>nem<\/strong>\u00a0<strong>pouco<\/strong>\u00a0<strong>frequente,<\/strong>\u00a0<strong>nem<\/strong>\u00a0<strong>grave,<\/strong>\u00a0<strong>nem<\/strong>\u00a0<strong>raro<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>grave,<\/strong>\u00a0<strong>nem<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>veio<\/strong>\u00a0<strong>efetivamente<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>materializar-se<\/strong>).<\/li><li>A \u00fanica refer\u00eancia aos riscos est\u00e1 precisamente no elenco dos factos\u00a0<strong><u>n\u00e3o<\/u><\/strong><strong><u>provados<\/u><\/strong>, n.\u00ba 42, tendo-se dado como n\u00e3o provado que \u201c<em>No<\/em>\u00a0<em>pr\u00f3prio<\/em>\u00a0<em>dia<\/em>\u00a0<em>do<\/em>\u00a0<em>exame,<\/em>\u00a0<em>e<\/em>\u00a0<em>antes<\/em>\u00a0<em>deste,<\/em>\u00a0<em>o<\/em>\u00a0<em>r\u00e9u<\/em>\u00a0<em>voltou<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>explicar<\/em>\u00a0<em>a\u0300<\/em>\u00a0<em>autora<\/em>\u00a0<em>todos<\/em>\u00a0<em>os<\/em>\u00a0<em>procedimentos<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>ia<\/em>\u00a0<em>efectuar<\/em>\u00a0<em>ou<\/em>\u00a0<em>realizar,<\/em>\u00a0<em>bem<\/em>\u00a0<em>como<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>informou<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>o<\/em>\u00a0<em>grau<\/em>\u00a0<em>de<\/em>\u00a0<em>risco<\/em>\u00a0<em>associado<\/em>\u00a0<em>era<\/em>\u00a0<em>muito<\/em>\u00a0<em>diminuto<\/em>\u00a0<em>e<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>uma<\/em>\u00a0<em>das<\/em>\u00a0<em>complicac\u0327\u00f5es<\/em>\u00a0<em>possi\u0301veis,<\/em>\u00a0<em>embora<\/em>\u00a0<em>muito<\/em>\u00a0<em>improva\u0301vel,<\/em>\u00a0<em>era<\/em>\u00a0<em>aquela<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>veio<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>ocorrer<\/em>\u00a0<em>(arts.<\/em>\u00a0<em>40\u00ba<\/em>\u00a0<em>e<\/em>\u00a0<em>41\u00ba<\/em>\u00a0<em>da<\/em>\u00a0<em>contestac\u0327a\u0303o<\/em>\u00a0<em>do<\/em>\u00a0<em>r\u00e9u)<\/em>.\u201d.<\/li><li>Ora, se a A., Recorrente, n\u00e3o tomou conhecimento de qualquer risco, nem consentiu com esses termos \u2013 e tendo presente que \u00e9 amplamente aceite pela doutrina epela jurisprud\u00eancia que\u00a0<strong>o<\/strong><strong>\u00f3nusda<\/strong>\u00a0<strong>prova<\/strong>\u00a0<strong>relativamente<\/strong>\u00a0<strong>\u00e0transmiss\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>dessa<\/strong>\u00a0<strong>informa\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>impendia<\/strong>\u00a0<strong>sobre<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>R.<\/strong>\u00a0<strong>m\u00e9dico,<\/strong>\u00a0<strong>Recorrido<\/strong>\u00a0<strong>\u2013<\/strong>\u00a0o R. m\u00e9dico, Recorrido,\u00a0<strong><u>assumiu os riscos inerentes ao procedimento que realizou<\/u><\/strong>.<\/li><li>Acresce que, para o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o \u2026.., alterada a mat\u00e9ria de facto dada como provada (ponto 28) passando a constar: \u201c<em>A<\/em><em>situa\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0<em>descrita<\/em>\u00a0<em>em<\/em>\u00a0<em>25<\/em>\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0<em>\u00e9<\/em>\u00a0<em>normal<\/em>\u00a0<em>ou<\/em>\u00a0<em>usual<\/em>\u00a0<em>(art.<\/em>\u00a0<em>49.\u00ba<\/em>\u00a0<em>da<\/em>\u00a0<em>contestac\u0327a\u0303o<\/em>\u00a0<em>do<\/em>\u00a0<em>r\u00e9u).\u201d,<\/em>\u00a0<strong>afastou-se<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>imprevisibilidade<\/strong>\u00a0<strong>do<\/strong>\u00a0<strong>risco<\/strong>\u00a0<strong>do<\/strong>\u00a0<strong>procedimento<\/strong>\u00a0<strong>cir\u00fargico<\/strong>\u00a0<strong>em<\/strong>\u00a0<strong>causa<\/strong>\u00a0<strong>nos<\/strong>\u00a0<strong>autos<\/strong>; e da\u00ed concluiu o Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se podia ignorar a possibilidade da presen\u00e7a de gases explosivos no intestino, como tamb\u00e9m n\u00e3o se podia ignorar que os mesmos ao serem expelidos, quando em contacto com o ar e o instrumento de eletrocoagula\u00e7\u00e3o podem ser id\u00f3neos a provocar uma explos\u00e3o conforme o pr\u00f3prio R., Recorrido, admitiu na sua contesta\u00e7\u00e3o (arts. 41.\u00ba e 42.\u00ba).<\/li><li>Nesse mesmo sentido,\u00a0<strong>bem<\/strong><strong>entendeu<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>Sr.<\/strong>\u00a0<strong>Juiz<\/strong>\u00a0<strong>Conselheiro<\/strong>\u00a0<strong>Fernando<\/strong>\u00a0<strong>Pinto<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>Almeida,<\/strong>\u00a0<strong>na<\/strong>\u00a0<strong>excursa\u0303o<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>fez<\/strong>\u00a0<strong>na<\/strong>\u00a0<strong>sua<\/strong>\u00a0<strong>declarac\u0327a\u0303o<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>voto<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>vencido<\/strong>, \u201c<em>se<\/em>\u00a0<em>existe<\/em>\u00a0<em>risco<\/em>\u00a0<em>de<\/em>\u00a0<em>o<\/em>\u00a0<em>evento<\/em>\u00a0<em>danoso<\/em>\u00a0<em>se<\/em>\u00a0<em>produzir<\/em>\u00a0<em>\u2013<\/em>\u00a0<em>como<\/em>\u00a0<em>o<\/em>\u00a0<em>pr\u00f3prio<\/em>\u00a0<em>r\u00e9u<\/em>\u00a0<em>admitiu<\/em>\u00a0<em>(arts<\/em>\u00a0<em>41<\/em>\u00a0<em>e<\/em>\u00a0<em>42<\/em>\u00a0<em>da<\/em>\u00a0<em>contesta\u00e7\u00e3o)<\/em>\u00a0<em>e<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>Rela\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0<em>confirmou<\/em>\u00a0<em>ao<\/em>\u00a0<em>excluir<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>fosse<\/em>\u00a0<em>imprevis\u00edvel<\/em>\u00a0<em>\u2013,como<\/em>\u00a0<em>veio<\/em>\u00a0<em>efectivamente<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>verificar-se,<\/em>\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0<em>concebo<\/em>\u00a0<em>que<\/em>\u00a0<em>se<\/em>\u00a0<em>sujeite<\/em>\u00a0<em>o<\/em>\u00a0<em>paciente<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>esse<\/em>\u00a0<em>risco,<\/em>\u00a0<em>sem<\/em>\u00a0<em>se<\/em>\u00a0<em>adoptarem<\/em>\u00a0<em>medidas<\/em>\u00a0<em>adequadas<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>evit\u00e1-lo.<\/em>\u201d.<\/li><li>Impendia sobre o m\u00e9dico a obriga\u00e7\u00e3o de informar adequadamente a paciente sobre os riscos do procedimento \u2013 quer se considerasse que o\u00a0<strong>risco<\/strong><strong>de<\/strong>\u00a0<strong>explos\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>era<\/strong>\u00a0<strong>previs\u00edvel<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>grave<\/strong>, e\/ou, quer se enquadrasse que o\u00a0<strong>risco<\/strong>\u00a0<strong>era<\/strong>\u00a0<strong>significativo.<\/strong>\u00a0Ali\u00e1s, \u201c<em>parase<\/em>\u00a0<strong><em>alcan\u00e7aroconsentimentolivre<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>e<\/em><\/strong>\u00a0<strong><em>esclarecido<\/em><\/strong>\u00a0<em>tem<\/em>\u00a0<em>import\u00e2nciaprimordial<\/em>\u00a0<em>o<\/em>\u00a0<em>dar<\/em>\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>conhecer<\/em>\u00a0<em>ao<\/em>\u00a0<em>doente<\/em>\u00a0<em>os<\/em>\u00a0<strong><em><u>riscos do procedimento<\/u><\/em><\/strong><em>,<\/em>\u00a0<em>pois<\/em>\u00a0<em>este<\/em>\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0<em>pode<\/em>\u00a0<em>escolher,<\/em>\u00a0<em>em<\/em>\u00a0<em>consci\u00eancia,<\/em>\u00a0<em>submeter-se<\/em>\u00a0<em>ou<\/em>\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0<em>ao<\/em>\u00a0<em>procedimento<\/em>\u00a0<em>m\u00e9dico,<\/em>\u00a0<em>se<\/em>\u00a0<em>n\u00e3o<\/em>\u00a0<em>estiver<\/em>\u00a0<em>ciente<\/em>\u00a0<em>da<\/em>\u00a0<em>exist\u00eancia<\/em>\u00a0<em>desses<\/em>\u00a0<em>riscos.<\/em>\u201d \u2013 e, n\u00e3o o tendo feito, o\u00a0<strong>Ac\u00f3rd\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>Recorrido<\/strong>\u00a0<strong>tinha<\/strong>\u00a0<strong>necessariamente<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>concluir<\/strong>\u00a0<strong>pela<\/strong>\u00a0<strong>viola\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>do<\/strong>\u00a0<strong>consentimento<\/strong>\u00a0<strong>(informado)<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>A.,<\/strong>\u00a0<strong>Recorrente,<\/strong>\u00a0<strong>e,<\/strong>\u00a0<strong>portanto,dasuaautodetermina\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>eliberdadededisposi\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>sobre<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>seu<\/strong>\u00a0<strong>pr\u00f3prio<\/strong>\u00a0<strong>corpo<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>sa\u00fade,<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>consequentemente<\/strong>\u00a0<strong>pela<\/strong>\u00a0<strong>ilicitude<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>atua\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>do<\/strong>\u00a0<strong>R.<\/strong>\u00a0<strong>m\u00e9dico,<\/strong>\u00a0<strong>Recorrido,<\/strong>\u00a0<strong>e,<\/strong>\u00a0<strong>bem<\/strong>\u00a0<strong>assim,<\/strong>\u00a0<strong>pela<\/strong>\u00a0<strong>verifica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>dos<\/strong>\u00a0<strong>restantes<\/strong>\u00a0<strong>pressupostos<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>responsabilidade<\/strong>\u00a0<strong>civil.<\/strong><\/li><li><strong> N\u00e3o<\/strong><strong>tendo<\/strong><strong>o<\/strong>\u00a0<strong>R.<\/strong>\u00a0<strong>m\u00e9dico,<\/strong>\u00a0<strong>ora<\/strong>\u00a0<strong>Recorrido,<\/strong>\u00a0<strong>provado<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>prestou<\/strong>\u00a0<strong>tal<\/strong>\u00a0<strong>informa\u00e7\u00e3o,<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>n\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>se<\/strong>\u00a0<strong>tendo-se<\/strong>\u00a0<strong>dado<\/strong>\u00a0<strong>como<\/strong>\u00a0<strong>provado<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>mesmo<\/strong>\u00a0<strong>tenha<\/strong>\u00a0<strong>informado<\/strong>\u00a0<strong>sobre<\/strong>\u00a0<strong>os<\/strong>\u00a0<strong>riscos<\/strong>\u00a0<strong>em<\/strong>\u00a0<strong>momento<\/strong>\u00a0<strong>algum,<\/strong>\u00a0<strong>tal<\/strong>\u00a0<strong>implicaria<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>se<\/strong>\u00a0<strong>o<\/strong>\u00a0<strong>Supremo<\/strong>\u00a0<strong>Tribunal<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>Justi\u00e7a,<\/strong>\u00a0<strong>no<\/strong>\u00a0<strong>aresto<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>ora<\/strong>\u00a0<strong>se<\/strong>\u00a0<strong>recorre,<\/strong>\u00a0<strong>tivesse<\/strong>\u00a0<strong>conclu\u00eddo<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>n\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>houve<\/strong>\u00a0<strong>consentimento<\/strong>\u00a0<strong>(informado)<\/strong>\u00a0<strong>v\u00e1lido<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>eficaz,<u>\u00a0como bem se decidiu no Ac\u00f3rd\u00e3o<\/u><\/strong><u>\u00a0<strong>Fundamento<\/strong><\/u>.<\/li><li>Com efeito, entendeu o\u00a0<strong>Ac\u00f3rd\u00e3o<\/strong><strong>Fundamento<\/strong>que a transmiss\u00e3o da\u00a0<strong>informa\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>relativa<\/strong>\u00a0<strong>aos<\/strong>\u00a0<strong>riscos<\/strong>\u00a0do procedimento m\u00e9dico\u00a0<strong>\u00e9<\/strong>\u00a0<strong>condi\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>validade<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>efic\u00e1cia<\/strong>\u00a0<strong>do<\/strong>\u00a0<strong>consentimento,<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>aus\u00eancia<\/strong>\u00a0<strong>ou<\/strong>\u00a0<strong>defici\u00eancia<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>informa\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>relativa<\/strong>\u00a0<strong>aos<\/strong>\u00a0<strong>riscos<\/strong>, desde que verificados todos os pressupostos,\u00a0<strong>\u00e9<\/strong>\u00a0<strong>geradora<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>responsabilidade<\/strong>\u00a0<strong>civil<\/strong>, pelo que condenou o R. m\u00e9dico a indemnizar a A. pelos danos patrimoniais e n\u00e3o patrimoniais sofridos.<\/li><li>Mais decidiu, em total diverg\u00eancia com o decidido pelo Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido, que\u00a0<strong>a<\/strong><strong>obriga\u00e7\u00e3o<\/strong><strong>de<\/strong>\u00a0<strong>indemnizar<\/strong>\u00a0<strong>n\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>est\u00e1<\/strong>\u00a0<strong>necessariamente<\/strong>\u00a0<strong>dependente<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>produ\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>de<\/strong>\u00a0<strong>danos<\/strong>\u00a0<strong>f\u00edsicos<\/strong>\u00a0<strong>ou<\/strong>\u00a0<strong>\u00e0<\/strong>\u00a0<strong>sa\u00fade<\/strong>, uma vez que o que o consentimento informado pretende tutelar s\u00e3o os direitos \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo, pelo que,\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>omiss\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>informa\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>sobre<\/strong>\u00a0<strong>os<\/strong>\u00a0<strong>riscos<\/strong>\u00a0<strong>subtrai<\/strong>\u00a0<strong>ao<\/strong>\u00a0<strong>paciente<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>direito<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>fazer<\/strong>\u00a0<strong>uma<\/strong>\u00a0<strong>escolha<\/strong>\u00a0<strong>livre<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>informada<\/strong>\u00a0<strong>constitui,<\/strong>\u00a0<strong>em<\/strong>\u00a0<strong>si<\/strong>\u00a0<strong>mesma,<\/strong>\u00a0<strong>um<\/strong>\u00a0<strong>dano<\/strong>\u00a0<strong>n\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>patrimonial<\/strong>\u00a0<strong>indemniz\u00e1vel<\/strong>.<\/li><li><strong>Na\u0303o<\/strong><strong>tendo<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>A.,<\/strong>\u00a0<strong>Recorrente,<\/strong>\u00a0<strong>prestado<\/strong>\u00a0<strong>qualquer<\/strong>\u00a0<strong>consentimento,<\/strong>\u00a0<strong>escrito<\/strong>\u00a0<strong>ou<\/strong>\u00a0<strong>verbal,<\/strong>\u00a0<strong>expresso<\/strong>\u00a0<strong>ou<\/strong>\u00a0<strong>t\u00e1cito,<\/strong>\u00a0<strong>presumido<\/strong>\u00a0<strong>ou<\/strong>\u00a0<strong>hipote\u0301tico,<\/strong>\u00a0<strong>para<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>pr\u00e1tica<\/strong>\u00a0<strong>do<\/strong>\u00a0<strong>ato<\/strong>\u00a0<strong>ciru\u0301rgico<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>foi<\/strong>\u00a0<strong>sujeita,<\/strong>\u00a0<strong>esta\u0303o<\/strong>\u00a0<strong>assim<\/strong>\u00a0<strong>preenchidos<\/strong>\u00a0<strong>os<\/strong>\u00a0<strong>pressupostos<\/strong>\u00a0<strong>da<\/strong>\u00a0<strong>responsabilidadecivilcontratualedaextracontratual<\/strong>:\u00a0<strong><u>ilicitude<\/u><\/strong>(incumprimento do contratode presta\u00e7a\u0303odeservi\u00e7os e deregrasde condutadecorrentes da e\u0301tica me\u0301dica e do Co\u0301digo Deontolo\u0301gico da Ordem dos Me\u0301dicos, como a obriga\u00e7a\u0303o de obter um consentimento informado\/viola\u00e7\u00e3o de direitos absolutos a\u0300 integridade f\u00edsica e moral, ao livre desenvolvimento da personalidade e a\u0300 autodetermina\u00e7a\u0303o (arts 25.\u00ba, n.\u00ba1 e 26.\u00ba, n.\u00ba 1 da CRP e 70.\u00ba, n.\u00ba 1 do CC));\u00a0<strong><u>culpa<\/u><\/strong>, a qual se presume nos termos do art. 799.\u00ba, n.\u00ba 1 do CC;\u00a0<strong><u>nexo de causalidade entre o facto<\/u><\/strong>\u00a0\u2013 interven\u00e7a\u0303o me\u0301dica n\u00e3o consentida \u2013\u00a0<strong><u>e o dano<\/u><\/strong><u>,<\/u>\u00a0no sentido em que aquela e\u0301 a causa adequada do dano;\u00a0<strong><u>danos patrimoniais e na\u0303o patrimoniais<\/u><\/strong>\u00a0amplamente documentados nos autos e refletidos na mat\u00e9ria de facto.<\/li><li>Os danos na\u0303o patrimoniais ressarc\u00edveis, como afirmam ser\u00e3o necessariamente as dores, os inco\u0301modos e a lesa\u0303o da intangibilidade pessoal e \u00edntima da paciente, ainda, a viola\u00e7a\u0303o da autodetermina\u00e7\u00e3o, da liberdade em si mesma. Quanto a estas mat\u00e9rias, o Co\u0301digo Civil consagra, em pleno, o princ\u00edpio da ressarcibilidade dos danos na\u0303o patrimoniais (art. 496.\u00ba, n.\u00ba 1) e o crite\u0301rio da fixa\u00e7a\u0303o equitativa da indemniza\u00e7a\u0303o correspondente (art. 496.\u00ba, n.\u00ba 3).<\/li><li>Desta feita, n\u00e3o tendo sido transmitida \u00e0 A., Recorrente, informa\u00e7\u00e3o sobre qualquer risco (nem muito frequente, nem pouco frequente, nem grave, nem raro e grave, nem a explos\u00e3o que veio efetivamente a materializar-se),\u00a0<strong>o<\/strong><strong>Ac\u00f3rd\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>Recorrido<\/strong>\u00a0<strong>n\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>deveria<\/strong>\u00a0<strong>ter<\/strong>\u00a0<strong>julgado,<\/strong>\u00a0<strong>como<\/strong>\u00a0<strong>julgou,<\/strong>\u00a0<strong>que<\/strong>\u00a0<strong>a<\/strong>\u00a0<strong>A.,<\/strong>\u00a0<strong>Recorrente<\/strong>\u00a0<strong>tinha<\/strong>\u00a0<strong>prestado<\/strong>\u00a0<strong>um<\/strong>\u00a0<strong>consentimento<\/strong>\u00a0<strong>(informado)<\/strong>\u00a0<strong>v\u00e1lido<\/strong>\u00a0<strong>e<\/strong>\u00a0<strong>eficaz<\/strong>.<\/li><li><strong><u>Entende a A., Recorrente, que se verifica uma contradi\u00e7\u00e3o essencial em<\/u><\/strong><strong><u>mat\u00e9ria de direito, que se manifestou no n\u00facleo essencial e determinante que<\/u><\/strong>\u00a0<strong><u>influenciou a decis\u00e3o (divergente) de ambos os Ac\u00f3rd\u00e3os do Supremo Tribunal<\/u><\/strong>\u00a0<strong><u>de Justi\u00e7a, sobre a verifica\u00e7\u00e3o da (in)exist\u00eancia de consentimento (informado)<\/u><\/strong><u>\u00a0<strong>v\u00e1lido e eficaz, e a correspetiva consequ\u00eancia jur\u00eddica, isto \u00e9, a ilicitude da<\/strong>\u00a0<strong>atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e a verifica\u00e7\u00e3o da responsabilidade civil m\u00e9dica<\/strong><\/u>.\u201d<\/li><li>O Recorrido BB e a Recorrida Chamada \u00abAgeas Portugal \u2013 Companhia de Seguros, S.A.\u00bb apresentaram contra-alega\u00e7\u00f5es (art. 689\u00ba, 2, CPC), pugnando pela inadmissibilidade do recurso ou, se assim n\u00e3o for entendido, pela sua improced\u00eancia.<\/li><li>O aqui Relator, nos termos do art. 692\u00ba, 1, do CPC proferiu despacho de aprecia\u00e7\u00e3o liminar, rejeitando o recurso tendo em conta a sua inadmissibilidade em face dos requisitos legais.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Inconformada, veio a Recorrente interpor Reclama\u00e7\u00e3o para a Confer\u00eancia, nos termos previstos no art. 692\u00ba, 2, do CPC, desta feita apresentando as seguintes\u00a0<strong>Conclus\u00f5es<\/strong>:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cA) O recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia comporta dois momentos distintos, designadamente: o primeiro, consubstanciado na sua interposi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>toutcourt,<\/em>\u00a0queobedece ao preceituado nosartigos688.\u00baa692.\u00ba, n.\u00bas 1 e 2; o segundo que pressup\u00f5e a admiss\u00e3o do recurso interposto, pelo Sr. Dr. Juiz Conselheiro Relator primitivo do processo ou pelo coletivo primitivo caso haja reclama\u00e7\u00e3o para a confer\u00eancia e esta assim o determine, e que implica o envio do processo \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o, artigo 692.\u00ba, n.<sup>os<\/sup>\u00a03, 4 e 5 do mesmo inciso legal.<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"688\"><li>B) Para que o recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia seja admitido e apreciado, \u00e9 necess\u00e1rio que, nos termos do artigo 688.\u00ba do CPC, se demonstre a exist\u00eancia de uma contradi\u00e7\u00e3o sobre o modo como foi resolvida\u00a0<u>uma ou diversas quest\u00f5es de direito que se tenham revelado essenciais ou determinantes<\/u>para a resolu\u00e7\u00e3o de cada um dos lit\u00edgios envolvidos tanto no Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido como no Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento, anteriormente transitado em julgado.<\/li><li>C) A Reclamante entende que se verificou uma contradi\u00e7\u00e3o entre o n\u00facleo essencial do Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido (a respeito da quest\u00e3o ou quest\u00f5es de direito que tenham sido decisivas) e do Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento,\u00a0<em>in<\/em><em>casu<\/em>, quanto \u00e0 aus\u00eancia da presta\u00e7\u00e3o de qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos do procedimento m\u00e9dico ao paciente que no Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento determinou a invalidade e inefic\u00e1ciado consentimento, mas que no Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido foi desvalorizada porque o risco que se veio a materializar se tratava de um risco considerado pouco frequente.<\/li><li>D) O objeto de cada um dos ac\u00f3rd\u00e3os em confronto n\u00e3o tem de ser id\u00eantico, exige-se uma identidade substancial relativamente \u00e0 quest\u00e3o ou quest\u00f5es de direito que tenham sido decisivas para qualquer deles, mas que foram resolvidas de modo contradit\u00f3rio, criando uma frontal diverg\u00eancia jurisprudencial que deva ser superada.<\/li><li>E) O Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido afirma que houve consentimento porque o risco que se materializou era um risco pouco frequente e que, sendo pouco frequente, nunca teria de ser transmitido pelo m\u00e9dico. Mas o que ignorou por completo \u00e9 que n\u00e3o houve risco algum a ser transmitido \u00e0 Autora,\u00a0<u>nem muito frequente, nem pouco frequente<\/u>. Ou seja, independentemente de o risco de explos\u00e3o col\u00f3nica ser um risco cuja materializa\u00e7\u00e3o se considerou ser pouco frequente, a verdade \u00e9 que havia outros riscos mais frequentes e nenhum deles foi transmitido \u00e0 paciente. Ali\u00e1s, quanto a este aspeto, ficou provado nos autos, que a \u00fanica informa\u00e7\u00e3o prestada \u00e0 paciente foi a de que se tratava de um \u201cprocedimento simples\u201d. E, como \u00e9 amplamente aceite pela doutrina e pela jurisprud\u00eancia, o \u00f3nus da prova relativamente \u00e0 transmiss\u00e3o dessa informa\u00e7\u00e3o impendia sobre o m\u00e9dico, R. e Recorrido nos presentes autos. Ora, n\u00e3o tendo sido transmitida a informa\u00e7\u00e3o sobre qualquer risco, o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a n\u00e3o deveria ter considerado, como considerou, que a Recorrente, ora Reclamante tinha prestado um consentimento v\u00e1lido e eficaz.<\/li><li>F) Por outro lado, entendeu o Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento que a transmiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o relativa aos riscos do procedimento m\u00e9dico \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de validade e efic\u00e1cia do consentimento, e que a aus\u00eancia dessa informa\u00e7\u00e3o determina que todo e qualquer risco corra por conta do m\u00e9dico. Mais decidiu que a obriga\u00e7\u00e3o de indemnizar n\u00e3o est\u00e1 necessariamente dependente da produ\u00e7\u00e3o de danos f\u00edsicos ou \u00e0 sa\u00fade, uma vez que o que o consentimento informado pretendetutelar s\u00e3o os direitos \u00e0autodetermina\u00e7\u00e3o e\u00e0disposi\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio corpo, pelo que, a omiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos subtrai ao paciente a direito a fazer uma escolha livre e informada constitui, em si mesma, um dano n\u00e3o patrimonial indemniz\u00e1vel.<\/li><li>G) Entende a Reclamante que a Decis\u00e3o Singular ora reclamada dever\u00e1 ser revogada, devendo ser proferida decis\u00e3o preliminar colegial que determine que o recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia seja admitido, por estarem reunidos todos os pressupostos legais de admissibilidade, bem como a contradi\u00e7\u00e3o dos julgados sobre a mesma quest\u00e3o fundamental de Direito apreciada e julgada em ambos os Ac\u00f3rd\u00e3os e que obteve resposta diversa em cada um deles, com influ\u00eancia direta no resultado da causa, designadamente quanto \u00e0 aus\u00eancia da presta\u00e7\u00e3o de qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos do procedimento m\u00e9dico ao paciente, que, segundo o Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento, determina a invalidade e inefic\u00e1cia do consentimento, mas que no Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido foi desvalorizada porque o risco que se veio a materializar se tratava de um risco considerado pouco frequente, e consequentemente seja distribu\u00eddo para aprecia\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o de m\u00e9rito.<\/li><li>H) A Reclamante entende que aprecia\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o de direito relativa ao consentimento v\u00e1lido e eficaz e,\u00a0<em>lato<\/em><em>sensu<\/em>, a aprecia\u00e7\u00e3o da verifica\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, dos pressupostos da responsabilidade civil m\u00e9dica s\u00e3o temas indissocialvelmente ligados entre si.<\/li><li>I) No Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido, n\u00e3o tendo a A., Recorrente, ora Reclamante recebido qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre os riscos associados ao procedimento em causa, devia o Supremo Tribunal ter decidido que n\u00e3o havia sido prestado qualquer consentimento (escrito ou verbal, expresso ou ta\u0301cito, presumido ou hipot\u00e9tico) para a pr\u00e1tica do ato cir\u00fargico a que foi sujeita e que se encontravam preenchidos os pressupostos da responsabilidade civil contratual e da extracontratual:\u00a0<u>ilicitude<\/u>(incumprimento do contrato de prestac\u0327a\u0303o de servic\u0327os e de regras de conduta decorrentes da \u00e9tica m\u00e9dica e do C\u00f3digo Deontolo\u0301gico da Ordem dos M\u00e9dicos, como a obrigac\u0327a\u0303o de obter um consentimento informado\/viola\u00e7\u00e3o de direitos absolutos a\u0300 integridade fi\u0301sica e moral, ao livre desenvolvimento da personalidade e \u00e0 autodeterminac\u0327\u00e3o (arts 25.\u00ba, n.\u00ba1 e 26.\u00ba, n.\u00ba 1 da CRP e 70.\u00ba, n.\u00ba 1 do CC));\u00a0<u>culpa<\/u>, a qual se presume nos termos do art. 799.\u00ba, n.\u00ba 1 do CC;\u00a0<u>nexo de causalidade entre o facto<\/u>\u2013 intervenc\u0327\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o consentida \u2013\u00a0<u>e o dano<\/u>, no sentido emqueaquela \u00e9acausa adequadado dano; danos patrimoniais en\u00e3o patrimoniais amplamente documentados nos autos e refletidos na mat\u00e9ria de facto.<\/li><li>J) Ainda que se entenda que a quest\u00e3o de direito relativa ao consentimento informado apreciada e julgada no Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento \u201c<em>\u00e9<\/em><em>factual-juridicamente<\/em><em>tratado<\/em>\u00a0<em>em<\/em>\u00a0<em>termos<\/em>\u00a0<em>diversos<\/em>\u00a0<em>da<\/em>\u00a0<em>cirurgia<\/em>\u00a0<em>curativa<\/em>\u00a0<em>ou<\/em>\u00a0<em>assistencial,\u201d<\/em>\u00a0da apreciada e julgada no Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido, sempre diremos que, dada a falta de urg\u00eancia da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica, isto \u00e9, tratando-se de um procedimento (remo\u00e7\u00e3o do p\u00f3lipo hemorroid\u00e1rio atrav\u00e9s de anusc\u00f3pio, com anestesia local e recurso a eletrocaut\u00e9rio) programado e deferido, a informa\u00e7\u00e3o poderia e deveria ter adquirido um car\u00e1cter mais pormenorizado e exigente.<\/li><li>K) A Reclamante entende que o Ac\u00f3rd\u00e3o (Fundamento) trazido \u00e0 li\u00e7a para sustentar a necessidade de uniformiza\u00e7\u00e3o, por estar em oposi\u00e7\u00e3o com o Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido, tinham como tema\u00a0<em>decidendum<\/em><em>a<\/em><em>vexata<\/em>\u00a0<em>quaestio<\/em>\u00a0de saber se, a final, quer num quer no outro caso, estavam ou n\u00e3o verificados os pressupostos da responsabilidade civil indemnizat\u00f3ria por ato m\u00e9dico, mais concretamente, se estava ou n\u00e3o verificado um dos fundamentos aut\u00f3nomos da responsabilidade civil, o consentimento informado.<\/li><li>L) Entende a Reclamante que o Sr. Dr. Juiz Conselheiro Relator n\u00e3o podia considerar a quest\u00e3o de direito fundamental relativa ao consentimento informado como sendo uma quest\u00e3o marginal ou perif\u00e9rica, quando, de facto, \u00e9 da aprecia\u00e7\u00e3o f\u00e1tica e jur\u00eddica sobre a verifica\u00e7\u00e3o da (in)exist\u00eancia de consentimento (informado) v\u00e1lido e eficaz, e a correspetiva consequ\u00eancia jur\u00eddica advinda, isto \u00e9, a ilicitude da atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e a verifica\u00e7\u00e3o da responsabilidade civil m\u00e9dica, que se verifica a contradi\u00e7\u00e3o essencial entre o que foi firmado em cada um dos arestos (Ac\u00f3rd\u00e3o Recorrido e Ac\u00f3rd\u00e3o Fundamento), verificando-se, por isso, a identidade entre as quest\u00f5es de direito que num e noutro se revelaram essenciais para a resolu\u00e7\u00e3o de cada um dos lit\u00edgios que lhes estavam subjacentes e que obteve resposta diversa em cada um deles, com influ\u00eancia direta no resultado da causa, motivo pelo qual, a Decis\u00e3o Singular ora reclamada dever\u00e1 ser revogada, devendo ser proferida decis\u00e3o preliminar colegial que determine que o recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia seja admitido e enviado \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o para aprecia\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito.\u201d<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">As partes recorridas responderam e pugnaram pela confirma\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o reclamada e consequente inadmissibilidade do recurso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">*<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foram dispensados os vistos legais (arts. 657\u00ba, 4, 679\u00ba, CPC).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cumpre apreciar e decidir.<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><strong>II) APRECIA\u00c7\u00c3O E FUNDAMENTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/li><li>Proferiu o aqui Relator Decis\u00e3o de Aprecia\u00e7\u00e3o Liminar (art. 692\u00ba, 1, CPC), na qual avulta a seguinte fundamenta\u00e7\u00e3o quanto ao impugnado:<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">\u201cAlega a aqui Recorrente que o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido se encontra em contradi\u00e7\u00e3o com o ac\u00f3rd\u00e3o fundamento, porque teria decidido de forma e com crit\u00e9rio diferentes a quest\u00e3o da\u00a0<em>verifica\u00e7\u00e3o do consentimento informado como condi\u00e7\u00e3o de licitude da actua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica e sua consequ\u00eancia na responsabilidade civil do R\u00e9u.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">O art. 688\u00ba, 1, do CPC estabelece: \u00ab<em>As partes podem interpor recurso para o pleno das sec\u00e7\u00f5es c\u00edveis quando o Supremo Tribunal de Justi\u00e7a proferir ac\u00f3rd\u00e3o que esteja em\u00a0<strong>contradi\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0com outro anteriormente proferido pelo mesmo tribunal, no dom\u00ednio da mesma legisla\u00e7\u00e3o e\u00a0<strong>sobre a mesma quest\u00e3o fundamental de direito<\/strong><\/em>\u00bb.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o basta que se verifique uma qualquer diversidade ou oposi\u00e7\u00e3o de ac\u00f3rd\u00e3os para que se sacrifique a certeza do caso julgado e o STJ seja chamado a pronunciar-se em Pleno. Para este efeito, tem de existir uma inequ\u00edvoca contradi\u00e7\u00e3o entre o modo como dois ac\u00f3rd\u00e3os decidem<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><em>a mesma quest\u00e3o fundamental de direito<\/em>.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para que a contradi\u00e7\u00e3o exista \u00e9 necess\u00e1rio que os ac\u00f3rd\u00e3os em confronto interpretem e apliquem a ou as mesmas disposi\u00e7\u00f5es legais, num e noutro ac\u00f3rd\u00e3o, em termos opostos (de forma directa e expressa, por regra), sendo essa interpreta\u00e7\u00e3o\/aplica\u00e7\u00e3o essenciais para a decis\u00e3o jur\u00eddica obtida numa e noutra das decis\u00f5es (<em>ratio decidendi<\/em>), no contexto de uma identidade ou similitude do n\u00facleo factual subjacente, o que tem pressuposta, por via de regra, a equipara\u00e7\u00e3o tipol\u00f3gica das circunst\u00e2ncias do lit\u00edgio ao qual a lei \u00e9 aplic\u00e1vel.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>\u201c<\/strong>O<strong>\u00a0<em>ac\u00f3rd\u00e3o recorrido<\/em>\u00a0<\/strong>discorreu assim sobre a quest\u00e3o alegadamente julgada em contradi\u00e7\u00e3o, em dois passos da fundamenta\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o decidenda (<em>\u201cverifica\u00e7\u00e3o dos pressupostos da responsabilidade civil indemnizat\u00f3ria por acto m\u00e9dico para o efeito de condena\u00e7\u00e3o do R\u00e9u, em especial visando sindicar a adequa\u00e7\u00e3o e a prepara\u00e7\u00e3o do procedimento cir\u00fargico durante o qual acontece o evento gerador dos danos na esfera da Autora<\/em>\u201d):<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cA opera\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica foi realizada em execu\u00e7\u00e3o de um\u00a0<em>contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o<\/em>: art. 1154\u00ba do CCiv. (\u00abaquele em que uma das partes se\u00a0<em>obriga a proporcionar \u00e0 outra certo resultado do seu trabalho intelectual ou manual<\/em>, com ou sem retribui\u00e7\u00e3o\u00bb). O R\u00e9u m\u00e9dico vinculou-se e aceitou executar um acto de anuscopia, para extrac\u00e7\u00e3o do referido \u201cp\u00f3lipo hemorroid\u00e1rio\u201d com recurso a electrocu\u00e7\u00e3o, com ministra\u00e7\u00e3o de anestesia local, e dar a conhecer o seu resultado cl\u00ednico, no exerc\u00edcio da medicina a t\u00edtulo privado e em regime de profissional liberal \u2013 cfr. factos provados 12., 13., 14., 16.; a Autora paciente vinculou-se e aceitou submeter-se a esse acto, depois de um exame de diagn\u00f3stico anteriormente feito (\u201cretossigmoidoscopia\u201d) \u2013 cfr. factos provados 9., 10., 11 \u2013 e consentimento dado em face dos esclarecimentos previamente fornecidos pelo R\u00e9 m\u00e9dico e pela sua assistente de consult\u00f3rio \u2013 cfr. factos provados 12., 13., 14., 15., 16., 17., 18., 20., 21., 22.; e factos n\u00e3o provados 5., 10. e 11.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cPor fim, n\u00e3o se demonstrou que tenha havido interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o consentida (que poderia levar a que se conclu\u00edsse ser il\u00edcita a interven\u00e7\u00e3o em execu\u00e7\u00e3o do contrato: art. 340\u00ba, 1, 3, CCiv.), sendo certo que as informa\u00e7\u00f5es prestadas para um consentimento livre e esclarecido n\u00e3o implicam que se transmita ao paciente\u00a0<em>o conjunto de riscos ou efeitos adversos que n\u00e3o sejam t\u00edpicos \u2013 conhecidos e previs\u00edveis \u2013, graves e \u2013 ainda \u2013, a n\u00e3o ser que sejam s\u00e9rios e graves, de forte grau de improbabilidade<\/em>\u00a0<em>de ocorr\u00eancia<\/em>\u00a0(em esp., v. os arts. 157\u00ba do CPenal; arts. 44\u00ba, 2 e 5, e 50\u00ba, 1 e 2, do C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos; Norma n.\u00ba 15\/2013 da Direc\u00e7\u00e3o-Geral de Sa\u00fade, de 3\/10\/2013, actualizada em 4\/11\/2015, ponto 4., als.\u00a0<em>e)<\/em>,\u00a0<em>f)<\/em>,\u00a0<em>g)<\/em>) \u2013 v. factos provados 12., 13., 20. e 22..<\/p><p style=\"text-align: justify\">De outra banda, quanto \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o antecedente do acto m\u00e9dico, n\u00e3o deixou de se verificar esclarecimento pr\u00f3prio sobre a actua\u00e7\u00e3o da paciente antes do exame, de acordo com o dado como conhecido e adquirido na experi\u00eancia do R\u00e9u m\u00e9dico \u2013 cfr. facto provado 20. Em rigor, n\u00e3o se tratou de informa\u00e7\u00e3o adequada ao consentimento; antes de\u00a0<em>esclarecimento terap\u00eautico<\/em>, que n\u00e3o tutela a auto-determina\u00e7\u00e3o do paciente mas sim o seu corpo e sa\u00fade, sendo, portanto, a sua omiss\u00e3o discutida \u2013 como j\u00e1 foi \u2013 em sede de erro na execu\u00e7\u00e3o do acto m\u00e9dico \u2013 com resposta negativa.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>\u201c<\/strong>O\u00a0<strong><em>ac\u00f3rd\u00e3o fundamento<\/em><\/strong>\u00a0tratou a quest\u00e3o como contraditoriamente julgada como a quest\u00e3o essencial (<em>\u201caus\u00eancia de consentimento informado\u201d<\/em>) para decidir da verifica\u00e7\u00e3o da responsabilidade civil contratual por acto m\u00e9dico numa situa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>\u201ccirurgia est\u00e9tica ou reconstrutiva\u201d<\/em>,\u00a0<em>\u201cque se destinava a corrigir um determinado defeito f\u00edsico e a melhorar a apar\u00eancia ou a imagem de uma pessoa<\/em>\u201d:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cNestas interven\u00e7\u00f5es, a dimens\u00e3o do resultado assume maior relev\u00e2ncia. Como j\u00e1 entendeu a jurisprud\u00eancia deste Supremo Tribunal, \u00abEm cirurgia est\u00e9tica se a obriga\u00e7\u00e3o contratual do m\u00e9dico pode n\u00e3o ser uma obriga\u00e7\u00e3o de resultado, com o m\u00e9dico a comprometer-se \u201cem absoluto\u201d com a melhoria est\u00e9tica desejada, prometida e acordada, \u00e9 seguramente uma obriga\u00e7\u00e3o de quase resultado porque \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o em que \u201cs\u00f3 o resultado vale a pena\u201d. Aqui, em cirurgia est\u00e9tica, a aus\u00eancia de resultado ou um resultado inteiramente desajustado s\u00e3o a evid\u00eancia de um incumprimento ou de um cumprimento defeituoso da presta\u00e7\u00e3o por parte do m\u00e9dico devedor. Ao m\u00e9dico compete, por isso, em termos de responsabilidade contratual, o \u00f3nus da prova de que o resultado n\u00e3o cumprido ou cumprido defeituosamente n\u00e3o procede de culpa sua, tal como o imp\u00f5e o n.\u00ba 1 do art.799.\u00ba do CCivil\u00bb (Cf. ac\u00f3rd\u00e3o de 17-12-2009, processo n.\u00ba 544\/09.9YFLSB, relatado pelo Conselheiro Pires da Rosa).<br \/>As cirurgias est\u00e9ticas, para al\u00e9m da especificidade de comportarem obriga\u00e7\u00f5es de quase resultado, exigem um dever de esclarecimento mais intenso e mais rigoroso aos m\u00e9dicos, pelo facto de serem interven\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rias do ponto de vista da sa\u00fade, tal como a doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os para transplante ou a participa\u00e7\u00e3o em ensaios cl\u00ednicos.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cNa rela\u00e7\u00e3o contratual entre m\u00e9dico e paciente, a par de deveres de presta\u00e7\u00e3o com vista a atingir um determinado resultado, coexistem outros deveres de conduta articulados entre si de forma org\u00e2nica e igualmente orientados para o mesmo objetivo. \u00c9 que as obriga\u00e7\u00f5es decorrentes da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos caraterizam-se pela designada \u201crela\u00e7\u00e3o obrigacional complexa\u201d ou \u201crela\u00e7\u00e3o obrigacional em sentido amplo\u201d, em que coabitam deveres laterais, alguns dos quais persistem mesmo ap\u00f3s a extin\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o contratual e que, mesmo que n\u00e3o inclu\u00eddos no clausulado do contrato ou em norma legal expressa, encontram no princ\u00edpio geral da boa f\u00e9 a sua raz\u00e3o de ser.<br \/>Esse princ\u00edpio imp\u00f5e, no caso do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os m\u00e9dicos, que o m\u00e9dico, de forma simples e facilmente percet\u00edvel, informe o paciente da situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica deste, dos tratamentos e terap\u00eauticas aconselhados \u00e0 referida situa\u00e7\u00e3o e dos riscos que os mesmos comportam.<br \/>Essa obriga\u00e7\u00e3o encontra-se prevista no artigo 38.\u00ba do C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos, fazendo o n.\u00ba 1 recair sobre o m\u00e9dico o dever de esclarecer o doente acerca dos m\u00e9todos de diagn\u00f3sticos ou de terap\u00eautica que se prop\u00f5e aplicar, enquanto o n.\u00ba 2 do mesmo normativo lhe imp\u00f5e, antes de adotar um m\u00e9todo de diagn\u00f3stico ou de terap\u00eautica que considere arriscado, o dever de obter do doente, preferencialmente por escrito, o seu consentimento.<br \/>O consentimento do paciente \u00e9 um dos requisitos da licitude da atividade m\u00e9dica (atigos 5.\u00ba da CEDHBioMed e 3.\u00ba, n.\u00ba 2 da Carta dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia) e tem que ser livre e esclarecido para gozar de efic\u00e1cia. Ou seja, se o consentimento n\u00e3o existe ou \u00e9 ineficaz, a atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico ser\u00e1 il\u00edcita por viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o e correm por sua conta todos os danos derivados dessa interven\u00e7\u00e3o.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cO consentimento informado do paciente, por for\u00e7a do primado da dignidade da pessoa humana e da sua autodetermina\u00e7\u00e3o, \u00e9 um requisito essencial da licitude da interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica.<br \/>No caso vertente, a quest\u00e3o central discutida no processo diz respeito \u00e0 exist\u00eancia ou n\u00e3o deste consentimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 vulvoplastia realizada.<br \/>A vulvoplastia \u00e9 uma cirurgia est\u00e9tica destinada a corrigir um defeito f\u00edsico e exige, como vimos, um rigor extremo na presta\u00e7\u00e3o do consentimento e no dever de informa\u00e7\u00e3o a cargo do m\u00e9dico acerca dos seus riscos.<br \/>O facto de a cirurgia ser medicamente indicada n\u00e3o \u00e9 suficiente para determinar a sua licitude, exigindo-se o conhecimento do doente e o esclarecimento sobre a \u00edndole, alcance, envergadura e poss\u00edveis consequ\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o ou tratamento.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cA paciente prestou o consentimento por escrito, para uma lipoaspira\u00e7\u00e3o com o objetivo de realizar uma cirurgia est\u00e9tica de \u00absubida\u00bb de cicatrizes na zona inguinal (\u2026). O teor literal desta declara\u00e7\u00e3o, assinada pela paciente, n\u00e3o comporta qualquer autoriza\u00e7\u00e3o para a realiza\u00e7\u00e3o de uma vulvoplastia, pelo que n\u00e3o podemos considerar que tenha havido consentimento escrito. (\u2026) Foram apenas a lipoaspira\u00e7\u00e3o e a subida das cicatrizes os procedimentos m\u00e9dicos autorizados pela autora, discutidos com o r\u00e9u e abrangidos pelo termo de consentimento\/autoriza\u00e7\u00e3o.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cA opera\u00e7\u00e3o est\u00e9tica integra o conceito de cirurgia volunt\u00e1ria, distinguindo-se assim da cirurgia curativa ou assistencial, a qual \u00e9 necess\u00e1ria do ponto de vista da cura de uma doen\u00e7a ou de um problema de sa\u00fade. Embora a autora sofresse com o defeito f\u00edsico de que era portadora desde os 19 anos, e se pudesse considerar esta cirurgia (a vulvoplastia) necess\u00e1ria para a sua sa\u00fade ps\u00edquica, os factos indicam que, n\u00e3o s\u00f3 tal interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o foi contratualizada entre m\u00e9dico e paciente, como n\u00e3o havia qualquer urg\u00eancia em realiz\u00e1-la para prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade ou da vida da paciente.<br \/>Como consta do facto provado n.\u00ba 54, o m\u00e9dico aproveitou a cirurgia para injetar na vulva os enxertos de gordura, colhidos da face interna das coxas por lipoaspira\u00e7\u00e3o, sem estar justificado em qualquer necessidade urgente, do ponto de vista da sa\u00fade da paciente, que exigisse tal interven\u00e7\u00e3o. Ou seja, a modifica\u00e7\u00e3o do projeto operat\u00f3rio n\u00e3o se fundamentou em qualquer motivo ligado \u00e0 prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade ou da vida da paciente, mas apenas no aproveitamento da oportunidade para proceder \u00e0 corre\u00e7\u00e3o de um defeito f\u00edsico do corpo da autora, que n\u00e3o tinha sido objeto do contrato nem foi imposta por raz\u00f5es imprevis\u00edveis e inadi\u00e1veis de prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201c (\u2026) no caso\u00a0<em>sub judice,<\/em>\u00a0os factos indicam de forma inequ\u00edvoca, que a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica n\u00e3o foi objeto de consentimento pr\u00e9vio, n\u00e3o visava evitar qualquer perigo para a vida, o corpo ou a sa\u00fade, nem tinha uma natureza urgente, que n\u00e3o permitisse adiar a mesma para momento posterior depois da obten\u00e7\u00e3o do consentimento informado da paciente. De acordo com a lei e com a \u00e9tica m\u00e9dica, o m\u00e9dico deve dar prioridade \u00e0 possibilidade de escolha do paciente face \u00e0 incomodidade de se repetir a interven\u00e7\u00e3o.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cEstamos no \u00e2mbito da cirurgia est\u00e9tica ou volunt\u00e1ria, e n\u00e3o da cirurgia assistencial. As exig\u00eancias relativas ao consentimento e aos deveres de esclarecimento s\u00e3o mais rigorosas. N\u00e3o havia qualquer perigo para a sa\u00fade ou para a vida no adiamento da opera\u00e7\u00e3o. A interven\u00e7\u00e3o, apesar de poder melhorar, se feita com sucesso, a vida sexual da paciente e a sua sa\u00fade ps\u00edquica, n\u00e3o era urgente e inadi\u00e1vel.<br \/>Deve exigir-se, portanto, para ser realizada de forma l\u00edcita, a obten\u00e7\u00e3o de um consentimento pr\u00e9vio, livre e esclarecido quanto \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o em si mesma, a sua natureza, riscos e consequ\u00eancias.<br \/>A atua\u00e7\u00e3o do m\u00e9dico \u00e9 il\u00edcita porque colocou, como afirma o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, a autora perante o facto consumado, ou seja, perante a conclus\u00e3o de um ato m\u00e9dico para o qual ela n\u00e3o prestou o seu consentimento, nem fora informada acerca da sua natureza e riscos.<br \/>Estamos perante uma viola\u00e7\u00e3o grave do dever de informar, uma vez que se trata de uma opera\u00e7\u00e3o realizada sem consentimento pr\u00e9vio e n\u00e3o meramente de um caso de falta de informa\u00e7\u00e3o (ou de informa\u00e7\u00e3o insuficiente) acerca dos riscos de uma opera\u00e7\u00e3o autorizada.\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cN\u00e3o tendo a autora prestado qualquer consentimento, escrito ou verbal, expresso ou t\u00e1cito, presumido ou hipot\u00e9tico, para a pr\u00e1tica do ato cir\u00fargico a que foi sujeita, est\u00e3o assim preenchidos os pressupostos da responsabilidade civil contratual (\u2026).\u201d;<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u201cNo que respeita \u00e0 quest\u00e3o relativa aos pressupostos do consentimento informado do paciente, verifica-se que o ac\u00f3rd\u00e3o fundamento se refere a esse consentimento no \u00e2mbito e como antecedente necess\u00e1rio de um\u00a0<em>procedimento cir\u00fargico de natureza est\u00e9tica e reconstrutiva<\/em>, que \u00e9\u00a0<em>factual-juridicamente tratado em termos diversos da cirurgia curativa ou assistencial<\/em>, na qual se integra o procedimento sindicado no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido. Recordemos, desde logo, que nele se assume como mais relevante \u2013 ou at\u00e9 exclusivo \u2013 a vincula\u00e7\u00e3o a uma\u00a0<em>obriga\u00e7\u00e3o de resultado.\u00a0<\/em>\u00c9, portanto, nesse contexto\u00a0<em>diferenciado\u00a0<\/em>que se pondera no ac\u00f3rd\u00e3o fundamento o procedimento de consentimento do paciente, com\u00a0<em>dimens\u00e3o e natureza mais qualificada e exigente\u00a0<\/em>para se assumir como causa de justifica\u00e7\u00e3o da ilicitude do procedimento m\u00e9dico-cir\u00fargico, ao inv\u00e9s do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por outro lado, o ac\u00f3rd\u00e3o fundamento conclui que, a essa luz mais exigente, a opera\u00e7\u00e3o foi realizada sem consentimento pr\u00e9vio, nem sequer \u201cpresumido\u201d ou \u201chipot\u00e9tico\u201d, nomeadamente porque se referia a interven\u00e7\u00e3o surgida no desenvolvimento e por ocasi\u00e3o do procedimento m\u00e9dico-cir\u00fargico para o qual o m\u00e9dico obtivera expressamente consentimento escrito. Ora, o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, pelo contr\u00e1rio, conclui que, na medida exig\u00edvel para a tomada de decis\u00e3o da paciente, o m\u00e9dico cumpriu a sua obriga\u00e7\u00e3o de esclarecimento e assim instruiu devidamente o consentimento favor\u00e1vel (e excludente de ilicitude, se fosse o caso) obtido pela paciente. E n\u00e3o se vislumbra que esta conclus\u00e3o tenha infirmado ou contrariado o que o ac\u00f3rd\u00e3o fundamento sustenta quanto ao dever de esclarecimento que deve basear o consentimento para que este seja prestado de forma informada, em particular no que respeita aos\u00a0<em>riscos da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Al\u00e9m do mais, n\u00e3o \u00e9 esta discuss\u00e3o sobre a exist\u00eancia de consentimento, livre e esclarecido, o requisito crucial ponderado no julgamento da revista no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, para decidir da responsabilidade civil imputada ao R\u00e9u m\u00e9dico\u00a0<em>nem esta foi, apesar de considerada e objecto de pron\u00fancia, a quest\u00e3o fundamental de direito<\/em>\u00a0da qual dependeu a solu\u00e7\u00e3o jur\u00eddica fornecida pelo terceiro grau no ac\u00f3rd\u00e3o recorrido [em vez de \u201cfundamento\u201d: rectifica\u00e7\u00e3o oficiosa, art. 614\u00ba, 1, CPC].<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em suma:<br \/>(i) o<em>\u00a0circunstancialismo f\u00e1ctico subjacente<\/em>\u00a0aos ac\u00f3rd\u00e3os em confronto n\u00e3o se afigura tipologicamente coincidente de um ponto de vista jur\u00eddico-normativo, o que exclui que haja identidade substancial da situa\u00e7\u00e3o litigiosa para poder ser equiparada nesse n\u00facleo essencial de aprecia\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria subjacente a cada uma das decis\u00f5es em confronto;<br \/>(ii) a fundamenta\u00e7\u00e3o dos ac\u00f3rd\u00e3os n\u00e3o revela\u00a0<em>diversidade interpretativa e aplicativa, em termos de oposi\u00e7\u00e3o expressa e frontal, das normas jur\u00eddicas que exigem o consentimento informado do paciente\u00a0<\/em>(desde logo, o art. 340\u00ba, 1 e 3, do CCiv.),<em>\u00a0<\/em>desde logo porque<em>\u00a0n\u00e3o existe equipara\u00e7\u00e3o dos objectos decidendos.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Por isso,\u00a0<em>a alegada contradi\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es na quest\u00e3o fundamental do preju\u00edzo dos credores, que, na tese da aqui Recorrente, conduziria ao recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia, n\u00e3o se verifica<\/em>, pelo que este recurso extraordin\u00e1rio \u00e9 destitu\u00eddo de base legal.\u201d<\/p><ol style=\"text-align: justify\" start=\"6\"><li>N\u00e3o podendo restar quaisquer d\u00favidas sobre o sentido e o alcance deste corpo argumentativo, n\u00e3o se v\u00eam raz\u00f5es para censurar e alterar o decidido. \u00a0<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o trouxe a Reclamante na sua impugna\u00e7\u00e3o qualquer raz\u00e3o adicional que tivesse a virtude de infirmar o decidido quanto ao requisito da oposi\u00e7\u00e3o de julgados sobre a mesma\u00a0<em>quest\u00e3o fundamental<\/em>\u00a0(ou\u00a0<em>quest\u00f5es fundamentais<\/em>)<em>\u00a0<\/em>de direito, respeitante no n\u00facleo\u00a0<em>essencial<\/em>\u00a0dos ac\u00f3rd\u00e3os em confronto.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ao inv\u00e9s, verifica-se que a Reclamante traz novamente a ju\u00edzo, ainda que com roupagem acrescida pela fundamenta\u00e7\u00e3o trazida pelo STJ ao processo \u2013 referimo-nos \u00e0s Conclus\u00f5es E), I), J) e L) \u2013, algumas das considera\u00e7\u00f5es que, em mat\u00e9ria de risco da interven\u00e7\u00e3o e sua liga\u00e7\u00e3o com o consentimento informado para interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-cir\u00fargica, invocou\u00a0<em>brevitatis causa\u00a0<\/em>nas contra-alega\u00e7\u00f5es apresentadas na revista interposta do ac\u00f3rd\u00e3o proferido pela Rela\u00e7\u00e3o. Ora, esses s\u00e3o argumentos que n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prios para um recurso\u00a0<em>extraordin\u00e1rio e destinado a criar estabilidade decis\u00f3ria na jurisprud\u00eancia<\/em>; o RUJ n\u00e3o \u00e9 nem pode ser enquadrado processualmente como mais um grau pleno de jurisdi\u00e7\u00e3o, provocando uma infind\u00e1vel produ\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es no \u00faltimo grau da estrutura judici\u00e1ria; deve ser visto como a lei o prefigura, de acordo com os seus crit\u00e9rios estritos e assinalavelmente trabalhados pelo STJ, a fim de superar verdadeiras e claras situa\u00e7\u00f5es de contradi\u00e7\u00e3o jurisprudencial relevante, sob pena de um expediente de\u00a0<em>ultima ratio\u00a0<\/em>se converter num instrumento de vulgariza\u00e7\u00e3o da reaprecia\u00e7\u00e3o de ac\u00f3rd\u00e3os j\u00e1 transitados em julgado. \u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">A Reclamante persiste, como ser\u00e1 natural, em n\u00e3o se conformar com o modo como o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido aplicou o direito \u00e0 factualidade submetida \u00e0 subsun\u00e7\u00e3o jur\u00eddica promovida pelo STJ, mesmo no exerc\u00edcio do poder judicativo atribu\u00eddo pelo art. 5\u00ba, 3, do CPC. Por\u00e9m, tal insatisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o encontra preenchimento nos pressupostos de um recurso de uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia, tal como configurado, pois n\u00e3o h\u00e1 interpreta\u00e7\u00e3o divergente nos dois ac\u00f3rd\u00e3os sobre a interpreta\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o do regime do consentimento informado para a responsabilidade civil resultante da pr\u00e1tica de actos m\u00e9dicos. \u00a0<\/p><p style=\"text-align: justify\">Importa, pois, agora colegialmente em confer\u00eancia, sublinhar a sua adequa\u00e7\u00e3o e subscrever a argumenta\u00e7\u00e3o constante da decis\u00e3o liminar, fazendo recair ac\u00f3rd\u00e3o sobre a decis\u00e3o reclamada, confirmando-se o entendimento de que n\u00e3o se verifica a contradi\u00e7\u00e3o-oposi\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es sobre a mesma quest\u00e3o de direito que justifique a admissibilidade do recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>III) DECIS\u00c3O<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo exposto, acorda-se em\u00a0<strong>indeferir a Reclama\u00e7\u00e3o<\/strong>, confirmando-se a decis\u00e3o de n\u00e3o admitir o recurso extraordin\u00e1rio para uniformiza\u00e7\u00e3o de jurisprud\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Custas pela Reclamante, que se fixa em taxa de justi\u00e7a no valor correspondente a 3 UCs.<\/p><p style=\"text-align: justify\">STJ\/Lisboa, 6 de Outubro de 2021<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ricardo Costa (Relator)<\/p><p style=\"text-align: justify\">Ana Paula Boularot<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fernando Pinto de Almeida<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>SUM\u00c1RIO DO RELATOR\u00a0<\/strong>(arts. 663\u00ba, 7, 679\u00ba, CPC).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Declara\u00e7\u00e3o de voto:<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o obstante a extensa e douta fundamenta\u00e7\u00e3o que fez vencimento, n\u00e3o posso deixar de referir um aspecto que me parece essencial: n\u00e3o encontro fundamento para a afirma\u00e7\u00e3o de que a prepara\u00e7\u00e3o (limpeza) da interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica aqui discutida n\u00e3o fosse exig\u00edvel ou, pelo menos, aconselh\u00e1vel, por adequada a prevenir um risco que, n\u00e3o sendo usual, poderia ocorrer.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Com efeito, apenas se provou que a mesma n\u00e3o \u00e9 feita habitualmente, o que se justificaria por a limpeza do canal anal (rectal) n\u00e3o impedir que os gases provenham de zona mais a montante. O que me parece \u00e9 que essa raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 determinante, j\u00e1 que n\u00e3o exclui que a limpeza dessa zona mais a montante (colon) n\u00e3o pudesse eliminar a presen\u00e7a de gases.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A meu ver, se existe o risco de o evento danoso se produzir \u2013 como o pr\u00f3prio r\u00e9u admitiu (arts 41 e 42 da contesta\u00e7\u00e3o) e a Rela\u00e7\u00e3o confirmou ao excluir que fosse imprevis\u00edvel \u2013, como veio efectivamente a verificar-se, n\u00e3o concebo que se sujeite o paciente a esse risco, sem se adoptarem medidas adequadas a evit\u00e1-lo.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em suma, entendo que se verificam todos os pressupostos da responsabilidade \u2013 o facto volunt\u00e1rio, a ilicitude (viola\u00e7\u00e3o da integridade f\u00edsica da autora), a culpa (por n\u00e3o terem sido adoptados os cuidados necess\u00e1rios para evitar a ocorr\u00eancia do evento danoso), o nexo de causalidade (a interven\u00e7\u00e3o foi condi\u00e7\u00e3o do dano, n\u00e3o tendo concorrido para este qualquer circunst\u00e2ncia estranha e extraordin\u00e1ria) e, evidentemente, o dano \u2013 pelo que, aderindo aos respectivos fundamentos, confirmaria o ac\u00f3rd\u00e3o recorrido.<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li>Pinto de Almeida<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">_______________________________________________________<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0Deve entender-se a exist\u00eancia de lapso de escrita no dispositivo decis\u00f3rio do ac\u00f3rd\u00e3o recorrido, na medida em que resulta do texto do ac\u00f3rd\u00e3o que os juros devidos, a partir da prola\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o, s\u00e3o os que incidem sobre as quantias indemnizat\u00f3rias fixadas a t\u00edtulo de dano decorrente do d\u00e9fice funcional permanente (\u20ac 70.000,00) e de danos n\u00e3o patrimoniais (\u20ac 30.000,00), que perfazem a quantia de \u20ac 100.000,00, em detrimento, portanto, da quantia referida.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0V. ABRANTES GERALDES,\u00a0<em>Recursos no novo C\u00f3digo de Processo Civil<\/em>, 5.\u00aa ed., Almedina, Coimbra, 2018,\u00a0<em>sub<\/em>\u00a0art. 637\u00ba, p\u00e1g. 133,\u00a0<em>sub<\/em>\u00a0art. 641\u00ba, p\u00e1gs. 180, 185.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0Destaque-se a modifica\u00e7\u00e3o do facto provado 28., que passou de \u201c<em>A situa\u00e7\u00e3so descrita em 25 n\u00e3o \u00e9 normal ou usual, nem previs\u00edvel<\/em>\u201d para \u201c<em>A situa\u00e7\u00e3o descrita em 25 n\u00e3o \u00e9 normal ou usual\u201d<\/em>, em refer\u00eancia ao facto provado 25. (<em>\u201cQuando foi accionada a electrocoagula\u00e7\u00e3o com vista a queimar o p\u00f3lipo que se situava em pleno canal anal, aconteceu uma explos\u00e3o, tendo o r\u00e9u, acto cont\u00ednuo, interrompido o tratamento.\u201d<\/em>).<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref4\">[4]<\/a>\u00a0Aceite h\u00e1 muito na doutrina, seguindo a tradi\u00e7\u00e3o dominante do direito estrangeiro: v. J. C. MOITINHO DE ALMEIDA, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico e o seu seguro\u201d,\u00a0<em>Scientia Iuridica<\/em>, 1972, p\u00e1gs. 329, 337, ANT\u00d3NIO HENRIQUES GASPAR, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico\u201d,<em>\u00a0CJ<\/em>, 1983, I, p\u00e1gs. 341, 343, JO\u00c3O \u00c1LVARO DIAS, \u201cBreves considera\u00e7\u00f5es em torno da natureza da responsabilidade civil m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>Revista Portuguesa do Dano Corporal<\/em>, 1993, n.\u00ba 3, p\u00e1gs. 27 e ss, CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, \u201cOs contratos civis de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico\u201d,\u00a0<em>Direito da Sa\u00fade e Bio\u00e9tica<\/em>, AAFDL, Lisboa, 1996, p\u00e1gs. 82 e ss, em esp. 85 e ss; \u00c1LVARO GOMES RODRIGUES, \u201cReflex\u00f5es em torno da responsabilidade civil dos m\u00e9dicos\u201d,\u00a0<em>Direito e Justi\u00e7a \u2013 Revista da Faculdade de Direito da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa<\/em>, 2000, p\u00e1g. 180;<em>\u00a0<\/em>RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico. Reflex\u00f5es sobre a no\u00e7\u00e3o da perda de chance e a tutela do doente lesado<\/em>, Coimbra Editora, Coimbra, 2008, p\u00e1gs. 56 e ss, em esp. 60-61,<em>\u00a0<\/em>70 e ss; PEDRO ROMANO MARTINEZ, \u201cResponsabilidade civil por acto m\u00e9dico ou omiss\u00e3o do m\u00e9dico. Responsabilidade civil m\u00e9dica e seguro de responsabilidade civil profissional\u201d,\u00a0<em>Estudos em homenagem ao Professor Doutor Carlos Ferreira de Almeida<\/em>, Volume II, Almedina, Coimbra, 2011, p\u00e1gs. 462 e ss, 465-466,<em>\u00a0<\/em>VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>Do ato m\u00e9dico ao problema jur\u00eddico. Breves notas sobre o acolhimento da responsabilidade civil e criminal na jurisprud\u00eancia nacional<\/em>, Almedina, Coimbra, 2013, p\u00e1g. 39, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes e responsabilidade m\u00e9dica<\/em>, Coimbra Editora, Coimbra, 2015, p\u00e1gs. 665 e ss, em esp. 671 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref5\">[5]<\/a>\u00a0V., por todos, ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, 12.\u00aa ed., Almedina, Coimbra, 2009, p\u00e1g. 1040: \u201cquando se conclua da lei ou do neg\u00f3cio jur\u00eddico que o devedor est\u00e1 vinculado a conseguir um certo efeito \u00fatil\u201d<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref6\">[6]<\/a>\u00a0Estamos perante um procedimento de aleatoriedade reduzida e finalidade garantida previamente ao paciente: v. RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 98 e ss. Tamb\u00e9m ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direito dos pacientes<\/em>\u2026 cit., p\u00e1gs. 717 e ss<em>,\u00a0<\/em>para a identifica\u00e7\u00e3o de uma obriga\u00e7\u00e3o \u201cintrinsecamente de resultado\u201d, sem, \u00e0 partida, \u201ccar\u00e1cter aleat\u00f3rio\u201d.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref7\">[7]<\/a>\u00a0V. ainda ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 1039: \u201c(\u2026) em que o devedor apenas se compromete a desenvolver prudente e diligentemente certa actividade para a obten\u00e7\u00e3o de um determinado efeito, mas sem assegurar que o mesmo se produza (ex.: a obriga\u00e7\u00e3o contratual do m\u00e9dico de empregar a sua ci\u00eancia na cura do doente (\u2026)\u201d.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref8\">[8]<\/a>\u00a0V., para confirma\u00e7\u00e3o, apenas para amostra, JO\u00c3O \u00c1LVARO DIAS, \u201cBreves reflex\u00f5es\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 49-51, RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 119.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref9\">[9]<\/a>\u00a0V., como exemplo de uma pron\u00fancia depois seguida em variados arestos, o\u00a0<strong>Ac. do STJ de 22\/9\/2011<\/strong>, processo n.\u00ba 674\/2001.PL.S1, Rel. BETTENCOURT DE FARIA, in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>www.dgsi.pt<\/em><\/a>. Em geral, na doutrina, v., para a defesa de um sistema de n\u00e3o c\u00famulo, assente num \u201c<em>concurso aparente<\/em>,\u00a0<em>legal<\/em>\u00a0ou\u00a0<em>de normas<\/em>, (\u2026) em que s\u00f3 \u00abaparentemente se pode falar de um concurso, j\u00e1 que nos deparamos com uma \u00fanica conduta il\u00edcita \u2013 a merecer, portanto, uma s\u00f3 indemniza\u00e7\u00e3o\u201d, ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 548 e ss. \u00ad<br \/>A quest\u00e3o est\u00e1 claramente em aberto e \u00e9 de discuss\u00e3o farta e plural no que toca \u00e0 responsabilidade m\u00e9dica, como se pode verificar, entre outros, em<em>\u00a0<\/em>\u00c1LVARO GOMES RODRIGUES, \u201cReflex\u00f5es\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 191 e ss; VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>Do ato m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 35 e ss; NUNO PINTO OLIVEIRA, \u201cIlicitude e culpa na responsabilidade m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>(I) Materiais para o Direito da Sa\u00fade\u00a0<\/em>n.\u00ba 1, Instituto Jur\u00eddico da FDUC\/Centro de Direito Biom\u00e9dico, Coimbra, 2019, p\u00e1gs. 19 e ss, partindo da assun\u00e7\u00e3o de que \u201c[e]ntre os deveres\u00a0<em>contratuais\u00a0<\/em>e os deveres\u00a0<em>extracontratuais\u00a0<\/em>dos m\u00e9dicos n\u00e3o h\u00e1 nenhuma\u00a0<em>dife\u00adren\u00e7a fundamental<\/em>\u201d e optando por uma combina\u00e7\u00e3o diferenciada dos regimes concorrentes (p\u00e1gs. 32-33, 36 e ss).<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref10\">[10]<\/a>\u00a0Para argumentos ponderosos, v. ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 749-753, FILIPE ALBUQUERQUE MATOS, \u201cResponsabilidade civil m\u00e9dica: breves reflex\u00f5es em torno dos respectivos pressupostos\u201d,\u00a0<em>CDP<\/em>\u00a0n.\u00ba 43, 2013, p\u00e1gs. 63-65.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref11\">[11]<\/a>\u00a0V. RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 90 e ss, 115 e ss, \u201cDa tutela do doente lesado \u2013 Breves reflex\u00f5es\u201d,\u00a0<em>Revista da FDUP<\/em>, 2008, p\u00e1gs. 444 e ss, com relativiza\u00e7\u00e3o das obriga\u00e7\u00f5es de meios e transmuta\u00e7\u00e3o em resultado (mediato) de n\u00e3o destrui\u00e7\u00e3o das chances de atingir o fim pretendido com o acto m\u00e9dico (cura, sobreviv\u00eancia, a n\u00e3o consuma\u00e7\u00e3o de uma defici\u00eancia ou de uma incapacidade); convergente: PEDRO ROMANO MARTINEZ, \u201cResponsabilidade civil por acto m\u00e9dico\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 476-478 (distingue \u201cresultado \u00faltimo de uma interven\u00e7\u00e3o m\u00e9dica do resultado concreto da actividade desenvolvida pelo m\u00e9dico). Antes, desvalorizando e dissolvendo a obriga\u00e7\u00e3o de meios no resultado do \u201ctratamento\u201d, em adequa\u00e7\u00e3o ao art. 1154\u00ba do CCiv., v. CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, \u201cOs contratos civis\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 110 e ss.<br \/>Elucidativos sobre a constru\u00e7\u00e3o que se generalizou, na jurisprud\u00eancia, entre muitos outros, v. os\u00a0<strong>Acs. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>17\/1\/2013<\/strong>, processo n.\u00ba 9434\/06.6TBMTS.P1.S1, Rel. ANA PAULA BOULAROT, e de\u00a0<strong>2\/6\/2015<\/strong>, processo n.\u00ba 1263\/06.3TVPRT.P1.S1, Rel. MARIA CLARA SOTTOMAYOR, sempre in\u00a0<em>www.dgsi.pt<\/em>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref12\">[12]<\/a>\u00a0CARLOS MOTA PINTO,\u00a0<em>Cess\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o contratual<\/em>, Almedina, Coimbra, 1982 (reimp.), p\u00e1g. 339 (em continuidade das pr\u00e9vias 337-338) e nt. 2, ss, 402 e ss; sublinhado nosso. Convergente: ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 552, no contexto da defesa da consump\u00e7\u00e3o da responsabilidade extracontratual pela contratual, que permite a convoca\u00e7\u00e3o da \u201crela\u00e7\u00e3o obrigacional complexa, concebida como um todo e um processo dirigidos \u00e0 tutela dos interesses globais das partes nela envolvidos\u201d e, nesse aproveitamento, a determina\u00e7\u00e3o de \u201cdeveres de protec\u00e7\u00e3o e cuidado para com a pessoa e o patrim\u00f3nio dos intervenientes\u201d.\u00a0<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref13\">[13]<\/a>\u00a0Por exemplo, RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 71: \u201crela\u00e7\u00e3o firme de confian\u00e7a\u201d, \u201ccontrato\u00a0<em>intuitus personae<\/em>\u201d (para esta configura\u00e7\u00e3o do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico, v. CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, \u201cOs contratos civis\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 84, 89).<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref14\">[14]<\/a>\u00a0Neste sentido, a comungar, os\u00a0<strong>Acs. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>1\/10\/2015<\/strong>, processo n.\u00ba 2104\/05.4TBPVZ.P.S1, Rel. MARIA DOS PRAZERES BELEZA, e de\u00a0<strong>28\/1\/2016<\/strong>, processo n.\u00ba MARIA DA GRA\u00c7A TRIGO \u2013 seguidos pelo ac\u00f3rd\u00e3o recorrido nesta aceita\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>conte\u00fado obrigacional\u00a0<\/em>do contrato \u2013, sempre in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>www.dgsi.pt<\/em><\/a>. Na literatura da responsabilidade m\u00e9dica, convergentes, CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, \u201cOs contratos civis\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>,<em>\u00a0<\/em>p\u00e1g. 113,\u00a0 \u00c1LVARO GOMES RODRIGUES, \u201cReflex\u00f5es\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1g. 184, 197, RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 79 e ss, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 744.<br \/>Note-se que estes deveres (e os outros deveres secund\u00e1rios acess\u00f3rios) \u201cavultam sobretudo nas rela\u00e7\u00f5es obrigacionais que (\u2026) comprometem especialmente a\u00a0<em>personalidade<\/em>\u00a0dos contraentes no correcto cumprimento dos deveres contratuais\u201d: ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es em geral<\/em>, Volume I, 10.\u00aa ed., 2000 (reimp. 2005), p\u00e1g. 126; tamb\u00e9m RUI DE ALARC\u00c3O,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, FDUC, Coimbra, 1983, p\u00e1g. 67. Para a configura\u00e7\u00e3o do contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o m\u00e9dico como sendo celebrado\u00a0<em>intuitu personae<\/em>, v. CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, \u201cOs contratos civis\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 84, 89.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref15\">[15]<\/a>\u00a0CARLOS MOTA PINTO,\u00a0<em>Cess\u00e3o\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 348-349.<br \/>Os deveres laterais com\u00a0<em>finalidade<\/em>\u00a0<em>negativa<\/em>, onde se poder\u00e1 integrar o que acab\u00e1mos de identificar, s\u00e3o crismados e aceites como \u201cdeveres de protec\u00e7\u00e3o\u201d, inspirado na dogm\u00e1tica de Hans Stoll, por MANUEL CARNEIRO DA FRADA,\u00a0<em>Contrato e deveres de protec\u00e7\u00e3o<\/em>, Separata do Volume XXXVIII do Suplemento ao BFDUC, Coimbra, 1994, p\u00e1gs. 41-43 (em esp. nt. 71), 44 e ss, 143 e ss (onde se autonomizam os deveres a que se devem observ\u00e2ncia durante a execu\u00e7\u00e3o do contrato, no que toca aos riscos que a pr\u00f3pria presta\u00e7\u00e3o deficiente potencie em rela\u00e7\u00e3o a bens do credor), em cr\u00edtica \u00e0 tese da sua irrelev\u00e2ncia na responsabilidade e enquadramento directo na cl\u00e1usula do art. 483\u00ba, 1, do CCiv, a cargo de ANT\u00d3NIO MENEZES CORDEIRO,\u00a0<em>Da boa f\u00e9 no direito civil<\/em>, Almedina, Coimbra, 1982, p\u00e1gs. 603-604, 639-640.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref16\">[16]<\/a>\u00a0Seguimos ainda CARLOS MOTA PINTO,\u00a0<em>Cess\u00e3o\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 404 e ss, em esp. 409-410.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref17\">[17]<\/a>\u00a0Processo n.\u00ba 6669\/11.3TBVNG.S1, Rel. GABRIEL CATARINO, in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>www.dgsi.pt<\/em><\/a>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref18\">[18]<\/a>\u00a0MARIA PAULA RIBEIRO DE FARIA, \u201cO erro em medicina e o direito penal\u201d, Lex Medicinae\u00a0<em>\u2013 Revista Portuguesa de Direito da Sa\u00fade<\/em>, 2010, n.\u00ba 14, p\u00e1g. 24.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref19\">[19]<\/a>\u00a0Desenvolvidamente, v. JO\u00c3O \u00c1LVARO DIAS, \u201cCulpa m\u00e9dica: algumas ideias-for\u00e7a\u201d,\u00a0<em>Revista Portuguesa do Dano Corporal<\/em>, 1995, n.\u00ba 5, p\u00e1gs. 21 e ss, 29 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref20\">[20]<\/a>\u00a0V.\u00a0<strong>Ac. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>28\/5\/2015<\/strong>, processo n.\u00ba 3129\/09.6TBVCT.G1.S1<strong>,\u00a0<\/strong>Rel. ABRANTES GERALDES, in<em>\u00a0www.dgsi.pt<\/em>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref21\">[21]<\/a>\u00a0Processo n.\u00ba 6844\/03.4TBCSC.L1.S1, Rel. SILVA SALAZAR, in\u00a0<em>www.dgsi.pt<\/em>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref22\">[22]<\/a>\u00a0ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA, \u201cBreves notas sobre a responsabilidade m\u00e9dica em Portugal\u201d,\u00a0<em>Revista Portuguesa do Dano Corporal<\/em>\u00a0n.\u00ba 17, 2007, p\u00e1g. 17.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref23\">[23]<\/a>\u00a0V. VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>Do ato m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 45-46, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 761 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref24\">[24]<\/a>\u00a0V., sobre a dicotomia com a \u201cilicitude do resultado\u201d, JORGE SINDE MONTEIRO,\u00a0<em>Responsabilidade por conselhos, recomenda\u00e7\u00f5es ou informa\u00e7\u00f5es<\/em>, Almedina, Coimbra, 1990, p\u00e1gs. 301 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref25\">[25]<\/a>\u00a0MARIA PAULA RIBEIRO DE FARIA, \u201cO erro em medicina\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 11, 13-14, 18 e ss, 23 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref26\">[26]<\/a>\u00a0Embora se possa e deva ir mais longe em determinadas circunst\u00e2ncias e atendendo a certos factores de esclarecimento mais qualificado e completo para ser\u00a0<em>suficiente<\/em>: v. GUILHERME DE OLIVEIRA, \u201cEstrutura jur\u00eddica do acto m\u00e9dico\u201d,\u00a0<em>Temas de direito da medicina<\/em>, 2.\u00aa ed., Centro de Direito Biom\u00e9dico, Coimbra Editora, Coimbra, 2005, p\u00e1gs. 66 e ss, a quem pertence a cita\u00e7\u00e3o, na sequ\u00eancia do seu anterior \u201cEstrutura jur\u00eddica do acto m\u00e9dico, consentimento informado e responsabilidade m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>RLJ<\/em>\u00a0n.\u00ba 3819, 1992, p\u00e1gs. 167 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref27\">[27]<\/a>\u00a0V., neste sentido e inequivocamente, os\u00a0<strong>Acs. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>24\/4\/2016<\/strong>, processo n.\u00ba 6844\/03.4TBCSC.L1.S1, Rel. SILVA SALAZAR, e de\u00a0<strong>23\/3\/2017<\/strong>, processo n.\u00ba 296\/07.7TBMCN.P1.S1, Rel. TOM\u00c9 GOMES, in\u00a0<a href=\"http:\/\/www.dgsi.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>www.dgsi.pt<\/em><\/a>.<br \/>Na doutrina, em geral e por todos, MANUEL CARNEIRO DA FRADA,\u00a0<em>Direito Civil. Responsabilidade civil. O m\u00e9todo do caso<\/em>, Almedina, Coimbra, 2006, p\u00e1gs. 81-82 (\u201c\u00e9 (\u2026) ao credor que compete identificar e fazer provar a exigibilidade de tais meios ou da dilig\u00eancia (objetivamente) devida. (\u2026) se a falta de cumprimento carece sempre de ser positivamente demonstrada pelo credor lesado, esta exig\u00eancia traduz-se aqui, em termos pr\u00e1ticos, na demonstra\u00e7\u00e3o da ilicitude da conduta do devedor. (\u2026) Ele [credor] tem sempre de individualizar uma concreta falta de cumprimento (il\u00edcita). Dada a \u00edndole da obriga\u00e7\u00e3o, carece de demonstrar que os meios n\u00e3o foram empregues ao devedor ou que a dilig\u00eancia prometida com vista a um resultado n\u00e3o foi observada.\u201d), com confirma\u00e7\u00e3o na responsabilidade m\u00e9dica a p\u00e1g. 116. Em particular, v. ANT\u00d3NIO HENRIQUES GASPAR, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico\u201d,<em>\u00a0loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 344-345, CARLOS FERREIRA DE ALMEIDA, \u201cOs contratos civis\u2026\u201d, loc. cit., p\u00e1gs. 117-118, JO\u00c3O \u00c1LVARO DIAS, \u201cBreves considera\u00e7\u00f5es\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 30-31, JORGE RIBEIRO DE FARIA, \u201cDa prova na responsabilidade civil m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>Revista da FDUP<\/em>, 2004, p\u00e1gs. 115 e ss, 177 e ss, RUTE TEIXEIRA PEDRO, \u201cDa tutela do doente lesado\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 421-423, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 701-702, 709 e ss, 776 e ss, 787 e ss, MAFALDA MIRANDA BARBOSA, \u201cAlgumas considera\u00e7\u00f5es acerca da causalidade e da imputa\u00e7\u00e3o objectiva ao n\u00edvel da responsabilidade m\u00e9dica\",\u00a0<em>Direito da Sa\u00fade \u2013 Estudos em homenagem ao Prof. Doutor Guilherme de Oliveira<\/em>, Volume 2,\u00a0<em>Profissionais de sa\u00fade e pacientes. Responsabilidades<\/em>, Almedina, Coimbra, 2016, p\u00e1gs. 48 e ss, NUNO PINTO OLIVEIRA, \u201cIlicitude e culpa na responsabilidade m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 81 e ss, com v\u00e1ria jurisprud\u00eancia, em esp. 87.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref28\">[28]<\/a>\u00a0Sobre o ponto, v. ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, Volume II, 7.\u00aa ed., Almedina, Coimbra, 1997 (reimp. 2009), p\u00e1gs. 16-17, 60, 62, 63-64, 92.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref29\">[29]<\/a>\u00a0ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, Volume II cit., p\u00e1g. 94.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref30\">[30]<\/a>\u00a0V. PESSOA JORGE,\u00a0<em>Ensaio sobre os pressupostos da responsabilidade civil<\/em>, Ci\u00eancia e T\u00e9cnica Fiscal, Lisboa, 1972, p\u00e1gs. 153 e ss (em esp. 163, 164-165, para o campo da responsabilidade obrigacional), 167 e ss (em esp. 174-175), ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>,<em>\u00a0<\/em>Volume II cit., p\u00e1gs. 94-95 (o n\u00e3o cumprimento da obriga\u00e7\u00e3o pode constituir um acto\u00a0<em>l\u00edcito\u00a0<\/em>nas situa\u00e7\u00f5es em que proceda do cumprimento de um dever), RABRINDANATH CAPELO DE SOUSA,\u00a0<em>O direito geral de personalidade<\/em>, Coimbra Editora, Coimbra, 1995, p\u00e1gs. 437-438, INOC\u00caNCIO GALV\u00c3O TELLES,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, 7.\u00aa ed., Coimbra Editora, Coimbra, 1997 (reimp. 2000), p\u00e1gs. 342-343,<em>\u00a0<\/em>ANT\u00d3NIO MENEZES CORDEIRO, \u201cArtigo 335\u00ba\u201d,\u00a0<em>C\u00f3digo Civil comentado<\/em>, I,\u00a0<em>Parte geral<\/em>\u00a0<em>(artigos 1.\u00ba a 396.\u00ba)<\/em>, coord. A. Menezes Cordeiro, 2020, p\u00e1g. 946.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref31\">[31]<\/a>\u00a0\u00abSe os direitos forem desiguais ou de esp\u00e9cie diferente, prevalece o que deva considerar-se superior.\u00bb<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref32\">[32]<\/a>\u00a0Claramente neste sentido, v. PESSOA JORGE,\u00a0<em>Ensaio\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 174 (acrescentando os arts. 336\u00ba, 3, 337\u00ba e 339\u00ba, 1, do CCiv.), ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 568-569, e ANT\u00d3NIO MENEZES CORDEIRO,\u00a0<em>Tratado de direito civil portugu\u00eas<\/em>, II,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, III,\u00a0<em>Gest\u00e3o de neg\u00f3cios. Enriquecimento sem causa. Responsabilidade civil<\/em>, Almedina, Coimbra, 2010, p\u00e1gs. 485-486.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref33\">[33]<\/a>\u00a0V., nomeadamente, os arts. 4\u00ba da\u00a0<em>Conven\u00e7\u00e3o para a protec\u00e7\u00e3o dos direitos do homem e da dignidade do ser humano face \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es da biologia e da medicina: conven\u00e7\u00e3o sobre os di\u00adreitos do homem e a biomedicina\u00a0<\/em>(\u00abQualquer interven\u00e7\u00e3o na \u00e1rea da sa\u00fade, incluindo a investiga\u00e7\u00e3o, deve ser efectuada na observ\u00e2ncia das normas e obriga\u00e7\u00f5es profissionais, bem como das regras de conduta aplic\u00e1veis ao caso concreto.\u00bb; Resolu\u00e7\u00e3o da Assembleia da Rep\u00fablica n.\u00ba 1\/2001, de 19\/10\/2010, in\u00a0<em>DR<\/em>, I S\u00e9rie-A, n.\u00ba 2, de 3\/1\/2011),<em>\u00a0<\/em>150\u00ba do CPenal, 135\u00ba, 1, 8 e 10 do\u00a0<em>Esta\u00adtuto da Ordem dos M\u00e9dicos<\/em>\u00a0e 4\u00ba, 1 e 8, 5\u00ba, 8\u00ba, 1, e 10\u00ba do\u00a0<em>C\u00f3digo Deontol\u00f3gico da Ordem dos M\u00e9dicos<\/em>, aprovado pelo Regulamento n.\u00ba 707\/2016, de 20 de Maio (in\u00a0<em>DR<\/em>, 2.\u00aa S\u00e9rie, n.\u00ba 139, de 21\/7\/2016).<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref34\">[34]<\/a>\u00a0V., eludicativo e rigoroso, o\u00a0<strong>Ac. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>22\/3\/2018<\/strong>, processo n.\u00ba 7053\/12.7TBVNG.P1.S1, Rel. MARIA DA GRA\u00c7A TRIGO, in<em>\u00a0www.dgsi.pt<\/em>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref35\">[35]<\/a>\u00a0Neste sentido, CARLOS MOTA PINTO,\u00a0<em>Cess\u00e3o\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 349, 407, 409, ID.,\u00a0<em>Teoria geral do direito civil<\/em>, 4.\u00aa ed. por Ant\u00f3nio Pinto Monteiro e Paulo Mota Pinto, Coimbra Editora, Coimbra, 2005, nt. 187 \u2013 p\u00e1g. 187, RUI DE ALARC\u00c3O,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0cit., p\u00e1g. 68, ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 77.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref36\">[36]<\/a>\u00a0ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 715-716, 724-725.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref37\">[37]<\/a>\u00a0VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>Do ato m\u00e9dico\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1g. 46.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref38\">[38]<\/a>\u00a0Neste sentido, quanto ao \u201cdever de informa\u00e7\u00e3o\u201d do m\u00e9dico pelo mandante-paciente, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 675.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref39\">[39]<\/a>\u00a0VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>Do ato m\u00e9dico\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 46-47, 94, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 772-773 (\u201cos standards s\u00e3o, tamb\u00e9m eles, padr\u00f5es de decis\u00e3o jur\u00eddicos e jurisprudenciais para uma decis\u00e3o de lit\u00edgios legais que prov\u00eam da atividade m\u00e9dica\u201d).<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref40\">[40]<\/a>\u00a0Quanto \u00e0 senten\u00e7a de 1.\u00aa inst\u00e2ncia, destaque-se a motiva\u00e7\u00e3o referida ao \u201cParecer emitido pela Ordem dos M\u00e9dicos (Col\u00e9gio de Especialidade de Gastroenterologia) junto de fls. 403 a 405,\u00a0<em>o qual constitui um elemento fundamental no caso em discuss\u00e3o, uma vez que do seu teor, com toda a clareza, resulta que o r\u00e9u observou as regras ou procedimentos que est\u00e3o indicados para o acto m\u00e9dico que praticou no dia 12\/9\/2012, quer relativamente aos meios utilizados, quer no que diz respeito \u00e0 aus\u00eancia de prepara\u00e7\u00e3o (jejum\/limpeza intestinal)\u00a0<\/em>(\u2026)\u201d.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref41\">[41]<\/a>\u00a0V., neste sentido, o\u00a0<strong>Ac. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>6\/1\/2000<\/strong>, processo n.\u00ba 700.16.3T8PRT.P1.S1, Rel. ROSA RIBEIRO COELHO, dispon\u00edvel in\u00a0<a href=\"https:\/\/jurisprudencia.csm.org.pt\/ecli\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>https:\/\/jurisprudencia.csm.org.pt\/ecli\/<\/em><\/a>, ao qual pertencem as transcri\u00e7\u00f5es.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref42\">[42]<\/a>\u00a0Assim, ANDR\u00c9 DIAS PEREIRA,\u00a0<em>Direitos dos pacientes\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 701.<br \/>ANT\u00d3NIO HENRIQUES GASPAR, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico\u201d,<em>\u00a0loc. cit.<\/em>, p\u00e1g. 347, refere-se a \u201cind\u00edcios suficientemente l\u00f3gicos e fortes para corporizar uma leg\u00edtima convic\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de uma falta do m\u00e9dico\u201d.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref43\">[43]<\/a>\u00a0JO\u00c3O \u00c1LVARO DIAS, \u201cCulpa m\u00e9dica\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 29, 31.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref44\">[44]<\/a>\u00a0Assim, ANA AMORIM,\u00a0<em>A responsabilidade do m\u00e9dico enquanto perito<\/em>, Centro de Direito Biom\u00e9dico\/FDUC, volume 26, Petrony, Lisboa, 2019, p\u00e1gs. 135-136.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref45\">[45]<\/a>\u00a0ANT\u00d3NIO HENRIQUES GASPAR, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico\u201d,<em>\u00a0loc. cit.<\/em>, p\u00e1g. 348.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref46\">[46]<\/a>\u00a0V. ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es em geral<\/em>, Volume II cit., p\u00e1gs. 74 e ss (situa\u00e7\u00f5es que \u201cescapam manifestamente \u00e0 letra e ao esp\u00edrito do n.\u00ba 2 do art. 795\u00ba\u201d do CCiv.),<em>\u00a0<\/em>ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 1072 e ss, INOC\u00caNCIO GALV\u00c3O TELLES,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, 7.\u00aa ed., Coimbra Editora, Coimbra, 1997 (reimp. 2014), p\u00e1gs. 361, 364.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref47\">[47]<\/a>\u00a0Dispon\u00edvel in\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dgs.pt\/directrizes-da-dgs\/normas-e-circulares-normativas\/norma-n-0152013-de-03102013-pdf.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>https:\/\/www.dgs.pt\/directrizes-da-dgs\/normas-e-circulares-normativas\/norma-n-0152013-de-03102013-pdf.aspx<\/em><\/a>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref48\">[48]<\/a>\u00a0Na doutrina, em abono, VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>O ato m\u00e9dico\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 225 e ss, NUNO PINTO DE OLIVEIRA, \u201cIlicitude e culpa na responsabilidade m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 56 e ss, 60 e ss.\u00a0\u00a0<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref49\">[49]<\/a>\u00a0V., quanto a esta delimita\u00e7\u00e3o relevante, VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>O ato m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1g. 215.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref50\">[50]<\/a>\u00a0RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 152 e ss.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref51\">[51]<\/a>\u00a0MAFALDA MIRANDA BARBOSA, \u201cAlgumas considera\u00e7\u00f5es\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1g. 42.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref52\">[52]<\/a>\u00a0Delineado recentemente por este Colectivo no\u00a0<strong>Ac. do STJ<\/strong>\u00a0de\u00a0<strong>7\/9\/2020<\/strong>, processo n.\u00ba 12651\/15.4T8PRT.P1.S1, Rel. RICARDO COSTA, in<em>\u00a0www.dgsi.pt<\/em>.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref53\">[53]<\/a>\u00a0RUI DE ALARC\u00c3O,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0cit., p\u00e1g. 278.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref54\">[54]<\/a>\u00a0V., tamb\u00e9m para as transcri\u00e7\u00f5es, RUI DE ALARC\u00c3O,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 281-283, ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0<em>em geral<\/em>, Vol. I cit., p\u00e1gs. 887 e ss, 899-901, ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 763-764.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref55\">[55]<\/a>\u00a0RUI DE ALARC\u00c3O,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 284-285; v. ainda ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es em geral<\/em>, Vol. I cit., p\u00e1gs. 892-893.<br \/>Desenvolvidamente, FRANCISCO PEREIRA COELHO,\u00a0<em>O problema da causa virtual na responsabilidade civil<\/em>, Almedina, Coimbra, 1998 (reimp. 1955), p\u00e1g. 175: \u201co momento decisivo para a averigua\u00e7\u00e3o do nexo de causalidade (condicionalidade) entre o facto e o dano \u00e9, obviamente, o pr\u00f3prio momento em que o dano (real) se verifica. (\u2026) \u00c9 neste momento que deve ser proferido o ju\u00edzo de\u00a0<em>adequa\u00e7\u00e3o<\/em>, pois aqui, como se sabe, sup\u00f5e-se o efeito ainda n\u00e3o verificado e pergunta-se se a ac\u00e7\u00e3o era\u00a0<em>capaz<\/em>, segundo a sua natureza geral, de produzir um efeito danoso daquele g\u00e9nero; \u00e9 claro, por\u00e9m, que se se trata de apurar a\u00a0<em>condicionalidade\u00a0<\/em>da ac\u00e7\u00e3o para o efeito\u00a0<em>realmente\u00a0<\/em>verificado, o ju\u00edzo de condicionalidade\u00a0<em>n\u00e3o pode\u00a0<\/em>ser proferido em momento anterior \u00e0quele em que o efeito danoso real se verifica. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o deve ser proferido em momento\u00a0<em>posterior<\/em>, pois o processo causal efectivo, como alguma coisa que aconteceu e atingiu, com a produ\u00e7\u00e3o efectiva do efeito danoso, o seu\u00a0<em>termo<\/em>, n\u00e3o pode, evidentemente, ser influenciado por circunst\u00e2ncias futuras, quaisquer que sejam, hipot\u00e9ticas ou mesmo reais. (\u2026) n\u00e3o se compreende que o momento em que se julga sobre a rela\u00e7\u00e3o de condicionalidade entre o facto e o dano\u00a0<em>real\u00a0<\/em>seja retardado para al\u00e9m do momento da verifica\u00e7\u00e3o do dano, pois o dano real \u00e9 uma entidade fixa e n\u00e3o se concebe como \u00e9 que aquela rela\u00e7\u00e3o de condicionalidade possa ser influenciada por factos posteriores.\u201d<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref56\">[56]<\/a>\u00a0VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>O ato m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 93-94, com elenco de factores de densifica\u00e7\u00e3o deste \u201cprofissional m\u00e9dio\u201d, e NUNO PINTO OLIVEIRA, \u201cIlicitude e culpa na responsabilidade m\u00e9dica\u201d, loc. cit., p\u00e1gs. 78 e ss (\u201cO comportamento do m\u00e9dico preencher\u00e1 os requisitos da\u00a0<em>tipicidade\u00a0<\/em>e da\u00a0<em>ilicitude<\/em>, desde que omita a mais elevada medida de cuidado exterior \u2014 desde que, no caso concre\u00adto, o m\u00e9dico n\u00e3o preste ao paciente os cuidados ao alcance de um\u00a0<em>m\u00e9dico ideal<\/em>, com as mais amplas capacidades e a mais completa experi\u00eancia razoavelmente conceb\u00edveis.\u201d); antes, JO\u00c3O \u00c1LVARO DIAS, \u201cCulpa m\u00e9dica\u2026\u201d, loc. cit., p\u00e1gs. 24 e ss, RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 111 e ss, 127 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref57\">[57]<\/a>\u00a0V. ANTUNES VARELA,\u00a0<em>Das obriga\u00e7\u00f5es em geral<\/em>, Vol. I cit., p\u00e1gs. 896-897.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref58\">[58]<\/a>\u00a0Tal como sustentado no estudo referencial, ainda antes do CCiv. de 1966, de FRANCISCO PEREIRA COELHO, \u201cO nexo de causalidade na responsabilidade civil\u201d,\u00a0<em>BFDUC<\/em>, 1951, p\u00e1gs. 215-217.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref59\">[59]<\/a>\u00a0Para o di\u00e1logo entre a \u201cprobabilidade\u201d e a \u201cprevisibilidade\u201d da situa\u00e7\u00e3o concreta do sujeito e das suas circunst\u00e2ncias no nexo da causalidade, v. PEREIRA COELHO, \u201cO nexo de causalidade na responsabilidade civil\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 218 e ss, CARNEIRO DA FRADA,\u00a0<em>Teoria da confian\u00e7a e responsabilidade civil<\/em>, Almedina, Coimbra, 2004, p\u00e1gs. 318 e ss, NUNO PINTO OLIVEIRA,\u00a0<em>Princ\u00edpios de direito dos contratos<\/em>, Coimbra Editora, Coimbra, 2011, p\u00e1gs. 664 e ss.<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref60\">[60]<\/a>\u00a0V. ALMEIDA COSTA,\u00a0<em>Direito das obriga\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0cit., p\u00e1g. 766.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref61\">[61]<\/a>\u00a0MAFALDA MIRANDA BARBOSA, \u201cAlgumas considera\u00e7\u00f5es\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1g. 68 (sublinhado nosso); \u201cNovas perspetivas em torno da causalidade na responsabilidade m\u00e9dica\u201d,\u00a0<em>Cadernos do CEJ<\/em>, 2017, n.\u00ba 1, p\u00e1gs. 12, 36-37, 38-39 (\u201cO julgador s\u00f3 deve recusar a imputa\u00e7\u00e3o quando haja prova da efetiva causa do dano ou quando haja prova da elevada probabilidade de que a les\u00e3o se teria realizado mesmo sem o desvio na conduta.\u201d); \u201cResponsabilidade civil m\u00e9dica e nexo de causalidade. T\u00f3picos de compreens\u00e3o de um problema cl\u00e1ssico do direito delitual\u201d,<em>\u00a0Sa\u00fade, novas tecnologias e responsabilidades \u2013 Nos 30 anos do Centro de Direito Biom\u00e9dico<\/em>,\u00a0<em>Cadernos Lex Medicinae<\/em>, Vol. II, Instituto Jur\u00eddico da FDUC, Coimbra, 2019, p\u00e1gs. 361-363. Para considera\u00e7\u00f5es mais desenvolvidas e delimita\u00e7\u00e3o de tal \u201cnexo de imputa\u00e7\u00e3o objectiva\u201d, v.\u00a0<em>Li\u00e7\u00f5es de responsabilidade civil<\/em>, Principia, Cascais, 2017, p\u00e1gs. 255 e ss, em esp. 265-274, e 426-427 (\u201cliga\u00e7\u00e3o entre o n\u00e3o-cumprimento do contrato (entendido em termos amplos) e a referida les\u00e3o [de direitos e interesses] para, posteriormente, se ligar a les\u00e3o aos interesses que foram postos em causa\u201d \u2013 \u201cduplo nexo\u201d em sede de responsabilidade contratual).<br \/><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref62\">[62]<\/a>\u00a0ANT\u00d3NIO HENRIQUES GASPAR, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico\u201d,<em>\u00a0loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 344, 346.<\/p><p style=\"text-align: justify\"><a href=\"https:\/\/justicapt-my.sharepoint.com\/personal\/sonia_j_castelo_stj_pt\/Documents\/Ambiente%20de%20Trabalho\/S%E2%94%9C%E2%94%82nia%20-Maio%20de%202020\/6.%E2%94%AC%C2%AC%20Sec%E2%94%9C%C2%BA%E2%94%9C%C3%BAo%20-%20DATAJURIS\/Ac.%20Anon.%20765.16.8T8AVR.P1.S1.docx.doc#_ftnref63\">[63]<\/a>\u00a0Para apoio destas asser\u00e7\u00f5es conclusivas quanto ao requisito do nexo da causalidade na responsabilidade civil m\u00e9dica, devidamente adequado a um nexo de imputa\u00e7\u00e3o objectiva, v., com aproveitamento no texto, ANT\u00d3NIO HENRIQUES GASPAR, \u201cA responsabilidade civil do m\u00e9dico\u201d,<em>\u00a0loc. cit.<\/em>, p\u00e1g. 348, 354; \u00c1LVARO GOMES RODRIGUES, \u201cReflex\u00f5es\u2026\u201d, loc. cit., p\u00e1gs. 214 e ss; RUTE TEIXEIRA PEDRO,\u00a0<em>A responsabilidade civil do m\u00e9dico...<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 155 e ss, \u201cDa tutela do doente lesado\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 429 e ss; VERA L\u00daCIA RAPOSO,\u00a0<em>Do ato m\u00e9dico\u2026\u00a0<\/em>cit., p\u00e1gs. 49 e ss (em esp. 51 \u2013 \u201ca aplica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios que regulam o nexo de causalidade no campo m\u00e9dico reveste-se de particular dificuldade, dada a imprevisibilidade do funcionamento do corpo humano, de tal forma que, e salvo raras exce\u00e7\u00f5es, \u00e9 praticamente imposs\u00edvel afirmar com toda a certeza que se determinada conduta tivesse sido adotada, ou n\u00e3o tivesse sido adotada, o dano n\u00e3o se teria efectivado\u201d \u2013, 53-54), 76 e ss; MAFALDA MIRANDA BARBOSA, \u201cNovas perspetivas\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 29 e ss, \u201cResponsabilidade civil m\u00e9dica\u2026\u201d,\u00a0<em>loc. cit.<\/em>, p\u00e1gs. 360 e ss (\u201cExclui-se a imputa\u00e7\u00e3o quando o risco n\u00e3o foi criado (<em>n\u00e3o cria\u00e7\u00e3o do risco<\/em>), quando haja\u00a0<em>diminui\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0<em>do risco\u00a0<\/em>e quando ocorra um\u00a0<em>facto fortuito ou de for\u00e7a maior<strong>.<\/strong><\/em>\u201d); ANA AMORIM,\u00a0<em>A responsabilidade\u2026<\/em>\u00a0cit., p\u00e1gs. 133 e ss.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fontes:\"<a href=\"https:\/\/www.dgsi.pt\/jstj.nsf\/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814\/5626f4247741209480258640005771b8?OpenDocument\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.dgsi.pt\/jstj.nsf\/954f0ce6ad9dd8b980256b5f003fa814\/5626f4247741209480258640005771b8?OpenDocument<\/a>\"<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-805e946 normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-805e946 opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-805e946\").on('click', function(){\n                        $(\".htmega-toggle-content-805e946\").slideToggle('slow');\n                        $(this).removeAttr(\"href\");\n                        $(this).parent().toggleClass(\"open\");\n                    });\n                });\n            <\/script>\n        \t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-387afa3 e-con-full e-flex wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-child\" data-id=\"387afa3\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-ec20bca elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"ec20bca\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"360\" height=\"270\" src=\"https:\/\/omeucaminho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/FTNG12.png\" class=\"attachment-large size-large wp-image-4256\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/omeucaminho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/FTNG12.png 360w, https:\/\/omeucaminho.pt\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/FTNG12-300x225.png 300w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/>\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-16a7957 e-flex e-con-boxed wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-parent\" data-id=\"16a7957\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t\t<div class=\"e-con-inner\">\n\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-c920143 e-con-full e-flex wpr-particle-no wpr-jarallax-no wpr-parallax-no wpr-sticky-section-no wpr-equal-height-no e-con e-child\" data-id=\"c920143\" data-element_type=\"container\" data-e-type=\"container\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-ff897a4 elementor-widget elementor-widget-heading\" data-id=\"ff897a4\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"heading.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t<h2 class=\"elementor-heading-title elementor-size-default\">Carta dos direitos do Doente Internado<\/h2>\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-f9efa59 elementor-widget elementor-widget-text-editor\" data-id=\"f9efa59\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"text-editor.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>INTRODU\u00c7\u00c3O<br \/>O presente documento \u00e9 uma especifica\u00e7\u00e3o da Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes, publicada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e posteriormente, pela Direc\u00e7\u00e3o-Geral da Sa\u00fade e pela Comiss\u00e3o de Humaniza\u00e7\u00e3o em duas edi\u00e7\u00f5es.<br \/>Esta carta agrupa direitos consagrados em diversos textos legais, nomeadamente na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica Portuguesa, na Lei de Bases da Sa\u00fade, na Conven\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem e da Biomedicina e na Carta dos direitos fundamentais da Uni\u00e3o Europeia. Apenas o Direito a uma segunda opini\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 previsto em nenhuma disposi\u00e7\u00e3o legal nacional.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-7b45d8f elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"7b45d8f\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-7b45d8f\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">O regime legal de defesa do consumidor (Lei n.\u00ba 24\/96, de 31 de Julho) prev\u00ea tamb\u00e9m o direito \u00e0 qualidade dos bens e servi\u00e7os e o direito \u00e0 protec\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e seguran\u00e7a f\u00edsica.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A presente Carta dos Direitos do Doente Internado respeita o enunciado dos direitos tal como aparecem na Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes com exclus\u00e3o dos direitos 13 e 14 que foram enunciados atendendo \u00e0 condi\u00e7\u00e3o especial que \u00e9 o internamento (hospitais e centros de sa\u00fade). No mesmo sentido os coment\u00e1rios feitos aos direitos redigiram-se considerando a situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica do internamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Foi omitido deste documento o Direito a livre escolha, contemplado na Lei de Bases da Sa\u00fade, atendendo aos condicionalismos do sistema.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Omitiram-se tamb\u00e9m os deveres do doente por tr\u00eas raz\u00f5es:<\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>todos os documentos recentes da OMS e da UE insistem em que apare\u00e7am consignados os <u>Direitos<\/u>;<\/li><li>os Deveres do doente s\u00e3o frequentemente lembrados pelo pessoal;<\/li><li>esta vers\u00e3o da Carta \u00e9, sobretudo, dirigida ao<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">As reformas dos sistemas de sa\u00fade variam de pa\u00eds para pa\u00eds, mas \u00e9 consensual que o cidad\u00e3o n\u00e3o pode ser exclu\u00eddo do processo de decis\u00e3o, porque \u00e9 co-financiador do sistema atrav\u00e9s dos seus impostos e \u00e9 benefici\u00e1rio do mesmo considerando as suas necessidades e, sobretudo, porque \u00e9 o principal respons\u00e1vel pela sua sa\u00fade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Na Carta de Otawa (1996) j\u00e1 se previa o refor\u00e7o das capacidades dos cidad\u00e3os no que respeita \u00e0 responsabilidade pela sua sa\u00fade. Isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com uma informa\u00e7\u00e3o objectiva, transparente e compreens\u00edvel que o tornem apto a decidir, como cidad\u00e3o livre e esclarecido.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Conselho da Europa atrav\u00e9s do seu \"Comit\u00e9\" Europeu da Sa\u00fade, reconheceu na 45.\u00aa Reuni\u00e3o que as organiza\u00e7\u00f5es de entre-ajuda dos doentes t\u00eam um papel importante na representa\u00e7\u00e3o dos seus interesses.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os cidad\u00e3os internados num estabelecimento de sa\u00fade ou seguidos por este no domic\u00edlio, s\u00e3o pessoas com direitos e deveres. N\u00e3o dever\u00e3o ser consideradas apenas do ponto de vista da sua patologia, defici\u00eancia ou idade, mas com todo o respeito devido \u00e0 dignidade humana.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para al\u00e9m da regulamenta\u00e7\u00e3o aplicada pelos estabelecimentos de sa\u00fade, devem zelar pelo respeito dos direitos do homem e do cidad\u00e3o reconhecidos universalmente, e dos seguintes princ\u00edpios gerais: n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o, respeito da pessoa, da sua liberdade individual, da sua vida privada e da sua autonomia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Tamb\u00e9m, as institui\u00e7\u00f5es e os profissionais devem zelar pela boa aplica\u00e7\u00e3o das regras de deontologia profissional. Enfim, devem assegurar que os doentes tenham a possibilidade de fazer valer os seus direitos e afirmar a sua primazia como pessoa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que respeita \u00e0s crian\u00e7as internadas, os pais ou substitutos que se encontrem junto delas, dia e noite, qualquer que seja a sua idade e estado de sa\u00fade, dever\u00e3o ser encorajados e apoiados nestas estadias, convidados a participar nos cuidados a prestar aos filhos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As crian\u00e7as n\u00e3o devem ser admitidas em servi\u00e7os para adultos mas em locais adequados que correspondam \u00e0s suas necessidades f\u00edsicas, ps\u00edquicas e afectivas. Em internamentos prolongados dever\u00e1 ser garantida a continuidade dos seus estudos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para mais esclarecimentos deve ser consultada a \"Carta da Crian\u00e7a Hospitalizada\" do Instituto de Apoio \u00e0 Crian\u00e7a por se tratar de um documento espec\u00edfico sobre este tema.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os direitos e deveres do utente dos servi\u00e7os de Sa\u00fade Mental v\u00eam enumerados na Lei n.\u00ba 36\/98,de 24 de Julho, Lei de Sa\u00fade Mental.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Esta Carta refere-se apenas a internados em estabelecimentos hospitalares e centros de sa\u00fade com internamento, n\u00e3o incluindo assim outras situa\u00e7\u00f5es de internamento, como por exemplo os lares de idosos da responsabilidade da Seguran\u00e7a Social.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 cada vez mais importante refor\u00e7ar as rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a e de colabora\u00e7\u00e3o entre o doente e os prestadores de cuidados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Embora, numa linguagem clara, esta vers\u00e3o da carta est\u00e1 destinada fundamentalmente ao pessoal de sa\u00fade e dever\u00e1 ser elaborado um folheto para o p\u00fablico em geral.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">1.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O doente internado tem direito a ser tratado no respeito pela dignidade humana.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">Sempre e em qualquer situa\u00e7\u00e3o toda a pessoa tem o direito a ser respeitada na sua dignidade, mas mais ainda quando est\u00e1 internada e fragilizada pela doen\u00e7a. Assim, todos os que interv\u00eam<\/p><p style=\"text-align: justify\">no complexo processo de sa\u00fade t\u00eam de respeitar a dignidade do doente, direito fundamental do qual decorrem os restantes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente deve estar informado sobre o nome e a profiss\u00e3o de todo o pessoal. Assim, todo o pessoal dever\u00e1 estar devidamente identificado, com um cart\u00e3o, segundo legisla\u00e7\u00e3o em vigor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente deve ser considerado um interlocutor que sabe com quem dialoga e ser visto como um parceiro num processo de sa\u00fade e n\u00e3o um subordinado cumpridor.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As instala\u00e7\u00f5es e equipamentos que o doente utiliza devem estar de acordo com a sua vulnerabilidade e situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. A fragilidade devida \u00e0 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica determina, para o doente internado, necessidades espec\u00edficas n\u00e3o s\u00f3 de diagn\u00f3stico e tratamento, mas tamb\u00e9m de instala\u00e7\u00f5es e equipamentos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As barreiras arquitect\u00f3nicas dever\u00e3o ser reduzidas ao m\u00ednimo: nos quartos ou enfermarias, na disposi\u00e7\u00e3o dos equipamentos, na sinaliza\u00e7\u00e3o interna, nas escadas, etc.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente com defici\u00eancias tem direito a dispor de instala\u00e7\u00f5es que n\u00e3o apresentem barreiras arquitect\u00f3nicas, que permitam a sua livre circula\u00e7\u00e3o e favore\u00e7am o seu conforto (rampas, elevadores, etc.).<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel, salvo por per\u00edodo curto nunca superior a 24 horas, a perman\u00eancia de doentes em macas durante o internamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Por outro lado, a vulnerabilidade do doente depende tamb\u00e9m de caracter\u00edsticas que lhe s\u00e3o pr\u00f3prias, mas relativamente independentes da sua situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, como por exemplo, a idade, a educa\u00e7\u00e3o, a cultura, a situa\u00e7\u00e3o social, etc. No internamento de indiv\u00edduos com deficit cognitivo, deve ter-se em conta a sua vulnerabilidade acrescida e a necessidade de uma presen\u00e7a securizante.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A actua\u00e7\u00e3o de todos os que se relacionem com os doentes dever\u00e1 pautar-se por crit\u00e9rios de toler\u00e2ncia e afectividade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Est\u00e1 totalmente interdito o tratamento por tu ou voc\u00ea por parte de qualquer elemento das equipas de sa\u00fade. Todas as solicita\u00e7\u00f5es devem ser feitas usando compreens\u00e3o e gentileza<\/p><p style=\"text-align: justify\">A privacidade e a intimidade do doente dever\u00e3o ser sempre asseguradas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A tranquilidade do doente deve ser garantida. Por exemplo: em algumas enfermarias pode observar-se que aparelhos de TV est\u00e3o ligados com inten\u00e7\u00e3o de distrair alguns embora incomodem outros. Em outras enfermarias o pessoal fala muito alto dificultando o descanso dos doentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Todos os inc\u00f3modos devem ser reduzidos ao m\u00ednimo, nomeadamente, nas horas de repouso ou de sono. A intensidade da luz dever\u00e1 ser tida em considera\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Dever\u00e1 existir uma limpeza escrupulosa em todos os servi\u00e7os de internamento especialmente nas instala\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">2.\u00a0 O doente internado tem direito a ser tratado com respeito, independentemente das suas convic\u00e7\u00f5es culturais, filos\u00f3ficas e religiosas.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">As convic\u00e7\u00f5es culturais, filos\u00f3ficas e religiosas do doente internado, bem como a sua orienta\u00e7\u00e3o sexual dever\u00e3o ser respeitadas pelo estabelecimento de sa\u00fade e pelos respectivos profissionais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Cada pessoa \u00e9 um todo \u00fanico e singular, protagonista de uma hist\u00f3ria e de uma entidade cultural e espiritual, que para muitos se define religiosamente. Considerar estes aspectos \u00e9 fundamental na pr\u00e1tica dos cuidados de sa\u00fade. A experi\u00eancia do sofrimento torna estas dimens\u00f5es particularmente importantes para o doente internado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nos estabelecimentos de sa\u00fade, existem servi\u00e7os religiosos, aos quais compete explicitamente garantir o respeito pela identidade espiritual e religiosa dos doentes e procurar ir ao encontro de todos sem excep\u00e7\u00e3o, directamente ou facilitando o acesso aos ministros de outras religi\u00f5es de modo a encontrar a resposta pessoal pretendida por cada um.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Todos os doentes t\u00eam direito a assist\u00eancia religiosa sempre que o solicitarem. As institui\u00e7\u00f5es devem zelar para que este direito seja respeitado. Faz-se notar que \u00e9 altamente incorrecto que o ministro duma religi\u00e3o fa\u00e7a ass\u00e9dio religioso a outros doentes internados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Esta recomenda\u00e7\u00e3o estende-se aos membros de Ordens Religiosas n\u00e3o ministros assim como outros evangelizadores volunt\u00e1rios.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Chama-se a aten\u00e7\u00e3o para alguns grupos n\u00e3o religiosos, bastante activos, que se aproveitam do relativo isolamento e da fragilidade dos indiv\u00edduos internados para, abusando desta situa\u00e7\u00e3o, captarem simpatizantes ou aderentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As convic\u00e7\u00f5es culturais, filos\u00f3ficas e religiosas dever\u00e3o tamb\u00e9m ser tidas em considera\u00e7\u00e3o quer nos aspectos terap\u00eauticos (por exemplo: colostomia nos mu\u00e7ulmanos ou transfus\u00f5es nas testemunhas de Jeov\u00e1), quer nos h\u00e1bitos alimentares, bem como algumas regras sociais referentes ao relacionamento entre as pessoas e aos rituais de nascimento e morte.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Todo o proselitismo \u00e9 proibido, seja por uma pessoa internada, um volunt\u00e1rio, um visitante ou um membro do pessoal.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">3.\u00a0 O doente internado tem direito a receber os cuidados apropriados ao seu estado de sa\u00fade, no \u00e2mbito dos cuidados preventivos, curativos, de reabilita\u00e7\u00e3o, terminais e paliativos.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado tem direito a cuidados apropriados ao seu estado de sa\u00fade que respondam \u00e0s suas necessidades espec\u00edficas e que sejam prestados em tempo \u00fatil.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os cuidados apropriados dizem respeito a todos os n\u00edveis de preven\u00e7\u00e3o, incluindo a reabilita\u00e7\u00e3o que deve come\u00e7ar o mais precocemente poss\u00edvel.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A qualidade dos cuidados, tendo em conta o contexto nacional, \u00e9 um direito que assiste ao doente internado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Todo o doente internado tem direito ao tratamento da dor. Os conhecimentos cient\u00edficos permitem, hoje, dar uma resposta, quase na totalidade, \u00e0s dores cr\u00f3nicas ou agudas, quer sejam sentidas por crian\u00e7as, adultos ou idosos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os cuidados terminais, al\u00e9m da sua especificidade t\u00e9cnico-cient\u00edfica, devem integrar uma componente s\u00f3cio-afectiva especial que deve ser assegurada por todo o pessoal atendendo ao respeito por esta fase da vida. O acompanhamento deve ser integral e, por isso contemplar a dimens\u00e3o espiritual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os doentes internados no final da vida ou que necessitem de cuidados paliativos, t\u00eam direito a ser acompanhados, se assim o desejarem, pelos seus familiares e \/ ou pessoa da sua escolha, assim como a condi\u00e7\u00f5es ambientais condignas.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">4.\u00a0 O doente internado tem direito \u00e0 continuidade de cuidados.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">Dada a import\u00e2ncia da continuidade dos cuidados o doente tem direito a que o hospital em conjunto com o centro de sa\u00fade assegurem, antes da alta hospitalar, a continua\u00e7\u00e3o dos cuidados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim, a avalia\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o social e financeira do doente bem como a articula\u00e7\u00e3o com os outros servi\u00e7os de sa\u00fade, Seguran\u00e7a Social, Organiza\u00e7\u00f5es N\u00e3o Governamentais e Institui\u00e7\u00f5es Privadas de Solidariedade Social, ter\u00e3o que ser realizados antes da alta.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A prepara\u00e7\u00e3o cuidadosa da alta, deve iniciar-se o mais cedo poss\u00edvel e tendo em conta o conhecimento da situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f3mica (nomeadamente a habitacional e familiar) tomam-se as medidas em conson\u00e2ncia, incluindo o encaminhamento social e administrativo para a sua reintegra\u00e7\u00e3o social.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente e os seus familiares t\u00eam direito a ser informados das raz\u00f5es da transfer\u00eancia do doente de um n\u00edvel t\u00e9cnico de cuidados para outro e a ser esclarecidos de que a continuidade e a qualidade dos cuidados ficam, no entanto, garantidas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Devem ser proporcionados os conhecimentos e informa\u00e7\u00f5es essenciais aos prestadores de cuidados no domic\u00edlio, de prefer\u00eancia acompanhados de um documento escrito que o doente poder\u00e1 consultar em sua casa.<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c9 desej\u00e1vel que, de acordo com a situa\u00e7\u00e3o do doente e os condicionalismos do servi\u00e7o, se integre na equipa prestadora de cuidados, ainda durante o internamento, um familiar ou pessoa da escolha do doente, que receber\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o adequada para prestar os cuidados b\u00e1sicos no domic\u00edlio.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">5.\u00a0\u00a0\u00a0 O doente internado tem direito a ser informado acerca dos servi\u00e7os de sa\u00fade existentes, suas compet\u00eancias e n\u00edveis de cuidados.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado deve ser informado sobre os diferentes servi\u00e7os existentes no estabelecimento, incluindo aqueles n\u00e3o directamente relacionados com a presta\u00e7\u00e3o de cuidados, como por exemplo - gabinete do utente, correio, banco, cafetaria, servi\u00e7os religiosos e voluntariado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A sinaliza\u00e7\u00e3o interna deve ser suficientemente clara para que o doente possa deslocar-se com facilidade dentro do hospital. As cores, o tipo e o tamanho das letras dever\u00e3o ser cuidadosamente estudados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os organogramas do servi\u00e7o dever\u00e3o estar afixados para que o doente e visitas conhe\u00e7am a organiza\u00e7\u00e3o e os seus respons\u00e1veis.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Dever\u00e1 ser entregue ao doente na altura da sua admiss\u00e3o ou, preferencialmente, antes da mesma um manual de acolhimento. Neste manual dever\u00e3o constar (entre outros) o hor\u00e1rio das refei\u00e7\u00f5es, das visitas, visitas de crian\u00e7as, uso de tabaco, correios, uso de telefones, flores, cabeleireiro, quiosque \/ bazar, banco, servi\u00e7os religiosos, servi\u00e7o de voluntariado, gabinete do utente e formalidades administrativas. Em alguns servi\u00e7os poder\u00e3o existir folhetos espec\u00edficos. As cores, o tipo e o tamanho das letras dever\u00e3o ser perceptivas para os doentes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Dever\u00e3o ser preparadas formas alternativas para a transmiss\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o contida nestes manuais designadamente para pessoas com defici\u00eancia visual, iletrados ou com dificuldades lingu\u00edsticas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em caso de dificuldades lingu\u00edsticas no acompanhamento das popula\u00e7\u00f5es migrantes, deve haver possibilidade de recurso a int\u00e9rpretes.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Dever\u00e1 ser dada informa\u00e7\u00e3o sobre as associa\u00e7\u00f5es de doentes portadores das diversas patologias que os poder\u00e3o ajudar posteriormente.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">6.\u00a0\u00a0\u00a0 O doente internado tem direito a ser informado sobre a sua situa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado ser\u00e1 claramente informado sobre o seu diagn\u00f3stico, progn\u00f3stico, tratamentos a efectuar, poss\u00edveis riscos e eventuais tratamentos alternativos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente tem direito, se assim o desejar, de n\u00e3o ser informado sobre o seu estado de sa\u00fade, podendo, nesse caso, indicar quem pode receber a informa\u00e7\u00e3o em seu lugar, devendo este facto ficar registado no processo cl\u00ednico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Um progn\u00f3stico grave deve ser revelado com circunspec\u00e7\u00e3o e os familiares devem ser prevenidos, excepto se o doente, previamente, o tiver proibido, manifestando a sua vontade por escrito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As informa\u00e7\u00f5es dever\u00e3o ser dadas da maneira mais adequada \u00e0s caracter\u00edsticas do doente e num contexto de empatia, confidencialidade e privacidade atendendo a que esta informa\u00e7\u00e3o determina muitas vezes o futuro do indiv\u00edduo e da fam\u00edlia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Esta informa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o essencial para o doente poder dar o seu consentimento livre e esclarecido, para aderir \u00e0s medidas terap\u00eauticas e de reabilita\u00e7\u00e3o que venham a ser recomendadas, ou para pedir uma segunda opini\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A informa\u00e7\u00e3o permitir\u00e1, ainda, ao doente participar desde a escolha das terap\u00eauticas que lhe dizem respeito, at\u00e9 \u00e0 escolha da roupa e objectos de uso pessoal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os menores devem ser informados, na medida do poss\u00edvel, dos actos ou exames necess\u00e1rios ao seu estado de sa\u00fade, em fun\u00e7\u00e3o da sua idade e capacidade de compreens\u00e3o, com pr\u00e9via e indispens\u00e1vel informa\u00e7\u00e3o aos seus representantes legais, que dar\u00e3o ou n\u00e3o o seu consentimento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os adultos legalmente \"incapazes\" ou os seus representantes legais devem beneficiar de uma informa\u00e7\u00e3o apropriada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Devem ser reservados per\u00edodos de tempo para que os familiares possam dialogar com os m\u00e9dicos e os enfermeiros respons\u00e1veis.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">7.\u00a0\u00a0\u00a0 O doente internado tem direito a obter uma segunda opini\u00e3o sobre a sua situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado tem direito a obter o parecer de um outro m\u00e9dico da mesma especialidade, o que lhe permitir\u00e1 complementar a informa\u00e7\u00e3o sobre o seu estado de sa\u00fade ou sobre tratamentos, dando-lhe possibilidade de decidir de forma mais esclarecida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O exerc\u00edcio deste direito, no entanto, dever\u00e1 ficar restrito aos casos graves ou aos de cirurgia electiva para se obter um benef\u00edcio real.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Este direito do doente internado est\u00e1 sujeito \u00e0s restri\u00e7\u00f5es que decorrem da sua situa\u00e7\u00e3o de internamento e aos recursos existentes nesse estabelecimento. Nestes casos dever\u00e1 constar no processo cl\u00ednico do doente a impossibilidade de respeitar este direito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">N\u00e3o estando este direito consignado em textos legais \u00e9, no entanto, mais f\u00e1cil de ser cumprido no meio hospitalar onde existem muitos e diferentes profissionais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente tem, no entanto, o direito de recorrer a um profissional externo ao estabelecimento, mas, neste caso, dever\u00e1 assegurar o pagamento dos respectivos honor\u00e1rios.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">8.\u00a0 O doente internado tem direito a dar ou recusar o seu consentimento, antes de qualquer acto cl\u00ednico ou participa\u00e7\u00e3o em investiga\u00e7\u00e3o ou ensino.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">Para que o consentimento seja verdadeiramente livre e esclarecido a informa\u00e7\u00e3o dever\u00e1 ser objectiva e clara e transmitida num ambiente de calma e privacidade, numa linguagem acess\u00edvel e tendo em conta a personalidade, o grau de instru\u00e7\u00e3o e as condi\u00e7\u00f5es cl\u00ednicas e ps\u00edquicas do doente. Os profissionais dever\u00e3o assegurar-se que a informa\u00e7\u00e3o foi compreendida.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O consentimento livre e esclarecido ficar\u00e1 registado em ficha adequada, devendo ser renovado para cada acto cl\u00ednico posterior sendo revog\u00e1vel em qualquer momento. O mesmo se aplica \u00e0 participa\u00e7\u00e3o do doente em investiga\u00e7\u00e3o, ensaios cl\u00ednicos ou ensino cl\u00ednico. O doente pode sempre recusar os cuidados que lhe s\u00e3o propostos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O consentimento pode, ainda, ser presumido em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No que respeita a menores que n\u00e3o podem tomar decis\u00f5es graves que lhes digam respeito, compete aos seus representantes legais expressar o seu consentimento. Quando a sa\u00fade ou integridade f\u00edsica de um menor possa ficar comprometida pela recusa do seu representante legal ou pela impossibilidade de obter o seu consentimento, o m\u00e9dico respons\u00e1vel deve, ao abrigo das disposi\u00e7\u00f5es legais, prestar os cuidados necess\u00e1rios, desencadeando atrav\u00e9s do Tribunal, o processo de retirada provis\u00f3ria do poder paternal.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nos casos em que, face \u00e0 idade e grau de maturidade do menor, \u00e9 poss\u00edvel obter a sua opini\u00e3o, esta deve, na medida do poss\u00edvel, ser tida em considera\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O m\u00e9dico deve ter, tamb\u00e9m, em considera\u00e7\u00e3o a opini\u00e3o dos adultos legalmente \"incapazes\", para al\u00e9m da dos seus representantes legais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No \u00e2mbito da doa\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e utiliza\u00e7\u00e3o de elementos e produtos do corpo humano, da reprodu\u00e7\u00e3o assistida e do diagn\u00f3stico pr\u00e9-natal, o consentimento rege-se pela legisla\u00e7\u00e3o em vigor. A colheita, em pessoas vivas, de \u00f3rg\u00e3os, tecidos e produtos humanos n\u00e3o pode ser realizada sem consentimento pr\u00e9vio do dador, sendo este consentimento revog\u00e1vel em qualquer momento e sem justifica\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os menores e adultos legalmente incapazes s\u00f3 poder\u00e3o ser dadores de subst\u00e2ncias regener\u00e1veis. Nestes casos o consentimento deve ser prestado pelos pais ou representantes<\/p><p style=\"text-align: justify\">legais, carecendo tamb\u00e9m da concord\u00e2ncia do pr\u00f3prio quando este tenha capacidade de entendimento e de manifesta\u00e7\u00e3o de vontade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A colheita em adultos incapazes por anomalia ps\u00edquica s\u00f3 pode ser realizada, se houver autoriza\u00e7\u00e3o judicial para o efeito.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O rastreio do HIV s\u00f3 \u00e9 obrigat\u00f3rio em certos casos (doa\u00e7\u00e3o de sangue, tecidos, c\u00e9lulas e, nomeadamente, de esperma e leite). Em todos os outros casos \u00e9 necess\u00e1rio um consentimento pr\u00e9vio claramente expresso. Nenhum rastreio pode ser feito sem o conhecimento do doente, sob pena de ser pass\u00edvel de recurso por atentado \u00e0 autonomia do doente.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">9.\u00a0 O doente internado tem direito \u00e0 confidencialidade de toda a informa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica e elementos identificativos que lhe respeitam.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">Todas as informa\u00e7\u00f5es relativas ao doente \u2013 situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica, diagn\u00f3stico, progn\u00f3stico, tratamento e dados pessoais \u2013 s\u00e3o confidenciais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">No entanto, se o doente der o consentimento e n\u00e3o houver preju\u00edzo para terceiros, ou se a Lei o determinar podem estas informa\u00e7\u00f5es ser utilizadas. O doente deve ser alertado para a necessidade de n\u00e3o colocar em risco a seguran\u00e7a ou a vida de outros.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Este direito implica obrigatoriedade do segredo profissional, a respeitar por todo o pessoal que desenvolve a sua actividade no estabelecimento, incluindo o volunt\u00e1rio, que por for\u00e7a das fun\u00e7\u00f5es que desempenha partilham informa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os registos hospitalares devem ser mantidos em condi\u00e7\u00f5es que assegurem a sua confidencialidade, merecendo aten\u00e7\u00e3o especial os dados informatizados.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Chama-se especialmente a aten\u00e7\u00e3o para que as informa\u00e7\u00f5es prestadas pelo telefone, em que se desconhece o interlocutor, t\u00eam que ser verdadeiras mas tendo em conta a necess\u00e1ria confidencialidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As declara\u00e7\u00f5es que se fazem aos m\u00e9dia, nomeadamente, nos casos frequentes que envolvem personalidades p\u00fablicas como por exemplo: desportistas, pol\u00edticos e artistas s\u00f3 podem ser feitas com autoriza\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio e do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o da Institui\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As certid\u00f5es dever\u00e3o evitar incluir dados que possam prejudicar o doente ou terceiros, devendo nelas constar que foram passadas a pedido do doente ou de quem o representa, bem como o fim a que se destinam.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Um indiv\u00edduo internado pode pedir que a sua presen\u00e7a no hospital n\u00e3o seja divulgada.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O acesso de jornalistas, fot\u00f3grafos, publicit\u00e1rios e comerciantes deve estar condicionado \u00e0 autoriza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via do doente e da direc\u00e7\u00e3o do estabelecimento. Os delegados de informa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica n\u00e3o devem entrar nas \u00e1reas de atendimento cl\u00ednico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O segredo profissional tem por finalidade respeitar e proteger o doente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Deve ser salvaguardada a confidencialidade referente \u00e0s crian\u00e7as v\u00edtimas de maus-tratos no seio familiar pois pode p\u00f4r em risco a sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">10.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O doente internado tem direito de acesso aos dados registados no seu processo cl\u00ednico.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado tem direito a conhecer a informa\u00e7\u00e3o registada no seu processo cl\u00ednico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O acesso ao processo cl\u00ednico s\u00f3 pode ser feito atrav\u00e9s de um m\u00e9dico, podendo ser o pr\u00f3prio m\u00e9dico assistente ou outro indicado pelo doente, se o primeiro se negar ou o doente o determinar.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Este facto (n\u00e3o homog\u00e9neo nos pa\u00edses da Europa onde existem casos em que \u00e9 poss\u00edvel o acesso directo aos dados) pretende facilitar a interpreta\u00e7\u00e3o dos dados e evitar eventuais choques emocionais.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">11.\u00a0 O doente internado tem direito \u00e0 privacidade na presta\u00e7\u00e3o de todo e qualquer acto cl\u00ednico.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado tem direito a que todo o acto diagn\u00f3stico ou terap\u00eautico seja efectuado s\u00f3 na presen\u00e7a dos profissionais indispens\u00e1veis \u00e0 sua execu\u00e7\u00e3o, salvo se pedir a presen\u00e7a de outros elementos, podendo requerer a de um familiar (excluindo, por exemplo os actos cir\u00fargicos que n\u00e3o o permitam).<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nos actos cir\u00fargicos a crian\u00e7as, dever\u00e1 ser permitida a presen\u00e7a de um elemento securizante (habitualmente um dos pais), na indu\u00e7\u00e3o anest\u00e9sica, de modo a minimizar as repercuss\u00f5es psico-emocionais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A vida privada do doente n\u00e3o pode ser objecto de intromiss\u00e3o, salvo em caso de necessidade para efeitos de diagn\u00f3stico ou tratamento e tendo o doente expressado o seu consentimento. No que respeita \u00e0s crian\u00e7as a vida privada pode ter de ser investigada, por vezes sem a concord\u00e2ncia dos pais se tal for necess\u00e1rio para a terap\u00eautica ou bem-estar da crian\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nas enfermarias o banho dos doentes deve ser realizado tendo em conta o pudor do doente. Devem ser utilizados cortinas ou biombos com esse fim.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O respeito pela intimidade do doente deve ser preservado durante os cuidados de higiene, as consultas, as visitas m\u00e9dicas, o ensino, os tratamentos pr\u00e9 e p\u00f3s operat\u00f3rios, radiografias, o transporte em maca e em todos os momentos do seu internamento.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Embora as urg\u00eancias n\u00e3o constituam, necessariamente, um internamento, recomenda-se que a privacidade e o respeito pelo pudor sejam garantidos nestas situa\u00e7\u00f5es, apesar da oportunidade e rapidez da interven\u00e7\u00e3o o poderem fazer esquecer.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">12.\u00a0 O doente internado tem direito, por si ou por quem o represente, a apresentar sugest\u00f5es e reclama\u00e7\u00f5es.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado ou o seu representante leg\u00edtimo pode apresentar sugest\u00f5es ou reclama\u00e7\u00f5es sobre a qualidade dos cuidados e do atendimento bem como das instala\u00e7\u00f5es.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As reclama\u00e7\u00f5es podem ser feitas no livro de reclama\u00e7\u00f5es existente nos servi\u00e7os, no gabinete do utente e ainda por via postal, fax ou correio electr\u00f3nico.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para conhecer o grau de satisfa\u00e7\u00e3o e tomar medidas de melhoria, o estabelecimento disp\u00f5e de um gabinete do utente, de livros de reclama\u00e7\u00f5es e de question\u00e1rios de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">A resposta \u00e0s reclama\u00e7\u00f5es dever\u00e1 ser dada em tempo \u00fatil, informando do seguimento dado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Este direito estende-se \u00e0 possibilidade legal de o doente, atrav\u00e9s de meios jur\u00eddicos, pedir a repara\u00e7\u00e3o dos danos eventualmente sofridos.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente deve fazer valer os direitos constantes neste documento, que emana da legisla\u00e7\u00e3o em vigor.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">13.\u00a0 O doente internado tem direito \u00e0 visita dos seus familiares e amigos<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado tem direito \u00e0 visita dos seus familiares e amigos quando o desejar e os hor\u00e1rios o permitam, sempre que n\u00e3o exista contra-indica\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As institui\u00e7\u00f5es e os profissionais devem facilitar e mesmo incentivar o apoio afectivo que podem dar \u201centes significativos\u201d para o doente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">As situa\u00e7\u00f5es familiares mais complicadas onde existem conflitos entre os diferentes familiares e \/ ou amigos t\u00eam que ser ponderadas discreta e subtilmente pelos profissionais.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os doentes que n\u00e3o t\u00eam visitas e se sentem isolados devem ter um maior apoio quer do pessoal de sa\u00fade, quer do pessoal volunt\u00e1rio devidamente preparado e enquadrado.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O doente internado que se mostre incapaz de compreender ou de se fazer compreender tem direito ao acompanhamento da pessoa que habitualmente lhe presta cuidados e para a qual deve haver condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Em outras situa\u00e7\u00f5es que se justifiquem o doente internado tem tamb\u00e9m direito ao acompanhamento em perman\u00eancia:<\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>No momento do parto, pelo companheiro, ou outra pessoa designada pela parturiente;<\/li><li>No caso das crian\u00e7as internadas independentemente da sua idade e estado de sa\u00fade;<\/li><li>Doentes com defici\u00eancias, com problemas de comunica\u00e7\u00e3o ou altera\u00e7\u00f5es de natureza psicol\u00f3gica;<\/li><li>Doentes em situa\u00e7\u00e3o terminal;<\/li><li>Doentes no servi\u00e7o de urg\u00eancia.<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">Os hor\u00e1rios para as visitas dever\u00e3o ter em conta n\u00e3o s\u00f3 as necessidades dos servi\u00e7os, mas tamb\u00e9m e, sobretudo as necessidades dos doentes e a disponibilidade da popula\u00e7\u00e3o.<\/p><h1 style=\"text-align: justify\">14.\u00a0 O doente internado tem direito \u00e0 sua liberdade individual.<\/h1><p style=\"text-align: justify\">O doente internado pode, a qualquer momento, deixar o estabelecimento, salvo nas excep\u00e7\u00f5es previstas na lei, depois de ter sido informado dos eventuais riscos que corre.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Este exerc\u00edcio de liberdade individual requer, no entanto, algumas formalidades, e para al\u00e9m do doente ter sido informado dos riscos decorrentes da sua decis\u00e3o, ele ter\u00e1 de assinar um termo de responsabilidade pela sua alta.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Qualquer indiv\u00edduo com transtornos mentais, internado com o seu consentimento, tem os mesmos direitos ao exerc\u00edcio das liberdades individuais que os outros doentes, considerando-se, no entanto, as eventuais condicionantes resultantes da sua doen\u00e7a.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Os detidos hospitalizados t\u00eam os mesmos direitos que os outros doentes internados, nos limites consagrados na legisla\u00e7\u00e3o.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Direc\u00e7\u00e3o de Servi\u00e7os de Presta\u00e7\u00e3o de Cuidados de Sa\u00fade<\/p><p>Fonte:\"<a href=\"https:\/\/www.ordemenfermeiros.pt\/arquivo\/legislacao\/Documents\/LegislacaoSaude\/Carta_Direitos_Doente_Internado.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.ordemenfermeiros.pt\/arquivo\/legislacao\/Documents\/LegislacaoSaude\/Carta_Direitos_Doente_Internado.pdf<\/a>\"<\/p><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-7b45d8f normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-7b45d8f opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n      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class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t\t\t\t\t<p>Decreto-Lei n.\u00ba 18\/2023<br \/>de 3 de mar\u00e7o<br \/>Sum\u00e1rio: Regulamenta o regime de antecipa\u00e7\u00e3o da idade de pens\u00e3o de velhice por defici\u00eancia. A Lei n.\u00ba 5\/2022, de 7 de janeiro, criou o regime de antecipa\u00e7\u00e3o de pens\u00e3o de velhice por defici\u00eancia, para as pessoas com idade igual ou superior a 60 anos que tenham tido, pelo menos, 15 anos de carreira contributiva constitu\u00edda com situa\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia e grau de incapacidade igual ou superior a 80 %.<\/p>\t\t\t\t\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<\/div>\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-element elementor-element-9761cbe elementor-widget elementor-widget-htmega-toggle-addons\" data-id=\"9761cbe\" data-element_type=\"widget\" data-e-type=\"widget\" data-widget_type=\"htmega-toggle-addons.default\">\n\t\t\t\t<div class=\"elementor-widget-container\">\n\t\t\t\t\t            <div class=\"htmega-toggle-area\" >\n                \n                <div class=\"htmega-toggle-content-9761cbe\" style=\"display: none;\">\n                    <div class=\"htmega_custom_content\"><p style=\"text-align: justify\">Este regime visa a prote\u00e7\u00e3o social mais favor\u00e1vel das pessoas com defici\u00eancia que constitu\u00edram a totalidade ou uma parte significativa da sua carreira contributiva atrav\u00e9s do exerc\u00edcio de atividade profissional enquanto detinham um elevado grau de incapacidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O acesso antecipado \u00e0 pens\u00e3o de velhice visa atender \u00e0s situa\u00e7\u00f5es em que a manuten\u00e7\u00e3o da atividade profissional pode ter impacto negativo nas condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade das pessoas com defici\u00eancia, n\u00e3o compensando, de um ponto de vista subjetivo, os benef\u00edcios sociais, econ\u00f3micos e de forma\u00e7\u00e3o de direitos contributivos decorrentes da manuten\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Pelo presente decreto-lei, o Governo procede \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o do regime de antecipa\u00e7\u00e3o da idade de pens\u00e3o de velhice por defici\u00eancia, estabelecendo os respetivos termos e condi\u00e7\u00f5es de acesso.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Para concretiza\u00e7\u00e3o deste regime, torna-se ainda necess\u00e1rio prever que o presente regime beneficia da totaliza\u00e7\u00e3o de per\u00edodos contributivos, com outros regimes de prote\u00e7\u00e3o social, alte- rando o Estatuto da Aposenta\u00e7\u00e3o, aprovado pelo Decreto-Lei n.\u00ba 498\/72, de 9 de dezembro, na sua reda\u00e7\u00e3o atual, e o Decreto-Lei n.\u00ba 187\/2007, de 10 de maio, na sua reda\u00e7\u00e3o atual, que aprova o regime de prote\u00e7\u00e3o nas eventualidades invalidez e velhice dos benefici\u00e1rios do regime geral de seguran\u00e7a social.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Assim:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Nos termos do artigo 4.\u00ba da Lei n.\u00ba 5\/2022, de 7 de janeiro, e da al\u00ednea <em>a<\/em>) do n.\u00ba 1 do artigo 198.\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o, o Governo decreta o seguinte:<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 1.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Objeto<\/strong><\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 O presente decreto-lei procede \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o da Lei \u00ba 5\/2022, de 7 de janeiro, que cria o regime de antecipa\u00e7\u00e3o da idade de pens\u00e3o de velhice por defici\u00eancia.<\/li><li>\u2014 O presente decreto-lei procede ainda:<\/li><\/ul><ol style=\"text-align: justify\"><li>\u00c0 quinquag\u00e9sima altera\u00e7\u00e3o do Decreto-Lei n.\u00ba 498\/72, de 9 de dezembro, na sua reda\u00e7\u00e3o atual;<\/li><li>\u00c0 d\u00e9cima primeira altera\u00e7\u00e3o do Decreto-Lei \u00ba 187\/2007, de 10 de maio, na sua reda\u00e7\u00e3o atual.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">Artigo 2.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>\u00c2mbito pessoal<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">S\u00e3o abrangidos pelo presente decreto-lei os benefici\u00e1rios do regime geral de seguran\u00e7a social e os subscritores e ex-subscritores do regime de prote\u00e7\u00e3o social convergente.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 3.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Condi\u00e7\u00f5es de antecipa\u00e7\u00e3o da idade de acesso a pens\u00e3o de velhice por defici\u00eancia<\/strong><\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 A antecipa\u00e7\u00e3o da idade de acesso \u00e0 pens\u00e3o de velhice ou de aposenta\u00e7\u00e3o depende do cumprimento do prazo de garantia para acesso a pens\u00e3o nos respetivos regimes e da verifica\u00e7\u00e3o pelo requerente das seguintes condi\u00e7\u00f5es de elegibilidade:<\/li><\/ul><ol style=\"text-align: justify\"><li>Idade igual ou superior a 60 anos;<\/li><li>Defici\u00eancia a que esteja associado um grau de incapacidade igual ou superior a 80 %;<\/li><li>15 anos de carreira contributiva constitu\u00edda com uma situa\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia com grau de incapacidade igual ou superior a 80 %.<\/li><\/ol><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 Para efeitos da al\u00ednea <em>c<\/em>) do n\u00famero anterior, relevam apenas os \u00faltimos 15 anos de trabalho efetivo, seguidos ou interpolados, com registo de remunera\u00e7\u00f5es relevantes para a determina\u00e7\u00e3o da taxa de forma\u00e7\u00e3o da pens\u00e3o.<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">Artigo 4.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Certifica\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia<\/strong><\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 A prova da defici\u00eancia e do grau de incapacidade igual ou superior a 80 %, bem como da respetiva dura\u00e7\u00e3o, \u00e9 efetuada atrav\u00e9s de documento emitido pela entidade competente para o<\/li><li>\u2014 Mediante consentimento do respetivo titular, o documento emitido nos termos do n\u00famero anterior pode ser obtido de forma oficiosa, com recurso a mecanismos de interoperabilidade entre os servi\u00e7os e organismos da Administra\u00e7\u00e3o direta e indireta do Estado definidos na legisla\u00e7\u00e3o em vigor, quando poss\u00edvel.<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">Artigo 5.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Valor da pens\u00e3o<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00c0 pens\u00e3o atribu\u00edda ao abrigo do presente decreto-lei n\u00e3o se aplica a redu\u00e7\u00e3o por aplica\u00e7\u00e3o de penaliza\u00e7\u00f5es por antecipa\u00e7\u00e3o da idade, nem a aplica\u00e7\u00e3o do fator de sustentabilidade.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 6.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Proibi\u00e7\u00e3o de acumula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 O benefici\u00e1rio n\u00e3o pode acumular a pens\u00e3o atribu\u00edda ao abrigo do presente decreto-lei com o exerc\u00edcio, a qualquer t\u00edtulo, de atividade<\/li><li>\u2014 O exerc\u00edcio de atividade profissional em viola\u00e7\u00e3o do disposto no n\u00famero anterior determina a perda do direito \u00e0 pens\u00e3o enquanto se mantiver aquele exerc\u00edcio, sem preju\u00edzo da aplica\u00e7\u00e3o dos regimes legais de restitui\u00e7\u00e3o das presta\u00e7\u00f5es indevidamente pagas e sancionat\u00f3rio.<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">Artigo 7.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Entidades competentes<\/strong><\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 Para efeitos do disposto no artigo \u00ba s\u00e3o entidades competentes as juntas m\u00e9dicas pre- vistas no artigo 2.\u00ba do Decreto-Lei n.\u00ba 202\/96, de 23 de outubro, na sua reda\u00e7\u00e3o atual, sem preju\u00edzo do disposto no n\u00famero seguinte.<\/li><li>\u2014 Nos casos em que n\u00e3o seja poss\u00edvel ou suficiente a prova prevista no artigo 4.\u00ba, deve a entidade certificadora prevista na Portaria n.\u00ba 230\/2021, de 29 de outubro, apreciar a documen- ta\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, ou outra relevante apresentada com o requerimento, para verificar a condi\u00e7\u00e3o de defici\u00eancia, o grau de incapacidade, e a respetiva dura\u00e7\u00e3o.<\/li><li>O disposto no n\u00famero anterior \u00e9 igualmente aplic\u00e1vel ao requerimento de pens\u00e3o instru\u00eddo por residente no estrangeiro ao abrigo dos regulamentos europeus de seguran\u00e7a social ou de con- ven\u00e7\u00e3o bilateral ou multilateral de seguran\u00e7a<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">Artigo 8.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Financiamento<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">No quadro do regime geral de seguran\u00e7a social, o financiamento da pens\u00e3o atribu\u00edda ao abrigo do presente decreto-lei \u00e9 integralmente assegurado pelo Or\u00e7amento do Estado at\u00e9 que o pensionista atinja a idade normal de acesso \u00e0 pens\u00e3o de velhice em vigor, nos termos do n.\u00ba 3 do artigo 20.\u00ba do Decreto-Lei n.\u00ba 187\/2007, de 10 de maio, na sua reda\u00e7\u00e3o atual.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 9.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>In\u00edcio da pens\u00e3o<\/strong><\/p><ul style=\"text-align: justify\"><li>\u2014 As condi\u00e7\u00f5es de elegibilidade do presente regime s\u00e3o aferidas \u00e0 data de in\u00edcio da pens\u00e3o nos termos gerais do regime de seguran\u00e7a social aplic\u00e1vel, sendo a pens\u00e3o devida a partir desta data, sem preju\u00edzo do disposto no n\u00famero<\/li><li>\u2014 Aos benefici\u00e1rios que apresentem o requerimento de pens\u00e3o at\u00e9 31 de mar\u00e7o de 2023 \u00e9 devida pens\u00e3o desde 1 de janeiro de 2023, ou de data posterior, conforme indicado pelo benefici\u00e1rio no requerimento, e desde que reunidas as condi\u00e7\u00f5es de elegibilidade nessas<\/li><\/ul><p style=\"text-align: justify\">Artigo 10.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Altera\u00e7\u00e3o ao Estatuto da Aposenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">O artigo 40.\u00ba do Decreto-Lei n.\u00ba 498\/72, de 9 de dezembro, na reda\u00e7\u00e3o atual, passa a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00abArtigo 40.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>[...]<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 \u2014 [...]:<\/p><ol style=\"text-align: justify\"><li><em>a<\/em>) [...];<\/li><li><em>b<\/em>) Previstos nos artigos 37.\u00ba-A e 37.\u00ba-B e na Lei n.\u00ba 5\/2022, de 7 de janeiro, quando a ces- sa\u00e7\u00e3o definitiva de fun\u00e7\u00f5es ocorra ap\u00f3s cinco anos de subscritor e, cumulativamente, este n\u00e3o re\u00fana as condi\u00e7\u00f5es de acesso a pens\u00e3o atribu\u00edda por outro regime de prote\u00e7\u00e3o social de inscri\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria.<\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">2 \u2014 [...].<\/p><p style=\"text-align: justify\">3 \u2014 [...].\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 11.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Altera\u00e7\u00e3o ao Decreto-Lei n.\u00ba 187\/2007, de 10 de maio<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">O artigo 11.\u00ba do Decreto-Lei n.\u00ba 187\/2007, de 10 de maio, na reda\u00e7\u00e3o atual, passa a ter a seguinte reda\u00e7\u00e3o:<\/p><p style=\"text-align: justify\">\u00abArtigo 11.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>[...]<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">1 \u2014 [...]:<\/p><ol><li style=\"text-align: justify\"><em>a<\/em>) [...];<\/li><li style=\"text-align: justify\"><em>b<\/em>) [...];<\/li><li><ol style=\"text-align: justify\"><li><em>c<\/em>) [...];<\/li><li><em>d<\/em>) [...];<\/li><li>Condi\u00e7\u00f5es de acesso \u00e0 pens\u00e3o de velhice no \u00e2mbito do regime de antecipa\u00e7\u00e3o da idade de pens\u00e3o de velhice por defici\u00eancia;<\/li><li><em>[Anterior al\u00ednea e<\/em>)<em>.]<\/em><\/li><li><em>[Anterior al\u00ednea f<\/em>).<em>]<\/em><em>\u00a0<\/em><\/li><\/ol><p style=\"text-align: justify\">2 \u2014 [...].\u00bb<\/p><p style=\"text-align: justify\">Artigo 12.\u00ba<\/p><p style=\"text-align: justify\"><strong>Entrada em vigor e produ\u00e7\u00e3o de efeitos<\/strong><\/p><p style=\"text-align: justify\">O presente decreto-lei entra em vigor no dia seguinte ao da sua publica\u00e7\u00e3o e produz efeitos desde 1 de janeiro de 2023.<\/p><p style=\"text-align: justify\">Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 2 de fevereiro de 2023. \u2014 <em>Ant\u00f3nio Lu\u00eds San- tos da Costa \u2014 Fernando Medina Maciel Almeida Correia \u2014 Ana Manuel Jer\u00f3nimo Lopes Correia Mendes Godinho.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">Promulgado em 24 de fevereiro de 2023. Publique-se.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Presidente da Rep\u00fablica, Marcelo Rebelo de Sousa. Referendado em 27 de fevereiro de 2023.<\/p><p style=\"text-align: justify\">O Primeiro-Ministro, <em>Ant\u00f3nio Lu\u00eds Santos da Costa.<\/em><\/p><p style=\"text-align: justify\">116222407<\/p><p style=\"text-align: justify\">Fonte:\"<a href=\"https:\/\/files.dre.pt\/1s\/2023\/03\/04500\/0004000043.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/files.dre.pt\/1s\/2023\/03\/04500\/0004000043.pdf<\/a>\"<\/p><\/li><\/ol><\/div>                <\/div>\n\n                <div class=\"htmega-toggle-button\">\n                    <a href=\"#\" class=\"togglebutton-9761cbe normal_btn\">Ler Mais<\/a><a href=\"#\" class=\"togglebutton-9761cbe opened_btn\">Ler Menos<\/a>                <\/div>\n\n            <\/div>\n\n            <script>\n                jQuery(document).ready(function($) {\n                    'use strict';\n                    $(\".togglebutton-9761cbe\").on('click', function(){\n                        $(\".htmega-toggle-content-9761cbe\").slideToggle('slow');\n     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Ac\u00f3rd\u00e3o 1549\/19.79SNT.L1-3 De 23\/02\/2022 Maus tratos Omiss\u00e3o Impr\u00f3pria Pessoa idosa Constituem formas de maus tratos, relevantes para a tipifica\u00e7\u00e3o contida no art. 152\u00ba A do C\u00f3digo Penal: qualquer forma de agress\u00e3o f\u00edsica (espancamentos, golpes, queimaduras, fracturas, administra\u00e7\u00e3o abusiva de f\u00e1rmacos ou t\u00f3xicos, rela\u00e7\u00f5es sexuais for\u00e7adas), que se reconduzem \u00e0 modalidade maus tratos f\u00edsicos; os maus-tratos psicol\u00f3gicos ou emocionais, que se materializam em condutas que causam dano psicol\u00f3gico, como manipula\u00e7\u00e3o, amea\u00e7as, humilha\u00e7\u00f5es, chantagem afectiva, desprezo ou priva\u00e7\u00e3o do poder de decis\u00e3o, nega\u00e7\u00e3o do afecto, isolamento e marginaliza\u00e7\u00e3o;a neglig\u00eancia traduzida em n\u00e3o satisfazer as necessidades b\u00e1sicas (nega\u00e7\u00e3o de alimentos, cuidados higi\u00e9nicos, habita\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a e cuidados m\u00e9dicos) que se reconduz a tratamento cruel, assim como condutas de abuso econ\u00f3mico, como sejam, impedir o uso e controlo do pr\u00f3prio dinheiro, explora\u00e7\u00e3o financeira e chantagem econ\u00f3mica, ou permitir a exposi\u00e7\u00e3o incontrolada a formas de autoneglig\u00eancia resultantes da incapacidade de um indiv\u00edduo desempenhar tarefas de cuidado consigo pr\u00f3prio indispens\u00e1veis \u00e0 sua sobreviv\u00eancia e \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades essenciais do quotidiano.Este crime pode ser cometido por omiss\u00e3o impr\u00f3pria, sempre que o evento antijur\u00eddico pertinente \u00e0 consuma\u00e7\u00e3o do crime, segundo a sua descri\u00e7\u00e3o t\u00edpica, resultar do incumprimento do dever jur\u00eddico de evitar esse resultado e este depende da exist\u00eancia de um espec\u00edfico dever emergente da lei, de contrato, ou de uma espec\u00edfica rela\u00e7\u00e3o de facto que o obrigue a agir, para evitar o resultado, pois s\u00f3 assim haver\u00e1 equival\u00eancia entre o desvalor da Ac\u00e3o e o desvalor da omiss\u00e3o que constitui o fundamento da punibilidade do omitente.\u00c9 o que acontece, quando idosos s\u00e3o acolhidos em institui\u00e7\u00f5es ou lares de acolhimento e de assist\u00eancia, atrav\u00e9s de um contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os remunerado, pois esta rela\u00e7\u00e3o negocial transfere para o propriet\u00e1rio e para a dire\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e os cuidadores ao servi\u00e7o da institui\u00e7\u00e3o ou do lar, o dever de garantes da sa\u00fade f\u00edsica, mental, ps\u00edquica, do bem-estar emocional, da satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades mais b\u00e1sicas inerentes \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, como a alimenta\u00e7\u00e3o, a higiene, a sa\u00fade, a toma de medica\u00e7\u00e3o adequada, a assist\u00eancia m\u00e9dica e hospitalar que se mostrarem necess\u00e1rias, al\u00e9m de outros deveres de cuidado e assist\u00eancia, com aqueles que, pela sua idade avan\u00e7ada, s\u00e3o mais vulner\u00e1veis e est\u00e3o dependentes de terceiros.Comete o crime de maus tratos a idosos, a arguida que sendo propriet\u00e1ria e em simult\u00e2neo, administradora de um lar e prestadora de cuidados aos idosos que acolheu, por inac\u00e7\u00e3o e desinteresse, deixa de providenciar \u00e0 v\u00edtima a alimenta\u00e7\u00e3o e a assist\u00eancia m\u00e9dica e de enfermagem adequadas ao estado cl\u00ednico da mesma, a ponto de a deixar em estado de desnutri\u00e7\u00e3o e desidrata\u00e7\u00e3o, provocando-lhe, ainda, o agravamento de uma \u00falcera de press\u00e3o, na zona sacro, de categoria IV, com tecido necrosado e desvitalizado, com cheiro f\u00e9tido e com um penso repassado e exsudado purulento em abundante quantidade. Acordam os Ju\u00edzes, na 3\u00aa Sec\u00e7\u00e3o do Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o de Lisboa: I \u2013 RELAT\u00d3RIOPor senten\u00e7a proferida em 30 de Setembro de 2021, no processo comum singular n\u00ba 1549\/19.7T9SNT do Ju\u00edzo Local Criminal de Sintra, Juiz 1 do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Oeste, a arguida SMGA_____ foi absolvida do crime de maus tratos, p. e p. pelo artigo 152\u00b0-A n\u00b0 1 do C\u00f3digo Penal.O M\u00ba. P\u00ba. interp\u00f4s recurso da senten\u00e7a, tendo formulado, para o efeito, as seguintes conclus\u00f5es:1. O Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o pode conformar-se com a decis\u00e3o do Tribunal a quo, pois face aos elementos de prova existentes nos autos, a decis\u00e3o proferida deveria ter sido no sentido de condena\u00e7\u00e3o da arguida pela pr\u00e1tica do referido il\u00edcito, e n\u00e3o da sua absolvi\u00e7\u00e3o.2. O Minist\u00e9rio Publico entende ter sido incorretamente considerados provados os pontos 2) e 21) dos factos provados, pelos referidos factos n\u00e3o se extra\u00edrem da prova produzida nos autos.\u00a03. O Minist\u00e9rio Publico entende ter sido incorretamente julgada e dada como n\u00e3o provada a factualidade constante das al\u00edneas a), c), d), e), f), h), i), j) e l) dos factos n\u00e3o provados, j\u00e1 que os mesmos resultaram de toda a prova produzida nos autos.4. No dia 24 de agosto de 2018 a ofendida apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos, estava apir\u00e9tica e algaliada com ch14. N a verdade, da an\u00e1lise dos documentos juntos aos autos n\u00e3o subsistem d\u00favidas de que a ofendida MAR______ , deu entrada no Balc\u00e3o de Urg\u00eancia Geral a 24-08-2018, pelas 19:15h e que, poucas horas depois, \u00e0s 01:44h, apenas reagia a est\u00edmulos dolorosos, estava apir\u00e9tica e foi algaliada com ch14, \u00e0s 02:08h, conforme observa\u00e7\u00e3o inserida no registo de urg\u00eancia.5. Resultou demonstrado, em audi\u00eancia de julgamento, mormente dos depoimentos da filha e da nora da ofendida, e Mar\u2026, respetivamente, que a ofendida apresentava n\u00f3doas negras na zona inferior das pernas, designadamente nos calcanhares.6. Resulta da diversa documenta\u00e7\u00e3o clinica relativa \u00e0s idas da ofendida ao hospital, que a mesma se encontrava desnutrida, apresentando a \u201c(&#8230;) pele e mucosas pouco coradas e desidratadas&#8221; bem como um \u201cdeficiente estado geral e nutricional&#8221;. Tal considera\u00e7\u00e3o resulta n\u00e3o s\u00f3 dos documentos juntos aos autos, como tamb\u00e9m dos v\u00e1rios depoimentos produzidos em audi\u00eancia, inclusive da arguida SMGA_____ , respons\u00e1vel pelo lar e pela alimenta\u00e7\u00e3o dos utentes, a quem cabia zelar pelos seus cuidados b\u00e1sicos, dada a sua idade avan\u00e7ada e o seu estado de sa\u00fade muito debilitado.7. Quando a arguida aceitou a admiss\u00e3o da ofendida naquele lar, tinha conhecimento do estado cl\u00ednico da ofendida e sabia que esta necessitava da administra\u00e7\u00e3o de diversos medicamentos, da presta\u00e7\u00e3o de cuidados de enfermagem e de higiene, bem como alimenta\u00e7\u00e3o da ofendida. Tal considera\u00e7\u00e3o resulta da prova realizada em audi\u00eancia de julgamento, mormente do depoimento de &#8212;___-. Na realidade, contando a ofendida MAR______ , com cerca de 80 anos de idade \u00e0 data da sua integra\u00e7\u00e3o no lar, \u00e9 evidente que a arguida n\u00e3o podia deixar de saber que tinha na sua presen\u00e7a pessoa idosa e, nessa medida, extremamente fr\u00e1gil.8. \u00c9 contraintuitivo afirmar que sendo a arguida respons\u00e1vel pelo lar (facto provado 5), que tinha como fun\u00e7\u00f5es, entre<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"elementor_canvas","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-3670","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/3670","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3670"}],"version-history":[{"count":36,"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/3670\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8061,"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/pages\/3670\/revisions\/8061"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/omeucaminho.pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3670"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}